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Acta Botanica Brasilica

Print version ISSN 0102-3306

Acta Bot. Bras. vol.26 no.1 Feira de Santana Jan./Mar. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-33062012000100013 

ARTIGOS ARTICLES

 

O Complexo Vegetacional da Zona Litorânea no Ceará: Pecém, São Gonçalo do Amarante

 

The vegetation complex of the coastal zone of Ceará: Pecém, São Gonçalo do Amarante

 

 

Antônio Sérgio Farias CastroI; Marcelo Freire MoroII; Marcelo Oliveira Teles de MenezesIII, IV

IPesquisador independente, Fortaleza, CE, Brasil
IIUniversidade Estadual de Campinas, Instituto de Biologia, Departamento de Biologia Vegetal, Campinas, SP, Brasil
IIIInstituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará, Sobral, CE, Brasil
IVAutor para correspondência: mteles84@gmail.com

 

 


RESUMO

O Litoral Setentrional do Nordeste (LSN) por sua localização geográfica apresenta clima mais quente e seco do que na costa leste do Brasil. Por sua proximidade com a caatinga e o cerrado, o LSN permite a co-existência de espécies destes Domínios conjuntamente com espécies de restinga, em diferentes formações, constituindo um Complexo Vegetacional. Apesar da grande importância ecológica e botânica deste ecótono, existem poucos estudos sobre a flora regional. O objetivo deste trabalho foi aprofundar o conhecimento sobre a composição florística e fitossociológica da região. Para isso, fizemos um levantamento florístico na área (entre 2007-2011), bem como consultas a registros de herbário na região e um levantamento fitossociológico em um trecho da floresta estacional semidecídua costeira (mata de tabuleiro). Foram inventariadas 382 espécies vegetais, pertencentes a 96 famílias. Na parcela fitossociológica (0,32 ha) foram registrados 2.970 indivíduos de 52 espécies, sendo as mais abundantes as arbóreas Manilkara triflora, Chamaecrista ensiformis e Guapira nitida e as arbustivas Cordiera sessilis e Maytenus erythroxyla (altura média 3,8 m, diâmetro médio 6,2 cm, área basal 39,28 m²/ha). A flora local inclui elementos florísticos de caatinga, cerrado e restinga, sugerindo que a comunidade vegetal na região costeira do Ceará possui natureza ecotonal.

Palavras-chave: restinga, litoral, região costeira, vegetação, ecótono


ABSTRACT

Due to its geographical location, the northeastern Coast of Brazil (Litoral Setentrional do Nordeste - LSN) is a hotter and drier climate than the eastern coast. In addition, because of its proximity to caatinga and cerrado, the LSN contains species from these vegetation biomes and from the restinga on the coast, which comprise different plant formations and creates a vegetation complex. Despite the great importance of this ecotone, there are few studies about its flora. The objective of this work was to contribute to what is known about the floristic and phytosociological composition of this region. We made a floristic survey in the area (between 2007 and 2011), consulted herbaria data from the region and made a phytosociological study in a stretch of coastal semideciduous forest (mata de tabuleiro). The study recorded 382 plant species from 96 families. In the phytosociological survey (0.32 ha) we recorded 2,970 individuals and 52 species. The most abundant plants surveyed were the trees Manilkara triflora, Chamaecrista ensiformis and Guapira nitida and the shrubs Cordiera sessilis and Maytenus erythroxyla (average height 3.8 m, average diameter 6.2 cm, basal area 39.28 m²/ha). The local flora includes floristic elements of caatinga, cerrado and restinga, corroborating the idea that the plant community of the coastal region of Ceará has an ecotonal nature.

Key words: restinga, littoral, coast, vegetation, ecotone


 

 

Introdução

A classificação do território brasileiro em amplos domínios geográficos (e.g. Ab'Sáber 2003; Brasil 2004) inevitavelmente leva a um certo nível de generalização e imprecisão. Mapas e classificações vegetacionais de escala continental tendem a subestimar particularidades regionais na fisionomia, estrutura e composição das comunidades vegetais. Esse é o caso dos mapas e sistemas brasileiros de classificação vegetacional (e.g. Veloso et al. 1991; Brasil (2004), que muitas vezes ignoram as restingas e formações litorâneas, as quais apesar de serem faixas vegetacionais relativamente estreitas, podem atingir dezenas de quilômetros adentro do continente (Fernandes 1998). No sistema universal de classificação das vegetações brasileiras, Veloso et al. (1991), devido à escala utilizada, ignoram as peculiaridades vegetacionais de cada região, tratando toda a "vegetação com influência marinha" brasileira como uma só unidade fitogeográfica. Em seu sistema fitogeográfico, Fernandes (1998) considera as formações litorâneas de todo o Brasil como pertencentes à Sub-Província Litorânea incluída na Província Atlântica; e Brasil (2004) inclui as restingas dentro dos domínios fitogeográficos adjacentes (Fig. 1). No entanto, devido à sua extensão continental, a região litorânea do Brasil abrange uma gama de condições climáticas, geomorfológicas e pedológicas, que abrigam diferentes formações vegetais.

 

 

Enquanto a costa leste do Brasil é dominada por climas tropicais úmidos, típicos do domínio da Mata Atlântica, a porção setentrional do litoral nordestino (entre o Maranhão e a chamada "curva do continente sul-americano", no Rio Grande do Norte) possui regimes climáticos bem mais secos, variando de subúmidos a semiáridos (Brasil 2002; Nimer, 1972; Ab'Sáber 2001; 2006). Essa diferença levou Ab'Saber (2001; 2006) a individualizar esse trecho da costa como uma unidade chamada "Litoral Setentrional do Nordeste" - LSN (Fig. 1). Devido à proximidade geográfica do LSN com o domínio das Caatingas, do Cerrado e da Mata Atlântica, o LSN permite a formação de um ecótono muito peculiar: um complexo florístico-vegetacional que inclui espécies de caatinga, de cerrado, atlânticas e até amazônicas, além de outras espécies próprias das restingas (Fernandes 1990; 1998; Figueiredo 1997; Matias & Nunes 2001; Moro et al. 2011).

Segundo Figueiredo (1997) e Fernandes (1990), na região litorânea do Ceará ocorre um grupo heterogêneo de fitofisionomias que variam desde a vegetação herbácea de pós-praia, passando por matas dunares, manchas de vegetação savânica (cerrados costeiros) até florestas estacionais semidecíduas chamadas localmente de "matas de tabuleiro", que se distinguem conspicuamente da Caatinga. No entanto, a escassez de publicações florísticas e fitossociológicas no LSN dificulta uma análise mais acurada que permita a classificação das vegetações litorâneas que ocorrem desde o Piauí até o norte do Rio Grande do Norte. Assim, visando ampliar o conhecimento sobre a flora do LSN, realizou-se um extenso levantamento florístico na região litorânea do Pecém (CE), complementando o estudo com alguns dados de estrutura da "mata de tabuleiro".

 

Materiais e métodos

Área de Estudo

O estudo foi realizado no distrito de Pecém, no município de São Gonçalo do Amarante, que faz parte da Região Metropolitana de Fortaleza, região litorânea do Ceará. O distrito possui 112,01 km² e localiza-se entre 3º31'30'' & 3º41'20'' S e 38º48'11'' & 38º56'14'' O (Fig. 1; 2). Sua escolha como área de estudo deveu-se à sua heterogeneidade ambiental e à sua relevância ecológica para a conservação - alvo de instalação de um grande complexo portuário-industrial, o que tem contribuído fortemente para a supressão da vegetação em grande parte de sua área, com a consequente perda de diversidade biológica.

A região metropolitana de Fortaleza, onde a área estudada se localiza, está em uma região de transição entre regimes climáticos semiáridos e subúmidos (Nimer, 1972). A pluviosidade média em São Gonçalo do Amarante é de 1.026,4 mm com temperatura média anual de 26 ºC, chuvas concentradas de janeiro a junho, e potencial de evapotranspiração superior à precipitação (Nimer, 1972; Ceará, 2010). Como nas demais regiões da costa cearense, o Pecém possui pouca variação altitudinal (0 - 70 m) e está situada sobre terrenos sedimentares de origem tércio-quaternária pertencentes à Formação Barreiras, além de depósitos holocênicos de areias quartzosas que formam campos de dunas e restingas de origem ainda mais recente (Campos et al. 2003; Ab'Saber 2006). Segundo Campos et al. (2003), o distrito do Pecém possui três unidades geoambientais: sertões circundantes (de origem cristalina, não estudados neste trabalho), tabuleiros pré-litorâneos (arenosos e argilo-arenosos) e planície litorânea, que inclui as praias, os campos de dunas móveis, dunas fixas, paleodunas e planícies ribeirinhas (Fig. 2). Esse estudo se restringiu às unidades tabuleiros e planície litorânea.

Levantamento florístico e fitossociológico

O levantamento florístico, que levou em consideração tanto plantas terrestres quanto aquáticas, foi realizado em duas etapas. A primeira consistiu em coletas feitas pelos autores no distrito do Pecém e em áreas muito próximas, como localidades, distritos ou municípios vizinhos: localidades de Paú, Varjota, Parada, Jacarecoara e Siupé, em São Gonçalo do Amarante; e Maceió, Praíba, Lagoa Amarela e Matões, em Caucaia (Fig. 2). As coletas foram realizadas pelo método de caminhamento (Filgueiras et al. 1994) entre os anos de 2007 e 2011, em pontos amostrais distribuídos entre a beira da praia (ao norte) até a planície de inundação da Lagoa do Gereraú (ponto de coleta mais ao sul). A florística também incluiu espécies exóticas que tivessem atingido a categoria de invasora no local (sensu Richardson et al. 2000). A exótica Acacia mangium (EAC 47.401), cultivada próximo à Estação Ecológica do Pecém, por exemplo, ainda não havia atingido esse estágio e foi excluída da lista, embora seja invasora em outros locais.

Todos os espécimes coletados foram tombados no herbário EAC, da Universidade Federal do Ceará. O levantamento foi complementado com a listagem de todas as exsicatas do Pecém depositadas no herbário até o primeiro semestre de 2011. Todos os registros foram conferidos e tiveram suas identificações atualizadas ou corrigidas.

Embora o distrito do Pecém inclua áreas de caatinga ao sul, este estudo se limitou ao complexo vegetacional litorâneo, ou seja, fitofisionomias localizadas sobre tabuleiros pré-litorâneos da Formação Barreiras, lagoas litorâneas, dunas fixas, semi-fixas e móveis, vegetação de pós-praia, várzeas de rios e lagoas (carnaubais), e manguezais. Terrenos sobre o embasamento cristalino - ao sul da planície de inundação da Lagoa do Gereraú (Fig. 2) - não foram incluídos nas coletas. Para registrar em que ambientes as espécies ocorrem, foram utilizadas as categorias de ambientes litorâneos do sistema de unidades fitoecológicas do Ceará (Figueiredo, 1997), com adaptações:

Vegetação pioneira psamófila I - vegetação que ocorre no pós-praia, sujeita à influência marinha e ao excesso de sal;

Vegetação pioneira psamófila II - vegetação que ocorre sobre as dunas móveis e semi-fixas, sob regime de elevada motilidade dos sedimentos arenosos e extrema radiação solar;

Floresta de dunas fixas e retaguarda de dunas - vegetação dominada por espécies de porte arbóreo-arbustivo, associadas ao campo de dunas fixas edafizadas;

Vegetação dos tabuleiros pré-litorâneos - localizada sobre os terrenos da Formação Barreiras. Sua fisionomia pode variar de floresta semidecídua (mata de tabuleiro) a savanas costeiras (cerrados costeiros);

Vegetação aquática e paludosa de lagoas e brejos - vegetação de baixios, lagoas e rios de fluxo lento, tanto à retaguarda das dunas como nos tabuleiros;

Floresta mista dicótilo-palmácea (Carnaubais) - vegetação de várzeas com presença conspícua da carnaúba (Copernicia prunifera), especialmente no entorno da Lagoa do Gereraú. Também pode ocorrer em áreas mais continentais, onde é considerada um subtipo de caatinga (Andrade-Lima 1981);

Manguezal - vegetação florestal paludosa, halófila, típica de regiões estuarinas; inclui ecossistemas campestres associados - apicuns e salgados.

Para o levantamento fitossociológico da mata de tabuleiro, foi selecionado um trecho de mata secundária em estado razoável de conservação e foram estabelecidas 8 parcelas de 20 x 20 m, totalizando 0,32 ha, em áreas no entorno do Jardim Botânico de São Gonçalo do Amarante (coordenada de referência: 3º34'35"S & 38º53'02"O). A floresta selecionada aparentemente não sofre corte raso há muitos anos, mas o corte seletivo de madeira (especialmente Manilkara triflora e Chamaecrista ensiformis) era evidente. O levantamento foi realizado de acordo com a metodologia proposta por Durigan (2003). Todos os indivíduos lenhosos (incluindo cipós) com Diâmetro ao Nível do Solo (DNS) maior ou igual a 3 cm foram incluídos na amostragem. Registrou-se para cada indivíduo a espécie, o DNS (medido com suta dendrométrica) e a altura da planta. O sistema de classificação taxonômica adotado foi APG III (2009).

 

Resultados e discussão

O levantamento florístico registrou 382 espécies pertencentes a 96 famílias. A família mais rica foi Fabaceae com 69 espécies. Outras famílias ricas em espécies foram Cyperaceae (22 espécies), Rubiaceae (20 espécies), Poaceae (17), Euphorbiaceae (15), Myrtaceae (15), Malvaceae (14) e Bignoniaceae (13), as quais somaram 48% da flora amostrada (Tab. 1).

Na fitossociologia foram amostrados 2.970 indivíduos vivos (52 espécies, 29 famílias) e 118 mortos (ainda de pé) nos 0,32 ha (Índice de Shannon = 2,8 nats/indivíduos). A densidade foi de 9.281,25 ind/ha. As espécies arbóreas Manilkara triflora, Chamaecrista ensiformis e Guapira nitida e as arbustivas Cordiera sessilis e Maytenus erythroxyla foram as mais abundantes no local, totalizando 1.747 plantas (58,8% dos indivíduos - Tabela 2).

O diâmetro médio da comunidade foi de 6,2 cm e desvio padrão de 3,90 cm, com 81% dos indivíduos com diâmetros de até 8 cm (Fig. 3). A altura média da comunidade (considerando apenas árvores e arbustos e excluindo cipós) foi de 3,8 m e desvio padrão de 1,03 m, com alguns indivíduos arbóreos atingindo 8 m de altura, mas com 82% deles menores que 4 m (Fig. 4). A dominância total da comunidade (áreas basais de todos os indivíduos vivos somadas) foi de 39,28 m2/ha.

Mesmo possuindo um regime pluviométrico tropical seco subúmido (com déficit hídrico e com forte estacionalidade), devido à influência da umidade oceânica a área estudada pode apresentar precipitações médias anuais até duas vezes maiores que em áreas continentais da depressão sertaneja e períodos anuais de estiagem não maiores que 6 meses (Nimer, 1972). Além disso, a região diferencia-se de áreas continentais pela influência da maresia (salinidade), dos solos profundos e lixiviados, bem como pela maior pluviosidade. Deste modo, é esperado que a composição florística das vegetações litorâneas seja diferente daquela registrada na Caatinga. Este estudo, por exemplo, registrou espécies de diferentes domínios fitogeográficos na área levantada, ressaltando a mistura de espécies característica das formações do LSN.

A mistura de espécies no litoral cearense torna particularmente difícil a classificação de suas formações. Enquanto Brasil (2004) posiciona a costa setentrional no Domínio das Caatingas, Fernandes (1998) considera toda a costa brasileira como pertencente à Sub-província Litorânea da Província Atlântica. Já Ab'Sáber (2003), em seu mapa dos Domínios Morfoclimáticos Brasileiros, considera parte da costa cearense como "Faixa de transição - não diferenciadas", o que chama a atenção para as condições intermediárias do local estudado. A flora local é constituída por um misto de espécies de diferentes domínios, o que já chamava a atenção de autores anteriores (Fernandes 1990; 1998; Figueiredo 1997). Rizzini (1963, p. 32), por exemplo, pontua que "os tabuleiros nordestinos assentam sobre estreita faixa da Formação Barreiras (Terciário) e levam flora mista (cerrado plus restinga), ao passo que a restinga oriental [...] é de origem atlântica pura". Embora considere o LSN pertencente à Província Atlântica, Fernandes (1998, p. 248) também reconhece que "o tabuleiro, mais comumente usado no Norte/Nordeste, é marcado por um complexo florístico, dada a co-participação de elementos da vegetação vizinha: mata, caatinga e formações esclerófilas - cerrado e cerradão".

Werneck et al. (2011), modelando a distribuição da Caatinga durante as glaciações pleistocênicas, mostraram que algumas áreas de Mata Atlântica do leste nordestino (Pernambuco e Bahia), bem como parte da costa cearense, não foram passíveis de ocupação pela Caatinga nem mesmo nos períodos mais secos do Pleistoceno (Werneck et al. 2011, Fig. 4, p. 279). Os modelos não previram a ocorrência de Caatinga durante o último máximo glacial no trecho da costa estudado por esse trabalho, sugerindo que as diferenças climáticas entre a costa e as caatingas vem sendo impostas à biota por um tempo relativamente longo, o que reforça a distinção das formações costeiras (vegetação pioneira psamófila, floresta de dunas fixas e vegetação dos tabuleiros) da Caatinga.

Embora algumas espécies da Caatinga tenham sucesso ao explorar os ambientes costeiros, a flora como um todo tende a ser um misto de espécies de diferentes domínios fitogeográficos, que aproveitam as condições climáticas intermediárias para se estabelecer. Assim, a costa setentrional do Nordeste brasileiro parece servir, em maior ou menor grau, como um corredor ecológico entre o Cerrado de um lado e a Mata Atlântica do outro, bordejado pela Caatinga. Esse mosaico de condições ambientais permite a coexistência de espécies de caatinga, de cerrado, espécies psamófilas e até espécies florestais. Espécies de ampla ocorrência no domínio dos Cerrados (e.g. Byrsonima crassifolia, Stryphnodendron coriaceum, Curatella americana, Anacardium occidentale, Leptolobium dasycarpum e Annona coriacea), por exemplo, são plantas comuns na região costeira do Ceará (Moro et al. 2011, Tabela 1). Mas além de elementos do Cerrado há também a presença de espécies características do Domínio das Caatingas , a exemplo de Cereus jamacaru, Pityrocarpa moniliformis, Luetzelburgia auriculata e Croton blanchetianus. Por fim, temos a ocorrência de espécies de ampla distribuição, que ocorrem em diversos biomas (e.g. Ximenia americana, Tapirira guianensis, Handroanthus impetiginosus), e mesmo espécies mais características da Amazônia (e.g. Coccoloba latifolia, Tetracera willdenowiana), que se somam às plantas típicas das restingas (e.g. Ipomoea pes-caprae, Remirea maritima, Eugenia luschnathiana e Chrysobalanus icaco) para constituir a flora do LSN.

Em uma meta-análise sobre os vínculos florísticos dos "brejos de altitude" da Paraíba, Pernambuco e Sergipe com a caatinga (áreas secas) e a mata atlântica (áreas úmidas), Rodal et al. (2008) encontraram gêneros mais afeitos a locais mais úmidos e outros a locais mais secos. O litoral cearense possui solos mais profundos por sua natureza sedimentar do que no embasamento cristalino e pluviosidade em geral maior que em áreas de caatinga do interior do Ceará, possibilitando uma maior disponibilidade hídrica. Assim, encontramos tanto táxons indicados por Rodal et al. (2008) como de áreas preferencialmente úmidas quanto de áreas preferencialmente secas.

Chamaecrista, Manilkara, Tapirira, Annona, Xylopia, Himatanthus, Tabernaemontana, Protium, Cecropia, Maytenus, Hirtella, Clusia, Buchenavia e Ficus são exemplos de gêneros amostrados neste estudo que, segundo Rodal et al. (2008), são mais afeitos a áreas mais úmidas. Entretanto, a presença de Cereus, Pilosocereus, Croton, Ziziphus, Guettarda, Chloroleucon e vários outros gêneros sugeridos como mais afeitos a áreas secas mostram o caráter intermediário do local. Se o clima não é tão úmido quanto em áreas de floresta atlântica, também não é tão seco quanto em áreas de Caatinga, possibilitando uma mistura considerável de táxons.

Em relação à estrutura da vegetação, a amostragem fitossociológica mostrou uma densidade de indivíduos bastante alta (9.281,25 ind/ha), especialmente quando comparamos a vegetação estudada com a de áreas de caatinga (e.g. Alcoforado-Filho et al. 2003 - 3.810 ind/ha; Amorim et al. 2005 - 3.247 ind/ha; Lemos & Rodal 2002 - 5.827 ind/ha; Calixto Júnior & Drumond 2011 - 1.350 ind/ha) e de cerrado costeiro (Moro et al. 2011 - 1.218 ind/ha). De fato, a maior disponibilidade hídrica e os solos profundos observados na zona costeira parecem possibilitar uma maior densidade de indivíduos que na caatinga. No entanto, o alto valor da densidade em parte pode provavelmente ser atribuído à grande proporção de indivíduos de pequeno porte (Fig. 3), já que a área amostrada é uma floresta secundária. O corte seletivo de Chamaecrista ensiformis e Manilkara triflora também induz ramificações excessivas nessas plantas (muitas vezes abaixo do solo), resultando em uma densidade inflada.

As matas de tabuleiro são estrutural e fisionomicamente muito distintas do cerrado costeiro estudado por Moro et al. (2011), pois formam um dossel e a densidade e área basal são bem superiores mas ambas as formações possuem elementos florísticos em comum (e.g. Anacardium occidentale; Mouriri cearensis; Himatanthus drasticus; Byrsonima crassifolia etc.), ressaltando o fato de que as formações do LSN são compostas por espécies de diversos domínios fitogeográficos que ocuparam a Formação Barreiras e a planície litorânea.

As florestas de tabuleiro são conhecidas por terem porte baixo, mas a altura média dos indivíduos na área estudada parece estar abaixo do potencial que a comunidade pode atingir. Observamos fora das parcelas exemplares grandes de Parkia platycephala e Anacardium occidentale com até 6-9(10) m de altura e diâmetro de 30-50 cm, e amostramos algumas poucas árvores nas parcelas com até 8 m de altura, o que parece ser o porte de várias espécies de mata de tabuleiro na maturidade.

 

Conclusão

Existem ainda poucos estudos florísticos e fitossociológicos que contemplem comunidades vegetais do complexo vegetacional litorâneo do LSN, mas sugerimos que as peculiaridades climáticas, geológicas e pedológicas na área estudada a tornam uma região ecotonal, por incluir elementos florísticos de diferentes domínios fitogeográficos brasileiros. Contudo, apesar da singularidade da vegetação do LSN, não foram registradas espécies endêmicas neste estudo, o que é esperado, devido à idade relativamente recente da Formação Barreiras e dos campos de dunas - geoambientes dominantes no litoral setentrional.

No que diz respeito à conservação do complexo vegetacional do litoral setentrional, tem se observado grande conflito entre as atividades degradadoras e as iniciativas de conservação. Por um lado, os ecossistemas naturais da região sofrem grande pressão devido a empreendimentos turísticos, industriais e agrícolas; por outro lado, a região costeira tem sido prioridade para instalação de unidades de conservação no Ceará (Menezes et al. 2011). No caso específico do Pecém, a maior fonte de impactos é o Complexo Portuário e Industrial do Pecém, que poderá eliminar ou substituir em poucas décadas grande parte da cobertura vegetal em uma área onde existem apenas três áreas protegidas (APA do Pecém - 122,79 ha; Estação Ecológica do Pecém - 973 ha; e o Jardim Botânico de São Gonçalo do Amarante - 19 ha), de extensão limitada.

A condição de ecótono do LSN lhe proporciona grande potencial para o teste de hipóteses ecológicas, principalmente no que diz respeito à fitogeografia e à competição entre espécies vegetais. Levantamentos florísticos e fitossociológicos em outros setores do LSN são fortemente desejáveis, no intuito de aprimorar o conhecimento sobre a florística e a estrutura de suas comunidades vegetais. Estudos de sensoriamento remoto também são desejáveis, no intuito de melhor delimitar a distribuição do Complexo Vegetacional Litorâneo e detectar sítios prioritários para conservação biológica.

 

Agradecimentos

Os autores agradecem a Adalberto Maciel Mano de Carvalho, Sarah Sued Gomes de Souza e Regina Celli Araújo de Freitas, do herbário EAC, pelo auxílio durante as consultas e depósito de material junto ao herbário; M. F. Moro agradece à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) pelas bolsas de pós-graduação concedidas.

 

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Recebido em 17/07/2011
Aceito em 16/01/2012