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Revista Brasileira de Ortopedia

Print version ISSN 0102-3616

Rev. bras. ortop. vol.46 no.3 São Paulo  2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-36162011000300013 

ARTIGO ORIGINAL

 

Efeito tardio e imediato da sutura em tendão extrassinovial íntegro: estudo biomecânico em ratos

 

 

Trajano SardenbergI; Sérgio Swain MullerI; Luciana Zauhy GarmsII; Francini Belluci MiduatiII

IProfessor Doutor da Faculdade de Medicina de Botucatu - UNESP - São Paulo, SP, Brasil
IIMédica, Ex-Residente de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Medicina de Botucatu - UNESP - São Paulo, SP, Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: O objetivo do estudo foi avaliar o efeito, nas propriedades mecânicas, do arranjo de reparo com material de sutura, no tendão calcâneo de rato, na ausência de processo de cicatrização.
MÉTODO: Foram utilizados 12 ratos machos da linhagem Wistar. Os animais foram submetidos à colocação de ponto de sutura tipo Kessler modificado no tendão calcâneo. Os sacrifícios foram realizados nos períodos imediato e com seis semanas de pós-operatório. As propriedades mecânicas estudadas foram: carga máxima, tensão na carga máxima e módulo de elasticidade. O tendão contralateral foi usado como controle.
RESULTADOS: A análise estatística indicou que, em relação aos períodos estudados, os valores das propriedades mecânicas não apresentaram diferenças significativas. Em relação ao controle, isto é, tendão contralateral sem sutura, os resultados demonstram que, com seis semanas de pós-operatório, houve queda dos valores do módulo de elasticidade, enquanto a carga máxima e a tensão na carga máxima não apresentaram variações significativas.
CONCLUSÃO: A colocação de material de sutura em tendão extrassinovial não lesado provocou queda do módulo de elasticidade, porém não interferiu na carga máxima e na tensão na carga máxima após seis semanas de pós-operatório.

Descritores: Suturas; Resistência à Tração; Tendão Calcâneo; Rato; Biomecânica


 

 

INTRODUÇÃO

O tratamento cirúrgico das lesões dos tendões pode ser realizado por várias técnicas de reparo, porém sempre envolve a colocação de material de sutura. O arranjo da sutura deve manter a aposição dos cotos tendinosos, preferencialmente sob condições de movimentação.

Durante a cicatrização, o fio de sutura deve provocar reação tecidual mínima e possuir resistência adequada às forças de tração. Portanto, o arranjo e o material de sutura influenciam o processo cicatricial(1-3). McDowell et al(4) demonstraram que a colocação de fio de sutura em tendão sem lesão, promove reação tecidual na interface tendão/fio que interfere nas propriedades mecânicas, histológicas e bioquímicas dos tendões intrassinoviais. Wong et al(5) demonstraram áreas de acelularidade em tendões vascularizados e avasculares, após colocação de sutura com nó em tendões de coelhos e ratos. Apesar de os tendões extrassinoviais apresentarem diferenças no processo de nutrição e cicatrização, em relação aos tendões intrassinoviais pode-se supor que também ocorra, nesses tendões, interferência nas propriedades mecânicas causada pela presença de fio de sutura em arranjo de reparo, mesmo na ausência de processo de cicatrização.

Ao realizar arranjo de sutura em tendão íntegro, isto é, sem lesão, pode-se estudar, isoladamente, sem o processo de cicatrização, o efeito do arranjo e do material de sutura no tendão.

O objetivo da presente investigação foi avaliar o eventual efeito, nas propriedades mecânicas, do arranjo de reparo com material de sutura no tendão calcâneo do rato na ausência de processo de cicatrização.

 

MÉTODOS

O estudo foi previamente aprovado pela Comissão de Ética Animal da instituição.

Foram utilizados 12 ratos machos da linhagem Wistar, com 60 dias de idade, peso médio de 242g e clinicamente sadios.

Os animais foram submetidos ao procedimento cirúrgico: sob efeito de anestesia geral efetuada com pentobarbital sódico (30mg/kg), via intraperitoneal, realizou-se acesso posterior no membro caudal esquerdo, isolamento do tendão calcâneo, passagem de ponto de sutura tipo Kessler modificado com fio de náilon 6-0, sutura de pele com monocryl 5-0 e curativo oclusivo (Figuras 1 e 2).

 

 

 

 

Não foi utilizado qualquer tipo de imobilização.

Os animais foram mortos nos períodos imediato e com seis semanas de pós-operatório.

O número de animais selecionados para o estudo biomecânico foi de seis para cada período de pós-operatório (imediato e seis semanas).

Os tendões foram dissecados, retirados (Figura 3) e fixados axialmente em garras, especialmente desenvolvidas para o estudo. A distância entre as garras foi de 6mm (Figura 4).

 

 

 

 

Os ensaios mecânicos foram realizados em máquina universal de ensaio mecânico, com velocidade de 30mm/min.

As propriedades mecânicas estudadas foram: carga máxima (N), tensão na carga máxima (MPa) e módulo de elasticidade (MPa).

Após o ensaio de tração, o computador acoplado à máquina de ensaio forneceu o diagrama carga-deformação.

O tendão contralateral foi utilizado como controle.

Os resultados foram submetidos ao estudo estatístico pela técnica de análise de variância para o modelo de medidas repetidas para amostras independentes(6).

 

RESULTADOS

As Tabelas 1, 2 e 3 apresentam as médias e desvios-padrão das propriedades mecânicas estudadas, lado operado e lado contralateral como controle, nos momentos experimentais (imediato e seis semanas de pós-operatório) e análise estatística.

 

 

 

 

 

 

As Figuras 5, 6 e 7 ilustram os resultados obtidos para cada propriedade mecânica.

 

 

 

 

 

 

A análise estatística indicou que, em relação aos períodos estudados, imediato e com seis semanas de pós-operatório, os valores das propriedades mecânicas não apresentaram diferenças significativas. Em relação ao controle, isto é, tendão contralateral sem sutura, o estudo estatístico demonstrou que, com seis semanas de pós-operatório, houve diminuição dos valores do módulo de elasticidade, enquanto na carga máxima e tensão na carga máxima não foram observadas variações significativas.

 

DISCUSSÃO

A presente investigação é limitada ao estudo mecânico do efeito da colocação de ponto de sutura em tendão sem lesão, durante os períodos imediato e com seis semanas de pós-operatório.

Os resultados obtidos indicam que o comportamento mecânico dos tendões operados permaneceu estável, isto é, os valores observados no período imediato foram semelhantes aos do período de seis semanas de pós- operatório. McDowell et al(4), em estudo semelhante com tendões flexores de galinha, observaram diminuição das propriedades mecânicas nas primeiras semanas de pós-operatório e posterior recuperação com valores próximos aos iniciais com 28 dias. É possível que, na presente investigação, tenha ocorrido fenômeno semelhante, porém com recuperação mais acentuada com seis semanas. Trata-se, porém, de hipótese, já que não foram realizados ensaios mecânicos em outros momentos, isto é, entre os períodos imediato e com seis semanas de pós-operatório. Na literatura relativa à cicatrização de tendões, há relatos de estudos do comportamento mecânico que apresentaram discreta queda até 20 dias de pós-operatório com recuperação lenta e progressiva posteriormente e mais acentuada com seis semanas. Por outro dado, há estudos nos quais se observou estabilização ou discreto aumento desde o início do reparo, seguido de aumento acentuado com seis semanas. Apesar das significativas diferenças metodológicas e de sujeitos, observados nesses estudos, o que dificulta e limita as comparações entre resultados, há indicações de que após período de seis semanas ocorra acentuada recuperação das propriedades mecânicas, quando comparado com o período imediato(7-13).

A análise dos valores das propriedades mecânicas dos tendões operados, comparadas com os controles contralaterais, indica o grau de recuperação do comportamento mecânico. Na presente investigação, os valores observados nos períodos imediato e com seis semanas de pós-operatório foram semelhantes aos do controle, e sugerem que a colocação do ponto de sutura no tendão sem lesão não interferiu de modo significativo nas propriedades mecânicas dos tendões calcâneos dos ratos. A discordância desse padrão ocorreu apenas no módulo de elasticidade, no qual se observou valores menores que o controle nos animais com seis semanas de pós-operatório. É possível que a reação biológica do tendão à presença do fio de sutura tenha interferido com o paralelismo do arranjo do colágeno do tendão e possa ter ocasionado a queda dos valores dessa propriedade mecânica, uma vez que o arranjo tecidual morfológico não paralelo está associado à maior deformação necessária para a ruptura e consequente menor módulo de elasticidade(14,15).

 

CONCLUSÃO

Nas condições dessa investigação e do rato, a colocação de material de sutura em tendão extrassinovial não lesado provocou diminuição do módulo de elasticidade, porém não interferiu na carga máxima e na tensão na carga máxima após seis semanas de pós-operatório.

 

REFERÊNCIAS

1. Sobania LC, Santos OS. Lesões dos tendões flexores. In: Pardini A, Freitas A. Traumatismos de mão. Rio de Janeiro: Medsi; 2003. p.17-350.         [ Links ]

2. Beredjklian PK. Biologic aspects of flexor tendons laceration and repair. J Bone Joint Surg Am. 2003;85(3):539-50.         [ Links ]

3. Muller SS, Sardenberg T, Danieli MV, Pizol F, Padovani CR. Avaliação biomecânica de sutura tendinosa com três tipos de fios cirúrgicos - estudo experimental em cães. Rev Bras Ortop. 2003;38(3):117-26.         [ Links ]

4. McDowell C, Marqueen TJ, Yager D, Owen JR, Wayne JS. Characterization of the tensile properties and histologic/biochemical changes in normal chicken tendon at the site of suture insertion. J Hand Surg Am. 2002;27(4): 605-14.         [ Links ]

5. Wong JKF, Cerovac S, Ferguson MW, Macgrouther DA. The cellular effect of a single interrupted suture on tendon. J Hand Surg Br. 2006;31(4):358-67.         [ Links ]

6. Johnson RA, Winchern DW. Applied multivariate statistical analysis. 4th ed. New Jersey: Prentice-Hall;1998. p. 642.         [ Links ]

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12. Winters SC, Gelberman RH, Woo SLY, Chan SS, Grewal R, Seiler JG. The effects of multiple-strand suture methods on the strength and excursion of repaired intrasynovial flexor tendons: a biomechanical study in dogs. J Hand Surg Am. 1998;23(1):97-104.         [ Links ]

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Correspondência:
Departamento de Cirurgia e Ortopedia da Faculdade de Medicina de Botucatu - UNESP
Distrito de Rubião Junior, s/n
18603-970 - Botucatu, SP
Email: tsarden@uol.com.br

Trabalho recebido para publicação: 02/07/10, aceito para publicação: 03/11/10.

 

 

Trabalho realizado no Departamento de Cirurgia e Ortopedia da Faculdade de Medicina de Botucatu - UNESP - São Paulo, SP, Brasil.