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DELTA: Documentação de Estudos em Lingüística Teórica e Aplicada

Print version ISSN 0102-4450On-line version ISSN 1678-460X

DELTA vol.17 no.1 São Paulo  2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-44502001000100007 

RESENHA/ REVIEW

KATO, Mary Aizawa & Esmeralda Vailati NEGRÃO (eds.) (2000) Brazilian Portuguese and the Null Subject Parameter. Vervuert – Iberoamericana. 270 pp.

 

Resenhado por: Maria Aparecida C.R. TORRES-MORAIS
(Universidade de São Paulo)

 

 

Palavras-chave: Parâmetro; Variação; Sujeito Nulo.

Key-words: Parameter; Variation; Null Subject.

 

 

Brazilian Portuguese and the Null Subject Parameter é uma coletânea de dez trabalhos que discute, em uma perspectiva sincrônica e diacrônica, e no âmbito da aquisição da linguagem, as questões relacionadas com o chamado parâmetro do sujeito nulo no português brasileiro (PB), acrescida de um primoroso prefácio elaborado por Kato. Neste a autora apresenta algumas considerações relevantes a respeito do conceito de parâmetro, destacando a importância das questões que levanta para os estudos comparativos, para uma teoria da mudança e aquisição, dentro da concepção gerativista de linguagem expressa no quadro teórico conhecido como Princípios e Parâmetros. Além disso, faz uma oportuna retrospectiva de fatos diacrônicos empíricos pertinentes ao tópico em estudo, atestados na literatura sobre o PB, e uma avaliação de análises teóricas de estudos comparativos prévios, realizados por um significativo conjunto de pesquisadores que tentaram interpretar as propriedades do sujeito nulo.

Como se sabe, o parâmetro do sujeito nulo, ou parâmetro "pro-drop" foi um dos mais estudados nas últimas décadas, tendo sido repensado na medida em que a própria noção de parâmetro foi sendo reformulada. No programa de investigação da gramática gerativa que prevê princípios universais comuns a todas as línguas, e parâmetros como possibilidades em aberto, associados com a variação lingüística, a escolha de um ou outro parâmetro, assumindo que sejam, em princípio, binários, representa a diferença primitiva entre sistemas gramaticais.

Entretanto, a partir da concepção de que a variação paramétrica reside nas propriedades lexicais das categorias funcionais, o parâmetro do sujeito nulo não mais foi conceitualizado como uma diferença sintática particular entre as línguas, no sentido de elas permitirem ou não a omissão do sujeito pronominal. Ao contrário, essa diferença é entendida como um epifenômeno, ou seja, como manifestação na superfície de propriedades morfológicas relacionadas com os núcleos funcionais. A tentativa de interpretar a natureza de uma propriedade morfológica abstrata e de caracterizar o conjunto de propriedades relacionadas com as línguas de sujeito nulo, em particular, a possibilidade de inversão VS ou da inversão livre nas sentenças simples, passam a representar, então, um enorme desafio.

Que propriedade as línguas possuem que lhes permite omitir o sujeito pronominal?

De início, partindo do estudo de línguas do tipo do italiano de um lado, e do inglês de outro, vários pesquisadores assumiram que a propriedade se refere à natureza da morfologia flexional verbal, entendendo-se que as distinções de pessoa e número constituiriam a condição necessária e suficiente para o licenciamento sintático e interpretação de pro, a categoria pronominal nula (Rizzi, 1982, 1986).

A hipótese da uniformidade morfológica elaborada por Jaeggli & Safir (1989) e a proposta da riqueza funcional dos paradigmas flexionais, no sentido de Roberts (1993), são apenas algumas das tentativas registradas na literatura para quantificar a "riqueza" morfológica relevante. Nestes termos, uma drástica redução do paradigma flexional do verbo, como a que ocorreu no PB, por exemplo, determinaria a tendência para o preenchimento do sujeito pronominal. Posteriormente, à medida que outras línguas foram sendo estudadas, entre elas o chinês e japonês, observou-se que a categoria nula na posição de sujeito poderia ter uma natureza diversa, tendo sua interpretação garantida não por INFL (Flexão), mas por um antecedente expresso no contexto discursivo ou pragmático, desde que satisfeitas certas condições particulares. 

Para uma primeira aproximação, portanto, pode-se dizer que dos dez artigos que compõem o livro, cinco versam sobre a possibilidade e natureza do sujeito nulo no PB, em duas perspectivas distintas. A primeira, adotada por Duarte, associa sujeito nulo e flexão, o que leva à necessidade de refletir sobre paradigmas de concordância "rica" e "pobre", e de como as mudanças que ocorrem na morfologia verbal se refletem no licenciamento das três pessoas gramaticais.

Na segunda perspectiva, defendida por De Oliveira, Negrão & Viotti, Modesto e Figueiredo Silva, não se assume tal conexão causal entre INFL e identificação do sujeito nulo nas diferentes pessoas gramaticais, embora os autores variem na sua argumentação para justificar o ponto. Enquanto De Oliveira se detém em fatores de ordem estrutural, os autores restantes baseiam-se na Teoria da Ligação para mostrar que o sujeito nulo de terceira pessoa no PB pode envolver diferentes formas de licenciamento e interpretação, evidenciando categorias nulas de natureza distinta no sistema pronominal.

Por sua vez, dois dos artigos da coletânea, o de Andrade Berlinck e Britto, buscam relacionar as propriedades das construções SV e VS no PB e português europeu (PE) e as particularidades do sistema pronominal, em especial, do pronome nominativo sujeito. Já o texto de Simões trata dos sujeitos nulos e aquisição da linguagem, enquanto a correlação entre sujeitos e objetos nulos é o tema explorado por Cyrino, Duarte & Kato. Finalmente, o texto de Kato tem como objetivo principal apresentar uma teoria do parâmetro do sujeito nulo na qual a possibilidade de sujeito nulo e inversão livre pode ser derivada de uma mesma propriedade morfológica do sistema de concordância.

Duarte apresenta em seu estudo "The loss of the "avoid pronoun" principle in Brazilian Portuguese" resultados diacrônicos que, segundo sua interpretação, claramente sugerem uma correlação entre o decréscimo dos sujeitos nulos referenciais e a redução do paradigma flexional verbal na história do PB. Os resultados diacrônicos são acompanhados de uma amostra sincrônica que não só corrobora os estudos diacrônicos, como revela novos achados, entre eles, a tendência ao preenchimento dos sujeitos referenciais arbitrários. Comparando o PB com o PE na expressão dos sujeitos referenciais definidos e arbitrários, a autora faz uma previsão forte: o sistema defectivo de sujeito nulo exibido pelo PB hoje é um estágio na direção da mudança paramétrica que vai tornar o PB uma língua de sujeito pronominal obrigatoriamente preenchido. Esta previsão é também corroborada ao comparar resultados do PB com mudanças ocorridas no francês medieval. Além disso, a autora destaca a alta freqüência das construções de sujeito deslocado, também chamadas de construções de deslocamento à esquerda (DE), tratando-as como mudanças encaixadas, uma vez que não são compatíveis com línguas de sujeito nulo do tipo do PE.

A tentativa de traçar o curso de uma mudança paramétrica em progresso no PB apoia – se em uma análise de natureza quantitativa e qualitativa, com base no quadro teórico que associa a abordagem variacionista para a mudança lingüistica e a teoria dos Princípios e Parâmetros (Tarallo & Kato, 1989). O trabalho de Duarte, ao meu ver, contribui particularmente por trazer para o cenário resultados quantitativos que mostram não só aumento no preenchimento do sujeito referencial arbitrário e nas estratégias de indeterminação do sujeito com formas pronominais expressas, como também revelam a tendência para se evitar até mesmo o sujeito nulo expletivo.

O interessante é que a mudança atinge as pessoas gramaticais diferentemente. Duarte (1995) já observara em seus resultados quantitativos que a segunda pessoa apresenta a mais alta percentagem de preenchimento, seguida da primeira, enquanto a terceira apresenta a resistência maior, embora seja o contexto que pode trazer ambigüidade.

Ora, é este fato intrigante do sujeito nulo no PB que motiva o texto de Negrão & Viotti, a partir das idéias anteriormente expostas em Negrão & Müller (1996), levando a um avanço teórico: o de que os pronomes nulos no PB são categorias vazias ligadas. O sujeito nulo referencial de terceira pessoa tem sua interpretação recuperada por contextos discursivos e pragmáticos, o que explica a resistência ao seu preenchimento por uma expressão pronominal.

O texto de Negrão & Viotti "Brazilian Portuguese as a discourse–oriented language" vai mais fundo ao discutir a afirmação feita por Galves (1993) e Figueiredo Silva (1994) de que o enfraquecimento da concordância verbal no PB teria levado a uma reestruturação do seu padrão sentencial, aproximando tipologicamente o PB das línguas orientadas para o discurso, em oposição às línguas orientadas para a sentença. Concordando com a segunda parte da afirmação, as autoras discordam da primeira: o enfraquecimento do paradigma flexional não estaria relacionado ao decréscimo do sujeito nulo e, portanto, a reestruturação do padrão sentencial não está relacionado com esta perda. A contribuição original do texto se apoia justamente na hipótese de que o PB é uma língua orientada para o discurso, a partir de propriedades como: (i) assimetria na distribuição dos pronomes plenos e nulos; (ii) fenômenos de escopo relacionado ao distributivo cada; (iii) certas possibilidades de extração de elementos-qu da posição de sujeito das sentenças completivas introduzidas por que; extração de ilhas–que relativas.

Com base em Negrão (1999), assume-se que as mudanças observadas no PB revelam um processo de especialização de formas no uso dos pronomes lexicais em oposição aos nulos, e não na substituição de uns pelos outros. A variante nula é usada sempre que houver uma leitura de variável ligada, ou seja, quando tem sua interpretação garantida por um antecedente. Por sua vez, os pronomes plenos são interpretados como pronomes E-type, dependentes de uma certa configuração estrutural. As diferentes estratégias para interpretar os sujeitos pronominais, nulos ou plenos, corroboram, assim, a afirmação de que o PB é uma língua orientada para o discurso.

Da mesma forma, os fatos sintáticos de extração do sujeito que as autoras apresentam no estudo e o comportamento do distributivo cada só poderiam ser explicados se o sujeito ocupa uma posição mais alta que Spec,IP. Uma língua orientada para o discurso é aquela que expressa na sintaxe visível relações que outras só vão codificar na Forma Lógica (FL), entre elas, a função informacional de certos constituintes, tais como foco, tópico e escopo das frases quantificadas. A relação predicativa básica não é aquela que se estabelece entre o sujeito e predicado dentro do IP, mas aquela que se estabelece entre todo o IP e um constituinte fora, no sistema CP.

Portanto, a conclusão das autoras para o PB é a de que não há uma correlação direta entre enfraquecimento da flexão e aumento no uso dos pronomes plenos, levando a uma reestruturação do padrão sentencial. Na verdade, a direção é oposta: é o fato de identificar categorias vazias por proeminência no discurso que tem levado a um decréscimo nas marcas flexionais, a ponto de elas não mais serem necessárias.

O trabalho de Figueiredo Silva "Main and embedded null subjects in Brazilian Portuguese" e o de Modesto "Null subject without "rich" agreement", embora apresentem diferentes propostas, focalizam também a natureza da categoria vazia em posição de sujeito que ainda é licenciada no PB. Como se disse, este é um dos aspectos que torna o PB um desafio para a teoria tradicional do sujeito nulo.

A contribuição de Figueiredo Silva para essa discussão é propor uma resposta para a questão de quais condições estruturais restringem a distribuição dos pronomes lexicais e categorias vazias na posição de sujeito nas sentenças finitas. Trabalhando com sentenças principais e subordinadas, inclusive as que constituem ilhas sintáticas, a autora discute os problemas da análise tradicional para estes dados, chegando à conclusão de que os sujeitos nulos referenciais não são um fenômeno unitário, mas devem ser entendidos como categorias distintas, de acordo com as estratégias usadas para a sua identificação. Nas sentenças subordinadas, os sujeitos nulos têm comportamento de variável e de pronome anafórico. Nas sentenças principais podem ser identificados como constante nula para a primeira pessoa gramatical, ou como pronominal ligado (variável) para a terceira pessoa.

No caso da variável, a identificação da categoria vazia se dá por movimento para uma posição A-barra, ou por coindexação com um elemento em posição de tópico. O pronominal anafórico, porém, só ocorre em sentenças subordinadas, cujo sujeito nulo é correferencial com o sujeito da sentença principal. No todo, estamos diante de uma tipologia de sujeitos nulos com três diferentes categorias, que, no entanto, não envolvem a categoria pro proposta para as línguas de sujeito nulo.

A autora conclui que o PB é uma língua de sujeito nulo parcial, fazendo uso de estratégias especiais para identificar a categoria vazia sempre que o sujeito nulo deve ter referência definida. Os sujeitos nulos não podem ser referencialmente autônomos mesmo quando coocorrem com a morfologia verbal distintiva, uma vez que o traço de pessoa não é representado sistematicamente no paradigma flexional verbal. Ao contrário, a categoria vazia de referência genérica e a expletiva podem ser identificadas pela flexão verbal. Isto acontece porque a marca de número expressa no sistema de concordância é suficiente.

Da mesma forma, Modesto reconhece que os dados do PB parecem desafiar as teorias sobre o sujeito nulo propostas na literatura sobre o assunto. O PB tem sistema flexional pobre, mas tem sujeito nulo referencial em alguns ambientes. Como Figueiredo Silva, o autor apresenta evidênci as de que a concordância verbal do PB é incapaz de identificar a categoria vazia referencial. Sua proposta para a forma alternativa que a língua encontra para licenciamento e identificação do sujeito nulo não se apoia, porém, em um inventário de categorias distintas. Os diferentes tipos de sujeito nulo são, na verdade, um fenômeno unitário, de modo que o pronominal nulo é visto como uma variável na FL, ligada pelo elemento mais próximo em posição A-barra, ou posição não–argumental.

A conclusão do autor é que, embora exista correlação entre concordância e argumentos vazios em algumas línguas, isto é parametrizável. O PB ficaria como uma língua que escolhe a identificação do sujeito nulo por ligação A-barra, o que seria um evidência para colocá-lo ao lado das línguas tipologicamente consideradas como línguas orientadas para o discurso.

Já o objetivo de Kato em "The partial pro-drop nature and the restricted VS order in Brazilian Portuguese" é apresentar uma teoria do parâmetro do SN que associa a perda do sujeito nulo referencial e inversão livre (VOS) no PB à mesma propriedade morfológica do sistema de concordância. Deste modo, a relativa estabilidade do sujeito nulo na terceira pessoa e a construção VS com verbos inacusativos e cópula, ainda observados no PB, são vistos não como fenômenos residuais de um antigo assentamento de parâmetro, mas como parte de uma gramática estável, considerando–se o fato de que a morfologia pode apresentar irregularidades.

O ponto básico de sua análise, embora articulada em termos do programa minimalista (Chomsky,1995), é a retomada do "insight" tradicional de que INFL nas línguas de sujeito nulo é um elemento pronominal ou clítico. Assumindo nos termos de Kato (1999) que clíticos, pronomes e afixos são realizações alomórficas dos traços de concordância, a autora propõe que as línguas escolhem, para a mesma função, uma destas formas para o pronominal nominativo: pronomes fracos livres, clíticos sujeitos ou AGR [+pronominal].

Conseqüentemente, a análise elimina pro como uma categoria descritiva. No entanto, esse não é único traço teórico inovador da análise proposta. De fato, Kato inova ainda ao propor que a flexão de concordância (AGR) é núcleo do DP e não da sentença, associando-se ao verbo como seu argumento. 

A partir dessa hipótese, a autora assume que todo determinante, seja ele um portador de traço de concordância, seja um clítico ou afixo pronominal, aparece como item na numeração e possui traços formais para serem verificados, iniciando a derivação na posição D. Se a língua tem traço D forte em T, atrai tanto os pronomes como os afixos e clíticos. A diferença está em que, enquanto clíticos e afixos se movem como núcleos, adjungindo-se a T, pronomes se movem para Spec,TP. Línguas de sujeito nulo como o espanhol e PE têm afixos de concordância independentes que verificam seus traços em T, de modo que Spec,TP não é projetado; o mesmo acontece com línguas do tipo do Fiorentino e Trentino com sujeitos clíticos. Ao contrário, línguas que não têm sujeito nulo como o inglês e alemão projetam Spec,TP, a posição para onde se movem os pronomes livres.

As mudanças no PB relacionadas à perda do sujeito nulo referencial podem, então, ser vistas como resultantes da perda do sistema de concordância pronominal, identificado como sujeito gramatical. Com esta perda, aparece um paradigma de pronomes nominativos, similar aos pronomes nominativos do inglês. A partir dessa mudança no sistema pronominal, duas outras propriedades passam a se manifestar e a interagir, a saber: a projeção de Spec, TP e um traço D forte em T, motivando as operações sintáticas que derivam, por exemplo, a ordem SVO. Destaque-se que, apesar da distinta história derivacional da construção SVO no PB e PE a nível de TP, a autora sugere para as duas variantes, com base em Nunes (1998b), a possibilidade de pronomes lexicais e DPs sujeitos com Caso Nominativo "default", externos a TP. Estes são interpretados como sujeitos de sentenças categóricas, nos termos do que já tem sido proposto por vários autores.

Outros fatos do PB confirmam a teoria proposta por Kato. Em uma argumentação detalhada a autora mostra que a inovação do sistema pronominal do PB, criando um paradigma de pronomes fracos livres e a projeção obrigatória de Spec,TP, leva à perda da ordem VOS, ou seja, da inversão livre com sujeitos definidos e indefinidos que requerem concordância. Além disso, o estudo envolve comparação com outras línguas para mostrar porque o PB retém uma ordem VS produtiva em construções inacusativas e existenciais, apesar da perda crescente da inversão livre. A suposição básica é a permanência no PB de um expletivo nulo, o qual constitui um afixo neutro de terceira pessoa, o único que ainda pode aparecer como um item independente na numeração. 

O mesmo esforço para entender as manifestações do sujeito nulo no PB está expresso no trabalho de De Oliveira "The pronominal subject in Italian and Brazilian Portuguese". Desta vez, porém, a reflexão coloca em cena os fatos do italiano (IT), na tentativa de explicar o fenômeno da complementaridade entre sujeito nulo e lexical. O objetivo é verificar se a distribuição complementar, considerada por vários autores como obrigatória em línguas de sujeito nulo, poderia ser encontrada em uma língua do tipo do italiano, e se a sua ausência no PB poderia ser usada como evidência para caracterizá-lo como uma língua de sujeito nulo residual.

Os resultados que os dados analisados apresentam parecem sugerir, porém, que essa previsão não se concretiza, uma vez que existem certos contextos em que o pronome lexical é obrigatório no IT. Além disso, observa-se nesses casos de preenchimento uma percentagem maior de sujeito lexical de primeira e segunda pessoas. Ora, estes fatos, levam a autora a concluir que a relação causal entre sujeito nulo e morfologia verbal deveria ser repensada. Pelo mesmo raciocínio, fica descartada a idéia de que a perda do sujeito nulo no PB estaria correlacionado a mudanças no paradigma flexional do verbo.

No entanto, De Oliveira reconhece que, apesar das similaridades entre o IT e o PB, as duas línguas diferem por terem diferentes pronomes na posição de sujeito. No PB, o pronome lexical é fraco, nos termos de Kato acima revistos, refletindo a ausência de AGR [+pronominal]. No IT, o pronome sujeito é forte e coocorre com a flexão pronominal. Isso explica porque os sujeitos plenos do IT podem ser interpretados como tendo uma função enfática.

Como dissemos, o que se convencionou definir como parâmetro do sujeito nulo é um conjunto de propriedades que envolve não só a possibilidade do sujeito nulo, mas também, entre outras, a inversão livre (VOS) e inversão VS. A história das línguas de sujeito nulo mostra, porém, que nem sempre as três propriedades evoluem da mesma forma. No PB, enquanto parece haver um decréscimo paralelo do sujeito nulo e da inversão livre, a ordem VS é ainda produtiva, embora restrita a verbos inacusativos e cópula.

O estudo diacrônico de Andrade Berlinck "Brazilian Portuguese VS order: a diachronic analisys" lida com a inversão verbo/sujeito, apresentan do uma análise quantitativa cuidadosa, com base em um "corpus" que compreende três períodos históricos: séculos XVIII, XIX e XX. Os resultados mostram, por um lado, a perda quase categórica das construções VSO e VOS no PB e, por outro, a perda da sintaxe VS, restrita no estágio atual da língua a verbos inacusativos e auxiliares.

Seus resultados revelam também, quando comparados com estudos feitos no PE, uma importante diferença entre o PB e o PE com relação às construções que apresentam inversão sujeito/verbo. Enquanto ambas as línguas compartilham a construção VS inacusativa, o PE, impõe menos restrições à inversão do sujeito de um modo geral, sendo esta preferida e mesmo obrigatória em certos contextos nos quais ocorrem verbos semanticamente fracos. A conclusão, portanto, é que existe uma efetiva correlação entre inversão livre e sujeitos nulos no PB.

A autora destaca ainda o caráter informacional das construções com inversão do sujeito, revelando a heterogeneidade das mesmas. Assim, o sujeito posposto nas construções VS inacusativas é interpretado como parte do comentário da sentença, não apresentando isoladamente uma função discursiva marcada. Nos mesmos termos, observa-se que somente o sujeito das construções VOS é interpretado como foco sentencial.

Também no estudo de Britto "Syntactic codification of categorial and thetic judgements in Brazilian Portuguese" existe a preocupação de correlacionar as construções com sujeito pós-verbal e sujeito nulo. Assumindo que as línguas naturais codificam sintaticamente julgamentos categóricos e téticos, a autora conclui que o uso freqüente no PB da construção de deslocamento à esquerda com pronome resumptivo (DE), sem a leitura marcada que apresenta em outras línguas, evidencia que o arranjo dos constituintes expressa a codificação do juízo categórico.

Da mesma forma, a ordem SV codifica o juízo tético. A autora considera ainda fatos de ordem comparativa, a partir da afirmação de que, no PE, a codificação dos juízos categórico e tético é feita, respectivamente, pelas ordens SV e VS. Esta comparação lhe permite traçar não só um importante paralelismo entre as duas variantes, como também propor uma derivação sintática deste paralelismo, com base em pressupostos minimalistas, os quais envolvem questões de verificação de Caso e assinalamento de papéis temáticos. 

Britto tem, particularmente, como objetivo estabelecer uma relação entre a análise sintática destas construções e o sistema pronominal que o PB e PE apresentam. Deste modo, o paralelismo interpretativo encontrado entre, de um lado, as construções de DE do PB e construções SV do PE e, de outro, entre construções SV do PB e VS do PE vai ser sintaticamente derivado com base no argumento de que tais construções projetam a mesma estrutura sintática, estando a diferença entre elas na natureza nula do pronome nominativo fraco do PE, e na sua natureza lexical no PB.

No quadro teórico dos Princípios e Parâmetros toda análise lingüística tem a preocupação de proporcionar elementos para uma teoria da aquisição da linguagem. De fato, o nível explanatório só poderá ser alcançado quando se pode responder à pergunta crucial de como a criança acaba por saber os fatos de sua língua. Segundo Raposo (1992), a questão da aquisição da linguagem é central no empreendimento gerativista "...tanto do ponto de vista epistemológico/filosófico como do ponto de vista da teoria gramatical propriamente dita" (p. 28). Uma teoria do sujeito nulo não poderia, portanto, ser diferente.

O texto de Simões "Null subjects in Brazilian Portuguese: developmental data from a case study" representa uma contribuição nesse sentido, uma vez que examina as propriedades do sujeito nulo na aquisição do PB por uma criança de dois anos e meio, ao mesmo tempo que testa teorias da aquisição e teorias do sujeito nulo propostas na literatura corrente. O ponto fundamental é que a autora encontra suporte para a idéia de que, nos primeiros estágios da aquisição, a criança adquirindo o PB exibe uma categoria vazia na posição de sujeito altamente restrita, e que sua fala mostra a atuação da gramática interna no que concerne ao uso dos elementos nulos. Não há evidências em seus dados de que a criança reassenta parâmetros durante o seu desenvolvimento. Ao contrário, as propriedades das sentenças observadas levam à conclusão de que a categoria nula que a criança exibe em sua produção lingüística em contextos referenciais é similar à observada para a linguagem do adulto, de acordo com alguns pesquisadores.

Novas idéias sobre a aquisição estão presentes no estudo de Cyrino, Duarte & Kato "Visible subjects and invisible clitics in Brazilian Portuguese", embora este revele uma perspectiva bastante diferente daquela apresentada por Simões. As autoras retomam a intrigante assimetria no comportamento do sujeito e objeto, observada no estudo diacrônico de Tarallo (1983) no PB e comparam seus resultados com outros estudos que trataram especificamente da distribuição diacrônica dos pronomes nulos e plenos na posição de sujeito e objeto.

A tentativa para explicar a correlação encontrada por Tarallo entre o decréscimo do pronominal nulo sujeito em oposição ao aumento do pronominal nulo objeto parte da constatação de que o estatuto referencial do antecedente é altamente relevante para a pronominalizaçao. Assim, para uma língua que tem a opção de variantes nulas ou plenas, um dos fatores que influencia na escolha de uma forma ou outra é o estatuto referencial do antecedente.

As autoras afirmam que, embora as mudanças na freqüência dos pronomes nulos sujeito e objeto sejam independentes, estão ambas regidas ou condicionadas pela mesma "hierarquia referencial" que mapeia traços-F referenciais com DPs e traços-F não-referenciais com categorias vazias. No quadro dos pronomes pessoais, pronomes fortes são associados com referencialidade e pronomes fracos com referencialidade deficiente. Por exemplo, eu e você são inerentemente humanos, portanto, os mais altos na hierarquia referencial. Os pronomes de terceira pessoa que se referem à proposição são, por sua vez, os mais baixos na escala.

A hierarquia referencial e a distinção forte/fraco dos pronomes proporcionam o mapeamento não-marcado entre a o significado (Forma Lógica) e a forma (Forma Fonológica). Para a aquisição, isso significa que se o "input" exibe sujeitos nulos para entidades altamente referenciais (português europeu), a criança deduz que os sujeitos mais baixos na hierarquia também serão nulos. Se por outro lado, o "input" exibe um expletivo lexical (inglês), a criança vai deduzir que os sujeitos mais altos na hierarquia referencial também serão lexicalizados. A hierarquia não exclui a possibilidade de sujeitos referenciais nulos, mas prevê que não vai ser encontrada uma língua com pronomes referenciais nulos e pronomes plenos não referenciais.

Para concluir, pode-se dizer que o conjunto de artigos da coletânea abrangeu toda uma gama de questões fundamentais relativas ao parâmetro do sujeito nulo no PB. Os principais desafios impostos pelo quadro teórico adotado são enfrentados com grande habilidade pelos autores, a partir de uma argumentação que se alicerçou em bases sólidas de natureza empírica e conceptual. Entretanto, a discussão não ficou restrita ao PB, uma vez que foram trazidos para o centro do debate estudos de natureza diacrônica e sincrônica feitos com outras línguas, enriquecendo a sua base empírica.

Ora, tal desenvolvimento, possibilitou aos autores oferecer uma contribuição importante para a investigação de vários aspectos gramaticais que estão no cerne das discussões gerativistas atuais, principalmente aqueles que estão relacionadas com estrutura de frase, categorias vazias, categorias funcionais e lexicais, traços formais, mapeamento sintaxe-discurso, referencialidade. Além disso, as análises apresentadas não só proporcionam um instrumento para os estudos em aquisição da linguagem, como também têm implicações potenciais para a teoria da variação e mudança sintática.

Sem dúvida, o livro representa um empreendimento notável que será de grande proveito acadêmico para estudiosos do PB e para os que estão envolvidos na investigação da teoria gramatical nos diferentes centros universitários dentro e fora do Brasil.

Também deve-se dar destaque às referências bibliográficas, as quais abrangem uma grande parcela do que se produziu de mais relevante para o tópico discutido.

Note-se, finalmente que os estudos incluídos no volume resultaram do esforço de diferentes gerações de pesquisadores, envolvendo desde uma mestra do porte de Mary Kato até os pesquisadores mais jovens. No entanto, o conjunto não deixou de revelar uma surpreendente polifonia que, na minha opinião, é outro ponto forte a ser destacado.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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