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DELTA: Documentação de Estudos em Lingüística Teórica e Aplicada

Print version ISSN 0102-4450

DELTA vol.26 no.1 São Paulo  2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-44502010000100018 

NOTAS SOBRE LIVROS

 

 

Por/By: Ronaldo de Oliveira Batista

Universidade Presbiteriana Mackenzie E-mail: ro_batista@uol.com.br

 

 

LEITE, Marli Quadros. 2007. O nascimento da gramática portuguesa. Uso & Norma. São Paulo: Humanitas: Paulistana, 334pp.

Buscando compreender origens do pensamento gramatical sobre a língua portuguesa e analisar registros gramaticográficos consequentes a esses episódios, Marli Quadros Leite (professora de língua portuguesa na USP) publicou em 2007 o resultado do desenvolvimento de sua tese de livre-docência. No trabalho da autora, fundamentado na Historiografia da Linguística, observamos etapas que fizeram com que a língua portuguesa passasse a fazer parte do processo de gramatização, estabelecido pela publicação de suas duas primeiras gramáticas: em 1536, a de Fernão de Oliveira; e em 1540, a de João de Barros.

A autora analisa a tensão entre norma e uso linguísticos nos momentos de formação de saberes gramaticais sobre o português, para isso observa, principalmente, formas de tratamento da língua em duas obras muito próximas no tempo - as primeiras gramáticas - em seu contexto de produção, procurando evidenciar semelhanças e diferenças, traçando, assim, uma historiografia a respeito da formação de um pensamento gramatical português, envolto em debates e disputas em torno da dicotomia prescrição vs. descrição.

O livro tem início com a introdução - "Primeiras anotações" (p. 21-29) -, em que a autora se propõe a estabelecer um estudo sobre a "língua gramatical" e a construção da norma linguística por meio da observação das gramáticas pioneiras do universo português. Os momentos de fundação, o berço da gramática ocidental, são reconstruídos no capítulo I - "Os manuais de gramática e sua importância social e linguística" (p. 35-75). Para isso a autora retoma bases filosóficas, retóricas e filológicas de um saber que fixou as bases do que hoje se compreende como Gramática Tradicional. O capítulo II - "A gramática e os gramáticos portugueses do século XVI" (p. 77-111) - reconstrói historiograficamente o período humanista e suas características e trata, também, da inversão de perspectiva no tratamento da língua, considerando-se a formação de um novo público leitor, em meio à passagem do oral para o escrito na história do registro da língua portuguesa. O capítulo III - "Da gramática greco-latina às gramáticas portuguesas" (p. 113-184) - analisa, como se pretendia nas páginas introdutórias, a gramaticografia portuguesa. Uma das categorias de observação privilegiada pela autora é a que retoma a questão da influência. Dessa forma, Leite efetiva a análise historiográfica do conteúdo das gramáticas, de abordagens e métodos, tendo em vista observar a presença e a função de comentários sobre o uso linguístico e suas relações com a normatividade. Nos capítulos IV, "Fernão de Oliveira e a Grammatica da lingoagem portuguesa" (p. 185-224); V, "João de Barros e a Gramática da língua portuguesa" (p. 225-273); VI, "Fernão de Oliveira e João de Barros: confrontos e contrastes" (p. 275-307), estudam-se concepções de língua nos trabalhos dos gramáticos e discute-se sobre o estabelecimento de uma norma e a observação dos usos da língua, questão que é complementada por uma análise da estrutura e do conteúdo dos exemplos utilizados pelos gramáticos. A conclusão do livro, intitulada "Anotação derradeira" (p. 311-317), retoma pontos observados com competência pela autora, dando margem à avaliação de que a investida historiográfica de Leite estabelece fundamentos apropriados para a observação analítica (como pretende a boa historiografia) da constituição portuguesa do instrumento gramática. Constituição que, ao longo da história, nunca se manifestou em espaços sem disputas e posicionamentos divergentes, uma vez que coloca em jogo uma das questões fundamentais de toda observação sobre as línguas (seja ela gramatical, seja ela de base linguística), pois o que está em jogo é a definição de normas em meio aos diferentes usos possíveis de uma língua.