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Acta Botanica Brasilica

versão impressa ISSN 0102-3306

Acta Bot. Bras. vol.24 no.1 São Paulo jan./mar. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-33062010000100022 

ARTIGOS

 

Nova espécie e novo nome em Ocotea Aubl. (Lauraceae) para o Brasil

 

A new species and a new name in Ocotea Aubl. (Lauraceae) from Brazil

 

 

Alexandre Quinet

Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

 

 


RESUMO

Uma nova espécie, Ocotea revolutifolia A. Quinet, e um novo nome, O. mandioccana A. Quinet, baseada em Persea riedelii Meisn., são propostas para o Brasil. São apresentadas descrições, ilustração, comentários sobre relações taxonômicas, status de conservação e distribuição geográfica das espécies.

Palavras-chave: Ocotea, Lauraceae, nova espécie, novo nome, Brasil


ABSTRACT

A new species, Ocotea revolutifolia A. Quinet, and a new name, O. mandioccana A. Quinet, based on Persea riedelii Meisn., are proposed for Brazil. Descriptions, illustration, conservation status and comments on taxonomic relationships as well as geographic distribution are presented.

Key words: Ocotea, Lauraceae, new species, new name, Brazil


 

 

Introdução

A circunscrição dos gêneros e táxons infra-genéricos em Lauraceae tem sido interpretada diferentemente por diversos autores como Nees (1836), Meissner (1864), Bentham & Hooker (1880), Pax (1894), Mez (1889) e Hutchinson (1964). O grau de importância atribuído à utilização de caracteres florais por estes autores, como estrutura das inflorescências, sexualidade, número e disposição de estames e locelos e desenvolvimento do hipanto no fruto se mostrou muitas vezes inadequado, devido à superposição dos mesmos em espécimes intermediários. Deste modo, espécimens vegetativamente muito semelhantes podem pertencer a espécies ou até mesmo a gêneros diferentes, pois a delimitação dos mesmos está baseada na associação de caracteres morfológicos das flores e frutos (Van der Werff 1991; Rohwer 1993).

Ocotea é um gênero constituído aproximadamente por 350 espécies distribuídas na América tropical e subtropical, desde o México até a Argentina, ocorrendo também uma espécie nas Ilhas Canárias, sete na África e cerca de 50 em Madagascar (Rohwer 2000).

O gênero caracteriza-se por apresentar flores monóclinas ou díclinas, com 6 tépalas, flores estaminadas, com androceu com 9 estames férteis, anteras quadrilocelares, locelos dispostos em pares superpostos; estames das séries I e II com 3 estames cada, anteras introrsas; estames da série III com 3 estames, par de glândulas na base dos filetes, reduzidas, anteras extrorsas; série IV ausente ou quando presente com 3 estaminódios, em geral reduzidos, filiformes, ou raramente estaminódios bem desenvolvidos, cordados ou sagitados; pistilóide presente ou ausente. Flores pistiladas com estaminódios reduzidos, de morfologia semelhante aos estames das flores estaminadas. Fruto bacáceo, sobre ou parcialmente envolvido pela cúpula, em geral com margem simples e tépalas decíduas.

Kostermans, em 1957, publica um sistema novo para Lauraceae, pela primeira vez apresentando uma chave de identificação para todos os gêneros. O autor separa as espécies de Cinnamomum por apresentarem estaminódios da IV série desenvolvidos, estipitados ou sagitados, enquanto, Ocotea apresenta estaminódios ausentes ou estipitiformes. Porém, a delimitação entre espécies do gênero Ocotea e Cinnamomum nem sempre é tão clara, pois algumas espécies apresentam características intermediárias entre os dois gêneros. Segundo Rohwer (1991), algumas espécies podem se aproximar do conceito central do seu gênero, enquanto outras se tornam próximas para um gênero, porém com afinidades óbvias entre outros gêneros.

No tratamento taxonômico das espécies do gênero Ocotea para a região sudeste do Brasil, foram detectadas duas novidades taxonômicas em Ocotea, que são descritas e discutidas a seguir.

 

Resultados e discussão

Ocotea revolutifolia A. Quinet, sp. nov.

Tipo: BRASIL. Espírito Santo: município de Santa Teresa, São Lourenço, Country Club, 22/II/1999, fl., L. Kollmann et al. 2000 (holótipo RB; isótipos MBML, UEC).

Fig. 1

Arbor monoica. Rami angulosi, lamina folii coriacea, obovata, margine revoluta, apice emarginato. Flores hypanthio aureo-tomentoso. Fructus ellipsoideus, cupula conica, lobi perianthii persistentes vel decidui.

Árvores ca. 17 m alt., monóicas, ramos angulosos, glabros; gemas axilares e apicais glabras. Folhas alternas em todo o ramo, pecíolos glabros, plano-achatados, 0,5-0,8 cm compr.; lâmina coriácea, obovada, 5-17 x 2,4-6,5 cm, base cuneada, ápice agudo a emarginado, margem revoluta; face adaxial e abaxial glabras, rufescenti-glauca; nervura principal impressa na face adaxial, proeminente na face abaxial; padrão de venação camptódromo-broquidódromo, nervuras secundárias conspícuas em ambas as faces, delgadas, 5-9 pares sub-opostos a alternos, ângulo de divergência 45º-50º, denso reticulado, domácias ausentes. Inflorescência tirsóide, 6-12 cm compr., glabra. Flores monoclinas, esverdeadas, hipanto áureo-tomentoso, tépalas lanceoladas, 1,5-2 mm compr., ápice agudo, face externa glabrescente, face interna áureo-tomentosa, papilosa; estames das séries I e II com filetes 0,5-0,7 mm compr., pilosos na base, anteras quadrilocelares, papilosas, orbiculares a sub-quadrangulares, 0,6-0,8 mm, introrsas; série III com filete 0,7-0,1 mm compr., pilosos na base, par de glândula globosa na base, anteras retangulares, 0,8-11 mm compr., lateralmente-extrorsas; série IV estaminodial, estaminódios subsagitados no ápice, pedicelados; ovário elipsóide, glabro, estilete delgado, estigma discóide. Fruto elipsóide, 0,8-1,6 cm compr., 0,6-1,2 cm diâm., ápice arredondado, sobre cúpula cônica 0,8-1,2 cm compr., tépalas tardiamente persistentes ou decíduas.

Parátipos: BRASIL. Espírito Santo: Santa Teresa, Country Club, 6/V/1999, fr., W. P. Lopes et al. 662 (RB, MBML, UEC); Santa Maria do Jetibá, rio Nove (terreno de L. Kollmann), 24/II/2000, fl., V. Demuner et al. 792 (RB, MBML, UEC); Santa Teresa, Reserva Biológica Augusto Ruschi, estrada Nova Lombardia, 9/I/2002, fl., L. Kollmann et al. 5232 (RB, MBML, UEC); Ibidem, estrada para Goipaboaçu, segunda trilha, depois da nova sede, 9/V/2002, fr., R. R. Vervlooet et al. 247 (RB, MBML, UEC); trilha da cachoeira, saindo da nova sede, 29/V/2006, fr., R. R. Vervloet et al. 320 (RB, MBML, UEC); Reserva Biológica Augusto Ruschi, parte final da estrada para Goiapaboaçu, 15/VII/2003, fr., J. Rossini et al. 384 (RB, MBML, UEC); Ibidem, 8/IV/2003, fr., R. R. Vervloet et al. 2165 (RB, MBML, UEC); Santa Teresa, Parque Natural Municipal de São Lourenço, 26/VII/2003, fl., T. A. Cruz et al. 37 (RB, MBML).

Distribuição geográfica e ecologia - Ocorre no estado do Espírito Santo em formações de Floresta Ombrófila, nos municípios de Santa Teresa, Nova Lombardia e Santa Maria do Jetibá.

Etimologia - O epíteto específico refere-se às folhas com margem revoluta acentuada.

Fenologia - Flores em janeiro e fevereiro; frutos de abril a junho.

Status de Conservação - Até o presente, endêmica do Estado do Espírito Santo, tendo sido coletada em áreas de Floresta Ombrófila. Espécie categorizada como em perigo de extinção (EN B2ab(iv)), de acordo com os critérios da IUCN (2001).

Comentários:

Ocotea revolutifolia pode ser distinta de todas as demais espécies do gênero Ocotea por apresentar folhas com ápice agudo a emarginado e margem fortemente revoluta desde o ápice.

A presença de estaminódios da IV série bem desenvolvidos e tépalas tardiamente decíduas indicam uma proximidade de O. revolutifolia ao gênero Cinnamomum.

Loréa-Hernándes (1998), na revisão de Cinnamomum altera a circunscrição do gênero, retirando todas as espécies com nervuras pinadas, estaminódios filiformes e cúpula com tépalas não persistentes e as transfere em sua maior parte para os gêneros Ocotea e Persea.

Levando-se em conta o estabelecido por Loréa-Hernándes (1998), onde o autor altera a circunscrição do gênero Cinnamomum, e com base nas características do padrão de venação da lâmina foliar camptódromo-broquidódromo, flores com tépalas internamente papilosas, com pilosidade pubescente e anteras quadrilocelares, papilosas, com locelos superpostos e estaminódios da IV série não verdadeiramente capitados, é suportada a inclusão desta espécie em Ocotea.

Ocotea mandioccana A. Quinet, nom. nov.

Persea riedelii Meisn. in DC. Prodr. 15 (1): 54. 1864.

Phoebe riedelii (Meisn.) Mez, Jahrb. Königl. Bot. Gart. Berlin 5: 197. 1889.

Cinnamomum riedelianum Kosterm., Reinwardia 6: 23. 1961.

Tipo: BRASIL. Rio de Janeiro: Petrópolis, Mandiocca, s.d. (fl.), Riedel s.n. (holótipo LE; isótipos K?, G n.v.).

Árvore 6-14 m alt., monóica, ramos subangulosos, áureo-tomentosos, gemas apicais, delgadas, áureo-tomentosas. Folhas alternas em todo o ramo, com pecíolo 0,7-1,6 cm compr., canaliculado, áureo-tomentoso; lâmina cartácea, lanceolada, 6,2-12,8x2,1-4,2 cm, base aguda, ápice agudo ou acuminado, margem plana; face adaxial glabra, sem pontuações glandulares enegrecidas, face abaxial glabra, não enrugada; padrão de venação camptódromo-broquidódromo, nervuras secundárias 5-8 pares subopostos ou alternos, ângulo de divergência 45°-50°, reticulado denso; domácias ausentes. Inflorescência tirsóide, axilar, 4-10,5 cm compr., áureo-tomentosa. Flores monóclinas, tépalas patentes, subglobosas, côncavas, ápice obtuso, áureo-tomentosas, subiguais, face ventral e dorsal esparso áureo-pubérulas; hipanto glabro. Estames das séries I e II com filetes 0,02-0,03 cm compr., mais delgados que as anteras, pilosos na base, anteras quadrangulares, 0,05-0,08 cm compr., margem arredondada, ápice truncado ou arredondado, papilosos; estames da série III, 0,025-0,03 cm compr., filetes mais delgados que as anteras, pilosos, par de glândulas globosas na base, anteras retangulares, 0,1-0,11 cm compr., ápice truncado, locelos superiores lateralmente extrorsos, inferiores lateralmente extrorsos; série IV estaminodial romboidal. Ovário elipsóide, glabro, estilete delgado, estigma discóide. Fruto bacáceo, elipsóide, 1,8-3,0 cm compr., 1,2-1,5cm diâm., ápice obtuso, sob cúpula cônica, 0,8-1,2 cm compr.; pedicelo espessado.

Nome popular: canela-garuva.

Distribuição geográfica e ecologia: Ocorre no Brasil nos estados do Espírito Santo, Rio de Janeiro, Paraná e Santa Catarina na Floresta Ombrófila montana densa e baixo-montana.

Etimologia - O epíteto específico refere-se à localidade original de coleta do material-tipo.

Fenologia: Flores de fevereiro a julho; novembro e dezembro; frutos em março, julho e novembro.

Status de Conservação: Pela ampla distribuição, dentro dos critérios e categorias da lista vermelha da IUCN, encontra-se em baixo risco (LR).

Comentários:

Persea riedelii foi descrita por Meissner (1864) com base no material de Riedel s.n., coletado no estado do Rio de Janeiro, município de Petrópolis.

Mez (1889) transfere a espécie em questão para o gênero Phoebe.

Kostermans (1957) restringe as espécies de Phoebe à distribuição na Ásia, incluindo as espécies americanas com pedicelo frutífero cilíndrico ou não persistente e perigônio estreito em Persea e as com pedicelo frutífero espessado e cúpula em forma de disco subordinadas a Cinnamomum.

Vattimo (1959-1961) transfere as espécies brasileiras conhecidas do gênero Phoebe para Cinnamomum, porém não fornece nenhum tratamento a Cinnamomum riedelianum.

Kostermans (1961) transfere Phoebe riedelii para o gênero Cinnamomum, porém o binômio C. riedelii Lukman já havia sido utilizado, e o autor propõe o nome novo Cinnamomum riedelianum Kostermans.

Rohwer (1986) inclui Cinnamomum riedelianum na chave de espécies de Ocotea e comenta que a mesma deverá ser transferida para Ocotea.

Loréa-Hernándes (1998), na revisão das espécies americanas de Cinnamomum, engloba a maior parte das espécies anteriormente incluídas no gênero Phoebe. O autor altera a circunscrição de Cinnamomum, quando retira as espécies com venação pinada, estaminódios filiformes e cúpula com tépalas não persistentes e as transfere em sua maior parte para os gêneros Ocotea e Persea. O autor exclui a espécie em questão do gênero Cinnamomum, por não apresentar folhas acródromas e fruto com cálice persistente, indicando que deve ser posicionada no gênero Ocotea, porém não efetuando a transferência.

É aceito no presente trabalho, a transferência de Cinnamomum riedelianum para Ocotea como proposto por Rohwer (1986) e Loréa-Hernández (1998), porém, foi necessário estabelecer um novo nome, visto que, o binômio Ocotea riedelii já havia sido utilizado.

 

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Recebido em 12/05/2009.
Aceito em 30/09/2009

 

 

Autor para correspondência: aquinet@jbrj.gov.br

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