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DELTA: Documentação de Estudos em Lingüística Teórica e Aplicada

Print version ISSN 0102-4450On-line version ISSN 1678-460X

DELTA vol.14 n.2 São Paulo  1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-44501998000200004 

Comparação de aspectos da gramática em línguas indígenas brasileiras*

(Comparative aspects of grammar in Brazilian indigenous languages)

 

Marcus MAIA, Bruna FRANCHETTO, Yonne de Freitas LEITE,
Marília Facó SOARES & Marcia Damaso VIEIRA

(MN-Universidade Federal do Rio de Janeiro/CNPq)

 

 

ABSTRACT: This paper compares a set of interrelated phenomena concerning the syntax/morphology interface in four brazilian indigenous languages: Kuikúro, Guarani, Karajá and Tikuna. The linearization of the SOV word order is discussed following Chomsky (1993) and Kayne (1993). Clitics, auxiliaries and functional categories are also examined, allowing a preliminary comparative overview on the structure of the clause in the languages.

RESUMO: Este artigo compara um conjunto de fenômenos interrelacionados cencernentes à interface sintexe/morfologia em quatro línguas indígenas brasileiras: Kuikúro (família Karib). Mbyá Guarani (família Tupi-guarani), Karajá (tronco Macro-Jê) e Tikuna (isolada). Discute-se, inicialmente a linearização da ordem SOV, predominante nessas línguas, com base em Chomsky (1993) e Kayne (1993). Examinam-se, em seguida, construções com clíticos e auxiliares e discute-se o conjunto de categorias funcionais componentes da estrutura frasal, a fim de fornecer um quadro comparativo da estrutura da oração nas quatro língüas.

KEY WORDS: Minimalism; Word Order; Functional Categories; Concordance; Subject; Indigenous Languages.

PALAVRAS-CHAVE: Minimalismo; Ordem de Constituintes; Categorias Funcionais; Concordância; Sujeito; Línguas Indígenas.

 

 

0. Introdução

Este trabalho trata da organização das categorias funcionais e de sua interação com diferentes fenômenos relacionados à interface sintaxe/morfologia nas línguas indígenas brasileiras Karajá, do tronco Macro-Jê, Mbyá Guarani, da família Tupi-Guarani, Kuikúro, da família Karib, e Tikuna, isolada.

Procurou-se, particularmente, explorar o modelo proposto em Chomsky (1993) em que se estabelece a existência, na Gramática Universal, de dois sintagmas de concordância, um para a checagem de traços relacionados ao sujeito (AgrsP)1 e outro para a checagem de traços relacionados ao objeto (AgroP). Um dos objetivos centrais deste artigo é, então, o de testar a adequação deste modelo face aos dados das línguas indígenas examinadas.

Chomsky (1993) propõe a redução dos níveis de representação gramatical a um nível de representação abstrata dos sons, a Forma Fonética (FF) e a um nível abstrato de representação dos significados, a Forma Lógica (FL), eliminando os níveis de representação interna do modelo de Regência e Vinculação (Chomsky, 1981), a saber, os níveis conhecidos como Estrutura Profunda (EP) e Estrutura Superficial (ES). A derivação das frases é concebida no sistema de Chomsky (1993) como resultado da aplicação sobre um Léxico de duas operações binárias simples: concatenação e movimento. Estas duas operações do sistema computacional constróem estrutura, formando pares de representação constituídos por objetos de FF e FL. Em qualquer ponto da computação, uma operação conhecida como Spell-Out pode ser aplicada, eliminando da estrutura FF/FL até aqui derivada os traços apenas relevantes para FF. Após esta divisão, a derivação continua na chamada sintaxe invisível até FL. A computação anterior ao ponto de Spell-Out é também conhecida como sintaxe visível e as operações que têm lugar entre Spell-Out e FF fazem parte do componente fonológico. Após Spell-Out, a derivação é avaliada por um princípio da Gramática Universal, o princípio da Interpretação Plena que determina a convergência ou não da derivação. Chomsky propõe também que os traços constituintes de um item lexical possam ser fortes ou fracos. Assim, por exemplo, os traços morfológicos fortes associados com as categorias lexicais são potencialmente visíveis nas interfaces e devem ser checados antes de Spell-Out, pois não desempenham qualquer função nem em FF e nem em FL e provocarão a não convergência (crash) da derivação. Já os traços ditos fracos não são visíveis nas interfaces, podendo procrastinar a sua checagem para operações posteriores ao ponto de Spell-Out.

No que se refere à linearização da cadeia de constituintes frasais, Chomsky (1993) adota proposta de Kayne (1993) de que os Princípios da Gramática Universal apenas determinam o ordenamento Sujeito Verbo Objeto (SVO), sendo as demais ordens atestadas nas línguas derivadas por movimento a partir desta ordem. De acordo com o quadro teórico proposto em Chomsky (1993), em todas as línguas haveria operações de movimento dos argumentos verbais com a finalidade de checar caso estrutural no âmbito das categorias funcionais de concordância. Assume-se, portanto, que tanto o SN sujeito quanto o SN objeto são gerados internamente ao SV, devendo ser alçados quer antes, quer depois do ponto de Spell-Out, a fim de ter Caso e concordância checados na relação especificador/núcleo com o núcleo do sintagma de concordância (AgrP) apropriado. O Caso nominativo, que é função do caráter finito do predicado, é checado na categoria funcional de concordância de sujeito (AgrsP), que domina a categoria funcional de Tempo (TP) para onde o sujeito deve elevar-se em algum ponto da derivação. O Caso acusativo é checado via sintagma de concordância de objeto (AgroP), para cuja posição de especificador o SN objeto deve alçar-se a fim de checar seu Caso com o núcleo de AgroP, ao qual o verbo estaria adjungido. Chomsky incorpora idéias de Holmberg (1986) que, analisando línguas escandinavas, condiciona o movimento dos SNs em posição de objeto para o especificador de AgroP ao prévio alçamento do verbo para o núcleo de AgroP. A partir desta generalização, Chomsky introduz a noção de eqüidistância, argumentando que a subida do verbo forma uma cadeia que tem a cabeça no núcleo de Agro e o pé no núcleo de SV. A existência de tal cadeia tornaria viável que os especificadores de Agro e de SV permaneçam no domínio mínimo da cadeia, ficando eqüidistantes da posição do complemento verbal. É por essa razão que, no sistema de Chomsky (1993), o SN objeto pode saltar sobre a posição de especificador de SV sem violar a Condição do Movimento Mais Curto, que especifica que o alvo do movimento não pode estar além do primeiro sítio de pouso apropriado que, no caso, seria o especificador de SV. Seguindo o princípio da ciclicidade estrita, agora derivado de necessidade conceptual virtual, o próximo passo na derivação é o alçamento do sujeito interno ao SV, presumivelmente, para a posição de especificador do Sintagma de Tempo (TP) ou para a posição de especificador de AgrsP, saltando sobre aquele que seria o primeiro sítio de pouso apropriado, a posição de especificador de AgroP. Tal procedimento, que constituiria uma violação à Condição do Movimento Mais Curto, só poderia ser licenciado pela subida visível do complexo [Agro verbo+ Agro] para o núcleo de TP. Esta operação, no entanto, seria problemática para as línguas SOV, pois a subida do verbo, na sintaxe visível, para o núcleo de TP, passando por cima do SN objeto no especificador de AgroP, impediria a linearização da ordem OV. Neste trabalho, estas hipóteses fornecem o quadro teórico em que são abordadas exploratoriamente áreas da gramática das línguas indígenas em foco, nas quais predomina a ordem vocabular SOV. Iniciamos a discussão analisando a derivação da ordem vocabular e sua interação com sistemas de concordância de sujeito e de objeto.

 

1. A Derivação da Ordem SOV em Karajá

1.1. Advérbio

Nesta seção, discutem-se fatos relacionados à ordem vocabular na língua Karajá2 dentro do quadro do programa minimalista, seguindo o sistema de Chomsky (93), que desenvolve propostas de Pollock (89) de que advérbios adjungidos ao SV possam fornecer um teste para se determinar a ocorrência ou não nas línguas de alçamento do verbo antes do ponto de Spell-Out. Inicialmente, vamos discutir a linearização da ordem SOV, que é dominante em Karajá, em orações em que o verbo lexical é integralmente flexionado. Depois, vamos considerar também orações em que o verbo lexical é um infinitivo não flexionado seguido por um auxiliar flexionado. Finalmente, discutimos a parametrização entre os sistemas de marcação de sujeito e de objeto no verbo Karajá, analisando dados que sugerem que, enquanto o sistema de concordância de objeto é checado na sintaxe visível, a checagem do sistema de concordância de sujeito pode ser procrastinada para a sintaxe invisível. O paradigma apresentado em (1), parece indicar que os verbos lexicais e os objetos em Karajá são alçados acima do advérbio adjungido ao SV. No sistema de Chomsky (1993), pode-se capturar este comportamento através da categoria funcional AgroP, como se desenvolverá adiante.

(1)
a. Kua habu hawò r-i-winy-ra ywimy.
aquele homem canoa 3A-tema-fazer-Pass vagarosamente
"Aquele homem fez a canoa vagarosamente"

b.* Kua habu riwinyra ywimy hawò.
aquele homem fez vagarosamente a canoa

c. ?? Kua habu hawò ywimy riwinyra.
aquele homem canoa vagarosamente fez

d. * Hawò riwinyra kua habu ywimy.
canoa fez aquele homem vagarosamente

e. ?? Kua habu riwinyra hawò ywimy.
aquele homem fez canoa vagarosamente

Note-se, em (1), o contraste que se obtém no julgamento de gramaticalidade de uma sentença como (a), por um lado, e (b) e (c), por outro lado. Nos termos do quadro teórico sob consideração aqui (Chomsky (1993)), tais diferenças seriam indicativas de que os traços nominal e verbal de Agro são fortes em Karajá. A agramaticalidade do exemplo (b) é assim analisada como indicativa de que a elevação do verbo na sintaxe visível não é suficiente para garantir a convergência da frase. O SN em posição de objeto também deve elevar-se para a posição de especificador de AgroP a fim de checar caso acusativo na relação especificador/núcleo com o núcleo de AgroP. Da mesma forma, também pode-se tomar a agramaticalidade da frase (c) como evidência de que o SN objeto não pode elevar-se para a posição de especificador de AgroP, acima da posição de especificador de SV, se o verbo não sobe para o núcleo de AgroP ( a fim de estabelecer o domínio de checagem adequado para que o SN objeto esteja equidistante de ambos os especificadores de SV e de AgroP). Já a agramaticalidade da frase (1d) pode ser interpretada como uma indicação de que o SN sujeito deva mover-se de sua posição interna ao SV para checar caso nominativo antes do ponto de Spell-Out. Assim, a elevação do verbo, bem como dos SNs sujeito e objeto na sintaxe visível produzem a linearização da ordem SOV, que é dominante em Karajá.

Note-se, entretanto, que a fim de que a linearização da ordem SOV possa ser mantida, o verbo não deve mover-se do núcleo de AgroP antes de Spell-Out. O fato de que o verbo só pode mover-se de Agro em Forma Lógica indica que, ao contrário dos traços N e V de Agro, que são fortes, e, portanto, devem ser checados na sintaxe visível, os traços de Agrs são fracos em Karajá, permitindo a procrastinação do movimento do verbo para a sintaxe invisível. Elimina-se também a possibilidade de se ter um sistema de afixação incorporativo, em que os afixos seriam anexados via movimento sintático de núcleo. Como o verbo não sobe além de Agro, não seria possível à raiz verbal anexar os afixos de sujeito, tempo e aspecto que, segundo o sistema incorporativista, deveriam ser adquiridos pela raiz verbal não flexionada nas categorias funcionais relevantes. Por fim, note-se a existência de um problema técnico no modelo explorado neste artigo, a saber, o quadro delineado em Chomsky (1993), que assume idéias de Kayne (1993): não se pode invocar a equidistância, ao menos nos termos em que esta é definida neste quadro teórico, para permitir que o sujeito interno ao SV ignore a posição relevante mais próxima - o especificador de AgroP - objetivando o especificador de TP ou de AgrsP. Com relação à primeira questão, isto é, o fato de que os traços de Agrs são fracos em Karajá, permitindo a procrastinação do movimento do verbo para a sintaxe invisível, apresentaremos evidências independentes, considerando o comportamento dos clíticos e dos auxiliares nesta língua. Com relação ao problema de não se poder invocar a eqüidistância para permitir que o sujeito interno ao SV salte sobre o especificador de AgroP, adotamos a reformulação do conceito de eqüidistância proposta por Bobaljik (1994), que será objeto de consideração em maior detalhe em Maia et alii (1998b).

 

1.2.Clíticos

Em Karajá, ao contrário de Tikuna e Kuikúro, em que os clíticos e desinências de objeto internas ao verbo podem coocorrer com os SN‘s complementos, desde que estes não estejam em posição argumental, não constatamos evidências da coocorrência de clíticos ou desinências de objeto com os SN’s complementos. Os clíticos do Karajá, que identificam a primeira, a segunda e a terceira pessoas são marcadas com caso morfológico através do mesmo morfema -my , que marca os SNs objetos de um grupo de verbos em Karajá. As desinências verbais que indicam objeto ocorrem imediatamente à esquerda da raiz verbal e identificam a primeira e a segunda pessoas apenas.

Em alguns verbos Karajá, os clíticos parecem ocorrer em distribuição complementar com os afixos de objeto internos ao verbo, como exemplificado em (2). Em (2a), exemplifica-se uma construção com clítico. Note-se que o clítico de primeira pessoa wa em (2a) recebe a mesma marca -my que o objeto do verbo -ohote- "bater" em (2b). Observe-se em (2c) que a estratégia de marcação de objeto com desinência interna ao verbo não é possível com a mesma raiz verbal que aceita o clítico. O caso inverso é exemplificado em (2d), (2e) e (2f). Em (2d), o SN objeto do verbo -heteny- "agredir" não recebe a marca de caso -my. Em (2e), este mesmo verbo pode ser marcado com a desinência de objeto -wa- ; em (2f), mostra-se que a estratégia com o clítico não está disponível para este verbo.

(2)
a. Kua habu wa-my r-a-ohote-re
aquele homem 1Ob-AC 3A-tema-bater-Pass
" Aquele homem me bateu"

b. Kua habu weryry-my r-a-ohote-re
aquele homem menino-AC 3A-tema-bater-Pass
"Aquele homem bateu no menino"

c.* Kua habu r-a-wa-ohote-re
aquele homem 3A-tema-1Ob-bater-Pass
"Aquele homem me bateu"

d. Kua habu weryry r-i-heteny-re
aquele homem menino 3A-tema-bater-Pass
"Aquele homem bateu no menino"

e. Kua habu r-i-wa-heteny-re
quele homem 3A-tema-1Ob-bater-Pass
"Aquele homem me bateu"

f. * Kua habu wa-my r-i-heteny-re
aquele homem 1Ob-AC 3A-tema-bater-Pass
"Aquele homem me bateu"

 

1.3. Auxiliares

As construções com auxiliares em Karajá podem fornecer suporte adicional para uma análise dos clíticos e das desinências de objeto em Karajá como sendo licenciados na sintaxe visível, em contraste com os prefixos de sujeito cuja checagem pode ser procrastinada para a Forma Lógica. Considere o paradigma em (3):

(3)
(a) Waha benora waximy r-a-re detimy
meu pai tucunaré pescar 3A-tema-Pass rapidamente
"Meu pai foi pescar tucunaré rapidamente"

(b) * Waha benora rare waximy detimy
meu pai tucunaré foi pescar rapidamente

(c) ?? Waha benora waximy detimy rare
meu pai tucunaré pescar rapidamente foi

(d) *Waha waximy rare benora detimy
meu pai pescar foi tucunaré rapidamente

(e) *Waha rare waximy benora detimy
meu pai foi pescar tucunaré rapidamente

(3a) é uma construção em que o verbo lexical é um infinitivo não flexionado. O prefixo subjetivo, bem como o sufixo de tempo são realizados em uma forma verbal auxiliar que deve seguir-se ao verbo lexical, como demonstrado pela agramaticalidade de (3b). (3c) testa a posição relativa do auxiliar e do advérbio adjungido ao SV, sugerindo que a melhor aceitabilidade do auxiliar é acima de SV . (3d) e (3e) indicam que nem o verbo lexical, nem o auxiliar podem alçar-se acima do objeto. Nossa proposta é a de que o auxiliar seja o núcleo de um sintagma Aux que é concatenado a Agro, acima do nó SV, como demonstrado na configuração representada abaixo em (4):

a04f01.gif (2970 bytes)

 

De acordo com esta análise, o auxiliar não teria justificativa morfológica para elevar-se antes de Spell-Out, pois a concordância de sujeito e o tempo são ambos fracos em Karajá. O verbo lexical, contudo, deve elevar-se abertamente, pois Agro tem traço V forte em Karajá. Esta análise é independentemente motivada pela observação de que o morfema objeto, que pode ocorrer prefixado à raiz verbal (5a), não pode ocorrer no verbo auxiliar (5b), mas pode ocorrer como um clítico, fora da raiz verbal (5c).

(5) a. Kua ijorosa r-i-wa-rò-kre.
aquele cachorro 3A-tema-1Ob-morder-Fut.
"Aquele cachorro me morderá"

(b) *Kua ijorosa r-i-rò-my r-a-wa-kre
aquele cachorro 3A-tema-morder-Subord. 3Atema-1Ob-Fut
"Aquele cachorro vai me morder"

(c) Kua ijorosa wa-my r-i-rò-my r-a-kre
aquelecachorro1Ob-Ac3A-tema-morder-Subord 3A-tema-Fut
"Aquele cachorro vai me morder"

O fato de que o morfema de objeto não pode ser afixado ao auxiliar fornece confirmação independente para a análise apresentada acima: o traço de concordância de objeto é forte em Karajá e deve ser checado antes de Spell-Out. Assim, este pode ser realizado no verbo lexical ou como um clítico ao verbo lexical, sendo adequadamente checado na sintaxe visível em ambos os casos, seja via adjunção da raiz verbal ao núcleo de Agro, seja via relação especificador/núcleo. Contudo, os marcadores verbais de objeto não podem ocorrer como afixos do auxiliar, pois estes, conforme nossa análise, permanecem in situ na sintaxe aberta, somente checando seus traços em FL. Os auxiliares em Karajá podem receber o conjunto completo de afixos verbais, exceto os marcadores de objeto. Assim, uma frase como (6a), com um verbo integralmente flexionado, pode opcionalmente ser expressa como em (6b) em que todos os afixos, com exceção do marcador de objeto são realizados no auxiliar. (6c) como (5b) demonstram que o prefixo de objeto não pode ser realizado no auxiliar. Tal fato se torna claro, se adotamos a análise sugerida aqui.

(6)
(a) r-i-wa-heteny-myhy-reny-õ-reri
3A-tema-1Obj-bater-Asp. cont.-Pl-Neg-Pres.
"Eles não estão me batendo continuamente"

(b) r-i-wa-heteny-my r-a-myhy-reny-õ-reri
3A-tema-1Obj-bater-Subord. 3A-tema-Asp.cont.-Pl-Neg-Pres
"Eles não estão me batendo continuamente"

(c) * r-i-heteny-my r-a-wa-myhy-reny-õ-reri
3A-tema-bater-Sub. 3A-tema-1Obj-Asp.-Pl-Neg-Pres
"Eles não estão me batendo continuamente"

 

2. Mbyá-Guarani (família Tupi-Guarani)

No dialeto Mbyá Guarani investigado3, observa-se a ocorrência das ordens SOV e SVO, sendo a primeira o tipo dominante na gramática dos falantes mais velhos. Nesta seção, averigüamos a derivação da ordem SOV em Mbyá Guarani, focalizando as construções que envolvem verbos auxiliares, por serem estes, elementos que permanecem in situ em sintaxe visível e, por isso, podem servir como diagnóstico para a demarcação de fronteira entre o SV e o sistema flexional.

2.1. A demarcação de fronteira de SV

A posição dos advérbios não-sentenciais é geralmente utilizada como teste para a demarcação de fronteira de SV. A partir da posição deste tipo de advérbios, gerados em adjunção ao SV, é possível determinar se a linearização da ordem SOV, por exemplo, é produzida ou não pelo movimento do verbo e de seus argumentos para fora de SV. Em Mbyá Guarani, todavia, os advérbios podem figurar em qualquer posição na sentença, como mostra o exemplo (7). Sendo assim, a posição que eles ocupam na sentença não serve como diagnóstico para a demarcação de fronteira de SV 4 :

(7) (begwe’i) ava-kwe (begwe’i) ajaka (begwe’i) o-japo (begwe’i)
devagar homem-pl. cesta 3-fazer
Os homens fizeram a cesta devagar’

Analisamos, então, as construções com verbos auxiliares como diagnóstico para a linearização da ordem SOV.

 

2.1.1. As construções com verbos auxiliares

Em Mbyá Guarani, existe uma classe restrita de verbos usada para expressar o aspecto progressivo. Entre esses verbos, encontram-se os posicionais ("estar sentado", "estar em pé", etc.), os de movimento e o verbo "estar". As construções em que figuram os auxiliares apresentam as seguintes propriedades:

(i) O verbo lexical é marcado com flexão de concordância de sujeito5, de tempo e de negação, enquanto que o verbo auxiliar só exibe morfologia de concordância de sujeito.

Nessas construções, o sujeito concorda, então, com dois ou mais verbos:

(8) ava-kwe ajaka o-japo-ta o-kwapy
homem-pl. cesta 3-fazer 3-aux.
‘Os homens estarão fazendo cesta ’

(ii) O verbo auxiliar sempre segue o verbo lexical, mas quando o precede, a sentença torna-se agramatical:

(9) a.* ava-kwe o-kwapy o-japo ajaka
homem-plural 3-aux. 3-fazer cesta

b. * ava-kwe o-kwapy ajaka o-japo
homem-pl. 3-aux. cesta 3-fazer

A agramaticalidade das sentenças (9a e b) é o resultado do não-deslocamento do verbo para fora de SV. Propomos que o verbo auxiliar é gerado no núcleo de AuxP que domina imediatamente o SV, onde o verbo e seus argumentos são projetados. Ele não pode ser gerado no interior de SV, uma vez que não faz parte das relações temáticas do predicado. Dessa maneira, sua ocorrência sempre à esquerda do verbo lexical indica que este último se move de sua posição de base em sintaxe visível. A agramaticalidade de (9a-b) resulta, então, do não-deslocamento do verbo para fora de SV e, não da permanência do objeto in situ porque a língua permite a ordem SVO, como em (4).Tal fato mostra também que o movimento do objeto está vinculado ao deslocamento do verbo antes de Spell-Out:

(10) ava-kwe o-japo o-kwapy ajaka
homem -plural 3-fazer 3-aux. cesta
‘Os homens estão fazendo cesta’

 

2.2. O alçamento do verbo e do objeto

Adotando a posição dos auxiliares como indicadora de fronteira de SV e a hipótese de que SVO é a ordem em que o verbo e seus argumentos são gerados em SV, assumimos que a ordem SOVAux é obtida através de movimentos sucessivos do verbo e de seus argumentos para fora de SV. Em Mbyá Guarani, existem evidências de que a ordem SVO parece ser a ordem de base. Trata-se das construções interrogativas descontínuas, envolvendo o sintagma "qual SN". Observe-se que nesse tipo de interrogativas, a palavra qu- aparece em [Spec,CP], à esquerda, enquanto que o restante do sintagma interrogado ocorre após o verbo lexical na ordem VO :

(11) mava’e pa ere-japo ajaka
qual inter. 2sg,-fazer cesta
‘Qual a cesta que você fez?’

Assumindo que movimento envolve cópia e apagamento, podemos sugerir aqui que a posição do objeto descontínuo marca a posição do pé da cadeia de onde o sintagma -qu foi deslocado. Assim, tais estruturas mostram ser VO a ordem de base6. Em Mbyá Guarani, tanto o verbo lexical quanto o objeto são deslocados de suas posições de base em SV para uma categoria funcional situada logo acima de SV (ou de AuxP). Denominamos essa categoria de AgroP. Observe-se que o fato de o verbo poder mover-se sobre o núcleo de Aux em estruturas SOVAux mostra que o Mbyá Guarani permite, assim como o Karajá, movimento longo de verbo.

A fim de justificar a ordem OV , sugerimos que em Mbyá Guarani, o núcleo de AgroP - Agro- possui traços N(ominais) e V(erbais) fortes que engatilham , antes de Spell-Out, o movimento do verbo e do objeto para as suas posições de especificador e de núcleo, respectivamente, onde se dá a checagem de traços de Caso acusativo e de concordância. A ordem OV é ainda observada em construções envolvendo clíticos pronominais. Note-se no exemplo (11) abaixo que o clítico de objeto precede imediatamente o verbo, indicando , assim, que ele é também licenciado em AgroP:

(11) a’i xe nupã o-ikovy
mãe me bater 3-aux.
‘Minha mãe está me batendo’

Existem outras evidências que justificam a postulação de Agro com traços N e V fortes em Mbyá Guarani. Trata-se das estruturas de Regência Excepcional para Caso. Como em Mbyá Guarani, o objeto é alçado para [Spec,AgroP] em sintaxe visível, a fim de checar os traços de Caso e de concordância, é de se esperar que os sujeitos de construções de Regência Excepcional para Caso também sejam deslocados para [Spec, AgroP] da oração matriz antes de Spell-Out.Os exemplos abaixo mostram ser este o procedimento encontrado em Mbyá Guarani.

(12) xee Arai a-exa [ ti g-uu o-inupã-ramo]
eu Ara 1sg.-ver 3 refl.-pai 3-bater-ramo
‘Eu vi a Ara bater no seu pai’

(13) Ara xei rexa [ ti g-uu a-inupã -agwã]
Ara me ver 3-pai 1sg.-bater-dep.
‘A Ara me viu bater no pai dela’

Note-se que nessas estruturas7, o sujeito da oração encaixada ocorre na posição estrutural de objeto da oração matriz, o que sugere que ele foi alçado da posição de base de sujeito para a posição derivada de objeto.

 

2.3 O alçamento do sujeito e a violação da Condição de Movimento mais Curto

O alçamento do objeto para [Spec,AgroP] em Mbyá Guarani parece estar condicionado ao movimento do verbo para o núcleo Agro. Se o verbo permanece após o auxiliar, é sinal de que está in situ ,o que torna a sentença agramatical, como vimos nos exemplos(9a e b). O deslocamento do verbo para Agro parece, então, necessário para tornar as posições [Spec, SV] e [Spec, AgroP ] eqüidistantes para o movimento do objeto.

Na ordem SOV, como o sujeito precede o objeto e o verbo, ele também tem de ser deslocado de sua posição de base em [Spec, SV]. No entanto, esse movimento deveria ser impedido porque, como o verbo lexical permanece em Agro e o auxiliar, in situ, as posições [Spec,AgroP], preenchida pelo objeto, e [Spec,TP] não se tornam eqüidistantes do sujeito. De acordo com o quadro teórico aqui adotado, se o sujeito se mover em tal configuração, haverá violação da Condição de Movimento mais Curto. Tal fato sugere, então, que, o movimento do sujeito em Mbyá Guarani não é licenciado pelo mecanismo que vincula movimento de sintagmas nominais ao movimento do verbo.

 

3. Tikuna

3.1. Ordem vocabular

O Tikuna8 exibe flexibilidade com relação à ordem de palavras. Nessa língua, há fundamentalmente dois modos pelos quais se chega a uma variação de posicionamento entre os constituintes maiores de uma sentença.

O primeiro modo prevê a superficialização de sentenças com núcleo final, em que o objeto antecede o verbo e o sujeito pode ser visto como o tópico natural da sentença. Trata-se, nesse primeiro modo, da obtenção da ordem SOV. Verificada nos exemplos mais abaixo, essa ordem apresenta as seguintes características: i) o verbo só exibe concordância com o primeiro sintagma nominal (cf. exemplos (14a,b,c))9; (ii) a ordem, sozinha, é suficiente para a explicitação das funções sintáticas em jogo (ver (14c)); (iii) a possibilidade de marcação de caso no objeto aparece a partir do momento em que esse veicula um argumento [+ animado] (cf. (15a,b,c,d,). A essas características soma-se mais uma: o primeiro sintagma nominal pode receber uma marca morfológica de tópico, que, vista no exemplo (16), será retomada mais adiante em seção específica sobre o sujeito.

(14)
a. Maria pacara i-ü  ga ine
cesto 3p.fem.-fazer       x      ontem
‘Maria fez cesto ontem’

b. Gracila airu i-yau
cachorro 3p.fem.-pegar
"Gracila pegou o cachorro"

c. Reinaldo airu  ni-ma’
cachorro 3p-matar
‘Reinaldo matou o cachorro’

(15)a. Gracila na-tchiru i-yau
3p-roupa 3p.fem-pegar
‘Gracila pegou a roupa’

b. *Gracila na-tchiru-ü i-yau
3p-roupa- "dativo"10    3p.fem-pegar
‘Gracila pegou a roupa’

c. Gracila airu i-yau
cachorro 3p.fem.-pegar
‘Gracila pegou o cachorro’

d. Gracila airu-ü i-yau
cachorro-dativo 3p.fem.-pegar
"Gracila pegou o cachorro’

(16) Maria rü Elisa-si i-dau
tópico Elisa-piolho 3p.fem.-procurar,catar
‘Maria cata piolho da Elisa’

Nesse primeiro modo, que prevê a superficialização da ordem SOV, é possível seguir Kayne (1993) e atribuir a existência dessa mesma ordem ao movimento, na sintaxe visível, do objeto para o especificador de Agro, com o fim de checar Caso, e do verbo para Agro.

O outro modo básico de ordenar constituintes em uma sentença prevê o aparecimento de clíticos ou a presença de marcas de objeto direto internas ao verbo, ambos focalizados a seguir.

 

3.2. Clíticos

Em (17a) e (17b), além do clítico e da marca de objeto interno, vê-se - à direita do verbo - um sintagma nominal que seria o complemento. Introduzido por partículas traduzidas por ‘x’ e identificadoras de construções em adjunção11 e, ainda, sempre acompanhado do clítico ou da marca de objeto interno, o sintagma nominal complemento pode aparecer à esquerda do verbo - o que tem lugar em uma situação específica da qual falaremos mais tarde.

(17)a. Yatü nü-ü ni-u i ore-gü
homem 3p-"dativo" 3p-contar x história-plural
(O homem a[s] conta, histórias)
‘O homem conta história’

b. Reinaldo na-ya-ma ga airu
Reinaldo 3p-OI -matar x cachorro
(OI= objeto interno)
(Reinaldo o matou, o cachorro)
‘Reinaldo matou o cachorro’

No que diz respeito aos clíticos, esses se apresentam imediatamente à esquerda do verbo, possuem uma marca de caso e são co-referentes ao que seria o sintagma nominal complemento (exemplo (17a). Além disso, há indicações de que o clítico não ocupa uma posição argumental. As indicações residem no fato de que, em Tikuna (uma língua que admite a ordem OVS), uma sentença que apresente sintagma nominal duplicando o clítico não será, de acordo com nossos dados, ambígua. Nessa situação está (17c), que é necessariamente interpretada como ‘X viu elei o homemi’, já que há uma co-referência indispensável entre clítico e sintagma nominal complemento. Se o clítico em Tikuna ocupasse uma posição argumental, a referência poderia ser disjunta e, para o exemplo em questão, seria possível a interpretação ‘O homem viu ele’- interpretação devidamente excluída conforme mostra (17c).

(17) c. Nü-ü na-dau ya yatü
3p-"dativo" 3p-ver x homem
" X viu ele i o homem i
* O homem viu ele

No que se refere às marcas de objeto interno, essas são manifestadas pelos morfemas na- e ya-, cujo aparecimento está na dependência, antes de tudo, da forma verbal a que se ligam; isto é, seu aparecimento é previsto no léxico.

Clíticos e marcas de objeto interno podem ser considerados como estando estreitamente ligados. A esse respeito, pode-se ver o que se passa em (18)12 (OI= objeto interno):

(18)
a. nü-ü ni-‘u ‘  ele o disse’
3p-"dat" 3p-dizer,contar

*ni-na-‘u  ‘ele o disse’
3p-OI-dizer,contar

b.nü-ü pi-’a ‘vocês o deram’
3p-"dat" 2p.pl.-dar

na-na-’a ‘ele o deu’
3p-OI-dar

c. na-na-ngo’ ya ma’ e
3p- OI-comer x capim ‘ele o come, o capim’

na-ya-yau i tchoni ‘ele o pega, o peixe’
3p-OI-pegar x peixe

na-ya-ma’ ga airu ‘ele o matou, o cachorro’
3p-OI-matar x cachorro

Em (18a), tem-se complementaridade entre elemento pronominal (clítico) e morfema objeto interno - um indicativo de que alguns verbos estão subcategorizados para o clítico e outros verbos para o morfema objeto interno. Em (18b), há alternância entre elemento pronominal (clítico) e morfema objeto interno - o que indica que determinados verbos admitem ambos. Em (18c), constata-se o aparecimento de um clítico ou de um morfema objeto interno, quando o que seria o argumento interno do verbo é situado à direita desse último.

Além desses pontos de contato entre o elemento pronominal (clítico) e o morfema objeto interno, é possível estabelecer mais uma outra aproximação entre ambos. Tanto um quanto outro estão relacionados a uma liberdade na busca de um antecedente. Vejam-se, a propósito, os dados em (19) (OI= objeto interno):

(19) a.Üpa rü Reinaldo ãtape nü-ü
tempo passado tópico cobra 3p-"dat"
ni-ma’
3p-matar
(Algum tempo atrás, Reinaldo, a cobra o matou)
‘Algum tempo atrás, a cobra matou Reinaldo’

 

b.Üpa rü ãtape Reinaldo nü-ü ni-ma’
tóp.cobra 3p-"dat" 3p-matar
(Algum tempo atrás, a cobra, Reinaldo a matou)
‘Algum tempo atrás, Reinaldo matou a cobra’

c.Mo’ü rü ya Abel i wairatchi’ü
amanhã tópico x x vinho de açaí
ta na-ya-a’e
não-agora 3p-OI-beber
(Amanhã, Abel, vinho de açaí, ele o vai beber)
‘Amanhã Abel vai beber vinho de açaí’

d. Abel rü wairatchi’ü ni-a’ü
tópico vinho de açaí 3p-beber
(Abel, vinho de açaí bebeu)
‘Abel bebeu vinho de açaí’

e.? Abel rü wairatchi’ü ni-ya-a’ü
tópico vinho de açaí 3p-OI-beber
(Abel, vinho de açaí, ele o bebeu)
‘Abel bebeu vinho de açaí’

Se o que estamos considerando como clítico é imediatamente precedido de um sintagma nominal desprovido de marca morfológica, não será esse último que será interpretado como antecedente do clítico; os dados mostram que o antecedente será buscado fora da sentença ou do predicado: em (19a) e (19b), o clítico "salta" o sintagma nominal que o precede para encontrar o antecedente. Vale registrar que o argumento retomado à esquerda pelo clítico não vem acompanhado da marca morfológica de tópico13. No caso das formas verbais que contêm a marca de objeto interno, o antecedente dessa marca deve estar, de acordo com outros dados em (19), fora do predicado. Em (19c), a partícula temporal ta fecha o predicado e, por essa razão, wairatchi’ü ‘vinho de açaí’ pode ser retomado como o antecedente da marca de objeto interno. Em (19e), a ausência da partícula temporal ta não permite que a marca de objeto interno possa retomar wairatchi’ü ‘vinho de açaí’ como seu antecedente; aparentemente, esse último está em posição argumental, o que não é permitido quando o verbo exibe marca de objeto interno; em razão disso, (19e) se torna - para um falante nativo - estranha. Em compensação, (19d) é perfeitamente gramatical; porque o verbo não exibe marca de objeto interno, wairatchi’ü pode estar no interior do predicado, em posição argumental. As generalizações descritivas mostram que há uma relação entre o clítico e a marca de objeto interna ao verbo. Podemos tentar compreender essa relação a partir de uma análise formal14.

Se clíticos em Tikuna são parte de uma cabeça sintática - no caso, V_ - é possível levantar a hipótese de que clíticos e marcas de objeto interno sejam colocados em relação a partir de um processo de incorporação15. Nesse processo, teríamos um núcleo (V¤) realizado em dois segmentos (V¤ e o clítico), sendo que seria o primeiro desses dois segmentos aquele a dominar V-1, núcleo desencadeador do processo de incorporação. Além disso, o hospedeiro estaria subcategorizado morfologicamente para o incorporado no caso de o resultado da incorporação ser um amálgama dos dois segmentos nucleares. Nos termos de Roberts (1991:213), o núcleo que desencadeia a incorporação é X-1 e o amálgama - que deve ser de dois núcleos - é vinculado à suposição de que uma posição estrutural é criada para o incorporado como uma função das propriedades lexicais do hospedeiro. No caso Tikuna, o clítico genuinamente incorporado seria aquele não marcado para caso, já que para ele o hospedeiro previria uma posição estrutural através de subcategorização morfológica. Assim:

a04f02.gif (932 bytes)

Quanto ao clítico marcado para caso, ele não seria incorporado em V-11, tendo em vista que, para ele, não haveria posição prevista pelo hospedeiro. Sem posição prevista em V-1, o clítico marcado para caso seria levado para fora da palavra verbo. Uma vez fora dessa última, o movimento do clítico para cima seria justificado por uma propriedade morfológica do próprio clítico; em função dela, o clítico seria movido para junto de uma categoria acima de V’ marcada com o traço forte [+N], podendo, então, ter o seu caso checado. Veja-se (20b):

a04f03.gif (888 bytes)

A propósito da posição final dos clíticos, é necessário dizer que, se movimentados sozinhos mais para cima, com o fim de checar um traço nominal forte, como em (20b), a expectativa é de que os clíticos possam ser separados do verbo muito mais do que o faz o objeto nominal. Por outro lado, se os clíticos se movimentam como uma parte de V’, a expectativa é de vê-los sempre adjacentes ao verbo. A maioria de nossos dados se conforma à última possibilidade. Mas, de fato, ainda não exploramos plenamente essas duas possibilidades em nosso trabalho.

Essa análise pressupõe uma simetria entre morfologia e sintaxe, isto é, clíticos e marcas de objeto interno estariam relacionados a partir de uma subcategorização morfológica, refletindo-se esse relacionamento na sintaxe, que exibiria aparentes sintagmas nominais complemento - os quais, por sua vez, acompanhando as construções com clíticos/ objeto interno, poderiam ser gerados diretamente em adjunção.16

Caso não se queira assumir esse pressuposto, um outro caminho analítico possível seria abrir mão das generalizações descritivas que, apoiadas em dados como (18a) e (18b), ligam-se à subcategorização morfológica. Assim fazendo, o relacionamento entre clíticos e marcas de objeto interno situar-se-ia apenas no âmbito da sintaxe - através dos aparentes sintagmas nominais complemento passíveis de serem gerados em adjunção. Nesse outro caminho, poder-se-ia dizer que as marcas de objeto interno - à semelhança do que pode ser proposto para o morfema que, no interior do verbo, indica o agente em Tikuna (ver 2.1.1) - absorvem as propriedades de Caso do núcleo e licenciam um pronome nulo em posição argumental (o que fornece motivação para que o sintagma nominal aberto interpretado como objeto esteja em posição não-argumental). Quanto aos clíticos, esses seriam gerados em posição diferente daquela que abriga os morfemas de objeto interno, movimentando-se conforme as suas próprias necessidades. Em comum com as marcas de objeto interno, manteriam apenas a absorção das propriedades de Caso do núcleo – o que motivaria igualmente a presença de um pronome nulo em posição argumental e a de um sintagma nominal aberto interpretado como objeto em posição não argumental.

 

4. Kuikúro

4.1. Linearização de SV e OV

O Kuikúro é uma língua ergativa do ponto de vista da classificação tipológica. A ordem linear dos constituintes é bastante rígida. Tanto o argumento único (S) de um verbo intransitivo, como o objeto/paciente (O) de um verbo transitivo ocorrem obrigatoriamente em posição imediatamente pré-verbal, formando com o verbo uma unidade fonológica, e não exibem nenhuma marca morfológica. Por outro lado, o agente-causa (A) de verbo transitivo é morfologicamente marcado pela posposição heke e ocorre canonicamente após a unidade OV. A literatura tipológica tem chamado o caso não marcado de O e S de absolutivo e o caso marcado de A de ergativo. Em Kuikúro, partículas, dêiticos e certos advérbios podem ocorrer entre o complexo Objeto/V e o agente/causa. Os dados oferecem evidências para a postulação das ordens OV e SV como derivadas por movimento dos SNs e de V para fora de SV e para posições de Especificador e Núcleo, respectivamente, de categoria funcional imediatamente acima de SV, onde se dá a checagem dos traços de Caso. Processos fonológicos pós-lexicais expressam essa relação Especificador, Núcleo. Disso decorre o paralelismo estrutural dos argumentos O e S, característico, aliás, das línguas ergativas. As evidências são ilustradas nas frases em (21), onde advérbios de maneira e quantificadores com escopo sobre S e O permanecem dentro de SV, linearmente após o verbo:

(21)
(advérbios)
ngüne ha-tagü kuge heke tüheinhi
casa fazer-T/A pessoal A de pressa
"O pessoal está construindo a casa de pressa"
ngüne há-tagü i-heke-ni tüheinhi
casa fazer-T/A 3-A-PL de pressa
"Eles estão construindo a casa de pressa"

* ihekeni ngüne hatagü tüheinhi
* kuge heke hatagü ngüne tüheinhi
* tüheinhi ngüne hatagü kuge heke
* tüheinhi kuge heke ngüne hatagü
* ngüne hatagü tüheinhi kuge heke
* ngüne tüheinhi kuge heke hatagü
* kuge heke tüheinhi ngüne hatagü

kügamuke etimpe-tagü tüheinhi
crianças chegar-T/A de pressa
"As crianças estão chegando de pressa"

* etimpetagü kügamuke tüheinhi
? tüheinhi kügamuke etimpetagü
* kügamuke tüheinhi etimpetagü

(quantificadores)
impe ingi-nügü i-heke kaküngi ekugu u-inha
pequi trazer-T/A 3-A muito mesmo 1-para
"Ele trouxe muitos pequis para mim"

toto te-lü kanga-ki takeko
homem ir-T/A peixe-INST dois
"Dois homens foram pescar"

 

4.2. A categoria funcional acima de SV

Um problema que deve ser colocado neste ponto diz respeito à natureza da categoria funcional acima de SV. É uma categoria com traços nominais e verbais fortes, o que impulsiona o movimento sintático visível, antes de Spell-Out, do verbo e dos SNs para checagem de Caso. Trata-se de uma categoria relacional mais geral na língua, já que a postulamos também para construções genitivas e posposicionais, em claro paralelismo estrutural (e morfológico no caso das genitivas) com as relações S/O-V, como mostram os exemplos em (22):

(22)
a. itao geponga
mulher perto
"perto da mulher"

b. itao muku-gu
mulher filho-POS
"o filho da mulher"

c. itao tehesuN-tagü
mulher andar-T/A
"a mulher está passeando"

d. itao impi-lü ngikogo heke
mulher roubar-T/A índio A
"os índios roubaram a mulher"

Acrescentamos a isso que em Kuikúro não encontramos qualquer manifestação morfológica de concordância. Há uma série única de pronominais como prefixos de verbos, nomes e posposições, argumentos em distribuição complementar com os SNs plenos. Os mesmos sufixos de plural e futuro ocorrem com verbos e nomes. Os sufixos verbais têm valor de informações aspectuais e epistêmicas, apenas residualmente temporais, com uma oposição fundamental entre, de um lado, formas de tipo nominal, com significado de evento pontual atemporal, homomorfas aos sufixos que indicam a relação de posse, e, do outro lado, um sufixo cujo valor semântico é de processo visto em sua progressão ou continuação no tempo. Consideradas essas características daquilo que poderíamos chamar de flexão verbal, definir a categoria funcional acima de SV de AgrO é uma decisão de escolha de um rótulo que nos serve para homogeneizar o tratamento comparativo no âmbito deste artigo. Diante dos dados Kuikúro, seria talvez mais adequado defini-la como uma categoria aspectual.

 

4.3 As marcas de objeto

Fenômeno semelhante ao que foi observado em Tikuna, dois prefixos verbais em Kuikúro marcam a posição de objeto/paciente quando não ocorre um SN independente na mesma função ou posição. Interessa aqui o comportamento de um desses prefixos, ng-, já que ele se aproxima da marca de objeto interno do Tikuna. O prefixo caracteriza obrigatoriamente as construções clivadas e relativas de objeto, bem como os modos performativos, como o Imperativo, onde a relação se dá entre os participantes da enunciação:

 

(23)
tatohongo ige-i u-ng-ihipüte-pügü
cesto DEIT-COP 1-MO-comprar-PERF
"este é o cesto que eu comprei"

tatohongo ige-lüingo e-heke u-ng-ihipüte-pügü
cesto levar-FUT 2-A 1-MO-comprar-PERF

e-ng-enge-ke-ha kanga
2-MO-comer-IMP-ENF peixe
"coma o peixe!"

Observe-se que o marcador de objeto (MO) indica que o objeto pleno não está em sua posição canônica, imediatamente pré-verbal, tendo sido como que retirado do interior do complexo OV. O objeto para o qual o MO aponta ou está na oração matriz ou é um adjunto situado à direita. Observe-se, também, que o MO, embora absorva o papel temático (paciente), não é marcado por caso, fazendo com que o agente-causa assuma o papel de argumento único de um verbo "intransitivizado" no processo de checagem de Caso (absolutivo).

 

5. Conclusões

A primeira conclusão que se impõe diz respeito à questão que se propôs introdutoriamente como central: a adequação do modelo de Chomsky (1993) face aos dados de quatro línguas indígenas brasileiras. No que se refere à linearização da ordem SOV, há, como se demonstrou, evidências em toda as línguas para a postulação de uma categoria funcional acima de SV, ativa na sintaxe. A postulação desta categoria como tendo o conteúdo de Agro, conforme proposto em Chomsky (1993), revelou-se, no entanto, problemática nas quatro línguas, já que em todas elas há evidências contrárias à pressuposição da indivisibilidade do sistema de concordância na Gramática Universal. Chomsky (1993) assume que o conjunto de traços de Agrs é o mesmo de Agro. Assim, por exemplo, se Agro tem traços fortes, Agrs também os deveria ter. Como se demonstrou acima, as quatro línguas têm razões para distinguir o comportamento sintático de Agrs do de Agro. Note-se que se encontra, na literatura gerativa, base conceitual em suporte da diferenciação entre os sistemas de concordância de sujeito e de objeto. Murasugi (1994), por exemplo, propõe uma condição sobre a especificação de traços (Feature Specification Constraint) que prevê que os traços de Agro possam ser menos especificados do que os de Agrs.

Construções com auxiliares foram analisadas em Mbyá Guarani e em Karajá como diagnóstico para a linearização da ordem OV. Propôs-se, tanto para o Mbyá Guarani quanto para o Karajá, que os auxiliares sejam gerados acima de SV, adotando-se o dispositivo de movimento longo de núcleo de Rivero (1994) para evitar a violação do Princípio do Movimento mais Curto. A diferença, como se explicitou nas análises, reside no fato de que em Karajá se postulou a existência de movimento do auxiliar em Forma Lógica para checagem de traços fracos de tempo em TP e, subseqüentemente, de traços fracos de concordância de sujeito em AgrsP. Tal checagem revelou-se problemática em Mbyá Guarani, já que os auxiliares nesta língua não exibem marcas de tempo, exigindo movimento longo do auxiliar para AgrsP que, além disso, deveria dar conta da checagem múltipla de traços de concordância do verbo lexical e do auxiliar. Note-se, a propósito, que a postulação da geração de SAux como gerado acima de SV é ainda problemática para a ordem SVAux, atestada nas duas línguas, já que não explica a motivação de V para elevar-se para fora do SV.

Clíticos foram investigados em Karajá, Mbyá Guarani e em Tikuna. Em Karajá e Mbyá Guarani explorou-se a possibilidade de que os clíticos tenham comportamento paralelo aos SNs em posição de objeto, com os quais estão em distribuição complementar. Em Tikuna, onde há redobro dos clíticos, propôs-se uma análise em termos de subcategorizacão morfológica, relacionando-os com as marcas de objeto internas ao verbo, que não são morfemas de concordância.

Finalmente, as línguas indígenas examinadas colocam um problema para o quadro teórico proposto em Chomsky (93): o alçamento do sujeito interno ao SV, presumivelmente, para a posição de especificador do Sintagma de Tempo (TP) ou para a posição de especificador de AgrsP, saltando sobre aquele que seria o primeiro sítio de pouso apropriado, a posição de especificador de AgroP, constituiria uma violação à Condição do Movimento Mais Curto, só podendo ser licenciado pela subida visível do complexo [Agro verbo+ Agro] para o núcleo de TP. Esta operação, como discutimos no artigo, seria problemática para as línguas SOV, pois a subida no verbo, na sintaxe visível, para o núcleo de TP, passaando por cima do SN objeto no especificador de AgroP, impediria a linearização da ordem OV. Diferentes alternativas de solução para o problema aqui identificado são discutidas em Maia et alii (1998b).

(Recebido em fev. 1997. Aceito em nov. 1997)

 

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* Este trabalho foi apresentado inicialmente no III Encontro de Gramática Gerativa, na Faculdade de Letras da UFRJ em agosto de 1995. Uma segunda versão foi apresentada no Simpósio Teoria da Gramática/Línguas Indígenas Brasileiras no XI Encontro Nacional da ANPOLL em junho de 1996. O primeiro autor é o principal autor da publicação, sendo os demais autores listados em ordem alfabética pelo último sobrenome. Todos desenvolvem projetos individuais sobre as línguas em comparação. Bruna Franchetto estuda o Kuikúro, Yonne Leite e Marcia Damaso Vieira pesquisam línguas da família Tupi-Guarani, Marcus Maia estuda a língua Karajá e Marília Facó Soares estuda a língua Tikuna.

1 Abreviamos as categorias lexicais com suas iniciais em português e mantemos as categorias funcionais em inglês.

2 A língua Karajá, pertencente ao tronco Macro-Jê, é falada por cerca de 3.000 pessoas, que habitam a Ilha do Bananal (TO) e adjacências.

3 Os informantes do dialeto Mbyá -Guarani consultados residem no Posto Bela Vista ,em Ubatuba,Estado de São Paulo.

4 Lista das abreviações utilizadas no texto: aux.=auxiliar; dep.=(marcadordeoração)dependente; fut.=futuro; pl.=plural; refl.=reflexivo; rel.=relacional; sg.=singular.

5 Em Mbyá Guarani, assim como em outras línguas da família Tupi-Guarani,o verbo apresenta flexão de concordância de sujeito quando o objeto é de 3a pessoa :

(i) xee mitã a-exa ‘Eu vi a criança’
eu criança 1sg.-ver

Porém, quando o objeto é de 1a ou 2a pessoas, o verbo porta apenas os clíticos pronominais de objeto:

(ii) mitã xe rexa ‘A criança me viu ‘
criança me ver

6 Para análise sobre interrogativas descontínuas, vide Vieira (1996).

7 Existe uma outra análise alternativa para construções como (12)e (13) .Elas podem ser interpretadas como construções de Controle de Objeto. Nesse caso, o objeto da oração matriz seria o argumrnto interno do verbo da matriz que estaria coindexado com o sujeito PRO da oração depenedente.

Acontece que essa análise não é adequada para o Mbyá Guarani,,visto que quando um verbo seleciona dois argumentos, -um nominal/pronominal e outro oracional,- o primeiro ocorre sempre acompanhado de uma posposição que lhe confere caso. O verbo "pedir " é um verbo de Controle de Objeto. Note-se que o objeto em (i) ocorre acompanhado da posposição -pe::

(i) xee a-porandu Arai-pe [PRO i g-uu o-inupã-agwa
eu 1sg.-pedir Ara-para 3 refl,-pai 3-bater-dep.
‘Eu pedi para A Ara para bater no pai dela’

(ii) Ara o-porandu xei wype [PROi g-uu a-inupã-agwa]
Ara 3-pedir me para 3 refl.-pai 1sg.-bater-dep.]
‘A Ara me pediu para bater no pai dela’

8 Língua tonal e isolada, o Tikuna é falado por uma grande populacão que se distribui por três países: Brasil, Peru e Colômbia. A maior parte dessa populacão - cerca de 25 000 indivíduos - está localizada no Brasil.

9 Os exemplos referentes ao Tikuna são apresentados na escrita que vem sendo utilizada, no lado brasileiro, pelos próprios falantes nativos.

10 O termo dativo foi utilizado como um rótulo sintático arbitrário. O morfema referido como ‘dativo’ (cuja única vogal é nasal) ocorreu em seqüências espontaneamente obtidas como marca de complemento indireto do verbo correspondente em Tikuna a ‘dar’.

11 Sobre a relevância sintática de tais partículas, ver Soares (1992a). Ver ainda Soares (1992b).

12 Os dados gramaticais em (18a) e (18b) foram extraídos de construções com redobro do clítico e da marca de objeto interno. Quanto ao dado agramatical de (18a), ele também integra construções do mesmo tipo, tendo sido formulado pelo pesquisador como parte de um conjunto de testes de gramaticalidade.

13 Voltaremos a esse ponto na seção dedicada ao sujeito.

14 A análise que passamos a apresentar constitui versão modificada daquela oferecida em Soares (1997).

15 Essa hipótese já havia sido levantada em Soares (1992a).

16 A adjunção na base foi assumida para o Tikuna, em Soares (1992a) para uma série de construções, entre as quais aquelas com aparentes sintagmas nominais complemento.

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