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Revista Brasileira de Ortopedia

Print version ISSN 0102-3616

Rev. bras. ortop. vol.46 no.3 São Paulo  2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-36162011000300008 

ARTIGO ORIGINAL

 

Avaliação dos resultados do reparo artroscópico de lesões do manguito rotador em pacientes com até 50 anos de idade

 

 

Alberto Naoki MiyazakiI; Marcelo FregonezeII; Pedro Doneux SantosIII; Luciana Andrade da SilvaIII; Guilherme do Val SellaIII; Ruy Mesquita Maranhão SantosIV; Adriano de SouzaIV; Sérgio Luiz ChecchiaV

IProfessor Assistente e Chefe do Grupo de Cirurgia do Ombro e Cotovelo do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo - São Paulo, SP, Brasil
IIProfessor Assistente e Assistente do Grupo de Cirurgia do Ombro e Cotovelo do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo - São Paulo, SP, Brasil
IIIAssistente do Grupo de Cirurgia do Ombro e Cotovelo do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade Ciências de Médicas da Santa Casa de São Paulo - São Paulo, SP, Brasil
IVEstagiário do Grupo de Cirurgia do Ombro e Cotovelo do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo - São Paulo, SP, Brasil
VProfessor Adjunto, Consultor Acadêmico e Membro do Grupo de Cirurgia do Ombro e Cotovelo do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo - São Paulo, SP, Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Avaliar o resultado do tratamento cirúrgico das lesões do manguito rotador (LMR) por via artroscópica nos pacientes com até 50 anos de idade.
MÉTODOS: Entre agosto de 1998 e dezembro de 2007 foram reavaliados 63 pacientes com LMR submetidos a este tratamento pelo Grupo de Ombro e Cotovelo do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Ciências Médica da Santa Casa de São Paulo - "Pavilhão Fernandinho Simonsen". Foram incluídos no estudo todos os pacientes com LMR com idade até 50 anos e com seguimento mínimo pós-operatório de 24 meses.
RESULTADOS: Pelos critérios de avaliação da UCLA, 59 (92%) pacientes tiveram resultados excelentes e bons; cinco (8%), regulares; e nenhum ruim. A amplitude média dos movimentos na avaliação pós-operatória foi de 145˚ na elevação, 47˚ na rotação lateral e de T10 na rotação medial. Os resultados insatisfatórios estiveram associados com o tempo prolongado da lesão, demonstrando uma relação estatisticamente significante.
CONCLUSÃO: O reparo artroscópico da LMR nos pacientes jovens traz resultados bons e excelentes na maioria dos pacientes.

Descritores: Manguito Rotador; Artroscopia; Estudos de Avaliação


 

 

INTRODUÇÃO

A lesão do manguito rotador (LMR) é comum na prática ortopédica, tendo prevalência que varia entre cinco e 33% da população(1-4). Há pouca informação disponível na literatura sobre este tipo de lesão quando ocorre em pacientes com idade inferior a 50 anos(5,6). Hawkins et al(7) demonstram que, dos 100 pacientes tratados cirurgicamente, apenas dois apresentavam LMR completa nesta faixa etária.

Enquanto a população com idade superior a 50 anos é mais comumente acometida e tende a apresentar lesões maiores em decorrência da degeneração tendinosa, a população jovem (inferior a 50 anos de idade) tem lesões predominantemente de etiologia traumática(1,5,6,8).

Com relação à cicatrização, pacientes mais jovens tendem a evoluir de forma mais satisfatória, embora ainda não haja evidência na literatura para sustentar esta afirmação(5).

Raros são os artigos científicos que documentem os resultados clínicos da LMR tratada por via artroscópica em pacientes jovens, os quais possuem elevada demanda funcional (profissionais e esportivas)(9,10). Alguns autores têm demonstrado resultados clínicos satisfatórios a longo prazo em pacientes com idade até 50 anos operados para o tratamento das LMR(5,7,11-14).

O objetivo deste estudo é avaliar os resultados clínicos obtidos no tratamento da LMR pela via artroscópica nos pacientes com até 50 anos de idade.

Casuística e métodos

No período de agosto de 1998 a dezembro de 2007, 89 pacientes com LMR foram submetidos a tratamento cirúrgico artroscópico pelo Grupo de Ombro e Cotovelo do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de Paulo - "Pavilhão Fernandinho Simonsen". Do total, 63 foram reavaliados por haver perda de 26 pacientes que não completaram os critérios mínimos de seguimento pós-operatório. Foram considerados critérios de inclusão neste estudo pacientes operados com rotura completa do manguito rotador com até 50 anos de idade e com seguimento pós-operatório mínimo de dois anos. Foram considerados critérios de exclusão pacientes com lesão incompleta ou completa com idade superior a 50 anos ou tempo pós-operatório inferior a dois anos.

Trinta e seis pacientes eram do sexo masculino (57,1%) e 27 do feminino (42,8%). A média de idade foi de 44,8 anos, variando de 32 a 50 anos. O tempo de dor no período pré-operatório variou de um a 192 meses, com média de 21 meses. O lado dominante foi acometido em 55 casos (87,3%), sendo dois casos bilaterais (casos 3 e 7). Entre as lesões, 23 (36,5%) foram decorrentes de trauma ou elevada demanda física no ombro acometido. Tivemos também 23 pacientes (36,5%) que praticavam esportes que utilizavam o membro superior e, destes, nove (39,1%) tiveram etiologia traumática associada (Tabela 1).

Com relação ao tamanho inicial da lesão, segundo a classificação de Hawkins et al(7), 22 eram pequenas (33,8%), 33 médias (50,7%) e 10 grandes (15,5%); nenhum caso de lesão extensa foi observado (Figura 1).

 

 

Todos os pacientes foram submetidos ao procedimento cirúrgico em posição de "cadeira de praia" sob anestesia geral associada a bloqueio anestésico do plexo braquial. Realizada inspeção artroscópica da articulação antes da reparação do manguito. Em seguida, foi abordado o espaço subacromial em que se realizou o desbridamento bursal, mobilização dos tendões e cruentização do leito ósseo da cabeça do úmero. A ressecção da porção lateral da clavícula, tenotomia e tenodese do cabo longo do bíceps foram realizados como procedimentos associados, conforme a necessidade (Tabela 1). Acromioplastia foi realizada em todos os pacientes. A sutura foi feita em fileira simples com uso de âncoras variando de uma a quatro (média de 1,5) e em nenhum caso foi feita sutura em dupla fileira (Figuras 2 e 3).

 

 

 

 

O tempo médio de imobilização no período pós-operatório, com tipoia funcional, foi de sete semanas, variando de quatro a 12 semanas.

No período pós-operatório, os pacientes foram reavaliados clinicamente pelo método da University of Califórnia at Los Angeles (UCLA)(15) e a mobilidade articular pelos parâmetros descritos por Hawkins e Bokos(8).

Na análise estatística, foi utilizado o programa SPSS (Statistical Package for Social Sciences), em sua versão 17.0, para a obtenção dos resultados e considerado intervalo de 95% como estatisticamente significante (p < 0,005). Foi aplicado o teste de Mann-Whitney para as variáveis trauma e UCLA; a análise de correlação de Spearman para tempo de sintomas e UCLA; e o teste de Kruskal-Wallis, para tamanho da lesão e UCLA.

 

RESULTADOS

Avaliando os resultados dos 63 pacientes operados, verificamos que a média do índice de UCLA foi de 33,3 pontos (21 a 35). Foram considerados excelentes em 71,4% dos casos e bons em 20,6% (Tabela 1). Em 8% dos casos, os resultados foram insatisfatórios, sendo cinco casos regulares (Tabela 1).

A amplitude média de movimento, na avaliação pós- operatória, foi de 145˚ na elevação, variando de 80˚ a 160˚; rotação lateral de 47˚, variando de 35˚ a 60˚; e rotação medial de T10, variando de L3 a T5. O seguimento médio no período pós-operatório foi de 58 meses, variando de 24 a 124 meses.

A análise estatística não evidenciou correlação estatisticamente significante entre o tamanho da lesão e a presença de trauma quando comparadas com o resultado (p > 0,050). Já o tempo de sintomas tem uma relação estatística significativa (p = 0,003) com os resultados, visto que quanto maior o tempo entre a lesão e a cirurgia piores foram os resultados.

Avaliando nossos resultados insatisfatórios, apresentamos cinco casos (8%) com índice de UCLA regular, sendo que quatro casos apresentaram nova ruptura sintomáticas e comprovação por ressonância magnética (casos 1, 4, 11 e 14) e um caso com limitação de mobilidade e sintomatologia significante (caso 12).

 

DISCUSSÃO

A rotura completa do manguito rotador em pacientes nas primeiras cinco décadas de vida é rara, porém já foi descrita por alguns autores(5,11,16). Estudos anatômicos e em cadáveres evidenciam degeneração do manguito rotador como processo normal do envelhecimento humano(11,17-19), no entanto, os fatores etiológicos da lesão do manguito rotador em pacientes jovens são diferentes em relação aos idosos(18,21). Enquanto a síndrome do impacto e degeneração tendinosa predominam nestes, nos jovens, frequentemente, há associação com mecanismos traumáticos, principalmente, luxação glenoumeral(11).

A LMR resultante de um simples episódio de trauma é rara. Cofield(21) tiveram 8% de incidência de evento traumático agudo em uma série de 510 pacientes tratados cirurgicamente para LMR. No nosso estudo, entretanto, 23 pacientes (36,5%) relataram uma etiologia traumática associada ao início dos sintomas no ombro.

Estudos de imagem utilizando ressonância magnética têm demonstrado taxas de nova ruptura após reparo artroscópico variando de 31 a 94%, sendo a maioria dos casos assintomáticos(22-24). Nesta casuística, evidenciamos nova ruptura em quatro casos (6,5%) sintomáticos e comprovados por exames de imagem.

Nestes quatro casos de nova ruptura e sintomáticos, três tiveram uma lesão primária de tamanho grande e uma média, sendo que apenas dois casos estavam associados a mecanismo traumático inicial (casos 1 e 11). O quinto caso de insatisfação (caso 12) foi observado pela limitação de mobilidade obtida no seguimento pós-operatório, no qual acreditamos que o tempo de sintomas prolongado possa ter ocasionado um resultado não favorável.

 

CONCLUSÃO

O tratamento artroscópico da LMR em pacientes com até 50 anos de idade apresenta 92% de resultados excelentes e bons quando avaliados pelo método funcional da UCLA.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência:
Rua Dr. Cesário Mota Jr., 112 - Vila Buarque
01221-020 - São Paulo, SP
Site: www.ombro.med.br
E-mail: ombro@ombro.med.br

Trabalho recebido para publicação: 17/02/2010, aceito para publicação: 21/04/2010.

 

 

Trabalho realizado no Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (DOT-FCMSCSP), Pavilhão "Fernandinho Simonsen". Diretor: Prof. Dr. Osmar Avanzi - São Paulo, SP, Brasil.