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Psicologia: Teoria e Pesquisa

Print version ISSN 0102-3772On-line version ISSN 1806-3446

Psic.: Teor. e Pesq. vol.21 no.1 Brasília Jan./Apr. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-37722005000100013 

A representação, o afeto e a defesa no Projeto de uma Psicologia (1895)1

 

The representation, the affect and the defense in Project for a Psychology (1895)

 

 

Jaqueline Cristina Rossi2

Universidade Federal de São Carlos

 

 


RESUMO

Neste artigo, examinaremos a generalização proposta por Freud em Projeto de uma psicologia científica (1895) do conceito de representação afetiva de Breuer apresentado nos Estudos sobre a histeria (1895). Mais que mostrar que Freud adota o conceito de representação afetiva de Breuer, pretendemos verificar como Freud generaliza este conceito do contexto exclusivamente patológico para o contexto de funcionamento normal, a fim de explicar os mecanismos de defesa.

Palavras-chave: representação; afeto; neurônio; quantidade; defesa.


ABSTRACT

In this paper, it will be examined Freud's generalization in Project for scientific psychology of Breuer's affective representation concept presented in Studies on Hysteria (1895). More important than to showing that Freud adopts Breuer's concept of affective representation, it aims to examine how Freud generalizes this concept from a exclusively pathological context to normal psychic functioning context, in order to explain the defense mechanisms.

Key words: representation; affect; neuron; quantity; defense.


 

 

Foi Breuer quem efetivamente introduziu, em 1895, o conceito de representação afetiva, em seu capítulo teórico dos Estudos sobre a histeria, para obter uma melhor orientação na elucidação daquilo que observava nas neuroses. Ocorre que Freud ficou, em grande parte, insatisfeito com esse capítulo. A desaprovação deveu-se ao papel demasiadamente periférico que o outro atribuíra a seu mecanismo de defesa. Então, aventamos a hipótese de que uma das pretensões de Freud ao escrever, nesse mesmo ano, o Projeto de uma psicologia científica? (1895), era, precisamente, justificar aquilo de sua teoria que tinha sido relegado a uma posição secundária.

De fato, no Projeto..., Freud redefine a defesa para incluir nela a inibição (defesa normal) e a repressão (defesa patológica), e escreve a Fliess em 16 de novembro de 1895: "Tudo o que eu estava tentando fazer [ao escrever o Projeto...] era explicar a defesa" (Freud, 1986, p.137). Por isso, podemos dizer que o Projeto... encerra uma crítica a Breuer. Freud tomara emprestado deste, no entanto, o conceito de representação afetiva. Pois representação e afeto correspondem às duas noções básicas do aparelho psíquico do Projeto...: o neurônio corresponde à representação, a quantidade ao afeto. E será justamente em termos de um processo afetivo – como mostraremos aqui – que a tentativa de recalque ou de defesa receberá de Freud sua primeira formulação; o que se efetua no plano afetivo e quantitativo é que fornecerá a chave de todo o fenômeno.

Neste artigo, examinaremos em primeiro lugar a generalização do conceito de representação afetiva no Projeto... de Freud, e, assim, chegaremos ao motivo que o impulsiona a escrevê-lo: a sua noção de defesa. O objetivo é mostrar como, partindo da psicopatologia, Freud empreende uma generalização e uma ampliação do campo de aplicação do conceito de representação afetiva.

A generalização do conceito de representação afetiva

Da patologia Breuer extrai o seu conceito de representação afetiva. A novidade operada por Freud consiste em transportar este conceito para a atividade psíquica normal. É partindo da noção de representação "hiperintensa" de Breuer que Freud pretende oferecer uma concepção quantitativa dos processos psíquicos normais. Isso porque observa que a patologia apenas acentua um aspecto comum a toda atividade representacional: o quantitativo.

Sob esse ângulo, o conceito de representação afetiva corresponde às duas noções fundamentais do Projeto...: Aqui a representação é identificada virtualmente ao neurônio (N) e o afeto à quantidade (Q). A primeira coisa que decorre dessas noções é que o neurônio pode estar ocupado (besetzt) com uma quantidade de excitação (Q), ou desocupado (unbesetzt). De acordo com o princípio de inércia, a inclinação natural dos neurônios é livrar-se de Q. E esse modo de funcionamento, somado a um outro (do sistema não procurar apenas se livrar de Q, mas também conservar as vias de escoamento pelas quais possa se manter afastado da excitação – a fuga do -estímulo), constituem a função primária do aparelho. Porém, os estímulos nem sempre produzem respostas imediatas. Isso porque o sistema recebe estímulos de natureza endógena, provenientes do próprio corpo, como no caso da fome, sede ou sexualidade. Ao contrário dos estímulos externos, que podem ser evitados, os estímulos internos não oferecem possibilidade de fuga. Só desaparecem ou diminuem de intensidade após a realização de uma ação específica que os satisfaçam:

A esses estímulos [os estímulos endógenos] o organismo não pode se subtrair, como aos estímulos externos, não pode empregar a Q deles para a fuga de estímulo. Eles só cessam sob condições determinadas, que têm que ser realizadas no mundo externo. Por exemplo, a carência de alimento. Para executar essa ação, que merece ser chamada específica, é preciso uma operação que é independente de Q endógena; em geral, é maior, pois o indivíduo está posto sob condições que se podem designar como necessidade vital. (Freud, 1981, p. 341)

Portanto, se o aparelho, em função do princípio de inércia neural, descarregasse toda a quantidade de excitação de que fosse ocupado, não disporia de excitação de reserva para realizar essas ações específicas. Assim, ele é obrigado a tolerar um acúmulo de Q. Como essa tendência se opõe à tendência inicial à inércia (que implicaria na redução da Q a zero), o aparelho procura manter essa cota de Q ao nível mais baixo possível, procurando, além disso, mantê-la constante. Ora, esta é a lei da constância tal qual aparece desde os primeiros trabalhos de Freud em colaboração com Breuer.

Já agora, é preciso especificar que propriedades materiais do sistema neural tornam possível que um certo "montante de quantidade" se acumule no seu interior. Ora, se os neurônios são unidades discretas do sistema nervoso, separados uns dos outros por espaços intercelulares, o que pode haver de diferente entre um neurônio e o seu espaço intercelular em relação a Q? Pode ser uma diferença de condutividade? Sim; se o espaço intercelular é diferente do neurônio, ambos só podem diferir quanto à única característica expressa até aqui: a permeabilidade a Q. Com efeito, Freud parte da premissa de que o neurônio é uma estrutura construída de modo a maximizar a condutividade, e então, a capacidade de condução no espaço intercelular deve ser menor, oferecendo resistência à passagem de Q. Essa é a hipótese das barreiras de contato.

A hipótese das barreiras de contato é fundamental para a explicação de uma das funções mais importantes do aparelho psíquico: a memória. O seu exame leva Freud a distinguir dois tipos diferentes de neurônios. Ele sustenta que, embora a memória e a aprendizagem envolvam a modificação das barreiras de contato entre os neurônios, a "percepção" ou a receptividade à sensação parece acarretar uma capacidade de resposta, por parte do organismo, que permanece inalterada no decorrer do tempo. E, " então, é necessário atribuir uma classe de neurônios que é alterada permanentemente pela excitação e outra de inalterabilidade frente a ela (...). Assim, produziria-se a separação entre as células de percepção e as células de memória" (Freud, 1981, p. 343). Freud designa as células perceptivas como neurônios f e as mnêmicas como y. Do contrário – diz ele –, se todas as barreiras de contato fossem igualmente facilitadas, ou se tivessem o mesmo grau de resistência, o caminho da Q seria casual: " se a facilitação fosse igual em todas as partes, não se explicaria a predileção por um caminho" (Freud, 1981, p. 344). E o que caracteriza a memória é justamente a diminuição do processo de excitação pelas barreiras de contato, que o facilitam em certas vias e não em outras.

Entretanto, como as barreiras de contato em y adquiriram tais características de impermeabilidade? Freud aponta as diferenças nas magnitudes de Q que chegam a um neurônio f e a um neurônio y. Tais diferenças devem-se à disposição topográfica dos dois sistemas de neurônios. É que, do ponto de vista anatômico, o sistema f corresponderia à substância cinzenta da medula espinhal e o y à substância cinzenta do cérebro. Note-se que a distinção entre esses dois segmentos do sistema já aparece no artigo que trata das paralisias histéricas, quando separa as paralisias de projeção perifero-medulares das de representação espino-cerebrais. O sistema f, por estar ligado diretamente a Qs externas muito intensas, tem as suas barreiras de contato facilitadas ao máximo. É que se f, por um lado, é mais permeável por estar mais próximo das quantidades de excitação externa, por outro, como oferece uma primeira barreira de contato aos estímulos externos, impede a chegada de grandes quantidades a y. Estabelecido que f é um sistema que participa de um dispositivo de proteção contra a quantidade exógena, Freud introduz a dor como a expressão máxima do fracasso deste dispositivo. Relacionada à recepção de quantidades muito intensas, a dor deixa atrás de si amplas e excelentes facilitações, provocando em y um processo atípico:

Conforme nossa teoria de que Q produz facilitação, ela [a dor] deixa pra trás facilitações bastante duradouras em y, como se este tivesse sido transpassado pelo raio, facilitações que provavelmente suprimem totalmente as resistências das barreiras de contato e estabelecem aí um caminho de condução como o que há em f. (Freud, 1981, pp. 351-352)

Como se vê, por esse trecho, a dor deixa uma lembrança muito intensa atrás de si, o que significa que ela deixa um caminho neural particularmente bem facilitado. E esse caminho podendo ser mais facilmente percorrido que a maioria, o será com freqüência relativamente maior. De forma geral, esse processo consiste numa representação afetiva. Daí vem os elementos de sustentação para Freud poder apresentar a dor física como o modelo a partir do qual se deve compreender a dor psíquica. Ou melhor: a dor física será o protótipo normal para os processos psicopatológicos como um todo (Simanke, 2004). E então, partindo do funcionamento normal que se contrapõe à "lembrança" da dor – a defesa normal – Freud reencontrará, mais ou menos dedutivamente, a noção de defesa patológica.

A defesa

Depois de lidar primordialmente com os sintomas somáticos da histeria, Freud ocupa-se no Projeto... basicamente do aspecto psicológico da formação de sintoma. Já suas discussões clínicas desse período revelam que ele acreditava que havia um fundamento psicológico para os sintomas somáticos, e que estes não acarretavam simplesmente um certo dispêndio errático de afeto, mas que também as representações subjacentes a tais anormalidades somáticas eram tipicamente inconscientes. Daí destacar as representações excessivamente intensas de Breuer também na parte II do Projeto... Esta parte intitula-se "Psicopatologia" e constitui uma tentativa de explicação da gênese da histeria, por meio da defesa patológica. É desnecessário dizer que, também aqui, tudo parte do conceito breueriano de representação afetiva. Agora ele deseja examinar os sintomas histéricos como conseqüência de processos anormais de pensamento.

Não é à toa, então, que Freud abre essa seção afirmando que qualquer um que estude a histeria pode descobrir "que os pacientes obedecem a uma compulsão emanada de representações hiperintensas" (Freud, 1981, p. 394), que surgem na consciência sem qualquer conexão com os pensamentos conscientes, acompanhadas de fenômenos psicológicos e somáticos impossíveis de serem suprimidos e de caráter incompreensível e absurdo. Porém, antecipa que, se a ocorrência desses fenômenos puder ser explicada através da análise psicológica, a incompreensibilidade do fenômeno da conversão histérica revela-se só aparente. Pois a "representação hiperintensa" desvela-se como um "substituto" ou "símbolo" de uma representação reprimida e a reação do paciente histérico torna-se compreensível através desta última. Freud dá o seguinte exemplo:

Antes da análise, A é uma representação hiperintensa que surge freqüentemente no consciente, provocando lágrimas a cada aparição. O sujeito ignora por que A lhe provoca o choro, e apesar de considerar esta reação absurda não consegue impedi-la. Após a análise, descobre-se uma determinada representação B que, compreensivelmente, produz o choro. Seu surgimento ocorre, em geral, quando o sujeito se esforça por eliminá-la, mediante um trabalho psíquico complexo. O efeito de B, não sendo absurdo, pode ser explicado pelo sujeito e, portanto, combatido. B possui pontos em comum com A. São estes: ocorreu uma vivência que consistiu de A + B. Sendo A uma circunstância secundária, deduz-se que B produz um efeito duradouro. Mas, quando o evento é rememorado, tudo se passa como se A tivesse ocupado o lugar de B. (Freud, 1981, p. 396)

O "símbolo histérico", assim formado, era diferente dos símbolos normais, pelo menos em um aspecto significativo:

O cavalheiro que disputa a luva de sua donzela sabe perfeitamente que a luva extrai seu valor da donzela, e o valor que ele atribui à luva não o impede, de modo algum, de pensar nela, servindo-a de outras maneiras. O histérico que chora a partir de A, ignora, no entanto, que está sob o efeito de uma associação entre A e B, em que B não desempenha qualquer papel na vida psíquica. Nesse caso, o símbolo substitui completamente a coisa. (Freud, 1981, pp. 396-397)

Freud sustenta que sempre que surge esse tipo de compulsão devemos atribuí-la a uma "repressão". Isso implica um "deslocamento de quantidade" da representação que foi reprimida para a representação que a substituiu. "O fenômeno patológico é um processo de deslocamento similar àqueles que ocorrem nos sonhos: ele constitui assim um processo primário" (Freud, 1981, p. 397).

Os termos "processo primário" e "processo secundário" foram introduzidos na primeira parte do Projeto... Por isso, é necessário um esboço das idéias formuladas a esse respeito para que se compreenda o raciocínio de Freud.

Os "processos primários" são descritos como aqueles em que não se tem uma clara distinção entre aquilo que pertence ao "mundo interno" de representações e lembranças e o "mundo externo", cujo acesso é mediado pelos órgãos perceptivos. Esses processos ligam-se, de um modo particular, a experiências de prazer e dor. Tais experiências resultam em dois estados psíquicos diferentes: um que anseia pela repetição da experiência prazerosa, com a tendência natural de reviver sua imagem mnêmica; outro, que se caracteriza por um repúdio ou "defesa" em relação à experiência dolorosa ou à sua "imagem mnêmica". Mas, se o indivíduo não desenvolveu a capacidade de diferenciar o mundo imagético "interno" e o mundo perceptivo "externo", ele não consegue distinguir entre uma situação prazerosa ou de dor que se faça presente e um quadro imaginário dessa situação.

Durante o desenvolvimento individual surge uma organização particular no funcionamento do sistema nervoso, que se constitui por um grupo de neurônios permanentemente investidos de Q: o ego. O ego funciona para impedir a alucinação dos objetos desejados e para obter verdadeiras experiências de satisfação. Fá-lo através de um mecanismo "que é geralmente descrito como inibição" (Freud, 1981, p. 368). Freud argumenta que, quando dois neurônios adjacentes são investidos, ocorre uma facilitação da barreira de contato situada entre eles. De acordo com esse modelo, uma corrente de Q que normalmente passaria do neurônio A para o neurônio B pode ser desviada para um terceiro neurônio, C, se C for um neurônio investido adjacente à A (C é designado por "investimento colateral"). Desse modo, a corrente de A para B seria inibida. A rede de neurônios investidos que compreende o ego serve de instrumento para tais desvios ou inibições.

No caso de um acúmulo de Q endógena, o ego desvia corrente que, caso contrário, fluiria para a imagem mnêmica do objeto e produziria uma alucinação. Essa prevenção de alucinações significa que o objeto desejado só será conscientemente percebido quando estiver realmente presente. A representação do objeto percebido em w (os neurônios subjacentes à consciência) poderá então servir de critério para a realidade do objeto e para a adequação da ação específica:

Quando ocorre a inibição de um ego investido, as indicações de descarga w tornam-se, em termos gerais, indicações da realidade^, que y aprende a reconhecer biologicamente. Se o ego, no momento em que surge essa indicação de realidade, estiver em um estado de [Q endógena acumulada], fará com que a descarga se dirija no sentido da ação específica [a qual apreenderá o objeto desejado e produzirá satisfação]. (Freud, 1981, p. 372)

Então, as situações em que não há inibição pelo ego e em que se permite à Q acumulada gerar alucinações são os "processos primários". Em contrapartida, os processos que são mediados pela atividade inibitória do ego são chamados "processos secundários".

Já agora, definidos esses conceitos, pode-se acompanhar o raciocínio de Freud quando ele assinala que as representações invariavelmente aflitivas, as representações associadas ao desprazer, é que são reprimidas. Isso lhe sugeriu que a repressão poderá estar relacionada com mecanismos normais de defesa do ego para lidar com lembranças dolorosas. Em especial, Freud propôs na seção I do Projeto... – onde trata da defesa normal – que, se uma corrente de pensamento oriunda do ego se encontra com uma imagem mnêmica que suscite desprazer, o pensamento é desviado e canalizado em outra direção.

Citemos uma passagem em que Freud descreve a defesa normal. Os comentários entre colchetes são de Laplanche (1985):

Certas recordações podem, em outras circunstâncias, desencadear desprazer. O fato é inteiramente normal quando se trata de recordações recentes. Quando o traumatismo (experiência de dor) se produz pela primeira vez numa época em que o ego já está formado [e este é o ponto importante: quando o ego está presente desde o início do processo, a defesa se realiza geralmente de maneira normal] – pois os primeiros traumatismos escapam inteiramente ao ego – há liberação de desprazer, mas o ego já trabalha e faz então investimentos laterais [trata-se aí de um processo de inibição destinado a impedir que as descargas se produzam de maneira não controlada]. Quando, posteriormente, se repete o investimento do traço mnésico [ou seja, quando a lembrança penosa é reativada], o desprazer também se repete, mas as facilitações do ego já existem [o ego está habituado]; a experiência mostra que, numa segunda vez, a liberação de desprazer diminui, até o momento em que, depois de muitas repetições, ela se reduz a um sinal cuja intensidade o ego já é capaz de suportar [o essencial é, pois, que desde o primeiro desencadeamento do desprazer, tenha início um processo que conduza posteriormente a uma atenuação progressiva]. É necessário, pois, que na ocasião da primeira liberação de desprazer, haja inibição do ego, a fim de que o processo não se efetue ao modo de uma experiência afetiva primaria póstuma. (Freud, 1981, p. 406)

Essa passagem e as notas ao seu texto demonstram a analogia entre o mecanismo da defesa normal e a repressão histérica. Contudo o resultado final desta difere claramente do daquela. As recordações que deflagram a defesa normal nunca são eliminadas da consciência tão completamente que não possam ser despertadas por uma nova percepção. Na histeria, entretanto, as percepções que deveriam suscitar a lembrança reprimida despertam, no lugar desta, algum símbolo da mesma, como uma representação histérica compulsiva.

Por isso, nenhuma tentativa de explicar a "repressão" seria possível no entender de Freud se a experiência clínica não tivesse fornecido dois fatos: "Primeiro, a repressão afeta exclusivamente representações que despertam emoções penosas (desprazer) no ego; segundo, elas estão sempre ligadas à sexualidade" (Freud, 1981, p. 397). Ele propunha ser o afeto desprazeroso que gerava a repressão. Aliás, a resistência dos pacientes histéricos em preencher seus pensamentos com as "representações reprimidas", bem como a "compulsão" por meio da qual os símbolos ocorriam na consciência, poderia ser entendida igualmente como instância de operação da força "repressora".

Mas, na opinião de Freud, a repressão – o mecanismo patológico de defesa mediante o qual uma substancial quota de Q é reflexamente desviada de uma representação desprazerosa para um símbolo dessa representação – leva imediatamente a sintomas histéricos que são o símbolo do material reprimido. Donde conclui que o atraso observado na formação de sintomas na histeria deve ser devido a uma demora na repressão do trauma primário infantil. Freud explica isso ao sugerir que o desprazer que caracteriza a recordação do evento e deflagra a repressão não acompanhou a ocorrência real do evento.

Essa estranha circunstância, em que a lembrança gera mais desprazer do que a própria experiência, é relacionada por Freud ao fato de que a puberdade interveio entre o evento e a reminiscência. Pois, se uma criança é exposta a um incidente sexual antes da puberdade, ela não reage sexualmente, mas, ao lembrar-se do incidente, após a puberdade, então, este adquire significado sexual. De fato, o longo exemplo oferecido por Freud na seção II, demonstra que ele considerava o período pré-puberdade como assexuado:

Este caso nos apresenta um quadro típico de repressão histérica. Sempre constatamos que uma lembrança que é reprimida, somente com efeito retardado [nachträglich] vem a se tornar trauma. A causa primária de tal estado de coisas reside em um retardo da puberdade, se comparado ao resto do desenvolvimento do indivíduo. (Freud, 1981, p. 403)

Não é raro a lembrança de uma experiência causar emoções mais fortes que a própria experiência. No caso das experiências sexuais, a justificativa para isso era a instalação tardia da puberdade. "Todo adolescente é receptáculo de traços mnêmicos que só se tornam compreensíveis após o aparecimento de suas próprias sensações sexuais" (Freud, 1981, p. 404). Pois o fator ativo no trauma sexual é a liberação de afeto, e, os pacientes histéricos, devido a experiências e possivelmente a fatores sexuais "são predispostos a descargas sexuais precoces" (Freud, 1981, p. 404). Enfim, os acúmulos de excitação causam desprazer, sobretudo quando há dificuldade em descarregar a excitação. E assim esse acúmulo de excitação, com a recordação pós-pubertal da experiência da infância, induz a defesa.

 

Conclusões

Na discussão que acabamos de travar neste artigo vimos que Freud propôs soluções para alguns dos problemas que o motivaram a incursionar pela psicofisiologia do seu Projeto... Ele estabeleceu uma distinção entre repressão e inibição ou defesa patológica e defesa normal, e ofereceu uma explicação para o fato de que somente os traumas sexuais infantis podiam induzir a histeria. Além disso, atribuiu ao acúmulo de excitação sexual somática um papel decisivo na repressão. Mais especificamente, seu argumento enfim resultara na caracterização da histeria por uma "simbolização" devida à defesa patológica. Ou melhor, a defesa resultara da evitação de uma representação, pois ocorrera o deslocamento do afeto para uma representação substitutiva. E o ego não pudera trabalhar o desprazer associado a essa representação, porque, quando ela ocorreu, a experiência não tinha sido dolorosa, vindo a sê-la somente em virtude de uma mudança interna no investimento quantitativo da representação; assim, a defesa patológica – a repressão – não afetara percepções, mas apenas as lembranças que motivaram o sofrimento que não tinha sido eliciado na ocasião da percepção. Tivemos assim confirmada a hipótese da qual esse estudo partira (a generalização do conceito de representação afetiva para Freud explicar a defesa no Projeto...): a defesa provara, de fato, derivar-se de uma concepção intrinsecamente dinâmica da representação – isto é, uma concepção que comporta necessariamente um elemento quantitativo e afetivo.

 

Referências

Freud, S. (1986). A correspondência completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess (1887-1904). Rio de Janeiro: Imago.        [ Links ]

Freud, S. (1981). Obras completas. Buenos Aires: Amorrortu        [ Links ]

Laplanche, J. (1985). Vida e morte em psicanálise. Porto Alegre: Artes Médicas.        [ Links ]

Simanke, R. T. (2004). Uma leitura do Projeto... São Carlos: UFSCar/Departamento de Filosofia e Metodologia das Ciências.        [ Links ]

 

 

Recebido em 05.07.2004
Primeira decisão editorial em 02.11.2004
Versão final em 25.11.2004
Aceito em 03.03.2005

 

 

1 Artigo derivado de Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-graduação em Filosofia e Metodologia das Ciências da UFSCar.
2 Endereço: Rua Papa Pio XII, 145, Itapira, SP, Brasil 13974-150. E-mail: jaquerossi@hotmail.com

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