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Psicologia: Teoria e Pesquisa

Print version ISSN 0102-3772On-line version ISSN 1806-3446

Psic.: Teor. e Pesq. vol.24 no.1 Brasília Jan./Mar. 2008

https://doi.org/10.1590/S0102-37722008000100013 

Pesquisas em psicoterapia: seções especiais de periódico (1981 a 1994)1

 

Psychotherapy researches: special sections of a journal (1981 to 1994)

 

 

Maria Leonor Espinosa Enéas2

Universidade Presbiteriana Mackenzie

 

 


RESUMO

O artigo apresenta pesquisas em psicoterapia e pretende oferecer uma visão qualitativa do desenvolvimento e das tendências da área. Analisa nove seções especiais sobre o tema publicadas no período de 1981 a 1994 em um periódico da American Psychological Association (APA) considerado de ponta em pesquisas em psicoterapia. Verifica ênfase na busca de evidência científica e na articulação da pesquisa com a prática clínica. Observa grande produção no período e avanços na área principalmente quanto a pesquisas de caso único. Verifica que os questionamentos centrais seguem desafiando os pesquisadores.

Palavras-chave: processo psicoterápico; produção científica; análise documental; revisão de literatura.


ABSTRACT

The article presents psychotherapy researches and it intends to offer a qualitative view of the field development and tendencies. It analyses nine special sections about this issue, published from 1981 to 1994, in a journal of the American Psychological Association (APA), which is considered the top in psychotherapy research. It verifies the emphasis on scientific evidences searching and the articulation of research and clinical practice. The article also observes a great production in this period of time and a progress in this field, especially in single-case methodology. The core questionings still challenge the researchers.

Key words: psychotherapeutic process; scientific production; documental analysis; literature review.


 

 

O campo das pesquisas em psicoterapia vem apresentando crescente desenvolvimento e comporta uma análise das principais tendências e perspectivas, uma vez que, como salienta Witter (1999), a produção científica de uma área deve ter entre cinco a oito por cento de trabalhos metacientíficos. Cabe a tais trabalhos avaliar a produção de suas subáreas de forma a aquilatar o nível do conhecimento disponível, bem como delinear políticas de desenvolvimento e necessidades de pesquisadores, entre outras funções. Esse tipo de pesquisa – feita de forma qualitativa ou quantitativa – permite também melhorar o que está sendo gerado e definir os temas de pesquisa (Witter, 2005) e, nesse caso, conhecer melhor o campo naquilo que tem sido produzido internacionalmente.

O vértice escolhido para esta análise foi o seguimento das seções especiais do Journal of Consulting and Clinical Psychology (JCCP) que, em trabalho anterior (Yoshida, Gatti, Enéas, Coelho Filho & Bobrow, 1995; ver também Santeiro, 2005), mostrou-se um periódico com grande número de publicações em psicoterapia breve, método psicoterápico que apresenta grande crescimento, principalmente por favorecer o desenvolvimento de pesquisas em psicoterapia (Shapiro & cols, 2003). Outras características do JCCP definiram sua escolha também por outros pesquisadores: apresenta relatos de pesquisa criteriosamente identificados pelo corpo editorial como os mais representativos de rigorosos métodos de pesquisa clínica (Newman & Howard, 1991); enfoca terapias com pacientes da comunidade que apresentam algum diagnóstico, ou seja, sujeitos reais (Hill, Nutt & Jackson, 1994) e é considerado um veículo de prestígio na área e não apresenta afiliação a nenhuma orientação específica (Omer & Dar, 1992). Quanto ao enfoque nas sessões especiais, supõe-se que, por serem publicadas sobre tópicos considerados de interesse ou importância distinguida no momento (Garfield, 1981), a análise dos artigos dessas seções possa destacar as sistematizações apresentadas sobre o tema. Este artigo pretende oferecer um panorama, no tocante ao desenvolvimento das pesquisas em psicoterapia, que abrange a década de 1980 e a primeira metade da década de 1990. Artigo publicado anteriormente abrangeu a segunda metade da década de 1990 e a primeira metade da década de 2000 (Enéas, 2007).

 

Método de Seleção e Análise das Seções Especiais

Foram identificados os temas destacados no JCCP desde o início de sua sistematização nesse periódico, em 1981, até o ano de 1994, temas estes publicados sob o título de seções especiais ou temas ou séries especiais. Para efeito deste artigo, serão referidas como seções especiais, nome genérico e mais amplamente usado no periódico. Cabe destacar que as seções são compostas predominantemente por estudos empíricos, ênfase esta de toda a publicação desse periódico que é considerado de ponta em pesquisas em psicoterapia (Borkenhagen, Decker, Brähler & Strauss, 2002).

Foram considerados os temas específicos sobre pesquisas em psicoterapia que, de modo geral, empregam processos terapêuticos realizados com indivíduos adultos e também temas conexos de grande interesse para essa área. Estes últimos acrescentam avanços referentes a aspectos relevantes da área que são apontados como problemáticos nas seções mais específicas.

Nos seis fascículos anuais do JCCP, a publicação dessas seções não mostra regularidade, como sugere o Quadro 1. Contudo, observa-se que o interesse por pesquisa em psicoterapia surge desde o início dessas seções e teve crescimento no final do período considerado.

 

 

Das 46 seções especiais publicadas no período de 14 anos, tiveram destaque, além do tema específico deste artigo: transtornos ou situações específicas (n=16), aspectos do tratamento de crianças, adolescentes, casais e família (n=8), temas médicos como neuropsicologia ou medicina comportamental (n=5). Questões de treinamento e tratamento de forma geral e aspectos socioculturais tiveram três seções especiais dedicadas a cada um.

Foram analisadas nove seções, sendo sete relativas à pesquisa em psicoterapia propriamente dita e duas a temas conexos, conforme o Quadro 2. Dado que, como apontado anteriormente, essas seções apresentam os destaques do momento, a análise aqui apresentada procurou levantar e comentar os principais aspectos discutidos nessas seções, mais especialmente as tendências e perspectivas observadas, procurando contribuir para um panorama sistematizado sobre o tema. Essas seções serão apresentadas cronologicamente e seguidas de comentários que articulem a contribuição do período.

 

 

Análise das Seções

A primeira edição especial, editada por Barlow (1981), enfoca a possibilidade de os clínicos fazerem pesquisa, bem como sua utilização efetiva na prática, mostrando preocupação com os delineamentos de pesquisa e os modelos estatísticos empregados, pois as estratégias tradicionais de ambos – delineamentos e modelos – apresentam problemas inerentes que limitam sua aplicabilidade na clínica, sendo inapropriadas principalmente para pesquisas sobre mudança terapêutica. A principal objeção levantada refere-se ao excesso de confiança na significância estatística em detrimento da significância clínica. Kiesler (1981) comenta que a incorreção da escolha do paradigma científico e do modelo estatístico distanciou a ciência da psicoterapia do uso de casos únicos, que ele defende como legítimos e necessários. Strupp (1981) salienta que o objetivo da pesquisa científica é criar condições ótimas para ampliar as fronteiras do conhecimento e, para tanto, fazê-las controladamente pode ser de grande valor. Ressalta, porém, que nada substitui a participação da compreensão do pesquisador para dar sentido aos dados. Strupp também defende o emprego de caso único como uma forma de compreender a intrincada questão das interações humanas e oferecer um tratamento adequado aos pacientes. O autor acrescenta que a atual demanda por evidência científica é apenas indicativa da pouca clareza que é passada para o público por parte dos agentes de saúde mental, quanto às condições e ao compromisso para aliviar o sofrimento humano. Ele ainda afirma que essa crise de confiança não pode ser resolvida pelas pesquisas.

Em 1986, o tema é pesquisa em psicoterapia. Segundo Kazdin (1986), o aumento do interesse pelo tema deveu-se a três aspectos: 1) possibilidade de atendimento a um maior número de problemas; 2) maior refinamento das pesquisas, graças a avanços metodológicos; e 3) crescente interesse social em psicoterapia. Nesse ano, o tema mereceu seções especiais em dois periódicos – JCCP e American Psychologist – tratando de aspectos teóricos e metodológicos e de utilização do conhecimento e treinamento, respectivamente. A ênfase da seção do JCCP é resumida por Greenberg (1986), que aponta a falha na consideração do contexto das terapias, bem como a necessidade de identificar a demanda do paciente, a adequação da intervenção do terapeuta e a relação entre eles de modo a permitir a mudança. Em sua opinião, a lacuna entre a prática e a pesquisa se deve à tendência dos pesquisadores de investigarem o que sabem e não o que é importante para a condução da terapia. Os artigos da seção apresentam diferentes métodos que consideram o contexto da terapia, como a análise de bons momentos nas sessões (Maher & Nadler, 1986) ou análise seqüencial (Russell & Trull, 1986). Beutler e Hamblin (1986) sugerem combinar avaliadores, dimensões ou escalas, visando aumentar a estabilidade global de medidas individuais, sem prejuízo de sua validade. Outra grande preocupação da seção é com a escolha da unidade de análise, que deve ser coerente com a proposta técnica (Henry, Schacht & Strupp, 1986) e a fundamentação teórica que confira significado a essas unidades, que também devem ter sua validade assegurada por meio do uso de transcrições do material (Luborsky, Crits-Christoph & Mellon, 1986).

Observa-se nessa década, a tônica na busca de sistematização das pesquisas de forma que possa escapar a rígidos padrões científicos e encontrar delineamentos que considerem a complexidade do campo interacional e permitam a verificação de variáveis significativas para o processo terapêutico.

Avanços em pesquisa de processo é o assunto trazido por Beutler (1990), que comenta as divergências e a evolução nesse campo desde um período anterior a 1975, apontando a cisão que sempre houve entre pesquisadores de processo e de resultado, cisão que está tornando-se difícil de manter. Contudo, o esforço para tornar mais "empíricos" os construtos empregados nas pesquisas de processo – principalmente da década anterior a 1990 – têm perpetuado a divisão agora entre os defensores de observações objetivas, que empregam definições descritivas, e aqueles que buscam fontes de dados guiados pela teoria e empregam inferências abstratas.

A seção apresenta artigos de ambas as vertentes e, evidentemente, enfoca inúmeras questões metodológicas que interferem principalmente na busca da identificação da especificidade terapêutica, ou efetividade. Compreende-se como especificidade nesse campo a definição de um tipo peculiar de tratamento que possa ser oferecido a um tipo particular de pacientes, sob condições bem definidas e com uma certeza maior quanto à sua efetividade. Discutindo os progressos e dilemas do campo, Marmar (1990) oferece sugestões para melhorar os esforços de pesquisa, incluindo o desenvolvimento de estratégias multivariadas de análise de dados que considerem tanto as interações paciente-tratamento quanto a dependência seqüencial dos dados do processo.

Considerar as interações múltiplas no processo terapêutico também é tema do artigo de Shoham-Salomon (1990), que questiona três pressupostos implícitos na maioria de tais pesquisas, quais sejam, de que as variáveis de processo a) têm significados fixos, b) contribuem isoladamente para o resultado e c) têm uma importância pura descontextualizada, que é avaliada por suas correlações com resultados. Tais pressupostos dificultam o desenvolvimento das pesquisas na área. Garfield (1990) critica as falhas metodológicas, mesmo em pesquisas mais recentes, e também a escolha pessoal dos temas de investigação. Por sua vez, Luborsky, Barber e Crits-Christoph (1990) mencionam que as condições do processo terapêutico, como um sistema interacional complexo, dificultam o avanço das pesquisas além daquilo que se obteve por meio das metodologias empregadas atualmente.

Newman e Howard (1991) editam a seção sobre a busca de novos métodos em pesquisa clínica. A publicação dessa seção parece ter cristalizado uma importante tendência da pesquisa na área (clínica e de processo). Os autores comentam a dificuldade dos clínicos em realizar pesquisas em função das exigências feitas para que elas sejam cada vez mais rigorosas do ponto de vista científico, ao mesmo tempo em que mantidas dentro dos princípios mais tradicionais. Enfocam principalmente o rigor do JCCP e acrescentam a necessidade de solucionar dois problemas daí decorrentes: os métodos rigorosos nem sempre se prestam à pesquisa clínica e esse rigor pode sufocar o surgimento de novos e mais apropriados métodos. Pretendem, em função dessas dificuldades, encorajar duas linhas de desenvolvimento para as pesquisas: 1) identificar as questões clínicas que requerem métodos inovadores e 2) introduzir alternativas aos tradicionais delineamentos, amostragens, medidas e análise de dados que sejam mais apropriadas às circunstâncias clínicas.

O sentido da seção é resumido por Hoyle (1991), para quem são necessárias medidas indiretas de construtos psicológicos na pesquisa clínica, embora algumas vezes o sentido de tais medidas seja ofuscado pelos procedimentos estatísticos que desconsideram a complexidade das relações com as variáveis latentes. Também é enfatizado que responder ao objetivo fundamental da pesquisa clínica, qual seja, determinar para quais grupos especificados de tratamento podem ser encaminhados futuros pacientes requer atenção para as questões de significância clínica cuja consideração, segundo Jacobson e Truax (1991), representou o grande avanço metodológico da década anterior. Até então, o melhor consenso que havia nesse tocante apenas afirmava que significância clínica não era meramente significância estatística. A significância clínica foi definida como a extensão pela qual um indivíduo deixa de pertencer a uma população disfuncional e passa a uma população funcional (Jacobson, Follette & Revenstorf, 1984). Nessa seção, Jacobson e Truax (1991) apresentam e discutem as maneiras de operacionalizar a significância clínica, oferecendo um índice de mudança que pretende captar a mudança real advinda de um processo terapêutico, mesmo sem contar com normas populacionais. Discutem, entre as vantagens desse índice, a operacionalização da recuperação de forma relativamente objetiva e sua aplicabilidade ampla sem restrição de distúrbios. Contudo, eles mesmos apontam algumas limitações para sua generalização, algumas de ordem clínica e outras metodológicas. Essa proposta foi discutida por Speer (1992), que associa a validade da aplicação do índice quando não há possibilidade de regressão dos dados à média. Ankuta e Abeles (1993), por sua vez, relacionaram esse critério à satisfação do paciente e à mudança significativa, afirmando constituir-se em um rigoroso critério de resultado, com a ressalva de que faz a psicoterapia parecer menos efetiva.

Também em 1991, a seção sobre pesquisa da interação cliente-terapia procura melhorar a resposta à questão da efetividade. Na introdução, Shoham-Salomon (1991) aponta a inconsistência e fraqueza dos dados que pretendem responder a essa questão, principalmente em função da incongruência existente entre os achados advindos da pesquisa e o senso comum. O autor ainda critica as dificuldades epistemológicas, conceituais e metodológicas das pesquisas sobre o tema, muitas delas apontadas nos artigos da seção.

Todos os autores da seção propõem pesquisas guiadas teoricamente, diferindo, contudo, em suas ênfases. Beutler (1991) salienta a dificuldade de investigar as interações entre paciente, terapeuta e tipo de terapia devido à impossibilidade de manejar tão grande número de variáveis daí resultantes e principalmente por não existir um referencial teórico consistente que permita selecionar as mais relevantes para a prática clínica. O autor comenta, ainda, que a escolha das variáveis de pesquisa tem tido uma tendência pragmática e que deveria haver uma fundamentação teórica que a orientasse, de forma a responder mais adequada e coerentemente à questão da especificidade. Para tanto, também seria necessário um refinamento nos delineamentos de pesquisa, a fim de investigar mais de perto cada variável e promover maior aproximação com a prática clínica. Beutler discute diversos problemas dos delineamentos de pesquisa, principalmente os advindos dos princípios de homogeneidade da amostra e da consistência dos tratamentos. Sua proposta para correção metodológica consiste em dois paradigmas de pesquisa: um que considere uma única dimensão do paciente e uma única dimensão da terapia de cada vez, e outro, para estudos de eficácia, que deveria aumentar a proximidade do contexto da terapia, o que ele chama de validade contextual, aproximando-se da prática clínica.

No ano de 1991, evidencia-se a cisão, mencionada por Beutler (1990), com as seções divididas entre propostas mais específicas de refinamento metodológico, que são de ordem empírica, e a outra com sugestões de pesquisas teoricamente guiadas, estas ainda se ressentindo da limitação metodológica. Todos os reclamos por novos métodos de pesquisa trazem de volta a pesquisa de caso único em psicoterapia. Jones (1993), na introdução da seção, comenta as vantagens trazidas por desenvolvimentos na metodologia dos delineamentos intensivos de caso único, o que permite aumentar sua aplicabilidade tanto para testar construtos clínicos teóricos, quanto para identificar relações causais. Os desenvolvimentos metodológicos são ilustrados nos artigos da seção e, somados às limitações dos modelos usuais, trazem ao delineamento de caso único um destaque renovado. Jones ainda aponta alguns fatores considerados falhos nos métodos mais tradicionais, como um crescente reconhecimento da limitação dos ensaios clínicos controlados para informar sobre o processo de mudança do paciente, a necessidade de testar modelos teóricos clínicos de forma a superar os dados indiretos dos estudos comparativos e a constatação de que a pesquisa pouco tem influenciado o desenvolvimento da teoria ou a prática clínica. O desconhecimento quanto à ampla variedade de pesquisas de caso único, desde estudo de caso até experimento de caso único, e a dificuldade para a generalização de seus achados podem ser motivos da dificuldade de sua aceitação. Hilliard (1993) define cuidadosamente o delineamento de caso único como uma pesquisa intrasujeito, cuja generalidade é obtida por réplicas sucessivas, e oferece uma categorização básica para essas pesquisas em função do tipo de dados empregados, da manipulação ou não de variáveis e do objetivo do teste de hipótese. Por meio desse tipo de delineamento, o autor supõe que seja mais fácil responder às questões sobre mudanças terapêuticas, substituindo um foco exclusivo sobre o processo ou o resultado terapêutico por um foco sobre o processo de mudança ou processo de resultado.

Ainda em 1993, Luborsky, Barber e Beutler (1993) introduzem uma seção especial sobre fatores curativos em psicoterapia dinâmica, campo que está em franco desenvolvimento e conta com abordagens mais inovadoras que têm refinado a essência dos fatores curativos. Apontam sete principais proposições sobre os fatores curativos dentro das teorias dinâmicas da mudança em psicoterapia e que são derivados de revisões na área. Esses fatores, considerados mais confiáveis, são os seguintes: a) pacientes com maiores recursos de força egóica ou saúde psicológica geralmente melhoram mais, b) as capacidades do paciente para estabelecer um relacionamento interpessoal influenciam no resultado da terapia, c) a formação da aliança terapêutica é vital para o progresso e para o resultado da psicoterapia, d) a formulação do padrão transferencial e dos conflitos inerentes a esse padrão devem ser feitos para cada paciente, e) quanto maior a capacidade do paciente para internalizar os ganhos advindos da terapia, mais os ganhos podem ser mantidos, f) o desenvolvimento de insight e a auto-compreensão facilitam os ganhos da psicoterapia, e g) as intervenções do terapeuta (principalmente interpretações) são mais efetivas quando focalizam explicitamente os conflitos que mais interferem no padrão transferencial. Os artigos da seção descrevem medidas operacionais de cada um dos fatores mencionados acima, como a condição psicológica do paciente (Horowitz, Rosenberg & Bartholomew, 1993; Luborsky & cols, 1993), a aliança terapêutica (Horvath & Luborsky, 1993) e as interpretações transferenciais (Piper, Joyce, McCallum & Azim, 1993), entre outros. Evidentemente ainda apontam uma série de questões metodológicas que interferem no desenvolvimento das pesquisas. Barber e Crits-Christoph (1993) revisam as formulações dinâmicas dos padrões interpessoais mal adaptativos e concluem que a nova geração de medidas usa operacionalizações mais específicas dos conceitos centrais, além de ter desenvolvido um referencial sistemático para a avaliação dos juízes. Ao discutirem a questão da precisão entre os avaliadores, que é uma tarefa complexa, os autores sugerem o uso de juízes independentes. Quanto ao uso de categorias padronizadas, consideram que, embora possam diminuir os vieses dos juízes, pode haver perda de informação importante, sendo necessário um maior número de pesquisas. Mesmo assim, as formulações dinâmicas se mostram eficientes para considerar o contexto dos tratamentos.

Gottman e Ruche (1993) encerram o ano com mais uma seção especial, esta voltada para a discussão da análise de mudança, apresentando questões, enganos e novas idéias. Trata-se de um tema de interesse conexo por especificar a análise de mudança em dados longitudinais. Comentam que algumas propostas de avaliação de mudança de sujeitos únicos foram feitas por Harris em 1967, porém permaneceram desconhecidas para muitos pesquisadores e revisores de periódicos, o que retardou o progresso nessa área. Os aspectos mais relevantes mencionados nessa seção referem-se a novas tentativas para o tratamento estatístico desses dados, empregando delineamentos seqüenciais, que talvez possam ser empregados em análises de mudanças ocorridas em um período de tempo menor, como em processos psicoterápicos. Crosbie (1993), por exemplo, discute a dificuldade de analisar dados de um único sujeito, que são seqüenciais e não aleatórios, visto que as provas estatísticas disponíveis são inválidas nesses casos; também comenta que a inferência visual, ou seja, a observação gráfica das mudanças, tem dificuldades com a precisão e um risco excessivo de erro Tipo I, que seria uma inferência errônea de uma diferença significativa entre as fases. Ao final, Crosbie propõe um procedimento de análise de séries temporais interrompidas para controlar a auto-correlação dos dados.

Em 1994, a seção especial sobre modelo da equação estrutural em pesquisa clínica, também considerada de interesse conexo, pois enfoca as questões metodológicas de delineamento e de análise estatística e pretende responder questões de pesquisa clínica. Hoyle (1994) comenta, na apresentação, os aspectos da maturidade de uma disciplina científica, que vão permitindo maior complexidade e especificidade das questões formuladas. O autor segue Reis e Stiller (citado por Hoyle, 1994) para designar o momento como a segunda geração de pesquisa. Essas gerações são caracterizadas pelos avanços metodológicos, sendo que a segunda geração já pode empregar delineamentos e modelos estatísticos complexos. Considera um marco dessa geração a seção especial de 1991 do JCCP sobre novos métodos de pesquisa clínica.

 

Comentários Finais

Como pôde ser acompanhado no desenrolar das seções especiais, a grande preocupação da área é investigar a mudança psíquica, o que requer a consideração do contexto em que ocorrem os processos terapêuticos – um campo interacional bastante complexo. Os aspectos mais importantes que perpassam as seções especiais referem-se, portanto, de um lado, à busca de evidência científica, principalmente para as pesquisas de eficácia – que esbarram nas limitações dos delineamentos de pesquisa e nos modelos estatísticos existentes que não se prestam a abranger a complexidade da interação das variáveis do campo – e, de outro, à necessidade de articulação entre a pesquisa e a prática clínica.

Quanto ao primeiro aspecto – a busca de evidência científica –, a tentativa de desenvolver métodos mais apropriados para captar a complexidade do fenômeno em estudo já é antiga (Kiesler, 1966) e continua sendo atual. O desafio representado pela intricada rede de características observadas na interação terapêutica vem alimentando as pesquisas de processo em psicoterapia. A busca da efetividade apresenta um desenvolvimento revelado pela redefinição da proposição de intervenções, do tipo de condições do paciente necessárias para o bom resultado da terapia, das condições técnicas e pessoais do terapeuta e das características da interação que promovem a mudança. Se, por um lado, a preocupação com a efetividade é crescente e fundamental em toda a consideração de pesquisa de processo, por outro, os achados de pesquisa não se mostram conclusivos, mas têm conduzido a um maior refinamento na colocação do problema.

Relativamente aos delineamentos, o destaque foi para as pesquisas de caso único que apresentaram maiores avanços metodológicos e podem permitir uma abrangência maior do contexto das mudanças, contando atualmente com mais consenso entre os pesquisadores, especialmente por responder questões de eficiência.

Quanto ao segundo aspecto – articulação entre pesquisa e prática clínica –, Omer e Dar (1992), ao discutirem as tendências de pesquisa em psicoterapia, apontaram que o grande desafio da pesquisa moderna seria o de aproximar suficientemente os estudos teóricos das condições clínicas e a possibilidade de a pesquisa clínica pragmática melhorar sua relevância teórica. Nas seções especiais desse período, observa-se, desde o início, grande preocupação com a utilização clínica das pesquisas. Levantam-se questões como a delimitação nos delineamentos, principalmente por não permitirem considerar adequadamente o contexto das terapias, a necessidade de integrar processo e resultado nas investigações e a limitação dos procedimentos estatísticos para a análise significativa dos construtos psicológicos. Essas questões aparentemente buscam responder ao mencionado desafio, confirmando a tendência apontada por Omer e Dar (1992).

O aspecto que originou o artigo desses autores refere-se à distinção entre as pesquisas guiadas teoricamente ou aquelas eminentemente empíricas. Debate antigo no campo da psicologia científica, gerou extremos, apontados pelos autores, de busca excessiva pela fundamentação teórica das pesquisas nos anos 1960 até seu abandono completo na década seguinte. Ao que parece, fracassos, tanto na tentativa de comprovar primazias teóricas quanto em isolar e correlacionar variáveis de per se, podem levar a uma real aproximação entre o embasamento teórico empregado na prática clínica e a análise sistemática das variáveis significativas para o processo terapêutico. As limitações e necessidades verificadas nas seções especiais desse período parecem apontar nessa mesma direção.

Como observado, esse período foi profícuo em propostas de soluções para os problemas levantados até a década anterior – especialmente quanto aos delineamentos de pesquisa não abrangerem a complexidade do campo interacional. Esses problemas ainda são apontados no início da década de 1990, mas já em 1991 há uma ampliação dos questionamentos da área, envolvendo também a limitação dos procedimentos estatísticos para considerar a complexidade da relação entre as variáveis. Também a significância clínica ganha operacionalização e a pesquisa de caso único é apresentada como um avanço metodológico significativo em contrapartida às críticas persistentes quanto à dificuldade de generalização dos achados de pesquisa e de sua utilização na prática clínica. Outras propostas importantes são apontadas em metodologias de pesquisa teoricamente guiadas e no tratamento estatístico de dados longitudinais.

Outra observação interessante refere-se ao pico de publicações sobre pesquisa em psicoterapia no final do período considerado. Tendência semelhante foi observada por Santeiro (2005) que avaliou a produção de artigos relativos à psicoterapia breve psicodinâmica (PBP) e usou o JCCP como um dos suportes de sua pesquisa. O autor verificou que, em 1993, o JCCP apresentou a maior concentração de publicações sobre PBP de todo o período considerado e que foi equivalente ao desta análise. Como mencionado inicialmente, a psicoterapia breve favorece a realização de pesquisas (Shapiro & cols., 2003), fazendo supor que as observações desses estudos sugerem que esse período correspondeu a intensas buscas por soluções aos desafios colocados no campo.

Em artigo anterior, foi possível verificar como fica essa tendência até o momento atual e quais os desafios surgidos e as possíveis propostas para superá-los (Enéas, 2007).

 

Referências

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Recebido em 18.04.2006
Primeira decisão editorial em 25.08.2006
Versão final em 07.06.2007
Aceito em 11.07.2007

 

 

1 Parte do artigo foi apresentada na Introdução da Tese de Doutorado defendida na PUCCAMP em abril de 1999 sob orientação da Dra. Elisa Medici Pizão Yoshida.
2 Endereço: Clínica Psicológica, Rua Piauí, 181 2º andar, São Paulo, SP, Brasil 01241-001. E-mail: mleeneas@mackenzie.com.br

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