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Psicologia: Teoria e Pesquisa

Print version ISSN 0102-3772On-line version ISSN 1806-3446

Psic.: Teor. e Pesq. vol.22 no.2 Brasília May/Aug. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-37722006000200014 

O corpo em psicanálise

 

The body in psychoanalysis

 

 

Eliana Rigotto Lazzarini1; Terezinha de Camargo Viana

Universidade de Brasília

 

 


RESUMO

Nesse trabalho pretendemos compreender os fundamentos freudianos a respeito do corpo e seus estatutos, cuja presença remonta ao nascimento da psicanálise. Evidenciamos que o momento inicial está estreitamente associado ao campo da biologia, quando Freud estabelece a cisão corpo biológico/corpo psicanalítico. Em seguida, verificamos como se dá a passagem do corpo auto-erótico e fragmentado para o corpo unificado pelo narcisismo. Isto abre espaço para a retomada do conceito de pulsão, que mais tarde desembocará no segundo dualismo pulsional, a criação da segunda tópica e o surgimento do eu corporal.

Palavras-chave: psicanálise; corpo; narcisismo; pulsão.


ABSTRACT

In this article we intend to understand the Freudian’s fundaments about the body and its statutes, whose presence dates back to the birth of psychoanalysis. We intend to show that the initial moment is closely associated to the field of biology when Freud establishes the division between biological body and psychoanalytic body. Next, we examine how the passage from self-erotic and fragmented body to unified body by narcissism takes place. This opens the way for the resumption of the pulsing concept which will flow later to the second pulsional dualism, the creation of the second topic and the emerging of the body ego.

Key words: psychoanalysis; body; narcissism; pulsion.


 

 

O corpo aparece como objeto de estudo abarcando diversos campos do saber e é visto por vários ângulos. O corpo é o corpo biológico, corpo da anatomia e dos estudos intervencionistas e invasivos da medicina; o corpo social produto das disciplinas ligadas à sociologia e psicologia social, um corpo em interação com outros corpos; o corpo estético e da beleza corporal, que ganha cada vez mais espaço na mídia e no imaginário das pessoas; o corpo antropológico; o corpo objeto de arte e admiração; o corpo histórico; e o corpo da psicanálise, corpo subjetivo, abordado pelo instrumental teórico/clínico da psicanálise.

Na psicanálise, a linguagem, como material privilegiado de trabalho, sempre teve um lugar de destaque. Isto funcionou, durante muito tempo, para que argumentassem que a psicanálise negligencia o corpo e prioriza exclusivamente o discurso. Até os seus seguidores mais fiéis e apaixonados relutaram em aceitar que havia algo mais além do circunscrito pela representação dos processos psíquicos, suprimindo desta via tudo aquilo que não podia ser representado pela palavra. Birman (1999) ressalta que alguns teóricos contemporâneos afirmam que isso contribuiu para que a linguagem e o pensamento ganhassem um espaço cada vez mais abrangente, favorecendo um certo recalcamento da problemática do corpo em seus estatutos.

De acordo com Fernandes (2002), na contemporaneidade, deve-se salientar que, principalmente na clínica,

a inclusão de novos conceitos ao arsenal do saber psicanalítico permitiu uma fertilização da escuta clínica para além das somatizações, abrindo campo para as aproximações e diferenças entre determinados quadros clínicos e as neuroses clássicas, as toxicomanias, os transtornos alimentares, as perversões etc (p. 53).

Deve-se reconhecer, ainda, segundo Fernandes, que quando a psicanálise se vê enredada com o adoecer do corpo, a tendência é realizar uma ampliação de seu campo clínico, resultando, necessariamente, em uma ampliação de seu campo teórico. No entanto, complementa a autora, se a ampliação do campo teórico permitiu a inclusão do corpo, esse corpo de que trata a psicanálise num momento inicial é, prioritariamente, o corpo doente. Ocorre, segundo Fernandes, que, na atualidade, a presença do corpo na psicanálise vai muito além da queixa somática, isto é, o corpo se faz presente também pelo negativo. Dessa forma, o corpo que é objeto da psicanálise ultrapassa o somático e constitui um todo em funcionamento coerente com a história do sujeito.

Podemos perguntar do que realmente estamos falando quando dizemos corpo em psicanálise. Seria esse o corpo da anatomofisiologia? Ou estamos falando de uma representação psíquica de corpo? Ou ainda, de uma imagem inconsciente de corpo? Sob quais condições se dá a passagem do corpo somático da biologia para o corpo erógeno, suposto corpo da psicanálise?

Gantheret (1971) afirma, que todas as considerações indicativas deixam entrever uma tripla característica ligada à questão do corpo em psicanálise. Este é, ao mesmo tempo, marginal e fronteiriço, fundador e constitutivo, bem como encoberto e descoberto. É sob todas estas formas que o corpo marca presença. E essa presença remonta ao nascimento da psicanálise, em que esta foi confrontada com a questão do corpo e, por extensão, levada a se definir na teoria e na prática. Segundo Gantheret, é essencial constatar que o momento fundador do passo que Freud dá em direção à existência do inconsciente se fez a propósito do corpo ou, mais exatamente, de uma linguagem sobre o corpo. Gantheret salienta ainda que a inclusão do corpo não pretendeu ser um projeto deliberado de Freud e que, de fato, o corpo só fez sua aparição no momento em que ele se dá conta do inconsciente.

Constatamos que toda a teoria freudiana da sexualidade se desenvolve devido a uma metapsicologia que se confronta com a biologia, estabelecendo o campo psicanalítico em oposição ao campo biológico. Segundo Mandet (1993), o corpo a que se refere a psicanálise é o corpo enquanto objeto para o psiquismo, é o corpo da representação inconsciente, o corpo investido numa relação de significação, construído em seus fantasmas e em sua história.

Assoun (1995), por seu lado, postula que não se pode tratar o corpo como um conceito psicanalítico específico. Para o autor, em Freud, o corpo aparece como Körper (corpo real, objeto material e visível que ocupa um espaço e pode ser designado por uma certa coesão anatômica), como Leib (corpo captado na sua própria substância viva, o que não deixa de ter uma conotação metafísica: não é somente um corpo, mas o Corpo, princípio de vida e de individuação) e como Soma (corpo somático [somatisches], adjetivo que permite evitar os efeitos dos dois outros substantivos, descrevendo os processos determinados que se organizam segundo uma racionalidade própria). Assoun, seguindo o pensamento freudiano, diz que o corpo em psicanálise se anuncia por um paradoxo:

Ele designa ao mesmo tempo uma profundeza, um dentro insondável, e uma superfície, um horizonte de visibilidade insuperável. No plano terminológico, essa distinção recorta, em parte, a do Leib e do Körper. (...), no Leib relativo aos mitos do nascimento, ou ainda como fonte das excitações internas (...). O Körper em referência aos processos somáticos, ao próprio corporal. Esse paradoxo se resolve por um meio termo que relaciona a profundeza, de certa forma, com a superfície, a saber, o sintoma: aquilo que goza dos poderes do Leib e que modifica o Körper. Os sintomas do corpo recaem, assim, na corporificação do sintoma, processo de encarnação que a histeria descreve de maneira privilegiada. O essencial é determinar de que maneira o corpo intervém nessa dialética do sintoma, da qual o corpo é um momento necessário, mas não um princípio constituinte (Assoun, 1995, p. 177).

Tal diversidade semântica aludida por Assoun possui importantes ressonâncias no discurso freudiano sobre o corpo, como veremos na seqüência.

Segundo Mandet (1993), o corpo biológico, corpo Soma, em seu destino, tornar-se-á uno com o corpo erógeno, ainda que, apesar de ser uno, não signifique que constituirá uma unidade. Como o corpo impõe permanentemente ao psíquico o trabalho de ser representado, esse mesmo processo vai devolver ao corpo biológico sua dimensão de pertencente a uma realidade exterior ao eu. O corpo Soma não só constitui um corpo erógeno como a própria erogeneidade garante as funções somáticas do corpo.

Freud, ao articular uma teoria da sexualidade, inicia uma verdadeira revolução na concepção de corpo, revolução esta que, se estruturando a partir do corpo Soma, corpo biológico, corpo da pura necessidade, vai desembocar na noção de corpo erógeno, inserido na linguagem, na memória, na significação e na representação, ou seja, corpo próprio da psicanálise.

Vamos percorrer na seqüência, a trajetória do pensamento freudiano concernente ao conceito de corpo. O momento inicial está estreitamente associado ao campo da biologia, quando Freud estabelece a ruptura metodológica, uma cisão opõe corpo biológico e o corpo psicanalítico (1893/1987). Em seguida, podemos observar a passagem importante que se dá do corpo auto-erótico e fragmentado (1905b) para o corpo unificado pelo narcisismo (1914b/2004). Isso abre espaço para a retomada do conceito de pulsão (1915/2004), que mais tarde (1920/1976) desembocará no segundo dualismo pulsional, a criação da segunda tópica e o surgimento do eu corporal (1923/1976).

O corpo sintoma da histeria

Para Mezan (1998), a incidência dos valores morais sobre a personalidade de cada indivíduo interessou Freud. No final do século XIX e início do século XX, as doenças nervosas mostravam comportamentos estranhos, sintomas considerados incompreensíveis do ponto de vista da medicina. Freud, ao começar a questionar a razão de tais sintomas, acabou desenvolvendo um método de trabalhar com estes pacientes.

Desde o início, Freud se preocupa em compreender o funcionamento da psique humana, ou seja, propõe-se a construir uma teoria capaz de dar conta da origem das manifestações das doenças, ditas incompreensíveis para a medicina da época. Também propõe mostrar a eficácia do método que tinha inventado – a situação analítica. Em Freud, o inconsciente, a interpretação, a resistência e a transferência são considerados essenciais para que um trabalho possa ser chamado de psicanálise como se depreende das próprias palavras de Freud (1914a/1974):

Entre os outros novos fatores que foram acrescentados ao processo catártico como resultado do meu trabalho e que o transformou em psicanálise, posso mencionar em particular a teoria da repressão e da resistência, o reconhecimento da sexualidade infantil e a interpretação e exploração de sonhos como fonte de conhecimento do inconsciente (pag. 25).

A psicanálise seria ainda definida pelo sexual, não no sentido biológico, mas sim pelo sentido erótico. Já em 1893-1895/1987, nos Estudos sobre a histeria, Freud afirmava que o corpo da histérica (ou a própria histeria) só poderia ser definido se fosse considerada não somente a anatomia (as paralisias, as afasias), mas a condição da representação corporal presente no imaginário social.

Quando Freud decide que as histéricas, acusadas de mentirosas, têm o direito de falar e leva a sério o que elas dizem, ele constitui um novo campo. Daí se apercebe que as pessoas, ao falarem, dizem mais do que imaginam estar dizendo. Cria, então, o conceito-chave de inconsciente, e percebendo que este obedece a uma certa lógica; a partir daí, concebe a noção de repressão ou recalque.

Freud observa que as coisas esquisitas de que as pessoas se queixam na verdade têm um sentido, uma motivação desconhecida para o indivíduo (inconsciente), porque a cadeia causal que conduziu até a formação dessa manifestação se encontra rompida. Desta forma, o que aparece são pedaços dispersos. Freud se vê às voltas com as conseqüências lógicas das noções que vai construindo para dar conta dos fenômenos, aparentemente estranhos e sem sentido, com os quais se depara. Contudo, aos poucos, é confrontado com o fato de que boa parte das idéias reprimidas têm um significado sexual. Daí a perceber que a vida sexual das pessoas, no final do século XIX, é motivo de grande infelicidade é apenas um passo. E é exatamente a sexualidade que se encontra na posição de ser recalcada e de continuar produzindo efeitos a partir de sua localização, isto é, a partir do inconsciente.

Durante anos Freud trabalhou com as histéricas, insistindo em que elas deveriam se lembrar de suas experiências anteriores para se livrar de seus sintomas. Nessa época, a análise partia de um interrogatório a respeito do que estava mais presente na consciência. O fazer psicanalítico consistia em fazer o paciente falar, algumas vezes de forma insistente, até que Freud percebeu que mesmo na fala espontânea as lembranças também poderiam vir. A palavra que se fazia presente no trabalho de psicanálise, sempre dizia respeito, mesmo que de forma disfarçada, a algo da sexualidade, portanto, proveniente do corpo. A palavra na histeria mostrou a Freud um certo modo de organização da sexualidade, isto é, a cena da qual o paciente é levado a se lembrar, e que não lhe é indiferente, narra sempre uma experiência sexual. Mas não qualquer experiência, mas uma experiência precoce, na qual o sujeito é imaturo do ponto de vista sexual.

Ao trabalhar com as histéricas, Freud percebe que a fala delas afeta o seu corpo. O que a histérica mostra é algo de si, em seu corpo, pela via do sintoma. É o sintoma que faz o diálogo; o que sobressai desse diálogo, desse discurso, é a idéia da presença de um conflito inconsciente que remete a um desejo de ordem sexual. O corpo da histérica, evidenciado pelo fenômeno da conversão, tende a expressar o psíquico, obedecendo à lei do desejo inconsciente, coerente com a história do sujeito. De acordo com Assoun (1995), a conversão "é a mutação em corporal dessa soma de excitação que é liberada de sua repressão e tem por efeito neutralizá-la" (p. 178). É aí que Freud vai localizar aquilo que é característico da histeria.

Pensar sobre a origem dos sintomas na histeria começa a revelar a Freud que as cenas originárias ou cenas traumáticas, que lhe eram reveladas por suas pacientes tinham cunho sexual, ocorriam num período de imaturidade sexual, isto é, experiências precoces, na qual o sujeito é imaturo do ponto de vista sexual. Em Fragmento da análise de um caso de histeria (1905a[1901]/1972) – caso Dora, surge para Freud a idéia da sexualidade infantil na determinação dos sintomas e fantasias histéricos. O corpo entra em cena na psicanálise fazendo sua relação com o sintoma.

É na prática clínica com as histéricas, portanto, que Freud começa a pensar sobre o estatuto do corpo na psicanálise. O discurso freudiano passou a afirmar que o corpo na histeria não poderia mais ser confundido com o corpo da medicina e da anatomia, nem ser regulado por seus estatutos. Com isso, Freud abre uma ruptura com a medicina da época ao instituir realidade ao corpo da histérica, que desta forma, foi transformado em paradigma, ao delinear uma nova leitura sobre a corporeidade.

Do trabalho clínico de Freud com as histéricas surge, ainda de uma forma incipiente, o corpo psicanalítico – marcado pelo desejo inconsciente, sexual, e atravessado pela linguagem – que se contrapõe ao corpo biológico – constituído pelos órgãos e sistemas funcionais, o organismo físico. O corpo da psicanálise, que evidencia a sexualidade, traz à tona, posteriormente, uma lógica dada pelo erotismo e regulada pelo desejo.

Desta forma, o corpo em psicanálise já não pode ser definido somente pelo conceito de organismo, nem pelo conceito puro de somático. Com isso, talvez já se possa afirmar não que o sujeito tem um corpo, mas que o sujeito é um corpo, pois se está falando de algo que é uno na subjetividade e na corporeidade, uma articulação singular.

O corpo pulsional

Com a leitura freudiana de interpretação da sexualidade das histéricas, foi sendo construída uma metapsicologia do corpo em Freud. Assoun (1995) considera que o conceito princeps da metapsicologia freudiana é a pulsão (Trieb), designado por Freud como conceito fundamental e definido como limite entre o psíquico e o somático. De acordo com Assoun (1995), a pulsão é o conceito principal porque fundamenta a metapsicologia. Segundo ele, o que se encontra na pré-história da pulsão é a excitação e o próprio corpo como fonte da excitação. Corpo e excitação se situam , nesse sentido, aquém do objeto metapsicológico. Para Assoun, em Freud, "o corpo não é causa de nada, nem da pulsão, nem do prazer de órgão, mas sem a corporeidade nada seria possível" (p. 182).

Como já ressaltado, para a psicanálise, a sexualidade tem um lugar marcante na constituição do sujeito. Essa sexualidade, que em Freud tem uma multiplicidade de significados e não um sentido único, seria não só da ordem do biológico, mas também da linguagem. Birman (1999) afirma que, em Freud, a sexualidade se inscreve na fantasia, sendo esse o campo do erotismo, onde a fantasia é a matéria-prima da sexualidade. Se em Freud, a fantasia se materializa no registro do corpo, não se pode, porém, esquecer que o corpo aqui considerado não é o somático, mas sim o corpo que ultrapassa este registro e é marcado pelas pulsões. Birman acrescenta que, quando Freud revê sua teoria da sedução, não mais trazendo o trauma real, ele desloca o erotismo para a fantasia inaugurando uma outra visão sobre a sexualidade, libertando-a da forma como era vista desde então.

Uma grande revolução na metapsicologia freudiana se deu quando Freud postulou a existência da sexualidade infantil dizendo que as crianças, e não apenas os adultos, também seriam sexualizadas, na medida em que também seriam permeadas pelas pulsões sexuais. No primeiro parágrafo dos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, Freud introduz a palavra libido, fazendo referência àquilo que designa a necessidade sexual. No parágrafo seguinte, Freud traz a sexualidade para a infância afirmando, claramente, que é falsa a idéia de que a sexualidade estaria ausente na infância, manifestando-se apenas na puberdade com o objetivo precípuo da união sexual. Isso causou uma extrema reviravolta na questão da teoria da sexualidade infantil.

A teoria sobre a sexualidade infantil, essencial para se pensar a constituição do psiquismo, não se deu sem pressupostos. Freud, inicialmente, não admite a possibilidade de uma sexualidade infantil. Contudo, ao ouvir a histérica, apreende em seu discurso uma cena de sedução precoce na qual aparece um adulto, perverso, que seduz a criança. Isto, a seu ver, geraria um trauma psíquico que seria recalcado transformando-se num núcleo patogênico. Porém, como não havia sexualidade infantil, a afirmação "sedução sexual" também não se encaixaria tão bem. Freud propõe, então, uma ação traumática em dois tempos: a cena inicial seria vivida pela criança, mas seus efeitos não seriam imediatos, uma vez que a criança não dispõe de requisitos necessários de maturidade biológica ou de compreensão intelectual para que ela os produza; na puberdade, uma outra cena viria evocar a primeira que assumiria, assim, todo o valor traumático. Não é, pois, o passado que é traumático, mas a lembrança do passado a partir da experiência atual. Em 23 de setembro de 1897, numa carta a Fliess, Freud (1950/1987) questiona sua teoria da sedução sem ainda chegar a uma conclusão que o satisfizesse. Apesar disso, Freud se diz esperançoso de que sua reflexão represente um episódio prenunciador de novo conhecimento. Este novo conhecimento se daria pela superação da teoria da sedução e implica em duas descobertas: o papel da fantasia e a sexualidade infantil. Desta forma, a sexualidade concebida primeiramente como traumática em Freud, perde essa característica, se bem que a sedução real foi ainda mantida, isto é, permanece uma cena de sedução ligada aos cuidados maternos. Neste momento teórico, Freud postula que tais cuidados poderiam ser considerados aquilo que introduz a sexualidade na criança.

No discurso freudiano, a condição da sexualidade é ser polimorfa, o que significa que esta tem uma pluralidade de objetos possíveis. O corpo sexual, em Freud, está fragmentado em diversas zonas, denominadas por ele zonas erógenas, que são lugares privilegiados onde se estabelecem as relações entre o dentro e o fora do corpo. Como coloca Freud (1905b/1972), a zona erógena é "uma parte da pele ou membrana mucosa em que os estímulos de determinada espécie evocam uma sensação de prazer possuidora de uma qualidade particular" (pp.187-188). Quanto à questão da polimorfia, diz Freud (1905b/1972, p.188): a qualidade do estímulo tem mais a ver com a da sensação de prazer do que a natureza da parte do corpo em questão", e acrescenta:

uma criança que está entretida com o sugar sensual procura no corpo e escolhe alguma parte dele para sugar - uma parte que é posteriormente preferida por ela por força de hábito; se ela por acaso tocar numa das regiões predestinadas (tais como os mamilos ou os órgãos genitais) esta sem dúvida retém a preferência (p. 188)2.

Ao enunciar o conceito de pulsão nos Três ensaios... Freud transforma o conceito em seu estado prático, conferindo-lhe um estatuto teórico, de forma a poder fundamentar a teoria psicanalítica da sexualidade. Freud introduz o tema da sexualidade via perversão, supondo ser esta a porta de entrada para a sexualidade. A partir daí mostrou que a sexualidade infantil é a base comum para a perversão, a neurose e a sublimação que emergem não como desvios da sexualidade, mas como conservantes das características da sexualidade infantil.

O conceito de pulsão foi concebido como algo fundamental que ancora o psiquismo no corpo, isto é, o registro psíquico não seria apenas algo da ordem da idealidade, mas movido pelas pulsões. Desta maneira, Freud pode transformar a concepção dualista vigente em sua época sobre as relações entre corpo e psiquismo, indicando que a pulsão seria o lugar onde se daria o encontro. Para tanto, ele teve de opor os registros do organismo e do corpo, porque o corpo pulsional não se identificaria com o conceito biológico de somático. É como corpo pulsional, que o corpo pode ser auto-erótico e narcísico. Além disso, como força constante e exigência de trabalho imposta ao psiquismo pela sua ligação com o corpo, a pulsão seria origem e um dos fundamentos do sujeito.

Primeiramente, no artigo de 1905b/1972, na primeira dualidade pulsional, Freud supôs uma oposição entre as pulsões sexuais e as pulsões de autoconservação, sendo as primeiras referenciadas ao campo dos objetos e as segundas, ao campo do eu. Nessa época ele acreditava que o eu seria regulado pelo interesse do sujeito na sua autoconservação, e não de maneira sexual. Contudo, a pulsão não estava no corpo somático; ela nascia dele, mas não podia a ele ser reduzida. Freud, ao tratar do conceito de pulsão sexual (em oposição à pulsão de autoconservação) na sexualidade infantil, preenche um espaço aberto pelo abandono da teoria da sedução parental. Como sintetiza Bastos (1998):

O corpo sexual é o corpo infantil seduzido e apossado pela pulsão. Ele não surge com a puberdade. É produto da sexualidade infantil. A sexualidade infantil nasce apoiando-se nas funções vitais promotoras de excitações corporais indistintas na sua origem que, no divórcio entre a necessidade e o desejo, configuram, de um lado, o corpo das necessidades vitais e, de outro, o corpo do desejo sexual (p. 75).

Em À guisa de introdução ao narcisismo, Freud postula as conseqüências para uma interpretação do eu sobre um psiquismo fundado nas pulsões. Diz ele:

Do mesmo modo que, de início, a libido objetal encobria nossa visão da libido do Eu, também na escolha objetal da criança pequena (e das maiores), o único fato que se pode primeiro observar é que a criança toma seus objetos sexuais a partir de suas experiências de satisfação. As primeiras satisfações sexuais auto-eróticas são vividas em conexão com funções vitais que servem ao propósito da autoconservação. As pulsões sexuais apóiam-se, a princípio, no processo de satisfação das pulsões do Eu para veicularem-se, e só mais tarde tornam-se independentes delas. Esse modo de apoiar-se nos processos de satisfação das pulsões de autoconservação para conseguir veicular-se fica evidente quando se observa que as pessoas envolvidas com a alimentação, o cuidado e a proteção da criança se tornam seus primeiros objetos sexuais, portanto, primeiramente a mãe ou seu substituto" (1914b/2004, p. 107).

De acordo com essa postulação, abriu-se espaço para a descoberta da existência de um outro tipo de relação, ou um outro tipo de escolha objetal que não adota a mãe como modelo, em que tem a si mesmo como objeto amoroso. Essa descoberta de um tipo de escolha narcísica abriu espaço para a erotização do eu e, com isso, as pulsões do eu, de ordem exclusivamente sexual, e as pulsões de autoconservação, também no campo do eu, passaram a coexistir na mesma pessoa. Desta maneira estabelece-se dois tipos de escolha objetal: anaclítica (ou de ligação) e narcisista, que passam a estar abertas a cada pessoa. É importante ressaltar que, em nota de rodapé do artigo Três ensaios ..., acrescentada em l915, Freud afirma que:

A psicanálise nos informa que há dois métodos de encontrar um objeto. O primeiro (...) é o 'anaclítico' ou de ligação, baseado na ligação a protótipos infantis primitivos. O segundo é o narcísico que procura o próprio ego do indivíduo e o encontra novamente em outra pessoa. Este último método é de importância bastante grande nos casos em que o resultado é patológico (p. 229).

O eu e os objetos polarizam, por assim dizer, a sexualidade que se abre para a existência de uma libido do eu e uma libido do objeto, marcando não somente a qualidade do investimento que seria sempre sexual, mas também a sua direção. Isso significa que, de acordo com Freud "(...) o ser humano possui dois objetos sexuais primordiais: ele mesmo e a mulher que dele cuida (...)" (1914b/2004, p.108).

O fato de o bebê humano nascer desprovido de condições básicas de sobreviver por si mesmo, faz com que ele necessite de alguém que o acolha e que dele cuide. Esta prematuridade, que é de ordem estritamente biológica, exige um trabalho de cuidados realizados, via de regra, pela mãe, que acolhe o bebê oferecendo-lhe os instrumentos vitais que lhe faltam. A mãe atua favorecendo a constituição da dependência do bebê consigo. Nos Três ensaios..., Freud chamou de sedução este investimento inicial da mãe ao bebê. Portanto, esta ligação tem um conteúdo sexual e está imbricada na constituição do eu, uma vez que este eu vai se constituir com a presença desse outro.

O corpo narcísico: princípio de subjetivação

A concepção do narcisismo em Freud corresponde a uma etapa na assunção do corpo próprio e, desta forma, interessa, sobremaneira, à problemática do corpo.

No início da vida psíquica, o ego incipiente do bebê encontra-se investido por pulsões que, em grande parte, podem satisfazer-se a si mesma: é a etapa do auto-erotismo. O termo auto-erotismo aparece em Freud, nos Três ensaios..., para caracterizar um estado original da sexualidade infantil anterior ao narcisismo, no qual a pulsão sexual, ligada a um órgão ou à excitação de uma zona erógena, encontra satisfação sem recorrer a um objeto externo. Freud faz, neste texto, um exame minucioso do ato de chupar o dedo, atividade que aparece na primeira infância e que pode se prolongar por toda a vida da pessoa. Freud liga esta atividade à própria satisfação sexual. A concepção de auto-erotismo se identifica, assim, com o prazer retirado da manipulação do órgão (boca, língua, mucosa anal, etc.) e revela a dimensão do sexual centrada no indivíduo, ou seja, numa mesma região do corpo a fonte e o objeto da satisfação estariam presentes e se fundiriam.

No narcisismo, por sua vez, o corpo começa a ser elevado à condição de si pela sua própria erotização. Inicialmente, as zonas erógenas estão num registro dispersivo no corpo que posteriormente será unificado, constituindo um corpo totalizado. Essa totalidade se ordena em torno de uma imagem que é denominada imagem corporal. Como evidenciado anteriormente, seria através do outro que a unidade corpórea seria prefigurada e antecipada. De acordo com Birman (1999),

a resultante dessa operação é a construção do eu e do corpo unificado que são as duas faces da mesma realidade, pois para o sujeito a experiência de ter e ser eu implica para ele habitar um corpo unificado. A condição de unificado remete à noção de ser um, uno, eu, matéria, corpo que se inscreva no espaço e no mundo (p. 35).

Essa passagem da dispersão para a unidade, que possibilita a emergência do eu e do corpo, implica a passagem do auto-erotismo para o narcisismo.

Se o corpo pulsional remete a uma dispersão da pulsão, o corpo narcísico se refere a uma unidade do corpo realizada pela presença significativa do outro. Esse corpo que tende à unificação, corpo do narcisismo, seria o correlato da constituição do eu. Para Freud, a pulsão é uma força constante e o corpo pulsional é a matéria-prima para a construção do corpo narcísico. Como salienta Birman (1998), a seqüência se daria da seguinte forma:

Pelo narcisismo primário, o sujeito se materializa pelo não reconhecimento do outro, enquanto que pelo narcisismo secundário, aquele se materializa por esse reconhecimento (...). O que está em pauta, aqui, é a fronteira móvel entre o egoísmo e a alteridade. (...) Isso define duas cartografias corporais distintas, pois pela primeira o ‘corpo-sujeito’3 estaria regulado pelo princípio do prazer e, pela segunda, pelo princípio da realidade (pp. 22-23).

O corpo da dimensão da alteridade, corpo do narcisismo secundário, implica, assim, num redimensionamento daquele corpo narcísico primeiro que passa a ser submetido à experiência do Édipo e da castração.

Freud (l914b/2004) nos mostra que o eu possui uma natureza dupla, uma espécie de assimetria que vai se constituir na presença do outro, isto é, a unificação do corpo pelo olhar do outro seria constitutivo do eu. Contudo, esse olhar seria um olhar idealizante dos pais, na medida em que o narcisismo deles vai ficar evidenciado diante de seu filho, pois os pais esperam que esta criança possa ser e fazer todas as coisas que eles mesmos, pais, não puderam realizar. O eu da criança seria, então, uma espécie de utopia redentora das decepções e feridas narcísicas paternas, uma vez que estaria realizando tudo aquilo que não foi realizado na existência dos pais. Ora, diz Freud, esta imagem perfeita da criança é a imagem que o olhar dos pais mostra: "se trata de uma revivescência e de uma reprodução de seu próprio narcisismo, há muito abandonado" (1914b/2004, p.110) em que esse amor, "(...) tão infantil, não é outra coisa senão o narcisismo renascido dos pais, que, ao se transformar num amor objetal, acaba por revelar inequivocamente sua antiga natureza" (1914b/2004, p.110). Esse eu do sujeito seria, na medida em que esse olhar dos pais é um olhar idealizante, proveniente de seu próprio narcisismo, um eu alienado e produto da ficção.

A perda dessa posição idealizada sustentada pelo olhar dos pais faz com que o sujeito fique marcado pela angústia correspondente. Por outro lado, todo esse processo acaba por implicar o rompimento do sujeito com a alienação narcísica e a possibilidade de sua inscrição na alteridade, passando a estar apto a reconhecer a existência de outros ideais além daqueles regidos pelo seu narcisismo.

O corpo da segunda tópica: o corpo é o próprio, a primeira pessoa

Com a introdução da segunda tópica, Freud vai pensar o eu como essencialmente corporal. Segundo Assoun (1995), é aí que a teoria vai nos levar ao mais próximo da teoria freudiana da corporeidade, aquela que compreende o próprio eu – o da segunda tópica – com o afloramento do próprio corporal. Em O ego e o id, considerado o texto da segunda tópica, Freud define o eu como instância corporal e, ainda, a projeção de uma superfície. Para ele, o eu passa a estar relacionado com o espaço, com a imagem e com o corpo. A conseqüência imediata que a segunda tópica trouxe à concepção psicanalítica de corpo é a emergência de uma outra economia da sexualidade nessa tópica corporal, centrada na unidade.

Vale ressaltar que esse texto de 1923/1976 está situado no centro do discurso freudiano que começa a entrever uma outra ordem corpórea na qual a dor e a morte também se revelam primordiais, ao lado do erotismo que passa para o plano secundário. Freud havia introduzido em 1920, em Além do princípio do prazer, o conceito de pulsão de morte e de masoquismo, fundando a corporeidade também no registro da dor, do trauma e da angústia. Vamos abrir um parêntese para introduzirmos o pensamento freudiano a respeito do conceito de pulsão de morte que, apesar de controverso, se situa também no âmago das discussões sobre os estatutos do corpo em psicanálise.

Laplanche (1998) avalia que, no pensamento freudiano, não se pode falar de cronologia simples, em que as descobertas acrescentar-se-iam umas às outras; pelo contrário, o pensamento de Freud dedica-se aos fenômenos do aprés-coup, do recalque, do retorno do recalcado, da repetição etc. Laplanche complementa que se pode distinguir no pensamento freudiano duas teorias: sexualidade/autoconservação e pulsão de vida/pulsão de morte que não se substituem, mas se complementam, de tal forma que a segunda reequilibra a primeira. Neste sentido o momento intermediário da introdução do narcisismo é de suma importância, pois permite apreender o eixo em torno do qual gira a evolução dos conceitos.

Na primeira dualidade pulsional, a pulsão sexual é regida pelo princípio do prazer e busca sua satisfação num objeto fruto da fantasia, um objeto fantasioso. Já a pulsão de autoconservação, ou pulsão do eu, necessita de um objeto real. Por isso, a pulsão do eu é obrigada a funcionar dentro do princípio de realidade. Quando Freud faz a introdução do narcisismo na teoria, estabelece que as pulsões sexuais também podem visar a objetos exteriores ou ao próprio eu da pessoa, e que a energia das pulsões sexuais é, sempre, a libido. Já as pulsões do eu têm como energia os interesses. Ora, se as pulsões do eu são tendências que emanam do organismo (ou do eu no sentido de garantir a conservação) e visam a objetos que estão no exterior (o alimento), o eu é, portanto, objeto das pulsões de autoconservação, mas também sua fonte. Quando investido pelas pulsões de autoconservação, o eu é dessexualizado, mas não apenas isto – o eu também se sexualiza quando toma a si como objeto pela pulsão sexual.

Apesar de Freud teorizar muito sobre essas questões no Caso Schreber, em Totem e tabu e em Á guisa de introdução ao narcisismo, ele não consegue resolver, de forma satisfatória, as relações entre corpo sexual e corpo somático. Freud continua mantendo o dualismo pulsional, apesar do narcisismo e das dificuldades que a sexualização do aparelho psíquico lhe traziam. Ele coloca ainda que, o fato de a libido recobrir as pulsões do eu, não impede que outras pulsões atuem dentro do eu. Esse problema só encontrou solução com a postulação da pulsão de morte, que recolocou o dualismo pulsional. Contudo, esse novo dualismo pulsional não deixa de acarretar dificuldades.

Em Além do princípio do prazer, Freud postula a grande oposição que iria sustentar até o fim de sua vida (apesar de seus seguidores discutirem muito o conceito): a contraposição entre pulsão de vida e pulsão de morte. De acordo com Laplanche e Pontalis (1983), "as pulsões de vida tendem, não apenas a conservar as unidades vitais existentes, como a substituir, a partir destas, unidades mais englobantes" e, as pulsões de morte "tendem para a destruição das unidades vitais, para a igualização radical das tensões e para o retorno ao estado inorgânico que se supõe ser o estado de repouso absoluto" (p. 537).

Segundo Green (1988), a hipótese freudiana da pulsão de morte levou os analistas a discussões animadas e desviou a atenção o fato de Freud não a opor às pulsões sexuais, mas às pulsões de vida ou pulsões de amor. O autor ressalta que a função sexual e a libido são os representantes de Eros, das pulsões de vida, e que a dificuldade, no que concerne à pulsão de morte, decorre da impossibilidade de poder atribuir uma função a ela que corresponda à da sexualidade em relação à pulsão de vida. Para Green, Freud descreve como mecanismos característicos da pulsão de vida a ligação e da pulsão de morte, o desligamento. Mas, de acordo com Green, é ainda necessário especificar mais:

Propomos a idéia de que a meta essencial das pulsões de vida é garantir uma função objetalizante. Isto não apenas significa que o seu papel é criar uma relação com o objeto interno e externo, mas que ela se revela capaz de transformar estruturas em objeto (...). Este processo de objetalização não se limita a transformações de formações tão organizadas como o eu, mas pode dizer respeito a modos de atividade psíquica, de maneira tal que o próprio investimento que é objetalizado. (...) Isto explica que a função sexual e seu indício a libido sejam o meio de conhecer Eros, pois este é inconcebível sem incluir o objeto (...). Pelo contrário, a meta da pulsão de morte é realizar ao máximo uma função desobjetalizante através do desligamento. Esta qualificação permite compreender que não é somente a relação com o objeto que é atacada, mas também todos os substitutos deste – o eu, por exemplo, e o próprio investimento à medida que sofreu o processo de objetalização. (...) A manifestação própria à destrutividade da pulsão de morte é o desinvestimento (1988, pp. 59-60).

Que papel atribui Freud à noção de pulsão de morte numa teoria da corporeidade? Deve-se notar que, mesmo para ele, a pulsão de morte está baseada, antes de qualquer coisa, em considerações puramente especulativas. Os fatos da clínica mostraram a Freud que ele poderia tirar partido do novo dualismo pulsional, principalmente, concernentes às questões do masoquismo, à reação terapêutica negativa e o sentimento de culpa dos neuróticos. Para ele esses fatos realçam a crença de que o funcionamento psíquico não é exclusivamente regido pela tendência ao prazer.

Na realidade, segundo Laplanche e Pontalis (1983),

o que Freud procura explicitamente destacar pela expressão pulsão de morte é o que há de mais fundamental, isto é, o retorno a um estado anterior e, em última análise, o retorno ao repouso, o que ele assim designa é o que estaria no princípio de qualquer pulsão (p. 535).

Nesta perspectiva, de acordo com os autores, pode-se ver ainda, na tese defendida por Freud sobre a pulsão de morte, uma reafirmação do que ele sempre considerou ser a própria essência do inconsciente, isto é, uma mutação à função última atribuída à sexualidade. Laplanche e Pontalis pontuam que: "Esta (a sexualidade), efetivamente, é sob o nome de Eros definida já não como força disruptora, eminentemente perturbadora, mas como princípio de coesão: é a ligação" e o alvo da pulsão de morte "é pelo contrário, dissolver os agregados, e assim destruir as coisas" (p. 536). Podemos ver, nesta afirmação, o que diz Green (1988) a respeito das funções de ligação e desligamento referentes às pulsões de vida e às de morte, respectivamente. A pulsão, nessa postulação, não é mais um fator que pressiona para o desenvolvimento, mas um esforço em direção à inércia, ao inanimado.

A pulsão de morte aparece, na obra de Freud com diferentes enfoques; contudo, é curioso observar que, em 1920, Freud tentou tratar a pulsão de morte basicamente pelo vértice da biologia. Mas esta, porém, não conseguiu elucidar o conceito. Como pontua Bastos (1998):

Sem dúvida alguma, o conservadorismo (e a mutação) são fenômenos presentes na biologia mas o que justifica a repetição pulsional é a nunca encontrada satisfação pulsional, o nunca alcançado estado nirvânico que a leva a manter seu circuito. Isto significa dizer que o equilíbrio orgânico se mantém em um registro paralelo ao pulsional, fora da representação, no corpo-organismo-vivo (p. 132).

Isso implica em dizer que esse corpo orgânico, não representado, se mantém numa inter-relação com o corpo sexual, revelando ora uma autonomia, ora uma superposição: a pulsão sexual se apossa do organismo, traçando caminhos ao mesmo tempo em que garante os pontos de fixação da libido.

Gostaríamos de retomar, neste ponto, as considerações referentes à segunda tópica freudiana, referenciadas no início deste item e interrompidas pela introdução da discussão a respeito do segundo dualismo pulsional e da pulsão de morte. Dizíamos, então, que no texto de 1923, O ego e o id, a noção de corpo vem associada à noção de eu. Freud trata nesse texto o eu como "a projeção de uma superfície" (p.40). Ele destaca a posição que o eu ocupa, ou seja, o eu está voltado para a realidade cuja importância funcional "se manifesta no fato de que, normalmente, o controle sobre as abordagens à motilidade compete a ele" (p. 39), destacando-se do isso para cumprir essa função. É ao eu que Freud vê atribuída à corporeidade. Paralelamente a isto, Freud diz que,

um outro fator, além da influência do sistema pré-consciente, parece ter desempenhado papel em ocasionar a formação do ego e sua diferenciação do isso. O próprio corpo de uma pessoa e, acima de tudo, a sua superfície, constitui um lugar de onde podem originar-se sensações tanto externas quanto internas (p. 39).

É nesse sentido, que vamos também entender o eu como fundamentalmente corporal.

Assoun (1995) evidencia que, quando Freud diz que o eu é corporal, nós devemos compreender isto como: "o eu e o corpo estão estruturados, segundo a lógica das superfícies", ou seja, "não que o eu é análogo ao corpo, mas que a emergência da subjetividade se faz segundo esta lógica corporal da projeção" (p. 188). Portanto, podemos considerar neste sentido que o corpo é o próprio, a primeira pessoa.

No texto de 1923, em uma nota de rodapé datada de 1927 e que, segundo o tradutor, não consta da edição alemã original, Freud enfatiza a ligação do eu ao corpo próprio: "o eu em última análise deriva das sensações corporais, principalmente das que se originam da superfície do corpo. Ele pode ser assim encarado como uma projeção mental da superfície do corpo além de representar as superfícies do aparelho mental" (p. 40). Em suma, o eu é mais uma subjetivação da superfície corporal do que uma aparelhagem mental do corpo; ele é mais efeito da emergência do corpo como próprio do que como produto acabado de uma experiência corporal.

Para Assoun (1995) o corpo freudiano é, ao mesmo tempo, mais complexo que um corpo empírico (corpo substância), mas menos rico que um corpo doador de sentido (corpo da fenomenologia): "é o ser mesmo da projeção elevado ao nível de para-si" (p.189). Podemos entender que é como corpo que o eu se atinge, ou seja, nas palavras de Freud (1923) "é como se fossemos assim supridos com uma prova do que acabamos de asseverar quanto ao eu consciente: que ele é, primeiro e acima de tudo, um eu corporal" (p. 41).

O corpo para a psicanálise não é uma experiência primária do sujeito. Na verdade, ele só tem acesso a este corpo mediante uma série de ações que são mediatizadas sempre pelo simbólico. Como coloca Elia (1995):

A apreensão do corpo pelo sujeito exige, contudo, que uma nova operação tenha lugar. Esta operação, pela qual o corpo é subjetivado, é da ordem do imaginário, na medida em que depende do investimento de uma imagem – a imagem do corpo (pp. 152 –153).

Supomos então, que na ausência desta operação imaginária que é regida pela ordem simbólica o corpo torna-se, para o sujeito, uma exterioridade estranha, desconhecida, sendo sua apreensão, como corpo próprio, impossível de se realizar.

Fernandes (2002) pondera que o corpo psicanalítico se apresenta ao mesmo tempo como o palco onde se desenrola o jogo das relações entre o psíquico e o somático e como personagem integrante da trama das relações, enfatizando que essa dupla inscrição se evidencia no conceito de pulsão ao colocar o corpo ao mesmo tempo como fonte de pulsão e como finalidade. Portanto, a teoria freudiana permite colocar em evidência que o somático habita um corpo que é também lugar de realização de um desejo inconsciente. Fernandes questiona que, se o corpo psicanalítico aparece como palco, lugar de encenação das relações entre psíquico e somático, o corpo em Freud não se confunde com o corpo apenas como organismo biológico. De fato, esse corpo é regido segundo uma dupla racionalidade: a do que é somático e do que é psíquico. Segundo a autora, a racionalidade que rege o psíquico "se fundamenta no encontro do ser humano com a trama das relações parentais que constrói o psíquico na primazia da erogeneidade" (p.54). O corpo é, portanto, lugar da passagem do outro, lugar de onde nasce o sujeito. Sendo assim, pode-se dizer que a grande inovação freudiana foi, precisamente, considerar essa dupla racionalidade como articulada pelo desejo inconsciente, mas cuja leitura se dá no corpo.

Fala-se muito, na atualidade, em novas formas de produção de subjetividade, de sofrimento psíquico e de patologias típicas de nosso tempo que difeririam das neuroses freudianas clássicas. Vemos crescer a demanda de pacientes borderlines, somatizadores, transtornos alimentares, drogaditos, com distúrbios de caráter perverso, distúrbios de conduta e, ainda, pessoas com problemas da ordem da insatisfação, auto-estima, indefinição do sentimento de identidade, indefinição de sentido da vida, vazio existencial e vivência de morte. Muitas dessas patologias se apresentam centradas no corpo evidenciando um sofrimento que é da ordem do psíquico, mas que é também da ordem do corpo. Acreditamos que com a abrangência do legado que Freud nos deixou, o método da psicanálise, nós podemos encontrar um caminho que nos possibilite a teorização e o tratamento de tais modalidades, pois é sempre e sobretudo da apreensão do inconsciente de que se trata.

 

Referências

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Recebido em 21.11.2005
Primeira decisão editorial em 02.03.2006
Versão final em 04.05.2006
Aceito em 31.05.2006

 

 

1 Endereço: SHIS QL 08 conjunto 09 casa 13, Brasília, DF, Brasil 71620-080 E-mail: elianarl@terra.com.br
2 É importante acrescentar que, em 1915, Freud acrescenta uma nota de rodapé à página 188 dos Três ensaios..., dizendo que foi levado a atribuir a qualidade de erogeneidade a todas as partes do corpo e a todos os órgãos internos

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