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Psicologia: Teoria e Pesquisa

Print version ISSN 0102-3772

Psic.: Teor. e Pesq. vol.23 no.1 Brasília Jan./Mar. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-37722007000100014 

Resenha: plantas, mente e cultura

 

Plants, mind and culture

 

 

Rafael Guimarães dos Santos1

Universitat Autònoma de Barcelona. Núcleo de Estudos Interdisciplinares de Psicoativos

 

 

O uso de substâncias psicoativas por seres humanos é uma prática tão antiga quanto a existência do próprio homem, mostrando-se presente nas mais variadas culturas e prestando-se às mais diversas finalidades: mágico-religiosas, políticas, terapêuticas, afrodisíacas (Dobkin de Rios, 1972; Furst, 1994; Schultes & Hofmann, 1992).

A coletânea organizada por Labate e Goulart (2005), reunião de 14 artigos de colaboradores de cinco países intitulada O uso ritual das plantas de poder, aborda a temática do uso de substâncias psicoativas com exemplos dos mais variados, complementando essa discussão principalmente pela valorização da perspectiva das ciências humanas, enfocando os aspectos sociais, culturais e simbólicos desse complexo fenômeno biopsicosocial que, em nossa sociedade, de maneira geral, costuma ser tratado predominantemente por modelos biomédicos, farmacológicos e jurídico-policiais, menosprezando as variáveis psicológicas e socioculturais envolvidas (Bucher, 1996).

Não que o livro ignore os aspectos químicos ou orgânicos da questão, como se estes não fossem importantes, muito pelo contrário, a riqueza do livro encontra-se justamente em seu caráter múltiplo, interdisciplinar. O artigo de Henrique Carneiro, por exemplo, passeia pela história do uso e estudo de inúmeras substâncias de origem tanto vegetal quanto sintética. O autor demonstra a grande variedade de usos que certos psicoativos (sobretudo alucinógenos) tiveram e ainda têm em nosso meio: fins experimentais, psicoterapêuticos, militares, políticos e religiosos. Particularmente interessante para a psicologia e para as neurociências em geral são os potenciais dessas moléculas para se explorar a bioquímica da mente, dada a semelhança de seus componentes químicos com nossos neurotransmissores (Grob, 2002).

Embora o enfoque dos artigos seja, sobretudo, sociocultural, todos comentam em algum momento aspectos biológicos e psicológicos do tema: as plantas, as técnicas de preparação dos psicoativos, seus principais constituintes químicos, as expectativas e motivações dos indivíduos etc. Na verdade, essa separação entre bio, psico e social possui um caráter predominantemente lingüístico e didático, pois tais esferas se interconectam de tal modo que, tratando-se da relação entre psicoativos e a mente, não é fácil separá-los na prática.

O artigo de Robin Wright sobre as plantas alucinógenas dos Baniwa, o de Juan Alvaro Echeverri e Edmundo Pereira sobre o uso da coca amazônica e o de Glenn H. Shepard Jr. sobre os venenos dos Machiguenga mostram a riqueza do conhecimento indígena no que se refere a regras sociais para o uso controlado dessas substâncias, as disciplinas corporais e rituais envolvidas nesses usos e a ciência desses povos quando se trata de conhecimento fármaco-vegetal (ver também Labate & Araújo, 2004).

Aqui se encontra um ponto de extrema importância para se abordar a questão do consumo de psicoativos em nossa própria sociedade: a elaboração de sanções, regras, valores e rituais sociais no uso dessas substâncias. De maneira geral, todos os artigos tocam também nesse ponto, enfatizando a existência de controles informais eficazes para se usar psicoativos, que contrastam com os controles estatais, policiais e médicos, alheios às idiossincrasias culturais e mais prejudiciais que benéficos.

Nos artigos que tratam do uso da Jurema – de Clarice Novaes da Mota, Rodrigo de Azevedo Grünewald e Roberto Motta – esses rituais e sanções sociais mostram sua eficácia ao manifestarem um amplo controle dos efeitos do uso, em uma grande área geográfica, de uma planta com propriedades psicoativas poderosas, que passa a ser incorporada à sociedade local sem causar danos psicológicos, fisiológicos ou culturais aparentes. Em vez de uma paranóia generalizada, característica do modelo médico-sanitarista, essa mesma planta e o culto a ela passam a fazer parte das alternativas terapêuticas locais.

O mesmo verifica-se em relação à ayahuasca, uma preparação alucinógena utilizada por mais de 70 grupos indígenas espalhados pelo Alto Amazonas e também entre religiões sincréticas brasileiras (Labate & Araújo, 2004; Luna, 1986; MacRae, 1992). O artigo de Antonio Bianchi demonstra que a ayahuasca é amplamente utilizada em contextos mágico-terapêuticos e que tal uso tem demonstrado possuir uma relativa segurança, dado que são desconhecidos problemas de saúde e/ou sociais associados ao mesmo (p. ex., Grob e cols., 2004).

De maneira geral, todas as substâncias tratadas no livro são vistas dentro dessa ótica, ou seja, usadas de maneira relativamente segura, pois são controladas por prescrições sociais informais. O uso mágico-religioso e terapêutico é predominante, evidenciando um potencial a ser conhecido e inclusive incorporado à nossa sociedade mais ampla. Não necessariamente por meio da transformação de substâncias químicas em fármacos, embora essa seja uma possibilidade, mas sim da valorização das técnicas socioculturais informais para o uso controlado de psicoativos (p. ex., MacRae & Simões, 2000).

Algumas das substâncias tratadas no livro, como a iboga, discutida por Giorgio Samorini, e a maconha, por Edward MacRae e também por Bruno César Cavalcanti, já são conhecidas no meio psicológico e médico. A ibogaína, presente na iboga, tem sido explorada como um eficiente auxiliar em terapias para adicção, principalmente envolvendo opiáceos e cocaína. Já a maconha, muito conhecida em nosso meio, apresenta inúmeros potenciais terapêuticos (Carlini, 2004). Além de ser uma planta com propriedades psicoativas que vem sendo utilizada por séculos em território nacional, como demonstra MacRae e também Cavalcanti, a maconha é uma fonte inestimável de conhecimento sobre nossa química cerebral. Por possuirmos nossa própria "maconha endógena", os endocanabinóides, o estudo dessa erva – bem como das demais substâncias tratadas no livro – pode permitir uma expansão de nossos conhecimentos sobre a relação entre cérebro, neurotransmissores e estados mentais, bem como o desenvolvimento de ferramentas farmacológicas para tratar inúmeras patologias (Ameri, 1999).

Nessa perspectiva, os artigos da coletânea nos mostram, de maneira geral, a delicada relação existente entre moléculas específicas e modificações sensoriais, cognitivas e na consciência. O artigo de Luis Eduardo Luna sobre o motivo da transformação em animais, relativamente comum em experiências com a ayahuasca, ilustra de maneira quase que paradigmática a importância dessas substâncias para os estudos da mente (ver também Shanon, 2002).

De maneira mais ampla, os artigos de Sandra Lucia Goulart e de Beatriz Caiuby Labate, organizadoras do volume, contextualizam o uso de psicoativos (no caso, a ayahuasca) dentro de um panorama mais amplo, relacionado-os com os valores da sociedade nacional e internacional, com a ecologia, o direito, a ética e a moral.

Dentro de todo esse panorama, o principal mérito do livro é o de trazer à tona, de maneira elegante e consistente, a abordagem biopsicosocial para lidar-se com a questão dos psicoativos, buscando "sair" do padrão atual predominante em escala internacional para se lidar com a questão, cuja visão é limitada e linear.

 

Referências

Ameri, A. (1999). The effects of cannabinoids on the brain. Progress in Neurobiology 58, 315-348.

Bucher, R. (1996). Drogas e Sociedade nos Tempos da AIDS. Brasília: Ed. UnB.

Carlini, E. (2004). Riscos e promessas da Cannabis. Scientific American Brasil 26, 59-65.

Dobkin de Rios, M. (1972). Visionary Vine: Hallucinogenic Healing in the Peruvian Amazon. Illinois: Waveland Press, Inc.

Furst, P. (1994). Alucinógenos y cultura. México: Fondo de Cultura Económica.

Grob, C. S. (2002). Hallucinogens: a reader. Nova Iorque: Tarcher/Putnam

Grob, C. S., McKenna, D. J., Callaway, J. C., Brito, G. S., Neves, E. S., Oberlaender, G., Saide, O. L., Labigalini, E., Tacla, C., Miranda, C. T., Strassman, R. J. & Boone, K. B. (2004). Farmacologia humana da hoasca: efeitos psicológicos. Em B. C. Labate & W. S. Araújo (Orgs.), O uso ritual da ayahuasca (pp. 653-669, 2ª ed.). Campinas: Mercado de Letras.

Labate, B. C. & Araújo, W. S. (Orgs.) (2004). O uso ritual da ayahuasca (2ª ed.) Campinas: Mercado de Letras.

Labate, B. C. & Goulart, S. L. (Orgs.). (2005). O uso ritual das plantas de poder. Campinas: Mercado de Letras.

Luna, L. E. (1986). Vegetalismo: shamanism among the mestizo population of the Peruvian Amazon. Stockholm Studies in Comparative Religion, 27, 193-202.

MacRae, E. (1992). Guiado pela Lua: Xamanismo e uso ritual da ayahuasca no culto do Santo Daime. São Paulo: Brasiliense.

MacRae, E. & Simões, J. A. (2000). Rodas de Fumo: O uso da maconha entre camadas médias urbanas. Salvador: EDUFBA.

Schultes, R. E. & Hofmann, A. (1992). Plants of the gods: their sacred, healing, and hallucinogenic powers. Rochester: Healing Arts Press.

Shanon, B. (2002). The antipodes of the mind: charting the phenomenology of the ayahuasca experience. Nova Iorque: Oxford University Press.

 

 

Recebido em 04.04.2006
Primeira decisão editorial em 06.09.2006
Versão final em 21.09.2006
Aceito em 08.12.2006

 

 

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