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DELTA: Documentação de Estudos em Lingüística Teórica e Aplicada

Print version ISSN 0102-4450

DELTA vol.25 no.2 São Paulo  2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-44502009000200009 

ARTIGOS

 

Interferência da língua falada na escrita de crianças: processos de apagamento da oclusiva dental /d/ e da vibrante final /r/

 

Interference of the spoken language on children's writing: cancellation processes of the dental occlusive /d/ and final vibrant /r/

 

 

Socorro Cláudia Tavares de Sousa

Universidade Federal do Ceará

 

 


ABSTRACT

The present study aims to investigate the influence of the spoken language in children's writing in relation to the phenomena of cancellation of dental /d/ and final vibrant /r/. We elaborated and applied a research instrument to children from primary school in Fortaleza. We used the software SPSS to analyze the data. The results showed that the male sex and the words which have three or more syllable are factors that influence, in part, the realization of the dependent variable /no/ and that verbs and level of education are conditioners elements for the cancellation of the final vibrant /r/.

Keywords: cancellation; spoken language; writing; Sociolinguistic.


RESUMO

O presente trabalho tem como objetivo investigar a influência da língua falada na escrita de crianças em relação aos fenômenos do cancelamento da dental /d/ e da vibrante final /r/. Elaboramos e aplicamos um instrumento de pesquisa em alunos do Ensino Fundamental em escolas de Fortaleza. Para a análise dos dados obtidos, utilizamos o software SPSS. Os resultados nos revelaram que o sexo masculino e as palavras polissílabas são fatores que influenciam, de forma parcial, a realização da variável dependente /no/ e que os verbos e o nível de escolaridade são elementos condicionadores para o cancelamento da vibrante final /r/.

Palavras-chave: cancelamento; língua falada; escrita; Sociolingüística.


 

 

1. Considerações iniciais

A preocupação com a heterogeneidade lingüística na sala de aula1 vem desde a década de 30, mas foi na década de 1960 que a Sociolingüística apresentou uma proposta em nível programático na contribuição da educação de crianças falantes/usuários de variedades minoritárias. Apesar das propostas da área receberem críticas, seja de natureza externa ou de natureza interna2, muitos sociolingüistas acreditam que a disciplina pode contribuir para a melhoria do processo educacional, especificamente, no ensino de língua materna. A esse respeito Bortoni-Ricardo (2005b: 130) afirma:

(...) Minha própria pesquisa de sociolingüística educacional, nos últimos anos, me convenceu de que a sociolingüística tem um papel muito específico a desempenhar no esforço coletivo das ciências humanas pelo aperfeiçoamento do processo educacional. No entanto, estou convencida de que, para realizar esse desiderato a sociolingüística educacional tem de adotar estratégias distintas das que vêm sendo empregadas. (...)

Alguns pesquisadores, dentre eles Mollica (2000, 2003) e Taska (2002), por exemplo, vêm aplicando os resultados dos estudos variacionistas à pesquisa educacional. Em Mollica (2000), a autora enfoca os fenômenos da monotongação de /ow/ e de /ey/, do alteamento da vogal média pré-tônica de /e/ para /i/, da assimilação da dental em -ndo e do rotacismo e cancelamento de /r/ em grupos consonantais, investigando a interferência da língua falada na escrita. Em pesquisa posterior, Mollica (2002) estende sua abordagem para o domínio da sintaxe e da dimensão discursiva. Dessas pesquisas, o que particularmente nos interessa é o estudo relacionado à vibrante /r/ em posição final. Taska (2003), por sua vez, explora a variação dos ditongos crescentes /ey/ e /ou/ e a representação escrita do segmento / l/ em final de sílaba.

Estas pesquisas têm demonstrado a vitalidade do uso da Sociolingüística no processo de ensino/aprendizagem da língua materna, seja dando suporte aos professores para a elaboração de material didático específico, seja na implantação de uma metodologia dirigida ao ensino da ortografia, dentre outras contribuições. É dentro da área da Sociolingüística Aplicada ou Sociolingüística Educacional que inserimos o presente trabalho.

Nesse sentido, pretendemos dar continuidade a esse veio de pesquisa que aborda aspectos da interferência da fala na escrita. Abordaremos as conseqüências na escrita de crianças dos fenômenos do apagamento da oclusiva dental /d/ e da vibrante final /r/ que se realiza na fala. Delineamos como objetivo geral de nossa pesquisa: investigar em que medida se dá a intervenção da fala na escrita, tomando como ponto de referência os fatores lingüísticos e extralingüísticos3 das pesquisas variacionistas no estudo do cancelamento da dental /d/ e da vibrante final /r/.

Além das considerações iniciais e finais, o artigo está organizado em quatro seções. Na segunda e terceira seções, apresentamos uma revisão da literatura sobre os fenômenos em estudo, na quarta seção traçamos o aparato metodológico utilizado para a realização da análise quantitativa e na quinta seção analisamos os dados com o apoio do software SPSS (Statistical Package of Social Science).

 

2. O fenômeno do apagamento da oclusiva dental /d/

Segundo Bagno (2000), o apagamento da oclusiva dental /d/ em final de palavras como em "estudando", "pensando", por exemplo, é resultado de um processo de assimilação do fonema /d/ pelo fonema /n/ no português do Brasil. Em outras palavras, há uma assimilação do /d/ pelo /n/ para, finalmente, haver um apagamento do fonema /d/ (-nd- > -nn- > -n-). O autor explica que esse fenômeno não é exclusivo do português brasileiro. De acordo com Bagno (2000), em escritos do século XVI, em uma região de Portugal denominada Beira Alta, é possível encontrar a assimilação nd- > -n- em textos escritos. Ele também destaca que em alguns dialetos italianos e também no catalão, esse tipo de assimilação é um fenômeno bastante atuante.

Coutinho (1976), ao apresentar o português do Brasil e, em particular, o dialeto denominado por ele de "caipira", exibe todo o seu preconceito lingüístico diante de formas como "andano (andando)". Segundo o autor, "essas formas profundamente alteradas, esse vocabulário comum e rústico, essa construção viciadíssima, que caracterizam o falar do nosso roceiro, estão a atestar, em grande parte, a sua procedência africana, indiana ou afro-indiana." (Coutinho 1976: 326).

Sem poder precisar exatamente as origens desse fenômeno, Bagno (2000: 75) afirma que

Cabe dizer que a assimilação foi uma força muito ativa na história da formação da língua portuguesa tal como a conhecemos, e que ela continua em plena atividade nos dias de hoje, produzindo lenta mas ininterruptamente a língua portuguesa dos próximos séculos.

Um exemplo da produtividade desse fenômeno na língua pode ser observado no Atlas Lingüístico da Paraíba. Aragão (1984) destaca a queda do fonema /d/ no grupo /nd/ em localidades como Mamanguape, Guarabira e Campina Grande. Martins (2004), por sua vez, aprofunda o conhecimento do fenômeno investigando-o a partir de duas perspectivas teóricas diferentes, a saber: a Sociologia Quantitativa e a Fonologia não-linear compreendida como Fonologia Autossegmental e a Geometria de Traços. O universo de análise da autora restringiu-se à capital do estado da Paraíba, João Pessoa. Dentre vários objetivos definidos por Martins (2004), destacamos o de estabelecer os fatores que favorecem o apagamento da oclusiva dental /d/ que particularmente nos interessa tendo em vista a elaboração de nossas hipóteses, bem como do instrumento de pesquisa.

Sua pesquisa revelou que há um maior apagamento da oclusiva dental /d/ do que a realização desse fonema na fala dos pessoenses em final de palavras. O pacote VARBRUL selecionou três variáveis estruturais e três variáveis sociais, a saber: classe de palavras, extensão do vocábulo, contexto fonético-fonológico seguinte, anos de escolarização, faixa etária e sexo.

Em relação à variável classe de palavra, Martins (2004) constatou que é em verbos no gerúndio onde ocorre o maior índice de apagamento do /d/. Por outro lado, observa-se a preservação do /d/ em verbos no presente do indicativo e na conjunção "quando", porque segundo Martins (2004: 65) "a assimilação do /d/ não ocorre dentro da palavra (na raiz) e sim no sufixo". Na variável extensão do vocábulo, os resultados revelaram que itens lexicais com mais de duas sílabas favorecem a queda da oclusiva dental, enquanto que itens dissilábicos favorecem sua manutenção. Nesse sentido, foi confirmada a hipótese de que quanto mais extenso for o vocábulo haverá mais probabilidade de haver o apagamento do /d/. Assim, há maior probabilidade de acontecer o fenômeno em fazendo (fazeno) do que em vendo (veno). E, por fim, a variável contexto fonético-fonológico seguinte apresentou-se como relevante para a realização do apagamento. O quadro 01 ilustra os resultados obtidos por Martins (2004):

 

 

Como é possível observar no Quadro 01, os contextos mais favoráveis à realização do apagamento são as consoantes líquidas, a consoante nasal / n/, seguida das vogais posteriores e da pausa. A hipótese de Martins (2004), de que os segmentos seguintes que fossem foneticamente semelhantes ao / d/ tenderiam ao apagamento, foi parcialmente comprovada, tendo em vista que uma das razões que refuta sua hipótese é o fato de as oclusivas não terem favorecido o cancelamento, ao passo que a consoante /n/ a ratifica.

No que se refere às variáveis sociais, Martins (2004) constatou que a variável anos de escolarização tem uma relação inversamente proporcional com o nível de escolarização. Em outras palavras, quanto menor a escolaridade maior a aplicação da regra de cancelamento e vice-versa. Os informantes com nenhum ano de escolarização obtiveram o peso relativo de .62, enquanto que os informantes com mais de onze anos de escolaridade atingiram um peso relativo de .26. Quanto ao fator faixa etária, a pesquisa revelou a existência de uma variação estável4 na comunidade de João Pessoa, ou seja, os informantes na faixa de 15-49 anos favorecem a realização do apagamento, enquanto que os informantes com mais de 50 anos a desfavorecem. E, por fim, a variável sexo apresentou-se como um fator condicionante. Os homens tendem a apagar o segmento /d/ no grupo /ndo/ (.54), já as mulheres tendem a preservar o segmento (.46).

A pesquisa de Martins (2004) deixa evidente que o apagamento da dental /d/ não pode ser compreendido como uma variação aleatória ou como um descuido da pronúncia, mas como um fenômeno que está condicionado por fatores de natureza lingüística e extralingüística que favorecem ou desfavorecem tal realização.

 

3. O fenômeno do apagamento da vibrante final /r/

O processo do cancelamento do fonema /r/ em final de palavra não é um fenômeno recente. Segundo Oliveira (2002), durante o século XI as peças de Gil Vicente já traziam a realização desse fenômeno na fala dos negros. Durante muito tempo, o apagamento do /r/ esteve identificado com o falar dos estratos sociais mais baixos. Outra hipótese é de que o cancelamento fosse resultante da fala dos indígenas e africanos sobre a nossa língua5. Oliveira (2002) também afirma que a não-realização do /r/ pós-vocálico final não é um fenômeno característico apenas do português do Brasil.

No Brasil, vários estudos têm se debruçado em torno desse fenômeno em diferentes regiões, dentre eles citamos as pesquisas de Callou, Leite e Moraes (1998, 2002 [1996]) e Oliveira (2002)6. Os trabalhos de Mollica (2000, 2002), por sua vez, utilizam os conhecimentos advindos da Sociolingüística para explorar a relação entre a interferência da fala na escrita, objetivo que também será perseguido na presente pesquisa.

Embora o trabalho de Callou, Leite e Moraes (2002) não tenha focalizado apenas a queda do /r/ em posição final, os resultados apresentados pelas autoras evidenciam uma significativa realização do zero fonético nessa posição. A depender da área dialetal examinada, o cancelamento apresentou-se como um dos processos mais atuantes dentre os demais em posição final de sílaba7. As autoras objetivaram estabelecer como se dá a distribuição das variantes do /r/ em posição pós-vocálica, medial e final, em cinco capitais do Brasil (Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Recife), como também observar se há indícios de mudança decorrentes da gradação etária e da distinção de gênero (masculino e feminino).

As pesquisadoras investigaram que fatores lingüísticos e extralingüísticos têm influência significativa na realização do fenômeno. Dentre as variáveis lingüísticas selecionadas, destacamos as seguintes:

 

 

No que se refere aos fatores extralingüísticos, foram analisados os fatores região, faixa etária e gênero. As autoras verificaram que a região é um elemento que condiciona um dado tipo de realização da variante /r/. Na cidade de Salvador, por exemplo, o processo é mais atuante (62%), ao contrário da cidade de Porto Alegre em que apresenta o percentual mais baixo de apagamento (37%). Já São Paulo (49%), Recife (50%) e Rio de Janeiro (47%) apresentaram realizações semelhantes.

Em relação à faixa etária e ao gênero, esses fatores não foram selecionados em Porto Alegre em contraposição a São Paulo, Salvador e Recife. São Paulo e Rio de Janeiro, por sua vez, apresentaram um processo de variação estável, enquanto que em Salvador há indicativos de mudança na direção do desaparecimento do segmento final. Embora em Recife o percentual de aplicação da regra de apagamento seja neutro, Callou, Leite e Moraes (2002) afirmam que parece haver mais uma mudança em curso no sentido do cancelamento do /r/. E nesse processo de mudança, as mulheres estão à frente.

De uma forma geral, a pesquisa das autoras concluiu que há condicionamentos de natureza diferente que influenciam as diversas realizações do /r/, ou seja, condicionamentos de origem fonético-fonológica, de origem morfológica e de origem social. Especificamente em relação à realização do /r/ em posição final seguido por vocábulo iniciado por vogal, Callou, Leite e Moraes (2002) encontraram em um mesmo falante tanto situações de realização da queda do /r/ quanto de realização do /r/ como vibrante simples, justificando tanto a regra lexical quanto a pós-lexical.

Em trabalho anterior, Callou, Leite e Moraes (1998) analisam somente o apagamento do /r/ final no dialeto carioca, buscando investigar se esse fenômeno se caracteriza como uma variação estável ou uma mudança em curso. Para tanto, as autoras utilizaram amostras provenientes de dois períodos de tempo diferente: uma do início da década de 1970 e outro na década de 1990. Como em outra pesquisa (2002 [1996]), as autoras constataram que a posição interna ou externa do /r/ no vocábulo é um fator significativo que deve ser analisado separadamente, pois os fatores condicionantes apresentam expressiva diferença quando o fonema está em posição medial ou em posição de final de vocábulo.

Na análise em tempo aparente, Callou, Leite e Moraes (1998) observaram o comportamento lingüístico dos falantes em diferentes faixas etárias nas décadas de 1970 e 1990. Ressaltamos que as amostragens incluíam indivíduos diferentes. As variáveis classe gramatical (verbos e nomes) e sexo foram analisados separadamente, pois a amalgamação desses fatores poderia não refletir os ambientes condicionantes do apagamento do /r/. Assim, nos verbos, para os homens, há uma variação estável em ambos os períodos e nos não-verbos uma mudança em curso. Já para as mulheres, nos verbos e nos nomes há uma mudança em progresso.

Na análise em tempo real, comparando os mesmos informantes, as autoras constataram que o comportamento individual é instável, exceto para as mulheres da terceira faixa etária (56 anos em diante). Já no comportamento da comunidade, Callou, Leite e Moraes (1998) observaram que a população feminina continua a implementar a regra de apagamento, já para os homens parece que a regra atingiu seu limite e há indícios de perda do processo de queda. E, por fim, concluíram que "o apagamento do R final tem sido considerado um caso de mudança de baixo para cima, ao que tudo indica, já atingiu seu limite, e é hoje uma variação estável, sem marca de classe social." (Callou; Leite; Moraes 1998).

Utilizando-se também da Teoria da Variação e da Sociolingüística Quantitativa, a pesquisa de Oliveira (2002) teve como objetivo investigar a realização do /r/ em final de palavra na fala da cidade de Itaituba no estado do Pará. Dentre as variáveis do /r/ no final de vocábulo foram encontrados a velar (1%), o tepe (4%), a glotal (23%) e uma discrepante realização do cancelamento (82%). Nesse sentido, os dados percentuais obtidos em seu corpus já justificam o enfoque dado pela autora no estudo do apagamento do /r/.

Como fatores lingüísticos que condicionam o fenômeno, foram selecionados a classe de palavra, o modo de articulação da consoante seguinte e a tonicidade e dimensão do vocábulo. Mais uma vez, as pesquisas sociolingüísticas confirmam o verbo como uma das classes de palavras que mais favorecem a aplicação da regra de cancelamento do /r/.

Na variável modo de articulação da consoante seguinte, Oliveira (2002) constatou que os fonemas que apresentam o mesmo modo de articulação da variável inibem o apagamento do /r/. Assim, as consoantes fricativas, africadas e laterais receberam pesos relativos que desfavoreceram a regra do cancelamento do /r/, ao passo que as oclusivas favoreceram a aplicação da regra e as nasais apontaram neutralidade. Na variável tonicidade e dimensão do vocábulo, foi nos polissílabos que mais se verificou o maior índice de apagamento. Os monossílabos tônicos inibiram o cancelamento, já os dissílabos apresentaram uma tendência ao apagamento e os trissílabos se localizaram em uma faixa neutra.

Em relação aos fatores extralingüísticos todas as variáveis sociais foram selecionadas, a saber: escolaridade, idade, renda e sexo. Na variável escolaridade, os falantes que apresentam mais instrução (2ºGrau) apagaram menos o /r/, não havendo praticamente diferença entre os pesos relativos dos analfabetos e dos informantes do 1ºGrau. Na variável idade, Oliveira (2002) constatou assim como Callou, Leite e Moraes (1998) que são os adultos na faixa etária entre os 26 e 45 anos de idade os que mais aplicaram a queda do /r/.

Na variável renda, os falantes de renda média apagaram muito mais o /r/ que os falantes de renda baixa. Entre os falantes de renda baixa à medida que eles aumentavam a escolaridade, diminuíam o apagamento, enquanto que entre os de renda média se processava exatamente o contrário. E na variável sexo, as mulheres apagaram menos que os homens. Contudo Oliveira (2002: 91) afirma que "(...) não se verifica entre eles diferença relevante, pois os resultados referentes a eles se aproximam da neutralidade (...)".

Em suma, a pesquisa de Oliveira (2002) concluiu que o fenômeno do apagamento do /r/ não é específico das classes sociais desfavorecidas, nem caracteriza também a fala dos menos escolarizados, é, sem dúvida, um fenômeno bastante produtivo na fala de Itaituba (PA).

Os resultados obtidos por essas pesquisas têm grande relevância para o nosso trabalho, pois a partir deles foi possível elaborar um instrumento de pesquisa que buscasse controlar algumas variáveis estruturais. Nesse sentido, dentre as diversas variáveis lingüísticas selecionadas pelos pesquisadores como fatores condicionantes do apagamento do fonema /r/, fizemos um recorte e selecionamos as seguintes: modo de articulação da consoante seguinte, número de sílabas e classe morfológica. Dentre as variáveis sociais, selecionamos sexo, escolaridade e orientação pedagógica.

 

4. Metodologia

Nesta seção, descrevemos a metodologia utilizada na presente pesquisa, apresentando o universo de pesquisa e a constituição da amostra, as variáveis estruturais e sociais selecionadas, e, por fim, o instrumento de coleta de dados e o processo de testagem.

4.1. O universo de pesquisa e a constituição da amostra

Pelo critério de acessibilidade, selecionamos duas escolas para participar deste estudo: o Centro Social Félice Pistoni e o Colégio Maria Ester. Ambas as escolas também foram escolhidas pelo fato de terem mais de uma turma em séries do ensino fundamental (3ºano, 4ºano e 5ºano), pois nos possibilitaria aplicar o instrumento de pesquisa em dois grupos, com instrução direcionada e sem instrução. Ressaltamos que apesar de trabalharmos com universos de pesquisas provenientes da rede pública e da rede privada não temos a intenção de considerar esse aspecto uma variável para análise.

O Centro Social Félice Pestoni é uma instituição escolar da rede pública de ensino, é administrado pela prefeitura de Fortaleza e mantém convênio com a Congregação Piamartina da Paróquia de Nazaré. A escola funciona em três turnos e oferece serviços educacionais em três níveis diferentes, a saber: educação infantil, ensino fundamental e educação de jovens e adultos. A escola tem aproximadamente 888 (oitocentos e oitenta e oito) alunos matriculados.

O Colégio Maria Ester é uma instituição escolar de natureza privada, funciona em dois turnos (manhã e tarde) e oferece educação infantil, ensino fundamental e médio. A escola possui cerca de 1320 alunos matriculados8.

Optamos por investigar a influência da fala na escrita em estudantes de 3ºano, 4ºano e 5ºano, por acreditarmos que é nas séries iniciais que essa interferência se apresenta mais fortemente. Inicialmente, pretendíamos abranger também os alunos de 2ºano, mas constatamos que grande parte dos estudantes ainda estava em processo de alfabetização em ambas as escolas.

A escolha dos informantes se deu de forma aleatória. No Colégio Maria Ester, nenhum dos grupos pesquisados foi constituído por alunos de apenas uma turma porque no período em que fomos aplicar o instrumento de pesquisa já havia terminado o semestre letivo e os alunos estavam freqüentando a escola apenas para a realização de ensaios artísticos. Assim, os grupos foram formados por estudantes de um mesmo ano, porém de diferentes turmas e turnos. Diferentemente, no Centro Social Félice Pestoni, como os discentes ainda estavam em período letivo, conseguimos aplicar o teste em suas respectivas turmas. Ao total, conseguimos pesquisar 167 informantes que estão distribuídos por escola, ano e com/sem orientação pedagógica no Quadro 03:

 

 

Dos 167 informantes, 49 cursam o 3ºano, 52 cursam o 4ºano e 66 o 5ºano. Deste total, 65 são de escola particular e 102 de escola pública e 73 fizeram o teste com orientação pedagógica e 94 sem orientação pedagógica. A orientação pedagógica consistiu em explicar para os alunos, antes da aplicação do instrumento de coleta de dados, que alguns sons (a dental /d/ e a vibrante final /r/) não são pronunciados na fala, embora sejam representados graficamente. Os exemplos fornecidos na explanação não coincidiram com as palavras selecionadas no instrumento de pesquisa.

4.2. As variáveis lingüísticas e extralingüísticas selecionadas

Partindo dos resultados obtidos em pesquisas sociolingüísticas anteriormente realizadas sobre o apagamento da oclusiva dental /d/ e da vibrante final /r/ é que nos foi possível selecionar as variáveis independentes de natureza estrutural e social, bem como construir um conjunto de hipóteses. Nesse sentido, para a análise das variáveis dependentes /ndo/ ~ /no/, elaboramos as seguintes hipóteses:

H1: A variável /no/ realiza-se mais em palavras polissílabas do que em palavras dissílabas9;

H2: A variável /no/ realiza-se mais em turmas com menor nível de escolaridade (3ºano > 4ºano > 5ºano);

H3: A variável /no/ realiza-se mais em meninos do que em meninas;

H4: A variável /no/ realiza-se mais em turmas que não receberam orientação pedagógica.

Esclarecemos que a hipótese 1 ampara-se nos resultados obtidos nas pesquisas de Martins (2004) e Mollica (2000) sobre o fator lingüístico extensão do vocábulo. Inicialmente, levantamos uma outra hipótese de que a variável /no/ realiza-se mais em contexto fonológico seguinte de consoante líquida do que em contexto fonológico seguinte de vogal posterior, contudo não foi possível testá-la como as demais devido a perda de um item no contexto fonológico de vogal posterior. Essa perda dificultou a comparação estatística entre as duas variáveis pelo fato de estas terem ficado com escalas diferentes10.

Para a análise das variáveis dependentes /r/ ~ /Ø/, construímos as hipóteses abaixo:

H5: A variável /Ø/ realiza-se mais em verbos do que em nomes;

H6: A variável /Ø/ realiza-se mais em palavras polissílabas e trissílabas do que em palavras dissílabas;

H7: A variável /Ø/ realiza-se mais em contexto fonológico seguinte de consoante oclusiva do que em contexto fonológico seguinte de consoante nasal;

H8: A variável /Ø/ realiza-se mais em turmas com menor nível de escolaridade (3ºano > 4ºano > 5ºano);

H9: A variável /Ø/ realiza-se mais em meninos do que em meninas;

H10: A variável /Ø/ realiza-se mais em turmas que não receberam orientação pedagógica.

Destacamos que a H5 ampara-se nos resultados obtidos nas pesquisas de Callou, Leite e Moraes (2002) e Oliveira (2002) sobre o fator lingüístico classe morfológica, já a H6 sustenta-se em Callou, Leite e Moraes (2002), em Oliveira (2002) e em Mollica (2003) sobre o fator lingüístico extensão do vocábulo, já a H7 apóia-se nos resultados obtidos por Oliveira (2002), que constatou que as consoantes oclusivas favoreciam o apagamento da vibrante /r/, enquanto que as nasais situavam-se em uma posição de neutralidade.

Sobre a escolha das variáveis sociais em ambos os fenômenos, levamos em consideração as seguintes razões: a variável sexo tem-se revelado um fator condicionante na realização da forma padrão ou não-padrão na análise de certas variantes (cf. Paiva 2003) e as variáveis nível de escolaridade e orientação pedagógica exercem influência na escrita de crianças nas pesquisas de Mollica (2000, 2003) e de Taska (2002).

4.3. O instrumento de coleta de dados e a testagem

Para a elaboração do instrumento de pesquisa, nos baseamos nos resultados obtidos em pesquisas sociolingüísticas anteriores sobre os fenômenos do apagamento da dental /d/ e da vibrante /r/. Para o primeiro fenômeno, consideramos como fatores favoráveis à realização da variável / no/ o contexto fonológico seguinte (consoante líquida e vogal posterior) (cf. Martins 2004), como também a dimensão do vocábulo (dissílabo, trissílabo e polissílabo). Além desses fatores estruturais, consideramos também o fato de ser o apagamento da dental /d/ mais freqüente nas formas de gerúndio (cf. Martins 2004, Mollica 2000), daí todas as palavras do teste foram constituídas de verbos nesse dado modo verbal.

Para o segundo fenômeno, consideramos como fatores condicionadores da variável /Ø/ o contexto fonológico seguinte (fonema nasal e oclusivo) (cf. Oliveira 2002), a extensão da palavra (monossílabo, dissílabo, trissílabo e polissílabo) (cf. Callou; Leite; Moraes 1998, 2000, Oliveira 2002) e a classe morfológica (nome e verbo) (cf. Callou; Leite; Moraes 1998, 2000).

Para cada um desses fatores, propusemos 03 (três) situações para testagem11. Assim, construímos um instrumento com um total de 39 (trinta e nove) itens, sendo 15 (quinze) itens referentes ao fenômeno do apagamento da dental /d/ e 24 (vinte e quatro) itens referentes ao cancelamento da vibrante /r/. Ressaltamos que a opção pelo número de 03 (três) itens para cada um dos fatores justifica-se pelo fato de que há maiores chances de eliminar as respostas "aleatórias" e também pelo fato de tornar compatível a consolidação dos dados.

Na elaboração do instrumento de coleta de dados optamos também pela escolha de um vocabulário que supomos ser do conhecimento dos informantes, tais como, "abraçar", "beber", "escritor", "estudando", "conversando", dentre outras de mesmo nível. Ao total, selecionamos 39 (trinta e nove) itens distribuídos em 06 (seis) questões do tipo completar lacunas12.

A aplicação do instrumento ocorreu no período de 25 a 28 de junho de 2007. O tempo despendido para a obtenção dos dados em cada turma variou entre 01 h/a a 2 h/a. Essa variação se explica pela diferença de nível entre as turmas, em turmas de 3ºano, o tempo médio foi maior, já em turmas de 5ºano, menor. Antes de aplicarmos o teste, conversamos com o professor de cada sala explicando os objetivos de nossa pesquisa e a metodologia que iríamos utilizar para coletar os dados. Assim, os informantes apresentavam as respostas à medida que a pesquisadora explicava cada item. Para facilitar a obtenção das respostas, acrescentamos em algumas questões ilustrações e/ou a letra inicial da palavra solicitada, e, no momento da resolução do teste, também fornecemos aos alunos pistas como mímicas ou palavras sinônimas.

Durante a coleta de dados, observamos que 02 (dois) itens foram per-didos ("pondo" e "pôr")13, pois poucos informantes conseguiram descobrir a palavra solicitada. O primeiro item relacionava-se ao fenômeno do cancelamento da dental /d/ na variável contexto fonológico seguinte de vogal posterior e o segundo item relacionava-se ao fenômeno do cancelamento da vibrante /r/ na variável número de sílaba (monossílaba). Pela razão exposta, esses itens foram desconsiderados na análise dos dados.

 

5. Análise dos dados

Nesta seção discutiremos os resultados obtidos no tratamento dos dados. Na primeira parte, apresentaremos uma análise preliminar dos dados, justificando como reduzimos nossos informantes de 167 para 101, na segunda parte em diante exploraremos a interferência da fala na escrita dos fenômenos do cancelamento da dental /d/ e do apagamento da vibrante final /r/.

5.1. Análise preliminar

Após a coleta dos dados junto aos estudantes, os 167 testes foram avaliados preliminarmente, como um primeiro filtro para verificar a possibilidade de utilização em análises posteriores. Foram desconsiderados os testes que contivessem mais da metade das questões não respondidas, bem como, os testes com respostas cujas inadequações ortográficas não se restringissem a problemas de natureza escolar14. Após este procedimento, 13 questionários foram excluídos, restando aptos para tabulação um total de 154.

Para a tabulação, optou-se por codificar as palavras escritas inadequadamente com 1 (um) e as palavras escritas adequadamente com 0 (zero). Após a tabulação, procedeu-se a uma averiguação exaustiva da planilha, com o propósito de preparar os dados para a análise. Inicialmente, foram verificados dados perdidos (missing vales) em muitas variáveis. Assim, foram sucessivamente excluídos os questionários com maior freqüência de dados perdidos nas diversas variáveis da pesquisa, até que restassem no máximo cinco entradas perdidas por cada teste. Ao final foram excluídos mais 53 testes.

Contudo, ainda restaram problemas em duas variáveis (apagamento da dental /d/ - contexto fonológico vogal posterior /o/ - "pondo", e cancelamento da vibrante r - monossílaba - pôr). Considerando o contexto de análise, julgamos possível excluir estas duas variáveis, o que não representou perda para a avaliação dos objetivos da pesquisa. Assim foram analisados 37 itens que amalgamados corresponderam a 13 variáveis estruturais, em uma amostra de 101 estudantes.

Para cada uma destas variáveis, foi avaliado o erro ou o acerto nas palavras, considerando cada fenômeno em análise. Em uma primeira avaliação, foram extraídas as freqüências de cada uma destas duas possibilidades, inclusive com as freqüências das variáveis excluídas.

5.2. Análise exploratória dos dados tabulados

Com o objetivo de compor uma medida geral para cada um dos dois fenômenos em análise realizamos o procedimento de agrupamento das variáveis. Assim, para o fenômeno do cancelamento da dental /d/, foram somadas as cinco variáveis, e os escores de cada entrada variavam de 0 (nenhum erro no fenômeno) a 14 (erro15 em todas variáveis dos fenômenos), e, para o fenômeno do cancelamento da vibrante /r/, foram somadas as 8 variáveis, com os escores de cada entrada variando entre 0 (nenhum erro) a 23 (erro em todas as variáveis do fenômeno). Na Tabela 01 estão expostas as médias e os desvios-padrão de cada uma das 13 variáveis.

 

 

Como é possível observar a partir da Tabela 01, dentre os dois fenômenos avaliados, o cancelamento da vibrante /r/ é, a princípio, o objeto cuja escrita inadequada é mais freqüente. Essa assertiva pode ser confirmada através da observação da média de erros em cada uma das variáveis. O cancelamento da dental /d/ apresentou uma média de erro de 0.6 por aluno em um total de 14 palavras enquanto que o apagamento da vibrante final /r/ apresentou uma média de erro de 3.0 em um total de 23 palavras.

De um modo geral, as freqüências médias de acertos são bastante elevadas em ambos os fenômenos em estudo, principalmente no fenômeno do cancelamento da dental /d/. Essa percepção nos leva a considerar que esses fatos não podem ser concebidos, em termos pedagógicos, como grandes dificuldades ortográficas de crianças que cursam do 3ºano ao 5ºano.

Através da amalgamação das variáveis, é possível identificar em quais fatores lingüísticos há maior probabilidade de os alunos utilizarem as variáveis /no/ e /Ø/. No caso do cancelamento da dental /d/, destacamos as trissílabas e a consoante líquida seguinte, porque a média de erro em am-bas as variáveis foi de 0.2, valor maior do que a média de erro das outras (0.1). No caso do apagamento da vibrante /r/, destacamos as dissílabas e o modo de articulação da consoante seguinte (oclusiva) e o verbo, porque o primeiro apresentou uma média de erro de 0.6 e o segundo e o terceiro uma média de 0.5. Os outros fatores gravitaram entre 0.4 e 0.3.

Ressaltamos que os resultados obtidos nessa análise exploratória não indicam que fatores lingüísticos propiciam o cancelamento da dental /d/ e da vibrante final /r/, mas nos dão indicativos dos contextos em que os alunos estão cometendo mais erros.

5.3. Análise das hipóteses

Dentre os fatores sociais selecionados, as hipóteses da presente pesquisa afirmavam que as variáveis sexo, nível de escolaridade e orientação pedagógica exerciam influência significativa sobre a ocorrência dos dois fenômenos em estudo. Para analisar estas hipóteses, foi definida a técnica estatística análise de variância (ANOVA). Esta ferramenta avalia as diferenças de médias entre essas variáveis categóricas, e aponta informações que permitem aceitar ou refutar a igualdade entre as médias em cada uma das alternativas das variáveis.

Nestes termos, em casos nos quais foi verificada uma diferença estatisticamente significativa entre as médias das variáveis foi aceita a influência daquela variável. Nos casos em que não foi verificada diferença significativa, foi entendido que os erros ocorriam independentemente das manifestações das variáveis, refutando qualquer influência da variável sobre os fenômenos.

Elaboramos duas hipóteses sobre a relação de influência entre os fenômenos em estudo e o nível de escolaridade, a saber: H2 – A variável /no/ realiza-se mais em turmas com menor nível de escolaridade (3ºano > 4ºano > 5ºano), e, H8 – A variável /Ø/ realiza-se mais em turmas com menor nível de escolaridade (3ºano > 4ºano > 5ºano). Com a aplicação da técnica estatística ANOVA, selecionamos as seguintes variáveis (ver Tabela 02):

 

 

A H2 foi refutada, ou seja, a escolaridade não se apresentou como um fator de influência no fenômeno do apagamento da dental /d/, pois a estatística de significância (p) foi igual a 0.54816. Esse resultado, portanto, contraria a pesquisa de Mollica (2000) que constatou que a variante não standard se concentrava mais em turmas de 5ª e 6ª séries do que em turmas de 7ª e 8ª séries. Por outro lado, como Mollica (2000), também consideramos que o índice de incorreção na escrita desse fenômeno apresentou-se muito baixo.

Já em relação a H8, os dados demonstraram que a escolaridade é um fator que exerce influência, ou seja, há maior probabilidade de ocorrência da variável /Ø/ em turmas de 3ºano do que em turmas de 4ºano, e, ainda, em turmas de 4ºano do que em turmas de 5ºano. Essa afirmação é sugerida na comparação entre a média de erro entre as séries pesquisadas: 4.4 no 3ºano, 3.3 no 4ºano e 1.7 no 5ºano. Como é possível observar, a média de erro vai diminuindo à medida que a série aumenta. A Tabela 02 também indica em que contextos lingüísticos mais ocorreu a variação que são: modo de articulação da consoante seguinte (nasal), nomes e verbos. Incluímos também o modo de articulação da consoante seguinte (oclusiva) por considerarmos que a média de erro entre as séries apresentou um índice de significância próximo a p < 0.05.

A confirmação da H8 está em consonância com os resultados obtidos por Mollica (2003) que constatou que o índice de representação na escrita da vibrante /r/ final aumenta à proporção que a escolaridade também aumenta. Essa constatação foi detectada tanto em turmas que receberam orientação pedagógica como naquelas que não receberam.

Sobre a relação de influência da variável sexo no cancelamento da dental /d/ e da vibrante final /r/, elaboramos as seguintes hipóteses: H3 - A variável /no/ realiza-se mais em meninos do que em meninas e H9 - A variável /Ø/ realiza-se mais em meninos do que em meninas. Os dados revelaram que o sexo não é um fator relevante na realização da variável /Ø/. A Tabela 03 ilustra nossa afirmação:

 

 

No que se refere ao apagamento da dental /d/, não podemos negar que existe certa relação de influência, tendo em vista que o valor de p embora não sendo menor que 0.05 está muito próximo desse valor (0.081). Por essa razão, consideramos que a H3 foi aceita parcialmente. Já com relação ao apagamento da vibrante /r/, não observamos a influência do sexo sob o fenômeno. Pinçamos também dois fatores que apresentaram valores próximos a p < 0.05 que foram o contexto fonológico seguinte (líquida), no caso do cancelamento da dental /d/ e o nome, no caso do cancelamento da vibrante /r/ como contextos onde mais ocorreram a realização das variáveis /no/ e /Ø/. Não podemos afirmar que essas variáveis destacadas são condicionantes para a realização dos fenômenos em estudo, mas suas médias revelam que nesses contextos houve uma maior ocorrência do apagamento dos fonemas /d/ e /r/.

Esse resultado confirma parcialmente a H3 e refuta a H9, ao mesmo tempo em que apresenta pontos de convergência e de divergência com as pesquisas de Mollica (2000, 2003) que constataram que os meninos obtiveram uma taxa maior de assimilação do que as meninas, bem como as meninas grafaram mais o /r/ que os meninos.

Sobre o procedimento de orientação pedagógica, elaboramos as seguintes hipóteses: H4 - A variável /no/ realiza-se mais em turmas que não receberam orientação pedagógica e H10 - A variável /Ø/ realiza-se mais em turmas que não receberam orientação pedagógica. De forma surpreendente, ambas as hipóteses foram refutadas. Em nenhum dos dois fenômenos a instrução pontual mostrou-se como fator relevante no cancelamento dos fonemas /d/ e /r/. A Tabela 04 ilustra nossa assertiva:

 

 

Os resultados de Mollica (2003) sobre o cancelamento da vibrante /r/ em posição final revelou que na 2ª e na 4ª séries a instrução não atuou como o esperado, apenas na 1ª e na 3ª série que houve um aumento do índice de representação da vibrante /r/. Em nossa pesquisa o tipo de orientação pedagógica fornecida (pontual) não representou um fator de influência para o fenômeno em estudo. Sobre o índice de assimilação de /d/ em / ndo/, Mollica (2000: 87-88) afirma que

(...) os resultados comparativos entre as classes com e sem instrução servem de base para demonstrar que um ensino dirigido, que aproveite as descobertas das pesquisas sociolingüísticas sobre a fala (e sua relação com a escrita), pode obter melhores resultados do que um ensino que não atente para a variação na fala, presente nos hábitos lingüísticos de seus alunos.

Após a testagem estatística das variáveis sociais, realizamos um teste de hipóteses para a comparação de médias entre duas variáveis distintas. No fenômeno do cancelamento da dental /d/, cotejamos os fatores estruturais dissílabo com polissílabo e trissílabo com polissílabo a fim de identificar em que contextos os estudantes utilizam mais a variável /no/. A Tabela 05 apresenta os resultados obtidos nesse teste:

 

 

De acordo com a H1, a variável /no/ se realizaria mais em palavras polissílabas do que em palavras dissílabas, contudo o resultado do teste confirma parcialmente nossa hipótese, pois não podemos desconsiderar um valor de p= 0.096 que é tão próximo de 0.05. Por essa razão, sugerimos outras explorações a fim de verificar a significância dessa variável, já que a pesquisa de Mollica (2000), realizada em turmas de 5ª a 8ª séries, verificou que a variável extensão lexical mostrou-se relevante na escrita. A autora comparou a escrita de estudantes em itens com duas e três sílabas e chegou a seguinte consideração (Mollica 2000: 85):

Esses resultados, embora com pouca variação por tratar-se de séries mais avançadas, servem de subsídios importantes do ponto de vista pedagógico: devem-se trabalhar prioritária e inicialmente palavras como estragando, apanhando, amando e, posteriormente, itens de menor extensão como pondo, ando, indo.17

Em seguida, no estudo do fenômeno do cancelamento da vibrante /r/ comparamos as seguintes variáveis: modo de articulação da consoante seguinte (nasal) com modo de articulação da consoante seguinte (oclusiva), trissílabo com polissílabo, dissílabo com polissílabo, dissílabo com trissílabo, e, por fim, nome com verbo. A Tabela 06 ilustra os resultados obtidos:

 

 

Como é possível observar, não podemos compreender que os contextos do modo de articulação da consoante seguinte sejam favorecedores da realização da variante /Ø/, pois os testes estatísticos não apresentaram diferença significativa entre as duas variáveis. Nesse caso, foi refutada a hipótese de que o contexto seguinte de consoante oclusiva seria favorecedor do cancelamento da vibrante /r/ (H7). Se, na fala, Oliveira (2002) constatou que diante das consoantes oclusivas há uma maior probabilidade de ocorrer o cancelamento de /r/, na escrita não podemos confirmar tal assertiva.

Para testarmos a H6, comparamos as variáveis entre si (trissílabo com polissílabo, dissílabo com polissílabo, dissílabo com trissílabo)18 e constatamos que entre trissílabos e polissílabos não há diferença na média de erro por parte dos estudantes. Contudo, entre dissílabas e polissílabas e entre dissílabos e trissílabos os alunos tendem a errar mais diante das dissílabas. Esse resultado refutou nossa hipótese de que a variável /Ø/ realizar-se-ia mais em um contexto de palavras polissílabas e trissílabas do que em um contexto de palavras dissílabas.

Esse resultado também entrou em confronto com as pesquisas sociolingüísticas sobre a fala, realizadas por Oliveira (2002) e por Callou, Leite e Moraes (2002), que verificaram que a extensão do vocábulo é um fator favorecedor para o apagamento da vibrante /r/. Mollica (2003, p. 35), igualmente, constatou que há uma "menor freqüência de recuperação da vibrante em palavras maiores" em todas as séries e em todos os grupos. Inicialmente, supomos que a explicação para essa divergência talvez tivesse sido o conjunto de palavras dissílabas selecionadas, mas depois comparando as dissílabas com as polissílabas consideramos que seria muito mais provável os alunos errarem a escrita de palavras como "agricultor", "computador" e "encanador" do que de "amor", "beijar" e "dançar". Enfim, sugerimos a realização de outras pesquisas a fim de investigar a relevância dessa variável.

Por fim, comparamos as variáveis verbo e nome e verificamos que a média de erro dos alunos é maior em verbos do que em nomes. Nesse sentido, a H5 foi confirmada. Esse resultado corroborou as pesquisas de Oliveira (2002) e Callou, Leite e Moraes (2002) sobre a fala, bem como com a pesquisa de Mollica (2003) sobre a escrita de crianças.

 

6. Considerações finais

No estudo dos fenômenos do cancelamento da dental /d/ e da vibrante final /r/, elaboramos, a partir de pesquisas sociolingüísticas anteriormente realizadas, um conjunto de dez hipóteses. O Quadro 04 sumariza os resultados obtidos no presente trabalho:

 

 

Em suma, constatamos que o sexo masculino e as palavras polissílabas são fatores que influenciam, de forma parcial, a realização da variável dependente /no/ e que os verbos e os níveis de escolaridade são elementos condicionadores para o cancelamento da vibrante final /r/ na escrita de crianças do Ensino Fundamental (3º ao 5º ano).

Desses resultados, gostaríamos de destacar a variável orientação pedagógica pelo fato de esta não ter se apresentado como uma variável condicionante para a realização das variáveis /ndo/ e /r/. Esse resultado apenas nos permite afirmar que uma instrução do tipo circunstancial, como a que foi realizada na aplicação do instrumento de pesquisa, não se mostrou eficaz. Em outras palavras, não descartamos a importância da orientação pedagógica, acreditamos que uma instrução sistemática possa surtir os efeitos esperados. Outras pesquisas utilizando esse tipo de orientação pedagógica podem confirmar ou não nossa assertiva.

Verificamos também que as médias de erro dos estudantes em ambos os fenômenos foram baixas, sendo a média de cancelamento da dental /d/ ainda mais baixa. Essa afirmação nos leva a concluir que esses fenômenos não podem ser considerados como grandes problemas ortográficos em turmas de 3ºao 5ºano. No caso do apagamento da vibrante /r/, a escolaridade é uma variável que vai se tornando cada vez mais residual à proporção que os alunos vão subindo de série. Sugerimos, portanto, a realização de outros trabalhos que investiguem esses mesmos fenômenos na escrita de alunos do 2ºano.

Ao pesquisar os fenômenos em estudo, temos consciência de que muitos fatores ainda precisam ser mais bem investigados, tais como a extensão do vocábulo e a comparação de contextos fonológicos condicionantes com não-condicionantes. Uma maior exploração da primeira variável justificase pelo fato de que em outras pesquisas (cf. MOLLICA, 2003) essa variável mostrou-se relevante e na presente pesquisa não teve um valor estatisticamente significante.

A importância de pesquisas de Sociolingüística Aplicada ancora-se na utilização de resultados científicos na implementação de programas de intervenção pedagógica na área de Língua Portuguesa, levando a estreitar a distância entre as instituições escolares e acadêmicas. Nesse sentido, esperamos estar contribuindo para o rompimento dessa distância.

 

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Recebido em março de 2008
Aprovado em outubro de 2008

 

 

E-mail: sclaudiats@gmail.com
1. Bortoni-Ricardo (2005a) cita a experiência precursora na América Latina (México) de uma educação bilíngüe baseada em princípios lingüísticos.
2. Segundo Bortoni-Ricardo (2005a, 2005b), as críticas externas repousam na abordagem ultrarelativista da variação lingüística, apresentando-a como natural. Já as críticas internas repousam no ceticismo de que as diferenças lingüísticas não são a causa principal do fracasso educacional, mas os preconceitos vigentes na sociedade.
3. Os fatores estruturais e sociais selecionados serão posteriormente explicitados.
4. Uma variação é considerada estável quando há mudanças no indivíduo e uma estabilidade na comunidade. De acordo com Duarte e Paiva (2003: 18), "(...) os indivíduos vão mudando seu comportamento em cada fase de suas vidas, ou em razão de outros fatores (...)".
5. Oliveira (2002) apresenta vários autores que refutam ou ratificam essa hipótese. Ver o capítulo 2 de revisão da literatura de sua dissertação.
6. A indicação desses autores não tem a pretensão de ser exaustiva, Callou, Leite e Moraes (1998, 2002) e Oliveira (2002) fazem referência a vários outros pesquisadores que exploraram o cancelamento da vibrante /r/ pós-vocálica em posição final. Considerando que a pretensão desta pesquisa limita-se a um estudo do fenômeno dentro da Sociolingüística Aplicada, optamos por fazer um recorte na apresentação das pesquisas.
7. Callou, Leite e Moraes (2002 [1996]) também identificaram a realização do /r/ como vibrante apical múltipla, vibrante uvular, fricativa velar, fricativa laríngea, vibrante apical simples e aproximante retroflexa.
8. O número de alunos do Centro Social Félice Pistoni e do Colégio Maria Ester são referentes ao ano de 2007, período de realização da presente pesquisa.
9. Daqui para frente quando nos referirmos às hipóteses utilizaremos as siglas H1, H2, H3 e assim por diante.
10. A variável contexto fonológico de consoante líquida ficou com uma medida entre 0 e 3 e a variável contexto fonológico de vogal posterior ficou com uma medida entre 0 e 2. Tentamos, ainda, avaliar estas variáveis tomando os escores médios de cada uma (dividindo o escore de contexto fonológico de consoante líquida por 3 e o escore de contexto fonológico de vogal posterior por 2) como forma de padronizar as variáveis em uma mesma escala. Contudo, tal procedimento pode ser problemático tendo em vista o pequeno número de variáveis amalgamadas em cada uma delas. À guisa de informação, os resultados encontrados não indicaram consistência estatística entre as médias de cada uma, ou seja, de forma exploratória, podemos afirmar que não é consistente a diferença entre a média de erros entre as duas variáveis.
11. A título de ilustração, para o fenômeno do cancelamento da dental /d/, elaboramos 03 (três) itens para contexto fonológico de consoante líquida, 03 (três) itens para contexto fonológico de vogal posterior, 03 (três) itens para dissílabos, 03 (três) itens para trissílabos e 03 (três) itens para polissílabos.
12 O instrumento de coleta de dados está em anexo.
13. A aplicação do instrumento nos levou a perceber que uma possível causa para que os estudantes não conseguissem descobrir as palavras dos itens de número 2 ("pondo") e de número 29 ("pôr") seria o fato de que nesses dados contextos os informantes utilizam palavras mais específicas de seus dialetos. Assim, no enunciado "A galinha está pondo ovos", no lugar de "pondo" os alunos usaram "botando", "ponhando", "parindo" e no enunciado "Marina gosta de pôr as coisas em seus devidos lugares", no lugar de "pôr" usaram "ponhar", "colocar" ou "botar".
14. Alguns alunos que realizaram os testes eram crianças portadoras de necessidades especiais, e estavam em um nível de aprendizagem bem distinto do nível de sua turma.
15. O uso da palavra "erro" não se refere a uma conotação negativa que muitas vezes é difundida na escola, é uma terminologia utilizada na análise de dados do sistema SPSS.
16. De acordo com as teorias estatísticas, a variável só pode ser considerada estatisticamente significativa se p < 0.05.
17. Grifos da autora.
18. Não comparamos as variáveis dissílaba, trissílaba e polissílaba com monossílaba porque o total de escores da monossílaba não era igual aos escores das demais.

 

 

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