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DELTA: Documentação de Estudos em Lingüística Teórica e Aplicada

Print version ISSN 0102-4450

DELTA vol.19 no.2 São Paulo  2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-44502003000200006 

RESENHA REVIEW

 

 

Resenhado por/by Ronaldo de Oliveira Batista

CEDOCH-DL/USP

 

 


Palavras-chave: metodologia; Historiografia lingüística; Fundamentos teóricos


Key-words: Methodology; Linguistics Historiographs; Theoretical foundations


 

 

SEUREN, Pieter A.M. (1998) Western Linguistics: An Historical Introduction. Oxford (UK)/Massachusettes (USA): Blackwell Publishers, 570pp

Num importante prefácio, de leitura que não deve ser desinteressada, Pieter A.M. Seuren, professor de Filosofia da Linguagem e de Lingüística Teórica na Universidade de Nijmegen, na Holanda, destaca o fato de que a lingüística se acostumou a não olhar para a própria história, fazendo eco a uma afirmação já muito repetida: a de que a ciência mataria seu próprio passado. Contra essa opinião é que se inscreve o livro de Seuren, uma introdução histórica a aspectos da lingüística ocidental.

Seuren, nas páginas iniciais de seu livro, aponta que se a historiografia lingüística vem crescendo, é preciso que se tenha em mente o fato de que muitos dos estudos da área ainda estão presos ao não ideal ponto de vista de procurar justificativas ou exemplares no passado que 'divulguem' determinado programa de investigação em evidência no trajeto contemporâneo ao do historiógrafo. Ou seja, observa-se em relação à historiografia um caminho de mão dupla, mas de caracterização negativa. Ou ela simplesmente não é considerada como uma disciplina do campo lingüístico e, para alguns, não existe; ou então existe apenas para fazer propaganda de determinada investigação do presente.

Há também um outro aspecto que ele percebe, de forma negativa, em muitos dos trabalhos de historiografia: para o autor, um grande número de livros dedicado à pesquisa historiográfica oferece uma visão panorâmica da história da lingüística, acabando por destacar excessivamente aspectos externos, ligados ao contexto, que tenham exercido algum papel na determinação de correntes da pesquisa lingüística. Seuren posiciona-se contra essa atitude, afirmando realizar uma obra como lingüista e não como um historiador, sendo seu foco de interesse os aspectos internos da ciência da linguagem que podem evidenciar tradições de pesquisa e, assim, determinar sua história.

Ao focar dessa maneira sua Western Linguistics, Seuren se propõe a realizar uma investigação historiográfica tendo em vista metodologias adotadas em estudos sobre línguas e linguagem e também relacionados à sua filosofia. Para tanto, estabelece como tarefa observar atentamente o passado e momentos mais contemporâneos da ciência lingüística a partir de um ponto de vista teórico, o que significa a identificação e a análise de atitudes metodológicas, de práticas de descrição e de teorias lingüísticas do passado até o presente. Uma das grandes questões evidenciadas pelo autor é a identificação dos momentos em que a lingüística aplicou metodologias consideradas como científicas e também quais erros foram cometidos em nome desse processo de afirmação de cientificidade

Naturalmente que a tarefa de traçar os caminhos da lingüística ocidental é quase hercúlea e exige seletividade. Seuren diz ter reduzido sua historiografia ao panorama ocidental derivado da tradição greco-latina. Se tal atitude é compreensível, uma vez que é de fato muito difícil para um historiógrafo analisar, com precisão, todas as tradições e fases da história da lingüística, também indica uma tendência na qual grande parte da historiografia lingüística ocidental olha apenas para seu próprio umbigo, ainda que muitos pesquisadores, ao justificar sua seletividade, destaquem a importância da realização de pesquisas sobre outras tradições. Mas no fundo o que se verifica é a sensação de que nós, historiógrafos da lingüística, apenas lamentamos essa 'seletividade ocidental', mas continuamos a fazer dela o retrato de nosso trabalho.

Assim, Seuren destaca como uma das justificativas para seu recorte (questionável) o fato de que muitas das tradições não-ocidentais não existiram de forma independente do ponto de vista religioso, o que então seria suficiente para marcar uma diferença em relação à tradição greco-latina. Se for possível apontar que não houve na tradição não-ocidental estudos lingüísticos de forma autônoma, também é preciso levar em consideração que muito do que a historiografia lingüística deve investigar não existiu como estudo objetivamente centrado na linguagem (inclusive na tradição greco-latina), no entanto, esses estudos precisam ser analisados, também como forma de se entender o desenvolvimento da pesquisa lingüística ou mesmo o estabelecimento de métodos e práticas de descrição e análise.

Ao lado de suas atividades como historiógrafo, Seuren se destaca por ser também pesquisador e professor na área de teoria semântica. Essa opção de pesquisa leva a outro recorte efetuado em Western Linguistics. A historiografia proposta se detém mais apuradamente naquelas teorias e práticas que podem evidenciar aspectos de uma abordagem semântica, de um possível surgimento de uma teoria da gramática e seu posterior desenvolvimento. O olhar historiográfico de Seuren confere especial atenção às questões em torno da 'gramática' e do 'sentido'. Essa caracterização do autor como historiógrafo e semanticista acaba por justificar a divisão do livro em duas grandes partes.

A 1ª. parte dedica-se ao que tradicionalmente reconhecemos como a história da lingüística ocidental e está centrada em torno do estabelecimento da 'gramática'. Assim, vemos a lingüística desde a tradição greco-latina, passando pelos estudos da gramática especulativa da Idade Média e pelas gramáticas do Renascimento (o autor reduz seu ponto de vista neste período às obras de Linacre, Scaliger, Sanchez e Port-Royal, acabando por destacar aqueles autores que, de alguma maneira, seriam considerados como 'precursores' da teoria gerativa — tal característica do trabalho nos lembra, imediatamente, das escolhas de Chomsky, de certa forma semelhantes, em Cartesian Linguistics, de 1966). Sem dúvida o recorte e a seletividade de Seuren são programáticos e bastante incisivos, relacionando-se ao que o autor considera como relevante para a observação do estabelecimento e desenvolvimento das relações entre 'gramática' e 'sentido', tendo como pano de fundo o ponto de vista contemporâneo da teoria semântica de base gerativa.

Ainda nessa 1ª. parte, repetindo o já comum em muitas das histórias da lingüística (exatamente aquelas criticadas no prefácio por serem muito panorâmicas), Seuren dedica maior atenção aos estudos que se inscrevem naquele período conhecido como de efetiva produção lingüística de forma autônoma, ou seja, o 'período da cientifização' dos estudos lingüísticos, os séculos XVIII, XIX e XX. Nesse recorte ele analisa a oposição racionalismo X romantismo na filosofia e nos estudos sobre a linguagem, destacando os trabalhos de Leibniz e Vico. No século XVIII destaca a produção de dicionários, o interesse que ele chama de romântico sobre línguas “ exóticas” (interesse que, de fato, aparece antes do século XVIII, na produção da gramática missionária que tem início já no século XVI, e neste período Seuren faz uma brevíssima referência ao trabalho da lingüística missionária). Seuren também destaca a especulação sobre a origem da linguagem, o início de pesquisas em filologia e lingüística comparadas, os neogramáticos, os aspectos psicológicos na abordagem lingüística, com destaque para os trabalhos de Humboldt. Já a historiografia do século XX é dividida em duas partes. Uma é dedicada à Europa (27pp), com a abordagem dos estudos estruturalistas: Baudoin de Courtenay e Saussure, as escolas de Praga, Copenhague e Londres. Em outra parte, bem mais extensa (118pp) — evidenciando outra forte seletividade de seu trabalho — , Seuren trata da lingüística nos Estados Unidos, desde os trabalhos de Whitney e Boas, passando por Sapir, Bloomfield e pelo que ele chama de diversificação da lingüística pós-bloomfieldiana, com Pike, Harris, Hockett e o início dos estudos da gramática gerativa transformacional, com Harris e Chomsky, e seus conseqüentes desdobramentos. Dessa maneira, Seuren propõe uma divisão dos estudos lingüísticos, no século XX, em uma lingüística estruturalista e outra, americana, ligada à gramática formal. Tal recorte é passível de discussão, uma vez que o período conheceu grande interpenetração de influências entre Europa e Estados Unidos, o que talvez não permita pacificamente uma divisão tão rígida entre as 'tradições'. Um estudo sobre as pesquisas de tipologia lingüística encerra essa 1ª. parte.

A 2ª. parte de Western Linguistics trata dos estudos sobre o 'sentido', desde a Antiguidade clássica ocidental até os estudos contemporâneos da semântica formal. Os temas abordados referem-se a assuntos como cálculo de predicado, quantificadores, lógica aristotélica, estudos de lógica formal no século XIX e seus desdobramentos, os trabalhos de Frege e Russell. Essa abordagem descritiva e interpretativa realizada na 2ª. parte acaba por exigir mais do que curiosidade do leitor (para um amplo aproveitamento da abordagem historiográfica de Seuren), sendo necessário algum conhecimento de semântica e das teorias formais. Nessa parte dedicada ao 'sentido', o autor ainda analisa com olhar historiográfico o estabelecimento da aplicação de modelos lógicos e formais na semântica, com mais destaque para Frege e Russell. Também trabalhos na área da semântica cognitiva são descritos e comentados.

Seuren propõe, então, o cruzamento entre as duas partes do livro a partir do capítulo 7 da 2ª. parte, em que destaca para sua análise as relações estabelecidas entre 'sentido' e 'gramática', desde a Antiguidade até os estudos contemporâneos.

Ampla bibliografia e índice de assuntos abordados encerram Western Linguistics, que se revela uma obra de fôlego, evidenciando o acurado trabalho historiográfico e teórico de seu autor, acabando por indicar, como ele havia proposto nas páginas iniciais de seu livro, a tentativa de realizar uma historiografia voltada para aspectos da lingüística e não presa, de forma excessiva, a um estudo do contexto.

O recorte seletivo que Seuren faz em seu estudo contribui para a melhor compreensão do desenvolvimento e efetivo estabelecimento de uma das áreas de pesquisa de grande evidência no momento contemporâneo da lingüística, aquela conhecida como semântica formal.

De fato, a Western Linguistics de Seuren é um trabalho que não pode deixar de ser lido por aqueles interessados na história da lingüística e no desenvolvimento dos estudos sobre 'gramática' e 'sentido'. Interessante observar que o livro de Seuren acaba por propor uma historiografia da lingüística 'particular', ao centrar seus estudos num determinado recorte teórico, abrindo caminho para uma divisão entre os trabalhos historiográficos, na qual uns teriam uma feição mais geral e outros seriam mais particulares. Mas, sem dúvida, a leitura do livro sugere a necessidade de uma ampliação das discussões a respeito dos métodos da historiografia lingüística, destacadamente o papel da seletividade operada pelo historiógrafo, já que, como é de consenso, nenhum olhar e nenhum recorte são exatamente ingênuos.