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Revista Brasileira de Ortopedia

versão impressa ISSN 0102-3616

Rev. bras. ortop. vol.47 no.4 São Paulo  2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-36162012000400001 

EDITORIAL

 

A difícil arte de publicar

 

 

Diariamente temos centenas de ideias, desenvolvemos algumas e escrevemos pouquíssimas. Escrever trabalhos científicos é algo difícil e necessita técnica e regras para que todos os textos tenham a mesma sistemática, senão seria impossível julgar e armazenar as ideias.

Como editor da RBO é muito frequente me deparar com textos que demonstram que os autores têm material interessante e experiência sobre o tema, mas total desconhecimento da técnica e das regras que norteiam a redação dos trabalhos científicos. Os nossos editores, com muita frequência, reprovam estes trabalhos usando como justificativa a falta de metodologia adequada. Quando tentamos publicações em revistas internacionais, somos severamente julgados, e, não raramente, desistimos de tentar entender esta difícil metodologia.

Como conhecer esta metodologia, para praticá-la de forma correta?

É um exercício de autodidatismo, complementado por orientações de ex-autodidatas, aprende-se por tentativa e erro.

A RBO e a maioria das revistas publicam estas orientações, mas este assunto mereceria um curso específico e constante para aqueles que querem apresentar ao mundo as suas experiências. Já fui convidado por algumas regionais para falar sobre o assunto, tenho comparecido e sempre há interesse da audiência.

Pessoalmente, acredito que durante algum tempo esta dificuldade era estimulada pelos poucos que dominavam esta arte, para criar um degrau de diferenciação. Eram os homens que falavam javanês.

Até que se resolva estabelecer um curso constante e pelo menos anual, vamos tentar auxiliar aqueles que têm dúvidas na estruturação e na redação de trabalhos científicos, com uma simulação para exemplo.

Vamos simular que escreveremos um trabalho no qual estudaremos a preferência de homossexuais pelos times de futebol existentes, ou seja, qual o time de futebol que os homossexuais preferem.

Fixem esta ideia. Eu sempre tenho o hábito de escrever a frase que define o objetivo do trabalho no início do trabalho, para que eu, ao relê-lo, lembre do meu objetivo.

Este é o primeiro passo de um trabalho científico, ou seja, definir com clareza e objetividade quais os objetivos do seu estudo.

No nosso exemplo, podemos derivar para vários caminhos que nos levarão ao abismo da inconclusão. Precisamos definir os nossos limites. Consideraremos times de um único estado ou do País inteiro, somente homossexuais declarados ou aqueles que parecem ser, aceitaremos homossexuais masculinos e femininos, como será a declaração da preferência ou torcida?

Esta é a definição do nosso material, muito importante com seus fatores de inclusão e exclusão. Vamos então definir, para darmos um sentido prático ao nosso exemplo, que selecionaremos times de um único estado e consideraremos homossexuais que se declarem como tal e que respondam, como um único time, à pergunta: "qual é o seu time de simpatia?". Os enrustidos e os metrossexuais (até quatro relações homossexuais por ano) estarão excluídos. A objetividade neste ponto do trabalho define a sua qualidade; se começarmos com derivações, não chegaremos a nada.

O material precisa ser qualificado, idade, raça, sexo (?), profissão, ou seja, tudo que qualifique sua amostra.

Quanto mais definida a amostra, mais claro será o trabalho.

O nosso método será a resposta à pergunta direta: qual é o seu time de futebol preferido? – feita a este material definido. Não consideraremos nenhum comentário e não faremos nenhuma pergunta adicional. Qual será o número de entrevistados? Este é o tamanho de nossa amostra? Podemos calculá-lo através de uma fórmula estatística, ou estimá-lo de acordo com a nossa possibilidade, mas é fundamental que este número seja informado de forma clara para que o leitor qualifique a sua amostra.

Imagino que, pelo número de homossexuais, o cálculo estatístico facilmente ultrapassará a dezena de milhar, o que tornaria o nosso trabalho impossível. Vamos considerar 100 casos e citar este número de forma direta, talvez até no título do trabalho.

A sensibilidade dos autores e a realidade do meio profissional que trabalham definirá o tamanho da amostra, com seus limites superiores e inferiores. Os editores julgarão a oportunidade das conclusões baseadas na amostra apresentada.

Com estes dados, vamos saber qual o time de preferência dos 100 homossexuais avaliados, e em que percentual isto ocorre. Estes serão os nossos resultados.

Os comentários devem analisar todos os passos desde o desenho do trabalho até os resultados, confrontando-os com a literatura existente. Por que analisar a preferência futebolística de homossexuais? Por que definir um grupo de homossexuais? Por que uma pergunta simples? Por que 100 indivíduos? Se houver alguma distribuição percentual diferente, nos comentários é que se deve fazer a análise. Tudo deve ser respondido e suportado com a literatura, quando existir publicações a respeito.

As conclusões serão secas e definidas – o time de preferência dos homossexuais masculinos no estado de xxx é o yyy.

Neste trabalho de exemplo, vamos utilizando a amostra da nossa experiência na RBO, analisar quais os erros mais frequentes cometidos pelos autores.

- Falta de clareza do objetivo

No nosso exemplo, queremos apenas saber qual é a preferencia do grupo estudado em relação ao time de futebol, e não as razões desta preferência ou a correlação entre esta preferência e as qualidades do time escolhido, ou qualquer outra interpretação.

- Confusão entre o material e os resultados

No nosso exemplo, utilizamos um modelo bastante restrito com poucas variáveis; portanto, com um material bastante definido. Estudaremos 100 homossexuais do sexo masculino, no qual uma das poucas variáveis no grupo são as idades. As idades são parte do material e não dos resultados. A divisão por idades pode ser citada, mas sempre no material, podemos dividir os nossos resultados considerando a preferência por idade, aí então citá-los nos resultados.

- Falta de detalhamento na descrição método

No nosso exemplo, a pergunta única com uma resposta única de um único tipo de indivíduo. O método tem que ficar claro, pois quanto mais restrito o estudo mais útil será o resultado. A descrição do método não pode permitir duvidas.

- Maior abrangência dos resultados do que o material permite

O nosso resultado informará somente o que este grupo de indivíduos responderá, qualquer análise sobre o time escolhido, ou os outros times citados, ou o que esta preferência significa, nos levará a criar erros graves de interpretação.

- Comentários além do que o estudo permite

O nosso exemplo permite apenas analisarmos a preferência destes indivíduos no que se refere a times de futebol. Qualquer citação da literatura sobre o homossexualismo ou os hábitos dos indivíduos deste grupo não tem nenhuma relação com o trabalho, portanto não deve ser utilizado.

- Conclusões ampliadas

Temos que nos restringir à pergunta feita nos objetivos do trabalho e não estender as nossas conclusões.

No nosso exemplo, queremos saber qual é o time de preferência de 100 homossexuais e não quantos homossexuais existem em cada torcida. Se a maioria dos homossexuais analisados preferir um determinado time; isto não significa, por exemplo, que este time tenha a maior torcida homossexual do estado.

Estes seis exemplos são os erros mais comuns que observamos dos autores que enviam seus trabalhos a RBO, outros menos frequentes ocorrem.

Se pudermos resumir um conselho, resumiríamos na palavra objetividade. Quanto menos variáveis considerarmos, mais sólidas serão as nossas conclusões.

Quanto ao exemplo que utilizamos em São Paulo, este trabalho teria pouca ou nenhuma utilidade, pois a preferência dos homossexuais é clara por um determinado time de futebol. Talvez em outros estados.

 

Gilberto Luis Camanho