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Acta Botanica Brasilica

Print version ISSN 0102-3306

Acta Bot. Bras. vol.24 no.2 São Paulo Apr./June 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-33062010000200026 

ARTIGOS

 

Plantas medicinais utilizadas na comunidade urbana de Muribeca, Nordeste do Brasil

 

Medicinal plants used in the urban community of Muribeca, Northeast Brazil

 

 

Gisele Lopes de Oliveira; Antonio Fernando Morais de Oliveira; Laise de Holanda Cavalcanti AndradeI,1

Universidade Federal de Pernambuco Departamento de Botânica, Recife, PE, Brasil

 

 


RESUMO

As modernas condições de vida das comunidades urbanas comprometem o uso e transmissão do conhecimento tradicional sobre plantas medicinais. Neste trabalho foi verificada a alteração provocada por treinamento sobre plantas medicinais de um grupo de seis moradoras da comunidade de Muribeca (Jaboatão do Guararapes, PE), comparando-as com vinte moradores com conhecimento adquirido tradicionalmente. A partir de 26 entrevistas semi-estruturadas foram calculados o Fator de Consenso dos Informantes (FCI) e a Importância Relativa (IR) das plantas citadas pelos dois grupos. As moradoras com treinamento no uso e manipulação citaram 70 espécies, das quais Petiveria alliacea L. e Ocimum selloi Benth. apresentaram os maiores valores de IR (2,0 e 1,6); os sistemas corporais mais indicados e respectivos FCI foram: doenças infecciosas (1,0), doenças das glândulas endócrinas, da nutrição e metabolismo (0,9) e do sistema osteomuscular e tecido conjuntivo (0,89). Os moradores sem treinamento citaram 55 espécies, com maiores valores de IR para Cymbopogon citratus (DC) Stapf (2,0), Lippia alba (Mill.) N.E. Br. (2,0) e Mentha x villosa Huds. (1,8); os sistemas corporais mais indicados e respectivos FCI foram: doenças parasitárias (1,0), transtornos dos sistemas nervoso (0,79) e gastrintestinal (0,72). As espécies citadas são semelhantes, mas o treinamento influenciou a importância relativa e indicações de usos das plantas.

Palavras-chave: etnobotânica, conhecimento tradicional, fitoterapia


ABSTRACT

Modern ways of life in urban communities have altered the use and popular transmission of knowledge about medicinal plants. This study evaluated the changes induced by training in medicinal plants in a group of female residents of the urban community of Muribeca (Jaboatão do Guararapes, Pernambuco), comparing them with other community members who have traditionally acquired knowledge. Semi-structured interviews were employed. Informant Consensus Factor (FIC) and Relative Importance (RI) of each species cited by the two groups were calculated. Informants trained in use and manipulation cited 70 species, of which Petiveria alliacea L. (2.0) and Ocimum selloi Benth. (1.6) showed higher RI; therapeutic indications with the greatest consensus among informants were: infectious diseases (1.0), diseases of the endocrine glands, nutrition and metabolism (0.9), and of skeletal, muscle, and connective tissue (0.89). Untrained informants cited 55 species, with higher values of RI for Cymbopogon citratus (DC) Stapf (2.0), Lippia alba (Mill.) N.E. Br. (2.0), and Mentha x villosa Huds. (1.8); parasitic diseases (1.0), disorders of the nervous system (0.79), and gastrointestinal system (0.72) were therapeutic indications with the greatest FIC. Plants cited are similar, but training influenced species relative importance and therapeutic use indications.

Key words: ethnobotany, traditional knowledge, phytotherapy


 

 

Introdução

O conhecimento nativo sobre a utilização de plantas medicinais tem sido bem documentado em várias partes do mundo (Begossi et al. 2002). Esta prática tradicional ainda é comum em vários povos, sendo mais evidente nos países em desenvolvimento, onde a maior parte da população pobre não tem acesso aos medicamentos industrializados (Ayyanar & Ignacimuthu 2005).

O uso de recursos naturais por populações urbanas de origem rural é orientado por um conjunto de conhecimentos resultantes da relação com o ambiente natural na qual estavam inseridas bem como pelas relações sociais em que estão imersas no meio urbano. Muitos produtos vegetais e suas formas de usos que atualmente são indispensáveis à sociedade urbana têm sua origem nestas populações de origem rural, que aprenderam a domesticar e a manipular as propriedades curativas das plantas (Castelluci et al. 2000). Entretanto, as modernas condições de vida dessas populações comprometem a transmissão desse conhecimento para as futuras gerações, como observado em várias comunidades brasileiras e outros países da América do Sul (Ayyanar & Ignacimuthu 2005; Fonseca-Kruel & Peixoto 2004; Estomba et al. 2005).

As plantas medicinais e seus usos terapêuticos são alvos de pesquisas etnobotânicas, que mostram também as circunstâncias sócio-culturais da população e preocupam-se em resgatar e valorizar o conhecimento tradicional e a diversidade cultural dessas sociedades estudando a relação entre as plantas e as pessoas de uma maneira multidisciplinar (Benz et al. 2000; Heinrich 2000; Ladio & Lozada 2004). Por estes motivos, pesquisas nesta área foram uma das que mais se desenvolveram nos últimos anos para a descoberta de produtos naturais bioativos (Maciel et al. 2002).

Neste trabalho, realizou-se um estudo a respeito do conhecimento e uso de plantas medicinais na comunidade urbana de Muribeca, entre dois grupos considerados conhecedores de plantas medicinais: moradores com treinamento fornecido por organizações governamentais sobre uso e manipulação de plantas medicinais e moradores sem treinamento formal, com conhecimento sobre plantas medicinais transmitido pela tradição oral. A pesquisa foi direcionada para responder à seguinte questão: a aquisição de um conhecimento formal, somado ao já adquirido tradicionalmente sobre uso e manipulação de plantas medicinais, modificaria a importância das plantas popularmente utilizadas por uma população e/ou suas indicações terapêuticas? A partir deste levantamento etnobotânico as espécies que apresentaram uma maior Importância Relativa foram discutidas objetivando-se detectar alguma relação entre a indicação popular e a validação científica.

 

Materiais e métodos

O estudo foi realizado em Muribeca, bairro de periferia do Município de Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco, situado na porção centro-leste da Região Metropolitana do Recife (08°/ 06'/ 46" S e 35°/ 00'/ 54" W).

Com uma população de 581.556 habitantes, 98% concentrada na área urbana, este município ainda apresenta características interioranas e habitações populares e antigas misturadas com modernos prédios residenciais e comerciais (IBGE 2001).

Uma característica particular deste bairro é a existência do Centro de Saúde Alternativa de Muribeca (CESAM), onde atuam seis mulheres da comunidade que utilizam, manipulam e comercializam plantas com propriedades terapêuticas desde o início de 1997. As plantas são cultivadas no quintal do CESAM (ca. 300 m2) e o prédio abriga um pequeno laboratório de manipulação e processamento artesanal das espécies medicinais. As integrantes do CESAM comercializam as plantas e fitoterápicos no local de produção, em suas casas e em feiras de artesanato.

Estas mulheres distribuem-se em uma faixa etária entre 33 e 62 anos e adquiriram o conhecimento básico sobre o uso das plantas medicinais com os pais e parentes próximos; a bagagem cultural do grupo foi aprimorada após a criação do CESAM, através de cursos e treinamentos sobre a manipulação e processamento das plantas, especialmente oferecidos pelo Centro Nordestino de Medicina Popular (CNMP), uma ONG sediada em Olinda-PE. Nesta pesquisa, este grupo de mulheres foi tratado como ¨moradores com treinamento¨.

O grupo considerado moradores sem treinamento é formado por 20 pessoas, residentes em Muribeca a mais de 10 anos, também conhecedores de plantas medicinais, que habitam residências simples e antigas situadas próximas ao CESAM. Este grupo encontra-se na faixa etária de 39-67 anos, e adquiriu o conhecimento sobre plantas medicinais através da transmissão oral, com os pais, parentes próximos e vizinhos.

Os trabalhos de campo foram desenvolvidos entre junho de 2005 e março de 2006, com cerca de seis horas cada semana. As informações sobre as plantas medicinais e suas indicações terapêuticas, foram adquiridas através de 26 entrevistas semi-estruturadas individuais e diálogos informais efetuados durante todo o período de estudo, com a permissão prévia de cada participante. As entrevistas foram realizadas no segundo grupo através da técnica Bola de Neve, a partir de indicações do grupo com treinamento, em que o processo de seleção não é aleatório e os entrevistados são indicados sucessivamente pelos anteriores por serem considerados como os que mais conheceriam plantas medicinais na comunidade, seguindo-se Bernard (1996).

Estimou-se a Importância Relativa (IR) das plantas citadas por cada grupo de entrevistados e as espécies que obtiveram os valores mais altos (máximo = 2) correspondem às indicadas para um maior número de sistemas corporais e consideradas as mais versáteis (Bennett & Prance 2000). A IR é calculada utilizando a fórmula: IR = NSC + NP, onde IR é a importância relativa, NSC o número de sistemas corporais obtido pela razão entre o número de sistemas corporais tratados por uma determinada espécie (NSCE) e o número total de sistemas corporais tratados pela espécie mais versátil (NSCEV). O NP é a razão entre o número de propriedades atribuídas a uma determinada espécie (NPE) e o número total de propriedades atribuídas à espécie mais versátil (NPEV). Também foi calculado o coeficiente de similaridade de uso das espécies entre os dois grupos entrevistados, considerando-se o número de espécies citadas em comum e o número total encontrado para cada grupo (Valentin, 1995).

O Fator de Consenso dos Informantes (FCI) foi calculado visando identificar os sistemas corporais que apresentaram maior importância relativa local, reunindo as indicações populares em grandes categorias (Trotter & Logan 1986). O valor máximo do FCI é 1, onde ocorre um total consenso entre os informantes sobre as plantas medicinais para uma categoria particular. O FCI é dado pela fórmula FCI = NAR-NA/NAR-1, onde FCI = fator de consenso dos informantes, NAR = soma dos usos registrados por cada informante para uma categoria e NA = número de espécies indicadas para cada categoria.

As indicações terapêuticas das plantas medicinais foram enquadradas nos seguintes sistemas corporais reconhecidos pela OMS/CID - Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10, 2008): doenças infecciosas (DI-A00-B99); doenças parasitárias (DP-A00-B99); doenças das glândulas endócrinas, da nutrição e do metabolismo (DGNM-E00-E90); doenças do sangue e dos órgãos hematopoiéticos (DS-D50-D89); doenças do sistema osteomuscular e tecido conjuntivo (DSO- M00-M99); doenças da pele e tecido celular subcutâneo (DPTS-L00-L99); transtornos do sistema visual (TSV-H00-H59); transtornos do sistema nervoso (TSN-G00-G99); transtornos do sistema circulatório (TSC-I00-I99); transtornos do sistema respiratório (TSR-J00-J99); transtornos do sistema gastrintestinal (TSGI-K00-K93); transtornos do sistema gênito-urinário (TSGU-N00-N99); afecções não definidas ou dores não definidas (AND-R50-R69).

Exemplares em fase reprodutiva das plantas citadas nas entrevistas foram coletados, identificados (APG II 2003; Brummitt & Powell 1992) e depositados no Herbário UFP (Thiers 2009).

 

Resultados e discussão

As atividades desenvolvidas no CESAM propiciam uma renda que auxilia no sustento da família das seis mulheres que compõem o primeiro grupo entrevistado. Destas, três concluíram o ensino médio e as outras três concluíram o ensino fundamental. O grupo sem treinamento é constituído por três homens, dois deles já aposentados, e 17 mulheres, todas elas donas de casa que trabalham como costureiras ou na produção de artesanato, entre outros, para complementar a orçamento familiar; destes, 13 possuem mais de 50 anos de idade. Deste grupo, 45% concluíram o ensino médio, 45% concluíram o ensino fundamental e 10% sabem apenas assinar os nomes. Excluindo o número de componentes, portanto, os dois grupos não apresentam diferenças substanciais quanto a gênero, faixa etária e grau de instrução formal.

A maioria dos entrevistados dos dois grupos, com treinamento (83%) e sem treinamento (65%), nasceu e foi criado no interior da Região Nordeste, migrando para a Região Metropolitana do Recife já adultos e quase todos (73%) informaram ter adquirido o conhecimento sobre plantas medicinais com os pais ou parentes próximos. Esta forma de transmissão sobre o uso tradicional dos recursos vegetais predomina em diferentes culturas (Brito & Brito 1999; Lev & Amar 2000), mas este cenário vem mudando e muitas informações e práticas sobre os usos das plantas, principalmente das medicinais, estão se perdendo devido à influência da cultura moderna e à contínua devastação de ambientes naturais, que provocam a migração das famílias para zonas urbanas e a gradativa perda das heranças culturais (Nodari & Guerra 2000).

Em Muribeca, como em outros locais do país, as mulheres demonstram forte interesse sobre as plantas medicinais, talvez por ficarem mais tempo em casa e se responsabilizarem mais nos cuidados com a saúde de filhos e netos (Nodari & Guerra 2000; Fonseca-Kruel & Peixoto 2004). Todas as componentes do grupo com treinamento afirmaram que utilizam e trabalham com ervas medicinais por acreditarem em sua eficácia e na cura através das plantas. Entre os membros do grupo sem treinamento, 50% relataram utilizar as plantas por acreditarem na cura, enquanto 35% valorizam o medicamento à base de plantas por acreditarem que seja mais natural, apresentando mais benefícios à saúde do que o medicamento sintético.

Neste estudo, foram relatadas 95 espécies botânicas, distribuídas em 86 gêneros e 55 famílias, das quais 55 espécies foram indicadas pelos membros do grupo sem treinamento e 70 pelas mulheres do outro grupo (Tab. 1). Apesar de compartilharem muitas plantas, as duas listagens têm em comum apenas 31 espécies, o que representa um coeficiente de similaridade abaixo de 50%, apontando para diferenças entre os dois grupos analisados.

O número de citações individuais entre as seis mulheres com treinamento variou entre 46 a 53 espécies, demonstrando que cada uma conhece uso medicinal para 66-76% das 70 espécies citadas pelo grupo. Isto possivelmente se deve ao fato delas cultivarem e trabalharem diariamente com espécies medicinais no CESAM e terem participado dos mesmos cursos e treinamentos. Dentre os sem treinamento o conhecimento individual foi menor, pois 40% citaram individualmente de 10 a 13 plantas, 45% citaram entre 6-9 plantas e os 15% restantes citaram apenas 2-4 plantas, em um total de 55 espécies.

No grupo sem treinamento, o número de plantas que atingiram valores de importância relativa igual ou superior a 1,0 foi bem menor (11 plantas) que o verificado para o grupo com treinamento (20 plantas), demonstrando uma diferença de conhecimento sobre a diversidade de usos das plantas citadas pelos membros dos dois grupos (Tab. 2-3). Das 55 espécies indicadas como medicinais no grupo sem treinamento, 19,3% atingiram elevados valores de importância relativa, destacando-se Cymbopogon citratus (IR = 2,0), Lippia alba (IR = 2,0), Mentha x villosa (IR = 1,8) e Alpinia zerumbet (IR = 1,6), com indicações para diversas enfermidades (Tab. 2). C. citratus, A. zerumbet e L. alba. também apresentaram valores de IR superiores a 1,0 para o segundo grupo, porém M. x villosa alcançou uma importância relativa baixa (IR = 0,53). Neste grupo, Petiveria alliacea (IR = 2,0) e Ocimum selloi (IR = 1,6) destacaram-se como as espécies de maior valor de IR (Tab. 3).

Quatro espécies citadas pelos 20 moradores sem treinamento apresentaram importância relativa acima de 1,5, sete espécies entre 1,0 e 1,49, 13 entre 0,5 e 0,99 e 32 espécies entre 0,1 e 0,49 (Tab. 2), enquanto das plantas citadas pelas seis mulheres com treinamento, duas espécies apresentaram importância relativa acima de 1,50, 18 espécies entre 1,0 e 1,49 e 50 espécies entre 0,5 e 0,99 (Tab. 3). É interessante notar que várias espécies obtiveram valores diferentes entre os dois grupos, como é o caso de P. alliacea e O. selloi, que apresentaram valores de IR mais elevados (2,0 e 1,6) no grupo com treinamento em relação aos registrados entre os moradores sem treinamento (0,34 e 0,69). L. alba, C. citratus, A. zerumbet e M. x villosa apresentaram valores de importância elevados, enquadrados na primeira classe (1,5-2,0) no grupo dos moradores sem treinamento, enquanto entre as mulheres com treinamento situaram-se em classe inferior, particularmente M. x villosa Huds.

Cymbopogon citratus (DC) Stapf é uma espécie exótica e seu consumo pode ser feito na forma de chá das folhas e processado nas formas de extrato aquoso e de óleo essencial, com larga utilização popular para nervosismo, febre, tosse, dores diversas (dor de cabeça, abdominais, reumáticas) e alterações digestivas, como dispepsia e flatulência (Lorenzi & Matos 2002). O seu óleo essencial, largamente utilizado na indústria de alimentos e cosméticos (Costa et al. 2005), possui atividade antimicrobiana e ação calmante devido a presença de citral (Onawunm et al. 1984; Lorenzi & Matos 2002). Estes dados reforçam as informações fornecidas pelos entrevistados, principalmente em relação à indicação como calmante (Tab. 1).

Lippia alba (Mill.) N.E. Br. é cultivada em todo o Brasil por suas atividades farmacológicas como calmante, analgésica, sedativa e mucolítica, devido à presença de citral, mirceno, limoneno e carvona no óleo essencial, cuja concentração varia conforme o clima e a forma de cultivo (Lorenzi & Matos 2002). Esta espécie foi indicada pelos moradores de Muribeca para tratamento de transtornos em cinco diferentes sistemas corporais, sendo as principais indicações confirmadas pela literatura e relacionam-se ao sistema nervoso e afecções não definidas, pela ação de calmante e analgésica (Tab. 1).

De origem exótica, Alpinia zerumbet (Pers.) B.L. Burtt & R.M. Sm. é uma herbácea de grande porte usada como ornamental e medicinal em diferentes regiões do Brasil. O óleo essencial é rico em mono e sesquiterpenos, com maior concentração de cineol e terpineol, mas entre seus componentes fixos, os mais importantes são os flavonóides e as kava-pironas (Lorenzi & Matos 2002). O extrato aquoso das folhas e o óleo essencial submetido a ensaio farmacológico, mostraram ação anti-hipertensiva e levemente tranqüilizante (Lorenzi & Matos 2002), o que é compatível com sua indicação popular para tratamento da hipertensão. Esta espécie foi indicada pelo grupo de moradores sem treinamento para o tratamento de enfermidades como febre, tosse, gripe, dores, hipertensão e doenças do coração, enquanto as seis mulheres com treinamento a indicaram para hipertensão e como calmante (Tab. 1); as indicações dos entrevistados se referem a quatro tipos de sistemas corporais, mas as confirmadas experimentalmente relacionam-se aos sistemas nervoso e circulatório, pela ação como calmante e para hipertensão.

Mentha x villosa Huds., a hortelã da folha miúda, é uma planta exótica, medicinal e aromática, cultivada em todo o Brasil, sendo largamente utilizada pelas indústrias química, farmacêutica e de alimentos (Paulus et al. 2005). O uso local no tratamento contra amebíase, giardíase e tricomoníase tem apoio em ensaio clínico realizado com o extrato hidroalcoólico, quando foi observado um percentual de cura de 95% dos casos de amebíase e 70% dos casos de giardíase, em mais de 100 adultos e crianças; também mostrou um elevado índice de cura na tricomoníase urogenital (Lorenzi & Matos 2002). Embora tenha atingindo valores diferentes de importância entre moradores com treinamento (IR = 0,53) e sem treinamento (IR = 1,80), M. x villosa Huds. foi citada para transtornos em quatro sistemas corporais, pelos dois grupos de entrevistados, para tratamento da gripe, doenças do coração, hipertensão, enxaqueca, derrame e verminoses (Tab. 1), esta última, sendo confirmada por dados de literatura.

Petiveria alliacea L., conhecida popularmente como atipim, tipim, tipi, erva-pipi, guiné e amansa-senhor apresenta toxicidade dependendo do modo de uso. É utilizada como abortiva e o pó da raiz em pequenas doses provoca insônia, alucinações e abala o sistema nervoso; o uso contínuo determina apatia, imbecilidade, podendo provocar a morte e tais propriedades eram usadas pelos escravos para ¨amansar¨ os seus senhores ou mesmo matá-los (Pinto et al. 2000; Lorenzi & Matos 2002). Quimicamente, além do óleo essencial, apresenta cumarinas, saponinas, petiverina, nitrato de potássio, ácidos graxos, β-sitosterol, trisulfeto de dibenzila, trissulfeto de dialila, principalmente os sulfetos orgânicos, nitrato de sódio, flavonóides, taninos, benziltiol e outros análogos, responsáveis por suas ações e pelo odor de alho (Pinto et al. 2000; Lorenzi & Matos 2002). O uso de P. alliacea L. foi indicado pelos entrevistados principalmente para problemas reumáticos, artrose e enxaqueca (Tab. 1), o que concorda com outras indicações populares (Pinto et al. 2000; Lorenzi & Matos 2002). Por outro lado, segundo Ferraz et al. (1991) não houve diferenças significativas entre pacientes que fizeram o uso do chá para osteoartrite em relação àqueles que receberam apenas o placebo.

Ocimum selloi Benth. é um subarbusto nativo do Brasil cujos principais constituintes químicos são óleos essenciais, taninos, saponinas e pigmentos (Pinto et al. 2000). O óleo essencial é constituído principalmente de metil-eugenol, metil-chavicol, trans-anetol e cis-anetol e cariofileno (Vieira & Simon 2000; Moraes et al. 2002; Paula et al. 2003). O uso medicinal contra gripe utilizado na comunidade Muribeca pode ser confirmado por outras indicações populares. O seu uso local como anti-diarréico já foi investigado experimentalmente por Franca et al. (2008) encontrando algum suporte clínico . Por outro lado, a indicação contra corpos estranhos (cisco) no olho citado por alguns dos entrevistados é muito incomum (Tab. 1).

Considerando os sistemas corporais, houve maior concordância entre os moradores de Muribeca sem treinamento quanto às plantas indicadas para tratamento de doenças parasitárias (FCI = 1,0), transtornos do sistema nervoso (FCI = 0,79) e do sistema gastrintestinal (FCI = 0,72); entre as seis mulheres com treinamento houve maior concordância para plantas empregadas no tratamento de doenças infecciosas (FCI = 1,0), doenças das glândulas endócrinas, da nutrição e metabolismo (FCI = 0,9) e doenças do sistema osteomuscular e tecido conjuntivo (FCI = 0,89). Neste grupo, valores elevados de FCI foram encontrados para as indicações de plantas empregadas nos diferentes sistemas corporais, demonstrando uma uniformidade de conhecimento decorrente do treinamento e incluindo categorias não observadas no grupo sem treinamento (Fig. 1). A diversidade de conhecimento, detectada em diferentes comunidades tradicionais, rurais e urbanas é desejável, já que proporciona mais alternativas de acesso ao recurso oferecido pelas plantas medicinais.

Em pesquisas realizadas junto a diferentes comunidades, no Brasil, observa-se frequentemente que diversas espécies vegetais são citadas para problemas dos sistemas respiratório e gastrintestinal, incluindo doenças parasitárias, como verminoses (Amorozo 2002; Begossi et al. 2002; Medeiros et al. 2004; Bueno et al. 2005). O uso de plantas medicinais para transtornos do sistema nervoso, doenças das glândulas endócrinas, da nutrição e metabolismo e doenças do sistema osteomuscular e tecido subcutâneo é pouco citado, sendo somente uma ou outra planta indicada para estes problemas como, por exemplo, Melissa officinalis L. (Almeida & Albuquerque 2002; Maioli-Azevedo & Fonseca-Kruel 2007; Monteles & Pinheiro 2007), contrastando com o observado no presente estudo. Por serem doenças relacionadas com a forma de vida moderna e por Muribeca se tratar de uma sociedade urbana, as pessoas parecem buscar, através das plantas, uma forma mais saudável de combater estes males, preferindo-as aos medicamentos industrializados.

Ficou evidente que os moradores da Muribeca possuem um bom conhecimento sobre plantas medicinais, porém o treinamento propiciou um melhor aprendizado sobre a diversidade de usos das plantas e uma maior uniformidade no conhecimento, influenciando a importância relativa das plantas para as seis mulheres do CESAM, assim como as indicações de usos para as mesmas plantas. Constatou-se ainda que na Muribeca as pessoas recorrem às plantas medicinais de forma semelhante ao que se conhece para comunidades rurais nordestinas, porém as mesmas são mais empregadas para tratamento de transtornos relacionados com a forma de vida moderna das cidades.

 

Agradecimentos

Agradecemos às integrantes do Centro de Saúde Alternativa de Muribeca, Carmelita P. da Silva, Severina de Araújo, Giselda A. da Silva, Arnailda F. Santos, Eva O. de Souza e Valmery B. Silva e aos entrevistados de Muribeca, pela receptividade e informações fornecidas; ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, pela concessão de bolsa de mestrado à primeira autora.

 

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Recebido em 05/01/2010.
Aceito em 07/04/2010

 

 

1 Autora para correspondência: lhcandrade@gmail.com

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