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Psicologia: Teoria e Pesquisa

Print version ISSN 0102-3772On-line version ISSN 1806-3446

Psic.: Teor. e Pesq. vol.35  Brasília  2019  Epub Oct 28, 2019

http://dx.doi.org/10.1590/0102.3772e35420 

Psicologia Clínica e Cultura

O estatuto de corpo na obra de Freud pós-1920

The Status of the Body in the Works of Freud After 1920

1Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil


RESUMO

Na perspectiva psicanalítica, a concepção de corpo e organismo se distinguem, sobretudo pelo fato deo segundo ser pulsional. O presente artigo se propõe investigar o estatuto de corpo que emerge após 1920, no qual se situa esta radicalidade. A discussão está articulada ao postulado da pulsão de morte, momento em que a dimensão econômica ganha relevo na teoria freudiana. São privilegiadas na investigação as problemáticas do excesso pulsional e da representação psíquica. Aponta-se que o corpo pode apresentar manifestações que não se restringem à esfera representacional, como, por exemplo, o fenômeno da memória corporal. Destaca-se, ainda, a função da dor na constituição de corpo e a importância fundamental da alteridade no processo de subjetivação.

Palavras-chave: corpo; psicanálise; pulsão de morte; representação psíquica; memória corporal

Abstract

From the psychoanalytic perspective, the concept of body differs from the concept of organism. The first differs from the second mainly because of drive. This study aimed to investigate the status of the body that emerged after 1920, in which this radicality is present. The discussion was framed in relation to the death drive principle, at which point the economic dimension becomes relevant in Freudian theory. The research highlighted the problems of drive excess and psychic representation. We pointed out that the body can manifest that which is not restricted to the representational sphere, such as, for example, the phenomenon of body memory. We also discussed the function of pain in body constitution and the importance of alterity in the subjectivation process.

Keywords: body; psychoanalysis; death drive; psychic representation; body memory

Embora o corpo não tenha recebido por parte de Freud uma definição precisa, é inegável o fato de essa temática, ora de forma mais evidente, ora de forma mais sútil, atravessar grande parte de suas elaborações. A psicanálise nasce a partir de uma patologia cujos sintomas eram eminentementes corporais: a histeria. Esta, pela presença de manifestações físicas sem etiologia orgânica estabelecida, intrigava a comunidade médica do final do século XIX, que tentava sem sucesso elucidá-la a partir do campo neurológico. Freud, tomado pelo desafio de compreendê-la, ousa pensar o corpo de modo distinto da forma como era concebido pelas ciências da época.

Com esta preocupação, propõe-se esclarecer os fenômenos histéricos sem se pautar em seu saber médico preexistente, mas sim dispondo-se a escutar suas pacientes. Ele vislumbra na raiz da conversão histérica a presença de um afeto que fora separado de sua representação e se deslocou para uma parte do corpo (Freud, 1894/1996d). Constata ainda que, invariavelmente, a representação da qual o afeto se separou possui estreita ligação com a vida sexual. Assim, conclui que, subjacente ao sintoma histérico, há uma representação relacionada à sexualidade que designa uma representação intensiva e, por ser inadmissível ao eu, passa pelo processo de conversão, descarregando através do corpo (Freud, 1893-1895/1996g).

Assim, explicando as manifestações histéricas através de um conflito psíquico de cunho sexual, e não de uma determinação orgânica, nasce a psicanálise, que, contrapondo-se ao estatuto científico de sua época, rejeita a oposição corpo x psiquismo e inaugura uma noção singular de corpo. O corpo deixa de estar restrito ao organismo, aos domínios anatômico e biológico, passando a ser atravessado pelo campo sexual e permeado pelo da linguagem.

Esse estatuto de corpo ganha ainda mais força após a formulação do conceito de pulsão sexual e da concepção da sexualidade infantil em 1905, no artigo Três ensaios sobre a sexualidade. Tais proposições ampliam em definitivo o campo da sexualidade humana, que deixa de estar limitada à reprodução, visando o prazer, o qual pode ser alcançado de diversas formas, uma vez que o corpo é habitado por uma variedade de zonas erógenas que se constituem ainda na infância com o investimento libidinal de um adulto. É impossível, a partir de então, pensar o corpo na obra freudiana sem articulá-lo ao conceito de pulsão - sem caracterizá-lo como pulsional - e, consequentemente, ao trabalho promovido pela alteridade.

Todavia, sabemos que chegar a tal designação não foi um achado. A psicanálise se caracteriza, conforme ressalta seu próprio criador, por ser, concomitantemente, um procedimento de investigação de processos mentais inacessíveis por outros meios, um método de tratamento para os distúrbios neuróticos e uma nova disciplina (Freud, 1923[1922] /1996f). Sendo assim, ela foi elaborada paulatinamente em um processo de constante revisão e criação. O estatuto de corpo se insere dentro desse movimento de idas e vindas tipicamente freudiano. Dessa forma, caracterizar o corpo como pulsional pode ter significados distintos de acordo com o contexto - mais precisamente, se estamos no âmbito do primeiro ou segundo dualismo pulsional. No que se refere ao primeiro dualismo, pulsão do Eu versus pulsão sexual, atribuir ao corpo o fato de ser pulsional situa-o na esfera da representação. Ou seja, o corpo é nesse ínterim constituído e atravessado pela energia sexual ligada, o que permite, por exemplo, que os sintomas histéricos sejam “decifrados” via análise das formações do inconsciente. Já no que diz respeito ao segundo dualismo, pulsão de vida versus pulsão de morte, a noção de corpo, que não está restrita ao campo da representação, se amplia.

Em 1920, com a introdução da pulsão de morte, o pensamento freudiano se complexifica e o estatuto do corpo acompanha essa transformação. À medida que este novo conceito traz para dentro da teoria psicanalítica a noção de uma força disruptiva, a ideia de corpo passa a englobar também o impossível de ser simbolizado, colocando em xeque o modo como se pensava a sua representação. Nesta dimensão, o aspecto econômico ganha relevo e a importância da alteridade no processo de constituição subjetiva torna-se ainda mais evidente.

O objetivo principal do presente artigo é justamente investigar o registro de corpo que se desenvolve concomitantemente ao segundo conflito pulsional. Sendo assim, inicialmente exploraremos o conceito de pulsão de morte, seus antecedentes e seus desdobramentos. Na sequência, propomos mostrar as implicações dessa modalidade pulsional na noção freudiana de corpo. Dada a relevância da questão do excesso e a problemática da representação, privilegiaremos esses dois aspectos em nosso estudo.

A pulsão de morte

Para melhor compreender a modalidade da pulsão de morte, convém acompanhar o desenvolvimento do conceito de pulsão na trama freudiana. Embora algo subjacente a este conceito já se encontre minimamente presente no Projeto para uma psicologia científica (1895), é no artigo Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905) que a pulsão é postulada.

No Projeto para uma psicologia científica, figura um aparelho neuronal que já comporta a noção de força e a necessidade de descarga. Sendo invadido por excitações provenientes tanto dos estímulos exógenos quanto endógenos, não podendo escapar destes últimos, o aparato necessita descarregá-los, a fim de manter o nível de energia o mais próximo possível de zero, obtendo assim uma satisfação (o princípio da inércia neural). É com relação aos estímulos endógenos, dos quais não há fuga possível, tal como aponta Viana (2004), que encontramos de uma forma aparentemente biológica o germe do conceito de pulsão.

Este conceito é lançado em 1905 na investigação acerca da sexualidade humana, quando Freud conclui que, desde a infância, o sexual - não restrito ao genital - já se faz presente e postula a pulsão (Trieb). Nasce, assim, a pedra angular da teoria psicanalítica: a pulsão sexual. Ao tentar circunscrevê-la, Freud (1905/1996q) faz questão de diferenciá-la do estímulo, ressaltando que, diferentemente deste, não é proveniente de excitações vindas de fora, e sim produzida por algo interno ao sujeito; portanto, contra ela não há fuga possível. Dessa forma, em 1905, a pulsão é definida como “o representante psíquico de uma fonte endossomática de estimulação que flui continuamente” (Freud, 1905/1996q, p.159). Freud também destaca que a pulsão não possui qualidade em si mesma, é pura excitação. Quanto a sua localização, Freud não é preciso, como sublinha Garcia-Roza (1995). Em alguns momentos, a pulsão parece ser psíquica, quando designada como “representante psíquico”, por exemplo; em outros momentos, está mais próxima dos estímulos provenientes do próprio corpo, parecendo ser não psíquica. Impasse que vai ser solucionado em 1915, conforme veremos adiante.

Ainda em 1905, Freud estabelece três componentes pulsionais: o objetivo ou alvo, o objeto e a fonte. O alvo é a obtenção de prazer, ou seja, a satisfação; o objeto é o que há de mais variável, o meio pelo qual se obtém a satisfação; e a fonte é o corporal. Sobre este último componente, cabe destacar que, ao afirmar que a fonte da pulsão é corporal, Freud não está pressupondo o corpo enquanto uma totalidade organizada, mas enquanto partes, sem se importar com a relação estabelecida pelas várias partes entre si ou com o organismo enquanto um todo. Por conseguinte, ao forjar o conceito de pulsão, o que passa a ser colocado entre parênteses é o próprio discurso biológico (Garcia-Roza, 1995).

Em 1915, provavelmente ciente da precariedade da explicação dada em 1905, Freud retoma a temática da pulsão e a trata de forma bastante minuciosa em As pulsões e seus destinos, fazendo deste artigo o seu relato mais claro acerca do assunto. Ao mesmo tempo em que ele corrobora algumas das nuances da primeira definição, promove uma ruptura, na medida em que confere notoriedade à força (Drang), antecipando algumas das proposições que somente serão formalmente postuladas em 1920. Nas palavras de Freud (1915/1996l), a pulsão passa a ser definida como:

(...) um conceito situado na fronteira entre o mental e somático, como representante psíquico dos estímulos que se originam dentro do organismo e alcançam a mente, como uma medida de exigência feita à mente no sentido de trabalhar em consequência de sua ligação com corpo. (p. 127)

Observamos que nessa nova definição a pulsão permanece sendo caracterizada como algo limítrofe e que a ideia de um aparelho de descarga do Projeto para uma psicologia científica (1895) continua subjacente a ela. Outro ponto de continuidade com a conceituação anterior é que, contra a pulsão, a fuga continua sendo ineficaz. Ademais, como já vinha se configurando desde os estudos sobre a histeria, mais uma vez fica evidente a ligação entre o somático e o psíquico na teoria psicanalítica. A novidade introduzida a partir dessa reformulação fica por conta da importância atribuída à dimensão econômica. Conforme argumenta Birman (2003), ao apontar a necessidade de um trabalho para a pulsão se inserir no psiquismo, Freud, que até então considerava sobretudo a dimensão qualitativa, põe em destaque a força (Drang). Essa valorização torna o solo da psicanálise, que já se encontrava bastante fértil em virtude das contradições instaladas pelo conceito de narcisismo, ainda mais propício à formulação da pulsão de morte.

Em 1910, em um artigo intitulado A perturbação psicogênica da visão segundo a psicanálise, Freud propõe a divisão da pulsão em dois grupos, dando origem ao primeiro dualismo pulsional: pulsões de autoconservação ou pulsões do Eu versus pulsões sexuais. As do primeiro tipo estão a favor da conservação do indivíduo e são reguladas pelo interesse, enquanto as do segundo tipo estão em busca do prazer do órgão e são reguladas pela libido. Esse dualismo foi bastante útil a Freud na elucidação das neuroses de transferência. Contudo, quando em 1914 ele postula o conceito de narcisismo, admitindo que o Eu também pode ser investido libidinalmente, instala-se uma contradição. Como explicar o fato das pulsões do Eu se oporem às pulsões sexuais, se o Eu também pode ser investido pela libido? Esse paradoxo somente encontra uma saída em 1920, no artigo Além do princípio de prazer.

Neste artigo, Freud, a partir da observação da compulsão à repetição, presente nos sonhos das neuroses traumáticas e na neurose de transferência, questiona a dominância do princípio de prazer e acaba por formular a pulsão de morte, radicalizando a concepção de um trabalho pulsional.

O princípio de prazer, cuja finalidade é evitar o desprazer e produzir prazer, esteve subjacente à primeira teoria das pulsões, sendo eficaz o bastante para explicar as neuroses de transferência e sua inerente produção de desprazer a partir do conflito psíquico. Todavia, tal princípio não conseguiu elucidar os novos achados clínicos, sobretudo em relação à questão da repetição traumática. Como depreender algum prazer dos sonhos das neuroses traumáticas, os quais remetem o sujeito à concretude da cena do trauma, provocando angústia? Como pensar o predomínio do prazer nas repetições de situações desprazerosas observadas no decorrer do processo analítico? Tomado por essas questões, Freud (1920/1996c) abre mão do domínio irrestrito do princípio de prazer para trabalhar apenas com a noção de uma tendência para tal e, por fim, postula duas espécies de pulsão: pulsão de vida e pulsão de morte. A primeira inclui as pulsões sexuais e as de autoconservação e visa manter a vida. Nesta perspectiva, a pulsão sexual busca a perpetuação da espécie e a pulsão de autoconservação procura se desviar dos fatores externos que podem provocar a morte. Já a segunda, que se caracteriza pela tendência inerente de todo ser vivo a retornar ao inorgânico, através da descarga total da tensão, é regida pelo princípio de Nirvana1 e trabalha de modo silencioso (Freud, 1924/1996j).

Cabe sublinhar que, ao teorizar sobre as pulsões no quadro da primeira tópica, Freud estava restrito à hegemonia do princípio de prazer e ao domínio da representação. À medida em que postula um princípio para além daquele, o império da representação perde forças. Essa é uma relativização que, como veremos mais adiante, reverbera diretamente sobre a noção de corpo que figurava até então.

Se por um lado o segundo conflito pulsional resolve teoricamente alguns impasses clínicos que se apresentaram para Freud, tais como a repetição desprazerosa, por outro lado passa a exigir algumas reformulações. A partir do seu enunciado, Freud passa a cogitar a existência de um masoquismo primário. Lembremos que antes de 1920 o masoquismo era concebido como reversão do sadismo sobre seu oposto. Contudo, em 1924, no artigo O problema econômico do masoquismo, Freud defende o novo ponto de vista: a existência do masoquismo anterior ao sadismo, formulação que acaba por melhor esclarecer o circuito entre as pulsões de vida e de morte.

Em 1924, Freud retoma a ideia central subjacente ao artigo que destronou o princípio de prazer e investiga como este princípio se situa quando o prazer e a dor se apresentam concomitantemente. De saída, resgata o que já havia ressaltado no artigo Três ensaios sobre a sexualidade (1905), a saber, que no início da vida, qualquer estímulo, seja de dor ou prazer, quando atinge certo limiar quantitativo, pode provocar excitação sexual. Ciente de que esta explicação ainda é incompleta para assegurar a existência de um masoquismo primário, sustenta uma nova hipótese com base na problemática da fusão e desfusão das duas classes pulsionais. De acordo com ele, a pulsão de morte está sempre agindo no interior do sujeito, tentando a todo custo uma desintegração que o leve ao “estado de estabilidade inorgânico” (Freud, 1924/1996j, p. 181). Todavia, a libido busca frear esse trabalho, desviando a pulsão de morte para objetos externos ao sujeito. A quota que a libido conseguir desviar ficará a serviço da função sexual, dando origem ao sadismo. O problema é que a libido não é capaz de banir por completo a pulsão de morte do interior do sujeito e a fração que nele permanece constituirá o masoquismo primário.

Assim, o masoquismo primário, também denominado de erógeno, diz respeito ao momento no qual a agressividade ainda não se dirigiu para um objeto externo, voltando-se para o próprio Eu. Ele é a condição inerente à excitação sexual, equivale ao prazer no sofrimento e é constitutivo da própria subjetividade (Freud, 1924/1996j).

Feito este breve percurso a propósito do desenvolvimento e dos desdobramentos do conceito de pulsão de morte, já é possível pensar como o estabelecimento desta repercute na noção de corpo presente na teoria psicanalítica.

O corpo após 1920

Até 1920, vislumbramos no pensamento de Freud uma concepção de corpo marcada pelo domínio da representação, no qual os sintomas corporais, mesmo remetidos à ação do recalque, são passíveis de um “deciframento”, por meio da análise das formações do inconsciente que se revelam no discurso do paciente. Nesse contexto, encontra-se as manifestações corporais da conversão histérica. Todavia, com a virada pulsional de 1920, esse estatuto de corpo se modifica consideravelmente, na medida em que terá que comportar também as características inerentes à pulsão de morte, ou seja, ao que é da ordem do excesso impossível de simbolização psíquica. Essa modificação põe em xeque a forma como a representação psíquica do corpo era entendida. Sendo assim, nossa análise deverá privilegiar o aspecto do excesso pulsional e a questão da representação, que passará a conformar a noção de corpo pós-1920.

O Excesso Pulsional

Considerar o corpo como habitado pela pulsão de morte implica em aceitar que por ele, além da energia ligada à pulsão sexual, circula também um resto pulsional, que na impossibilidade de ser representado psiquicamente, está sempre buscando uma saída. Nessa perspectiva, é o próprio corpo que pode servir de via de descarga para esse excesso.

Embora o cenário no qual o corpo serve de escoadouro à força pulsional tenha adquirido maior visibilidade a partir de 1920, de alguma forma já era apontado por Freud anteriormente, por exemplo, na caracterização das neuroses atuais. Ao traçar a oposição entre psiconeuroses e neuroses atuais, Freud (1898/1996) estabelece que as primeiras remetem à sexualidade infantil, enquanto as neuroses atuais, à sexualidade atual. De acordo com essa leitura, os sintomas das psiconeuroses são a expressão simbólica de um conflito relacionado a um acontecimento traumático de ordem sexual vivido na infância; já com relação à sintomatologia das neuroses atuais, trata-se de um acúmulo de tensão gerado pela inadequação da satisfação sexual. Dessa forma, as neuroses de angústia - patologia pertencente ao quadro das neuroses atuais -, entre outras manifestações, exibem distúrbios da atividade cardíaca e respiratória, acesso de suor, vertigem e diarreia, os quais não carregam nenhum simbolismo ou mensagem endereçada ao outro, de acordo com Freud (1895[1894] /1996p), apenas denunciam um excesso.

Depreendemos, assim, a presença de um acúmulo pulsional nas neuroses atuais que, devido à impossibilidade de representação, escapa pelo corpo. O que ocorre nessas patologias, de acordo com Fernandes (2003), é um transbordamento da sexualidade. Tomando essa perspectiva em consideração, a autora caracteriza o estatuto corporal oriundo do segundo dualismo pulsional de “corpo do transbordamento” (p. 41), inclusive enfatizando que alguns sintomas da atualidade parecem se situar nessa mesma vertente. Ela observa em sua clínica manifestações corpóreas que não expressam um conflito simbólico, mas servem somente como uma via de descarga para o excesso e, portanto, afastam-se do domínio da representação. Acompanhando as considerações de Fernandes (2003), nossas experiências na clínica também sugerem que determinadas sintomatologias estão mais próximas de um resto sem simbolização a ser escoado do que de uma mensagem a ser decifrada, vide as crises de angústia, os ataques de pânico e as queixas corporais que não se abrem para associações.

O pressuposto de um excesso pulsional subjacente a manifestações corporais também está na base de alguns estudos no campo da psicossomática. A Escola de Psicossomática de Paris, fundada por Pierre Marty, por exemplo, defende que o excesso não representado psiquicamente é o solo propício para a eclosão de manifestações psicossomáticas (Marty, 1993). De acordo com esta visada, o que está em jogo nestas patologias é da ordem da supressão de um afeto que, marcado pelo excesso, não foi possível de ser vivido ou transformado pelo sujeito (Santos Filho, 1992).

Destacar o aspecto econômico inerente à ideia de corpo no pensamento freudiano nos permite, ainda, obter uma melhor compreensão do fenômeno da memória corporal. Sabemos o quanto a noção de memória em Freud é bastante complexa, não sendo do escopo deste artigo desenvolver uma caracterização mais profunda a esse respeito. Entretanto, é importante para a nossa discussão tecer algumas considerações acerca de uma espécie de memória constituída por sensações e vivências corporais.

Em diversos momentos de sua obra, Freud sublinhou a importância das experiências bem precoces na constituição psíquica, a saber: nos artigos Lembranças encobridoras (1899), Sexualidade Feminina (1931), Moisés e monoteísmo (1939), entre outros. Em 1899, Freud enuncia que, apesar de quase nada ser recordado das experiências infantis, elas deixam marcas e influenciam o sujeito ao longo de sua vida. A esse respeito, escreve: “Ninguém contesta o fato de que as experiências dos primeiros anos de infância deixam traços inerradicáveis nas profundezas de nossa mente” (Freud, 1899/1996, p. 287). Anos mais tarde (1931), após ter formulado e reformulado sua teoria das pulsões, ao estudar a sexualidade feminina, Freud fala claramente acerca da existência de um período pré-edípico e destaca seu valor na vida sexual feminina. Em 1939, volta a ponderar a relevância das experiências precoces, sendo que, dessa vez, destaca textualmente os aspectos corporais aí envolvidos. Chama a atenção, sobretudo, para as percepções de ordem visual e auditiva, indicando que estas influenciam a constituição psíquica e possuem papel preponderante na formação de uma neurose.

Depreendemos desses textos que determinadas experiências e sensações vividas no corpo podem deixar um rastro, tal como a ideia dos trilhamentos do aparato psíquico de 19852, o qual se transformará em memória. O que faz dessas vivências uma memória em potencial é justamente a força com que elas atingem o psiquismo. São as experiências corporais atravessadas por um excesso pulsional sem possibilidade de inscrição psíquica que tendem a ficar gravadas como marcas (Sales, 2013).

Nesse sentido, conforme ressalta Reis (2004), a memória corporal, tal como a memória das neuroses traumáticas, por não ser registrada de acordo com a lógica das inscrições psíquicas, inscreve-se como os signos de percepção da Carta 52. Nesta correspondência destinada a Fliess, Freud (1896/1996e) propõe um aparelho composto por camadas estratificadas, cujas extremidades são formadas pelo sistema perceptivo (W) e pela consciência (Bews), existindo, entre eles, três níveis de registros: os signos de percepção (Wz), a inconsciência (Ub) e a pré-consciência (Vb). O signo da percepção é o primeiro registro das percepções, dispõe-se conforme as associações por simultaneidade e não é capaz de se tornar consciente. Sendo assim, o que Reis (2004) está colocando em relevo é que a memória corporal não atua pelas formações substitutivas, não circula pelas redes associativas e, portanto, não está acessível ao sujeito. Desta forma, a memória corporal está restrita à dimensão fragmentada, ou seja, aquilo que é da ordem da repetição e da desintricação pulsional, comportando a ação desagregadora da pulsão de morte que age no interior do eu, característica do masoquismo primário. É por isso que a memória corporal figura apenas através de manifestações no corpo relacionadas à repetição (Reis, 2004).

Neste ponto, é pertinente retomar as formulações freudianas a respeito do masoquismo primário. Ao admitir a existência de um masoquismo precedente ao sadismo, Freud (1924/1996j) sublinhou que as vivências corporais da infância, até mesmo as tensões ocasionadas pelo desprazer ou sofrimento, contribuem de algum modo para a excitação da pulsão sexual. Nesse contexto, o autor mencionou que em alguns casos a introjeção da experiência de prazer não é possível, impossibilitando a articulação entre pulsão de morte e pulsão de vida, deixando a pulsão de morte livre para se tornar parte componente do erotismo e, com isso, dando origem ao masoquismo primário.

Partindo desta concepção, entendemos mais facilmente como a memória corporal se constitui. Conforme esclarece Reis (2004), em algumas situações no masoquismo primário, a pulsão de morte pode permanecer libidinalmente fixada ao corpo, de forma a se manifestar repetidamente através de certos modos de adoecer, tiques ou agir compulsivo, evidenciando a tendência pulsional desagregadora e destrutiva.

Admitir a hipótese de uma memória corporal coloca aquilo que é do campo da percepção sensorial em evidência no processo de constituição subjetiva, vindo a permitir uma ampliação do nosso horizonte, tanto no âmbito clínico quanto no teórico. Do ponto de vista clínico, torna-se menos dificultoso trabalhar o que se apresenta em análise e nem sempre é passível de interpretação, bem como aquilo que o paciente traz e parece ser da ordem de um excesso pulsional. No âmbito da teoria, encontra-se a valorização das sensações no processo de representação corporal, assunto que abordaremos na sequência.

A Questão da Representação

Entre as consequências teóricas da segunda teoria das pulsões, destaca-se também a relativização do papel atribuído à representação psíquica tal como era até então. Embora na primeira tópica a representação ocupe um lugar preponderante antes mesmo de 1920, Freud já nos dava indícios da existência de outros modos de os elementos se disporem na dinâmica psíquica. Tanto o aparelho de memória apresentado na Carta 52 (1896) quanto o aparelho psíquico do Capítulo VII de A interpretação dos Sonhos (1900) apontam outras possibilidades de ordenamento que não apenas um ordenamento representacional.

Como vimos anteriormente, a Carta 52 (1896) versa sobre um aparelho de memória composto por três tipos de registros. O primeiro registro, os signos de percepção (Wz), comporta a primeira inscrição das percepções, que se organizam por simultaneidade e não podem se tornar conscientes. O registro subsequente, a inconsciência (Ub), também inacessível à consciência, envolve a transcrição dos traços que ingressaram no aparelho através do Wz, sendo provavelmente tomados em relação de causalidade. O terceiro registro, a pré-consciência (Vb), comporta uma retranscrição e está relacionado às representações verbais que podem se tornar conscientes de acordo com certas regras. Na lógica deste aparelho, para um estímulo atingir a consciência, precisa antes percorrer os três registros citados, sendo que cada mudança de registro envolve necessariamente um rearranjo de acordo com as circunstâncias, o que implica em uma retranscrição contínua (Freud, 1896/1996e).

Acompanhando as formulações da Carta 52 (1896) e tentando estabelecer um paralelo com o conceito de representação, podemos depreender que os signos de percepção são registros de memórias ainda não representados. Nesta perspectiva, Herzog (2011), buscando em Freud a dimensão da presentificação (Darstellung)3, vislumbra no traço originário, inscrição inerente aos signos de percepção (Wz), “uma presentificação, passível de montagem” (p. 85), não uma representação (Vorstellung). A autora põe em relevo a sutil distinção entre inscrição e transcrição, sublinhando que ao descrever o primeiro momento da entrada da percepção no aparelho, por meio dos signos de percepção, Freud utiliza a palavra inscrição, e só ao tratar do segundo registro (a inconsciência), por onde passam os traços mnêmicos, faz uso da palavra transcrição. Assim, para ela, é mais apropriado dizer que o traço só se organizará como representação (Vorstellung) ao sofrer a transcrição. Esse entendimento amplia a concepção de aparelho psíquico, uma vez que, de acordo com ele, Darstellung e Vorstellung não se excluem, pelo contrário, sem que uma lógica binária se estabeleça, há uma passagem de mão dupla entre as duas atividades. A representação (Vorstellung) pode então ser compreendida como um dos desdobramentos possíveis da presentificação (Darstellung), e não o único.

O aparelho psíquico da primeira tópica, formado pelos sistemas consciente, pré-consciente e inconsciente, lugar por onde circulam as representações, tanto as conscientes quanto as inconscientes (Freud, 1900/ 1996b), também não se restringe à função de representar. Tomando em consideração a experiência primária de satisfação descrita por Freud, tanto no Projeto para uma psicologia científica (1895) quanto na A interpretação dos sonhos, Herzog (2011) destaca a função de alucinar deste aparelho. A experiência primária de satisfação, como sabemos, diz respeito ao apaziguamento de uma tensão interna gerada por uma determinada necessidade; e uma vez atendida esta necessidade, a satisfação se liga à imagem do objeto que a proporcionou, dando origem a uma marca da descarga. Dessa forma, quando a tensão surgir novamente, a imagem do objeto de satisfação será reinvestida, provocando algo análogo à percepção, que Freud (1900/1996b) nomeou como alucinação. Nestes termos, Herzog (2011) conclui que tanto a satisfação real quanto a satisfação alucinatória encontram-se na base do desejo, o que faz do aparelho psíquico, sobretudo, um aparelho de alucinar, e não somente de representar. Essa é uma visada consonante às formulações de David-Ménard (2000), ao propor que se compreenda o aparelho psíquico freudiano como um aparelho “de prazer, de desprazer e angústia e, também, um aparelho de pensar e falar” (p. 7). A partir desses registros, Herzog (2011) destaca também a função de descarga do aparato psíquico via motricidade, conforme fica claro na conversão histérica, em que o afeto é descarregado através/no corpo. Nessa leitura, o aspecto econômico se situa no mesmo patamar que os aspectos tópico e dinâmico, enfraquecendo, portanto, a importância atribuída à representação na dinâmica psíquica.

Observamos, assim, que mesmo antes de Freud conceber a pulsão de morte, abalando diretamente a suposta hegemonia da noção de representação, já era possível vislumbrar um aparato psíquico cuja função não estava restrita à representação. E, na medida em que adotamos esta visada mais ampla, é possível pensar o corpo não só pela via da representação (Vorstellung), mas também da presentificação (Darstellung), ponto de vista fundamental em nossa análise do estatuto de corpo pós-1920 e que está implícito, por exemplo, na noção de memória corporal.

A segunda teoria das pulsões, além de relativizar a importância atribuída à representação, modificou o próprio entendimento que se tinha a seu respeito. Nessa perspectiva, antes de 1920, a representação do corpo estava vinculada, sobretudo, à imagem, o que foi posteriormente alterado.

Através do conceito de narcisismo, o qual introduziu a possibilidade do Eu ser investido libidinalmente, a articulação entre a representação corporal e a imagem tornou-se proeminente. No célebre artigo de 1914, visualizamos a noção de corpo, antes caracterizada pela fragmentação autoerótica, adquirir certa unificação. Nesse contexto, embora Freud não cite textualmente a palavra imagem, é possível depreendermos o seu lugar quando remete à reedição do narcisismo primário dos adultos. De acordo com o autor, os pais enxergam o filho da mesma forma como um dia já se imaginaram, depositando sobre ele o seu próprio narcisismo, atribuindo-lhe, assim, toda a perfeição e aspirando que realize tudo aquilo que eles mesmos não conseguiram (Freud, 1914/1996o). Conforme comenta Pinheiro (1995), os pais constroem um projeto narcísico para os filhos. A nosso ver, tal projeto inclui necessariamente a imagem fantasiada de um corpo (Sales, 2013). Eis aí o lugar de relevância da imagem na representação que o sujeito forjará de si próprio, tema que foi amplamente explorado por Lacan (1938/2003, 1949/1992) através de suas formulações acerca do estádio do espelho.

Com a crescente valorização do aspecto econômico iniciada em 1915, o discurso freudiano se amplia, de forma que o acesso do sujeito ao seu corpo deixa de estar restrito à imagem. Entram em cena também as sensações captadas pelo sistema perceptivo. Freud (1923/1996i), ao forjar a segunda tópica, postula que o Eu é acima de tudo corporal, uma vez que se origina das sensações oriundas do corpo, conferindo um relevo especial ao tato. Essa ideia é largamente explorada por Anzieu (1989) ao formular o conceito de Eu-pele.

A partir do momento em que o Eu é declaradamente corporal, tendo em sua origem as sensações captadas pelo sistema percepção-consciência, não se pode mais desprezar tais sensações nos processos de representação do próprio corpo. Entre as sensações subjacentes à representação corporal, Freud (1923/1996i) reconhece e enfatiza a participação da dor. A propósito da diferenciação Eu/mundo, processo no qual o sujeito constrói internamente a ideia de corpo, ele escreve:

Também a dor parece desempenhar um papel no processo, e a maneira pela qual obtemos novo conhecimento de nossos órgãos durante as doenças dolorosas constitui talvez um modelo da maneira pela qual em geral chegamos à ideia de nosso corpo. (p. 39)

Observamos, assim, que apesar da presença da dor na constituição subjetiva não ser inteiramente nova, é no quadro da segunda teoria pulsional que adquire importância significativa. A dor, juntamente com outras sensações, torna-se responsável por possibilitar ao sujeito se apossar de seu próprio corpo.

Esse lugar conferido à dor ganha destaque progressivamente nos anos seguintes. Em 1924, com as formulações a respeito do masoquismo primário, quando o corpo passa a ser considerado o local do encontro de Eros e Tânatos, a dor é o elemento que permite ao corpo deixar de ser estranho e estrangeiro ao sujeito (Freud, 1924/1996j). Em 1926, no artigo Inibições, sintomas e ansiedade, as afirmações de 1924 são corroboradas, e mais uma vez a dor desponta com um papel proeminente na constituição corporal. É somente à medida que os órgãos internos provocam uma sensação dolorosa que suas representações espaciais e outros tipos de representações corporais são formadas. Sem a dor não teríamos essa consciência (Freud, 1926/1996h).

A dor então pode informar ao Eu sobre a existência de um corpo que, para além da unificação forjada pelo narcisismo, é constituído por diversos órgãos. Nesta perspectiva, a imagem deixa de ser a única forma pela qual o corpo se apresenta; a dor, bem como uma série de outras sensações, também desempenha essa função.

É seguindo essa direção que Anzieu (1989) postula o conceito de Eu-pele, entendido como a representação da qual se serve o Eu do infans durante seu desenvolvimento precoce. Através deste, o autor destaca não só a participação do tato na formação subjetiva, como inclui também o universo sonoro, gustativo e olfativo.

Tendo percorrido a obra freudiana com o objetivo de evidenciar o registro de corpo que advém com o conceito de pulsão de morte, encontramos a ideia de um corpo servindo como palco da força pulsional, impossível de ser simbolizada psiquicamente. Essa característica aponta para o imperativo da mediação do outro na constituição subjetiva. Tal temática, dada a sua relevância, é merecedora de um estudo à parte, porém não poderíamos finalizar nossa exposição sem ao menos tecermos algumas observações a esse respeito.

Desde os primórdios da teoria psicanalítica, a alteridade já ocupa um lugar especial na constituição psíquica. Em 1895, no Projeto para uma psicologia científica, é responsável por levar a cabo a ação específica. Em 1905, no artigo Três ensaios sobre a sexualidade, é o outro que sexualiza o corpo do infans. Em 1914, cabe aos pais promover a unificação corporal. Porém, é na esfera do registro corporal, surgido após 1920, que a alteridade adquire um papel ainda mais preponderante.

É a alteridade que, tal como a noção de para-excitação do Projeto para uma psicologia cientifica (1895), exercendo a função de escudo protetor, captura as excitações pulsionais que assolam o aparelho psíquico do bebê. Em 1924, Freud afirma que o corpo infantil é habitado pela pulsão de morte e, em 1926, ao tratar do desamparo, fala explicitamente que o bebê não é capaz de dominar sozinho as excitações que o assolam, estando inteiramente na dependência do outro. Portanto, cabe à alteridade dominar o excesso pulsional que invade o bebê no início da vida, impedindo a descarga total e viabilizando seu ingresso no aparato psíquico, colocando assim em ação o circuito pulsional e, consequentemente, assegurando a sua sobrevivência.

Na ausência de um outro capaz de desempenhar essa função de para-excitação, o bebê é invadido por um excesso pulsional, inclusive pelas excitações que emanam do interior de seu próprio corpo, terreno favorável para que as pulsões de vida e de morte se desvinculem, levando à desintricação pulsional, desligamento que, como vimos, pode levar ao surgimento não só do masoquismo em suas diversas dimensões, como também de doenças orgânicas e manifestações psicossomáticas.

Para Finalizar

Tendo em nosso horizonte a ausência (poderíamos mesmo dizer a impertinência) de uma oposição corpo versus psiquismo, ao longo do presente artigo procuramos analisar as repercussões da pulsão de morte sob o estatuto de corpo subjacente ao pensamento freudiano. Vimos que uma das principais repercussões da concepção de um princípio capaz de sobrepujar o princípio do prazer foi dar notoriedade à dimensão econômica. A partir de então, o corpo que desde o início se diferenciou do organismo por ser permeado pela sexualidade, antes restrito à lógica da representação, tornou-se habitado também pela força pulsional, impossível de ser representada no psiquismo. Esse entendimento destacou a problemática do excesso, relativizou a ideia de uma unificação corporal, sinalizada por Freud em 1914, e redimensionou o papel atribuído à representação, colocando em jogo a dor e outras sensações no processo pelo qual o sujeito se apropria de seu corpo. Todas essas modificações deixaram mais evidente do que nunca a dificuldade de se circunscrever uma configuração definitiva de corpo na obra de Freud.

Ademais, ao se considerar a incidência da pulsão de morte sobre o corpo, a participação da alteridade na constituição subjetiva, que nunca deixou de ser apontada por Freud, adquiriu uma importância extrema. É somente através do trabalho desenvolvido pelo outro que o além do princípio do prazer não cumpre a sua função de descarga total e o circuito pulsional entra em cena.

Por fim, é oportuno colocar que há uma aposta clínica nas considerações teóricas aqui apresentadas. Hoje é bastante comum nos depararmos com manifestações corporais de difícil interpretação, as quais parecem visar apenas a escoar a força pulsional disruptiva, afastando-se da concepção de uma mensagem inconsciente a ser decifrada e se aproximando da noção de “presentificação”, como ocorre, por exemplo, na memória corporal, nos fenômenos psicossomáticos, nas queixas corporais que não se abrem para associações, nas crises de angústia etc. À vista disso, apostamos que o estatuto corporal explorado, à medida que comporta uma ideia de corpo para além da lógica da representação, permite ao analista manejar com um pouco menos de dificuldade essas modalidades de sofrimento psíquico tão comuns na atualidade.

Referências

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1 No artigo Além do princípio do prazer (1920), este princípio corresponde ao princípio de constância.

2A ideia de trilhamento é formulada no Projeto para uma psicologia científica para descrever o caminho efetuado pela energia (Q), que ao passar pelo aparelho neural derruba as barreiras de contato dos neurônios impermeáveis (psi-nuclear), formando uma “trilha” de fácil acesso, a qual justamente por essa característica é reutilizada diversas vezes (Freud, 1895/1996m).

3Termo utilizado por Freud em 1900, ao descrever uma das deformações sofridas pelos pensamentos do sonho, tal como a condensação, o deslocamento e a elaboração secundária.

Recebido: 29 de Maio de 2016; Aceito: 06 de Julho de 2017

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