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Psicologia: Teoria e Pesquisa

Print version ISSN 0102-3772

Psic.: Teor. e Pesq. vol.27 no.4 Brasília Dec. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-37722011000400021 

Notícia

 

 

Obituário

Bernardo Jablonski (1952-2011)

 

 

 

Após uma longa e corajosa luta contra o câncer, faleceu em 28 de outubro de 2011 o professor, psicólogo social, ator, escritor, diretor, roterista e produtor Bernardo Jablonski.

Apesar de atingido por um câncer na glândula tireóide quando tinha apenas 46 anos de idade, Bernardo enfrentou a doença com uma tenacidade admirável. Continuou exercendo normalmente as múltiplas atividades que seu imenso talento lhe permitia, até ser internado para submeter-se ao que veio a ser a última de uma longa série de cirurgias.

Bernardo nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 1 de janeiro de 1952, precedido por seus irmãos Fernando e Silvio. Filho de imigrantes poloneses (seus pais experimentaram as agruras de um campo de concentração nazista), Bernardo foi um filho dedicado e sempre presente. Casou-se com a destacada artista de teatro e TV, Maria Clara Gueiros, com quem teve dois filhos, João (17) e Bruno (14).

Ainda quando estudante do Mestrado em Psicologia da PUC-Rio, Bernardo foi convidado por Aroldo Rodrigues (então Diretor do Departamento) e por seus coordenadores (Terezinha Féres-Carneiro, Vera Lemgruber e Bernard Rangé) para juntar-se a um grupo formado por eles, o professor Miguel Chalub e a secretária do departamento, Norma F. Soares. Este grupo se reunia todas as quintas-feiras para almoço em diversos restaurantes do Rio. Bernardo então cunhou a palavra "Aquinfs" (almoços das 5as. feiras) para caracterizar estes encontros, termo que se tornou parte integrante do vocabulário de seus membros. Ao longo dos anos os Aquinfs continuaram, sempre que fosse possível ao grupo reunir-se. O último deles foi realizado em agosto de 2011, pouco mais de dois meses antes de sua morte. Apesar de um pouco debilitado fisicamente pelo adiantado estado da doença, o espírito e a presença marcantes de Bernardo, com seu inexcedível humor e inquebrantável otimismo, estavam inalterados. De seu primeiro ao último Aquinf, ele nos inspirou e nos alegrou.

Bernardo foi dotado de tantos talentos que é difícil identificar-se qual o mais impressionante. Seria a sua dedicação à sua família e a seus inúmeros amigos? Seria o brilho de sua inteligência, sua capacidade de trabalho e suas realizações em psicologia, no teatro, no cinema e na TV? Seria seu constante bom humor e espírito jocoso (antes e depois de ser diagnosticado como portador de um tumor maligno)? Seria a sua lealdade a seus amigos? Seria a sua dedicação a seus alunos? Numerosos exemplos ilustrativos de todas essas virtudes podem ser facilmente evocados por todos os que o conheceram de perto.

Tivemos a sorte e o privilégio de ter desfrutado da amizade de Bernardo por mais de três décadas. Durante todos esses anos, Bernardo foi sempre o mesmo, apesar de atingido prematuramente por doença tão implacável. Nunca se queixou. Nunca perdeu o otimismo. Nunca deixou de submeter-se às determinações de seus médicos, no Brasil e no exterior. E, por incrível que pareça, nunca deixou de trabalhar, de produzir, de inovar, de reunir-se com seus amigos, de partilhar da vida de seus filhos, de fazer humor em seus livros, roteiros e conversas e de viver uma vida plena. Até tênis ele jogou poucos meses antes de falecer.

No domínio científico e acadêmico, Bernardo procurou aperfeiçoar-se continuamente. Diplomado em Psicologia pela UFRJ, ingressou no programa de pós-graduação da PUC-Rio onde obteve seu Mestrado. Em seguida, doutorou-se em Psicologia Social na Fundação Getúlio Vargas. O mesmo ocorreu em relação ao setor artístico. Bernardo aprimorou seu talento para o teatro sob a orientação da renomada criadora do Tablado, Maria Clara Machado, destacando-se posteriormente como ator, escritor, diretor e crítico de teatro e TV. Foi professor de psicologia na PUC, na UERJ, na UGF, pesquisador do CNPq e formou numerosos estudiosos de artes teatrais nos cursos que ministrou, por quase quatro décadas, no Tablado, que esteve sob sua presidência nos últimos dez anos.

Entre seus livros, destacam-se: Até que a vida nos separe, uma análise do casamento nos dias de hoje e oriundo de pesquisa realizada para sua Tese de Doutorado; Psicologia Social, em co-autoria com Aroldo Rodrigues e Eveline M. L. Assmar, manual utilizado com freqüência em universidades brasileiras e mexicanas; A luta nas classes, livro de fino humor re-editado várias vezes; Enlouquecendo em família, sátira humorística de alto nível; e estava em preparação O mestre contra-ataca: como infernizar a vida de um estudante, os três últimos em parceria com Ronald Fucs. Além de livros, Bernardo publicou vários artigos em revistas científicas nacionais e estrangeiras.

Psicólogo por opção e humorista por natureza, Bernardo continuamente integrava sua atividade científica com sua propensão ao humor, assim como utilizava seus conhecimentos psicológicos em suas criações artistísticas. Um de nós (Aroldo Rodrigues) foi seu orientador em sua Tese de Doutorado e co-autor no livro Psicologia Social em colaboração com Eveline M.L.Assmar. Inúmeras foram as vezes, tanto em sua tese como no livro, em que tive que tentar controlar a impressionante capacidade humorística de Bernardo a fim de que o texto não fugisse aos padrões tradicionais de trabalhos científicos. Isso me foi muito difícil, pois seu humor era de alto nível e parte indissociável de sua personalidade.

Eu (Terezinha Féres-Carneiro) tive o privilégio, no meu convívio estreito e cotidiano com Bernardo por mais de 30 anos, como amiga/irmã e parceira acadêmica, de aprender com ele a simplicidade, a generosidade, a sabedoria de enfrentar a vida com leveza, e a delicadeza e o respeito para com todas as pessoas. Durante todo este tempo em que convivemos, jamais vi o Bernardo desanimar, se lamentar, perder o humor, ou fazer qualquer comentário negativo em relação a quem quer que fosse. Por tudo isto, minha gratidão a ele é eterna

Em psicologia social Bernardo nos deixou importantes contribuições no que tange a relações interpessoais (com ênfase especial na relação conjugal), preconceito e influência social. No teatro, no cinema e na TV seu impacto foi enorme, tanto como artista, como na qualidade de roteirista, crítico, produtor e diretor. Só mesmo uma pessoa extremamente dotada poderia alcançar tanto sucesso em áreas tão distintas. Nem uma doença gravíssima foi capaz de diminuir seu ritmo de trabalho em ambos esses domínios, o qual se manteve inalterado até o dia da última das 14 cirurgias a que foi submetido em 13 anos.

As manifestações de carinho e os profundos sentimentos de dor pela sua morte explodiram com flagrante sinceridade por parte da legião de amigos e admiradores que vieram lhe dar o último adeus. Dela fazia parte pessoas do mundo científico e acadêmico, destacados integrantes do cenário artístico, assim como numerosos alunos e ex-alunos de seus cursos na PUC-Rio e no Tablado.

Bernardo não tinha inimigos. E nem poderia tê-los, pois dele as pessoas não recebiam outra coisa senão gentilezas e atenções especiais. Como ninguém é perfeito, poder-se-ia dizer que Bernardo tinha um único defeito: torcia para o Flamengo... Suas incontáveis virtudes, entretanto, tornavam esse defeito totalmente imperceptível.

Para os que não o conheceram, seguem-se alguns excertos de uma entrevista feita com ele e reproduzida em http://extra.globo.com/tv, onde foi perguntado acerca do câncer de que havia sido acometido. Seu humor se revela até mesmo em relação ao câncer que lhe atingiu, ao responder à pergunta que lhe foi feita:

Começou na tireóide. Quando descobri, a doença já tinha se espalhado. Fiz seis ou sete cirurgias. Tirei tudo: tireóide, cordas vocais, útero, ovário... E botei silicone, sabia? - conta ele, brincando, referindo-se às próteses que substituem suas cordas vocais.

E sua filosofia de vida se revela na resposta seguinte:

É uma luta. Mas todo mundo tem seus problemas. Uns não têm dinheiro, outros batem de carro... Claro que dá uma baqueada. Mas a gente esquece e vai em frente.

E ainda:

Tem que ter muito humor para acordar de manhã e suportar as dores do mundo. E eu vivo disso.

Foi mesmo um raro privilégio conhecer, admirar e desfrutar da amizade de Bernardo. Sabemos que todos nós, seus amigos e admiradores, continuaremos a tê-lo conosco em nossos pensamentos, em nossas conversas, em nossos Aquinfs, enfim, em nossas vidas. Bernardo é inesquecível e insubstituível. A ele o nosso mais profundo agradecimento por ter sido como foi e por nos ter trazido tanta alegria e tanto enlevo. Deixou a seus filhos e a seus amigos um legado de valor inestimável: um exemplo magnífico de como a vida deve ser vivida.

 

 

Aroldo Rodrigues
Department of Psychology
California State University, Fresno

Terezinha Féres-Carneiro
Departamento de Psicologia
PUC-Rio