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Acta Botanica Brasilica

Print version ISSN 0102-3306

Acta Bot. Bras. vol.24 no.3 São Paulo July/Sept. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-33062010000300001 

ARTIGOS

 

Caracterização morfológica de minas foliares em espécies de Melastomataceae de Mata Atlântica, PE

 

Morphological characterization of leaf mines in species of Melastomataceae in Atlantic Forest, Pernambuco, Brazil

 

 

Aretuza B. Brito-Ramos; Jarcilene S. Almeida-Cortez*; Marccus Alves

Universidade Federal de Pernambuco, Departamento de Botânica, Recife, PE, Brasil

 

 


RESUMO

Este trabalho descreve a morfologia e a anatomia de folhas íntegras e minadas de cinco espécies de Melastomataceae, ocorrentes em um fragmento de Mata Atlântica, PE. As minas foram visualizadas em uma ou ambas as faces das folhas, possuindo padrão sinuoso ou retilíneo, distribuídas entre as nervuras ou por toda a lâmina, sendo estas características distintas para cada espécie. As folhas apresentam epiderme uniestratificada com estômatos presentes na face abaxial e tricomas dendríticos, multicelulares, estrelados e com mais de cinco ramos, em ambas ou apenas uma das faces. O mesofilo é dorsiventral e o sistema vascular em forma de arco. As larvas minadoras observadas em Miconia minutiflora (Bonpl.) DC., M. albicans (Sw.) Triana e Clidemia capitellata (Bonpl.) D. Don consomem o parênquima paliçádico e esponjoso, enquanto as de M. prasina (Sw.) DC. e M. ciliata (Rich.) DC. se alimentam do conteúdo e das paredes anticlinais das células epidérmicas, caracterizando-as como do tipo epidérmica. Entretanto, em M. minutiflora, M. albicans e C. capitellata a epiderme permaneceu intacta formando uma proteção para o minador, enquanto que em M. prasina e M. ciliata a proteção é realizada pelas paredes periclinais externas e cutícula da folha. Tecido de cicatrização foi observado ao longo das minas em M. prasina.

Palavras-chave: anatomia vegetal, herbivoria, interação planta-inseto, Melastomataceae, minas foliares


ABSTRACT

This study describes the morphology and anatomy of whole and mined leaves of five species of Melastomataceae native to an Atlantic Forest fragment in Pernambuco, Brazil. Mines can be found on one or both sides of the leaves, with a sinuous or rectilinear pattern, and distributed between the veins or throughout the entire leaf blade. These characteristics are distinct for each species. The leaves, in cross section, have a uniseriate epidermis, stomata on the abaxial surface, and unbranched hairs on both or at least one side. The mesophyll is bifacial and the vascular bundle is semi-circular. The leaf-miner larvae observed in Miconia minutiflora (Bonpl.) DC., M. albicans (Sw.) Triana and Clidemia capitellata (Bonpl.) D. Don consume the palisade and spongy parenchyma, while those found in M. prasina (Sw.) DC. and M. ciliata (Rich.) DC. feed only on the anticlinal walls of epidermal cells. All of these larvae, therefore, are characterized as parenchymatic miners. In Miconia minutiflora, M. albicans and C. capitellata the epidermis remains intact and offers some protection to the miners, while in M. prasina and M. ciliata only the periclinal walls of epidermal cells and leaf cuticle remain to offer protection. Wound tissue was observed along mines in M. prasina.

Key words: herbivory, leaf mines, Melastomataceae, plant anatomy, plant-insect interaction


 

 

Introdução

A Classe Insecta é constituída por muitas espécies com os mais variados hábitos alimentares, dentre eles os herbívoros ou fitófagos. Dentre os herbívoros, encontram-se os insetos causadores de minas (Hering 1951, Mani 1964). As minas ou hiponomas são causadas por larvas de insetos endofitófagos, ou seja, larvas localizadas no interior de órgãos vegetais e que se alimentam das células parenquimáticas (Weis & Berenbaum 1989, Connor & Taverner 1997). Em geral, a mina ocorre no parênquima foliar, mas pode estar presente na região parenquimática de flores, frutos, caules e raízes (Hering 1951).

De acordo com Needham et al. (1928), dentre os fitófagos, os minadores são considerados os que apresentam o indivíduo adulto com o menor tamanho, encontrando-se representantes em 51 famílias distribuídas entre as ordens Lepidoptera, Diptera, Hymenoptera e Coleoptera. Esse hábito evoluiu independentemente dentro de cada ordem, visto que estas não apresentam relações filogenéticas (Hering 1951, Connor & Taverner 1997).

O hábito minador está registrado desde o Cretáceo (Labandeira et al. 1994), com aproximadamente 10.000 espécies de minadores foliares (Connor & Taverner 1997). De modo geral, a biologia dos minadores com importância econômica é bem conhecida (Hill 1987, Parra et al. 2002).

Embora estudos sobre minas foliares tenham grande importância biológica (Connor & Taverner 1997), informações sobre as alterações estruturais causadas nos tecidos vegetais são escassas. Melo-de-Pinna et al. (2002) registraram a morfologia e anatomia de minas em folhas de Richterago riparia Roque (Asteraceae), espécie ocorrente em Campos rupestres.

A família Melastomataceae Juss. constitui uma das mais importantes da flora neotropical, ocorrendo principalmente em bordas de florestas, podendo ser um indicador de áreas sob perturbação pela ação antrópica (Renner 2004). Após a abertura de clareiras, o banco de sementes, presente no solo, pode ser o responsável pelo estabelecimento de espécies de Melastomataceae, principal grupo de árvores e arbustos pioneiros observados nas clareiras de Florestas Atlânticas Montana (Baider et al. 1998).

Os insetos minadores são importantes pelo seu comportamento alimentar, porém esta característica não está restrita aos mesmos, mas também aos insetos galhadores. A diferença entre os dois tipos de endofitófagos é a ausência, nas minas, da formação e do crescimento de novos tecidos na planta afetada (Mani 1964). Portanto, mais estudos são fundamentais para a compreensão das estruturas morfológicas de minas e suas relações tróficas. Sendo assim, este trabalho tem como objetivo descrever as estruturas morfológicas e anatômicas de folhas íntegras e minadas das espécies Miconia minutiflora (Bonpl.) DC., M. prasina (Sw.) DC., M. ciliata (Rich.) DC., M. albicans (Sw.) Triana e Clidemia capitellata (Bonpl.) D.

 

Materiais e métodos

Folhas adultas íntegras e minadas de diferentes indivíduos de Miconia minutiflora (UFP 36.215), M. prasina (UFP 37.054), M. albicans (UFP 37.060), M. ciliata (UFP 37.053) e Clidemia capitellata. (UFP 36.214) foram coletadas entre os meses de setembro de 2002 a julho de 2003, no Parque Estadual de Dois Irmãos, localizado a Noroeste da cidade de Recife, Pernambuco - Brasil. Parte do material coletado foi depositado no herbário UFP e parte, fixado em FAA 50 (formaldeído, ácido acético, etanol 50%, 1:1:18 v/v Johansen 1940) e conservado em etanol 70%.

Para a obtenção dos minadores, as folhas minadas foram colocadas em placas de Petri com papel filtro umedecido e envolvidas por parafilme. Após a eclosão dos mesmos, estes foram conservados em etanol 70% para identificação.

Secções transversais (ST) da região mediana das folhas íntegras e minadas, de 30 indivíduos de cada espécie, foram obtidas através de cortes à mão livre, coradas com safranina e azul de Astra (soluções aquosas a 1%, na proporção 1:9 v/v) (Kraus & Arduin 1997) e montadas em lâmina histológica em glicerina 50%. Testes microquímicos foram realizados em secções de folhas íntegras e minadas com cloreto férrico (Johansen 1940) para evidenciar substâncias fenólicas, Sudam III (Sass 1951) para detectar substâncias lipídicas e Lugol (Berlyn & Misksche 1976) para observar a ocorrência de amido.

Para a caracterização das células da epiderme, foram realizadas dissociações das folhas íntegras das espécies estudadas. Os fragmentos foliares foram colocados em solução de peróxido de hidrogênio e ácido acético glacial 1:1 (Franklin 1945) durante 24 h em estufa à 55º e conservados em etanol 70%. As epidermes, depois de destacadas, foram coradas em safranina hidroalcóolica 1% e montadas em glicerina 50% (Purvis et al. 1964).

Secções da região mediana de folhas minadas foram colocadas em hipoclorito de sódio 10% ou 30% e mantidas em estufa a 55ºC. Após a clarificação foram inseridas em hidróxido de sódio 5%, e a seguir colocadas em cloral hidratado 5%. Os fragmentos foram desidratados em série etanólica e butílica, corados em safranina hidroalcóolica 1% e montados em bálsamo do Canadá, para a observação do material diafanizado.

As secções das folhas foram fotografadas em fotomicroscópio Zeiss (Standard 25) e os desenhos esquemáticos realizados sobre luz invertida.

Seguiu-se a terminologia de Theobald et al (1979) para a tipologia dos tricomas, de Hickey (1979) para a vascularização foliar e de Hering (1951) para a classificação do padrão de minas foliares.

 

Resultados e discussão

As folhas de Miconia minutiflora são cartáceas, discolores, elípticas ou ovais, possuem base aguda ou arredondada, ápice cuspidado, margens revolutas e inteiras; são glabrescentes, tri-nervadas, com padrão de venação acródromo basal. Reis et al. (2004) observaram três nervuras primárias e duas secundárias apresentando tanto nervação acródroma basal quanto acródroma supra-basal. Nesta espécie as minas são visíveis em ambas às faces da lâmina foliar, por todo o limbo entre as nervuras secundárias e principal. São retilíneas e em geral, com porções sinuosas nas extremidades, sendo consideradas do padrão intermediário (Fig. 1-2) ou exclusivamente sinuosas (Tab. 1).

Em Miconia prasina, as folhas são cartáceas, concolores, elípticas a oblongas ou estreito-ovais; apresentam base atenuada e decurrente, ápice cuspidado, margens inteiras e revolutas; a face adaxial é glabra e a abaxial glabrescente com indumento estrelado, tri-nervadas, acródromas suprabasais. As minas são visíveis através da face adaxial, em toda extensão do limbo ou na metade inferior apresentam-se sinuosas e transpõem as nervuras secundárias e principal (Fig. 3-4, Tab. 1).

Miconia ciliata apresenta folhas cartáceas, concolores, elípticas a estreito-ovais de base aguda, ápice acuminado e margens serreadas e ciliadas, face adaxial glabra e a abaxial glabrescente com indumento estrigoso; tri-nervadas, acródromas basais. As minas estão distribuídas pela lâmina foliar, podendo ser sinuosas, transpondo a nervura principal e secundárias, ou retilíneas, sendo estas, então, paralelas à nervura (Fig. 5, Tab. 1).

As folhas de Miconia albicans são coriáceas, discolores, elípticas, oblongas a obovadas de base arredondada a oblíqua, ápice agudo e margens inteiras, face adaxial glabrescente e a abaxial pilosa com indumento tomentoso esbranquiçado; penta-nervadas, acródromas basais. Reis et al. (2004) observaram tanto nervação acródroma basal como supra-basal em M. albicans. As minas observadas são visíveis na face adaxial da folha e distribuídas na região apical do limbo, são retilíneas com porções sinuosas, aqui tratadas como do tipo intermediárias (Fig. 6, Tab. 1).

Em Clidemia capitellata foram verificadas folhas cartáceas, concolores, elípticas a obovadas de base aguda a obtusa, ápice acuminado e margens serreadas e ciliadas; pilosas com indumento escabroso na face adaxial e viloso na face abaxial; penta-nervadas, acródromas basais. As minas são visualizadas em ambas as faces, distribuídas entre a nervura principal e as secundárias de primeiro calibre, ao longo ou transpondo as nervuras comissurais, formando sinuosidades, no terço mediano ou superior da folha. (Fig. 7-8, Tab. 1).

Segundo Hering (1951), o hábito minador é geralmente visível na superfície da folha como trajetos sinuosos, manchas ou outras formas visíveis no tecido epidérmico. A mina pode ser ocupada desde a fase larval até a emergência do inseto formardor ou em alguma etapa do desenvolvimento o inseto abandona a mina e assume outros hábitos alimentares (Hering 1951, Melo-de-Pinna et al. 2002).

Foram obtidos os estádios de larva e adulto do minador foliar de M. prasina, e apenas larvas em M. minutiflora e M. ciliata, e tanto as larvas como os adultos foram identificados como pertencente à ordem Diptera. De acordo com Hering (1951), a ordem Diptera apresenta um dos maiores números de formadores de minas. O mesmo autor afirma ainda que cada espécie de minador forma um padrão distinto de mina. No entanto, não foram obtidos estádios dos formadores de C. capitllata e M. albicans.

Nas espécies estudadas, as células epidérmicas, em vista frontal, dispõem-se aleatoriamente, com exceção da região correspondente à nervura principal onde ocorrem em fileiras. Em secção transversal a epiderme apresenta-se uniestratificada, e suas células possuem paredes de contornos retilíneos (Fig. 9-11). Em M. minutiflora foi verificado que as células da face adaxial são maiores do que as da face abaxial (Fig. 10).

A cutícula é moderadamente espessa formando flanges e os tricomas tectores estão presentes na face abaxial (Fig. 9), com exceção de M. prasina e C. capitellata onde estão presentes em ambas às faces. Eles são dendríticos, multicelulares, estrelados e com mais de cinco ramos, concordando com o observado por Theobald et al. (1979) e Reis et al. (2004) As folhas são hipoestomáticas (Fig. 9-15), com estômatos anisocíticos, com exceção de M. prasina com estômatos anomocíticos e diacíticos. Estes se encontram ao mesmo nível das demais células da epiderme em M. minutiflora e M. prasina e em M. ciliata, M. albicans e C. capitellata, apresentam-se projetados.

O mesofilo é dorsiventral, com parênquima paliçádico uniestratificado sobre a epiderme da face adaxial. O parênquima paliçádico ocupa cerca de um terço do mesofilo e, em todas as espécies estudadas foram observadas drusas. Em M. prasina, a hipoderme é constituída por células de contorno ovalado e lume amplo (Fig. 11). Metcalfe & Chalk (1965) mencionam a presença de hipoderme como característica para alguns gêneros da família Melastomataceae, incluindo Miconia. Costa (1977) descreve uma hipoderme multisseriada em M. theaezans.

Na região da nervura central, sob a epiderme, observa-se um colênquima que difere entre as espécies estudadas apenas no número de camadas de células. Drusas ocorrem no parênquima (Fig. 10) e em M. prasina e C. capitellata verificou-se esclereídes localizadas próximas à face abaxial e adaxial, respectivamente. O sistema vascular é anficrival e disposto em arco (Fig. 12).

As minas em M. minutiflora, M. albicans e C. capitellata ocorrem no parênquima (Fig. 13). Em M. minutiflora e C. capitellata a larva inicialmente consome o parênquima paliçádico e à medida que se desenvolve alimenta-se também do parênquima esponjoso, mantendo íntegros os sistemas dérmico e vascular, além de drusas (Fig. 13-14).

As minas de M. prasina e M. ciliata são superficiais, ou seja, a larva alimenta-se do conteúdo das células epidérmicas, inclusive as paredes anticlinais, mas preservam as paredes periclinais externa e interna (Fig. 15-16).

Alguns autores (Weis & Berenbaum 1989, Connor & Taverner 1997) afirmam que os insetos minadores se alimentam apenas do parênquima paliçádico. Os resultados obtidos mostram que o parênquima paliçádico e o esponjoso são consumidos pelas larvas nas espécies M. minutiflora (Fig. 13), M. albicans e C. capitellata. Em M. ciliata (Fig. 15) e M. prasina (Fig. 16) o conteúdo das células epidérmicas é consumido, sendo isto um caráter que as diferencia das demais.

Nas minas observadas em M. minutiflora foi constatada a presença de fezes das larvas aderidas à parede periclinal externa da face adaxial da epiderme (Fig. 14). Isto sugere que a larva movimenta-se com a região ventral voltada para a epiderme e a dorsal para o parênquima esponjoso.

Nas espécies em estudo, foi constatado que durante a formação da mina, a larva evita os tecidos lignificados, até mesmos os feixes de menor calibre, consumindo e movendose ou através das células da epiderme, ou do parênquima paliçádico e esponjoso.

As minas observadas em M. minutiflora, M. albicans e C. capitellata podem ser classificadas como parenquimáticas, pois a epiderme permanece intacta formando uma camada protetora para o inseto minador como o observado por Melode-Pinna et al. (2002). Em M. prasina e M. ciliata as minas são epidérmicas, mas a proteção é realizada pela parede periclinal externa das células epidérmicas e a cutícula da folha.

O hábito minador é geralmente identificado por características externas da folha como a descoloração do tecido epidérmico (Hering 1951). De acordo com as observações realizadas, não há descoloração do tecido epidérmico e sim uma perda de conteúdo celular devido o consumo de parte destas células.

O tecido floemático e o parênquima esponjoso apresentam substâncias fenólicas, sendo que em M. minutiflora essas substâncias também estão presentes no colênquima. Mckey (1979) afirma que as barreiras químicas localizadas próximas ao sistema vascular estão correlacionadas com o fato de que estes tecidos são ricos em nutrientes, particularmente o floema, podendo ser atacado por muitos organismos. Segundo Mckey (1979) há um aumento na quantidade de substâncias fenólicas nas células do parênquima esponjoso formando uma barreira para a larva. De acordo com Woodman & Fernandes (1991), a importância das substâncias fenólicas, principalmente, o tanino, reside no fato de que estas substâncias precipitam proteínas, atuando sobre as enzimas digestivas e proporcionando uma redução na eficiência alimentar do herbívoro. As substâncias fenólicas também atuam na proteção contra fungos e patógenos. (Nicholson & Hammerschmidt, 1992). O padrão observado nas minas de M. minutiflora, M. albicans e C. capitellata indicam que os minadores podem ter desenvolvido a habilidade de consumir tecido com substâncias fenólicas, sem afetar o seu desenvolvimento.

Resultado semelhante foi encontrado por Almeida-Cortez & Melo-de-Pinna (2006) analisando minas em folhas de Vismia guianensis onde as a larva consumiam células parenquimáticas, mas evitavam as drusas observadas no mesofilo e os tecidos vasculares das nervuras central e laterais. Melo-de-Pinna et al. (2002) em R. riparia (Asteraceae) mostraram que a larva apresenta preferência pelas células do parênquima paliçádico e da epiderme que são as parcelas mais nutritivas e palatáveis da folha, uma vez que nestes tecidos foi observada a deposição de amido e de lipídio.

Em M. prasina verificou-se células em divisão e com paredes suberizadas, localizadas ao longo das minas, próximas ao sistema vascular, formando um possível tecido de cicatrização (Fig. 16). O tecido de cicatrização geralmente é encontrado em regiões danificadas e tem um papel protetor (Cutler, 1978), podendo o dano ser de natureza abiótica ou biótica.

De acordo com Mani (1964), em muitas espécies minadas, os tecidos não regeneram, mas em outras há proliferação de novas células. Este autor afirma que o tecido regenerado encontra-se próximo ao sistema vascular sendo, aparentemente, resultado de fatores mecânicos, não havendo nenhum relacionamento específico com as larvas. Os resultados obtidos mostraram que o possível meristema de cicatrização se localiza próximo ao sistema vascular, mas ao contrário do afirmado por Mani (1964), apresenta uma relação com o canal formado pela larva, uma vez que a mastigação é um fator mecânico. Ele afirma que a larva produz uma mina central e diversas galerias laterais e que, em estádio subseqüente, a larva pode retornar à mina central e alimentar-se de tecidos regenerados. Esta afirmativa não foi observada nas espécies aqui estudadas.

Embora não tenham sido identificados os agentes formadores das minas, e os seus ciclos biológicos, pode-se indicar que os mesmos se comportam definitivamente como minadores.

Este estudo descreveu a morfologia das minas em espécies de Melastomataceae, baseado na definição de Mani (1964) em que não ocorre formação de novos tecidos vegetais, e em alguns casos apenas o desenvolvimento do tecido de cicatrização. As minas presentes em M. minutiflora, M. albicans e C. capitellata podem ser classificadas como parênquimáticas, entretanto, M. prasina e M. ciliata apresentam minas epidérmicas.

 

Agradecimentos

Ao CNPq pela concessão da bolsa de iniciação científica da primeira autora; a Dra. Luciana Iannuzzi - UFPE pela identificação dos artrópodes coletados; ao Dr.Renato Goldenberg - UFPR pela identificação das Melastomataceae.

 

Referências bibliográficas

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Recebido em 29/05/2008.
Aceito em 11/05/2009

 

 

* Autor para correspondência: cortez_jarcy@yahoo.com

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