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Psicologia: Teoria e Pesquisa

versão impressa ISSN 0102-3772

Psic.: Teor. e Pesq. vol.28 no.3 Brasília jul./set. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-37722012000300010 

Relacionamentos de amizade e coping entre jovens adultos

 

Friendship relationships and coping among young adults

 

 

Diogo Araújo DeSousaI;  Elder Cerqueira-SantosII

IUniversidade Federal do Rio Grande do Sul
IIUniversidade Federal de Sergipe

Correspondência para

 

 


RESUMO

Este artigo descreve um estudo de relações que existem entre características dos relacionamentos de amizade de jovens adultos e suas estratégias e recursos de coping. Participaram 98 jovens adultos, com idades entre 18 e 30 anos (M=23,01; DP=6,57), 45,9% homens. A amostragem se baseou na técnica do Respondent Driven Sampling. Foram aplicados um questionário sociodemográfico e três escalas autoaplicáveis (abordando relacionamentos de amizade, estratégias de coping e percepção de suporte social). Estratégias de coping por confronto e reavaliação positiva se associaram às amizades com mulheres, enquanto que o autocontrole se correlacionou positivamente a amigos homens. Qualidades da amizade se correlacionaram positivamente à percepção de suporte social. Quanto melhores as qualidades das amizades, mais os amigos provêm recursos de coping.

Palavras-chave: Amizade; Relacionamentos; Coping; Suporte social; Adultos.


ABSTRACT

This article describes a study of existing relations between friendship characteristics of young adults and their coping resources and strategies. The participants of this study were 98 young adults, aged 18 to 30 years (M=23.01; SD=6.57), 45.9% man. The sampling was based on the Respondent Driven Sampling technique. A self-assessment questionnaire composed of socio-demographics and three self-report scales (concerning friendship relationships, coping strategies and social support perception) were administered. Confrontive and positive reappraisal coping were positively correlated with friendships toward female friends. Self-controlling was correlated positively with male friends. Friendship qualities showed a positive correlation with perceived social support. The higher the quality of the friendships, the more friends are able to provide coping resources.

Keywords: Friendship; Relationships; Coping; Social support; Adults.


 

 

A concepção teórica reconhecida nacional e internacionalmente que considera o desenvolvimento humano do período pré-natal à morte, ou seja, a abordagem que se preocupa com o desenvolvimento humano ao longo de todo o ciclo vital, "incentivou o estudo dos relacionamentos nas diferentes etapas da vida e a análise desenvolvimental de relacionamentos de longa duração" (Souza & Hutz, 2008a, p. 258). Dentre esses relacionamentos, as amizades ocupam grande espaço. Segundo Killworth, Bernard e McCarty (1984), do total de indivíduos na rede social1 de uma pessoa, 86% são identificados como amigos. Hill e Dunbar (2003) chegaram ao resultado de que 63% dos relacionamentos na rede são relacionamentos de amizades.

As amizades continuam predominando mesmo quando contabilizados somente os relacionamentos íntimos das pessoas. Para acessar e identificar esses relacionamentos, Christakis e Fowler (2010) testaram perguntas como "Com quem você discute coisas importantes?" ou "Com quem você passa seu tempo livre?" e descobriram que "aproximadamente metade das pessoas listadas como membros de grupos íntimos foi reportada como sendo constituída de amigos" (p. 14). A outra metade incluía diversas formas de relacionamento, como cônjuges, parceiros, parentes, filhos, colegas de trabalho, de clube, vizinhos e consultores profissionais. Tais achados apontam para a notável presença e destaque das amizades nas redes sociais.

Alguns estudos têm se dedicado a pesquisar o impacto dos relacionamentos de amizade sobre o desenvolvimento humano durante as várias fases do seu ciclo vital. Eles focalizam vários aspectos como as habilidades sociais, a saúde, a qualidade de vida e a longevidade das pessoas, e trazem algumas conclusões. Por exemplo, na infância, crianças que participam de atividades grupais em creches e estabelecem laços de amizade estáveis durante a época de brincar aprendem a ser mais úteis e cooperativas, bem como mais assertivas em seus comportamentos (Berger, 2003).

Em um estudo nacional, Garcia (2005) realizou uma revisão crítica da literatura acerca de relacionamentos de amizade na infância. Os resultados demonstraram que, entre crianças, as amizades servem ao processo de socialização na medida em que desenvolvem importantes aspectos positivos dos relacionamentos sociais, como cooperação e suporte social, além de aspectos negativos, como conflito e competição. Para Lisboa e Koller (2003), a experiência de afeto atrelada à amizade é única no ciclo vital. Benefícios de aceitação, intimidade e confiança construídos nas relações entre amigos preenchem um papel diferenciado daqueles providos por relacionamentos familiares ou conjugais, por exemplo.

Entre adolescentes, os relacionamentos de amizade auxiliam em um desenvolvimento psicossocial saudável, proporcionando trocas de informações, apoio social e companhia de pares que estão passando por mudanças similares. Ter amigos oferece proteção social contra o tumulto das mudanças físicas e psicossociais da adolescência, bem como auxilia na busca do autoconhecimento e da formação de sua identidade funcional (Brown, 1990; Savin-Williams & Berndt, 1990). Além disso, as relações de amizade na adolescência – tanto as amizades íntimas quanto as relações de grupo – são um fator primário de análise no envolvimento ou não da pessoa com o fumo e o álcool (Ennett & Bauman, 1993; Kobus, 2003; Urberg, Degirmencioglu & Pilgrim, 1997), e o fato de poder discutir os problemas com os amigos é fator de proteção contra o suicídio, e tem inclusive maior capacidade de preveni-lo do que fatores de risco como o consumo de drogas têm de provocá-lo (Borowsky, Ireland & Resnick, 2001).

Em um estudo com universitários, Duarte e Souza (2010) identificaram algumas características de relevância nos relacionamentos de amizade. A confiança nos amigos, a intimidade partilhada, o respeito e a aceitação se mostraram aspectos positivos ressaltados para as amizades entre jovens adultos. Em contrapartida, conflitos também foram relatados, demonstrando que os relacionamentos de amizade, assim como outras formas de relacionamentos sociais, envolvem também sentimentos negativos, para além dos sentimentos positivos em geral associados a eles.

Na passagem para a idade adulta, as amizades tendem a se estreitar e fortalecer na medida em que jovens se afastam aos poucos de suas famílias (Peron, Guimarães & Souza, 2010). Na idade adulta, os relacionamentos de amizade se caracterizam por uma similaridade entre os amigos em relação a diversos aspectos, como o sexo (são mais comuns as amizades entre pessoas do mesmo sexo), estado civil, idade, escolaridade, renda, traços de personalidade, interesses comuns e atividades compartilhadas (Souza & Hutz, 2008a, 2008b). Na idade adulta avançada, manter contato frequente com amigos diminui o risco entre pessoas idosas de desenvolver deficiências de locomoção (Mendes de Leon, Gold, Glass, Kaplan & George, 2001), bem como previne ou atrasa a necessidade de uso de cuidados de enfermagem domiciliares (Giles, 2007). Segundo Giles, Glonek, Luszcz e Andrews (2005), idosos com redes maiores de boas amizades podem chegar a aumentar em até 22% suas chances de ter uma vida mais longa que idosos com poucos ou sem amigos. Além disso, ter pelo menos um amigo íntimo em quem se possa confiar funciona como uma proteção contra a perda de status e de funções comum a essa fase (Berger, 2003).

Ainda na idade adulta avançada, homens mais velhos com mais e melhores amigos apresentam menos chances de desenvolver doenças cardíacas em comparação com os mais solitários (Loucks et al., 2006). Entre as mulheres mais velhas, ter mais amizades tem uma influência protetora nas funções cognitivas, diminuindo significativamente a incidência de problemas cognitivos entre elas, quando comparadas com idosas com redes sociais menores e mais frágeis (Crooks, Lubben, Petitti, Little & Chiu, 2008). Some-se a todos esses benefícios o fato de que a memória de quem tem um círculo estável de amizades na idade avançada declina duas vezes mais lentamente que a daqueles pouco integrados socialmente, independente de outros fatores como gênero, idade ou etnia (Ertel, Glymour & Berkman, 2008).

Tais achados demonstram a grande relevância das discussões sobre o papel da amizade na vida humana. A importância dos amigos para o bem-estar também é apontada por Argyle (2001). Segundo o autor, os três fatores primordiais na satisfação de um indivíduo com a vida são o trabalho, o lazer e os relacionamentos. Argyle identificou esses mesmos três aspectos em diferentes culturas. Para o fator relacionamentos, três formas foram destacadas como mais fortemente relacionadas à felicidade das pessoas: família, romance e amizade. Vaillant (2003) complementa assegurando que os benefícios trazidos pelos relacionamentos sociais – entre eles, as amizades – superam outros fatores como o dinheiro, sucesso profissional ou status social (agentes da felicidade e satisfação com a vida).

Vista a quantidade de trabalhos sobre o tema e as indicações da importância das relações estabelecidas nas redes sociais para o desenvolvimento humano, é de grande interesse e relevância que seja estudado de que forma as relações de amizade – uma das topografias de relação de maior força na constituição das redes – influenciam aspectos do desenvolvimento no ciclo vital. Um dos aspectos sobre os quais podem incidir as influências dos relacionamentos de amizade é o coping, que pode ser definido como "o conjunto das estratégias utilizadas pelas pessoas para adaptarem-se a circunstâncias adversas", ou "os esforços despendidos pelos indivíduos para lidar com situações estressantes, crônicas ou agudas" (Antoniazzi, Dell'Aglio & Bandeira, 1998, p. 274).

Lazarus e Folkman (1984) descreveram um modelo de coping no qual se definem duas categorias funcionais, separando ações, comportamentos ou pensamentos utilizados para enfrentar episódios estressores: o coping focalizado no problema e o coping focalizado na emoção. O coping focalizado na emoção abarca os esforços para regular o estado emocional que é associado ao estresse, ou é resultado dos eventos estressantes. Por outro lado, o coping focalizado no problema abarca os esforços para atuar na situação que deu origem ao estresse, com o objetivo de modificá-la.

Uma das variáveis que influenciam a escolha de que estratégias de coping são utilizadas frente a situações estressantes diz respeito aos recursos de coping de que se dispõe. Beresford (1994) descreve duas categorias de recursos para coping: pessoais e socioecológicos. Os recursos pessoais englobam variáveis físicas e psicológicas que incluem estado de saúde, moral, crenças ideológicas, experiências prévias de coping, inteligência e outras características pessoais. Em contrapartida, os recursos socioecológicos são aqueles encontrados no ambiente do indivíduo ou em seu contexto social, e incluem relacionamento conjugal, características familiares, redes sociais, recursos funcionais ou práticos e circunstâncias econômicas.

As qualidades e características dos relacionamentos que as pessoas mantêm são importantes para o entendimento de como elas enfrentam situações de crise, pois os relacionamentos sociais, e entre eles, as amizades, encontram-se entre os recursos socioecológicos, descritos por Beresford (1994), e podem auxiliar no coping focalizado tanto no problema quanto na emoção, descritos por Lazarus e Folkman (1984).

Amigos provêm suporte social, "um dos meios mais efetivos pelos quais as pessoas são capazes de lidar com/enfrentar/adaptar-se a eventos estressantes2" (Kim, Sherman & Taylor, 2008, p. 518). Segundo Rodriguez e Cohen (1998), o suporte social é um conceito multidimensional, que se refere aos recursos materiais e psicológicos aos quais as pessoas têm acesso por meio de suas redes sociais.

Cobb (1976) define suporte social como informações de que se é amado e cuidado por outros, bem como estimado e valorizado, e parte de uma rede de comunicação e obrigações mútuas. Segundo Thoits (conforme citado em Siqueira, 2008), além da acessibilidade a recursos afetivos, o suporte social de um indivíduo articularia também as crenças de que ele pode recorrer ao apoio social para a obtenção de recursos instrumentais. Seeman (conforme citado em Siqueira, 2008) concorda com essa divisão em duas categorias de suporte social: emocional e prático. O suporte emocional se originaria de ações que demonstram afabilidade, afeição e carinho; e o suporte prático reuniria suportes de caráter utilitário, objetivo e prático.

Adicionando mais uma categoria à tipologia do suporte social, Lazarus e Folkman (1984) distinguem três funções: suporte emocional, incluindo apego, conforto e o sentimento de que se é amado e cuidado; suporte tangível, envolvendo ajuda direta, como empréstimos ou presentes, e serviços como tomar conta de alguém doente ou fazer uma tarefa para a pessoa; e suporte informacional, provendo informações e conselhos. Rodriguez e Cohen (1998) defendem uma categorização simliar: suporte emocional, suporte instrumental (tangível) e suporte informacional. A validade do suporte social nas estratégias de coping aponta para a relevância dos relacionamentos de amizade e da qualidade desses relacionamentos para o coping. As amizades provêm suporte social, abarcando tanto o suporte emocional quanto o prático – quer este seja dividido ou não em instrumental e informacional.

Confirmando a importância das relações de amizade na capacidade de coping, Giles et al. (2005) afirmam que "os amigos podem ter efeitos sobre a depressão, autoeficácia, autoestima, coping e moral" (p. 578). Manhart (2009) concorda com essa visão, afirmando que "principalmente em tempos de crise, os amigos podem melhorar o humor e a autoestima, assim como sugerir estratégias para a resolução de problemas" (p. 29). Bell (conforme citado em Souza & Hutz, 2007) aponta benefícios na mesma direção, quando assevera que boas amizades são promotoras de saúde por facilitarem a tolerância a medos e ansiedades e ajudarem a suportar situações estressantes.

O presente estudo se propôs a investigar a relação entre os relacionamentos de amizade do indivíduo e os seus recursos e estratégias de coping. Atendendo à necessidade apontada por Souza, Gauer e Hutz (2004), focalizou-se o público-alvo de jovens adultos. Segundo Souza et al. (2004), há uma tendência nas pesquisas em psicologia do desenvolvimento no Brasil a se dedicar a crianças e adolescentes. Os autores afirmam que existe uma necessidade de ampliar os estudos nacionais com demais faixas etárias, incluindo jovens adultos, adultos e idosos. Segundo Rawlins (1992), a adultez jovem abrange o período entre o final da adolescência e o início dos 30 anos.

 O enfoque deste trabalho se delimitou, portanto, a analisar as relações entre os relacionamentos íntimos de amizade da rede social de jovens adultos e suas diferentes estratégias de coping e percepção de suporte social. Buscou-se relacionar as estratégias de coping e a percepção de suporte social à quantidade e expressão dos relacionamentos íntimos de amizade do indivíduo e às qualidades desses relacionamentos.

 

Método

Método de Amostragem

O método de amostragem se baseou na técnica do Respondent Driven Sampling (RDS). Uma tradução aproximada para o português seria Amostragem Conduzida pelos Entrevistados. Como explicam Goel e Salganik (2009), o RDS é uma nova abordagem de amostragem que vem alcançando grande popularidade internacional. Neiva-Silva (2010) informa que esse método utiliza tecnologias inovadoras a partir dos princípios da teoria de Markov. Os dados são coletados por meio de um mecanismo de bola de neve. O estudo começa com o recrutamento de poucas pessoas que se encaixem no perfil da população-alvo – as sementes. Depois de sua participação, pede-se que cada semente indique outras pessoas conhecidas suas que se encaixem no perfil-alvo. A amostragem continua dessa forma até que se alcance o tamanho desejado da amostra. As sementes constituem a chamada 1ª onda da amostra; as pessoas recrutadas por elas compõem a 2ª onda, e assim por diante. Esse processo resulta em uma rede de recrutamento com características próprias que anulam possíveis vieses presentes na escolha inicial das sementes do estudo (Goel & Salganik, 2009). Como resume Neiva-Silva (2010), o RDS produz uma amostra final independente daqueles que a iniciaram e pode trazer informações de boa qualidade de forma rápida.

Participantes

Foram recrutados para participar do estudo 124 jovens adultos, com idade entre 18 e 30 anos. A coleta de dados teve início com quatro sementes – dois homens e duas mulheres. Por meio do RDS, foram contatados os 124 prováveis participantes, representando o tamanho da amostra após atingir a quinta onda. No entanto, 26 pessoas contatadas não puderam participar ou não devolveram os questionários até o prazo estabelecido. Assim, a amostra final foi composta por 98 participantes (45,9% homens).

 A Tabela 1 apresenta a caracterização sociodemográfica da amostra. A média de idade foi de 23,01 anos (DP=6,57). Quanto à escolaridade, a maioria possuía ensino superior incompleto (75,5%) e relatou a ocupação de estudante ou estagiário (67,3%). Acerca da religião que professam, 46,9% se afirmaram católicos. Quanto ao estado de relacionamento, 53% estavam solteiros e os 47% restantes estavam envolvidos em alguma forma de relacionamento estável, seja namoro, noivado ou casamento. Para os comprometidos, o tempo médio de relacionamento foi de 31,6 meses (DP=30,13 meses). A maior parte da amostra residia na cidade de realização do estudo (86,9%). Os 13,1% restantes foram contatados via e-mail.

Instrumento

Foram utilizados dois instrumentos. O primeiro trata dos relacionamentos de amizade e pode ser subdividido em três partes. Na primeira parte, questionam-se quais as três primeiras palavras que vêm à cabeça do participante quando ele pensa em amizade. Pede-se também que indique amizades próximas (definidas como amizades que se destacam das demais e limitadas a doze indicações) e depois especifique dentre elas quantas são do sexo masculino, quantas do sexo feminino, e quantas moram atualmente na mesma cidade em que o participante. Em seguida, pede-se que indique uma melhor amizade, sobre a qual são requisitadas informações específicas.

A segunda parte traz os questionários McGill, utilizados para avaliar funções da melhor amizade, bem como os sentimentos positivos e negativos associados a ela (Mendelson & Aboud, 1999). Mendelson e Aboud identificaram e categorizaram seis diferentes funções componentes da amizade: companheirismo estimulante, ajuda, intimidade, aliança confiável, autovalidação e segurança emocional. A função de companheirismo diz respeito ao engajamento conjunto em atividades agradáveis, divertidas e estimulantes. A ajuda trata do fornecimento de orientação, aconselhamento, assistência e outras formas de auxílio. A intimidade diz respeito à sensibilidade aos estados e necessidades do outro, proporcionando abertura para a expressão honesta de pensamentos, sentimentos e informações pessoais. A aliança confiável reflete disponibilidade e lealdade contínuas. A autovalidação envolve a função de tranquilizar, encorajar e ajudar o outro a manter uma autoimagem positiva. A segurança emocional trata do fornecimento de conforto e confiança em situações novas ou ameaçadoras.

Souza e Hutz (2007) adaptaram e validaram esses questionários no Brasil para uso com população adulta. Na validação nacional, realizada com 682 adultos, as análises fatoriais demonstraram os mesmos seis fatores para as funções definidas por Mendelson e Aboud (1999). O alpha de Cronbach obtido para os fatores variou de 0,73 a 0,81 e a variância explicada foi de 57,64%. Para a escala de sentimentos positivos em relação ao amigo, os autores encontraram uma solução de análise fatorial com um único fator representando de modo mais adequado o construto, com cargas fatoriais variando de 0,55 a 0,76, alpha de Cronbach de 0,71, explicando 47,28% da variância. Para a escala de sentimentos negativos, os autores também defenderam uma solução com único fator, pois ela apresentou boa consistência interna quando analisada na totalidade de seus itens (alpha de 0,84). Por fim, a terceira parte deste primeiro instrumento aborda o participante sobre a existência de outras melhores amizades além da avaliada anteriormente (limitadas a cinco indicações) e o sexo destas. Além disso, são coletadas informações sociodemográficas.

O segundo instrumento investiga estratégias de coping do participante e a sua percepção de suporte social. O questionário é composto por duas escalas. Primeiro, o Inventário de Estratégias de Coping de Folkman e Lazarus. Folkman e Lazarus (1980) desenvolveram um inventário que engloba pensamentos e ações que as pessoas utilizam para lidar com eventos estressantes. Deste inventário, resultou uma escala que consiste em oito diferentes fatores, cada um avaliando a extensão com que o indivíduo utiliza certa estratégia: coping por confronto, afastamento, autocontrole, suporte social, aceitação de responsabilidade, fuga-esquiva, resolução de problemas e reavaliação positiva (Folkman, Lazarus, Dunkel-Schetter, De Longis & Gruen, 1986). Savóia, Santana e Mejias (1996) adaptaram e validaram o inventário para sua utilização em português no Brasil, e por meio da técnica de análise fatorial, encontraram os mesmos oito fatores sugeridos no original, explicando 70,8% da variância total.

A segunda escala é a Escala de Percepção de Suporte Social (EPSS), construída e validada no Brasil por Siqueira (2008), com 437 voluntários. Essa escala é voltada para as relações sociais amplas dos indivíduos. Depois da realização da técnica de análise fatorial, a EPSS constitui-se como instrumento válido e preciso que separa dois fatores teoricamente consistentes. O primeiro fator avalia o suporte social prático, com variância comum explicada de 39,66%, com cargas fatoriais variando de 0,38 a 0,78 e alfa de Cronbach de 0,91. O outro mensura o suporte social emocional, com variância comum explicada de 4,02%, com cargas fatoriais entre -0,55 a -0,83 e alfa de 0,92.

Procedimentos

Os instrumentos são autoaplicados e sua aplicação foi realizada individualmente, em local e horário previamente acordados com o participante. Os dois instrumentos foram aplicados na ordem descrita na seção anterior. As quatro sementes escolhidas responderam os instrumentos e foram requisitadas a indicar, cada uma, dois outros nomes para participar do estudo, preferencialmente entre aqueles que apontaram como amizades próximas no questionário. Esse procedimento teve por finalidade manter o caráter de rede social promovido pela técnica de amostragem baseada no RDS.

As oito pessoas que as sementes indicaram (2ª onda) foram contatadas para agendar horário e local de aplicação dos instrumentos, caso consentissem em participar. Seguindo o mesmo procedimento, cada um dos novos respondentes indicou mais dois amigos para participar do estudo, somando 16 componentes para 3ª onda, 32 para a 4ª onda e 64 para a 5ª e última onda. Desde o primeiro contato com o participante, foi garantida a ele a compreensão das características da pesquisa e dos seus direitos como respondente, inclusive o caráter voluntário da participação e o sigilo das informações.

Nos casos em que o amigo indicado não residia na cidade do estudo, estava viajando ou quando o contato pessoal com ele não foi possível, a aplicação do instrumento foi realizada via e-mail, após contato por telefone para a devida apresentação e o recrutamento para participação na pesquisa. Nesses casos, o termo de consentimento foi enviado para que o participante o assinasse e digitalizasse para devolução ou, quando tal procedimento não se mostrou possível, o consentimento foi firmado via corpo de texto do e-mail.

Os aspectos éticos que garantem a integridade dos participantes deste estudo foram assegurados com base na Resolução nº 196 do Conselho Nacional de Saúde (CNS, 1996) e na Resolução nº 016 do Conselho Federal de Psicologia (CFP, 2000). A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal de Sergipe.

Análise de Dados

Os dados foram submetidos a tratamento quantitativo. Para a realização das análises, foi utilizado o Statistical Package for Social Sciences (SPSS for Windows, versão 17.0). Foram realizadas análises estatísticas descritivas (levantamento de frequências, médias e desvios-padrão), assim como testes de inferência para as variáveis de interesse no estudo: qualidades das amizades íntimas e estratégias e recursos de coping (qui-quadrado, teste t de student e correlação de Pearson).

Para a análise das qualidades da melhor amizade, foram criados índices para cada função da amizade investigada no instrumento (segurança emocional, intimidade, aliança confiável, companheirismo, ajuda e autovalidação), com amplitude de zero a 20, uma vez que cada fator é composto por cinco itens do instrumento, que podem receber um valor de zero a quatro cada, segundo uma escala que vai de "nunca (0)" a "sempre (4)". Também foram criados dois outros índices: o índice de sentimentos positivos em relação à amizade (ISPA), com amplitude de zero a 52, pois a escala é composta por 13 itens; e o índice de sentimentos negativos (ISNA), com amplitude de zero a 72, pois esta é composta por 18 itens (Souza & Hutz, 2007).

Para as análises das estratégias de coping, foi criado um índice para cada um dos fatores da escala: confronto, afastamento, autocontrole, suporte social, aceitação de responsabilidade, fuga-esquiva, resolução de problema e reavaliação positiva. Dos 66 itens do inventário, seis compõem o fator confronto, o que gerou um índice de confronto com amplitude de zero a 18, uma vez que cada item pode receber um valor de zero a três, segundo uma escala que vai de "nenhuma vez (0)" a "um grande número de vezes (3)". O fator afastamento é composto por sete itens, gerando um índice de afastamento com amplitude de zero a 21. O fator autocontrole por cinco itens; índice com amplitude de zero a 15. O fator suporte social por seis itens; índice de zero a 18. O fator aceitação de responsabilidade por sete itens; índice de zero a 21. O fator fuga-esquiva por dois itens; índice de zero a seis. O fator resolução de problema por quatro itens; índice de zero a 12. Finalmente, o fator reavaliação positiva é composto por nove itens, gerando um índice de zero a 27 (Savóia et al., 1996).

Para as análises da percepção de suporte social, foram criados dois índices. Dos 29 itens que compõem a EPSS, 19 tratam da percepção de suporte prático, o que levou à criação do índice de suporte prático (ISP) com amplitude de zero a 57, uma vez que cada item podia receber um valor de zero a três, segundo a escala respondida pelos participantes que ia de "nunca (0)" a "sempre (3)". Os dez itens restantes da EPSS tratam da percepção de suporte emocional, o que levou à criação do índice de suporte emocional (ISE) com amplitude de zero a 30 (Siqueira, 2008).

 

Resultados

As análises descritivas para os índices das qualidades da melhor amizade, das estratégias de coping e da percepção de suporte social são apresentadas na Tabela 2. Apenas o índice de suporte emocional demonstrou uma diferença significativa (p=0,05) entre participantes homens e mulheres, tendo as mulheres apresentado maiores médias nesse tipo de percepção de suporte (M=25,33; DP=4,61 vs. M=23,12; DP=5,97).

A Tabela 3 apresenta os valores das correlações de Pearson entre dados descritivos das amizades íntimas, estratégias de coping e percepção de suporte social.

A estratégia de coping por confronto apresentou correlação positiva significativa com o número de amizades íntimas do sexo feminino. O coping por reavaliação positiva também apresentou correlação positiva significativa com o número de amigas íntimas e ainda com o número de melhores amigas. Já o coping por autocontrole apresentou, de um lado, correlação positiva significativa com o número de amizades íntimas do sexo masculino e com o número de melhores amigos homens, e, do outro, correlação negativa significativa com o número de amizades íntimas do sexo feminino.

A estratégia de resolução de problema apresentou correlações positivas significativas com o número de amizades íntimas e o número dessas amizades que residem na mesma cidade em que o participante. O número de amizades íntimas não apresentou correlações significativas com os índices de suporte social, assim como também não houve correlações significativas quando analisado separadamente o número de amizades íntimas do sexo masculino ou do sexo feminino. Em contrapartida, o número de amizades íntimas que residem na mesma cidade obteve correlação positiva significativa com a percepção de suporte prático (ver Tabela 3).

Analisando separadamente melhores amizades do sexo masculino e do sexo feminino, o número de melhores amigos homens apresentou correlação significativa com o suporte prático, enquanto que o número de melhores amigas não apresentou correlações significativas com os índices de suporte social. Conforme indicado na Tabela 3, suporte emocional não demonstrou correlações significativas com o número de amizades íntimas que moram na mesma cidade em que o participante e tampouco com o número de melhores amizades – sejam do sexo masculino, do sexo feminino, ou no geral.

No que concerne à melhor amizade escolhida e avaliada pelo participante, mulheres que apontaram uma melhor amizade com alguém do sexo masculino alcançaram índices maiores de suporte prático (M=42,75; DP=9,92) que mulheres que apontaram uma melhor amiga (M=34,93; DP=9,31) [t=2,15; p=0,037]. Por outro lado, não houve diferenças para o grupo de homens no que diz respeito à influência do sexo de sua melhor amizade nos índices de suporte social.

Algumas das características e funções da melhor amizade avaliada apresentaram correlações estatisticamente significativas com as estratégias de coping e os índices de suporte social dos participantes. A Tabela 4 traz os dados dessas correlações.

A estratégia de confronto se correlacionou positivamente com os fatores segurança emocional e ajuda. Já a estratégia de resolução de problemas se correlacionou positivamente com o fator companheirismo. Para o coping por reavaliação positiva, houve correlações significativas com os fatores segurança emocional e autovalidação. A estratégia de coping por suporte social demonstrou correlação significativa positiva com o fator autovalidação. Já o coping por autocontrole apresentou correlação negativa significativa com quatro fatores da melhor amizade: segurança emocional, intimidade, ajuda e autovalidação (ver Tabela 4).

A frequência de contato pessoal com a melhor amizade apresentou correlações positivas significativas com o índice de suporte prático. Quanto às funções da melhor amizade, tanto a percepção de suporte emocional quanto a percepção de suporte prático se correlacionaram positivamente com todas as seis funções (segurança emocional, intimidade, aliança confiável, companheirismo, ajuda e autovalidação). Foi ainda encontrada correlação positiva significativa entre o índice de sentimentos positivos (ISPA) e o suporte emocional. Já o índice de sentimentos negativos não demonstrou correlação significativa com nenhum dos índices de suporte social, conforme indicado na Tabela 4.

 

Discussão

As estratégias de coping por confronto e por reavaliação positiva apresentaram correlação direta com o número de amizades com mulheres. Já o coping por autocontrole apresentou, de um lado, correlação positiva com o número de amizades do sexo masculino e, do outro, correlação negativa com o número de amizades do sexo feminino. Tais resultados estão de acordo com estudos que afirmam que as mulheres possuem amizades mais íntimas, com mais autorrevelação e apoio emocional que os homens (Bee, 1997), o que poderia estimular as estratégais de confronto e reavalição positiva e diminuiria a necessidade de coping por autocontrole – estratégia esta que focaliza a não demonstração de sentimentos e o controle emocional.

Estes resultados também refletem a característica masculina de maior inibição emocional (Matud, 2004). Parece que aqueles com maior número de amizades íntimas do sexo masculino e menor número de amizades íntimas do sexo feminino precisam recorrer mais à estratégia de autocontrole, pois suas redes sociais podem não oferecer muito espaço para a expressão de sentimentos em situações de crise.

Indivíduos que possuem mais amigos íntimos residindo na mesma cidade em que eles parecem ter mais chances de se beneficiar do suporte social do tipo prático. Entende-se que o suporte prático precisa de maior proximidade geográfica para se fortalecer, principalmente por sua característica tangível, instrumental. Essa forma de suporte envolve ajudas diretas e materiais, como empréstimos ou presentes, e serviços como tomar conta de alguém que está doente, ajudar em na realização de um trabalho ou auxiliar nas tarefas diárias (Siqueira, 2008).

O suporte emocional demonstrou diferença significativa entre homens e mulheres, tendo as mulheres apresentado maior percepção dessa forma de suporte. Este achado pode ser cruzado aos resultados das diferenças de percepção de suporte em função do sexo das amizades. Aqui, de forma aparentemente inversa, o número de melhores amigos homens apresentou correlação significativa com o suporte social do tipo prático, enquanto que o número de melhores amigas mulheres não demonstrou correlações com nenhum dos índices de suporte social, nem mesmo do tipo emocional.

Tomando por base esses dados empíricos, pode-se argumentar que as diferenças entre sexos para a percepção de suporte social funcionam da seguinte forma: (a) mulheres percebem-se como mais providas de suporte emocional, independentemente das melhores amizades com homens ou com mulheres, porque elas próprias já cultivam em seus relacionamentos um maior nível de intimidade e apoio emocional (Bee, 1997); (b) já os homens não se diferenciam em questões de percepção de suporte emocional, independentemente das melhores amizades com homens ou com mulheres, por conta da característica própria masculina de maior inibição emocional (Matud, 2004); e (c) independentemente do sexo do indivíduo, seu nível de percepção de suporte social prático estaria associado ao número de melhores amizades com homens, e não tanto com mulheres, por conta das características de ajuda objetiva e instrumental serem mais bem providas pelo sexo masculino. Dessa maneira, pode-se hipotetizar que a percepção de suporte social emocional está mais diretamente relacionada ao sexo do indivíduo, enquanto que a percepção de suporte social prático é mais fortemente influenciada pelo sexo das suas amizades. Evidentemente, fazem-se necessários novos estudos para investigar essa hipótese e melhor fundamentar explicações concernentes a ela.

Ao avaliar o seu melhor amigo ou sua melhor amiga, o participante aponta quais as funções da amizade mais preenchidas em seu relacionamento. A discussão levantada a partir daqui se baseia em um pressuposto básico: a avaliação do melhor amigo, pela sua importância como principal relacionamento de amizade do participante, pode ser generalizada para suas amizades mais próximas, oferecendo uma noção das qualidades dos relacionamentos interpessoais de amizade íntima no âmbito do que Beresford (1994) define como recursos socioecológicos de coping para o indivíduo.

Esse pressuposto é bastante limitado, uma vez que a mesma pessoa pode cultivar alguns relacionamentos com amigos que preencham mais certas funções e outros com demais amigos que preencham funções diferentes. No entanto, os questionários McGill, instrumento disponível para a avaliação aprofundada das amizades íntimas das pessoas, solicitam que o sujeito os responda focalizando um relacionamento com uma única pessoa (Souza & Hutz, 2007). Não obstante, a interpretação desses resultados, embora deva ser feita com cautela, é útil para que se possa construir uma noção exploratória acerca de análises mais específicas entre as qualidades dos relacionamentos de amizade e as estratégias de coping e percepção de suporte social do indivíduo.

Participantes que relataram com maior frequência a estratégia de coping por confronto apresentaram maiores índices nas funções de segurança emocional e ajuda da melhor amizade. Parece que, para lidar com situações estressantes confrontando-as, é útil para as pessoas que suas amizades próximas supram as necessidades de segurança emocional, visto que esta trata do fornecimento de conforto e confiança em situações novas ou ameaçadoras (Mendelson & Aboud, 1999), o que incentivaria a capacidade de confrontar as crises; e de ajuda, que versa sobre o fornecimento de orientação e auxílio gerais, também podendo oferecer assistência a comportamentos mais confrontantes.

Outro resultado indicou que os participantes que recorriam mais à estratégia de coping por reavaliação positiva demonstraram maiores índices de segurança emocional e autovalidação na melhor amizade. Isto é, nas amizades, o fornecimento de conforto e confiança e a função de tranquilizar, encorajar e ajudar a manter uma autoimagem positiva (Mendelson & Aboud, 1999) parecem estar relacionados a uma forma de enfrentamento que leva as pessoas a saírem das crises modificadas, para melhor.

Já a estratégia de coping por autocontrole apresentou relações inversas com quatro funções da melhor amizade: segurança emocional, intimidade, ajuda e autovalidação. Esse resultado pode indicar que pessoas cujas amizades mais próximas supram tais funções precisam recorrer menos a uma estratégia de enfrentamento de crises por autocontrole – a qual exige a reclusão dos sentimentos e a não-expressão das emoções (Lazarus & Folkman, 1984) –, pois têm a possibilidade de utilizar de outras estratégias se valendo do conforto, sensibilidade, apoio e encorajamento dos amigos. Quanto à percepção de suporte social, a relação positiva encontrada entre a frequência de contato pessoal com a melhor amizade e o suporte prático é compreensível, visto que essa forma de suporte se baseia em auxílios tangíveis, como empréstimos e assistência em tarefas, o que na maioria das vezes exige contato direto.

Por fim, todas as seis funções da amizade (companheirismo, ajuda, intimidade, aliança confiável, segurança emocional e autovalidação) se relacionaram de forma positiva significativamente com a percepção de suporte social, tanto o emocional, quanto o prático. Esse resultado confirma a importância da boa qualidade das amizades no suporte social das pessoas que, como argumenta Argyle (2001), pode se refletir tanto por meio de recompensas instrumentais quanto pelo apoio emocional. O suporte social é um recurso, disponível no ambiente social, mas o qual a pessoa precisa cultivar e utilizar (Lazarus & Folkman, 1984). Dessa maneira, se a melhor amizade do indivíduo corresponde a bons níveis de satisfação de suas funções, então provavelmente ele também perceberá melhores condições de suporte social. Para o suporte social, essa correlação pode ser interpretada mesmo que não se parta do pressuposto da generalização das qualidades da melhor amizade para outras amizades próximas, visto que o suporte social, ainda que proveniente de toda a rede, também reflete cada relacionamento interpessoal em particular.

O presente estudo se propôs a investigar os relacionamentos de amizade íntima da rede social de jovens adultos e os seus recursos e estratégias de enfrentamento de crise (coping) e percepção de suporte social. Os resultados encontrados são bastante instigadores. Todas as funções da amizade avaliadas se relacionaram positivamente com a percepção de suporte social, dando fortes indícios em direção à importância da boa qualidade das amizades no fornecimento de recursos de enfrentamento para as pessoas.

O coping é um aspecto do desenvolvimento que é influenciado pelos recursos de que as pessoas dispõem para lidar com as crises. As amizades são constituintes dos recursos socioecológicos do indivíduo (Beresford, 1994), mas, além delas, outros fatores como relacionamentos conjugais e características familiares também se somam a essa categoria de recursos. Da mesma forma, o suporte social é um construto que não está somente relacionado às amizades íntimas. A família, o cônjuge, colegas, vizinhos e até mesmo conhecidos têm participação no suporte social do indivíduo. Posto isso, o presente estudo apresenta limitações.

Mesmo no tocante aos relacionamentos de amizade, é ainda preciso avançar. Essas limitações devem ser encaradas como incentivo para futuras pesquisas na área. Tomando por base a abordagem bioecológica do desenvolvimento de Bronfenbrenner (1996), sugere-se que novos trabalhos focalizem outros componentes importantes no processo de desenvolvimento do indivíduo. Por exemplo, características individuais como a personalidade da pessoa, sua história ontogenética, ou características contextuais como a conjuntura das situações de crise. Além disso, os participantes deste estudo guardam algumas características contextuais próprias e, sob a ótica bioecológica, os resultados encontrados aqui podem estar condicionados a esse contexto. Novos estudos com diferentes populações, como indivíduos em situação de vulnerabilidade social, populações não-urbanas, ou populações de diferentes classes sociais, por exemplo, podem encontrar resultados distintos, sendo assim válido sugerir que replicações abordem diferentes contextos de desenvolvimento humano para os relacionamentos de amizade e enfrentamento de crises.

De toda forma, a literatura é consensual quanto ao fato de que amigos desempenham um importante papel ao longo do ciclo vital, para melhorias nas habilidades sociais, saúde e qualidade de vida (e.g., Argyle, 2001; Garcia, 2005). E, pelo visto, quanto melhores as qualidades das amizades, mais os amigos podem auxiliar no enfrentamento de situações estressantes oferecendo recursos tanto emocionais quanto práticos e objetivos.

 

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Recebido em 02.02.2011
Primeira decisão editorial em 10.02.2012
Versão final em 09.03.2012
Aceito em 16.03.2012

 

1. O termo "rede social" é aqui utilizado com sua definição ampla, entendido como conjunto de pessoas constituído de dois elementos: os indivíduos e as conexões ou laços de relacionamento existentes entre eles (Christakis & Fowler, 2010). Assim, o termo não diz respeito somente às redes sociais virtuais, do qual muitas vezes é utilizado como sinônimo. Neste caso, trata-se das redes sociais das pessoas no seu sentido global.
2. Todas as citações literais de referências estrangeiras foram traduzidas pelos autores. Nota do tradutor: como não há tradução exata na literatura para o termo coping, foram apresentadas as três expressões em português que englobam o conceito (Antoniazzi et al., 1998).