SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.22 número1Pontos de convergência entre o inferir e o argumentarEfeitos da exposição a mudanças nas contingências sobre o seguir regras índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

Compartilhar


Psicologia: Teoria e Pesquisa

versão impressa ISSN 0102-3772versão On-line ISSN 1806-3446

Psic.: Teor. e Pesq. v.22 n.1 Brasília jan./abr. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-37722006000100012 

Conhecimento morfossintático e ortografia em crianças do ensino fundamental1

 

Morphosyntatic knowledge and spelling in children of the primary education

 

 

Bianca Arruda Manchester de Queiroga2; Michelly Brandão Lins; Mirella de Andrade Lima Vasconcelos Pereira

Universidade Católica de Pernambuco

 

 


RESUMO

Este estudo investigou a relação entre consciência morfossintática e desempenho ortográfico de crianças de 2ª e 4ª séries do ensino fundamental das redes pública e particular de ensino da cidade do Recife – PE. Foram aplicadas tarefas de ditado de palavras e pseudopalavras para avaliar a ortografia, e tarefa de analogia de palavras, com justificativa, para avaliar o conhecimento morfossintático. Os resultados mostraram uma evolução entre as séries na escrita de palavras e pseudopalavras e na explicitação do conhecimento morfossintático. Uma comparação entre as médias de acertos revelou desempenho inferior dos alunos da rede pública. Encontrou-se um efeito preditor do conhecimento morfossintático sobre o desempenho ortográfico na escrita de palavras e pseudopalavras (controlando-se a variável idade). Como conclusão verificou-se que o conhecimento morfossintático favorece o domínio ortográfico, na medida em que possibilita às crianças uma maior compreensão dos processos de formação de palavras.

Palavras-chave: conhecimento morfossintático; ortografia; ensino fundamental.


ABSTRACT

This study investigated the relationship between morphosyntatic awareness and orthographic performance of children of the 2nd and 4th grades of the primary education of the public and private schools of the city of Recife- PE. Tasks of dictated words and pseudowords were applied to evaluate the orthography, and task of analogy of words, with justification, to evaluate the morphosyntatic knowledge. The results showed an evolution between the grades in the writing of words and pseudowords, and in the morphosyntatic awareness. A comparison between the averages of correctness disclosed a lowed performance of the pupils of the public school. A preditor effect of the morphosyntatic knowledge about the orthographic performance in the writing of words and pseudowords (controlling the age variable) could be noted. In conclusion it was verified that the morphosyntatic knowledge favors the orthographic domain, in as much as it enables children a better comprehension of the processes of formation of words.

Key words: morphosyntatic knowledge; orthography; primary education


 

 

Escrever de acordo com as convenções ortográficas é uma habilidade importante e necessária aos usuários competentes de uma língua, porém, sabe-se que dominar a grafia correta de uma língua como o português, não é uma tarefa fácil. Isto porque, até mesmo os adultos com elevado grau de instrução, se deparam com situações em que têm dúvidas sobre a ortografia de uma palavra. As primeiras iniciativas em se compreender a apropriação da notação ortográfica, baseavam-se no conceito de que seria lendo que se aprenderia a escrever. Acreditava-se que o domínio ortográfico acontecia, exclusivamente, por um processo de memorização, levando a uma acomodação, por parte da escola, pois considerava a responsabilidade pela aprendizagem da ortografia como sendo apenas do aprendiz (Queiroga, 2003).

Pela própria história do uso da fala e escrita, é possível perceber que a escrita não substitui a fala, ela a complementa. Dessa forma, não podemos considerar a escrita como um ato tradutório da fala. Cagliari (1997) ressalta que, a escrita resiste muito mais às mudanças do que a fala, o que gera um descompasso entre as duas. Dessa forma, a ortografia tem, segundo o autor, o papel de evitar escritas diferentes de uma mesma palavra.

Portanto, reconhece-se o caráter necessário das convenções ortográficas na busca de uma unificação da escrita, facilitando, assim, o processo comunicativo. Segundo vários autores (Cagliari, 1997; Faraco, 1992; Kato, 1995; Lemle, 1983) é possível encontrar, na língua portuguesa, várias fontes de regularidades nas convenções ortográficas; isto porque, sendo uma escrita alfabética, o português não possui natureza exclusivamente fonética, mas fonêmica-fonética com motivações contextuais, lexicais e etimológicas. Investigações realizadas em diferentes línguas demonstram e enfatizam o caráter ativo e construtivo do processo de apropriação da ortografia, compreendendo que este aprendizado envolve uma diversidade de aspectos ligados às características de cada língua, como também de aspectos ligados aos próprios aprendizes e, ainda, aspectos relacionados à condição sócio-cultural.

Dos aspectos ligados aos próprios aprendizes, as habilidades metalingüísticas constituem o interesse central desta investigação. Dentre tais habilidades destacam-se: a consciência explícita das regras ortográficas e os princípios grafo-fônicos e morfossintáticos. Nunes, Bryant e Bindman (1995), por sua vez, concordando com a idéia de que existe uma construção ativa por parte do aprendiz, argumentam que a ortografia não pode ser concebida como um processo reprodutivo, pois as crianças são capazes de gerar a grafia das palavras, inclusive de palavras que jamais escreveram através de sua concepção de língua escrita. Peters (1997), sobre a aquisição da morfossintaxe, afirma que é através desta que a criança progride do léxico para uma verdadeira linguagem.

Sendo assim, este estudo buscou investigar uma das principais fontes de dificuldades ortográficas relacionadas aos aspectos morfossintáticos do português em crianças em idade escolar, as situações de concorrência na representação fonológica do /s/ e do /z/. De modo específico, o estudo teve como objetivos: 1) Verificar a relação entre conhecimento morfossintático e o desempenho ortográfico de crianças de 2ª e 4ª séries do ensino fundamental das redes pública e particular da cidade do Recife; 2) Verificar a evolução do conhecimento morfossintático e do desempenho ortográfico entre crianças de 2ª e 4ª séries do ensino fundamental das redes pública e particular da cidade do Recife; 3) Comparar o desempenho de crianças de escola pública X escola particular.

 

Metodologia

Participaram deste estudo 120 crianças de escolas das redes pública e particular, sendo 60 crianças da 2ª série (30 de cada rede de ensino) e 60 da 4ª série (30 de cada rede de ensino). As palavras utilizadas na composição das tarefas foram escolhidas a partir da consideração de duas fontes de regularidades ortográficas de contexto morfossintático: 1) Sufixo e Desinência Verbal, e 2) Radicais. Tanto os sufixos quanto os radicais foram escolhidos por serem aqueles cujos sons poderiam, em outros contextos no português, serem representados por outras letras, o que leva a uma elevada possibilidade de acontecer erros de grafia. Isto porque cada um destes sufixos, desinência e radicais escolhidos apresentam uma situação de concorrência na representação fonológica do /s/ e do /z/.

Todos os participantes realizaram as tarefas de ditado de palavras e de pseudopalavras, aplicadas conforme o modelo de Rego e Buarque (1997), no qual as palavras ditadas são apresentadas em contexto de frases a serem completadas. Realizaram também uma tarefa de analogia de palavras (baseada em Queiroga, 2003), a qual buscou avaliar o nível de consciência dos participantes sobre os processos de formação de palavras em português (nos mesmos contextos investigados nas tarefas de ditado). Esta tarefa é constituída de duas partes, na primeira delas os participantes relatam se identificam similaridade entre as palavras apresentadas; e na segunda parte as crianças são solicitadas a justificar suas respostas, explicando tal similaridade. Para fins de análise, estas justificativas foram categorizadas em sete tipos, sendo apenas um deles revelador do conhecimento morfossintático. Os relatos foram gravados para posterior transcrição e análise.

 

Resultados e Discussões

A análise dos resultados foi realizada quantitativa e qualitativamente. Na análise quantitativa foram realizadas análises de estatística descritiva (média e desvio padrão) dos acertos dos participantes em cada tarefa investigada, análises estatística de comparação de médias (T-test) e análises de regressão.

A Tabela 1 mostra as médias totais de acerto (MD) e os desvios padrão (DP) de cada tarefa investigada em ambas as séries nas escolas públicas e particulares, respectivamente. As tarefas estão representadas da seguinte forma: Ditado de Palavras, Ditado de Pseudopalavras e Analogia de Palavras.

Uma comparação entre as médias de acertos de cada série (em cada tipo de escola), através do T-test, revelou que a 4ª série teve um desempenho significativamente superior à 2ª série na escrita de palavras e pseudopalavras tanto na escola pública (T = -2,886; p<.01) quanto na escola particular (T = -2,372; p<.05), o que indica uma evolução na apropriação da ortografia em função do avanço escolar.

A análise qualitativa foi realizada na interpretação das justificativas na tarefa de analogia de palavras. Tais justificativas foram categorizadas em sete tipos, sendo apenas um deles (tipo 2) revelador do conhecimento morfossintático: 0 = Não encontrou semelhança (a criança não identifica semelhança entre as palavras), 1 = Não soube explicar (a criança não consegue justificar a semelhança entre as palavras), 2 = Morfossintaxe (a criança explicita o conhecimento morfossintático para justificar a semelhança entre as palavras), 3 = Semântica (a criança justifica a semelhança entre as palavras de acordo com o significado), 4 = Letra por letra (a criança justifica a semelhança entre as palavras de acordo com as letras que as compõem), 5 = Outros aspectos gramaticais, incluindo invenção de regra (a criança faz uso de outra regra gramatical, que não seja a regra em questão, para explicar a semelhança entre as palavras) e 6 = Fonologia (a criança recorre à fonologia das palavras para justificar a semelhança entre elas).

A fim de se observar a distribuição dessas categorias nos grupos investigados, foi realizada uma análise descritiva de freqüência.

As Tabelas 2 e 3 mostram a distribuição das justificativas na 2ª e 4ª séries da escola pública, respectivamente.

 

 

 

 

Na escola pública, a justificativa mais utilizada pela 2ª série foi a análise letra por letra, sendo seguida da análise semântica; na 4ª série, houve predominância das justificativas semânticas, seguida da análise letra por letra.

As Tabelas 4 e 5 mostram a distribuição das justificativas na 2ª e 4ª séries da escola particular, respectivamente.

 

 

 

 

Na escola particular, a justificativa predominante na 2ª série foi a semântica, seguida da análise letra por letra; na 4ª série prevaleceu também a justificativa semântica, seguida porém de respostas relacionadas à morfossintaxe, revelando portanto que elas atentam muito mais ao sentido do que à própria estrutura de formação da palavra.

Uma comparação entre as médias totais de acertos em cada tarefa (considerando as justificativas morfossintáticas na tarefa de analogia), através do T-test, revelou um desempenho inferior dos alunos da escola pública em relação aos da escola particular nas tarefas de ditado de palavras, pseudopalavras e nas justificativas morfossintáticas (T = -4,738; p<.01), (T = -5,481; p<.01), (T = -3,499; p<.01), respectivamente.

A Figura 1 ilustra a diferença dos desempenhos entre as escolas pública e particular no que se refere à freqüência da justificativa morfossintática.

 

 

Através de uma análise de regressão, encontrou-se um efeito preditivo do conhecimento morfossintático sobre o desempenho ortográfico na escrita de palavras e pseudopalavras (controlando-se a variável idade) em ambas as escolas.

Como pode ser visto na Tabela 6, não se encontrou efeito preditivo da idade nem da tarefa de analogia sobre o desempenho na escrita dos participantes. Porém, foi encontrado um efeito preditivo das justificativas morfossintáticas sobre a escrita de palavras e de pseudopalavras. Estes resultados indicam a existência de uma conexão entre a consciência morfossintática e a escrita de palavras regulares e inventadas, sugerindo assim que o desenvolvimento do conhecimento morfossintático seja um caminho viável para promover avanços na apropriação ortográfica. Resultados semelhantes foram encontrados em estudos anteriores (Queiroga, 2003).

 

Conclusão

Nas tarefas de ditado de palavras e de pseudopalavras, que tiveram como objetivo, respectivamente, avaliar a competência ortográfica e a capacidade de uso gerativo dos princípios ortográficos estudados, foi possível observar que houve uma melhor performance dos participantes na escrita de palavras do que na de pseudopalavras. Estes dados sugerem a influência de pistas mnemônicas na escrita de grafias convencionais. Uma comparação entre as séries, buscando analisar a evolução do domínio das habilidades investigadas, revelou desempenho significativamente superior da 4ª série em relação à 2ª tanto na grafia de palavras quanto na de pseudopalavras, em ambas as escolas.

A tarefa de analogia de palavras, por sua vez, que teve como objetivo avaliar o conhecimento morfossintático, revelou que as crianças, nas séries investigadas, além de possuírem dificuldades em identificar segmentos comuns entre as palavras (os morfemas), também apresentaram problemas em justificar a ocorrência destes segmentos. Sendo assim, tais resultados sugerem que a habilidade de identificar e justificar tais segmentos parece não estar sendo trabalhada na escola pública e sendo insatisfatoriamente trabalhada na escola particular, pois as crianças parecem não estar sendo levadas a pensar sobre o conhecimento morfossintático, nem tampouco a explicitá-lo verbalmente.

Ao comparar o desempenho dos alunos de ambas as escolas observou-se diferenças significativas a favor da escola particular na escrita de palavras e pseudopalavras, assim como nas justificativas morfossintáticas. Foi também encontrado um efeito preditor do conhecimento morfossintático, explicitado nas justificativas, sobre o desempenho ortográfico na escrita de palavras. Sendo assim, percebe-se que o tipo de escolaridade parece exercer influência sobre a capacidade de utilização das pistas morfossintáticas para a grafia correta das palavras, e também na capacidade de explicitação (verbalização) desse conhecimento. Os resultados indicam que o conhecimento morfossintático é um caminho viável para promover avanços na apropriação da ortografia. Portanto, possivelmente, um ensino que privilegie ou valorize mais a compreensão desses aspectos certamente favoreceria o processo de apropriação da ortografia pelas crianças.

 

Referências

Cagliari, L. C. (1997). Alfabetização e Lingüística. São Paulo: Scipione.        [ Links ]

Faraco, C. A. (1992). Escrita e Alfabetização. São Paulo: Contexto.        [ Links ]

Kato, M. (1995). No Mundo da Escrita: Uma Perspectiva Psicolingüística. São Paulo: Ática.        [ Links ]

Lemle, M. (1983). Guia Teórico do Alfabetizador. São Paulo: Ática.        [ Links ]

Nunes, T.; Bryant, P. & Bindman, M. (1995). E quem se preocupa com a ortografia? Em M. C. Cardoso (Org.), Consciência Fonológica e Alfabetização (pp. 129-158). Petrópolis: Vozes.        [ Links ]

Peters, A. M. (1997). Estratégias na Aquisição da Sintaxe. Em P. Fletcher & B. MacWhinney (Orgs.). Compêndio da Linguagem da Criança (pp. 379-394). Porto Alegre: Artes Médicas.        [ Links ]

Queiroga, B. A. M. (2003). O Conhecimento de Aspectos Morfossintáticos da Ortografia do Português em Adolescentes e Adultos Escolarizados. Tese de Doutorado, Universidade Federal de Pernambuco, Recife.        [ Links ]

Rego, L. L. B. & Buarque, L. L. (1997). Consciência sintática, consciência fonológica e aquisição de regras ortográficas. Psicologia Reflexão e Crítica, 10(2), 199-217.        [ Links ]

 

 

Recebido em 01.06.2005
Aceito em 12.04.2006

 

 

1 Apoio financeiro do PIBIC/UNICAP (Programa Institucional de Bolsas para Iniciação Científica/Universidade Católica de Pernambuco), apresentado no V Congresso Internacional, XI Congresso Brasileiro e I Encontro Cearense de Fonoaudiologia (2003).
2 Endereço: Rua do Príncipe, 526, Departamento de Psicologia, Boa Vista, Recife, PE, Brasil 50050-900. E-mails: bianca@unicap.br; chellybrandao@ig.com.br; anlivape@ig.com.br

Creative Commons License Todo o conteúdo deste periódico, exceto onde está identificado, está licenciado sob uma Licença Creative Commons