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Psicologia: Teoria e Pesquisa

Print version ISSN 0102-3772

Psic.: Teor. e Pesq. vol.23 no.1 Brasília Jan./Mar. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-37722007000100007 

"Eu era do mundo": transformações do auto-conceito na conversão pentecostal1

 

"I Belonged to the world": changes of the self-concept on the pentecostal conversion

 

 

Éser Técio PachecoI,2; Samuel Ribeiro da SilvaII; Renata Gomes RibeiroII

IPontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
IIPontifícia Universidade Católica de Minas Gerais - Campus Betim

 

 


RESUMO

Este artigo traz a descrição dos resultados e a análise dos dados de uma pesquisa qualitativa com indivíduos recém-convertidos ao culto pentecostal, no qual se procurou discutir as modificações no auto-conceito, a partir da idéia de "Três Mundos" (Umwelt, Eigenwelt e Mitwelt), utilizada por Ludwig Binswanger. Notou-se uma significativa mudança na dimensão do Mitwelt (relacionamentos sociais), o que levou à conclusão de que, do ponto de vista da Psicologia Existencial, o principal elemento da força pentecostal, nos casos estudados, pode ser apontado como a reconstrução da própria identidade a partir da aquisição e da participação em um novo grupo de referência, o qual proporciona não apenas acolhida e solidariedade, como também oportunidade de desenvolvimento dos potenciais adormecidos.

Palavras-chave: pentecostalismo; auto-conceito; mundo da vida.


ABSTRACT

This paper describes the results and the analyses of the data obtained from a qualitative research carried out with individuals newly-converted to the pentecostal cult, whereby an attempt was made to discuss the changes on self-concept, having as a starting point the idea of "Three Worlds" (Umwelt, Eigenwelt and Mitwelt) used by Ludwig Binswanger. A significant change was observed in the dimension of Mitwelt (social relationships), which led to the conclusion that from the point of view of Existential Psychology, the main element of pentecostal power, in the studied cases, lies in the reconstruction of the identity itself, as from the acquisition and participation in a new reference group, which provides not only a solidary and welcoming environment, but also the opportunity to develop latent potentials.

Key words: Pentecostalism; self-concept; life world.


 

 

Há quem se espante quando ouve um pentecostal, ou mesmo um evangélico qualquer, dizer "quando eu era do mundo...". Os menos avisados podem querer retrucar dizendo que a conversão a uma religião não retira a pessoa do mundo objetivo, desse espaço material no qual todos nos localizamos. Entretanto, o pentecostal, mesmo aqueles que nunca leram Heidegger, intuem que "mundo" não é uma dimensão espacial ou física. O mundo é uma região de significações onde as pessoas se constroem e se definem.

Este artigo pretende explicitar os resultados de uma pesquisa qualitativa empreendida com indivíduos recém-convertidos ao culto pentecostal na tentativa de fornecer dados para a compreensão de uma experiência de transformação do autoconceito a partir da participação em um novo mundo vital.

Simbolismo religioso e "mundo da vida"

O discurso simbólico, segundo Ricoeur (1977), é caracterizado por possuir uma "polissemia deliberada", isto é, uma aptidão a comportar diferentes leituras e, conseqüentemente, a engajar diferentes contextos vitais. Assim, o discurso religioso, como forma de discurso simbólico, carrega diversas potencialidades de sentido em suas expressões e sua interpretação deveria se guiar por aquilo que se manifesta como proposição de uma forma de ser-no-mundo. Se existem propostas hermenêuticas que tentam buscar o sentido de um discurso na intenção psicológica do autor ou na estrutura que rege o encadeamento de signos, para Ricoeur essas propostas permanecem uma mera idealização romântica ou uma desmontagem estéril se não são ligadas a uma hermenêutica que recolhe aquilo se mostra diante do discurso, sua "proposição de mundo". Nessa perspectiva, "interpretar é manifestar o tipo de ser-no-mundo manifestado diante do texto" (Ricoeur, 1988, p. 56).

O testemunho de um indivíduo religioso é, por conseguinte, a expressão de posições existenciais cujos sentidos se transformam e se configuram em torno dos símbolos da fé. Interpretar o discurso religioso equivale a explicitar que mundo vital é esse que é habitado e mantido pelos seguidores de uma determinada confissão religiosa. O relato autobiográfico de uma conversão é uma maneira do sujeito surpreender o sentido de si mesmo pelas mediações dos símbolos que incorpora em seu discurso. Para o indivíduo que tem na prática religiosa um elemento fundamental de sua forma de ser-no-mundo, o si mesmo no qual ele se reconhece não é apropriável diretamente, senão nos subsídios de sentido encravados na linguagem do grupo religioso. A hermenêutica do discurso religioso demonstra, de forma notável, que o sentido de si só é apropriável pela mediação das obras de cultura.

Uma análise psicológica do discurso religioso, numa perspectiva fenomenológico-hermenêutica, não se prende à objetividade dos signos nem pretende referir-se a uma espécie de objeto-mente tangível pela fala do crente. Uma análise fenomenológico-hermenêutica busca a compreensão e explicitação sempre provisória do mundo da vida (Lebenswelt) expresso no discurso religioso como terreno vivencial do qual pode brotar qualquer abordagem científica.

Embora se possa dizer que o conceito de Lebenswelt em Husserl permanece "ambíguo e de significação apenas esboçada" (Oliveira, 1999, p. 138), é certo que, na perspectiva husserliana, esse termo pretende marcar a atitude de rejeitar um certo objetivismo das ciências naturais para afirmar a necessidade de uma produção científica que resgate o terreno subjetivo e humano no qual tem origem todo sentido, inclusive o da própria produção científica. O mundo da vida (Lebenswelt) é, no contexto deste trabalho, um conceito que identifica o mundo subjetivo de significações, valores e projetos no qual se movimenta uma existência humana concreta.

É o mundo histórico-cultural concreto, sedimentado inter-subjetivamente em usos e costumes, saberes e valores, entre os quais se encontra a imagem do mundo elaborada pelas ciências. O Lebenswelt é o âmbito de nossas originárias ‘formações de sentido’, do qual nascem as ciências (Zilles, 1996, p. 43).

É construindo e participando de um determinado mundo vital, ao mesmo tempo pessoal e comunitário, que uma pessoa atribui significação a si e ao mundo circundante. No limite, o que uma pessoa habita como significação não é um mundo objetivo, mas um mundo vital.

Em sentido fenomenológico, o mundo é algo construído segundo um critério de orientação geral:

(..) O mundo não é somente o conjunto das coisas físicas, mas é constituído por toda a bagagem de experiências vivenciais que cada ser humano possui e compartilha com o grupo ao qual pertence. Na verdade, representa a totalidade do mundo físico, intelectual e cultural no qual estamos mergulhados e que reconhecemos mais ou menos de forma consciente como sendo o nosso mundo (Bello, 1998, p. 38).

A Psicologia Fenomenológica busca, então, um desvelamento hermenêutico das construções de sentido experimentadas por um sujeito que promove mudanças em si mesmo e no seu mundo, a partir da experiência religiosa chamada conversão.

Como observa Alves (1984), a experiência da conversão se dá por uma espécie de "metamorfose da consciência", na qual um novo sentido da experiência reordena todo o universo de significações de um sujeito. Essa experiência institui um momento histórico de reconstrução do sentido do mundo e de si mesmo, para um sujeito, a tal ponto que o seu relato comumente faz referências a símbolos de "um novo nascimento".

Junto à transformação do mundo vital ocorre a transformação do self. Embora esse último termo seja outro de ambígua definição, no seu uso mais corrente em Psicologia Existencial, ele designa "a função organizadora no íntimo do indivíduo, por meio da qual um ser humano pode relacionar-se com outro. (...) É o centro do qual vemos e temos consciência das diferentes ‘facetas’ de nossa personalidade" (May, 1973, p. 75-76). O self é a significação que damos a nós mesmos mediante um processo reflexivo, por mais precário que este seja, e que emerge, ao mesmo tempo, a significação do mundo.

Se a significação é passível de mudanças mediante a multiplicidade de experiências, o self é também mutável e, por assim dizer, fluido. Ocorre que o ser humano, exatamente por necessitar de uma certa estabilização do self para encontrar sentido na própria existência, tende a proteger o próprio mundo vital pela manutenção do self. O processo defensivo é uma atitude pela qual uma pessoa mantém-se numa mesma concepção enrijecida de si e do mundo como forma de evitar perder-se na transitoriedade da existência. Dessa forma, o indivíduo defensivo tende a rejeitar ou a deformar a consciência daquelas experiências que não se adequam à concepção prévia de si. A maneira como uma pessoa formula e reformula as significações de seu mundo vital determina um certo estado de maior ou menor congruência em relação a sua própria experiência.

A experiência de conversão religiosa, que num primeiro momento significa a redefinição de um self pela participação em um novo mundo vital, pode provocar também a canalização das energias emocionais para a defesa da nova configuração gerando, assim, uma atitude existencial que, ao mesmo tempo em que redefine e protege a pessoa, termina por enclausurá-la num universo restrito de valores e experiências. A dosagem entre proteção e liberdade experiencial estará diretamente ligada ao caráter salugênico (ou patogênico) de uma determinada prática religiosa.

Como forma de analisar a capacidade de participação de um ser humano em diferentes aspectos de seu mundo vital, Ludwig Binswanger (1967) propôs a utilização como categorias para uma análise existencial os conceitos de Umwelt, Mitwelt e Eigenwelt extraídos da Fenomenologia. O Umwelt define-se como a esfera das necessidades biológicas, dos impulsos e dos instintos, isto é, "o mundo da limitação e do determinismo biológico" (May, 2000, p. 139). Já o Mitwelt é o mundo dos relacionamentos sociais e da partilha de valores, da interação comunitária. Por fim, o Eigenwelt pode ser compreendido como o mundo da percepção de si mesmo, do auto-relacionamento, que é possibilitado pela capacidade de autoconsciência do ser humano.

O mundo vital seria, assim, composto por diferentes aspectos que precisam estar contemplados na maneira como a pessoa se relaciona com a experiência, pois, em caso de exclusão ou obscurecimento de um desses aspectos, a unidade do ser mostra-se ameaçada, o que se traduz em estados de adoecimento psíquico. O enrijecimento, a exclusão ou a ênfase desproporcional em qualquer dos aspectos do mundo vital seria indicativo de um processo defensivo cujo valor patogênico não poderia ser definido a priori, mas avaliado segundo a dinâmica de cada existência singular. Definir até que ponto defesa e abertura serão benéficos na vida de um indivíduo não é tarefa a ser empreendida por um psicólogo de antemão, mas deve ser fruto de um processo de avaliação em que o próprio sujeito seja o promotor principal.

A pesquisa aqui empreendida teve o propósito de proporcionar uma descrição da experiência de reformulação do mundo vital a partir de dez casos de conversão ao pentecostalismo. Não se pretendeu responder à questão sobre até que ponto a conversão ao pentecostalismo pode ser benéfica a um sujeito, tarefa essa que seria por demais arrogante, mas apenas descrever como os próprios convertidos experimentam a transformação das concepções de mundo e as possíveis manifestações defensivas presentes nessas experiências.

O movimento pentecostal

O movimento de renovação pentecostal pode ser apontado como o acontecimento de maior importância no interior do Cristianismo no século passado. A despeito da onda de secularização observada na Europa, a partir do século XIX, no continente americano, a fé cristã, especialmente aquela de confissão evangélica, encontrou novo vigor de crescimento nas comunidades que pretenderam redescobrir a pureza da fé por meio da ênfase no derramamento dos dons do Espírito Santo sobre os fiéis que buscam servir Jesus Cristo com devoção e fidelidade.

Desde a primeira década do século XX, quando teve início nos Estados Unidos e se espalhou por toda a América, o movimento que pretendia resgatar os dons que teriam sido revelados no início da era cristã, no dia de Pentecostes, alcançou um crescimento notável que acabou, inclusive, influenciando ramos mais tradicionais do Cristianismo, como o chamado "protestantismo histórico" e o catolicismo romano. No Brasil, estima-se que os evangélicos signifiquem 15,4% da população, representando os pentecostais 70% desse grupo (Mariano, 1999), divididos entre igrejas como Assembléia de Deus, Deus é Amor, Evangelho Quadrangular, Universal do Reino de Deus e muitas outras (vide Tabela 1).

No interior do segmento pentecostal distinguem-se os chamados neopentecostais, cujo crescimento mais recente (a partir da década de 1970) deve-se especialmente a fatores como: centralização em torno de líderes fortes, liberalidade nos costumes, ênfase na cura divina, presença nos meios de comunicação e modelo empresarial de governo (Oro, 1996). Além das grandes organizações neopentecostais, um pentecostalismo autônomo forma comunidades pequenas e independentes espalhadas principalmente pela periferia dos grandes centros urbanos e organizadas em torno dos atributos carismáticos de seus líderes.

Guardadas as diferenças entre os diversos grupos, pode-se apontar como característica do movimento pentecostal a ênfase na manifestação entre os fiéis dos chamados dons do Espírito Santo, como a cura divina e a glossolalia (orações em "línguas estranhas"). Mais recentemente, o movimento neopentecostal introduziu a prosperidade econômica como uma dessas manifestações. Inspirados por uma leitura quase sempre fundamentalista do texto bíblico, os líderes pentecostais no Brasil têm, geralmente, uma formação teológica precária, levada a cabo em pequenas instituições confessionais. Igrejas mais antigas e consolidadas, como a Assembléia de Deus, entretanto, têm conseguido criar uma estrutura que proporcione uma formação teológica mais aprofundada.

Por representarem o movimento religioso que mais cresce no Brasil, os pentecostais têm sido objeto de diversos estudos sociológicos, como os empreendidos pelo Instituto de Estudos da Religião (ISER), no Rio de Janeiro. Mais raros têm sido os estudos psicológicos da experiência pentecostal, o que motivou esta pesquisa, tendo em vista o notável poder de transformação pessoal exercido pelas comunidades pentecostais. Qualquer um que viva num centro urbano do Brasil já teve notícia de pessoas que tiveram seu comportamento radicalmente modificado a partir de uma "conversão" pentecostal. Quer essa mudança seja profunda ou superficial, duradoura ou passageira, fato é que o estudo dos elementos que compõem a experiência pentecostal pode trazer ao psicólogo uma compreensão mais aprofundada da condição humana.

O mundo da vida pentecostal: descrição de vivências

O estudo empreendido, realizado entre julho de 2003 e julho de 2004, pretendeu analisar a experiência pentecostal por uma metodologia qualitativa aplicada a 10 casos de conversão pentecostal. O procedimento metodológico utilizado teve uma inspiração fenomenológico-hermenêutica, isto é, buscou-se explicitar a significação de vivências por meio da interpretação de certas categorias do discurso objetivadas pelos investigadores. Entre as técnicas de análise elencadas por Turato, em seu tratado de metodologia qualitativa, o presente estudo combina os procedimentos de análise de crenças, fenomenológica e interpretativa (Turato, 2003).

Para a seleção da amostra foram abordados diversos membros de cultos pentecostais, fixando-se como critério o fato de estes terem ingressado no culto há menos de um ano. O estudo pretendia trabalhar com "neófitos", isto é, pessoas recém-ingressas, ainda sob o impacto das primeiras transformações.

Um dado que precisa ser levado em conta é exatamente a dificuldade encontrada em se tratar com indivíduos neófitos. Em alguns casos, os indivíduos demonstraram uma aparente insegurança em testemunhar algo que ainda não se mostrava inteiramente elaborado em suas vidas. Em outros, foi preciso vencer as resistências de pastores e líderes que pareciam julgar imprudente expor seus novos fiéis à análise de um grupo científico. Um pastor chegou até a oferecer um entrevistado mais experiente, que pudesse "falar as coisas mais certas". Alguns dos entrevistados tiveram resistência em participar de uma nova sessão de entrevista, embora manifestassem o desejo de colaborar. Tudo isso leva-nos a crer que abordamos um grupo em franca "efervescência" de ressignificações e redefinição de valores, o que só nos convence da importância desse estudo.

As entrevistas foram feitas em uma ou duas sessões de 40 a 60 minutos, de modo semi-dirigido, tendo-se, como roteiro, questões relacionadas às categorias de Umwelt, Mitwelt e Eigenwelt, além de uma investigação da biografia do entrevistado. Depois de transcritas, as entrevistas foram submetidas a um recenseamento, no qual eram destacadas frases que se relacionavam às categorias visadas, formando os quadros abaixo apresentados, os quais orientaram a análise da percepção dos indivíduos sobre a experiência pentecostal. Duas notas são importantes sobre os quadros: a primeira é que as frases foram resumidas ou condensadas para melhor serem utilizadas no curto espaço deste informe; a segunda diz respeito ao fato de que os nomes que aparecem ali são todos fictícios, a fim de preservar a identidade e a privacidade dos indivíduos pesquisados.

A pesquisa empreendida partiu de uma concepção fenomenológica da atividade científica. Como propõe M. Augras (1996), a objetividade que se buscou é aquela que emerge na intersubjetividade de uma entrevista psicológica. O que há para ser observado é a forma como o sujeito coloca-se nesse encontro intersubjetivo que é a entrevista e que manifesta, nos limites da linguagem, sua maneira de atribuir significação a suas experiências. A cientificidade, aqui, reside na tentativa de uma compreensão cada vez mais depurada da experiência humana tal como ela é vivida por um sujeito singular. Trata-se, portanto, de uma epistemologia compreensiva, isto é, de uma hermenêutica.

Como fenomenologia hermenêutica, a investigação psicológica procura identificar estruturas significativas na maneira como o entrevistado compreende sua própria experiência e, de modo especial, como compreende a si mesmo nessa experiência. Os resultados de uma investigação dessa espécie constituem, assim, "uma hermenêutica possível" de certas vivências existenciais e, por definição, reconhecem seu caráter provisório. Como adverte Augras (1996, p. 16), é preciso certa "humildade" frente à complexidade do real e à precariedade de qualquer compreensão. Ricoeur (1977, p. 32), que investigou a fundo o problema da hermenêutica, procurou deixar claro que não há um "cânon universal" para a interpretação, mas é na dialética de interpretações opostas que se vislumbra alguma verdade.

As relações com Umwelt

Como ilustrações da forma como os indivíduos pesquisados lidam com Umwelt, foram elencadas expressões referidas ao relacionamento com o próprio corpo (vide Quadro 1). O relacionamento com o corpo possui, evidentemente, uma linha tênue que divide o que poderíamos chamar de Umwelt ou Eigenwelt. Ao mesmo tempo em que o corpo é determinação biológica, é também o espaço do relacionamento consigo, de modo que a relação com o corpo vai do instinto ao desejo, da necessidade à criatividade.

Se as expressões de relacionamento com o corpo foram aqui destacadas como modo de exprimir a maneira como uma pessoa se expressa sobre a parcela de determinações da existência, isto é porque muito do imaginário do mundo evangélico gira em torno do enfrentamento à facticidade do corpo. A doença e o limite físico estão, no discurso pentecostal, o tempo todo em litígio com a manifestação do poder transformador da conversão. A realidade biológica de um vírus ou uma infecção não é vista com o poder de determinação que teria para um ser humano se este tiver sido introduzido no mundo vital pentecostal. O corpo e suas vicissitudes são vistos como elementos da natureza a serem redefinidos segundo os propósitos da manifestação divina.

Assim, as expressões colhidas demonstram que, no mundo pentecostal, o corpo é regido, em primeiro lugar, não por leis naturais, mas incluído entre os elementos que se modificam na medida em que são suprassumidos na transcendência divina. A dor de cabeça ou o vício são vencidos por um poder maior manifesto nas orações ou no rito do batismo.

O caso da Sra. Sara ilustra como o factídico do corpo é modificado pelo significado transcendente da fé. Essa senhora conta como estava com suspeita "daquela doença ruim" e, depois de muitas orações, os exames não indicaram nada "porque o Senhor Jesus curou". O câncer aqui se insere numa crença popular em que o próprio nome da doença equivale à invocação de uma maldição. O poder da conversão é suficiente para se contrapor ao poder sobrenatural da doença, mas não parece infundir a aceitação do diagnóstico científico, como se à força sobrenatural da doença só pudesse se contrapor uma outra força igualmente sobrenatural: o poder de Jesus. A fé não promove uma mudança de registro – do sobrenatural ao natural –, mas a concepção de uma equivalência de forças.

A facticidade biológica, reinterpretada segundo os critérios de uma concepção espiritual do mundo, dá lugar à transcendência divina. O corpo é, assim, "templo do espírito", segundo a tradicional fórmula paulina, utilizada na Primeira Carta aos Coríntios, por isso a mudança de atitude em relação ao vestir-se ou às manifestações da sexualidade. Se as determinações do corpo não podem ser anuladas para darem lugar a leis mais espirituais, ao menos podem ser domesticadas e controladas numa atitude que, por vezes, beira a própria exclusão da dimensão de Umwelt. Trazer o próprio corpo sob limite mostra-se, todo o tempo, como um sinal da veracidade da conversão pentecostal.

A própria motivação para uma conversão pentecostal se apresenta, muitas vezes, como resultado do enfrentamento da natureza corpórea. Jacó, um dos entrevistados, constrói todo o relato de sua conversão em torno do enfrentamento da doença de um filho e o marco definitivo para uma mudança de atitude é exatamente o momento de um acidente em que o menino fica desacordado e só retoma a consciência depois da mãe ter invocado o nome de Jesus. O mundo de significações pentecostal protesta contra as leis físicas e biológicas pela invocação de símbolos de transcendência, de modo que o valor de Umwelt torna-se absolutamente secundário a partir das transformações realizadas em Eigenwelt pela conversão.

As relações com Eigenwelt

A modificação na percepção de si mesmo torna-se o centro de referência na descrição do novo modo de vida assumido com a conversão pentecostal. Os relatos incluem modificações na personalidade, no humor, no autocontrole e na auto-estima (vide Quadro 2).

A afirmação de leis e vontades divinas se, por um lado, dá poder de enfrentamento contra as leis naturais, por outro apresenta-se como algo que promove uma capacidade de aceitar melhor as frustrações e favorece uma personalidade menos egocêntrica e mais firme diante das adversidades. Os indivíduos do estudo fizeram diversas referências a estados distintos antes e depois de suas conversões. Em geral, o estado anterior era de intranqüilidade, depressão, tendência ao suicídio ou agressividade, enquanto o novo estado é descrito como mais paciente, tolerante, realista, humilde e motivado.

A conversão é descrita como uma experiência que propicia um redimensionamento do valor de si, em que uma auto-avaliação presunçosa dá lugar a uma atitude de humildade. Em que pese o paradoxo contido na atitude de alguém se dizer humilde, já que isso também pode ser uma presunção, parece que, ao menos, há uma ampliação e uma flexibilização das significações dadas a si mesmo a partir do contato com o outro, propiciado pela vivência comunitária.

Ana, uma jovem de 23 anos, insiste muito na afirmação de que o elemento fundamental de sua transformação foi a aquisição do domínio próprio. Ela faz referência a desentendimentos com os pais, sarcasmo na relação com os colegas e agressividade com o irmão, afirmando que tudo isso foi superado por um processo de amadurecimento em que "o propósito de Deus" foi manifesto. Expressões como "domínio próprio" e "pé-no-chão" ligam-se, na perspectiva de um projeto de vida, a um ideal de "santidade".

As relações com Mitwelt

O aspecto mais notável do mundo da vida pentecostal é, sem dúvida alguma, as transformações ocorridas em Mitwelt. Pode-se dizer que o elemento fundamental das transformações subjetivas operadas pela conversão pentecostal é a participação comunitária. O grande milagre pentecostal é propiciado pela introdução de vidas fragmentadas no interior de uma comunidade que recoloca as histórias pessoais na perspectiva de novas identidades.

Quando o ser humano é colocado no espaço dialógico da vida comunitária é que ele pode, vendo-se no espelho do outro, reformular o autoconceito ao mesmo tempo em que reconstrói os significados de seu mundo. "A compreensão de si fundamenta-se no reconhecimento da coexistência, e ao mesmo tempo constitui-se como ponto de partida para a compreensão do outro", afirma Augras (1996, p. 56).

É interessante notar que, não poucas vezes, a nova "família" da comunidade pentecostal se sobressai como objeto de investimento de tempo e de afeto em relação à família natural (vide Quadro 3). A resistência de filhos não impede que mães freqüentem a igreja, maridos são obrigados a aceitar, pais são surpreendidos pelos novos referenciais de seus filhos e amigos se ressentem por terem sido deixados de lado: a conversão pentecostal reordena o relacionamento com o outro.

A nova ordem de relacionamentos pentecostal infunde um profundo sentimento de pertença e solidariedade nos seus membros. Os depoimentos são calorosos e emocionados, como o caso do jovem Davi que, vindo do interior, encontrou no grupo de adolescentes da igreja a companhia necessária para repartir seus dramas da existência. Por sua vez, Jacó, às voltas com o drama de seu filho, afirma: "A igreja ajuda assim... com palavras!" Entre as dificuldades próprias de uma gente sofrida, as manifestações de apoio e companhia da comunidade parecem deixar marcas profundas, de tal forma que todos os depoimentos acabam por girar em torno desse tema fundamental: "a família da fé".

No panorama dos diversos agentes da comunidade pentecostal, o pastor tem um lugar de destaque. Em quase todos os depoimentos o pastor aparece como uma figura de cuidado e companhia: "um pai", "um irmão", "um amigo", "um apoio". É a liderança dessas pessoas, nem sempre academicamente preparadas mas geralmente detentoras de um carisma diferenciado, que sedimenta as novas relações dos convertidos.

O depoimento de Jônatas, 19 anos, é ilustrativo. Foi à igreja por intermédio de colegas. Os irmãos não deram confiança, o pai não aceitou, a mãe aceitou mas tomou outro rumo, a igreja de origem se mantém distante. Resultado: a adesão é total a um grupo em que "as pessoas cuidam da gente" e "a gente pode conversar com o pastor". Num país onde as instituições nem sempre estão próximas do povo, a comunidade pentecostal mostra-se como uma alternativa de pertença a um grupo de solidariedade e cuidado mútuo.

Essa experiência de um encontro transformador com o outro traz ainda uma outra importante qualidade: a ativação de potenciais adormecidos. Rute, 42 anos, por possuir uma máquina apropriada, é convidada a fazer algodão-doce para as crianças nas festas da igreja. Noeme, 37 anos, está sendo treinada para dar aulas de "Escola Bíblica Dominical" às crianças, o que a motiva a voltar a estudar. A transcrição de trechos das entrevistas não seria suficiente para demonstrar como o próprio tom de voz das pessoas ganha mais brilho quando falam dessas oportunidades de participação. A ativação de potenciais pode ser deflagrada por acontecimentos ainda mais simples, como o caso de Saul, 34 anos, que, tido e assumido como doente mental, só quebra a rotina de não fazer nada quando tem a oportunidade de conversar com o dirigente da comunidade.

Relações entre concepções de mundo

A riqueza de experiências afetivas na vida comunitária talvez forneça uma considerável razão para a rigidez observada no aspecto mais restritivo da conversão pentecostal: o relacionamento com outras concepções de mundo. A participação no novo mundo vital pentecostal é acompanhada desde atitudes mais tolerantes em relação àqueles que pensam e agem de modo diferente até algo que beira um delírio persecutório, como a atribuição da causa de um problema aos "olhos grandes" de não-convertidos. Mesmo guardadas essas diferenças, a maioria dos depoimentos (vide Quadro 4) expressou uma distinção clara entre ser "do mundo", isto é, partilhar das atitudes e valores da cultura comum, e ser alguém que está "na presença do Senhor".

A rigidez de separação entre o que é "do mundo" e o que é "de Deus" parece indicar um temor em perder os referenciais que orientam a nova compreensão de si do pentecostal. É preciso manter certa estabilidade do próprio mundo para poder preservar uma compreensão positiva de si mesmo adquirida com a conversão.

A identificação da antiga forma de significar a existência como uma vida "no mundo", "mundana", permite a Jacó, 40 anos, cunhar uma frase ilustrativa: "Antes a gente era do mundo e tinha outra relação". A fenomenologia existencial enfatiza exatamente que o mundo da vida se constitui num feixe de relações significativas, de modo que se pode compreender que "uma outra relação" constitui, de fato, um outro mundo. Jacó passa da vida no mundo para o mundo da vida pentecostal; e nisso se concebe transformado.

 

Conclusões

Uma pesquisa qualitativa, tal como a descrita aqui, proporciona a descrição de uma experiência cujos elementos espera-se que estejam presentes em outras semelhantes, embora não se possa dizer, de início, em que proporção. Dessa forma, as conclusões deste estudo referem-se a experiências de conversão pentecostal tal como apareceram aos investigadores, nos casos abordados. As conclusões, mesmo limitadas, parecem, entretanto, ilustrativas para a compreensão do crescimento e da força do movimento pentecostal no Brasil.

Os casos estudados pertencem todos aos municípios de Betim e Igarapé, na região metropolitana de Belo Horizonte, e localizam-se entre as classes C e D, no que se refere à renda per capita familiar. Trata-se, portanto, de cidadãos trabalhadores em luta para resolver desafios básicos para a sobrevivência, como moradia, educação e saúde. Nesse contexto, a experiência pentecostal parece oferecer uma identidade diferenciada marcada pela esperança de dias melhores, seja pela força simbólica da bênção divina, seja por causa das novas atitudes do convertido.

Os casos estudados demonstram como a conversão pentecostal produz uma significativa mudança no autoconceito. A diferença observada nas entrevistas foi, é claro, construída a posteriori, isto é, as pessoas não foram entrevistadas antes e depois da conversão para uma comparação das definições, mas o que recolheu-se foram auto-relatos produzidos a partir do novo ponto de vista adquirido com a conversão. É de se esperar, então, que, se os indivíduos permanecem no culto pentecostal, o relato tenda a enfocar boas razões para isso. A pesquisa pretendeu explicitar a consistência dessas razões, seus elementos constituintes e sua significação, de modo que se possa compreender a força de modificação da autocompreensão no movimento pentecostal.

O principal elemento da força pentecostal, nos casos estudados, pode ser apontado como a reconstrução da própria identidade a partir da aquisição e da participação em um novo grupo de referência, o qual proporciona não apenas acolhida e solidariedade, como também oportunidade de desenvolvimento dos potenciais adormecidos.

Compreende-se, mais uma vez, que a neurose possa ser definida como um estado de incomunicação e que todo crescimento psicológico, da conversão à psicoterapia, passe fundamentalmente por um encontro dialógico com o outro, que proporcione ao sujeito a oportunidade de descobrir novas possibilidades existenciais. O testemunho pentecostal atesta que o ser humano é, objetivamente, os significados subjetivos constituídos em suas relações, de modo que compreender mudanças objetivas no comportamento humano equivale a compreender as modificações produzidas nas relações. Da mesma forma, produzir mudanças, quer terapêuticas, religiosas ou políticas, implica em produzir novas relações significativas.

Exatamente por representar a constituição de um novo mundo vital para o ser humano, prenhe de melhores possibilidades, a conversão pentecostal acaba por implicar numa atitude de defesa por um "encolhimento existencial", isto é, a construção de um mundo vital restritivo limitado por valores rígidos e por uma nítida separação entre o que é "de Deus" e o que é "do mundo". A conversão pentecostal, ao mesmo tempo em que apresenta uma gama de possibilidades, restringe o universo dos valores e das atitudes que são aceitáveis para um fiel.

Nesse balanço entre possibilidades e restrições, nada autoriza a dizer que o pentecostal viva mais limitado que outros seres humanos, já que a tensão dialética entre defesa e liberdade existe em todos os campos da vida humana, seja no trabalho, na família ou nas relações internacionais. Os casos entrevistados sugerem que os indivíduos pentecostais preferem correr o risco do encolhimento defensivo a perderem-se na amplitude muitas vezes desértica da liberdade existencial.

"O risco de cada um" é, justamente, o título de um artigo de Jurandir Freire Costa (2001) a respeito da experiência religiosa. Ali o autor, inspirado em William James, sugere que, enquanto o cientista positivista se prende à "realidade objetiva" dos fatos por não querer se arriscar a crer em algo de que não possua evidências, o religioso prefere correr o risco de se enganar pela esperança a se contentar com as (duras) evidências da realidade. Nas experiências pentecostais estudadas, os convertidos parecem tão restritivos quanto os positivistas de Jurandir Costa, com a diferença de que não se prendem a evidências empíricas, mas a valores que reorientam a compreensão de si mesmos, o que nos leva a pensar que, na dinâmica psicológica, "cientistas" e "religiosos" são categorias menos distintivas que "defensivos" e "abertos", pois todos já devemos ter notado como o fundamentalismo parece sempre o mesmo, seja no campo religioso, seja no campo científico.

O mundo vital pentecostal, se por um lado traz o peso de uma armadura, por outro confere a proteção e a oportunidade de uma nova identidade, definida segundo os símbolos da armadura da fé. A ambivalência de seus efeitos é a ambivalência do próprio mundo da vida: protege, mas limita; liberta, mas domina.

 

Referências

Alves, R. (1984). O enigma da religião. Campinas: Papirus.        [ Links ]

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Recebido em 15.05.2005
Primeira decisão editorial em 08.12.2005
Versão final em 08.06.06
Aceito em 26.01.2007

 

 

1 Trabalho realizado com o apoio do Fundo de Incentivo à Pesquisa (FIP), da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC-Minas.
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