SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.14 issue1THE SYLLABLE STRUCTURE IN EUROPEAN PORTUGUESE author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

DELTA: Documentação de Estudos em Lingüística Teórica e Aplicada

Print version ISSN 0102-4450

DELTA vol. 14 n. 1 São Paulo Feb. 1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-44501998000100001 

FLUTUAÇÃO NO MODO DE PONTUAR E ESTILOS DE PONTUAÇÃO
(Punctuation Variations and Punctuation Patterns)

 

Iúta Lerche Vieira ROCHA
(Universidade Federal do Ceará)

 

 

ABSTRACT: In this descriptive paper I analyse some causes for fluctuation in the form of punctuating, as well as discuss punctuation styles and trends with relation to: historical aspects, concept of mastering reading skills, preference for speech rhythm or writing syntactical organization and type of text. The considerations that have been made here are useful for the teaching of written language, specifically for text compositions.

RESUMO: Neste artigo, de cunho descritivo, analiso algumas causas da flutuação no modo de pontuar, discutindo estilos e tendências de pontuação em relação a: aspectos históricos, concepção de leitura dominante, preferência pelo ritmo da fala ou pela organização sintática da escrita e gênero do texto. As considerações feitas são úteis para o ensino da língua escrita, em especial para a redação de textos.

Key Words: Punctuation; Writing; Punctuation Styles; Punctuation Sign.

Palavras-Chave: Pontuação; Escrita; Estilos de Pontuação; Signo de Pontuação.

 

 

0.  Uma explicação histórica

A ausência de normatividade que envolve a pontuação, provocando enorme flutuação no uso de alguns sinais, não decorre apenas de sua ambigüidade natural (ser um sistema plantado na confluência da fala e da escrita). Razões históricas também explicam essa flutuação. Primeiro, o fato de durante séculos a pontuação ter sido um mecanismo optativo e adicional ao texto para facilitar sua leitura, de domínio de uns poucos (leitores e escribas). Segundo, na Idade Média geralmente não era o autor quem escrevia o texto. A natureza morosa e mais artesanal da escrita dessa época possibilitava inúmeras versões de um texto. As tarefas de escrita (composição, cópia e edição) eram divididas entre o autor, o escriba/copista e o editor, que podiam adotar sistemáticas de pontuação diferentes, conforme a orientação do scriptorium onde o manuscrito era produzido. Todos estes fatores eram fonte de divergências.

Além disso, até o século XIX, as características de pontuação, ortografia e tipografia do texto flutuavam muito, sendo consideradas variantes acidentais - uma das muitas versões provisórias que precediam as versões substantivas, até a versão final da obra (Castro, 1990:15). Significa dizer que a pontuação em geral era definida depois do texto pronto, nem sempre coincidindo com as reais intenções do autor, além do texto ser passível de alterações no longo trajeto que percorria até atingir sua edição final.

Mattos e Silva (1992:2) mostra-nos ainda outro aspecto da questão, advertindo-nos para a dificuldade adicional que o lingüista estudioso de hoje experimenta ao procurar se acercar de textos antigos. Dificilmente ele tem acesso à pontuação original de textos medievais, tendo que passar pela intermediação do filólogo-editor, interpretando a pontuação original desses textos (a não ser que se conte com os próprios manuscritos medievais ou com edições diplomáticas "conservadoras absolutas").

 

1.  Uma questão de estilo

A maneira de pontuar muda não só de uma época para outra, mas entre autores de uma mesma época. E até os povos parecem ter diferentes estilos de pontuar. A propósito, Catach (1980:4) refere que os russos e os alemães, por exemplo, têm uma pontuação bem mais estável que a dos franceses, cuja língua está sempre sofrendo alterações.

Os estilos de pontuação também estão intimamente relacionados com o tipo de leitura dominante em cada época - leitura oral ou leitura silenciosa (visual). Antigamente a pontuação estava muito mais presa à prosódia que à gramática. E isso porque os textos eram para ser lidos em voz alta. Durante a maior parte do século XIX era moda usar unidades de pontuação muito identificadas com as unidades de entonação da fala (Chafe, 1987b:5). Na escrita desta época é muito freqüente o uso de uma pontuação que viola as normas gramaticais, especialmente separando sujeito e predicado. No entanto, se "ouvirmos" essas passagens com as intenções prosódicas do autor, perceberemos que a pontuação é perfeitamente plausível. A mesma coisa vem acontecendo nos textos publicitários atuais.

Atualmente a concepção de leitor mudou muito. A leitura oral caiu em desuso. Em geral ela é rápida e silenciosa, fazendo com que mais linguagem possa ser assimilada como simples atos de compreensão. Na escrita, as passagens que não constituem informação nova tendem a figurar numa mesma "unidade de pontuação" - trecho compreendido entre dois signos de pontuação. Um resultado disto é a tendência corrente para unidades de pontuação mais longas, deixando a interpretação prosódica mais a cargo do leitor. Este é o estilo geralmente referido como pontuação "aberta" (Chafe, 1987b:5).

 

2.  Composição do texto e ritmo

Apesar da tendência atual de pontuar de forma mais gramatical (sintática) que prosódica, ao comporem um texto, os escritores são particularmente sensíveis ao ritmo. É como se a linguagem escrita atuasse envolvendo uma imagem mental do som e como se fosse possível chegar mesmo a "ouvir" essa voz interior.

Chafe (1987b) traz um interessante depoimento da escritora Eudora Welty para mostrar que, assim como as pessoas podem imaginar como soa uma peça familiar de música, também leitores e escritores parecem ser capazes de imaginar como a escrita" soa". E a maneira como os redatores manejam a prosódia pode ter um efeito importante em sua escrita. Segundo esse livro autobiográfico (One Writer's Beginnings), Eudora Welty diz:

Desde que li pela primeira vez, sempre que lia para mim mesma não havia no livro uma linha sequer que eu não "ouvisse". À medida que meus olhos seguiam a frase, uma voz ia, silenciosamente, dizendo ela para mim... Não era a voz da minha mãe, ou a voz de qualquer pessoa que eu possa identificar. E certamente também não era a minha própria voz. Era uma voz humana, mas interior. E era interiormente que eu prestava atenção a ela. Para mim essa é a própria voz da história ou do poema. A cadência e o sentimento que residem na palavra impressa penetra-me através da voz do leitor. Eu supunha, mas não imaginava que isso acontecesse com todos os leitores "ao lerem como ouvintes" e com todos os redatores ao "escreverem como ouvintes". Talvez isso seja parte da paixão de escrever. E aí começa um processo de testar o som do que cai na página, em relação ao que está sendo escrito por mim. Até agora não sei se estou certa em acreditar nisso. Não sei se eu poderia realizar cada um dos processos, ler ou escrever, um sem o outro. Quando eu estou trabalhando numa história, ouço como minhas próprias palavras vão ficando, na mesma voz que ouço quando estou lendo. Quando eu escrevo e o som das palavras volta aos meus ouvidos, então vou fazendo minhas alterações no texto. Eu sempre confiei nessa voz.

Comentando as três funções apontadas para a pontuação (organização sintática, correspondência com o oral e suplementação semântica), Catach (1980) também revela a preferência de escritores franceses contemporâneos pela função oral da pontuação. Segundo uma enquete por ela realizada, apenas 7 entre 45 escritores admitiram guiar-se pela pontuação gramatical baseada na sintaxe. A grande maioria se referiu à tradição oral da pontuação, como podemos acompanhar em alguns fragmentos desses depoimentos:

- É a respiração da fala que dá o ritmo da minha pontuação.
- Escrevo em voz alta.
- Sempre considerei o texto, mesmo em prosa, como devendo ser lido em voz alta. Esta é a razão pela qual a pontuação desempenha um papel essencial.
- A pontuação é tão indispensável quanto a respiração.
- A pontuação me parece essencial para o ritmo.

Da mesma forma, é curioso notar que as crianças e até os animais parecem ser mais afetados pela entonação da fala, que por seu conteúdo. A preferência infantil por livros contendo mais diálogos é outro aspecto que também pode estar relacionado com essa tendência.

 

3.  Estilo escrito e estilo oral de pontuar

Pode-se considerar um modo preferencialmente falado de pontuação (pontuação prosódica) e outro preferencialmente escrito (pontuação gramatical). Assim também haveria leitores orais, que segmentam o enunciado em unidades menores, e leitores silenciosos, que aceitam trechos maiores sem pontuação (Chafe, 1987a:10).

Halliday (1989:37) aponta dois princípios à escolha do redator: pontuar pela gramática e pontuar pelo ouvido. Para ele, o caminho escolhido em geral não faz diferença e há redatores que até combinam os dois estilos. Quando, porém, o autor é fortemente levado por um ou por outro modo de pontuar, aí já se considera um estilo individual.

O melhor exemplo de estilos de pontuar está nos textos literários e jornalísticos. Outras boas referências sobre a pontuação dos escritores aparecem nas edições críticas, voltadas para o estudo da gênese da obra.

É comum encontrarmos textos onde a pontuação, ou a falta dela, à primeira vista estranhas, têm o objetivo de criar efeitos especiais, muitas vezes com o autor libertando totalmente a escrita da fala. São os já aludidos estilos individuais de pontuar. Um exemplo interessante de nossa época é a pontuação de Saramago, resgatando uma antiga prática de pontuar, onde os diálogos são introduzidos apenas por vírgulas:

(...)" Perguntou el-rei, É verdade o que acaba de dizer-me sua eminência, que se eu prometer levantar um convento em Mafra terei filhos, e o frade respondeu, Verdade é, senhor, porém só se o convento for franciscano, e tornou el-rei, Como sabeis, e frei António disse, Sei, não sei como vim a saber, eu sou apenas a boca de que a verdade se serve para falar, a fé não tem mais que responder, construa vossa majestade o convento e terá brevemente sucessão, não o construa e Deus decidirá. Com um gesto mandou el-rei ao arrábido que se retirasse, e depois perguntou a D. Nuno da Cunha, É virtuoso este frade, e o bispo respondeu, Não há outro que mais o seja na sua ordem. Então D. João, o quinto do seu nome, assim assegurado sobre o mérito do empenho, levantou a voz para que claramente o ouvisse quem estava e o soubessem amanhã cidade e reino. Prometo, pela minha palavra real, que farei construir um convento de franciscanos na vila de Mafra se a rainha me der um filho no prazo de um ano a contar deste dia em que estamos, e todos disseram, Deus ouça vossa majestade, e ninguém ali sabia que iria ser posto à prova, se o mesmo Deus, se a virtude de frei Antonio, fosse a potência do rei, ou, finalmente, a fertilidade da rainha. "

(José Saramago. In: Memorial do Convento. P.13-4)

Smith (1982:159) também refere-se às idiossincrasias da pontuação dos escritores. Para ele, essas preferências estilísticas não seriam pela pontuação em si, mas por estruturas frasais que demandam marcas particulares de pontuação.

Chafe questiona se os estilos de pontuar mudam porque as intenções prosódicas desses autores são diferentes, ou porque varia a proporção com que eles recorrem à própria pontuação para expressar suas intenções. No entender do autor, ambos os fatores interferem, mas ele prefere explorar a idéia de que "os estilos de escrita se distinguem, na medida em que a pontuação capta a prosódia da voz interior da escrita" (1987b:3).

Com esta hipótese, o autor propôs um experimento usando a leitura em voz alta. Chafe gravou a leitura oral de pessoas lendo passagens de diferentes estilos e verificou que elas dividiam as passagens escritas em unidades de entonação semelhantes àquelas usadas na fala normal, independente do modo como elas estavam pontuadas. Eram os chamados leitores "orais", que se sentiam melhor com unidades mais curtas de pontuação.

Depois ele conduziu um segundo experimento, em que os sujeitos deveriam repontuar uma frase (Nós teríamos perdido nossas cabeças se não tivéssemos perdido nada mais) em que a pontuação original havia sido removida.

O modo como estes sujeitos repontuassem a passagem revelaria a extensão na qual o autor havia pontuado de maneira que seus leitores considerassem apropriada, bem como forneceria pistas de como os leitores escolhem entre as prescrições da gramática ou da prosódia (Chafe,1987b: 4).

Os resultados do experimento revelaram que os leitores orais inseriram um limite prosódico depois de "cabeças", enquanto que os leitores silenciosos deixaram a passagem inteira, tal como o autor fizera. Estes últimos, guiando-se pela voz interior da linguagem escrita, estariam mais livres para incluir mais que uma unidade de pontuação oral.

 

4.  Erros de pontuação por transferência inadequada de padrões da fala para a escrita

Há muitos erros de pontuação decorrentes da pressuposição de que existe uma relação unívoca entre a prosódia da fala e a pontuação da escrita, de modo que os usos da linguagem falada possam ser transferidos diretamente para a escrita, sem alterações. Isso é muito comum entre redatores inexperientes. Eles costumam representar uma entonação de duração menor da fala ("entonação de vírgula") com uma vírgula na escrita e uma entonação de maior duração ("entonação de ponto") com um ponto na escrita. O efeito obtido pode ser desastroso, gerando uma estrutura de pontuação não-padrão (Danielewitz e Chafe, 1985:214). A propósito, vejam os exemplos abaixo, retirados de textos produzidos por dois alunos universitários do Ceará (2º semestre de 1996):

Texto A

A Internet no Brasil, seria de grande produtividade para a população, pois o povo poderia ter sua tecnologia avançada e usufruir de produtos de primeira qualidade.
A chegada da Internet facilitaria muito a vida das pessoas, ou seja, as escolas, universidades facilitariam a vida do aluno, que teria oportunidade de se comunicar com pessoas de todo o mundo, aumentando o contato e sabedoria, abriria o campo de trabalho, porque novas profissões iriam surgir, tais como, home page, o administrador de home page, poderíamos divulgar o currículo para que o empregador veja e nos chame para trabalhar, teríamos acesso a informações que o governo lança e ainda lançar uma crítica a ele mesmo, tudo isso que citei são vantagens que a Internet nos traz.
Enfim, a Internet só traria benefícios e automaticamente o povo iria observar e enxergar que tem que produzir e tomar consciência que precisa alcançar o progresso que está aumentando assustadoramente.

Texto B

A dieta como todos nós sabemos, traz como principal meta o lado saudável, ou seja, o benefício de um perfeito funcionamento do organismo, sem falar na modelagem corporal e na satisfação de bem estar para consigo, como por exemplo, uma atriz de grande repercursão, Cristiane de Oliveira que veio da obesidade para uma admiração nacional.

Abordando a transferência do ritmo da fala para a pontuação da escrita, Danielewitz e Chafe (1985:214) admitem a possibilidade de não haver uma correspondência total nesta transposição. De qualquer modo, como estratégia de ensino eles sugerem levar os alunos a prestarem atenção ao "som da linguagem escrita" ou a suas "vozes interiores", tirando partido dessa prosódia encoberta da escrita, especialmente nos momentos de revisão do texto.

Smith (1982), por sua vez, afirma que a idéia de tentar" ouvir" a escrita é uma estratégia válida apenas para os que já sabem pontuar. E Halliday (1989) adverte para os possíveis conflitos entre o estilo gramatical e o estilo prosódico de pontuar, já que nem sempre o grupo tonal coincide com a oração. Isso é o que acontece muitas vezes quando ficamos em dúvida sobre como pontuar, ou quando, na leitura, às vezes sentimos que teríamos pontuado diferente.

Fica, assim, registrado que nem sempre a prosódia da fala ou a voz interior que guia o redator coincidem com as prescrições gramaticais, caso em que até mesmo redatores proficientes tropeçam na pontuação.

 

5.  Pontuação pelo gênero do texto

Outro aspecto a se observar é que a pontuação contemporânea requer versatilidade do escritor. Um mesmo redator precisa ter habilidade para pontuar diferentemente conforme o gênero do texto. Assim, diz Chafe, um publicitário que pontuasse como um professor, em breve perderia o emprego e um professor que o fizesse como um novelista do século XIX, poderia ter seu texto corrigido, dele eliminando-se vírgulas a torto e a direito. (1985: 5).

Ainda sobre a flexibilidade da pontuação em relação ao gênero, Halliday (1989:37-38) explica que há registros em que a pontuação é reduzida ao mínimo, como na linguagem legal. Neste caso, as marcas de pontuação, segundo ele, seriam instáveis demais para que se ficasse na sua dependência. Além disso, seria possível fraudar o documento, inserindo, alterando ou eliminando a pontuação. Por esta razão, adotou-se como norma que o texto legal ideal restringiria ao máximo a pontuação. Na verdade, este tipo de texto não é para ser lido oralmente, dispensando as pausas para respirar. E para o propósito de documentar evidências em possíveis casos de dúvidas, bastaria a simples leitura silenciosa.

Finalmente, há que se apontar ainda a forte influência que exercem atualmente a pontuação publicitária, a jornalística e a dos quadrinhos, chegando a subverter os usos clássicos. A grande variedade de impressos produzidos hoje em dia (jornais, revistas, folhetos, catálogos, prospectos, afixos, panfletos etc.) vai alterando as referências existentes e criando novos estilos de pontuar.

Ilustrativo dessa tendência é o emprego da vírgula violando a norma gramatical no anúncio publicitário seguinte:

Fast Print
Impressão Rápida
Onde a pressa,
é amiga da perfeição.

Um outro exemplo, agora no texto jornalístico é, por exemplo, o emprego novo que Gilberto Dimenstein faz dos dois-pontos. Em matéria de A Folha de São Paulo, datada de 22/08/93, podemos verificar como o articulista poupa as conjunções integrantes e deixa falar os títulos pela simples aposição de dois-pontos (ver passagens em itálico):

Como você reagiria?

Já tinha concluído ontem minha coluna mostrando como o massacre dos Ianomamis simbolizava a vulgarização da violência. Mas mudei de idéia depois de ler o artigo, também sobre violência, publicado ontem, escrito por uma das personalidades mais respeitadas (justamente, diga-se) do país: Dom Eugênio de Araújo Sales, cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro. Confesso: senti medo. Não por mim, mas pelos outros.

Ele classifica o aborto como assassinato. Informa que nenhum defensor do aborto pode ostentar o título de católico. A pena: excomunhão automática. O problema é particularmente grave por dois fatores: 1) o Brasil é um país católico; 2) calcula-se que, por ano, ocorram no mínimo dois milhões de abortos.

Essa pregação estimula, portanto, uma imensa crise de consciência. Todos concordam que o aborto deve ser evitado. Mas qual é a solução? E aqui vem a questão: a Igreja Católica não oferece alternativa viável. As pessoas sabem, muitas por dolorosa experiência própria, que os métodos naturais são extremamente falhos, gerando o que se chama de os "filhos da tabela".

Os políticos brasileiros tremem diante da pressão da Igreja, impedindo um plano massivo de planejamento familiar. E, aí os milhões de abortos, resultando em 40 mil internações por ano. Vejam só esse dado divulgado pelo Unicef: a principal causa de morte entre adolescentes (repito, principal) é o aborto.

Mais: milhões de mulheres têm cinco, seis, sete filhos, quando desejariam ter apenas um ou dois. Insisto: a ausência de planejamento familiar é desumana, resultando de irresponsabilidade de nossos homens públicos, apesar de ser o único investimento social de retorno de curtíssimo prazo. Alguém se lembra de um único Presidente da República falar do assunto?

Compreensível: primeiro não se quer arrumar uma briga política com uma instituição tão poderosa como a Igreja. Depois, quem sofre mesmo são os pobres, gente sem voz, incapazes de comprar pílulas ou camisinhas. Já está mais do que na hora de colocar luzes nessa discussão, mesmo que implique desgaste.

P.S. Pergunta: como reagiriam os leitores desta coluna se fossem impedidos de usar métodos anticoncepcionais como a pílula?

Neste artigo chama a atenção não apenas a freqüência no emprego do dois-pontos, mas um uso alternativo deste signo (além de citar), de forte motivação sintática e semântica, tornando o texto sintético e amarrado. Talvez aqui o articulista Gilberto Dimenstein resgate um antigo uso do dois-pontos (século XVI): separar com um poder intermediário entre o ponto-e-vírgula e o ponto1. E não é de estranhar que este estilo econômico venha a se impor em breve pela força da mídia... (Vejam a influência em nosso próprio texto no trecho anterior...)

Fechamos essa reflexão, reportando-nos a Catach (1980:2), que destaca a influência da publicidade no uso das maiúsculas, sugerindo um estudo sociolingüístico sobre o assunto. A autora questiona o impacto do uso de tantos novos caracteres, além da grande massa de brancos, sobre os rumos da pontuação.

A verdade é que não podemos fugir ao fato de já estarmos vivendo sob o domínio de linguagens não-verbais. Neste sentido, à medida que vão se alargando as fronteiras de comunicação entre as sociedades, a semasiografia vai gradativamente se generalizando como uma linguagem visual que fala por si e que aparece cada vez mais em instruções de uso de aparelhos, carros etc (Sampson,1996:30). Algo similar acontece nos textos mais densos como dicionários, obras técnicas e científicas, em que são muito freqüentes signos cabalísticos (quadrados, flechas, pontes, chaves), traços e pontos para orientar o leitor ou para remeter diretamente a conceitos específicos. Resta saber se poderemos nos comunicar de forma tão esquemática e o que isso representará para o destino da pontuação e da escrita. Talvez a linguagem do amanhã o diga.

 

(Recebido em 24/09/96. Entregue reformulado em 22/07/97)

 

 

Referências Bibliográficas

CASTRO, I. (1990) Enquanto os escritores escreverem... In: IX Congresso Internacional da Associação de Lingüística e Filologia da América Latina, Campinas: UNICAMP, 6 a 10 de agosto de 1990, 64 p.

CATACH, N. (1980) La Ponctuation. In: Langue Française 45: 16-27. Paris: Larousse.

CHAFE, W.  ( 1987a) Punctuation and the Prosody of Written Language. In: Technical Report 11, Berkeley: University of California and Pittsburgh: Carnegie Mellon University, Center for the Study of Writing, 

___________ (1987b)  What good is punctuation? In: Occasional Paper 2 (To appear in the National Writing Project Center for the Study of Writing Quarterly (in press),  Berkeley:  University of California and Pittsburgh: Carnegie Mellon University.

DANIELEWICZ,  J. and W. CHAFE (1985) How 'normal' speaking leads to 'erroneous' punctuating. In:  Freedman,  Sarah Warshauer (ed.) The Acquisition of Writen Language: Response and Revision.  Berkeley: University of  California,  Norwood /New Jersey:  Ablex Publishing Corporation :213-26 

HALLIDAY, M. A. K. (1989) Spoken and Written Language. England: Oxford University Press.         [ Links ]

KOCH, I. G. V. (1987) Dificuldades na leitura/produção de textos: os conectores interfrásticos. In: Clemente, Elvo (org.). Lingüística Aplicada ao Ensino de Português. Porto Alegre: Mercado Aberto : 83-98         [ Links ] 

MATTOS E SILVA, R. V. (1992) O que nos diz sobre a sintaxe a pontuação de manuscritos medievais portugueses. In: Reunião Anual da ABRALIN - Mesa Redonda Sintaxe e Pontuação (mimeo)

SAMPSON, G. (1996) Sistemas de Escrita - Tipologia, História e Psicologia. São Paulo: Artes Médicas.         [ Links ]

SMITH, F. (1982) Writing and the Writer. New York: Holt Rinehart and Winston.

 

1 A propósito, Koch (1987:95) considera que as pausas marcadas por dois pontos (vírgula ou ponto final) são conectores interfrásticos, assinalando tipos de relações diferentes.