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Psicologia: Teoria e Pesquisa

versão impressa ISSN 0102-3772

Psic.: Teor. e Pesq. vol.26 no.4 Brasília out./dez. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-37722010000400019 

Resenha: cinema e loucura: conhecendo os transtornos mentais através dos filmes

 

Book review: movies and brain sickness: understanding the mental disorders through the movies

 

 

Antonio Pedro de Mello Cruz1

Universidade de Brasília

 

 

Lançado no primeiro semestre de 2010 pela editora Artmed, o livro Cinema e Loucura - conhecendo os transtornos mentais através dos filmes mescla harmônica e criativamente todos os ingredientes para se tornar uma leitura aprazível ao público geral e muito útil como recurso didático em cursos de psiquiatria, psicologia e áreas afins.

Seus autores, o psicólogo e neurocientista J. Landeira Fernandez e o médico psiquiatra Elie Chaniaux, percorrem o mundo mental e fascinante das personagens de nada menos que 184 filmes de longa metragem do cinema nacional e estrangeiro. Ilustram e explicam o quadro clínico dessas personagens e sua classificação correspondente com base em critérios diagnósticos e classificatórios amplamente utilizados - o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV), da Associação Norte-americana de Psiquiatria, e a Classificação Internacional de Doenças (CID-10), da Organização Mundial de Saúde.

Já no capítulo introdutório o leitor se depara com as vicissitudes e limitações dos sistemas classificatórios das doenças mentais, além de um breve histórico da psiquiatria no Brasil. Como em toda obra, composta de 15 capítulos distribuídos em 288 páginas, nota-se a preocupação de tornar o texto suficientemente acessível mesmo para aqueles leitores que porventura não dominem o tema da doença mental. Além das referências bibliográficas, o livro nos brinda com uma referência filmográfica digna dos melhores cinéfilos.

Além de identificar facilmente determinados quadros clínicos em personagens caricatos de filmes que se tornaram familiares de todos nós, como a personagem que sofre de transtorno obsessivo-compulsivo, representada por Jack Nicholson no filme Melhor é impossível, ou a personagem com transtorno bipolar, representada por Richard Gere em Mr. Jones, o leitor será apresentado a transtornos e filmes menos conhecidos, como o transtorno de Asperger, identificado na personagem Donald, representada pelo ator Josh Hartnett no filme Loucos de amor. Além disso, o livro também analisa criticamente conceitos e quadros clínicos mal definidos ou diagnosticados erroneamente em personagens de outros filmes, a exemplo das personagens de Prot, vivida por Kevin Spacey no filme K-Pax, ou a de Parry, interpretada por Robin Williams no filme O pescador de ilusões.

A pergunta que o leitor pode fazer é: existem filmes suficientes para ilustrar cada um dos mais variados transtornos mentais? As artes sempre tiveram predileção por personagens envoltos em conflitos próprios da existência humana, das diferenças e como compreendê-las, do que compartilhamos com o sofrimento da alma e da mente, dos limites entre a sanidade e a loucura. O cinema não é exceção. Como os próprios autores descreveram, a maior dificuldade que eles tiveram foi justamente selecionar dentre tantos filmes aqueles integrariam os 184 filmes incluídos no livro. Pouquíssimos foram os transtornos mentais ainda não representados na telona, como o transtorno de despersonalização e a tricotilomania, dizem os autores. Será?

De certo você encontrará aqui ou acolá outros filmes que poderiam ter sido incluídos na obra. Melhor ou pior que os 184 escolhidos pelos autores, na minha opinião isso não importa. Novos filmes também serão lançados sobre o tema. É a dinâmica do cinema alimentando nossa curiosidade por esse inesgotável tema da doença mental. E vice-versa.

A obra é muito bem vinda, endossada não só pela comunidade acadêmico-profissional da área de saúde, como fica evidente no prefácio do respeitadíssimo professor e psiquiatra brasileiro Francisco Lotufo Neto, como nos elogios prestados na nota de contra-capa pelo prestigiado jornalista e escritor Rui Castro. Fui levado a rever filmes sob essa nova e interessante perspectiva. Adorei. E continuo vasculhando em videotecas e cinemas.

Além de médicos e psiquiatras, o livro também será lido por profissionais da área de saúde alheios ou críticos aos sistemas classificatórios do DSM e da CID-10 utilizados no livro. Outros leitores poderão eventualmente discordar da interpretação dada pelos autores para alguns transtornos baseados nas mais variadas personagens dos filmes. Suas críticas serão bem-vindas. De fato, o livro parece já estar cumprindo esse papel. Convido-o a participar desse debate.

 

Referência

Fernandez, J. L. & Chaniaux, E. (2010). Cinema e Loucura - conhecendo os transtornos mentais através dos filmes. Porto Alegre: Artmed.         [ Links ]

 

 

Recebido em 28.10.10
Primeira decisão editorial em 09.11.10
Aceito em 09.11.10
ν

 

 

1 Endereço para correspondência: Departamento de Processos Psicológicos Básicos, Instituto de Psicologia, Brasília - DF. CEP 70910-900. Universidade de Brasília. E-mail: apmcruz@unb.br

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