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Revista Brasileira de Ortopedia

versão impressa ISSN 0102-3616

Rev. bras. ortop. vol.47 no.2 São Paulo mar./abr. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-36162012000200020 

RELATO DE CASO

 

Osteoma osteoide no osso ilíaco: relato de dois casos

 

 

Elmano de Araújo LouresI; Bruno Fajardo do NascimentoII; Marcelo de Carvalho AmorimII; Clarice Naya LouresIII

IEspecialista em Ortopedia e Traumatologia; Supervisor do Programa de Residência Médica em Ortopedia e Traumatologia do Hospital Universitário, Universidade Federal de Juiz de Fora, Departamento de Ortopedia e Traumatologia - Juiz de Fora, MG, Brasil
IIResidente do Serviço de Ortopedia e Traumatologia do Hospital Universitário, Universidade Federal de Juiz de Fora, Departamento de Ortopedia e Traumatologia - Juiz de Fora, MG, Brasil
IIIGraduanda do Curso de Medicina da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora, Instituto de Ciências Biológicas, Departamento de Morfologia - Juiz de Fora, MG, Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

O osteoma osteoide é um tumor benigno do osso que se apresenta geralmente com dor noturna em adultos jovens, aliviada por repouso e salicilatos. Pode acometer qualquer osso, mas sua ocorrência no ilíaco é infrequente. Os autores descrevem dois casos de osteoma osteoide intramedular, localizado junto à articulação sacroilíaca, com sintomas que simulavam dor ciática e cujo diagnóstico se deu de forma tardia, apesar de o exame radiológico inicial mostrar lesão esclerótica em ambos os casos. O diagnóstico foi ratificado por tomografia computadorizada e o tratamento proposto foi a ressecção em bloco da lesão, com excisão do nidus. O diagnóstico definitivo foi confirmado pelo exame histopatológico. No seguimento de longo prazo, ambos estão assintomáticos e observou-se completa remodelação óssea no sítio cirúrgico. Os autores enfatizam as características típicas do tumor, a localização não usual, o diagnóstico diferencial e o tratamento.

Descritores: Osteoma Osteoide; Neoplasias Ósseas; Ílio; Articulação Sacroilíaca


 

 

INTRODUÇÃO

O osteoma osteoide, primariamente descrito por Jaffe em 1935, é uma lesão benigna(1), incidindo preferencialmente em adolescentes e adultos jovens, com proporção aproximada de dois homens para uma mulher(2,3). Essa lesão geralmente é pequena, não ultrapassando um centímetro de diâmetro, apresenta borda bem delimitada e habitual zona periférica de neoformação óssea reativa. Acomete, predominantemente, o esqueleto apendicular, em especial o fêmur e a tíbia(4). Sua presença já foi relata da em praticamente todos os ossos do esqueleto, inclusive crânio, face e coluna vertebral(5). Raramente ocorre na pelve: somente 1 a 3% de todos os casos estão localizados nesta região, sendo a maioria das lesões pélvicas encontradas no acetábulo(6).

Macroscopicamente, caracteriza-se por um nicho vascular friável com consistência arenosa, circundado por osso esclerótico, associado a periósteo vascular e espesso. Microscopicamente, o nicho consiste de tecido osteoide, com estroma vascular rodeado por osso denso(7).

O diagnóstico pode ser feito através de radiografia simples em 75% dos casos(8). A imagem típica é a de um nicho (nidus) que aparece na forma de pequeno foco oval ou arredondado, geralmente radiotransparente, circundado por zona de densidade variável correspondendo a esclerose óssea reativa, e, em algumas ocasiões, pode ser muito intensa e dificultar a visão do nicho. Nesses casos, a cintilografia óssea, a tomografia computadorizada ou a ressonância nuclear magnética são empregadas para determinar a localização exata do nidus(9,10).

A evolução clínica típica é caracterizada pela dor predominantemente noturna, provavelmente devida ao aumento da síntese de prostaglandinas provocado pelo tumor. O uso de aspirina e outros anti-inflamatórios não esteroides (AINES), que atuam bloqueando a síntese de prostaglandinas, proporciona, na maioria dos casos, alívio transitório, mas significativo da dor. Raramente, as lesões são indolores(11). Quanto à localização no osso, podem-se identificar lesões subperiostiais, intracorticais, endosteais e intramedulares, sendo esta última a menos frequente(12).

O presente trabalho tem como objetivo apresentar um relato de dois casos de osteoma osteoide intramedulares com localização e apresentação clínica pouco usuais. Faz-se também referência à importância do diagnóstico diferencial (nestes casos, com as lombalgias e a dor de origem ciática), comparando-se com os dados da literatura.

 

RELATO DOS CASOS

Caso 1

Paciente com 38 anos, masculino, marceneiro. Início de dor na região lombar e sacroilíaca com irradiação intermitente para a nádega direita, quadro semelhante à dor de origem ciática. Submeteu-se a tratamento clínico com fisioterapia e analgésicos, durante um ano, sem resultado satisfatório. Exames de imagem da coluna lombar normais. Havia melhora parcial com uso de anti-inflamatórios não hormonais e piora aos esforços oriundos de sua profissão, com descrição de dor noturna e insônia. Radiografia simples da bacia em AP evidenciou lesão com radio-opacidade central na asa do ilíaco com intenso halo esclerótico que se estendia até a articulação sacroilíaca. O diagnóstico foi confirmado por tomografia computadorizada. Pesquisa de HLA B-27 e demais exames laboratoriais normais (Figuras 1 e 2). O tratamento realizado foi a ressecção em bloco da lesão em fevereiro de 1998. O nidus foi localizado intraoperatoriamente por meio de radiografias. Houve remissão completa dos sintomas e no acompanhamento aos 10 anos de evolução observou-se uma completa remodelação óssea no local da operação, permanecendo o indivíduo assintomático.

 

 

 

 

Caso 2

Paciente com 46 anos, feminino, do lar. Dor constante na região lombar e sacroilíaca direita, durante oito meses, com irradiação mal definida para a nádega e face posterior da coxa direita, simulando dor de origem ciática. Tratamento clínico infrutífero durante este período, com sessões de fisioterapia e analgésicos. Exames de imagem da região lombar mostraram espondilodiscoartrose em grau leve. Radiografia simples da bacia evidenciou lesão esclerótica no ilíaco que interessava a margem da articulação sacroilíaca, sem um nidus nítido. O diagnóstico foi confirmado por tomografia computadorizada (Figura 3). Exames laboratoriais normais, inclusive o HLA B-27. O tratamento proposto foi a ressecção em bloco da lesão em maio de 2000. O nidus foi localizado intraoperatoriamente por meio de radiografias. Houve remissão completa dos sintomas e, no acompanhamento aos 10 anos de evolução, o indivíduo permaneceu assintomático, tendo ocorrido completa remodelação óssea na área operada.

 

 

DISCUSSÃO

Nos casos relatados, os pacientes consultaram vários especialistas até a confirmação do diagnóstico, comprovado pelo estudo histopatológico. A hipótese diagnóstica de osteoma osteoide como causa de dor óssea insidiosa, noturna, de longa duração e aliviada por salicilatos e AINES deve ser considerada no diagnóstico diferencial de qualquer quadro álgico envolvendo o esqueleto(13). Muitas vezes a lesão pode ser identificada somente com o exame radiográfico convencional, mas a tomografia computadorizada e a ressonância nuclear magnética geralmente são necessárias para elucidação e/ou confirmação diagnóstica e são úteis no planejamento cirúrgico(10). Em revisão bibliográfica no Medline e Lilacs latino-americano, encontraram-se apenas 14 casos relatados de osteoma osteoide localizado no osso ilíaco desde 1945 até 2010.

A cura espontânea foi bem documentada em alguns trabalhos. Observa-se gradual desaparecimento da dor e dos achados radiológicos, apesar da permanência de algum grau de esclerose óssea(14). Geralmente, a história natural da doença é imprevisível e prolongada, sendo indicada a intervenção cirúrgica(15).

A ablação por radiofrequência guiada por tomografia computadorizada é uma alternativa que vem sendo utilizada com resultados bastante promissores, especialmente em regiões de difícil acesso pela cirurgia convencional(16,17). A literatura aponta como tratamento de escolha a ressecção cirúrgica em bloco da lesão, incluindo o nidus( 18). Consequentemente, a determinação do local exato do nicho no intraoperatório é crucial para o sucesso da intervenção, o que foi realizado nestes casos com marcadores radiológicos convencionais.

 

CONCLUSÃO

A possibilidade da ocorrência de osteoma osteoide em qualquer osso e em qualquer localização destaca a imperiosa necessidade de avaliação cuidadosa dos exames de imagem e de valorização do quadro clínico. O envolvimento do osso ilíaco é bastante infrequente e o osteoma osteoide em localizações pouco usuais leva, geralmente, a um diagnóstico tardio, podendo ser confundido com outras condições patológicas. Nos casos reportados, a ressecção cirúrgica em bloco da lesão mostrou-se um método eficaz e seguro, em consonância com a literatura pesquisada.

 

REFERÊNCIAS

1. Broadfoot J, Chapman G. The use of computed tomography in diagnosis of osteoid osteoma. Australas Radiol. 1988;32(3):463-7.         [ Links ]

2. Schaefer MP, Smith J. The diagnostic and therapeutic challenge of femoral head osteoid osteoma presenting as thigh pain: a case report. Arch Phys Med Rehabil. 2003;84(6):904-5.         [ Links ]

3. Sinha S, Housden P. Discrete synchronous multifocal osteoid osteoma of the femur: a case report and review of literature. Pediatr Radiol. 2004;34(3):280.         [ Links ]

4. Radcliffe SN, Walsh HJ, Carty H. Osteoid osteoma: the difficult diagnosis. Eur J Radiol. 1998;28(1):67-79.         [ Links ]

5. Iffenecker C, Rocher P, Rabia MH, Dhina Z, Bobin S, Quillard J, et al. Osteoid osteoma of the petrous bone. Neuroradiology. 1997;39(11):821-3.         [ Links ]

6. Ishikawa Y, Okada K, Miyakoshi N, Takahashi S, Shimada Y, Itoi E, et al. Osteoid osteoma of the scapula associated with synovitis of the shoulder. J Shoulder Elbow Surg. 2005;14(3):329-32.         [ Links ]

7. Akhlaghpoor S, Aziz Ahari A, Arjmand Shabestari A, Alinaghizadeh MR. Radiofrequency ablation of osteoid osteoma in atypical locations: a case series. Clin Orthop Relat Res. 2010;468(7):1963-70.         [ Links ]

8. Swee RG, McLeod RA, Beabout JW. Osteoid osteoma. Detection, diagnosis, and localization. Radiology. 1979;130(1):117-23.         [ Links ]

9. Pratali R, Zuiani G, Inada M, Hanasilo C, Reganin L, Etchebehere E, et al. Open resection of osteoid osteoma guided by a gamma-probe. Int Orthop. 2009;33(1):219-23.         [ Links ]

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11. Lee EH, Shafi M, Hui JH. Osteoid osteoma: a current review. J Pediatr Orthop. 2006;26(5):695-700.         [ Links ]

12. Kayser F, Resnick D, Haghighi P, Pereira Edo R, Greenway G, Schweitzer M, et al. Evidence of the subperiosteal origin of osteoid osteomas in tubular bones: analysis by CT and MR imaging. AJR Am J Roentgenol. 1998;170(3):609-14.         [ Links ]

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14. Kneisl JS, Simon MA. Medical management compared with operative treatment for osteoid-osteoma. J Bone Joint Surg Am. 1992;74(2):179-85.         [ Links ]

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Correspondência:
Av. Olegário Maciel, 297/1.101
36015-350 - Juiz de Fora, MG
E-mail: loures.elmano@oi.com.br

Trabalho recebido para publicação: 24/05/2011, aceito para publicação: 03/06/2011.
Os autores declaram inexistência de conflito de interesses na realização deste trabalho

 

 

Trabalho realizado no Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora e Núcleo de Ortopedia do Centro Médico Rio Branco, Juiz de Fora, MG
Este artigo está disponível online nas versões Português e Inglês nos sites: www.rbo.org.br e www.scielo.br

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