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Revista Brasileira de Ortopedia

Print version ISSN 0102-3616

Rev. bras. ortop. vol.46 no.3 São Paulo  2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-36162011000300005 

ARTIGO ORIGINAL

 

Reconstrução anatômica do LCA com duplo feixe: primeiros 40 casos

 

 

Ari ZekcerI; Ricardo Soares da SilvaII; Mario Carneiro FilhoIII

IChefe do Setor de Cirurgia do Joelho da Clínica Ortopédica do Tatuapé (COT) - São Paulo, SP, Brasil
IIAssistente do Setor de Cirurgia do Joelho da Clínica Ortopédica do Tatuapé (COT) - São Paulo, SP, Brasil
IIIProfessor Afiliado-Doutor do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo - Unifesp - São Paulo, SP, Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Discutir a técnica de reconstrução anatômica do ligamento cruzado anterior (LCA) com duplo feixe, a curva de aprendizado e os resultados preliminares.
MÉTODOS: Quarenta pacientes com lesão do LCA foram submetidos à reconstrução anatômica com duplo feixe, utilizando-se do tendão semitendinoso para refazer a banda anteromedial (AM) e gracilis para refazer a banda posterolateral (PL) do joelho.
RESULTADOS: Tivemos dois casos de limitação de extensão, sendo que em um deles foi necessária a realização de artrólise artroscópica, e um caso de trombose venosa profunda.
CONCLUSÃO: A reconstrução do LCA com duplo feixe se mostrou factível, apesar de apresentar uma maior curva de aprendizado; e as vantagens da técnica proposta ainda deverão ser comprovadas se comparada com a técnica de feixe único.

Descritores: Ligamento Cruzado Anterior/lesões; Ligamento Cruzado Anterior/cirurgia; Procedimentos Ortopédicos; Complicações Pós-Operatórias


 

 

INTRODUÇÃO

As reconstruções do ligamento cruzado anterior (LCA) estão entre os procedimentos cirúrgicos ortopédicos mais realizados nos dias atuais. A década de 70 foi o apogeu das técnicas de reconstrução não anatômicas extra-articulares do LCA, como a descrita em 1975 por Lemaire(1). Em 1982, Lipscomb et al(2) começaram a utilizar os tendões da pata de ganso (semitendíneo e gracilis) para a reconstrução LCA.  Durante esses anos, outro grande avanço se deu quanto aos métodos de fixação, com destaque para Kurosaka et al(3) que, em 1987, demonstraram a eficácia do uso dos parafusos de interferência metálicos. A partir de então, outros métodos de fixação vieram a se desenvolver.

Embora os resultados da reconstrução do LCA tenham sido favoráveis, vários autores observaram a persistência da dor residual(4), da instabilidade, em especial a rotacional(5), e da evolução a médio prazo para osteoartrose, principalmente quando a reconstrução ligamentar se deu associada à meniscectomia(6-8). Iniciou-se então, no fim dos anos 90, um maior interesse no estudo da reconstrução anatômica do ligamento cruzado anterior com o uso da dupla banda, reconstruindo os feixes anteromedial e posterolateral que compõem a formação original do LCA, para uma melhor restauração não só anatômica como também da cinemática e da biomecânica do joelho. Recentes estudos biomecânicos têm sugerido que o duplo feixe pode proporcionar melhor estabilidade rotacional posterolateral do que a reconstrução com feixe único(9). Resultados de curto prazo têm sido favoráveis(9-12), porém estudos clínicos a longo prazo são necessários para determinar se o uso do duplo feixe na reconstrução do LCA apresenta melhora no prognóstico do paciente em comparação com as técnicas de feixe único(13,14).

 

MATERIAL

No período de outubro de 2007 a fevereiro de 2009, foram realizadas 40 cirurgias de reconstrução anatômica do LCA com duplo feixe, utilizando-se do tendão semitendinoso para refazer a banda anteromedial (AM) e gracilis para refazer a banda posterolateral (PL) do joelho.

A idade dos pacientes variou de 19 a 45 anos, com média de 30,4 anos. No total, foram operados 40 joelhos, dos quais 22 foram do lado direito e 18 do lado esquerdo. Foram 37 do sexo masculino e três do sexo feminino. O tempo de pós-operatório variou entre oito e 23 meses, com média de 14 meses. Foram encontradas associações de lesões meniscais em 27 joelhos, lesões osteocondrais em seis, lesões meniscais e osteocondrais em três joelhos. Foram realizadas 30 reconstruções primarias e 10 revisões.

Os enxertos foram fixados com dois Endobutton® no fêmur e dois parafusos de biointerferência (Smith & Nephew, Inc, EUA) na tíbia em 30 casos, e com quatro parafusos de biointerferência Arthex® em 10 casos. Houve associação de fixação com um agrafe em dois casos e um caso de parafuso e arruela tipo poste, nos casos com osso mais poroso.

 

TÉCNICA CIRÚRGICA

Com o paciente em decúbito dorsal horizontal, colocamos uma cuba sobre a mesa cirúrgica presa com fita adesiva de modo que o pé possa ficar apoiado e o joelho fletido entre 90º e 120º. Realizamos uma incisão ao redor de 6cm inferior à interlinha medial e cerca de 4cm medial à tuberosidade anterior da tíbia para a excisão dos tendões semitendíneo e gracilis de forma convencional e preparando-os em mesa auxiliar e deixando-os de forma dupla. Nos casos em que o gracilis ficava com diâmetro menor que 5mm, o preparávamos de forma tripla.

Realizamos os portais convencionais anteromedial e anterolateral para artroscopia do joelho. Iniciamos a inspeção articular artroscópica e tratamos as lesões associadas (meniscais e osteocondrais), assim como preparamos o leito do LCA. Com o joelho fletido a 90º, iniciamos a realização do túnel AM com a passagem do fio-guia na região posterior do sulco intercondiliano, face lateral ao redor de uma hora no joelho esquerdo e 11 horas no joelho direito. Em alguns casos, fizemos um portal acessório 1cm mais medial e cerca de 0,5cm mais distal do que o portal anteromedial para facilitar o acesso e melhorar a visualização. Passamos a broca de 4,5mm, medimos o comprimento do túnel femoral e decidimos o tamanho do enxerto e a quantidade de parede remanescente, conforme técnica convencional de fixação com Endobutton® (Smith & Nephew, Inc, EUA). Passamos a broca apropriada para passagem do semitendinoso duplo que, em geral, é de 7mm ou 8mm, com profundidade predeterminada. A seguir, o joelho é fletido ao redor de 120º e fazemos o túnel PL no fêmur, que fica ao redor de 3mm anterior e paralelo ao túnel AM ao redor de três horas no joelho esquerdo e nove horas no joelho direito, uma vez que, com o joelho fletido a 120º, os túneis femoral AM e PL ficam paralelos. Confeccionamos o túnel do feixe PL semelhante ao AM, escolhendo o tamanho do Endobutton® e o tamanho do enxerto que ficará no túnel. Uma vez realizados os túneis femorais, iniciamos os túneis tibiais. O túnel AM na tíbia é realizado com guia convencional para LCA na tíbia com 55º e é posicionado medialmente à tuberosidade anterior da tíbia. O guia é posicionado e colocado medialmente à borda posterior do corno anterior do menisco lateral, na impressão remanescente do LCA. Passamos um fio-guia de 2,5mm e, a seguir, a broca de diâmetro compatível com o semitendinoso duplo. Fazemos então a colocação do guia com 45º, ajustamos cerca de 1 a 2cm medial ao túnel AM, para confecção do túnel PL posterior e lateral a cerca de 5mm ao túnel AM, justamente medial à espinha lateral da tíbia. Passamos o fio-guia e a broca de diâmetro correspondente ao gracilis duplo ou triplo. Uma vez feitos os túneis AM + PL no fêmur e na tíbia, passamos o fio de Ethibond® nº 5 no túnel PL entre a tíbia e o fêmur e fazemos a subida do enxerto do gracilis, sendo fixado no fêmur pelo Endobutton®, ou parafuso de biointerferência. Passamos a seguir o feixe da banda AM com o semitendinoso duplo e o fixamos com um Endobutton® ou um parafuso de biointerferência no fêmur. Uma vez passados os tendões, fazemos o pré-tensionamento e a fixação na tíbia com parafusos de interferência absorvíveis com o joelho fletido entre 45º e 60º para a banda AM e entre 0º e 15º para a banda PL (Figura 1). Colocamos um dreno intra-articular no joelho e outro na região da retirada dos tendões na tíbia. Fechamos o subcutâneo e a pele. O pós-operatório segue de forma convencional para o LCA com feixe único.

 

 

COMPLICAÇÕES

Como complicações intraoperatórias, tivemos dois casos de inversão das bandas, sendo corrigidas no intraoperatório, dois casos com os parafusos de biointerferência parcialmente extrusos no fêmur e três casos de confluência dos túneis (dois na tíbia e um no fêmur).

Como complicações pós-operatórias, tivemos dois casos de limitação da extensão e um caso de trombose venosa profunda. Em apenas um caso de limitação da extensão fizemos artrólise artroscópica com bom resultado. Não tivemos nenhum caso de infecção.

 

DISCUSSÃO

A reconstrução do LCA, realizada com feixe único com tendões flexores ou ligamento patelar, tem sido usada largamente pelos cirurgiões de joelho em todo o mundo, apresentando um satisfatório índice de ótimos e bons resultados nas últimas décadas(15).

A técnica, que preconiza o uso do duplo feixe utilizando-se dos tendões flexores, iniciou-se a partir da década de 90 com o intuito de reproduzir a anatomia do LCA e de diminuir os movimentos de rotação externa da tíbia em relação ao fêmur, conseguindo, com isto, a diminuição dos movimentos rotacionais excessivos e teoricamente evitando ou retardando o aparecimento da artrose após a lesão do LCA(13,16).

Em relação à técnica cirúrgica, alguns pontos devem ser levados em consideração:

1) O posicionamento do paciente em decúbito dorsal com um suporte sob o pé, mantendo o joelho flexionado entre 90º e 120º de flexão, auxilia sobremaneira a realização dos túneis ósseos. Na maioria das vezes, os portais convencionais da artroscopia são suficientes para a visualização da realização dos túneis no fêmur. Em alguns casos, um portal acessório mais medial deve ser utilizado.

2) Os túneis devem ser realizados iniciando-se pelo feixe AM, mas o enxerto do feixe posterolateral deverá ser o primeiro a ser passado, facilitando a visualização da banda AM. Para a realização do túnel posterolateral no fêmur é importante que o joelho esteja flexionado entre 110º e 120º, para que consigamos um comprimento de parede no côndilo femoral lateral suficiente.

3) A atenção na passagem dos enxertos é muito importante, evitando troca dos feixes AM e PL da tíbia com o fêmur.

4) Devemos respeitar um espaço de pelo menos 3mm entre os túneis, evitando assim a confluência dos mesmos durante a passagem da broca. A complicação mais comum é a confluência dos túneis que pode ser aceitável na tíbia, mas não deve ser aceita no fêmur.

5) O feixe AM no fêmur deve deixar um espaço suficiente em relação ao LCP para que não haja impingement na extensão do joelho.

6) O feixe AM deverá ser fixado entre 45º e 60º de flexão e o PL entre 0º e 15º.

7) As fixações podem ser com quatro parafusos interferência ou dois Endobutton® e dois parafusos absorvíveis. Tivemos mais dificuldades nas fixações com quatro parafusos de interferência, devido à falta de disponibilidade de parafusos de diâmetro de 5mm e 6mm no Brasil.

Outro fator de dificuldade é o financeiro, uma vez que utilizamos o dobro de material de fixação se comparado com a técnica de feixe único, tornando a cirurgia mais custosa.

 

CONCLUSÃO

A técnica da reconstrução anatômica do LCA com duplo feixe é factível de se reproduzir, porém a curva de aprendizado é mais demorada que a técnica com feixe único e demanda atenção e habilidade, principalmente para o trabalho artroscópico com joelho fletido a 120º, devendo ser evitada por cirurgiões em começo de carreira.

As vantagens do duplo feixe sobre o feixe único transtibial ou transportal ainda está para ser comprovada. Temos que avaliar nossos pacientes com acompanhamento mais longo e comparativo com outras técnicas.

 

REFERÊNCIAS

1. Lemaire M. [Chronic knee instability. Technics and results of ligament plasty in sports injuries]. J Chir (Paris). 1975;110(4):281-94.         [ Links ]

2. Lipscomb AB, Johnston RK, Snyder RB, Warburton MJ, Gilbert PP. Evaluation of hamstring strength following use of semitendinosus and gracilis tendons to reconstruct the anterior cruciate ligament. Am J Sports Med. 1982;10(6):340-2.         [ Links ]

3. Kurosaka M, Yoshiya S, Andrish JT. A biomechanical comparison of different surgical techniques of graft fixation in anterior cruciate ligament reconstruction. Am J Sports Med. 1987;15(3):225-9.         [ Links ]

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Correspondência:
Dr. Alceu de Campos Rodrigues, 46 - conj. 161
04544-000 - São Paulo, SP
E-mail: ari.zekcer@uol.com.br

Trabalho recebido para publicação:07/03/2010, aceito para publicação: 20/07/2010.

 

 

Trabalho realizado na Clínica Ortopédica Tatuapé (COT) - São Paulo, SP, Brasil.