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Revista Brasileira de Ortopedia

Print version ISSN 0102-3616

Rev. bras. ortop. vol.49 no.1 São Paulo Jan./Feb. 2014

https://doi.org/10.1016/j.rbo.2013.04.006 

Artigos Originais

Efeito dos ácidos hialurônicos como condroprotetores em modelo experimental de osteoartrose

Marcello Zaia Oliveira* 

Mauro Batista Albano

Mario Massatomo Namba

Luiz Antônio Munhoz da Cunha

Renan Rodrigues de Lima Gonçalves

Edvaldo Silva Trindade

Lucas Ferrari Andrade

Leandro Vidigal

Universidade Federal do Paraná, Curitiba, PR, Brasil


RESUMO

Objetivo:

analisar os efeitos do ácido hialurônico de diferentes pesos moleculares em modelo experimental de osteoartrose em coelhos.

Métodos:

foram alojados de modo aleatório 44 coelhos da raça California, machos, em três grupos (PR, S e P) e submetidos a ressecção do ligamento cruzado anterior do joelho direito. Decorridas três semanas do procedimento cirúrgico iniciaram-se as três injeções intra-articulares semanais de ácido hialurônico nativo (Polireumin®)-PR, ácido hialurônico de cadeia ramificada (Synvisc®)-S e soro fisiológico 0,9%-P. Todos os animais foram sacrificados após 12 semanas do ato cirúrgico e os platôs tibiais dos joelhos infiltrados foram dissecados. Cortes histológicos da cartilagem das áreas de apoio com maior espessura dos platôs tibiais foram corados com Alcian Blue pH = 1,0, Alcian Blue pH = 2,5 e Azul de Toluidina para pesquisa da quantidade de proteoglicanos. A intensidade de coloração foi quantificada em um aparelho de microscopia ZeissImager Z2 Metasystems e analisada pelo software MetaferMsearch. A análise estatística consistiu no uso dos testes Kolmorov-Smirnov, análise de variância (Anova), t de Student e qui-quadrado. O nível de significância usado foi de 5%.

Resultado:

o efeito condroprotetor dos ácidos hialurônicos usados no estudo foi demonstrado quando comparado ao do grupo controle, porém, feita a comparação entre si, não houve diferença estatística quanto à condroproteção.

Conclusão:

os ácidos hialurônicos testados obtiveram efeito condroprotetor, sem diferença estatística com relação aos diferentes pesos moleculares.

Palavras-Chave: Osteoartrose; Ácido hialurônico; Ligamento cruzado anterior; Joelho; Coelhos

ABSTRACT

Objective:

to analyze the effects of hyaluronic acid of different molecular weights in an experimental model of osteoarthritis in rabbits.

Methods:

forty-four male California rabbits were divided randomly into three groups and underwent resection of the anterior cruciate ligament in his right knee. After three weeks of the surgical procedure began three weekly intra-articular injections of hyaluronic acid native (Polireumin®)-PR, hyaluronic acid branched chain (Synvisc®)-S and 0.9% saline-P. All animals were sacrificed after twelve weeks of surgery and tibial plateau infiltrated the knees were dissected. Histological cartilage of the support areas of the tibial plateaus were stained with Alcian Blue pH 1.0, Alcian Blue pH = 2.5 and toluidine blue for research on the amount of proteoglycans. The intensity of staining was quantified on a Zeiss microscope apparatus Imager Z2 MetaSystems and analyzed by software MetaferMsearch.

Results:

the effect of chondroprotetor hyaluronic acids used in the study was confirmed when compared to the control group, but the comparison made between them, there was no statistically significant difference regarding chondroprotetion.

Conclusion:

the hyaluronic acids tested had chondroprotective effect, with no statistical difference with regard to the different molecular weights.

Key words: Osteoarthritis; Hyaluronic acid; Anterior cruciate ligament; Knee; Rabbits

Introdução

A osteoartrose (OA) é a enfermidade articular mais frequente da população mundial, com prevalência superior a 10% após os 50 anos, apresenta alterações histológicas da cartilagem e pode acarretar importantes limitações funcionais.1,2 A OA é o resultado de vários fatores na disfunção articular e caracteriza-se por degeneração da cartilagem e simultânea proliferação de tecido ósseo, cartilaginoso e conectivo.3 Dentre várias modalidades de tratamento disponíveis atualmente, a terapia com injeções intra-articulares de ácido hialurônico (AH) tem demonstrado efeito benéfico no controle dos sintomas da OA do joelho.4

O AH, um polissacarídeo da família dos glicosaminoglicanos, contribui para a homeostase da articulação normal e apresenta-se em menor concentração e com peso molecular diminuído no líquido sinovial, nas articulações com osteoartrose.5,6 O AH administrado em forma de injeções intra-articulares pode potencializar os efeitos regenerativos do AH endógeno sobre a cartilagem articular, restituir a viscoelasticidade do líquido sinovial, contribuir para a síntese de AH pelos sinoviócitos e prevenir a degradação de proteoglicanos e fibras de colágeno da matriz extracelular. Estimula o metabolismo, previne a apoptose dos condrócitos e inibe a degradação condral e as respostas inflamatórias articulares.6 Atribui-se a esses efeitos da terapia com uso de AH não só a sua capacidade de amenizar os sintomas relacionados à osteoartrose, mas também a sua interferência na progressão da degeneração articular.5-7

Considerando a abrangência e as implicações da OA do joelho, compreende-se atualmente a importância do diagnóstico e tratamento em suas fases iniciais, de maneira a minimizar suas consequências.8 Por não haver até o presente momento intervenções que sejam capazes de inibir sua evolução, sobressaem as opções que permitem a redução da sua progressão. Injeções intra-articulares de diferentes tipos de AH poderiam ser usadas com essa finalidade.

Para avaliar os efeitos dessas substâncias na gonartrose, se propôs nesta pesquisa o uso de um modelo experimental de OA que se assemelha àquela observado na espécie humana. A secção do ligamento cruzado anterior (LCA) do joelho de coelho, a "soldra" (termo usado na anatomia veterinária para a articulação similar ao joelho humano em pequenos animais como coelhos e cães), mimetiza as alterações morfológicas e bioquímicas observadas na osteoartrose humana, o que permite a reprodução acurada dos resultados obtidos.9,10

O objetivo deste trabalho foi avaliar o efeito das injeções intra-articulares do AH nativo (Polireumin®, TRB Pharma, São Paulo, Brasil) e do AH com cadeias ramificadas (Synvisc®, Novartis, São Paulo, Brasil), separadamente e comparativamente entresi, na OA induzida pela secção do LCA dos joelhos de coelhos.

Materiais e métodos

Este experimento foi desenvolvido no biotério do curso de pós-graduação da Universidade Federal do Paraná (UFPR). O Comitê de Ética em Pesquisa do Setor de Ciências da Saúde da UFPR avaliou e aprovou o protocolo de pesquisa usado neste trabalho (Registro CEP/SD: 001.004 SI 06-06).

Foram usados 44 coelhos da raça California, machos, que permaneceram alojados antes e durante os procedimentos, em biotério, em gaiolas, com dois animais em cada uma, com alimentação padronizada e livre acesso à água. Foram mantidos em controle de luz (ciclo claro-escuro de 12 horas), com temperatura (22 ± 1° C), umidade e nível de ruídos mantidos estáveis, com o peso médio de 3,5 kg. Todos os animais inicialmente foram submetidos à ressecção do LCA. O joelho direito foi escolhido apenas como padronização do experimento.

O procedimento cirúrgico consistiu em anestesia pré-operatoriamente com 10 mg/kg de cloridrato de cetamin (Dopalen®) e 50 mg/kg de cloridrato de xilasina (Anasedan®), administrados na mesma seringa, de forma intramuscular (IM), no ventre dos músculos semimembranáceo e semitendíneo do membro posterior direito. Na mesma ocasião foi administrada injeção de 14.400 UI de penicilinas e 6 mg de estreptomicinas (Pentabiótico Veterinário Reforçado®- Eurofarma) como antibioticoprofilaxia e Flunamine® (Bayer), na dose de 2,2 mg/kg, por via IM, para analgesia pós-operatória.

O joelho direito foi submetido a tricotomia e a antissepsia com polivinilpirrolidona (Povidini®). Após a aplicação de campos estéreis, foi feita incisão parapatelar medial na pele e no tecido subcutâneo, seguida de capsulotomia e luxação lateral da patela (fig. 1). O joelho foi então posicionado em flexão máxima, o que permitiu a visualização do ligamento cruzado anterior. Esse foi seccionado com lâmina de bisturi n° 15 (fig. 2), a articulação foi irrigada com solução salina isotônica e procedeu-se à capsulorrafia e sutura da pele com mononáilon 4.0 (fig. 3).

Figura 1 - Foto da incisão cutânea e capsulotomia do LCA. 

Figura 2 - Foto da exposição do LCA. 

Figura 3 - Foto da sutura da pele. 

Um coelho do Grupo 2 e outro do Grupo 3 evoluíram com infecção do sítio operatório com extensão articular e foram excluídos da pesquisa.

Os coelhos permaneceram alojados nas suas respectivas gaiolas após o ato operatório, sem restrição de apoio aos membros operados. Foram distribuídos randomicamente em três grupos com 14 animais cada um. Decorridas três semanas do procedimento cirúrgico iniciaram-se as respectivas injeções intra-articulares. O volume dos ácidos hialurônicos foi de 0,3mL, similar ao usado em pequenas articulações de seres humanos. Grupo P: controle, três infiltrações com intervalo semanal de solução salina isotônica (SF0,9%); Grupo PR: três infiltrações com intervalo semanal de ácido hialurônico nativo (Polireumin®); Grupo S: três infiltrações com intervalo semanal de ácido hialurônico ramificado (Synvisc®).

Foram submetidos à eutanásia após 12 semanas do ato cirúrgico. Para isso foram previamente anestesiados como descrito anteriormente e submetidos a injeção intracardíaca de tiopental (5 mL) e cloreto de potássio (10 mL). Os platôs tibiais foram ressecados assepticamente, imersos em frasco contendo formol a 10%. Os frascos foram etiquetados para identificação dos grupos e enviados ao Serviço de Anatomia Patológica do Hospital de Clínicas.

Os platôs tibiais foram descalcificados. Os mediais na área de maior espessura da cartilagem foram submetidos a microtomia no plano sagital para confecção de três lâminas por platô tibial com o uso das colorações Alcian Blue pH = 1,0, Alcian Blue pH = 2,5 e Azul de Toluidina e inclusos em parafina.

As lâminas coradas foram enviadas ao Centro Politécnico da Universidade Federal do Paraná no Setor de Ciências Biológicas.

As lâminas histológicas foram digitalizadas automaticamente em um microscópio ZeissImager Z2 Metasystems, com o uso do software MetaferMSearch, com pós-montagem com VSlide. Então, as regiões da cartilagem foram selecionadas com a ferramenta de snapshot do software MetaViewer. As fotos foram analisadas no software ImageJ, com o uso da ferramenta de RGB Stack para as colorações Alcian Blue pH = 1,0, Alcian Blue pH = 2,5 e Color Deconvolution "RGB" para Azul de Toluidina. Posteriormente, a porcentagem de área marcada foi calculada após um threshold seguido de quantificação.11

Todas as substâncias estudadas foram adquiridas com recursos próprios dos pesquisadores, sem auxílio financeiro externo.

Os dados obtidos foram analisados estatisticamente pela análise de variância fator único (Anova) seguida por testes F e T não pareados, considerados significativos quando p < 0,05. Os gráficos foram construídos com a média de desvio padrão, com o uso do software Microsoft Excel 2007. A avaliação dos dados foi objetiva, padronizada pelo computador, e subjetiva, pelas notas dadas pelo biólogo responsável pela quantificação de coloração no teste qui-quadrado. As notas 1, 2 e 3 foram classificadas como ruim, intermediário e excelente.

Resultados

As lâminas descalcificadas e coradas com Alcian Blue pH = 1,0, Alcian Blue pH = 2,5 e Azul de Toluidina mostraram a presença de glicosaminoglicanos em maior quantidade, nos grupos PR (Polireumin®) e S (Synvisc®), quando comparados ao grupo controle P (placebo). O nível de significância usado para todas as análises foi de 5%.

A avaliação da intensidade de coloração dos cortes histológicos corados pelo Alcian Blue pH = 1,0, Alcian Blue pH = 2,5 e Azul de Toluidina pelo aparelho de microscopia ZeissImager Z2 Metasystems gerou resultados que foram dispostos em tabelas e gráficos. A seguir estão os gráficos fornecidos pelo programa, representativos da intensidade real da coloração mensurada em cada grupo das colorações citadas anteriormente.

Por meio da análise usada, cada lâmina gerou um dado dentro do conjunto de dados para cada grupo, que foram "P", "PR" ou "S", totalizando 24 lâminas/indivíduos analisados (oito para cada grupo). Para a análise estatística, a hipótese nula (H0) foi: não há diferença entre as variáveis independentes; a hipótese alternativa (H1): há diferença entre as variáveis independentes. O valor de alfa usado foi 0,05.

Os valores para cada coloração estão presentes nas tabelas 1-4. O teste Kolmorogov-Smirnov constatou que os dados têm uma distribuição normal (dados não mostrados). Sendo assim, foram usados os testes paramétricos: análise de variância (Anova) fator único e testes t de Student não pareados assumiram variâncias iguais. No teste F foi constatado que as variâncias dos grupos não diferem entre si dentro de uma mesma coloração. Nas colorações de Azul de Toluidina e Alcian Blue pH = 2,5, mas não para pH = 1,0, a Anova apontou para uma diferença estatística significativa (p < 0,05) (dados não mostrados). Sendo assim, para essas duas colorações com diferença na anova foram feitos testes t de Student. Para a coloração de Azul de Toluidina somente diferiram os grupos P versus PR (tabela 2). Para o Alcian Blue pH = 2,5 diferiram os grupos P versus PR e P versus S, mas esse último somente no unicaudal (tabela 5). Para se testar estatisticamente se de fato há diferenças entre os valores do grupo P e S, foi feita uma análise não paramétrica para variáveis categóricas. Para isso, em vez de se analisarem as lâminas com o uso do software ImageJ, foram dadas notas de 1 a 3 para a intensidade de coloração, que, quanto maior a nota, mais intensa a coloração por Alcian Blue pH = 2,5, como descrito anteriormente.12

Tabela 1 - Números da quantificação do Azul de Toluidina 

Lâminas Grupos de tratamento
P PR S
1 66,81098 72,71096 96,52204
2 15,6544 50,25438 97,83475
3 48,30333 93,63707 73,56667
4 72,81427 98,97833 64,13119
5 76,35281 90,30573 49,14048
6 83,84236 73,03511 56,87234
7 30,08729 96,62571 66,2721
8 37,47977 73,87755 46,77349

Tabela 2 - Análises do teste t de Student da tabela 1 

Informações Comparações 2 a 2  
P PR P S PR S
Média   53,9   81,2   53,9   68,9   81,2   68,9
Variância   607 277,4   608 382,3 277,4 382,3
Observações   8     8   8     8   8     8
Variância agrupada 442,7   495,1   329,8  
H0 diferença   0     0     0  
df   14     14     14  
t calculado    -2,6      -1,3       1,3  
P(T ≤ t) unicaudal     0,01       0,10       0,10  
t crítico unicaudal     1,8       1,8       1,76131  
P(T ≤ t) bicaudal     0,02       0,20       0,20  
t crítico bicaudal     2,1       2,1       2,1  

Tabela 3 - Números da quantificação do Alcian Blue pH = 1,0 

Lâminas Grupos de tratamento
P PR S
1 34,34797 68,02167 95,38368
2 89,68194 29,72821 97,26896
3 50,03834 81,88278 41,70293
4 41,21177 35,19409 68,65967
5 30,09164 34,54938 99,88211
6 38,7721 55,28347 44,2001
7 10,06779 43,21785 36,21376
8 32,54817 40,86236 29,08637

Tabela 4 - Números da quantificação do Alcian Blue pH = 2,5 

Lâminas Grupos de tratamento
P PR S
1 49,86103 61,96043 36,31462
2 37,0048 99,59628 96,2119
3 90,00677 89,87066 94,47586
4 39,21933 38,10635 63,63671
5 41,19301 99,1222 64,21882
6 35,90056 62,46105 60,2876
7 12,16039 72,56529 64,85414
8 28,92869 53,91113 29,84288

Tabela 5 - Testes t de Student da tabela 4 

Informações Comparações 2 a 2
P PR P S PR S
Média 41,8 72,2 41,8 63,7 72,2 63,7
Variância 499,7 497,8 499,7 559,1 497,8 559,1
Observações 8 8 8 8 8 8
Variância agrupada 498,7   529,4   528,4  
H0 diferença 0   0   0  
Df 14   14   14  
t calculado -2,7   -1,9   0,7  
P(T ≤ t) unicaudal 0,01   0,04   0,2  
t crítico unicaudal 1,8   1,8   1,8  
P(T ≤ t) bicaudal 0,02   0,08   0,5  
t crítico bicaudal 2,1   2,1   2,1  

O teste estatístico usado foi o de qui-quadrado de contingência (χ2). Para esse teste a H0 foi que os grupos P e S não diferem no padrão de intensidade de coloração, enquanto que na H1 os grupos P e S são diferentes no padrão de intensidade de coloração. O n usado foi de 16 (oito para cada grupo de tratamento), alfa de 0,05, grau de liberdade dois e χ2 tabelado = 5,991. O χ2 calculado foi de 32,14286 (tabela 6). Como o valor do χ2 calculado é maior do que o tabelado, rejeita-se H0 e aceita-se a hipótese alternativa.

Tabela 6 - Dados categóricos da análise do Alcian Blue pH = 2,5  

Grupos de tratamento Notas
  1 2 3
P (n=8) 62,5% (5) 12,5% (1) 25% (2)
S (n=8) 25% (2) 12,5% (1) 62,5% (5)

Nota - χ2 calculado = 32,14286.

Discussão

Estudos que comparam a eficiência dos ácidos hialurônicos de diferentes pesos moleculares foram publicados nas últimas décadas. Os dados obtidos são discrepantes por causa de seus resultados e modos de avaliação.13 Na prática clínica tem-se dado preferência ao ácido hialurônico de alto peso molecular para o tratamento da osteoartrose com base em estudos como os feitos por Atamaz et al.14 e Wobig et al.,15 que usaram o modelo de osteoartrose em humanos, compararam os ácidos hialurônicos de pesos moleculares diferentes com soro fisiológico infiltrado intra-articularmente e obtiveram resultados melhores com o uso dos ácidos hialurônicos de maior peso molecular, em critérios clínicos e não histológicos.

Entretanto, segundo Karlsson et al.,16 que estudaram ácidos hialurônicos de diferentes pesos moleculares em infiltrações intra-articulares em humanos com osteoartrose, não ocorreu diferença significa entre os ácidos hialurônicos de pesos moleculares distintos em critérios clínicos e não histológicos.

Essas controvérsias levaram à feitura deste estudo, no qual se comparou o efeito de um hialuronato de alto peso molecular (Synvisc®) com outro de baixo peso (Polireumin®). Para isso usou-se um modelo experimental de osteoartrose.

O modelo experimental em pequenos animais, que mais se assemelha à osteoartrose presente no ser humano, é a transecção do ligamento cruzado anterior no joelho de coelhos. Mimetiza as alterações morfológicas e bioquímicas observadas em seres humanos com osteoartrose.5 O coelho foi o animal escolhido por causa do fácil manejo, do menor custo e por ter vasta literatura que ratifica seu uso para os fins de obtenção de osteoartrose induzida. O prazo do estudo de 12 semanas é relativamente curto para obtenção de AO, porém é o tempo médio usado na maioria dos estudos encontrados na literatura. A anatomia do joelho do coelho é de fácil dissecção e visualização do ligamento cruzado anterior, o que facilita o procedimento cirúrgico de sua transecção.9,10,17,18

No presente estudo o manejo comos animais e a dissecção cirúrgica dos joelhos dos coelhos foram de fácil execução. A incisão da pele, a capsulotomia medial com visualização do ligamento cruzado anterior e sua transecção foram de modo rápido e prático. Os platôs dos joelhos submetidos a esse procedimento apresentaram sinais de lesão macroscópica evidente; principalmente os do grupo controle P (placebo-SF 0,9%).19

Colorações histológicas específicas para glicosaminoglicanos foram escolhidas para avaliar a cartilagem articular por causa da sua alta sensibilidade para detecção de proteoglicanos. As colorações Alcian Blue pH = 1,0, Alcian Blue pH = 2,5 e Azul de Toluidina têm grande capacidade de corar glicosaminoglicanos e proteoglicanos e foram usadas com êxito em vários estudos histológicos de cartilagem.20-23 O Alcian Blue pH = 1,0 cora glicosaminoglicanos de modo geral nos diferentes tecidos; já o Alcian Blue pH = 2,5 e o Azul de Toluidina coram especificamente proteoglicanos.

O uso do microscópio ZeissImager Z2 Metasystems e do software MetaferMsearch permitiu a mensuração da intensidade de coloração das lâminas de tecido cartilaginoso.

Obteve-se maior intensidade de coloração no grupo S (Synvisc®) e PR (Polireumin®), em relação ao grupo controle P (placebo-SF 0,9%); portanto, as lâminas descalcificadas e coradas com Alcian Blue pH = 1,0, Alcian Blue pH = 2,5 e Azul de Toluidina mostraram a presença de glicosaminoglicanos em maior quantidade, quando comparadas com as do grupo controle P (placebo). Isso confirma a hipótese de que os ácidos hialurônicos testados atuam como condroprotetores, pois preservaram uma maior quantidade de proteoglicanos no tecido cartilaginoso dos joelhos infiltrados com hialuronatos.

Não houve diferença estatística na comparação da intensidade de coloração das lâminas dos joelhos infiltrados com ácido hialurônico de alto peso com as de baixo peso molecular. A transposição dos dados encontrados neste estudo em coelhos podem não refletir do mesmo modo em seres humanos.

Paralelamente foi feita uma avaliação de intensidade de coloração por visão direta das lâminas, ou seja, examinador dependente. Para isso foi solicitado a um biólogo que avaliasse as lâminas conferindo-lhes notas. Esse profissional fez a classificação em notas das lâminas coradas com Alcian Blue pH = 2,5 em 1, 2 e 3 como ruim, intermediário e excelente. Obtiveram-se também resultados que confirmaram os resultados conferidos pelo aparelho, ou seja, houve diferença estatística entre os grupos tratados com hialuronatos quando comparados com o grupo placebo e não houve diferença estatística entre os grupos infiltrados com hialuronatos, independentemente do peso molecular. Os dados subjetivos foram avaliados pelo teste qui-quadrado.

A literatura que compara os diferentes pesos moleculares dos hialuronatos nesse modelo experimental é escassa. Shimizu et al.,24 em um estudo feito em coelhos, concluíram que os ácidos hialurônicos de baixo peso molecular foram superiores aos de maior peso molecular. Não se encontrou nesse estudo a dose usada nas infiltrações para melhor comparação com o presente estudo. No nosso estudo usaram-se aplicações intra-articulares por três semanas como usualmente é feito em seres humanos e o volume aplicado foi de 0,3 mL das três substâncias testadas (ácido hialurônico nativo, ácido hialurônico ramificado e soro fisiológico). A meia vida do ácido hialurônico nativo é de 13 horas, enquanto a do ácido hialurônico ramificado é de 36 horas. O volume de 0,3 mL foi determinado por ser essa a dose recomenda nas pequenas articulações dos seres humanos.25

Ghosh e Guidolin,26 com o uso de modelo experimental de transecção do ligamento cruzado anterior em cães, obtiveram melhores resultados com os ácidos hialurônicos de menor peso molecular. Os mesmos autores, em um estudo in vitro, encontraram melhores resultados com o uso de ácido hialurônico de maior peso molecular, o que contrariou seus estudos em animais. Seria melhor estimulador da produção de componentes da matriz celular, o que poderia ser parcialmente explicado, pois o ácido hialurônico de menor peso molecular penetraria na matriz extracelular mais facilmente, maximizaria sua concentração e promoveria sua interação com as células alvo da sinóvia. Além disso, há evidências de que a ligação das moléculas do ácido hialurônico com os receptores celulares é dependente do peso molecular.12,13

Várias são as hipóteses do mecanismo de ação dos ácidos hialurônicos na articulação não patológica dos seres humanos. O ácido hialurônico funcionaria em uma das hipóteses como modulador, por meio da interação com receptores CD44 presentes nos sinoviócitos, atuaria bioquimicamente na articulação e diminuiria a produção de citocinas, prostaglandinas e metaloproteinases.27-30 Outros efeitos comprovados do ácido hialurônico são recuperar as propriedades fisiológicas do líquido sinovial, diminuir a pressão da força peso e melhorar a distribuição do peso exercido na articulação. Portanto, apresenta importante papel nos efeitos mecânicos articulares.31

Resumindo, neste estudo os dados encontrados confirmam os achados de Karlsson et al.,16 que estudaram os efeitos dos hialuronatos de diferentes pesos moleculares em infiltrações intra-articulares, em humanos com osteoartrose; indicam não haver diferenças quanto ao peso molecular dos ácidos hialurônicos em relação à condroproteção.

Conclusão

A análise dos efeitos das substâncias ácido hialurônico nativo e ácido hialurônico de cadeia ramificada no modelo experimental de osteoartrose em coelhos demonstrou caráter condroprotetor quando comparados aos do grupo controle (SF 0,9%). Quando o ácido hialurônico de cadeia nativa e o ácido hialurônico de cadeia ramificada foram comparados entre si, não houve diferença estatística significante.

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Trabalho desenvolvido no Serviço de Ortopedia e Traumatologia, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, PR, Brasil.

Recebido: 03 de Fevereiro de 2013; Aceito: 09 de Abril de 2013

* Autor para correspondência. E-mail: marcellozaia@yahoo.com.br (M.Z. Oliveira).

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

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