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Psicologia: Teoria e Pesquisa

Print version ISSN 0102-3772On-line version ISSN 1806-3446

Psic.: Teor. e Pesq. vol.32 no.1 Brasília Jan./Mar. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/0102-37722016012114209218 

Articles

Estereótipos sociais do idoso para diferentes grupos etários

Social stereotypes of elderly for different age groups

Tatiana de Lucena Torres1  1 

Brigido Vizeu Camargo2 

Andréa Barbará S. Bousfield2 

1Universidade Federal do Rio Grande do Norte

2Universidade Federal de Santa Catarina

RESUMO

O objetivo deste estudo foi identificar estereótipos de idosos para diferentes grupos etários. Foram realizados oito grupos focais com cinco integrantes cada. Foram utilizadas 12 fotografias de pessoas e 70 cartões com adjetivos atribuídos ao idoso. Os participantes (40) foram divididos por sexo e grupo etário. Destes, 30 relataram contato diário com idosos. Para os idosos, idade foi o principal critério de categorização, seguido de etnia. Para os outros grupos, o principal critério foi sexo, seguido de idade. Em média, cada grupo constituiu três categorias, todos evidenciaram a idade como critério utilizado. Categorias consensuais emergiram sobre "idosos": culto, depressivo, ranzinza, positivo e negativo. O efeito de homogeneidade do out-group ocorreu na maioria dos grupos, mas o favoritismo intergrupal não aconteceu.

Palavras-chave: idosos; estereótipos; identidade social; classificação

ABSTRACT

The aim of this study was to identify stereotypes of elderly for different age groups. Eight focus groups with five participants each were conducted. 12 pictures of persons and 70 cards were used with adjectives regarding to elderlies. The participants (40) were separated by gender and age groups. Among them, 30 reported daily contact with elderlies. For the elderly participants, age was the main criterion of categorization, followed by ethnicity, for the other groups the main criterion was gender, followed by age. In average, each group developed three categories and all reported age as the used criterion. Consensus of categories emerged on "old-aged": cult, depressed, grumpy, positive and negative. The homogeneity effect of the out-group occurred in most groups, but the intergroup favoritism did not take place.

Keywords: aged; stereotypes; social identity; classification

A Organização das Nações Unidas (ONU) destaca que houve um aumento de 54% no envelhecimento populacional em países desenvolvidos, no período de 1970 a 2000, enquanto que, em países em desenvolvimento, esse índice aumentou 123%. Os países da América Latina têm vivenciado um rápido processo de envelhecimento populacional devido às reduções nas taxas de mortalidade e de fecundidade. Estima-se que, em 2025, existirá no mundo um total de aproximadamente 1,2 bilhões de pessoas com mais de 60 anos.

Estudar estereótipos etários implica compreender as características do pensamento compartilhado acerca de idosos e do envelhecimento. Diante disso, o presente estudo teve por objetivo identificar os estereótipos de idosos para pessoas de diferentes grupos etários, desde adolescentes até pessoas idosas.

Conceito de Estereótipos Sociais

De acordo com Marquez e Paéz (2004), quando se discutem estereótipos sociais, caminha-se pela abordagem cognitiva, porque estes resultam da articulação entre fatores motivacionais e de identidade ligados à dinâmica social dos grupos e das ideologias. Pereira, Fagundes, Silva e Takei (2003) enfatizam que a instalação do estereótipo ocorre quando as pessoas inicialmente imaginam e definem o mundo, para depois observá-lo.

A categorização permite simplificar a realidade, selecionando aspectos do estímulo e agrupando-os numa categoria unificada. As categorias representam características semelhantes, na qual os membros da categoria variam conforme sua tipicalidade (Cantor, Michel, & Schwartz, 1982). Devido à separação existente entre os grupos humanos e à proeminência de determinados indicadores físicos e sociais, as pessoas realizam categorizações buscando o mínimo de esforço, então tendem a agrupar os indivíduos de acordo com as características percebidas como comuns ou compartilhadas (Stwart, Doan, Gingrich, & Smith, 1998), o que pode ou não originar preconceitos e comportamentos discriminatórios (Lehman, 2006). O conceito de estereótipos abandona a perspectiva inicial ao qual estariam vinculados: generalizações indevidas realizadas por indivíduos preconceituosos (Pereira, 2002), de forma que os estereótipos passam a ser compreendidos como crenças generalizadas, resistentes a mudanças ou novas informações, sobre atributos pessoais de um grupo, facilitando a interpretação do mundo.

Segundo Krüger (2004), os estereótipos sociais são crenças coletivamente compartilhadas sobre um atributo, uma característica ou traços de personalidade, morais ou físicos generalizado para um agrupamento humano com base em um ou mais critérios, como idade, sexo, profissão, etnia, religião, etc. Para Moscovici (2009), os estereótipos servem para opor semelhantes e estrangeiros, ou seja, para "distinguir aqueles que não são como nós" (p. 661).

Para Márquez e Paez (2004), os estereótipos possuem um componente projetivo (motivações dos observadores, distorções cognitivas, etc.) e um componente real (contato com os membros dos grupos estereotipados). Embora existam divergências (Smith et al., 2006), quanto maior a aproximação com o grupo estereotipado, com aprofundamento e interação positiva, mais o estereótipo formado constrói-se com base em informações reais e menos projetivas. De acordo com Krüger (2004), os estereótipos podem se mobilizar de duas formas: (a) autoestereótipos (estereótipos dirigidos para o próprio grupo); e os (b) heteroestereótipos (estereótipos dirigidos para grupos distintos). Podem também se classificar de duas maneiras: estereótipos positivos e estereótipos negativos, havendo uma gradação de intensidade, que varia de um a outro ponto.

De acordo com Teoria da Identidade Social proposta por Tajfel (1982), para haver afiliação grupal, os indivíduos envolvidos precisam definir-se e serem definidos por outros como membros de um determinado grupo, passando a pertencer a uma determinada categoria social. Os indivíduos atingem, assim, consenso social sobre a avaliação de seu grupo e a sua pertença a esse grupo, permitindo aos seus membros uma identificação social, relacional e comparativa. Turner, Oakes, Haslam e McGarty (1994) explanam que a identidade pode ser pessoal ou social, sendo que a identidade social se refere a possibilidade de pensar o "nós" e o "nosso" em oposição ao "eu" e ao "meu" (identidade pessoal). No entanto, ainda de acordo com os referidos autores, o que faz uma pessoa se definir de acordo com a identidade pessoal ou social é o contexto de comparação com outros indivíduos.

As concepções a respeito dos membros do grupo externo são geralmente formuladas a partir do uso do pensamento categórico e são expressas, por meio de crenças estereotipadas compartilhadas por praticamente todos os membros do grupo (Pereira, Fagundes, Silva, & Takei, 2003). Estudos afirmam que as distorções denominadas de viés intergrupal, indicam a tendência para avaliar os membros do out-group (exogrupo) como mais homogêneos do que o in-group (endogrupo), como também o favoritismo intergrupal, que seria a tendência correlata de favorecer os membros do grupo de pertença em relação aos demais (Cerclé & Somat, 1999; Pereira, Ferreira, Martins, & Cupertino, 2002; Waldzus, Mummendey, Wenzel, & Weber, 2003). No experimento realizado por Tajfel e Turner (1979) denominado "grupo mínimo", a simples consciência da existência de um out-group foi suficiente para estimular o favoritismo intergrupal e a comparação social, gerando uma competição espontânea entre os grupos.

Estereótipos Etários

São diversos os critérios utilizados para incluir um indivíduo numa categoria ou classificação. No entanto, alguns critérios se destacam: (a) as categorias primitivas (gênero, idade e etnia); (b) a normatividade social; e (c) o princípio do metacontraste (ênfase nas diferenças). Segundo Brewer, Dull e Lui (1981), as categorias primitivas são as características básicas que exigem o mínimo de esforço cognitivo. De acordo com Márques e Paez (2004), porém, não se sabe se existe alguma hierarquia entre as categorias primitivas e se essa hierarquia se modifica de acordo com o contexto sociocultural. Pereira (2002) denomina as categorias primitivas de visão essencialística dos estereótipos, porque estão vinculadas a categorias naturais e não a artefatos humanos.

Estudo realizado sobre estereótipos de idosos indicou que estes são caracterizados como experientes e sábios (Moliner & Vidal, 2003). Chambon (2005) contribui com a discussão sobre os estereótipos da velhice e dos idosos, discutindo a perspectiva de que os estereótipos do idoso apresentados por pessoas jovens e adultos com idade mediana dividem-se entre estereótipos negativos (âgéisme) e positivos (sagéisme). Os estereótipos etários negativos foram caracterizados pela primeira vez por Butler (1975) como um preconceito relativo às pessoas com base na sua idade. Ainda segundo o mesmo autor, esse tipo de estereótipo desencadeia práticas discriminatórias e favorece o isolamento das pessoas idosas. Além disso, desenvolve a adoção de definições negativas pelos próprios idosos, o que reforça essas crenças sociais. Corroborando com esse ideário, também Garroza (2003) identificou que os estereótipos do idoso e da velhice em geral possuem conotações negativas. O referido autor explica que, mesmo no grupo de idosos, isso pode ocorrer devido às referências externas sobre os indicadores da idade, que criam uma definição negativa que se consolida por meio de autoestereótipos negativos.

No Brasil, Neto (2004) utiliza o termo idadismo para nomear os estereótipos etários negativos, enquanto que Martins e Rodrigues (2004) os denominam de ancionismo. Para Neto (2004), os estereótipos etários são sistemas de crenças atribuídos a grupos de diferentes idades com base na pertença grupal, que podem ser positivos ou negativos.

A percepção das pessoas mais jovens sobre os idosos baseia-se em categorias estereotípicas e prototípicas, sendo que a representação cognitiva do idoso pertence a uma categoria social que se diferencia em subcategorias: aspectos físicos, personalidade e comportamento (Brewer et al., 1981). Para Liu, NG, Loong, Gee e Weatherall (2003), existem diferenças nos subtipos de estereótipos de idosos de acordo com a etnia ou contexto cultural. No estudo sobre estereótipos e representações sociais de idosos neozelandeses com origem chinesa ou europeia, os referidos autores indicam que as gerações de meia idade, quando comparadas com as gerações mais jovens, apresentam menos homogeneidade na percepção de idosos, o que pode significar que, quanto mais próximo da faixa etária dos grupos com o grupo de idosos, menor será o efeito da homogeneidade do out-group e menor o favoritismo intergrupal.

A questão de pesquisa do presente estudo envolve o processo de categorização realizado por diferentes grupos, com base no critério idade cronológica, de forma a identificar as características de estereótipos etários e compreender os meios para diminuir as visões estereotipadas, preconceitos e discriminações baseadas na idade das pessoas. Considerando o exposto, este estudo partiu de quatro pressupostos teóricos: (a) qualquer trabalho empírico voltado para as questões cognitivas dos estereótipos tem que ser considerado em um contexto de relações intergrupais (Nascimento-Shulze, 1996); (b) a percepção dos membros do in-group sobre o out-group deve envolver conflito intergrupal com base em percepções coletivas e não individuais; (c) os grupos tendem a favorecer o próprio grupo em detrimento dos demais; (d) o grupo externo (out-group) é percebido como mais homogêneo (Tajfel, 1982). A partir desses pressupostos, foram desenvolvidas as seguintes hipóteses:

  1. Há diferenças nos estereótipos do idoso entre grupos etários diferentes.

  2. O efeito do favoritismo integrupal ocorre no grupo de idosos.

  3. O efeito de homogeneidade do out-group ocorre em todos os grupos com exceção dos idosos.

Método

Trata-se de estudo com delineamento descritivo e comparativo de corte transversal. O mesmo foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos (CEP), sendo aprovado pelo parecer 270/07. Todos os participantes foram comunicados sobre a condição voluntária da participação, assinando o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

O material projetivo gráfico foi composto por doze fotografias monocromáticas, nas quais se visualizava parte da face de pessoas de diferentes etnias (afrodescendentes e brancos), sexos (homens e mulheres) e faixas etárias (jovens e idosos). O referido material foi inspirado no Teste de Associação Implícita (Implicit Association Test - IAT), desenvolvido na Universidade de Harvard (Greenwald, McGree, & Schwartz, 1998; Greenwald et al., 2002).

Além das fotografias, também foram utilizados 70 cartões de palavras com adjetivos divididos por antônimos (35 positivos e 35 negativos) baseados em estudos sobre estereótipos do idoso (Brewer et al., 1981; Galinsky & Moskowitz, 2000; Liu et al., 2003). As palavras foram submetidas a pré-testes com 10 juízes para avaliar se havia concordância na atribuição de que as mesmas constituíam-se como antônimos.

As atividades realizadas em grupo variaram de uma hora até uma hora e quarenta minutos. Envolveram a temática "idoso" e foram desenvolvidas em uma sala que possibilitou aos participantes sentarem-se em círculo com contato face a face.

Foram realizados dois pré-testes para avaliar a adequação do procedimento e do material, bem como para mensurar o tempo estimado para a realização da atividade. Observou-se a necessidade de garantir que as variáveis grupo etário e sexo fossem consideradas para a constituição dos grupos, uma vez que, nos pré-testes, foi possível perceber que, mesmo no grupo de adultos, os mais velhos influenciavam as respostas dos mais jovens. Isso justificou a divisão do grupo de adultos entre adultos-jovens (19 até 25 anos) e adultos de meia idade (26 até 59 anos). Foram realizados oito grupos focais com cinco pessoas em cada, somando 40 participantes. Estes foram divididos por sexo e grupo etário.

A primeira atividade buscou identificar se o processo de categorização realizado pelos participantes utilizava o critério das categorias primitivas e, além disso, se havia uma hierarquia entre essas categorias. Para tanto, cada grupo recebeu 12 fotografias de pessoas, divididas de forma pareada por sexo, etnia e grupo etário. Depois da visualização de todas as fotos, os participantes foram solicitados a agrupar as fotos de acordo com um critério a ser estabelecido pelo grupo, o mais rápido possível. Ao final, os mesmos nomearam as categorias formadas e descreveram o critério escolhido pelo grupo.

Na segunda atividade, os mesmos grupos receberam 70 cartões contendo adjetivos. Novamente os grupos deveriam agrupar os cartões em pelo menos duas pilhas diferentes, conforme o critério escolhido pelos integrantes dos grupos (semelhança, por exemplo), buscando apresentar características dos idosos, seguindo a seguinte consigna: "Gostaria que vocês agrupassem em pilhas as características de idosos a partir desses cartões. Não existem características consideradas certas ou erradas, apenas gostaríamos de saber a opinião de vocês enquanto grupo. Se uma característica escrita no cartão pertencer a mais de uma pilha isso deverá ser anotado por um dos membros do grupo e se alguma característica escrita não pertencer a nenhuma pilha, esta deverá ser colocada no local que chamaremos de pilha mista. A única condição é que precisa haver mais de uma pilha de cartões. Ao final, vou pedir que vocês atribuíssem um nome para cada pilha que vocês construíram e vocês deverão me informar qual o critério estabelecido pelo grupo para fazer os agrupamentos".

Após a realização da atividade os integrantes dos grupos entregavam uma lista com todas as palavras, informando quais foram agrupadas, quais foram excluídas, quais foram consideradas em mais de um agrupamento e qual o tema escolhido para cada pilha de cartões. Além disso, classificavam as palavras que compuseram as categorias em positivas ou negativas, por meio da tomada de decisão no grupo focal. Todas as atividades realizadas foram observadas e transcritas pelo aplicador após cada sessão.

Resultados

Participaram deste estudo 40 pessoas divididas de forma pareada por sexo e grupo etário (adolescentes, adultos-jovens, adultos de meia-idade e idosos), constituindo oito grupos com cinco pessoas em cada. A média de idade dos adolescentes foi de aproximadamente 17 anos (DP=0,48); de 21 anos (DP=1,98) entre os adultos-jovens; de aproximadamente 31 anos (DP=4,97) entre os adultos de meia-idade; e de 67 anos entre os idosos (DP= 7,18). Comparando a média de idade apresentada por homens e mulheres, verifica-se que não houve diferença significativa entre os mesmos [t(38)=0,16; NS].

Com exceção de três participantes idosos que possuíam escolaridade referente ao ensino fundamental, todos os demais possuíam pelo menos o ensino médio. Dentre os adultos-jovens e adultos de meia-idade, todos cursavam ensino superior, e duas idosas possuíam ensino superior completo.

Com relação à situação conjugal dos participantes, todos os adolescentes e adultos-jovens eram solteiros, metade dos adultos de meia-idade eram casados, assim como a maioria dos idosos, com exceção de duas idosas - uma viúva e a outra divorciada. Quando questionados sobre o contato com pessoas idosas, 30 participantes relataram possuir contato diário com idosos, destacando-se que sete dos adolescentes, quase metade dos adultos-jovens, todos os adultos de meia-idade e idosos afirmaram possuir contato com pessoas idosas.

O critério utilizado pelos participantes para categorizar as fotos baseou-se na semelhança física. Para os idosos, a idade foi o principal critério, seguido da etnia. Para os outros grupos etários, o principal critério foi o sexo, seguido da idade como categoria primitiva utilizada. Após utilizar as categorias primitivas, os grupos utilizaram categorizações mais complexas, baseando-se em aspectos mais subjetivos como o olhar do personagem da foto ou o sentimento atribuído aos mesmos (felizes, tristes, irritados, etc.).

Todos os grupos utilizaram em primeiro lugar as categorias primitivas (sexo, idade, etnia). No entanto, é importante ressaltar que, quando a categoria utilizada foi etnia, no caso dos idosos, os mesmos refletiam e retornavam à categoria idade, alegando que categorizar as fotos segundo a "cor" das pessoas seria uma forma de preconceito, deixando claro o efeito da desejabilidade social em suas respostas. Fato esse também evidenciado, mas de forma menos proeminente, na resposta de todos os outros grupos, uma vez que a principal reflexão no momento da categorização era a preocupação em não se mostrar "preconceituoso".

A primeira categorização ocorreu rapidamente, em média de um minuto. Com exceção dos idosos, não houve discussão sobre os critérios para a construção da primeira categoria, que surgiu de forma quase "automática", utilizando o critério de semelhança e diferença. No entanto, as categorizações seguintes exigiram mais discussão do grupo, sendo que, entre os adolescentes e adultos-jovens, a tomada de decisão sobre a nova categoria constituída foi menos refletida e baseou-se nos mesmos critérios da primeira categorização. Em média, cada grupo constituiu três categorias (DP=1,68) e todos evidenciaram a idade como um critério utilizado, seja na primeira categorização, como ocorreu com os idosos, ou em uma segunda categorização, como ocorreu com os demais. Assim, considerando homens e mulheres, os critérios de categorização para os adolescentes foram: sexo, idade e olhar; para os adultos-jovens: sexo, idade e emoção; para os adultos meia-idade: sexo e idade; e, por fim, para os idosos: idade, etnia, gênero, sentimento e olhar.

Entre os homens idosos, sete categorias obedeceram ao critério idade, sugerindo que, para esse grupo, a constituição etária foi heterogênea, aspecto que não foi evidenciado entre os outros grupos, que ao utilizarem o critério idade, polarizaram jovens e velhos. Aspecto que também ocorreu quando o critério foi sexo, dividindo homens e mulheres, ou etnia, negros e brancos. Quando o critério foi o olhar, os participantes consideraram a direção do olhar do personagem da fotografia, classificando-os de três formas, olhar para longe, para frente, para o horizonte (pensativo); e, quando o critério foi emoção, as fotos foram classificadas em tristes, pensativos e alegres.

Ao classificarem as fotos considerando a idade, os homens idosos descreveram as seguintes categorias: (a) jovens homens; (b) jovens mulheres; (c) idosos mais jovens; (d) idosos; (e) idosos mais velhos; (f) idosos muito velhos; e (g) pessoas com 100 anos (centenários). Ao solicitar que explanassem melhor a diferença entre as categorias, os mesmos definiram o critério de idade: (a) homens com 30 anos; (b) mulheres com 30 anos; (c) pessoas com 60 anos; (d) idosos com mais de 65 anos; (e) idosos com 70 anos; (f) idosos com 80 anos; e (g) idosos com 100 anos. É interessante mencionar que esse grupo utilizou critérios de idade e de gênero, na primeira e única categorização.

Não foi possível identificar algum tipo de hierarquia entre as categorias primitivas utilizadas pelos grupos, mas foi possível perceber que as mesmas são utilizadas à medida que há menos reflexão sobre os critérios a serem adotados para a categorização. Nos grupos pesquisados, houve um predomínio da categorização com base na idade e no gênero.

Tipologias do "Idoso" Produzidas pelos Grupos

Na segunda etapa deste estudo, os participantes foram solicitados a agrupar 70 palavras (adjetivos) de acordo com o critério que os mesmos definissem em relação ao "idoso em geral". O critério para a categorização também foi a semelhança dentro do grupo de palavras e a diferença entre os grupos de palavras. No entanto, como algumas palavras evocavam características de personalidade, um outro critério desenvolvido pelos grupos foi a idealização de personagens ou tipos de idosos.

Quando se comparam as categorias advindas de todos os grupos, verifica-se que emergem categorias consensuais a respeito do idoso: (a) idoso culto; (b) idoso depressivo; (c) idoso ranzinza; (d) idoso positivo; e (e) idoso negativo. O "idoso culto" foi apresentado por metade dos grupos (homens adolescentes, homens idosos, homens e mulheres adultos-jovens) e indica o idoso escolarizado, que obteve êxito profissional e, por isso, é considerado ativo intelectualmente. O "idoso depressivo" foi indicado por cinco grupos e caracteriza o idoso solitário, muitas vezes abandonado pela própria família e que apresenta uma visão negativa da vida. O "idoso ranzinza" foi classificado por três grupos e se refere ao idoso que também tem uma perspectiva negativa da vida, aquele que reclama muito e têm problemas de relacionamento com pessoas da mesma idade e de idades diferentes. O "idoso positivo" e o "idoso negativo" foram mencionados pelos adultos-jovens e mulheres idosas, o "idoso positivo" tem uma visão otimista em relação à vida. Em contraposição, o "idoso negativo" é fechado e não aproveita a vida. Na Tabela 1, são apresentados os elementos consensuais relacionados aos tipos de idosos para todos os grupos etários.

Tabela 1 Tipificação de idosos com base nos elementos consensuais apresentados pelos participantes 

Positivo Negativo
"Tipo" de idoso Adjetivos "Tipo" de idoso Adjetivos
Idoso culto Atenciosos Idoso depressivo Desarticulados
Gentis Incapazes
Sociáveis Mal informados
Instruídos Negligentes
Respeitáveis Tristes
Amigáveis Dependentes
Bem informados Sedentários
Generosos Solitários
Inteligentes Doentes
Sábios Pessimistas
Tranquilos Preocupados
Experientes Lentos
Independentes
Idoso positivo Amigáveis Idoso ranzinza Conservadores
Felizes Rigorosos
Compreensivos Preconceituosos
Sociáveis Egoístas
Bem informados Fechados
Altruístas Grosseiros
Gentis Mal humorados
Respeitáveis
Bonitos Idoso Negativo Mal informados
Encorajadores Solitários
Instruídos Mal humorados
Igualitários Lentos
Articulados Fechados
Independentes Dependentes
Modernos Ignorantes
Religiosos Arrogantes
Experientes Preconceituosos
Cuidadosos Desanimadores
Saudáveis Tristes
Tranqüilos Sedentários
Atenciosos Doentes
Otimistas Silenciosos
Bem humorados Incapazes
Ativos Grosseiros
Sábios Chatos
Hábeis Incompreensivos
Abertos Pessimistas
Generosos Rudes
Inteligentes
Legais
Capazes
Flexíveis

Os grupos apresentaram 14 categorias positivas e oito negativas. Embora cinco tipificações tenham emergido a partir do que foi compartilhado pelos grupos, alguns destes apresentaram categorias exclusivas, como é possível verificar na Tabela 2

Tabela 2 Descrição das categorias atribuídas aos idosos pelos participantes 

Grupos Categorias de "Idosos"
Adolescentes Ranzinzas, cultos, depressivos, ativos, ultrapassados, melhor idade, percebidos pela sociedade.
Adultos-jovens Positivos, negativos, sociais, ranzinzas, cultos.
Adultos meia-idade Cultos, depressivos, pobres, ricos, modernos, cuidadosos, curandeiros, teimosos, com qualidade de vida, nota 10, solitários, ranzinzas.
Idosos Cultos, depressivos, ativos, positivos, negativos.

De modo geral os "idosos" são caracterizados de forma homogênea, inclusive pelos próprios idosos. A organização dos estereótipos em poucas categorias pode significar que as ideologias grupais apresentam uma variedade muito limitada das ações sociais desempenhadas pelos idosos, a exemplo do que aconteceu com os adultos-jovens e com os idosos. Todos os adultos de meia-idade apresentavam contato diário com idosos, sendo esse o grupo que mais apresentou variações nas categorias. Em contraposição à hipótese inicial, o grupo de idosos foi um dos grupos que apresentou menos categorias, descaracterizando a heterogeneidade esperada para o in-group.

Homogeneidade no Out-Group

Para avaliar a homogeneidade do out-group, foram realizadas análises utilizando a média de categorias que os participantes produziram e também o número de palavras excluídas da categorização pelos participantes (pilha mista). Para tanto, utilizou-se a análise de variância (Anova) e o teste t-student considerando grupo etário e sexo como variáveis independentes.

A média de categorias produzidas foi muito semelhante entre homens (M=3,75; DP=1,11) e mulheres (M=4,00; DP= 1,91) e, por isso não houve diferença significativa entre as médias[t(6)=0,20; NS]. O mesmo ocorreu ao considerar o grupo etário, uma vez que, com exceção dos adultos de meia-idade (M=6,0; DP=1,41), as médias de categorias construídas entre adolescentes (M=3,5; DP=0,70), adultos-jovens (M=3,0; DP= 1,41) e idosos (M=3,0; DP=1,41) não apresentaram diferenças significativas na comparação entre as médias de categorias produzidas [F(3,4)=2,54; NS].

A exclusão de palavras por meio da "pilha mista" significa que, na formação de categorias, algumas palavras não se encaixaram, sendo assim, quanto mais palavras excluídas, menor a possibilidade de formação de novas categorias ou de categorias mais complexas. Em média, os grupos excluíram aproximadamente 22 palavras (DP=13,39), sobrando, portanto, 48 palavras para realizar as categorizações. É interessante mencionar que a exclusão de palavras foi a primeira ação de todos os grupos, com exceção dos adultos de meia-idade, que o fizeram ao final da categorização, quando não conseguiam mais agrupar os cartões de palavras que restaram.

Ao avaliar o número de palavras inseridas na "pilha mista" (palavras excluídas), verificou-se que, ao considerar homens (M=25,0; DP=13,95) e mulheres (M=19,5; DP=14,27), os primeiros excluíram um maior número de palavras. No entanto, novamente não houve diferença significativa entre as médias de palavras excluídas [t(6)=0,55; NS]. Quando se considerou o grupo etário, porém, verificou-se que os adultos de meia-idade (M=4,5; DP=6,36) se destacaram, excluindo um número muito menor de palavras do que os demais grupos (M=23,5; DP=6,36, para os adolescentes; M=36,5, DP=6,36, para adultos-jovens; e M=24,5, DP=9,19, para idosos). Por isso, ao realizar a análise de variância, verifica-se que há diferenças significativas entre as médias de palavras excluídas pelos grupos etários [F(3,4)=6,79; p<0,05], com o tamanho da força do efeito grande (d=4,51).

Na hipótese inicial deste estudo, acreditava-se que a homogeneidade do out-group, ou seja, dos idosos, ocorreria em todos os grupos com exceção do próprio grupo avaliado. No entanto, essa hipótese não foi totalmente confirmada, uma vez que os próprios idosos excluíram muitas palavras e apresentaram um número de categorias equivalente ao número apresentado por adolescentes e adultos-jovens. Ou seja, os próprios idosos avaliaram "os idosos em geral" como um grupo homogêneo, identificando poucas diferenças e caracterizando-os de forma muito polarizada, exatamente como fizeram os adolescentes e os adultos-jovens, aspecto que confirma parte da hipótese formulada.

No entanto, os adultos de meia-idade, surpreendentemente, excluíram poucas palavras e constituíram muitas categorias, demonstrando que, para os mesmos, o grupo de "idosos em geral" é heterogêneo, um grupo no qual vários "tipos" de idosos podem ser encontrados. Sendo assim, para o grupo de adultos de meia-idade, a homogeneidade do out-group não ocorreu. Os resultados indicam que o efeito da homogeneidade do out-group foi observado na maioria dos grupos, mas não entre os adultos de meia-idade. Nesse caso, é importante considerar outra variável: o contato diário com pessoas idosas, pois, quando se compara a média de categorias apresentadas pelos grupos com base nessa variável, constata-se que há uma diferença considerável entre a média apresentada pelas pessoas que possuem contato diário com idosos (M= 4,27; DP=1,55) e aquelas que não possuem (M= 2,70; DP=0,82), sendo que essa diferença é significativa [t(38)= 3,04, p<0,005] e também apresenta uma diferença de efeito considerado grande (d=0,98). Corroborando esses dados, ao considerar a mesma variável em relação às palavras excluídas, evidencia-se novamente uma diferença significativa na média de palavras de pessoas que possuem contato diário com idosos (M= 17,90; DP=11,23) e os que não possuem contato (M=35,30; DP=6,18) e essa diferença é ainda mais significativa [t(38)= 4,64, p<0,001], com um efeito ainda maior (d=1,50).

Favoritismo do In-Group

Após realizarem as categorizações com base nos cartões de palavras, os integrantes dos grupos anunciavam se, para eles, as palavras selecionadas eram positivas ou negativas. Com base nessa informação, foi avaliado o número de palavras positivas e negativas indicadas pelos participantes na avaliação sobre os "idosos em geral", considerando novamente sexo e grupo etário como variáveis independentes.

Com base nesses dados, pôde-se inferir que o fato de utilizar mais palavras e formar um maior número de categorias não atribui ao grupo uma isenção de estereótipos relacionados aos idosos. Ao comparar o número de palavras positivas e negativas atribuídas pelos grupos, verifica-se que, em média, a diferença entre as palavras positivas e negativas foi de aproximadamente oito palavras (DP=4,12). Dentre os grupos etários, as mulheres idosas são as que mais favorecem o grupo de "idosos em geral", uma vez que o número de palavras positivas supera o número de palavras negativas, mas o contrário ocorre com os homens idosos, que são os que mais desfavorecem o grupo de "idosos em geral", pois atribuem mais palavras negativas do que positivas. A Tabela 3 apresenta o número de palavras positivas e negativas considerando o sexo e o grupo etário.

Tabela 3 Frequência de palavras positivas e negativas considerando as variáveis sexo e grupo etário 

Sexo Grupo etário Freq. palavras positivas (PP) Freq. palavras negativas (PN) (PP-PN)
Masculino Adolescentes 27 21 06
Adultos-jovens 20 09 11
Adultos meia-idade 35 26 09
Idosos 18 19 -1
Feminino Adolescentes 26 16 10
Adultos-jovens 23 15 08
Adultos meia-idade 40 30 10
Idosos 32 20 12

Verifica-se que, em geral, a média de palavras positivas (M=27,6; DP= 7,57) foi maior do que a média de palavras negativas (M=19,5; DP=6,52). Verifica-se também que a média de palavras positivas foi maior entre os adultos de meia-idade quando comparados com os outros grupos, como demonstrado na Tabela 4.

Tabela 4 Distribuição dos adjetivos positivos utilizados pelos participantes 

Grupos M DP gl F/ t
Homens 25,0 7,70 6 0,97*
Mulheres 30,25 7,50
Adolescentes 26,5 0,70 3/4 3,30*
Adultos-jovens 21,5 2,12
Adultos meia-idade 37,50 3,53
Idosos 25 9,90

Nota. *valores significativos p < .05

Ao considerar as palavras negativas, verifica-se que novamente se destacou o grupo de adultos de meia-idade, que também apresentaram o maior número de palavras negativas, em oposição aos outros grupos. Desta vez, porém, a diferença entre as médias foi significativa e o efeito dessa diferença pode ser considerado grande (d=5,15), como demonstrado na Tabela 5.

Tabela 5 Distribuição dos adjetivos negativos utilizados pelos participantes 

Grupos M DP gl F/ t
Homens 18,75 7,13 6 0,30
Mulheres 20,25 6,85
Adolescentes 18,5 3,53 3/4 8,85**
Adultos-jovens 12 4,24
Adultos meia-idade 28 2,82
Idosos 19,5 0,70

Nota. **valores significativos p < .01

Ao avaliar a correlação entre o número de palavras positivas e negativas apresentadas nas categorias desenvolvidas pelos grupos, verifica-se que há uma alta correlação direta entre as duas variáveis (r=0,84). No geral, o posicionamento de todos os grupos, com exceção dos homens idosos, foi mais favorável do que desfavorável. No que diz respeito ao favoritismo intergrupal, a segunda hipótese formulada no início deste estudo foi negada em parte, uma vez que os homens idosos foram os que menos favoreceram o próprio grupo, embora as mulheres idosas tenham sido aquelas que mais o fizeram. Fica evidenciado que não houve maior favoritismo dos idosos em relação aos "idosos em geral" em comparação com os outros grupos etários. E embora os adultos de meia-idade tenham apresentado maior número de categorias, os mesmos não se destacaram dos demais grupos no que diz respeito à diferença entre as palavras positivas e negativas.

Com base no presente estudo, verificou-se que apenas uma das três hipóteses iniciais foi confirmada, pois houve efeito de homogeneidade do out-group para a maioria dos grupos etários. No entanto, todas as hipóteses relacionadas com o grupo de idosos a respeito do favoritismo em relação ao próprio grupo e a percepção do mesmo como heterogêneo não foram confirmadas, uma vez que as categorias desenvolvidas pelos idosos foram semelhantes aos demais grupos.

Discussão

Ao descrever o que seria um grupo, Tajfel (1982) explica que existem três componentes que o caracterizam: (a) cognitivo (saber que se pertence ao grupo), (b) avaliativo (pertencer ao grupo tem um valor positivo ou negativo) e (c) emocional (emoções dirigidas ao in-group ou out-group). O foco dos efeitos relacionados à categorização social e identidade social encontra-se nos indivíduos, mas, como o próprio autor afirma, há muitas semelhanças entre o comportamento individual, interindividual e intergrupal. Diante disso, a perspectiva teórica que permeia esse estudo é de uma rede dinâmica que envolve esquemas cognitivos compartilhados por indivíduos em interação social.

Os grupos utilizaram primeiramente as categorias primitivas (sexo, idade, etnia) para categorizarem as fotografias e todos utilizaram o critério idade em pelo menos uma das categorizações. Marques e Paéz (2006) afirmam que sexo, idade e etnia são categorias universalmente dominantes na percepção das pessoas. No entanto, os mesmos autores dizem que há evidências empíricas que demonstram que, quando há conhecimento suficiente sobre outras categorias relativas ao grupo julgado, as categorias primitivas perdem a supremacia.

Torna-se importante ressaltar que as explicações sobre a pesquisa antes da realização da atividade podem ter interferido no fato de que a idade tenha sido a categoria primitiva mais utilizada, sendo esse um viés que impede a constituição de uma hierarquia dentre as categorias primitivas, aspecto que justifica a realização de novos estudos com uma amostra maior. Entretanto, para Marques e Paéz (2006), as categorias primitivas têm força no momento de categorização, pois exigem o mínimo esforço cognitivo dos indivíduos. No entanto, dificilmente se conseguiria provar a existência de uma hierarquia de categorias primitivas, porque todas correspondem a atributos mais salientes do processo de julgamento e, dependendo da cultura e das normas sociais, elas poderão se sobrepor. Essa afirmação é confirmada pelos estudos realizados por Brewer et al. (1981) com o uso de categorias primitivas para descrever a percepção de pessoas jovens sobre pessoas idosas e também por Jyrknen (2014) quando sexo e idade são categorias que aparecem juntas.

Após a utilização das categorias primitivas, outras categorias mais complexas foram empregadas. Durante a categorização pelos integrantes dos grupos, foi possível verificar dois momentos: o primeiro "automático" e o segundo "reflexivo". No momento "automático", as categorias primitivas foram amplamente utilizadas, o tempo de resposta foi curto para todos os grupos, sendo que os adolescentes foram ainda mais rápidos. No momento "reflexivo", houve maior discussão entre os integrantes do grupo, os mesmos ainda se basearam nas semelhanças e diferenças, mas se questionavam sobre a postura "preconceituosa" de "classificar" os personagens das fotos, esse aspecto propiciou a categorização com base em outros critérios, como o olhar ou o sentimento.

No que diz respeito às categorizações realizadas, verifica-se que houve uma polarização. Quando o critério de categorização utilizado foi a idade, as classificações dividiram-se em jovens e velhos; quando o critério foi o sexo, as classificações foram homens e mulheres; e quando o critério foi a etnia, negros e brancos. Exceção foram os homens idosos, que mantiveram a polarização, mas de forma mais complexa, como foi explanado.

Na etapa de categorização das 70 palavras, cinco "tipos" de idosos emergiram como categorias consensuais de idosos: (a) culto; (b) positivo, (c) depressivo, (d) ranzinza e (e) negativo. O idoso "culto" é caracterizado de forma mais positiva, trata-se de um idoso experiente, sábio, instruído e bem informado. A cultura desse idoso não remete aos valores repassados pelas gerações, como cita Beauvoir (1990) quando fala sobre o sábio ancião das antigas civilizações, mas relaciona-se com a escolaridade e êxito profissional. O idoso "positivo" se relaciona com o posicionamento do idoso diante da própria vida, uma postura de aceitação e adaptação a sua realidade, mas ainda com objetivos e expectativas em relação ao futuro, semelhante ao que Erikson (1976) define como etapa da integridade, em contraposição à desesperança. Esta se mostrou representada neste estudo pelo idoso "negativo" e "depressivo", ambos pessoas tristes, doentes, pessimistas e incapazes. No entanto, o idoso "negativo" possui uma personalidade de difícil convívio, aproximando-se do idoso "ranzinza", que é rigoroso, preconceituoso e mal-humorado, o que promove problemas de relacionamento com as pessoas da sua e de outras gerações. Algumas tipificações encontradas no presente estudo foram semelhantes às encontradas no estudo realizado por Liu et al. (2003), que identificaram o idoso "ranzinza" e o "politizado", que se aproxima da categoria "idoso culto" encontrada neste trabalho.

Embora as categorias típicas consensuais tenham demonstrado certa homogeneidade na percepção do idoso, 22 categorias foram desenvolvidas, demonstrando que, principalmente para o grupo de adultos de meia-idade, os idosos possuem características diversificadas. Com exceção desse grupo, a homogeneidade do out-group foi encontrada em todos os demais, inclusive no grupo de idosos, em que se esperava que fosse apresentada maior heterogeneidade em relação ao próprio grupo, conforme prevê a teoria da categorização e identidade social (Tajfel, 1982). Ora, a categorização social é um sistema que orienta, cria e define o lugar do indivíduo na sociedade. Por meio da socialização, as pessoas em interação descobrem e aprendem valores e mecanismos cognitivos que auxiliam na diferenciação dos grupos, corroborando a pertença grupal e constituindo a identidade social.

A hipótese de que todos os grupos categorizariam de forma mais homogênea o grupo de idosos, com exceção dos próprios idosos, não foi completamente verificada, isso porque os idosos perceberam o próprio grupo de forma polarizada e homogênea e também porque o efeito de homogeneidade do out-group não ocorreu em todos os grupos. A similaridade dentro do próprio grupo pode ser interpretada pelos membros, interferindo no quanto os mesmos consideram-se homogêneos (Spears, McGarty, & Pligt, 1998). Para Marques e Paéz (2006), os membros de uma minoria podem perceber o próprio grupo de forma mais homogênea quando possuem uma identidade menos segura. Eles investem na coesão do grupo em torno de padrões normativos importantes, ou seja, pode ser um recurso de manutenção de uma identidade social positiva. Nesse sentido, torna-se válido ressaltar que a pertença social envolve, para além da identificação, o desejo de pertencimento, o que parece explicar em parte o porquê da perspectiva estereotipada apresentada também pelos idosos quando falam sobre o próprio grupo. Esses podem não apresentar nem pertença e nem identificação, avaliando a si mesmos como diferentes do grupo "idoso", uma vez que não se sentem como tal e, por isso, podem estar falando em relação a um "outro grupo" e não ao próprio grupo.

Sobre a heterogeneidade apresentada pelos adultos de meia-idade, uma das explicações possíveis seria o contato diário com idosos, ou seja, o grupo de idosos não é um grupo definido em "poucas palavras". Entretanto, perceber o grupo de idosos de forma mais heterogênea e ter mais contato com os mesmos não foi suficiente para favorecê-lo. Dentre todos os grupos, as mulheres idosas foram as que apresentaram a perspectiva mais positiva, em oposição aos homens idosos, que apresentaram a perspectiva mais negativa. Waldzus et al. (2003) indicam que as diferentes avaliações do out-group podem trazer consequências diferentes para as relações intergrupais: avaliações positivas implicam relações de tolerância, atração mútua e generosidade, e avaliações negativas, conflitos intergrupais e discriminação.

De acordo com Tajfel (1982), quando o pertencimento ao grupo oferece satisfação aos indivíduos, a identidade social do grupo se consolida, mas, quando essa satisfação não ocorre, ou seja, quando o grupo não usufrui de um status social positivo, os membros tendem a abandoná-lo. No entanto, como os idosos podem abandonar a categoria que identifica o próprio grupo? Afinal, muitos idosos possuem características típicas que os identificam. Até que ponto seria possível atenuar, retardar ou mesmo modificar tais características? Neste estudo, os idosos desenvolveram alguns "tipos" de idosos que estão distantes de uma autoimagem aceitável e positiva. Citando o próprio Tajfel (1982), "a noção de identidade social baseia-se no simples pressuposto motivacional de que os indivíduos preferem uma imagem de si próprios, positiva, a uma negativa" (p. 58). Diante de uma perspectiva cultural e societária pouco valorizadora dos idosos e de seus papéis, percebe-se que o próprio idoso não deseja fazer parte desse grupo e não apresenta pertença social, sendo apenas percebido como integrante desse grupo, mas não se sentindo parte do mesmo.

O objetivo deste estudo foi descrever estereótipos relacionados aos idosos e compará-los considerando os grupos etários. Dessa forma, torna-se possível inferir algumas considerações sobre os resultados encontrados:

  • A percepção relativa ao idoso é majoritariamente positiva, ou seja, há mais estereótipos etários positivos do que negativos;

  • Persiste uma visão estereotipada do idoso em características agrupadas em pólos positivos e negativos, para a maioria dos grupos, inclusive para o próprio grupo de idosos;

  • O contato com pessoas idosas parece influenciar o efeito de homogeneidade do out-group;

  • Há indicativos de que, entre os idosos participantes desta pesquisa, existe um frágil sentimento de afiliação grupal, traduzida, consequentemente, em uma identidade social menos segura.

Kurysheva (2014) também encontrou relações inversas entre processos identitários e esquemas do idoso. No entanto, de acordo com Neto (2004), o julgamento social em relação ao grupo de idosos é diferenciado, porque se baseia no critério idade, uma vez que os jovens um dia se tornarão idosos, diferente das categorizações que utilizam critérios baseados na etnia ou sexo, quando o grupo que julga não pertence e possivelmente jamais pertencerá ao grupo julgado.

Praticamente todos os grupos relataram, durante o momento de categorização das fotos, que não desejavam ser preconceituosos. Lima e Pereira (2004) sugerem que o preconceito é expresso mais facilmente quando o indivíduo o atribui a outras pessoas, ao passo que, ao referir-se a si, tende a negar ser preconceituoso.

Tanto o idadismo (Neto, 2004) quanto o ageism (Chambon, 2005) se referem aos estereótipos etários negativos, ou seja, discriminação, preconceito com base na idade das pessoas, segregação e exclusão de pessoas idosas. No presente estudo, categorias positivas e negativas foram suscitadas pelos participantes, mas, no geral, prevaleceram categorias e elementos positivos. Houve uma perspectiva de valorização do idoso, aspecto classificado por Chambon (2005) como presente em uma orientação sagéiste, quando o idoso é integrado na cultura dominante, mantendo a sua cultura específica. De outro lado, alguns estereótipos negativos foram consensuais, indicando orientações de ageism, que se aproximam da segregação, mas não da exclusão (Chambon, 2005).

No estudo realizado por Brewer et al. (1981), foram encontradas muitas categorias de idosos, indicando quatro imagens prototípicas diferentes, com características positivas e negativas. Já Chambon (2005) encontrou mais orientação de valorização e integração junto aos protótipos positivos do que aos negativos. De forma semelhante, neste estudo, foram encontradas imagens prototípicas positivas e negativas. De um lado, o idoso positivo, acessível, sociável e, do outro, um idoso negativo, doente, isolado, grosseiro e antissocial. A polarização das categorias consensuais foi baseada nas características de personalidade atribuídas aos idosos.

Por fim, chega-se aos indicativos de que os idosos deste estudo possuem uma frágil identidade social como pessoa idosa, chegando a apresentar uma perspectiva mais negativa do que positiva, como ocorreu com os homens idosos. Os demais grupos, porém, possuem mais estereótipos positivos do que negativos do idoso, e diante de imagens prototípicas positivas, também há mais aceitação, em um movimento de integração do idoso, contrário ao idadismo e ageism, que impelem os idosos para a segregação, por meio da discriminação. O contato com idosos influencia o efeito de homogeneidade do out-group, mas não interfere no favorecimento do mesmo. As categorias primitivas são amplamente utilizadas para a realização de categorizações de grupos distintos, mas, para categorizar um único grupo, neste caso os idosos, utilizam-se categorias baseadas na personalidade.

A construção de estereótipos de idosos é irremediável. As pessoas utilizam estereótipos para facilitar a compreensão do mundo, portanto, impedir a construção de estereótipos e o julgamento com base em poucas informações é praticamente impossível. No entanto, dois caminhos se apresentam como possibilidades. Primeiro, o contato intergeracional de forma mediada para fomentar uma complexificação desse out-group por parte de adultos e adolescentes; e, em segundo lugar, sabendo-se que os estereótipos etários positivos são muito consistentes no pensamento social, seria possível fomentar ações, seja através da mídia, de políticas públicas ou nos discursos da vida diária, que estimulem essa imagem do idoso sábio e experiente. Para os idosos, perceber o próprio grupo de forma tão homogênea pode ser um meio de investir na coesão do grupo e manter uma identidade social positiva com base nas características inquestionáveis: sabedoria e experiência.

Referências

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Recebido: 02 de Setembro de 2013; Revisado: 11 de Março de 2015; Aceito: 10 de Abril de 2015

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