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DELTA: Documentação de Estudos em Lingüística Teórica e Aplicada

versão impressa ISSN 0102-4450versão On-line ISSN 1678-460X

DELTA v.18 n.1 São Paulo  2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-44502002000100005 

RETROSPECTIVA / RETROSPECTIVE

JOHN LANGSHAW AUSTIN E A VISÃO PERFORMATIVA DA LINGUAGEM*

(John Langshaw Austin and the Performative View of Language)

 

Paulo OTTONI**

 

 

ABSRACT: John Langshaw Austin and the Performative view of language. Austin appears on the scene at the exact historic moment in the debates about language and serves as the spokesperson for modern philosophy thereby revolutionizing not only analytic philosophy but also linguistics as an autonomous science. In this article, I call into question the supremacy of logical positivism, via a discussion of the concepts of performative(s), of speech act(s), of uptake as well as the illocutionary acts that are interrelated in a very special way in his writing. I contend in this paper that Austin is a "deconstructor". I consider his approach to language as a "performative view" based on the fact that there exists in his writing a point of conflict that questions the very existence of the borderlines between philosophy and linguistics in the field of language study.
KEY-WORDS:
performative; illocutionary; speech act; uptake; performative view.

RESUMO: Austin surge no cenário da discussão sobre a linguagem num momento histórico preciso e será o porta-voz de todo um processo histórico da filosofia contemporânea ao revolucionar não só a filosofia analítica naquele momento, como também a lingüística enquanto ciência autônoma. Neste artigo, questiono o caminho e a supremacia do positivismo lógico nos estudos da linguagem, procurando analisar qual é o papel de Austin, neste processo, através da discussão dos conceitos de performativo, de ato de fala, de uptake e de ilocucionário que estão vinculados na sua obra de modo muito especial. Parto da hipótese de que Austin é um "desconstrutor". Denomino sua abordagem da linguagem de "visão performativa", pelo fato de haver nas suas reflexões um espaço conflitante que põe em discussão as fronteiras entre a filosofia e a lingüística nos estudos da linguagem.
PALAVRAS-CHAVE: performativo; ilocionário; ato de fala;
uptake ; visão performativa.

 

 

Acredito que a única maneira clara de definir o objeto da filosofia é dizer que ela se ocupa de todos os resíduos, de todos os problemas que ficam ainda insolúveis, após experimentar todos os métodos aprovados anteriormente. Ela é o depositário de tudo o que foi abandonado por todas as ciências, em que se encontra tudo o que não se sabe como resolver.

AUSTIN
Colóquio de Royaumont 1958

 

John Langshaw Austin surge no cenário da discussão sobre a linguagem num momento histórico preciso. Situar e justificar a posição de Austin neste contexto histórico não é uma tarefa fácil, mas, ao mesmo tempo, é fundamental para que se possa ter uma visão da extrema importância de suas idéias e de seus trabalhos sobre a linguagem. É importante dizer, neste início, que Austin é o porta-voz de todo um processo histórico da filosofia contemporânea. Seu surgimento, como procurarei mostrar, parece planejado pela história das discussões sobre a linguagem para se tornar um dos pensadores mais importante de todo esse processo.

O momento histórico preciso do fortalecimento das discussões sobre a linguagem, surgido na Inglaterra pela chamada escola de Oxford, é a década de 40 e mais precisamente o pós-guerra. Austin nasceu em 26 de março de 1911 em Lancaster, e morreu em fevereiro de 1960. No início dos anos 50, coincidentemente, um lingüista norte-americano está propondo a gênese do que vai ser mais tarde um dos maiores empreendimentos lingüísticos na história desta ciência: a sintaxe gerativa. Trata-se de Noam Chomsky. Nesta mesma época, desenvolvia-se, na França, liderado por Emile Benveniste, um importante trabalho sobre a linguagem que tinha a semântica como centro das discussões. É importante lembrar que, na França, além de Emile Benveniste pensadores, como Michel Foucault, Jacques Derrida e Jacques Lacan1, entre outros, começavam a elaborar importantes reflexões sobre a linguagem que vão desembocar nas reflexões denominadas de pós-estruturalista.

Austin revoluciona não só a filosofia analítica naquele momento, como questiona postulados fundamentais da lingüística enquanto ciência autônoma, proporcionando uma gigantesca discussão em torno da filosofia da linguagem. Vai, deste modo, questionar fortemente o caminho e a supremacia do positivismo lógico (ou logicismo) nos estudos da linguagem. O caminho aberto por Austin é o fortalecimento do estudo da linguagem ordinária. Procurarei mostrar qual é o papel de Austin neste processo, e quais as conseqüências deste estudo na filosofia analítica e suas implicações lingüísticas.

Para Austin, que estava inserido na discussão criada a partir das questões surgidas pela dificuldade do uso da linguagem pela e para a filosofia, o objetivo da filosofia analítica é estudar o funcionamento da linguagem antes de estabelecer modelos lógicos, modelos ideais que dêem conta de questões filosóficas. Analisou a linguagem a partir das dificuldades que ela coloca frente a certos procedimentos filosóficos tradicionais. De fato, para muitos filósofos, a linguagem humana cria certas dificuldades para a resolução de questões filosóficas. Subjacente às reflexões de Austin na análise da linguagem ordinária, podemos dizer que são os filósofos, e os lingüistas, que criam dificuldades para o entendimento dessa linguagem. Daí o seu grande interesse em estudar este tipo de linguagem e não se dedicar ao estudo de uma linguagem ideal e formal. O desinteresse de Austin por uma linguagem ideal é um dos pontos principais que toca diretamente a um certo tipo de lingüística e de filosofia. É a partir do estudo de certas dificuldades criadas pela linguagem ordinária que, segundo certos filósofos ou lingüistas, uma palavra não expressa um conceito preciso ou mesmo uma frase não expressa um pensamento claro, isto é, não há uma adequação entre a palavra e o conceito e entre a frase e o pensamento. A questão do sentido, do significado e da referência, para um certo tipo de lingüística e de filosofia, cria um impasse crucial e até certo ponto, insolúvel entre algumas teorias sobre a linguagem. Austin é o filósofo da escola de Oxford que vai abordar esta questão de maneira inédita e é a sua originalidade que vai abalar, como disse acima, certas questões fundamentais da lingüística descritiva e da filosofia tradicional. Não podemos nos esquecer de que a questão do "uso" da linguagem foi amplamente discutida por Ludwig Wittgenstein no Philosophische Untersuchungen (Investigações Filosóficas), publicado em 1953, o que contribuiu para fortalecer posteriormente algumas das discussões propostas por Austin; o empreendimento de Austin, entretanto, foi uma atitude única e original, independente do próprio Wittgenstein. É importante deixar claro que Austin não era o único filósofo da escola analítica de Oxford que procurava resolver questões filosóficas, discutindo a linguagem ordinária: com ele estavam Strawson, Ryle e Hare, entre outros. Mas foi Austin quem introduziu de maneira definitiva os conceitos de performativo, ilocucionário e de ato de fala, conceitos através dos quais deslancha toda a sua argumentação. Estes três conceitos tanto se perpetuaram nas discussões posteriores da filosofia analítica quanto nas da lingüística.

O conceito de performativo, de ato de fala e de ilocucionário estão vinculados na obra de Austin de modo muito especial: um conceito muitas vezes serve para a explicação do outro, havendo uma interdependência entre eles. Esta complementaridade, esta dependência de um conceito pelo outro, é fundamental no interior da sua argumentação2. O seu procedimento é enriquecedor pelo fato de criar uma tensão, a partir da discussão destes conceitos no interior da filosofia e da lingüística. Esta tensão, podemos dizer, cria uma polarização entre a filosofia analítica de Oxford e uma filosofia construtivista que propõe a subordinação da linguagem ordinária, dominando-a em favor dos seus interesses teóricos. Na lingüística, esta tensão divide os lingüistas entre aqueles que vêem a lingüística como uma ciência autônoma que se aproxima cada vez mais dos modelos da ciência exata, e os que fazem de certo modo o caminho inverso e vão em direção à lingüística filosófica.

O que estou chamando de procedimento filosófico de Austin fica evidenciado pelo tipo de análise proporcionada pela filosofia analítica de Oxford que difere da realizada em Cambridge aonde os filósofos, principalmente Wittgenstein e Russell chegaram à filosofia através de um longo estudo das ciências e da matemática. Os filósofos de Oxford, por sua vez, abordam a filosofia partindo de um profundo estudo das humanidades clássicas. No Colóquio de Royaumont, o próprio Austin comenta: que um dos traços característicos que os filósofos analíticos têm em comum, é que eles são na sua maioria formados na tradição das humanidades clássicas, e que o grego e o latim, sem falar de algumas línguas estrangeiras, intervêm freqüentemente nas suas discussões (La Philosophie Analytique, p. 231). Daí, o fato do seu interesse pela a análise lingüística de uma língua por si só e, também, para resolver problemas clássicos da filosofia tradicional.

Esta constatação é, sem dúvida nenhuma, uma das maiores características que define a habilidade deste procedimento filosófico de Austin que foi freqüentemente expresso em seus trabalhos de maneira muito especial. Há uma série de artigos comentando a maneira original como Austin agia em suas conferências, aulas e seminários. Todos os comentaristas foram seus contemporâneos, seja como alunos seja como colegas, são unânimes em afirmar que a personalidade original de Austin se confundia com sua originalidade filosófica, com seu procedimento filosófico. Ele foi, sem dúvida nenhuma, no entre e pós-guerra, o filósofo mais importante de Oxford, como Wittgenstein o foi em Cambridge. Reconhecido e respeitado pelas suas idéias por todos aqueles que o conheceram e tiveram a oportunidade de ouvi-lo e de discutir pessoalmente suas idéias, ele representava toda uma riqueza, uma fertilidade de idéias, fertilidade que proporcionou para a lingüística e para a filosofia um impacto único. Austin é, em si, um "desconstrutor" de uma filosofia tradicional e – por que não? – de uma lingüística tradicional. Este rompimento com o passado está evidenciado pela discussão do performativo e do constativo, do verdadeiro e do falso que é o lugar em que, para ele, se confundem e fundem a filosofia e a lingüística.

Austin apresenta uma nova abordagem da linguagem que chamo de "visão performativa". Nessa visão não há uma preocupação em delimitar as fronteiras entre a filosofia e a lingüística, fato que produz toda a tensão da força do novo, do desconstrutor/construtor.

Dos comentaristas que procuram recuperar a perspicácia e a originalidade de sua vida filosófica, escolhi uma passagem, entre muitas outras, que considero especialmente curiosa. Berlin (1973), um dos seus colegas, comentando a resposta que Austin lhe derá quando fez a seguinte pergunta: Suponha que uma criança expresse a vontade de encontrar Napoleão na batalha de Austerlitz, e eu digo: Isto não pode acontecer, e a criança responde: por que não?; e continuo: Porque isto aconteceu no passado, e você não pode estar viva agora e também há cento e trinta anos atrás e permanecer com a mesma idade; e a criança insistente continua dizendo: Por que não? e eu volto a dizer: Porque isto não faz sentido, como usamos palavras, para dizer que você pode estar em dois lugares ao mesmo tempo ou voltar ao passado, e esta sofisticada criança diz: se é só uma questão de palavras, então não podemos simplesmente alterar nosso uso verbal? Isto me permitiria ver Napoleão na batalha de Austerlitz e também, é claro, estar onde estou agora no lugar e no tempo? Berlin perguntou então a Austin o que dizer a esta criança, que simplesmente ela confundiu os métodos material e formal ao falar? Austin respondeu: Não fale assim. Diga para a criança experimentar voltar para o passado. Diga que não há nenhuma lei contra isso. Deixe-a tentar. Deixe-a experimentar, e ver então o que acontece (cf. p.15-6). Mesmo considerado "exageradamente acadêmico" (over-pedantic), "exageradamente cauteloso" (over-cautions) e insistir em estar sempre "exageradamente seguro" (over-sure) de suas defesas antes de se expor, para Berlin, Austin havia entendido melhor que ninguém o que era a filosofia.

Austin questiona a fronteira entre a filosofia e a lingüística nas suas reflexões sobre a linguagem ordinária, ao discutir sobre a possibilidade de se estabelecer esta fronteira, ele comenta: Onde está a fronteira? Há uma em alguma parte? Você pode colocar esta mesma questão nos quatro cantos do horizonte. Não há fronteira. O campo está livre para quem quiser se instalar. O lugar é do primeiro que chegar. Boa sorte ao primeiro que encontrar alguma coisa (cf. Austin, 1958, p.134). Considero essa resposta uma das maiores contribuições de Austin e também a sua auto-localização histórica: não é possível pensar na linguagem de forma compartimentada, institucionalizada. Sua contribuição teórica justifica a sua própria quebra de barreiras.

Descrever a obra de Austin, tendo em vista a sua argumentação filosófica não é fácil principalmente quando a meta é enfocar de que modo esta obra pressupõe uma nova concepção de linguagem através do fenômeno da performatividade. Por outro lado, é difícil falar das "técnicas" austinianas, em torno do performativo tendo em vista a amplitude e diversidade de sua obra.

A originalidade de Austin está também na estreita ligação entre os seus "procedimentos filosóficos" e seus "procedimentos técnicos", que de certo modo se confundem, ao analisar a linguagem ordinária. Austin não gostava da palavra "metodologia" para falar do seu trabalho, comenta: Quando me perguntam porque faço o que faço, eu fico irritado. Tudo o que posso dizer, da maneira mais insistente, é que a palavra "método" me desagrada. Prefiro muito mais a palavra "técnica", no plural de preferência: "técnicas". ( La Philosophie Analytique, 1962, p.348).

É difícil, na sua argumentação, desvincular suas "técnicas" filosóficas das suas "reflexões". A maneira aparentemente divertida (fun) com que procurou analisar e questionar a linguagem ordinária é seu principal valor. Suas "técnicas" são construídas juntamente com suas descobertas teóricas; quero dizer que o modo de enfrentar, discutir o funcionamento da linguagem é de tal forma "descompromissado" com uma qualquer teoria que o seu "procedimento filosófico", até certo ponto comprometido com suas "técnicas", vai obrigá-lo a retomar e produzir gradativamente uma nova visão da linguagem, a que ele próprio está analisando.

Austin morre com 48 anos em pleno vigor do seu trabalho, fato que incentivou uma divulgação bastante rápida de suas idéias. A repercussão, através da publicação do How to do Thinhs With Words (Quando dizer é fazer – palavras e ação, 1962a) e Sense & Sensibilia (Sentido e Percepção, 1962b), e de alguns dos artigos que compõem o Philosophical Papers3 (1961), passou a ser feita através de recomposições de anotações de seus alunos e colegas. Deste modo, a complexidade de suas idéias passa a ser acrescida de um outro fator que é o da recomposição de seu pensamento. Esta original reflexão sobre a linguagem passa então a ser divulgada, não pela forma que possivelmente Austin a tivesse produzido.4 Os caminhos que suas idéias percorreram foram aqueles que, podemos dizer, Austin consciente e inconscientemente propôs. Se antes tínhamos em Austin uma vida-filosófica original, agora podemos acrescentar que a divulgação de sua obra se deu também desta mesma maneira.

Dois textos refletem e recobrem de modo especial a reflexão e a "técnica austiniana" em torno da performatividade. O primeiro é Other Minds (Outras Mentes) publicado em Proceeding of the Aristotelian Society, em 1946, artigo que propõe o que se pode chamar da gênese da performatividade, que vai a partir daí ser desenvolvida até 1958 quando do aparecimento do texto Performativo-Constativo. Um de seus últimos trabalhos, seu único trabalho em francês que se conhece, e que consolida o que chamo de visão performativa da linguagem.

Diferente dos dois textos, os livros: How to do Things With Words e Sense & Sensibilia foram compostos a partir de anotações de Austin e de participantes de seus seminários e conferências, mostrando a flexibilidade do pensamento na composição de sua argumentação; embora o leitor esteja frente a um texto que não foi "originalmente" composto por Austin, vê nele o exemplo de sua preocupação: a "não linearidade" das questões que ele propõe sobre a linguagem e, ao mesmo tempo a maneira como tudo está "ligado" de modo muito original na sua argumentação. O primeiro livro, reconstituído por M. Sbisà e J. O. Urmson, é resultado de doze palestras proferidas em Harvard em 1955 e de outras durante o curso Words and Deeds que ele ministrou de 1952 a 1954 em Oxford e também das gravações de duas conferências: uma realizada na BBC em 1956 e a outra em Gothenberg em outubro de 1959. O segundo livro, reconstituído por G. J. Warnock é resultado de anotações de suas conferências em Oxford que se iniciaram em 1947, com o título de Problems in Philosophy, e também de uma série de anotações feitas em 1948 e 1949; e, ainda, de uma outra série de anotações redigidas em 1955 e em 1958 para o curso na Universidade da Califórnia (em Berkeley), uma vez que o curso Sense and Sensibilia foi ministrado pela última vez, em Oxford, no segundo trimestre de 1959.

Vejamos como Austin, de maneira ao mesmo tempo cuidadosa e descontraída, inicia os dois livros:

Nestas aulas, vou discutir algumas doutrinas conhecidas (a esta altura talvez nem tanto) acerca da percepção sensível. Receio que não cheguemos ao ponto de decidir da verdade ou falsidade dessas doutrinas; na verdade, porém, essa é uma questão que não pode ser decidida, pois ocorre que todas essas teorias querem abarcar o mundo com as pernas. (Austin 1962b, p.7)

O que tenho a dizer não é difícil, nem polêmico. O único mérito que gostaria de reivindicar para esta exposição é o fato de ser verdadeira pelo menos em parte. O fenômeno a ser discutido é bastante difundido e óbvio, e não pode ter passado despercebido pelo menos em algumas instâncias. Entretanto, ainda não encontrei quem a ele tivesse se dedicado especificamente. (Austin 1962a, p. 21)

Este jeito descontraído (fun) que Austin apresenta já no início de suas conferências é uma maneira engenhosa de levantar polêmicas e de deixar claro que nas suas discussões sobre a linguagem, não estava preocupado, como coloquei anteriormente, com as "fronteiras institucionais" de suas técnicas e reflexões. Não há fronteiras e nem linearidade no interior de sua própria obra5, do seu pensamento dificultando a delimitação certos conceitos da sua obra, fato este positivo e que vejo como uma postura polêmica e de indiscutível valor para as discussões sobre a linguagem. Em muitos casos, a delimitação desses conceitos, só será possível através de uma lingüística descritiva, lingüística esta que não incorporou a quebra de barreiras filosóficas e lingüísticas proporcionadas por Austin. Daí as diversas interpretações que não conseguem delimitar e nem distinguir o conceito de performativo dos outros conceitos relacionados: o ilocucionário e ato de fala.

As discussões iniciais sobre a performatividade aparecem ligadas à discussão da certeza de se saber algo, certeza sobre a qual Austin desenvolve toda uma argumentação que desemboca na crítica à falácia descritiva; já que a linguagem não é puramente descritiva mesmo quando se diz eu sei (Austin 1946, p.38). Segundo ele, há circunstâncias nas quais não descrevemos a ação, mas a praticamos. Com isto Austin descarta a possibilidade de se ver o performativo como um objeto lingüístico que possa ser analisado empiricamente como qualquer objeto de natureza física. Insisto no princípio de que Austin na sua argumentação desvinculou suas "técnicas" de qualquer fronteira entre o lingüístico e o filosófico, possibilitando, a quebra da distinção entre performativo-constativo; a performatividade adquire, então, um estatuto único ao ser analisada no interior dos estudos da linguagem. A cisão sujeito e objeto não se sustenta mais numa visão performativa; ela não possibilita estabelecer uma fronteira entre o "eu" e o "não eu". Esta característica na argumentação de Austin é o lugar de confronto que possibilita redimensionar, através da fusão de seus "procedimentos filosóficos" e de suas "técnicas de análise da linguagem ordinária", de modo decisivo a relação sujeito-objeto, nos estudos da linguagem.

Quero dizer que a separação sujeito-objeto que é característica fundamental de uma ciência (da linguagem) de base descritiva e formal foi combatida por Austin. Podemos dizer que, na visão performativa, há inevitavelmente uma fusão do sujeito e do seu objeto, a fala; por isso, as dificuldades de uma análise empírica em torno do performativo; além disso, conceber o performativo como um objeto de análise lingüística independente de uma concepção de sujeito está fadado, neste caso, ao fracasso.

Esta preocupação Austin procurou mostrar ao longo de sua obra: a relação da fala com seu uso por um sujeito. A fusão sujeito e objeto na análise da linguagem, e conseqüentemente da linguagem ordinária, pode ser verificada também a partir da análise que Austin fez sobre a sensação, sobre a percepção humana, que tratarei mais à frente.

Um acontecimento fundamental no pensamento austiniano é o fato de que após o abandono da distinção performativo-constativo (cf. Austin, 1958), ele continua a empregar o performativo para denominar toda "fala" humana. É neste momento que há uma tensão na sua argumentação, não há mais separação entre sujeito e objeto, não há mais volta, não há mais possibilidade de acordo com seus antecessores, e opositores, que analisam a linguagem através somente de certas marcas lingüísticas6. Esta atitude, da grande maioria dos estudiosos da linguagem, se reflete de maneira estanque na análise dos atos de fala, do ilocucionário e do performativo enquanto teorias independentes. Há uma relação entre estes três conceitos no interior da sua argumentação; mas não se pode dizer que há de fato uma relação de complementaridade no sentido de um estar ligado ao outro de modo linear, ou de um se definir pelo outro. O que há é um desdobramento destes conceitos no interior da sua argumentação. Há toda uma força histórica no interior das discussões sobre a linguagem que justifica a análise e o aparecimento da performatividade num determinado momento7.

Esse momento pode ser analisado através de um outro trabalho de Austin sobre a linguagem ordinária, que questiona um postulado, um monumento filosófico pouco combatido antes dos primeiro trabalhos dos filósofos analíticos: as noções de verdade e falsidade. Vejamos no seu artigo Truth, de 1950, como ele colocava esta questão: para ser realizado muitos enunciados que têm sido tomados como afirmações (...) não são de fato descritivos nem susceptíveis de serem verdadeiros ou falsos. Quando uma afirmação não é afirmação? Quando é uma fórmula de um cálculo: quando é um enunciado performatório [performatory]: quando é um julgamento de valor: quando é uma definição: quando é parte de um trabalho de ficção – há muitas sugestivas respostas. (...) É uma questão para ser decidida até quando podemos continuar denominando tais afirmações de mascaradas, simplesmente, e como nós podemos amplamente estar preparados para estender o uso de 'verdadeiro' e 'falso' em 'diferentes sentidos' (p.131).

Ao questionar a categoria afirmação (statement), Austin também questiona o emprego das noções da verdade e de falsidade. Esta atitude vai ser fundamental mais tarde ao afirmar no início do Performativo-Constativo que: Pode-se muito bem fazer uma idéia do enunciado performativo, termo, sei disso, que não existe na língua francesa, nem em outros lugares. Esta idéia foi introduzida para contrastar com a do enunciado declarativo, ou melhor, como chamarei, constativo. Eis aí o que questionarei. Esta antítese performativo-constativo, devemos aceitá-la? O enunciado constativo tem, sob o nome de afirmação tão querido dos filósofos, a propriedade de ser verdadeiro ou falso. Ao contrário, o enunciado performativo não pode jamais ser nem um nem outro: tem sua própria função, serve para realizar uma ação (p.111). À medida que Austin opõe, num primeiro momento, o enunciado constativo ao performativo fazendo uma distinção entre o verdadeiro e o falso, ele já tinha em mente todo o ataque que faria ao enunciado constativo.

Austin assume que nas afirmações é possível encontrar as propriedades verdadeiro ou falso, e que estas propriedades não serão encontradas nos enunciados performativos. É interessante observar de que modo a questão da referência, da relação linguagem-mundo, está presente na sua afirmação. Nos enunciados constativos há, "filosoficamente", um tipo de referência; já nos enunciados performativos, esta mesma noção "filosófica" não pode ser aplicada, porque estes últimos, segundo ele, realizam uma ação, e aqui a referência é de outro tipo. Neste momento, o performativo deve ser pensado de outro modo. Este performativo poderá ser feliz se for realizada a ação pretendida, será infeliz se esta ação não se realizar. As infelicidades mais específicas do performativo são: (a) a nulidade (ou sem efeito) quando o autor não está em posição de efetuar tal ato, quando não consegue, formulando seu enunciado, completar o ato pretendido; (b) o abuso da fórmula (falta de sinceridade) quando se diz: eu prometo, por exemplo, sem ter a intenção de realizar a ação prometida; (c) a quebra de compromisso quando se diz eu te desejo boas vindas, por exemplo, tratando no entanto o indivíduo como estranho.

Para Austin o ato de fala é composto de três partes, três atos simultâneos: um ato locucionário, que produz tanto os sons pertencentes a um vocabulário quanto a articulação entre a sintaxe e a semântica, lugar em que se dá a significação no sentido tradicional; um ato ilocucionário, que é o ato de realização de uma ação através de um enunciado, por exemplo, o ato de promessa, que pode ser realizado por um enunciado que se inicie por eu prometo..., ou por outra realização; por último, um ato perlocucionário, que é o ato que produz efeito sobre o interlocutor. Através destes três atos, Austin faz a distinção entre sentido e força, já que o ato locucionário é a produção de sentido que se opõe à força do ato ilocucionário; estes dois se distinguem do ato perlocucionário, que é a produção de um efeito sobre o interlocutor. Neste breve resumo das distinções no interior do ato de fala, podemos perceber que a questão da referência é tratada de modo bastante diferente da noção mais tradicional que produz uma relação biunívoca entre linguagem e mundo. Posso dizer eu prometo... e produzir, consciente ou inconsciente, por exemplo, uma ameaça; ou seja, não há mais lugar para fazer uma distinção entre sentido e significado das palavras quando se trata da performatividade.

Retomando a questão da originalidade do pensamento de Austin, um outro conceito é fundamental para a sua compreensão, o de ação. Ação8, para Austin, tem um significado muito preciso pelo fato de ser um dos elementos constitutivos da performatividade. Para ele, a ação é uma atitude independente de uma forma lingüística: o performativo é o próprio ato de realização da fala-ação.

Se o performativo realiza uma ação através de um enunciado, que é a realização de um ato de fala, como chega Austin a desfazer a distinção, proposta inicialmente, entre o performativo e o constativo? Segundo Austin, há duas formas normais para a expressão do performativo: 1 – no início do enunciado há um verbo na primeira pessoa do singular, no presente do indicativo, na voz ativa, por exemplo, Eu te prometo que...; 2 – há um verbo na voz passiva, na segunda ou terceira pessoa do presente do indicativo; esta é a forma encontrada, sobretudo nos enunciados emitidos por escrito; por exemplo: os passageiros estão convidados a utilizar a passarela para atravessar as pistas. Ele chega à conclusão de que há outros performativos que não são expressos nestas formas normais, como: Feche a porta ou a palavra cão; podendo ser explicitados, por exemplo, como: Eu te ordeno que feche a porta e Previno-o que o cão vai atacar.

Para tentar responder à pergunta acima, da quebra da distinção inicial entre o performativo e o constativo, devemos voltar e rever o desdobramento dos atos de fala. Os atos ilocucionários, que são convencionais, possibilitam a existência de enunciados performativos sem que seja possível identificar uma forma gramatical para eles; ou seja: são regras convencionais que dão condições para que tal enunciado em tal situação seja ou não performativo, realize ou não uma ação. Daí, Austin concluir que uma afirmação pode ser um performativo. Podemos dizer que por detrás de cada afirmação há uma forma não explicitada de um performativo, um performativo mascarado. A explicitação desta forma gramatical será sempre a utilização da primeira pessoa do singular e do verbo no presente do indicativo. Por exemplo, se digo: "ele é um péssimo indivíduo" isso pode, dependendo do lugar em que está sendo dito, ser interpretado de várias maneiras, ter vários "implícitos performativos". Pode, por exemplo, ser explicitado como: "eu afirmo que ele é um péssimo indivíduo" ou "eu imagino que ele é um péssimo indivíduo". Um fato interessante de se observar é que, para dar as condições de performatividade de um enunciado, Austin identifica um enunciado com um "sujeito falante" para que possa praticar uma ação. Neste momento temos a afirmação, o constativo. "ele é um péssimo indivíduo", por exemplo, no mesmo nível dos performativos e, por isso, podendo ser feliz ou infeliz. As afirmações agora não só dizem sobre o mundo como fazem algo no mundo. Não descrevem a ação, praticam-na.

Este salto, que desfaz a distinção entre performativo-constativo produz uma visão de linguagem que não é mais idêntica à utilizada na distinção anterior entre o performativo e o constativo. Esta visão produz, como já foi dito, uma virada brutal na questão da referência; ou seja, verdade e falsidade são conceitos que não terão mais um papel relevante nem prioritário para Austin. A partir deste momento podemos falar de uma visão performativa, na qual o sujeito não pode se desvincular de seu objeto fala e, conseqüentemente, não é possível analisar este objeto fala desvinculado do sujeito.

Certas discussões das reflexões austinianas sobre a performatividade geram muitos tensões e impasses. Quero dizer que há uma questão fundamental envolvendo a performatividade à qual teorias dos atos de fala, não proporcionaram um melhor entendimento, já que estas teorias pressupõem e defendem concepções de linguagem diferentes daquela subjacente às idéias de Austin já que o que aparece no interior destas reflexões procuram separar a "lingüística" da "filosofia"; por isso, acho importante relembrar, mais uma vez, a afirmação de Austin de que não há fronteira lingüística ou filosófica quando se trata de analisar a linguagem ordinária. É a partir desta postura vou resumidamente analisar uma polêmica que envolve diretamente essa questão.

Essa polêmica tem uma especificidade, a de evidenciar a dura reação de Benveniste (1963) às propostas, à argumentação de Austin. Para Benveniste há uma divisão muito nítida entre a filosofia analítica e a lingüística quanto à questão da performatividade. O fenômeno da performatividade, segundo Benveniste, pode favorecer um bom relacionamento entre estas duas áreas que estudam a linguagem, se cada uma delimitar claramente o que pretende analisar deste fenômeno. Esta é justamente a postura que a performatividade austiniana não proporciona. Benveniste julga necessário manter a distinção performativo-constativo; segundo ele, há critérios formais que legitimam esta divisão. Esta tensão coloca, então, um impasse insolúvel. Mas é a performatividade que serve tanto como fator de aproximação para Benveniste criticar Austin, quanto de distanciamento, de discordância entre os dois. Podemos nos perguntar: que fatores envolvem a performatividade, que põem em confronto duas visões tão distintas de linguagem?

A performatividade serve como uma "espécie de espelho" através do qual Benveniste (1958) procura refletir sua própria concepção de linguagem, que está presente na sua concepção da subjetividade na linguagem e que cuja abordagem teórica é bastante distinta daquela utilizada por Austin, não admite que possa haver subjacente às reflexões sobre a performatividade de Austin uma outra visão de linguagem. Quero dizer que Benveniste fica no nível do enunciado, "do lingüístico", e não faz referências ao processo de elaboração da performatividade no interior da argumentação de Austin; sua abordagem se utiliza da performatividade de maneira estanque. Austin utiliza-se de enunciados performativos da linguagem ordinária para argumentar, para elaborar uma nova visão da linguagem, enquanto que Benveniste utiliza-se de enunciados performativos como exemplos, como dados empíricos para fortalecer uma abordagem específica da linguagem, neste caso, a da subjetividade.

Podemos dizer que os conceitos de ato de fala, performativo e ilocucionário são analisados de maneiras tão diferentes e divergentes quantas são as "teorias" que estudam a linguagem. Estes conceitos sofrem constantes redefinições, e a flexibilidade "teórica", para muitos estudiosos que trabalham com a linguagem, serve mais para eles explorarem suas próprias áreas de pesquisa do que discutir as reflexões de Austin.9

Dito de outro modo, a possibilidade de, com esses conceitos, se discutir questões ligadas às várias teorias que estudam a linguagem é profundamente enriquecedora; mas, esta atitude deve ser vista com uma certa cautela porque pode fugir demasiadamente da proposta austiniana. Acredito que a riqueza contida nos conceitos de ato de fala, performativo e ilocucionário é originária das discussões que Austin desenvolveu, sobretudo com relação à performatividade. Por um lado, as "teorias" baseadas nestes conceitos não devem deixar de lado a performatividade, já que é em torno deste acontecimento que se produzem divergências marcantes; por outro, Austin "não formalizou" estes conceitos a ponto de se poder identificá-los no interior de uma "teoria".

Por que "teorias dos atos de fala" produzem tantos desentendimentos com relação à performatividade? Uma resposta breve e simples seria dizer que as "teorias" dos atos de fala, performativo e ilocucionário não levam em conta o que venho chamando de visão performativa. Esta rápida resposta justifica, também, que ao longo destes anos uma enorme quantidade de trabalhos tenha sido produzida e divergências tão profundas tenham aparecido e apareçam, a cada dia, na discussão dos atos de fala do performativo e do ilocucionário.

Como pode uma reflexão sobre a linguagem ser tão abrangente? Esta amplitude de questões por um lado pressupõe que, se for possível uma só resposta, esta deverá ser suficientemente ampla para abranger os divergentes "interesses teóricos"; por outro lado, esta diversidade de abordagem das propostas austinianas, de certo modo, aproxima as várias áreas que estudam e analisam a linguagem. Portanto, deve haver "algo" subjacente às reflexões de Austin que dê conta desta amplitude. Parto do princípio de que esta amplitude se deve a três fatores interligados de modo muito específico. Inicialmente, há uma maneira especial de encarar o relacionamento dos conceitos de ato de fala, performativo e ilocucionário, já que Austin não fez uma análise global e nem um desdobramento sistematizado destes três conceitos. Em seguida, a relação destes conceitos pode dar conta de uma doutrina geral de que fala Austin, mas partindo de uma visão performativa; e finalmente, podemos dizer que esta visão performativa mantém certas relações com a percepção humana; isto é, há, subjacente à doutrina ao mesmo tempo completa e geral da linguagem (cf. 1958, p.121), para a qual Austin chamava a atenção, algumas aproximações com o fenômeno da percepção humana. Estes três fatores mostram a abrangência e a complexidade das reflexões austinianas e podem servir para discutir e explicar, ao mesmo tempo, as abordagens diferentes, conflitantes e contraditórios das propostas de Austin.

Em Royaumont, respondendo a uma pergunta que colocava a possibilidade de haver uma "lógica formal dos enunciados performativos", Austin (1958) comenta: Pode haver uma lógica formal dos enunciados performativos? Seria tentado a dizer: sim. Mas com esta reserva, todavia, penso que seria preciso que estejamos muito seguros de saber o que entendemos por enunciados performativos, o que supõe de antemão um inventário muita mais detalhado e minucioso que este que indiquei brevemente na minha exposição. Neste caso, e neste caso somente, em posse de um inventário e de uma definição, poderemos em caso de necessidade encarar a formalização de uma lógica dos enunciados performativos, ou ao menos em certos tipos, ou famílias de expressões deste gênero. E ainda, teríamos um trabalho considerável para desenvolver antes de chegar a alguma coisa de utilizável sobre certos pontos (p.144).

O conceito de ato de fala sofre tentativas de formalização dentro de uma "teoria"; uma vez que Austin no seu texto Performativo-Constativo ao falar do ato de fala em duas passagens lembra sempre a necessidade de encará-lo como algo mais geral, como uma doutrina que dê conta do que se faz ao dizer alguma coisa. Também no início na última conferência (1962a, p.148), ele faz a seguinte afirmação: O ato de fala total na situação de fala total é o único fenômeno que, em última instância, estamos procurando elucidar (p.148). Destaco este fato para lembrar que não é por acaso que Austin relaciona o ato de fala ao ato de fala total na situação de fala total para o momento ainda a ser revelado. Deste modo, podemos dizer que há uma ordem que não aparece por acaso. Há o performativo que é o fenômeno central, seguido de um desdobramento através do ilocucionário e, finalmente, o ato de fala total como algo a ser desvendado.

Há, segundo Austin, três maneiras de distinguir o ato ilocucionário do perlocucionário: assegurar sua apreensão (securing uptake), tem efeito (taking effect) e levam a uma resposta ou seqüela (inviting a response) (1962a, p.100). Destas três, a primeira é a mais importante, uma vez que com o uptake10 fica mais claro que a referência que vai estar diretamente ligada ao momento da enunciação, não se dá mais ao nível constativo da linguagem, mas numa concepção performativa; ou seja, no momento em que há o reconhecimento entre os interlocutores de que algo está assegurado, de que o "objetivo ilocucionário" foi realizado através de sua "força". O uptake, enquanto uma relação entre interlocutores por meio da linguagem, está próximo do jogo de linguagem já que não há regras nem critérios formais definitivos que possam descrevê-lo. Austin comenta: Assim a realização de um ato ilocucionário envolve assegurar sua apreensão [uptake ] (p.100). E mais à frente afirma: a referência depende do conhecimento que se tem ao emitir o proferimento  [utterance ] (cf. p.119). Esta nova noção de referência tem que passar pelo "eu" para se constituir como linguagem, para realizar uma ação.

Uma das características importantes da reflexão sobre a performatividade é, então, a questão do eu-sujeito e a sua relação com o uptake11, que estabelece uma nova concepção de referência e de intencionalidade.

O "eu" aparece nas reflexões austinianas como uma "entidade extralingüística", isto é, um sujeito que pode empiricamente casar, batizar um navio, etc., realizando um ato de fala, mas somente se for o sujeito adequado para isto; o ato em si, de fala, não é ele sozinho suficiente para realizar esta ação. Em seguida, este "eu" passa a se fundir com a linguagem, a fazer parte integrante dela. O "eu", expresso através do pronome sujeito do presente do indicativo, ao falar, realiza uma ação por intermédio do ato de fala; este "eu" é agora qualquer sujeito no mundo. Para Austin, qualquer enunciado tem implicitamente um sujeito, um "eu" que produz a fala; o significado depende do sujeito e do momento da sua enunciação. Austin parte de um "eu" com a linguagem e chega a um "eu" na linguagem e da linguagem. O "eu" não tem sozinho o domínio da significação: ele se constitui no momento de sua enunciação, na interlocução. Para este "controle" do significado, Austin utiliza o conceito de uptake. O "eu" não deve mais ser confundido com o "sujeito" falante empírico, uma vez que é só através do uptake que se constitui o "sujeito".

Uma das dificuldades de compreensão deste momento crítico da proposta de Austin está localizada na questão da intencionalidade e sua relação com a significação. Não é possível mais (1962a, p.95-102) falar de uma intenção do sujeito (falante), já que esta intenção não é e não pode ser mais unilateral. Austin, com a noção de "uptake", subverte a sua própria teoria até então calcada no papel centralizador do sujeito falante.

Com relação a importância que desempenha o uptake na sua argumentação, podemos dizer que em qualquer situação de fala não há um "controle" do sujeito (falante) sobre sua intenção, já que ela se realiza, juntamente e através do uptake (com seu interlocutor). O uptake é então uma condição necessária do próprio ato (de fala), e é ele que produz o ato. Nunca deixaremos de atribuir uma intencionalidade num ato (físico), uma vez que este não poderá ser isolado de uma intenção, já que pode haver situações inesperadas, não-tencionadas pelo sujeito. É através do uptake que há um descentramento do papel do sujeito falante.

Deste modo podemos dizer que o uptake numa versão branda é o lugar onde se complementam o "eu" e o "tu", onde se assegura a fala12. Numa versão mais forte, o uptake é o lugar do desmantelamento da intenção, o caminho próprio da desconstrução.

Num caminho oposto ao que expus, John Searle (1973) faz uma leitura única da obra de Austin. Ele produz uma descrição lógica do ato de fala criando a fórmula F(p), que representa as tradicionais noções de verdade e falsidade, sendo que "F" representa a força ilocucionária e "p" o conteúdo proposicional. Searle deixa de lado assim, o que considero a contribuição mais importante de Austin que foi abrir um campo de reflexão não centrado apenas numa abordagem formalista ou positiva da linguagem. Com a noção de uptake se estabelece entre os dois uma distância e uma discordância bastante significativa. Searle, de certo modo, pretende ser "fiel" a Austin, mas não percebe o efeito corrosivo que a noção de uptake provocou nas reflexões austinianas sobre os atos de fala. O papel de Searle é ambíguo: se, por um lado, ele tem o mérito de ter introduzido as idéias de Austin no interior das discussões da ciência lingüística, por outro, podemos dizer que ele descaracterizou demasiadamente estas idéias, desvirtuando-as de maneira definitiva. Searle, enquanto filósofo da linguagem, é considerado, apesar das diferenças, o sucessor de Austin por ter desenvolvido, nestes últimos trinta anos, uma teoria dos atos de fala. Na realidade, o caráter inovador das propostas de Austin, como tenho insistido, proporciona inegavelmente várias interpretações e a de Searle é apenas uma delas. Muitos estudiosos, dada a influência searliana ao tratar dos atos de fala e do ilocucionário, não percebem a diferença entre Searle e Austin, não fazendo distinções entre eles, o que deve ser encarado com uma certa cautela por comprometer profundamente as reflexões de Austin.

Voltando à questão da subversão que se opera no pensamento austiniano a partir do conceito de uptake, torna-se pertinente aproximar esta questão do que Felman (1980a) afirma, ou seja, de que não há uma simetria perfeita entre sentido e referência, e nem entre enunciado e enunciação em Austin, mas, ao contrário, é da assimetria que procede o pensamento de Austin, do excesso da enunciação em relação ao enunciado, da "força da enunciação" como um resto – referencial – do enunciado e do sentido (p.108). O que, em última instância, significa que esta assimetria rompe com a intenção, isto é, não dá conta exata (simétrica) entre a intenção do sujeito falante e a do seu interlocutor, contrariamente ao que pensa Searle. Esta não exata simetria é o lugar das situações inesperadas, não-tencionadas, inconscientes, indispensáveis para que se constitua um "eu-sujeito". Não há uma "lógica", no sentido transcendental do termo, que possa identificar o sujeito a não ser através da ação, da sua fala, da sua performatividade.

A argumentação minuciosa e detalhada do livro Sense & Sensibilia mostra mais uma vez a originalidade e a maneira pela qual Austin rompe com a filosofia de sua época ao estabelece relações entre a linguagem e a percepção humana e como elas contribuem para a visão performativa. Neste livro, ele chama a atenção para um exemplo de Wittgenstein no qual uma imagem ou um diagrama pode ser concebido de maneira especial de modo que pode ser visto de várias maneiras: como um pato ou um coelho, como uma figura convexa ou como uma figura côncava13 ou ainda de qualquer outro modo; e afirma que: Diferentes maneiras de dizer o que se vê serão, com bastante freqüência devidas não apenas a diferenças de conhecimento, sutilezas de discernimento, disposição a correr riscos ou interesse por este ou aquele aspecto da situação total; podem dever-se ao fato de que aquilo que se vê é visto diferentemente, visto de uma maneira diferente, visto mais como isto do que como aquilo. E, às vezes, não existirá uma maneira certa de dizer o que se vê, pela razão adicional de que talvez não exista uma única maneira certa de vê-lo ( 1962b, p.135). Austin está dizendo que na descrição do que se vê está presente uma das várias maneiras do que foi visto, e não pode ser a correta já que há várias maneiras de ver e conseqüentemente de descrevê-las; isto nos remete ao conceito de uptake.

Em outras duas passagens, Austin coloca a questão da referência, de modo semelhante ao que desenvolve no How to do Things with Words. Ele comenta que, se tomarmos uma boa parte de frases impecavelmente bem formadas numa ou outra língua, não vem ao caso classificá-las como frases verdadeiras ou frases falsas; pois (deixando de fora os chamados enunciados 'analíticos') a questão da verdade ou falsidade não depende somente de saber o que é uma frase nem mesmo do que significa, mas, falando de modo geral, das circunstâncias em que se deu seu enunciado. Enquanto tais, as frases não são verdadeiras ou falsas (1962b, p.147). Em seguida afirma que: se vejo um homem atirar em outro, posso oferecer meu depoimento (evidence), como testemunha ocular, às pessoas que não se achavam tão bem colocadas como eu; mas não tenho evidências para a minha afirmação de que houve um disparo, de que realmente o vi. De novo, então, verifica-se de que devemos levar em conta não apenas as palavras usadas, mas a situação em que são usadas (1962b, p.152).

Verificamos aqui a relação entre a referência e a percepção, uma vez que a maneira de se ver mantém relações com as circunstâncias que envolvem a enunciação. Podemos dizer, assim, que o sujeito vai se constituir não somente através das palavras, mas também das circunstâncias nas quais elas são empregadas. Dito de outro modo, numa versão mais forte da visão performativa o que vai importar não é o que o enunciado ou as palavras significam, mas as circunstâncias de sua enunciação, a força que ela tem e o efeito que ela provoca.

Volto a dizer que as reflexões de Austin estão mais distantes de favorecer uma abordagem positivista, no universo empiricista da ciência lingüística e da filosofia tradicional. Para um entendimento de Austin temos que ultrapassar as barreiras destas duas disciplinas e utilizar outras áreas de estudo que nos permitam ter, produzir, segundo ele, uma doutrina, uma teoria geral e completa que dê conta do que se faz ao dizer alguma coisa, isto é, do que ele chamou de ato da fala. Com isto ele não estaria querendo dizer que a relação entre ver (perceber o mundo) e dizer (sobre o mundo) é um fator decisivo para esta doutrina geral, doutrina esta que rompe com as distinções entre linguagem e corpo e sujeito e objeto. Austin soube, como ninguém, discutir ao mesmo tempo a linguagem humana e o humano, como ninguém mostrou que a linguagem não se distancia do humano, do corpo, e, de maneira exemplar, mostrou como o corpo e a linguagem se fundem.

Temos, então, o encontro entre o sujeito e o objeto, entre o corpo e a linguagem; e conseqüentemente, a grande dificuldade de se estabelecer parâmetros positivos para identificação e para análise do fenômeno da performatividade. A sua intuição e o seu desejo de romper com a postura tradicional frente à linguagem falou mais alto que sua postura científica (ou até lógica), atitude que ele tinha como escolha. É questionável esta tendência em fazer uma aproximação empírica e positivista que, em muitos casos, é imposta às reflexões austinianas, uma vez que ele procurou fazer justamente o contrário, apesar das insistências de vários de seus comentaristas.14

Rajagopalan (1990b) comenta que não é de se estranhar que Austin de fato compartilhasse com Frege a tese central deste grande gênio, de que é o sentido que determina a referência e não o contrário. E continua: Trocando em miúdos, é possível sustentar que o trabalho de Austin, ao mesmo tempo em que evidencia sinais de franco descompasso com a linha logicista traçada por Frege, constitui-se em uma continuação do projeto fregeano muito além, é claro, do vislumbrado pelo ilustre antecessor alemão (cuja obra-prima, lembre-se, foi o próprio Austin quem traduziu para o idioma inglês). Ora, tudo isso nos dá uma nova perspectiva para encarar a leitura desconstrutiva que Derrida faz da própria obra de Austin: perseguição implacável da meta austiniana além do ponto efetivamente alcançado pelo próprio Austin. Ou seja, se Austin faz uma leitura fregueana de Frege, Derrida [1972] mostra como é relativamente fácil fazer uma leitura austiniana de Austin, mostrando ao texto de Austin, o seu "ponto cego", o momento crítico, onde o autor demonstra sinais de não querer cumprir sua promessa e opta por não "ver" as consequências mais "lógicas" do seu próprio projeto. O mérito de Derrida consiste justamente em mostrar a fragilidade do empreendimento estruturalista (com o qual a filosofia analítica tem, a despeito das aparências ao contrário, ligações estreitas – cf. Norris, 1984). Quem tematiza tal fragilidade é Richard Rorty (1982), para quem o pragmaticismo está caminhando sem retorno exatamente em direção a um desmoronamento até chegar a tal ponto em que, segundo este autor, a atividade filosófica deve se desembaraçar de vez de toda a sua aspiração emancipatória para começar a cultivar uma espécie de, quem sabe, "niilismo ativo" no dizer de Lyotard (pp. 245-247).

Este comentário sugere uma série de questões muito importantes, na medida em que coloca em xeque grande parte do empreendimento austiniano enquanto uma postura inovadora e única na história da filosofia e da lingüística contemporânea. Que se possa fazer uma leitura desconstrutivista de não importa qual seja o texto, e se chegar a uma posição crítica que justifique essa leitura é fundamental para o entendimento das reflexões de Austin, como faz Derrida, citado por Rajagopalan, no comentário acima, mas o que não concordo é com a generalização desta afirmação. Considerando que o pensamento de Austin não é uniforme, há uma técnica que se repete em alguns textos, mas não é uma característica que pode ser tomada em termos absolutos, Rajagopalan afirma que Austin opta por não ver as conseqüências mais lógicas do seu próprio projeto. Na verdade, essa opção se baseia no fato de sua obra se caracterizar por pontos críticos dos quais ele tinha consciência dado o seu rompimento, o seu momento de transição nos estudos da linguagem; por isso, não considero fácil fazer uma leitura austiniana de Austin.

Austin questionou e mostrou o "ponto crítico" da filosofia tradicional através de suas técnicas de análise da linguagem ordinária fazendo um questionamento da atuação de uma ciência lingüística empírica e de uma filosofia tradicional. Ao romper com uma visão positivista da linguagem, teve que partir de certas "influências e pressupostos" para poder "dialogar", para "falar" com seus opositores (o seu oposto). E é justamente neste ponto que, Derrida15 se aproxima de Austin e o desconstrói. Aceito a proposta desconstrutivista para um momento específico, um "estágio" do pensamento austiniano como faz Derrida. Daí, generalizar este "momento crítico" para toda a reflexão de Austin, considero uma postura um tanto apressada, como faz Norris (na citação acima), ao identificar a filosofia analítica com o estruturalismo.

Austin enquanto um "filósofo analítico inglês" tem um projeto sobre a linguagem que vai além do projeto wittigensteiniano, como afirmei no início, já que as reflexões de Austin atingem várias áreas de estudo da linguagem, enquanto que Wittgenstein fica restrito a um "mundo filosófico" na tentativa de dar conta deste mundo. É inegável que haja algumas semelhanças entre Wittgenstein e Austin. Entretanto podemos fazer uma distinção, entre eles, que está próxima à distinção que Ruby (1990) faz entre os pós-modernos e os neo-modernos. Estes, por sua vez, dentro os quais se localiza Wittgenstein, procuram recuperar uma modernidade inacabada (modernité inachevée), identificando-se com a universalidade e a razão moderna (pp.151-154). Aqueles, no qual incluo Austin, rompem com uma cultura anterior (a moderna): eles não se apóiam numa cultura conservadora, já que "a pós-modernidade se fecha num pensamento e numa atividade que não consistem em nada mais do que um desarranjo da modernidade (p.17).

A visão performativa, que reflete a amplitude do pensamento austiniano é, de certo modo, uma postura pós-moderna frente à linguagem e que pode ser tomada de duas maneiras: numa primeira, podemos dizer que as reflexões de Austin estão presentes num momento histórico do surgimento da pós-modernidade, dialogando com ele; numa segunda, o que vai caracterizar a pós-modernidade de Austin é a ruptura, a reviravolta (sea-change) inevitável que seu pensamento proporcionou.

Lyotard (1979) faz a seguinte crítica à filosofia positivista da eficiência: A expansão da ciência não se faz graças ao positivismo da eficiência. É o contrário: trabalhar na prova é pesquisar e inventar o contra-exemplo, isto é, o ininteligível; trabalhar na argumentação é pesquisar o "paradoxo" e legitimá-lo com novas regras do jogo de raciocínio (...), o traço surpreendente do saber pós-moderno é a imanência assim mesmo, mas explícita, do discurso sobre as regras que o legitimam (pp.99-100). Esta afirmação pode servir para exemplificar a instabilidade teórica que a argumentação austiniana provoca, por um lado, na ciência lingüística de base descritiva e formal e como, então, a visão performativa pode desorganizar esta ciência -; por outro, na filosofia: a necessidade de se repensar a eficiência positiva que procura desenvolver os aspectos empíricos e lógicos do performativo.

Concluindo diria que Austin não surge por acaso: ele é o porta-voz de todo um processo planejado pela história para se tornar a figura mais importante desse processo. Austin deixou um espaço conflitante no seu raciocínio, que é inerente ao inovador, e que o destino, não por acaso, proporcionou.

E-mail: ottonix@hotmail.com
Recebido em julho de 2001

 

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*Conferência proferida no ciclo "Geofilosofia do Século XX" promovido pela Faculdade de Filosofia da PUC – Rio e Fundação Planetário do Rio de Janeiro no dia 15 de julho de 1998. Essa conferência resume algumas reflexões que estão desenvolvidas no meu livro Visão Performativa da Linguagem. As notas foram acrescidas para esta publicação.

**Professor Associado do Instituto de Estudos da Linguagem – Universidade Estadual de Campinas – SP. www.unicamp.br/~ottonix

1Sobre a questão do performativo, a partir de Austin, e as possíveis relações com o pensamento de Benveniste, com a psicanálise e com as reflexões de Foucault, ver Ottoni 1988, 1990b e 1992 respectivamente.

2Toda a reflexão que desenvolvo a seguir está sustentada nas seguintes obras de Austin: Performativo-Constativo, traduzido por mim do francês juntamente com a Discussão que seguiu a sua apresentação no Colóquio de Royaumont, e encontra se no apêndice do livro Visão Performativa da Linguagem, 1998. Outras Mentes, tradução de Marcelo Guimarães da Silva Lima, editado na coleção Os Pensadores, 1989; (há também neste volume – cf. pp. X-XIII – alguns dados sobre a vida e a obra de Austin organizados por Armando Mora D'Oliveira). Quando Dizer é Fazer – Palavras e Ação, tradução de Danilo Marcondes de Souza Filho, 1990. Sentido e Percepção, tradução de Armando Manuel Mora de Oliveira, 1993.

3Este livro não está traduzido para o português. Um amplo estudo do Philosophical Papers está publicado em Fann (1969 ed.); e, é composto pelos trabalhos de: Forguson (1969a), Chisholm, New, Nowell-Smith, Searle, Thalberg, Wheatley e White, todos de 1969. E em Berlin (1973 ed.) cf. Pears (1973).

4Esta observação já se encontra na apresentação desses livros. Ver o Preface to the First Edition de J. O. Urmson de 1962 e o Preface to the Second Edition de Marina Sbisà e J. O. Urmson de 1977, e também o Appendix desta mesma edição, todos traduzidos na edição brasileira do How to do Things with Words (ver nota 2); e o Prefácio de G. J. Warnock de novembro de 1960 traduzido na edição brasileira do Sense & Sensibilia. Estes quatro textos relatam a maneira cuidadosa com que foram reproduzidas as reflexões de Austin.

5A obra completa de Austin que se conhece, além do Perfomativo-Constativo e dos livros How to do Things with words e Sense and Sensibilia que já foram citados, é composta por: Are There A Priori Concepts (1939); Other Minds (1946); Truth (1950); How to talk – same simple ways (1953); A Plea for Excuses (1956); Ifs and Cans (1956) e Pretending (1958) papers que ele publicou em vida, e mais: Agathon and Eudaimonia in the Ethics of Aristotle (1936); The Meaning of a Word (1940); Unfair to Facts (1954); Performative Utterances (1956); Three Ways of Spilling Ink (1958) e The Line and the Cave in Plato's Republic (incluído na edição de 1979 do PhP) – textos (reproduções, reconstituições e transcrições de Austin) que estão publicados no Philosophical Papers. E ainda a tradução para o inglês da obra de G. Frege: Die Grundlagen Der Arithmetik (Os Fundamentos da Aritmética) (1884), publicada em 1950; e mais: Critical Notice on J. Lukasiewicz's Aristotle's Syllogistic: From the Standpoint of Modern Formal Logig, in Mind 61 (1952); Report on Analysis Problems nº 1: What sort of 'if' is the 'if' of 'I can if I choose'?, in Analysis nº 12 (1952) e Report on Analysis Problem nº 12: 'All Swams are white or black'. Does this Refer to Swans on Canals on Mars?, in Analysis nº 18 (1958).

6Veremos mais à frente a posição de Emile Benveniste com relação à Subjetividade na linguagem, e a sua severa crítica ao abandono da distinção performativo-constativo em Austin.

7Lyotard (1979, p.18,) associa a performatividade a Austin e a precisão de sentido que esta passa a ter depois dele. A questão da performatividade vai de certo modo estar presente em algumas partes, na reflexões de Lyotard neste livro contribuindo, para a discussão de uma nova legitimação do saber pós-moderno.

8As reflexões sobre a ação estão desenvolvidas no texto A Plea for Excuses (1956) de maneira exemplar (ver principalmente pp.179-81 e 191).Ver também sobre esta questão Felman (1980b) e Sousa Filho (1984, 1986 e1992).

9As reflexões sobre a linguagem envolvendo a questão da performatividade é muito ampla, por exemplo, como: John Searle, John Ross, George Lakoff, Jerrold Sadock, Oswald Ducrot, François Récanati, Michel Foulcault, Danilo Marcondes de Souza Filho, Marina Sbisà, Shoshana Felman, Marike Finlay, Stephen Levinson. Através da análise desses autores procurei responder as seguintes questões: Como puderam as propostas austinianas ser utilizadas pela lingüística gerativa como querem Sadock, Lakoff e Ross e, do mesmo modo, ser tão próximas de uma teoria psicanalítica, como quer Felman? Ou ainda, como foram utilizadas pela filosofia, com Searle, possibilitando uma análise "lógica" da linguagem humana; e com Souza Filho, possibilitando uma abordagem "ideológica" da sociedade? Como pôde Ducrot legitimar sua noção de pressuposição partindo do ato ilocucionário? Qual é o "ato de fala" subjacente às discussões específicas sobre a enunciação feitas por Foucault e Sbisà? Como as reflexões de Austin geraram as posições "críticas" de Récanati, Finlay e Levinson? Estas tentativas de respostas estão analisadas no terceiro capítulo de minha tese de doutorado (cf. Ottoni 1990a). Capítulo não incluído no livro Visão Performativa da Linguagem.

10Souza Filho traduziu o termo uptake por apreensão. Utilizo o termo uptake, em inglês, por considerar a sua significação mais abrangente e mais consistente do que o termo em português.

11Ver também sobre esta questão Rajangopalan 1990a.

12Podemos fazer de certo modo uma aproximação, um paralelo entre a noção de uptake na versão mais branda relacionando ao fato de que, por exemplo, se "assino" um documento, este só terá validade na medida em que minha assinatura for identificada, reconhecida como sendo minha pelo outro. Portanto, minha assinatura tem que ser iterável para poder ser identificada pelo outro.

13Os trabalhos gráficos de Maurits Cornelis Escher (1898-1972) exemplificam em parte esta posição onde uma figura está tão intrinsecamente associada à outra, que ao mesmo tempo que sugere, surge de uma outra e nunca se sabe qual o limite entre estas figuras.

14A título de exemplo é bom dizer que além dos textos até agora citados, temos: Black (1969); Fingarette (1967); Forgunson (1969b); Sesonske (1965) e Warnock (1973), entre muitos outros que discutem o "Performativo" de maneiras muito distintas, mas sempre preocupados em tentar identificar e, às vezes, justificar em Austin um certo "descompasso", e até uma certa "irreverência" entre sua postura como investigador e suas intuições. Este "descompasso" é justamente o que considero hoje uma das características fundamentais de suas reflexões.

15Sobre as semelhanças e as diferenças entre Austin e Derrida ver Ottoni 1997.

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