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DELTA: Documentação de Estudos em Lingüística Teórica e Aplicada

Print version ISSN 0102-4450On-line version ISSN 1678-460X

DELTA vol.16 no.2 São Paulo  2000

https://doi.org/10.1590/S0102-44502000000200010 

RESENHAS/REVIEWS

CUNHA, M. J. & SANTOS, P. (orgs.) (1999) Ensino e Pesquisa em Português para Estrangeiros – Programa de Ensino e Pesquisa em Português para Falantes de Outras Línguas (PEPPFOL). Brasília: Edunb, 122 p.

 

Resenhado por Viviane B. FURTOSO & Telma N. GIMENEZ
(Universidade Estadual de Londrina)

 

 

KEY-WORDS: Portuguese as a foreign language, teaching, teacher education.

PALAVRAS-CHAVE: Português para Estrangeiros, ensino, formação de professores.

 

 

A área de Português para Estrangeiros, doravante PE, é relativamente nova no panorama da Lingüística Aplicada no Brasil. Assim, são poucas as publicações na área e esta é uma obra muito bem vinda, que se junta a outras coletâneas recentemente lançadas em nosso país (vide Almeida Filho & Lombello, 1992, 1997; Almeida Filho, 1995, 1997; Júdice, 1997; Silveira, 1998; dentre outras), com a preocupação de trazer oportunidades para discussão mais aprofundada sobre o assunto, levando-nos a pensar o ensino da língua portuguesa sob outro prisma.

Organizado por duas professoras que têm grande experiência acumulada na área, o volume tem por objetivo divulgar trabalhos desenvolvidos em universidades brasileiras com ensino e pesquisa da Língua Portuguesa como língua estrangeira. Os doze capítulos que compõem a obra foram agrupados em 5 partes.

Na primeira parte são apresentadas as experiências das universidades de Brasília (UnB), Rio Grande do Sul (UFRGS) e Bahia (UFBA).

No capítulo 1, "Educação de professores/pesquisadores de português como segunda língua", Cunha e Santos apontam a necessidade de formação1 específica para o professor / pesquisador na área de PE na região de Brasília, relatando a integração de ensino/pesquisa e extensão no Programa de Ensino e Pesquisa em Português para Falantes de Outras Línguas (PEPPFOL). As disciplinas de Português para Estrangeiros 1 e 2 são ofertadas regularmente na graduação e abertas a qualquer aluno estrangeiro que esteja matriculado na UnB. Os professores são alunos do curso de Letras, orientados e acompanhados pelas coordenadoras do PEPPFOL. A formação desses professores se dá no contexto de pesquisa-ação, em que os regentes realizam sua prática de ensino, escrevem diários, fazem gravações em áudio e vídeo, participam de reuniões pedagógicas e seminários e analisam materiais didáticos. A percepção de uma dessa regentes é apresentada no capítulo 4, "Programa de Ensino e Pesquisa em Português para Falantes de Outras Línguas: uma experiência complementar à graduação" , que também compõe a primeira parte do livro.

No capítulo 2, "O Programa de Português para Estrangeiros na UFRGS", Schlatter relata igualmente a situação na UFRGS, onde a área de PE teve início em 1993. A partir de 1994 foram ofertados 3 módulos de Curso de Formação de Professores, bem como Cursos de Português para Estrangeiros, em vários níveis e modalidades. Essas experiências têm servido para a realização de pesquisas sobre aquisição de Português como Língua Estrangeira, incentivado a criação de materiais didáticos e promovido seminários e eventos para troca de experiências no contexto do Mercosul.

Na UFBA o enfoque do ensino é português para comunicação, e o capítulo 3, "Relatos sobre experiências do ensino de português para estrangeiros no CEPE/UFBA", de Mendes nos informa a respeito dos conteúdos e materiais empregados nos cursos do Centro de Ensino de Português para Estrangeiros (CEPE) daquela instituição.

A parte II do livro concentra-se na discussão sobre o ensino de Português para grupos específicos. No capítulo 5, Santos aborda especificamente o caso de alunos falantes de espanhol, e no capítulo 6, Montenegro discorre sobre estudantes norte-americanos.

Apoiada em pesquisas de interlíngua e fossilização, no capítulo 5, "O ensino de português como segunda língua para falantes de Espanhol: teoria e prática", Santos trata de explicitar metodologia para "evitar que o falante de espanhol ... fossilize a interlíngua tão precocemente". Alunos cuja língua materna seja o espanhol precisam ser expostos a metodologia diferenciada em função da proximidade das duas línguas, ou seja, língua materna e língua-alvo.

No capítulo 6, "Curso intensivo de português para estudantes universitários norte-americanos: abordagem e metodologia", Montenegro relata as atividades desenvolvidas nos cursos intensivos de português para estudantes norte-americanos na Universidade Federal do Ceará. Essas atividades procuram abordar as 4 habilidades, porém, sem "rigidez metodológica".

Na parte III, "Atividades Específicas para o Ensino de Português para Estrangeiros", Santos e Zilles são responsáveis pelos capítulos 7 e 8, respectivamente.

O capítulo 7, "Intercâmbio lingüístico-cultural", de Santos, trata do intercâmbio estabelecido pela UnB, em que os alunos do curso de Letras Estrangeiras conversam com os alunos estrangeiros. Durante cerca de uma hora conversam em português e por mais uma hora na língua nativa do aluno. Esta alternativa substitui o laboratório de línguas.

No capítulo 8, "Curso de conversação de português: relato de experiência", Zilles comenta o curso de conversação de 60 horas de duração oferecido pela UFRGS e anexa material desenvolvido para esse fim, organizado em eixos temáticos: experiências pessoais, aspectos do cotidiano, características naturais e culturais do Brasil e problemas da sociedade brasileira.

O capítulo 9, de Gomes de Matos, "Os direitos lingüísticos de aprendizes de português como língua estrangeira", compõe a parte IV do livro. Baseado em trabalho anterior sobre direitos humanos e direitos lingüísticos, o autor estabelece os direitos lingüísticos dos aprendizes, na verdade uma lista de concepções sobre como devem ser os cursos: exposição à variedade nacional, acesso a distinções entre fala e escrita, contribuição para estabelecimento do material a ser usado em sala. O aluno terá ainda direito de receber bibliografias comentadas e explicações sobre estrutura e uso da variedade aprendida.

Na V e última parte, três artigos tratam do Certificado de Proficiência em Língua Portuguesa para Estrangeiros (CELPE-Bras). Esses artigos trazem um histórico da comissão encarregada de sua elaboração e os pressupostos que o embasam. Com um enfoque comunicativo, o exame tem como principais características a ênfase na comunicação/interação, avaliando a competência do candidato por meio de tarefas e conteúdos autênticos/contextualizados. O CELPE-Bras, um dos fatores que têm fortalecido a área do ensino de Português para Falantes de Outras Línguas, foi muito bem lembrado nessa obra. Os artigos que abordam esse assunto são de grande relevância, pois até o momento o CELPE-Bras era apenas mencionado em outros artigos, deixando ainda implícita a contribuição que o mesmo proporcionaria à área.

O grande mérito deste livro é trazer relatos de experiências que ajudam a mapear o ensino de PE no Brasil, com contribuições distribuídas geograficamente, o que garante abrangência na cobertura do que se faz atualmente na área. Entretanto, revela também a escassez de pesquisas sistemáticas sobre a aquisição/aprendizagem de PE em contextos formais. Desta forma, enquanto tomamos conhecimento de como anda o ensino de PE, pouco sabemos sobre qual a eficácia dos vários métodos e materiais didáticos empregados nos cursos relatados. O livro parece ser relevante no sentido de sugerir tópicos para futuras pesquisas. A formação de professores, por exemplo, é uma a ser explorada, dada a contemporaneidade do interesse despertado para a área.

A obra, como um todo, nos fornece um quadro a respeito de PE, que tem recebido forte influência do ensino e pesquisa de outras línguas estrangeiras, particularmente o inglês, com história acumulada de pesquisas em salas de aula. A área poderia igualmente se beneficiar de discussões sobre segunda língua e língua estrangeira, travadas no âmbito do ensino de língua inglesa. A escolha do termo para designar a área não é uma questão menor, tendo em vista que a adoção de um ou outro termo (segunda língua, língua estrangeira) pode incluir ou excluir contextos de educação bilíngüe, especialmente em comunidades indígenas, que mais recentemente se tornaram foco de pesquisas na área de Lingüística Aplicada.

Certamente, o fluxo de comunicação entre pesquisadores de ensino de línguas estrangeiras e de educação bilíngüe deverá ser benéfico para o fortalecimento de pesquisas e referenciais que enriquecerão a área de PE. O livro Ensino e Pesquisa em Português para Estrangeiros nos permite vislumbrar alguns direcionamentos futuros, colaborando, dessa maneira, para o fortalecimento da área que se ocupa de estudos sobre a língua portuguesa para falantes de outras línguas.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALMEIDA FILHO, J.C.P. (org.) (1995) Português para estrangeiros: interface com o Espanhol. Campinas: Pontes.         [ Links ]

_____ (1997) Parâmetros atuais para o ensino de Português – Língua Estrangeira. Campinas: Pontes.         [ Links ]

ALMEIDA FILHO, J.C.P. & LOMBELLO, L (orgs.) (1992) Identidade e caminhos no ensino de Português para Estrangeiros. Campinas: Pontes.         [ Links ]

_____ (1997) O Ensino de Português para Estrangeiros: pressupostos para o planejamento de cursos e elaboração de materiais. 2ª ed. Campinas: Pontes.         [ Links ]

JÚDICE, N. (org.) (1997) O Ensino de Português para Estrangeiros. Niterói: EDUFF.         [ Links ]

SILVEIRA, R. C. P. da (org.) (1998) Português Língua Estrangeira: perspectivas. São Paulo: Cortez.         [ Links ]

 

 

1 As autoras utilizam o termo educação ao invés de formação por entenderem que este último subentende uma habilitação formal como a graduação no curso de Letras.

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