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DELTA: Documentação de Estudos em Lingüística Teórica e Aplicada

versión impresa ISSN 0102-4450

DELTA v.14 n.2 São Paulo  1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-44501998000200012 

NOTAS SOBRE OS LIVROS/BOOKNOTES

D GUY, G.R., C. FEAGIN, D. SCHIFFRIN & J. BAUGH (eds.) (1997) Towards a Social Science of Language. Papers in honor of William Labov. Volume 2: Social Interaction and Discourse Structures. Amsterdam: John Benjamins. ISBN 0304-0763. 358 p.

 

O segundo volume de Towards a Social Science of Language, da série Current Issues in Linguistic Theory, aborda temas sobre interação social e estruturas do discurso, áreas que refletem o impacto do trabalho de Labov nos estudos sociolingüísticos.

Na seção I do livro são apresentados trabalhos cujos temas dão ênfase ao estudo do discurso, baseados nos trabalhos que Labov desenvolveu sobre a narrativa (Labov & Waletzky 1967) e discurso terapêutico (Labov & Fanshel 1975. Compõem o elenco desta seção os seguintes autores: Charlotte Linde, Emanuel A. Schegloff, Deborah Schiffrin, Anne R.Bower, Marjorie Harness Goodwin, Barbara M. Horvath, Roger W. Shuy, E. Judith Weiner, Sylvie Dubois e David Sankoff e John J. Gumperz.

A busca de determinantes discursivos, interativos e significativos presentes na complexidade da comunicação humana e a preocupação com o uso da língua, são temas centrais da seção II desta obra. Os trabalhos apresentados são de autoria de Ellen F. Prince, John Myhill, Sally Boyd, Shana Poplack, Benji Wald e dos lingüistas brasileiros Marco Antônio de Oliveira e Maria Luiza Braga.

Para Gregory R. Guy, um dos editores da obra, os dois volumes têm a intenção de homenagear William Labov, ressaltando a grande contribuição que ele tem dado à Sociolingüística, com suas idéias iluminadas que têm o poder de instigar pesquisadores a desenvolver importantes estudos nessa área.

Por/By Karlene S. Rocha CAMPOS (IC-CEPE/ Pontifícia Universidade Católica de São Paulo)

 

 

D RIBEIRO, B. T. & GARCEZ, P. M. (orgs.) (1998). Sociolingüística interacional: antropologia, lingüística e sociologia em análise do discurso. Porto Alegre: AGE, 159 p. R$20,00

 

Estudar as formas como se organiza a interação social humana é buscar compreender a maneira como, "simplesmente" ao falarem umas com as outras, as pessoas produzem fenômenos tão palpáveis como discriminação e racismo; prestam e recebem serviços vitais, como cuidado médico e formação educacional; ou, ainda, como elas constituem os laços interpessoais que pautam sua vidas. Este é o tópico global do livro Sociolingüística Interacional: Antropologia, Lingüística e Sociologia em Análise do Discurso. O livro congrega traduções para o português de oito textos clássicos, fundamentais para o estudo da linguagem em interação social.

Os textos selecionados introduzem o leitor brasileiro à pesquisa em Sociolingüística Interacional - tradição de pesquisa eminentemente transdisciplinar que tem cada vez mais interessado a estudiosos brasileiros. Encontram-se reunidos aí, pela primeira vez, estudos de pesquisadores de grande reputação internacional que colocaram os alicerces e erguream os pilares para a tradição de pesquisa qualitativa em Sociolingüística. O texto mais antigo é o artigo clássico do psiquiatra e antropólogo Gregory Bateson, "Uma teoria sobre brincadeira e fantasia", de influência considerável em diversos campos de estudo, da inteligência artificial à psiquiatria, e que aparece aqui por lançar a semente das noções de enquadre e contextualização da fala em interação social, desenvolvidas pelos dois autores que estabeleceram os fundamentos teóricos da tradição sociolingüística interacional, Goffman e Gumperz. Estes aparecem na coleção organizada por Ribeiro & Garcez cada um com dois textos, um mais antigo e outro mais recente.. "A situação negligenciada", de autoria do sociólogo Erwin Goffman, publicado originalmente em 1966, delineia a necessidade de investigação do que atualmente se chama de indexicalidade na construção de sentido na interação social. "Footing", capítulo influente do último livro de Goffman publicado em 1981, descontrói as noções de falante e ouvinte, em busca de uma conceituação mais técnica acerca da estruturação da participação em interações face a face, convidadndo os lingüistas a se engajarem na instrumentalização desta tarefa. O outro pilar da tradição sociolingüística interacional, o lingüista e antropólogo John J. Gumperz, está representado também por dois textos fundamentais. "O significado social na estrutura lingüística: Alternância de códigos na Noruega", em co-autoria com o norueguês Jan-Petter Blom, traz o seu trabalho clássico no âmbito da então etnolingüística sobre a alternância de códigos em comunidades bilíngües, mas já alinhava as noções que Gumperz desenvolveria mais tarde em sua obra mais madura sobre a relação íntima e indexical entre o conjunto de recursos e preferências que compõem a etiqueta comunicativa de uma comunidade de fala e a contextualização da linguagem em uso na vida cotidiana. "Convenções de contextualização" resume em larga medida o modelo sociolingüístico interacional de comunicação humana em interação social face a face.

Os demais três capítulos da coleção trazem as contribuições da segunda geração de sociolingüistas interacionais. Em "Algumas fontes da variabilidade cultural na ordenação da fala", a antropóloga Susan Philips apresenta seu trabalho pioneiro de pesquisa que contrasta a etiqueta comunicativa de uma comunidade indígena do Noroeste dos Estados Unidos com a etiqueta, muita vezes tida como universal, da classe média branca anglo-americana. Os dois últimos capítulos da coletânea são os mais representativos do trabalho tipicamente sociolingüístico interacional contemporâneo, em sua busca de compreensão das dificuldades interacionais que surgem em situações institucionais cotidianas. A lingüista Débora Tannen, em co-autoria com a psicóloga social Cynthya Wallat, discute "Enquadres interativos e esquemas de conhecimento em interação: Exemplos de um exame/consulta médica". Os antropólogos da educação Frederick Erickson e Jeffrey Shulz examinam "‘O quando’de um contexto: Questões e métodos na análise da competência social".

O veio comum que atravessa todos estes trabalhos é a preocupação em apontar caminhos teóricos e metodológicos norteadores da investigação sistemática e criteriosa da fala e do discurso em situações reais e quotidianas de interação humana. Cada artigo foi prefaciado pelos organizadores, que sublinham a relevância dos pontos teóricos e analíticos avançados em cada uma das contribuições e evidenciam a correlação temática entre os textos.

Por/By Liliana Cabral BASTOS (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro)

 

 

D NEVES, M. H. M. (1997) A gramática funcional. São Paulo: Martins Fontes. ISBN: 85-336-0763-6; série Texto e Linguagem; 159 páginas.

 

Em A Gramática Funcional, Neves oferece uma ampla visão do funcionalismo em lingüística, examinando questões relevantes para a compreensão de sua amplitude e importância. Segundo a autora, Caracterizar o Funcionalismo é uma tarefa difícil (p. 1), dada a variedade dos modelos presentes denominados funcionalistas.

No primeiro capítulo, a autora explora diferentes concepções de ‘função’, colocando o leitor em contato com a pluralidade de enfoques que se dizem funcionalistas. Já no segundo capítulo, a autora estabelece as bases da gramática de forma a definir o paradigma funcional. Na verdade, a gramática funcional tem sempre em consideração o uso de expressões lingüísticas na interação verbal, o que pressupõe uma certa pragmatização do componente sintático-semântico modelo lingüístico. (: 16)

O terceiro capítulo é dedicado à comparação entre as correntes formalista e funcionalista, identificando-as como dois pólos de atenção opostos no pensamento lingüístico (:39). Neves faz um levantamento das principais características de cada corrente, traçando paralelos entre as duas formas de analisar o fenômeno lingüístico. No quarto capítulo, são apresentados dois dos principais modelos funcionalistas, o de M. A. K. Halliday e o de Simon Dik.

No quinto capítulo, encontramos a relação entre a Gramática Funcional e o Cognitivismo. O sexto capítulo é dedicado aos processos de gramaticalização. Aqui a autora busca não só conceituar esses processos como também discutir alguns de seus princípios. Já no último capítulo é demonstrada a relação entre a gramática funcional e os diversos campos da investigação lingüística.

Por/By Rodrigo Esteves de LIMA-LOPES (IC-CNPq/PIBIC/ CEPRIL- Pontifícia Universidade Católica de São Paulo)

 

 

D MACHADO, A R. (1998). O diário de leituras: a introdução de um novo instrumento na escola. São Paulo: Martins Fontes. (Texto e linguagem). ISBN 85-336-0929-9.

 

Este trabalho, fruto de uma tese de doutorado em Lingüística Aplicada ao Ensino de Línguas, articula um procedimento de análise de discurso ao exame de um processo didático ou formativo: a produção de diários reflexivos de leitura, no quadro de um curso universitário ministrado pela própria autora.

Nesse processo, Machado propunha a seus alunos a leitura de um texto e pedia-lhes que redigissem, à medida que iam lendo, um diário na primeira pessoa, relatando as reflexões, questões e problemas que a atividade de leitura suscitava e relacionando essas questões com suas experiências pessoais e seus conhecimentos prévios.

O prefácio, escrito pelo prof. Dr. Jean-Paul Bronckart, já apresenta as bases teóricas mais amplas que serviram de fonte para a análise desse processo, que são, fundamentalmente, as idéias fundadoras de Vygotsky, Bakhtin e Habermas, relidas e desenvolvidas pelo grupo de Didática de Línguas da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Genebra sob o rótulo geral de interacionismo sócio-discursivo.

A obra está dividida em duas grandes partes: (I) Pressupostos teóricos para a utilização do diário em situação escolar (2 capítulos) e (II) A pesquisa (6 capítulos). Seguem-se notas sobre cada capítulo, referências bibliográficas (6 p.) e dois anexos: o primeiro, com a enumeração dos textos utilizados pelos alunos para a produção dos diários reflexivos e o segundo, com o questionário de avaliação do referido curso.

Em sua Introdução, Machado descreve como sua experiência pessoal com a escrita dos diários reflexivos levou-a a introduzir esse tipo de leitura/escrita como prática central de suas aulas e como, a partir do processo didático, surgiram as suas questões básicas de pesquisa.

Na primeira parte do trabalho, são apresentados os pressupostos teóricos que subjazem à utilização do diário de leituras em situação escolar. Dentre eles, são fundamentais o conceito de ação comunicativa desenvolvido por Habermas (1981 e ss.), o conceito de gênero desenvolvido por Bakhtin (1953) e por autores que relêem esse conceito em novos quadros teóricos (Schneuwly, 1994; Fairclough, 1989). Além disso, a autora faz um levantamento das características e das funções já atribuídas ao gênero diário tanto por pesquisadores quanto por autores diaristas e um levantamento dos resultados de estudos desenvolvidos sobre sua utilização em diferentes formações sociais. Com a discussão desses pressupostos, a autora busca demonstrar que o gênero escolhido pelo professor como dominante na sala de aula se constitui tanto como um instrumento psicológico de desenvolvimento como também um instrumento determinante do tipo de relações que se constróem entre os interlocutores nessa situação de comunicação, parecendo-lhe haver argumentos de diferentes ordens a favor da utilização do diário em sala de aula.

Na segunda parte (do capítulo 3 ao 7), a autora apresenta seu trabalho de pesquisa propriamente dito, mostrando todo o percurso percorrido, indo da exposição do modelo teórico adotado para efetuar a análise dos dados, a descrição da metodologia adotada, o levantamento das representações que os alunos diaristas foram construindo a respeito da situação de comunicação e do próprio diário de leituras e, finalmente, a apresentação dos resultados das análises dos diários.

Em suas Conclusões, a autora discute o estatuto dos textos diaristas produzido por seus alunos e do possível modelo de gênero que teria guiado essas produções, assim como o significado que se pode atribuir à criação da situação didática descrita. Finalmente, Machado efetua uma avaliação crítica de sua própria ação nesse processo didático, das teorias em que se baseou, assim como da sua própria pesquisa, apontando perspectivas que lhe parecem se abrir para outros pesquisadores/educadores interessados em experiências didáticas semelhantes à relatada nessa obra.

Por/ By Ana Raquel MACHADO (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo)