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DELTA: Documentação de Estudos em Lingüística Teórica e Aplicada

Print version ISSN 0102-4450

DELTA vol.19 no.1 São Paulo  2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-44502003000100008 

RESENHA REVIEW

 

 

Gladis Massini-Cagliari

UNESP/Araraquara; Linacre College – Oxford University

 

 

NEWTON, Michael 2002. Savage Girls and Wild Boys. A History of Feral Children. London: Faber and Faber. 284p.

Palavras-chave: Crianças ferozes; Psicolingüística; Desenvolvimento de linguagem.
Key-words: Feral children; Psycolinguistic; Language development.

Este não é um livro escrito por um lingüista, e nem para lingüistas. Mas deveria ser lido por lingüistas, já que o seu tema central – a história de vários casos (verdadeiros e documentados) de crianças selvagens, palavra que, para o autor, significa "isoladas do convívio humano", por vários motivos (e não apenas aquelas perdidas em florestas e adotadas por animais) – resvala na questão, fundamental para os lingüistas, da relação entre linguagem e definição de humanidade (em oposição a "animalidade") – e, por conseqüência, na questão da relação entre linguagem e pensamento. Por não ser dirigido a um público de cientistas da linguagem, pode parecer que o tratamento dado a essas questões fundamentais é demasiado superficial – como não poderia deixar de ser, em se tratando de um não-especialista. Mas a sua leitura vale como convite e provocação aos lingüistas, que, por vezes, fogem ao desconforto de refletir sobre perguntas tão sérias, como as suscitadas pelo relato das histórias - quase inacreditáveis de tão extraordinárias – das vidas dessas crianças, grandes sobreviventes de situações das mais cruéis, abusivas e penosas.

O livro está organizado em sete capítulos, cada um dos quais dedicado à história de uma dessas crianças, com exceção do primeiro, que serve de introdução ao assunto e que trata (brevemente) da história de duas crianças – justamente os casos mais recentes.

No primeiro capítulo, intitulado "The Child of Nature" (rótulo dado às crianças selvagens, crescidas em florestas, no século XVIII), Michael Newton introduz o leitor ao seu percurso pessoal no desenvolvimento da história dos casos conhecidos até hoje de meninas e meninos selvagens, a partir de um breve mergulho na vida de Ivan Mishukov, um pequeno moscovita que fugira de casa para morar nas ruas aos quatro anos de idade, fora adotado por um grupo de cachorros e, mais tarde, teria se tornado o líder da matilha. É claro que, tendo vivido por quatro anos com uma família humana, Ivan podia falar russo perfeitamente bem. É interessante que o autor tenha decidido iniciar seu recorte justamente por um "menino selvagem" que, ao contrário de quase todos os outros casos examinados, não tinha "problemas" de comunicação com seres humanos (o que era perfeitamente predizível, uma vez que, ao fugir de casa, Ivan já contava com uma idade em que o processo de aquisição da linguagem já estava bastante adiantado). Ao contrário dos outros casos, mas ao lado de Genie (capítulo 7) e Kaspar Hauser (capítulo 5), Ivan é o que se pode chamar de "selvagem urbano", fugindo ao protótipo dos casos de meninos selvagens (mais ao estilo Mowgli ou Tarzan). Neste sentido, pode-se dizer, metaforicamente, que a "melodia" do livro de Newton segue em crescendo, já que os casos analisados nos capítulos 2 a 7 são, nas palavras do próprio autor, more remarkable and unexpected do que a história de Ivan.

Esta primeira pincelada na história dessas infelizes crianças serve como introdução à lista de "progenitores míticos" (mythic progenitors) das "crianças ferozes" (feral children). Rômulo e Remo é, certamente, o mais famoso dentre esses mitos. Mas o autor faz questão de anotar as diversas aproximações do mito dos gêmeos fundadores de Roma com outras histórias de crianças abandonadas, contadas desde a Antigüidade.

Para finalizar a introdução, o autor relata seu encontro com John Ssabunnya, um órfão de Uganda, que teria vivido por alguns anos com uma família de macacos.

No meio da narrativa do seu percurso pessoal na descoberta do enigma dessas crianças, o autor recorre a uma metáfora que percorre quase toda a narrativa: a de que essas crianças seriam a imagem inversa de fantasmas; enquanto os espíritos são "almas sem corpos", as crianças selvagens foram vistas por muitos (sobretudo durante os séculos XVIII e XIX) como "corpos sem almas" – justamente o título do capítulo 2 (Bodies without souls), dedicado à história de Peter the Wild Boy, um menino selvagem encontrado em uma floresta perto de Hanover, que teria chegado a Londres na primavera de 1726 como protegido do Príncipe e da Princesa de Gales. Teria sido na casa do casal real que escritores famosos, como Jonathan Swift, autor de As viagens de Guliver, e Daniel Defoe, de Robinson Crusoe, com ele travaram contato. Depois de algum tempo na residência real, o garoto foi deixado aos cuidados de seu guardião, o Dr. John Arbuthnot, um médico escocês, famoso na época. Ao contrário dos demais casos de crianças selvagens analisados por Newton, Peter viveu por bastante tempo depois de seu "resgate", tendo falecido em fevereiro de 1875. Segundo Newton (2002: 32), durante todo o tempo que passou aos cuidados de seu tutor:

Peter never did learn to speak for himself, although he could, in time, pronounce words of one syllable at Arbuthnot's prompting.

O terceiro capítulo conta a inacreditável história de Memmie Le Blanc, uma garota selvagem encontrada na região de Champagne em 1731. Usava, nessa ocasião, um colar com alguns pingentes e estava vestida com uma pele de animal e não conseguia entender uma palavra em francês. Foi colocada sob a proteção do Visconde d'Epinoy, que morreu cerca de um ano após sua captura. Logo de início, seus protetores perceberam que ela não se perdera na floresta em idade muito tenra, já que

She began to learn to talk, acquiring French slowly but not with as much difficulty as might be expected. From this, some of her teachers wondered if she had not already been among French speakers. As to her original language, this was now completely lost. (Newton 2002: 58)

A partir da morte de seu protetor, viveu em conventos, e, segundo relatos, procurava "perder sua selvageria". Aprendeu, inclusive, a falar francês fluentemente. No entanto, embora tenha cruzado com vários nobres importantes interessados em sua história fantástica durante a sua vida, seu fim é desconhecido.

O intelectual mais famoso a passar pela vida de Memmie é James Burnett, Lord Monboddo. Para Burnett, a linguagem (uma aquisição social, na sua opinião), sempre esteve no centro da discussão da natureza da criança. Definindo o ser humano como "a language-using creature" (Newton 2002: 90), a pergunta sobre Memmie, indiscutivelmente humana no final de sua vida (já que era fluente em francês), era: quando estava perdida na floresta (a ponto de esquecer - ? – sua língua materna), a menina podia ser considerada humana?

O capítulo seguinte, Radical Innocence, é dedicado à vida de Victor, um menino selvagem descoberto em Aveyron e trazido à pós-revolucionária Paris no verão de 1800. Aparentemente, teria sido vítima de um crime (tinha cicatrizes profundas no pescoço, próprias de uma tentativa de degola) e deixado na floresta para morrer. Logo depois de sua descoberta, foi transferido para Paris, para que pudesse receber cuidados médicos. Foi mandado ao famoso médico Phillipe Pinel, que o diagnosticou como so mentally damaged as to be beyond help (nas palavras de Newton 2002:101). Mas um discípulo de Pinel, Jean Marc Gaspard Itard, disposto a provar que o diagnóstico de seu mestre estava errado no caso de Victor, tomou-o sob sua proteção. Para Itard, o estado de privação lingüística de Victor estava relacionado à ausência da noção de tempo: a criança não possuía linguagem porque vivia em um "presente perpétuo", à deriva em um mundo sem passado ou futuro, e, portanto, sem memória e sem noção da própria identidade. As perguntas que se fazia Itard eram: Quando a identidade começa a existir? Podemos ter existência externamente à linguagem, ou só podemos encontrar uma expressão para nós mesmos através da linguagem?

Com relação à condição de sem-linguagem de Victor, é interessante observar que, desde o início, o menino selvagem possuía uma linguagem gestual pela qual se fazia perfeitamente compreender (por exemplo, quando queria passear no parque com Madame Guérin, a empregada de Itard, ele simplesmente trazia para ela suas roupas de passeio; e, se ela demorasse a vesti-las ou se ele estivesse ansioso demais, ele mesmo começava a vesti-la). No entanto, embora não desconsiderasse essa forma de comunicação, Itard considerava que apenas palavras – um sistema lingüístico – podiam abarcar o indivíduo humano no processo de desenvolvimento. A primeira medida para trazer o menino para esse processo foi nomeá-lo. Por considerar que o garoto tinha um gosto pelo som da interjeição Oh! (em francês), Itard escolheu o nome Victor.

Itard começou sua tarefa de ensinar Francês a Victor a partir do desenvolvimento de sua memória e da capacidade de estabelecer relações. E, para tal, optou pela linguagem escrita – o que pode ser visto como uma inversão da ordem natural do processo (inversão que, entretanto, não foi apontada pelo autor). Colocou alguns objetos em uma ordem fixa, abaixo de desenhos representando esses objetos (pendurados em ganchos). Trocando a ordem dos objetos e dos desenhos, Itard pôde perceber que o senso de memória de Victor era apuradíssimo, porque ele sempre conseguia se lembrar da ordem dos objetos. Porém, ele sempre colocava os objetos na mesma ordem, mesmo que Itard mudasse a ordem dos desenhos nos ganchos – o que mostrou a ele que o menino não fazia ligação entre o objeto e a sua representação. A inversão de ordem entre linguagem oral e escrita fica cada vez mais nítida, tornando os experimentos de Itard, em muitos sentidos, inúteis. Um de seus próximos passos, por exemplo, é ensinar Victor, a partir de letras cortadas, a colocar o alfabeto em ordem e a reconhecer a palavra lait – o que nada prova, além do que Itard já sabia: que a memória de Victor era ótima. Victor chegou a aprender a pronunciar a palavra lait, mas nunca chegou a dizer mais do que lait e Oh Dieu, embora Itard o tenha ensinado a escrever outras palavras. Se Victor realmente reconhecia como palavras o que estava escrevendo é uma outra questão, na qual Michael Newton não toca – mas, como lingüista, suspeito que não; esses produtos escritos eram, para ele, mais um dos exercícios de memória propostos por Itard, que podiam envolver quaisquer tipos de objetos, inclusive aquelas formas chamadas letras.

O quinto capítulo do livro é dedicado à famosa história de Kaspar Hauser, a quem Newton chama de The child of Europe. Apareceu pela primeira vez ao mundo em Nuremberg, em 26 de maio de 1828. Era já um rapaz de mais ou menos dezesseis anos. Teria passado toda a sua infância preso a um quartinho pequeno e escuro, isolado do contato com qualquer ser humano.

Embora a história de Kaspar Hauser seja bastante conhecida (devido às suas características romanescas e sensacionalistas, com crimes1, sugestões de um passado de nobreza e insinuações de homossexualismo, culminando no seu assassinato, em 14 de dezembro de 1833), é interessante relembrar aqui o estranho comportamento lingüístico do rapaz - característica da sua história que mais interessa a lingüistas. Ao ser encontrado, o menino conseguia pronunciar algumas frases completas. Tais frases (e sempre as mesmas), entretanto, esvaziadas de significado, eram usadas por Hauser para qualquer finalidade que quisesse atingir. Uma palavra que repetia sem cessar era Ross ('cavalo'); segundo o próprio Hauser, com essa palavra ele queria referir-se à sua única companhia na época em que esteve preso: cavalinhos de madeira. Neste caso, o significado estava presente, ao contrário do que acontecia com as frases "vazias". Essas características lingüísticas iniciais e o fato de ter adquirido com muita facilidade o alemão (a ponto de escrever suas próprias memórias) levantaram muitas dúvidas quanto ao alegado passado de Hauser; muitos o viam como um pobretão esperto, que, com sua pantomima, passou a viver sob a proteção de famílias nobres e a ser o centro das atenções. Mas outros, incluindo os seus protetores, o viam como um ideal de pureza e ingenuidade.

O capítulo seguinte é também dedicado a uma história bastante famosa, pelo menos entre lingüistas: a história da vida das meninas-lobo Amala e Kamala. Em 1920, chamado por um vilarejo a sudoeste de Calcutá para exorcizar fantasmas, o reverendo Singh teria descoberto que os "fantasmas" não passavam de duas meninas, que dormiam, comiam e, enfim, viviam para todas as finalidades com um grupo de lobos. Tendo-as seguido até a toca em que moravam, Singh teria cavado um buraco até resgatar as duas crianças. A mais velha teria por volta de oito anos e a mais nova, um ano e meio. O reverendo as levou para viver no orfanato que administrava juntamente com sua esposa, e protegeu as crianças da curiosidade da imprensa e da ciência enquanto pôde. Mas ele próprio coletou e registrou muitas informações sobre as meninas.

Segundo ele, elas não tinham senso de humor, tristeza ou curiosidade e nem senso de ligação afetiva a outras pessoas. Elas nunca riam; e as únicas lágrimas derramadas pela mais velha, Kamala, aconteceram na ocasião da morte de sua pequena "irmã", devido a uma grave diarréia causada por uma infestação de vermes.

Para o casal Singh, embora se parecesse fisicamente com qualquer outra criança de oito anos, Kamala se comportava como um bebê de um ano e meio. Mas, apesar de seu silêncio, começou pouco a pouco a entender palavras. Logo depois, começou a pronunciar algumas dessas palavras: Kamala estava adquirindo linguagem.

Por oito anos, Kamala viveu no orfanato; mas, como nos relatos (reais ou fictícios, que acabaram por inspirar a criação da personagem Mowgli, de Rudyard Kipling) de outras crianças-lobo indianas e como no caso de sua "irmã" Amala, ela não estava destinada a uma vida longa. Em 1928, sua saúde começou misteriosamente a declinar, culminando seu sofrimento em sua morte, no ano seguinte.

Embora Singh tenha registrado muitas das informações que cientistas poderiam desejar, seus motivos estavam longe de ser científicos: ele enxergou, no destino dessas crianças, uma curiosa prova da miraculosa previdência divina. Mais do que isto, o lento despertar da natureza humana de Kamala e seu abandono da linha limítrofe entre o animal e o humano eram um claro sinal de que ninguém está a uma distância inalcançável da misericórdia de Cristo.

O sétimo e último capítulo focaliza um caso completamente diferente dos anteriores, já que ocorre no coração do país mais rico do mundo, sob a brilhante publicidade da mídia internacional. Conta a história de Genie, uma menina dos subúrbios de Los Angeles, que teria ficado presa, amarrada a uma cadeira pelo seu próprio pai, sem poder mexer os braços e as pernas, e mantida aí por sua família até os treze anos de idade. Foi descoberta em 1970, quando sua mãe, já cega, teria com ela fugido dos maus tratos do marido; por causa da cegueira, errou a porta do médico com o qual tinha a intenção de se consultar a respeito do problema nos olhos e acabou entrando em um centro de assistência social, onde a criança foi retirada dos cuidados de ambos os pais, por abuso.

Enquanto permaneceu sob o teto e as ameaças de seu pai, Genie, sem poder se mover, era deixada em um quarto ao qual quase não chegavam estímulos auditivos ou visuais. Os sons da vizinhança dificilmente alcançavam o quarto nos fundos da casa. Seu pai não falava com ela, apenas imitava latidos e rosnados de cão. Como sua mãe estava perdendo a visão, ficava cada vez menos tempo com ela; além disso, atemorizada pelo marido, a mãe obedecia às suas ordens e não falava com a menina.

Susan (o nome verdadeiro de Genie2) fora diagnosticada (erroneamente) como retardada por um médico durante uma febre forte, aos catorze meses de idade. Enciumado pela atenção que a mãe dispensava à garota, seu pai usou o diagnóstico como desculpa para o abuso que se seguiu, com o argumento de que fazia tudo para "proteger" sua pobre criança do terrível mundo preconceituoso e degradado à sua volta. Suicidou-se no dia em que seria levado a julgamento, pelos abusos perpetrados. A mãe de Genie, no entanto, foi inocentada, e considerada ela própria uma vítima.

Nesse mundo de abusos, Genie não desenvolveu linguagem: olhava, se assustava e chorava em silêncio. Mas, no seu silêncio, os cientistas viram uma excelente oportunidade para buscar respostas para perguntas cruciais, como, por exemplo, se há uma idade limite para a aquisição da linguagem. Assistindo ao filme de Truffaut, L'Enfant Sauvage, sobre a vida de Victor, os cientistas que se encarregavam do tratamento de Genie imediatamente fizeram a conexão com os casos das crianças selvagens perdidas em selvas, e daí derivou a metodologia para a análise de seu caso.

Dentre o grupo de cientistas, havia uma lingüista, Susan Curtiss, cuja tese de Doutorado a respeito da menina revela no título nitidamente a conexão do caso de Genie com o das crianças selvagens: Genie: A psycolinguistic study of a modern-day wild child. Curtiss buscava pistas para responder à questão fundadora dos estudos de aquisição da linguagem e resolver o ponto de discórdia entre gerativistas e interacionistas: é a linguagem uma capacidade inata da mente humana ou é uma capacidade aprendida? Com o caso de Genie, abria-se uma chance única de testar as hipóteses do período crítico para a aquisição de Lenneberg e as idéias gerativistas de Chomsky, ambas sobre as bases biológicas da linguagem. Apesar de muitos problemas (inclusive de ordem legal) entre os membros do grupo de cientistas encarregado de Genie, os estudos de Curtiss continuaram. No início do acompanhamento feito por Susan do desenvolvimento lingüístico de Genie, a menina podia entender apenas umas poucas palavras; possuía, porém, um conjunto próprio de frases, como stopit and nomore. No fim do período de observação, os resultados se mostraram frustrantes para a lingüista: muito embora Genie tivesse adquirido um vocabulário razoável, ela era incapaz de construir sentenças "corretas" em inglês. Mas, sem dúvida, Curtiss pôde observar que ela tinha alcançado algumas das facetas importantes da língua: ela podia produzir sentenças novas (= inéditas, sem imitar sentenças ouvidas previamente), brincar com palavras, escutar e tomar turnos em conversações, falar espontaneamente e se referir a pessoas ou eventos tomados com relação ao tempo. De tudo isto, pode-se considerar que Genie acabou se tornando uma usuária da língua. Pode ser que não tenha chegado ao nível de desenvolvimento esperado por Curtiss, mas definitivamente adquiriu linguagem: uma língua.

As crianças das quais Michael Newton fala em seu livro estão longe de ser esquecidas. Apesar de Peter e Memmie serem alvo de menor atenção, provavelmente pela maior distância temporal que nos afasta deles, os outros têm sido objeto de diversos livros, documentários televisivos e trabalhos científicos. Mas, embora Amala e Kamala continuem "assombrando" (nos dois sentidos) as aulas introdutórias de Aquisição da Linguagem nos cursos de Graduação em Lingüística, é Kaspar Hauser quem mais chama a atenção das platéias contemporâneas, tendo sido, inclusive, matéria de um filme de Herzog, em que é retratado como um tolo sofredor.

Ao final da narrativa da triste história de Genie, Newton chega também ao final de seu livro, mas com uma incrível sensação de vazio e de falta de conclusão para as questões levantadas. De fato, sendo a proposta do livro muito mais uma abordagem jornalística light do que científica dos casos, com relação às fundamentais questões lingüísticas que a existência das crianças selvagens coloca, o livro termina realmente em um fôlego suspenso, inconcluso. O autor, apesar de reconhecer que pelo menos algum traço residual da natureza humana está contido na linguagem, acaba por assumir humildemente sua própria incapacidade de determinar o que distingue os homens dos animais. Para ele, diferenças de DNA são uma solução de tal simplicidade e limpidez que, apesar de incontestáveis, falham em satisfazer-nos.

Apesar disso, seu livro sobre a infância roubada dessas crianças é um convite à pesquisa em Aquisição e Filosofia da Linguagem, ao retorno a questões primordiais de nossa ciência, já que esses são casos que dramatizam a distinção entre homens e animais, criaturas que desafiam os limites e a essência da humanidade. Basta uma breve comparação entre os casos relatados (e um dos méritos do livro de Newton é justamente agrupar todos os casos em um mesmo estudo) para que se possa iniciar uma enorme lista de questões ainda controversas em nosso meio. Mesmo uma comparação rápida e superficial parece nos mostrar que as crianças que foram "perdidas" depois dos 3 anos (Ivan, Ssabunnya, Memmie e mesmo Hauser, se sua história for considerada verossímil) tiveram muito mais facilidade em recuperar a linguagem do que aquelas que sofreram o isolamento muito mais cedo (Peter, Victor, Amala, Kamala e Genie). Um argumento a favor de um limite crítico para a aquisição? Um argumento a favor da interação como fator crucial na aquisição da linguagem? Um argumento final a favor das teorias sócio-interacionistas da aquisição da linguagem? Não iria tão longe, uma vez que não só essas teorias, mas também as gerativistas (Lightfoot, 1999, por exemplo) têm ressaltado o papel da interação como gatilho desencadeador da capacidade (inata, para os últimos) da linguagem.

Como se pode ver, trata-se de uma boa leitura de fim de noite para os interessados em questões de aquisição e da definição filosófica do ser humano enquanto tal, que, embora leve, propõe perguntas sérias, revê uma enorme bibliografia sobre o assunto, mas traz poucas respostas. Enfim, é uma leitura que serve de convite à revisão de todos estes casos, à luz da Lingüística atual. Alguém aceita o desafio?

 

Referências Bibliográficas

CHOMSKY, Noam. 1988. Language and Problems of Knowledge: The Managua Lectures. Cambridge: The MIT Press

CURTISS, Susan. 1977. Genie: A Psycholinguistic Study of a Modern-Day Wild Child. New York: Academic.

LENNEBERG, Eric. ed. 1966. New directions in the study of language. Cambridge: The MIT Press.

LIGHTFOOT, David. 1999. The development of language: acquisition, change, and evolution. Oxford: Blackwell.

 

 

Recebido em dezembro de 2002
Aprovado em fevereiro de 2003

 

 

1 Como Victor, Hauser trazia uma cicatriz na testa, herança de seu alegado passado de abusos. Hauser também sofreu uma tentativa de assassinato, antes do seu assassinato propriamente dito.
2 O nome Genie lhe foi dado no hospital: um novo nome para uma nova vida.

 

 

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