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DELTA: Documentação de Estudos em Lingüística Teórica e Aplicada

Print version ISSN 0102-4450

DELTA vol.27 no.1 São Paulo  2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-44502011000100005 

ARTIGOS

 

Letramento, etnicidade e diálogo intercultural

 

Literacy, ethnicity and intercultural dialogue

 

 

Maria Sílvia Cintra Martins*

Professora do Departamento de Letras da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Pós-doutora em Lingüística Aplicada (IEL/Unicamp). Líder do Grupo de Pesquisa LEETRA - "Linguagens, etnicidades e estilos em transição" (Cnpq) e pesquisadora vinculada ao Grupo de Pesquisa "Letramento do Professor" (Cnpq). E-mail: msilviam@ufscar.br

 

 


RESUMO

Defendo a relevância da aplicação do conceito de etnicidade na área dos Estudos do Letramento com vistas à compreensão mais adequada e detalhada de fenômenos que comportam aspectos de hibridismo e de tensão cultural inerentes ao diálogo intercultural. Apresento relato de pesquisa de campo de viés participativo com a intenção de explicitar a forma de aplicação desse conceito na área dos Estudos do Letramento. Concluo que o conceito de etnicidade mostra-se fértil para dar conta de situações que envolvem fatores de invisibilidade típicos de zonas de conflito, propiciando, ainda, a compreensão mais adequada dos conceitos bakhtinianos de dialogismo, de polifonia e de arena de conflito.

Palavras-chave: etnicidade; hibridismo; diálogo; multiculturalismo.


ABSTRACT

I defend the relevance of the application of the concept of ethnicity in the area of New Literacy Studies for an in-depth understanding of phenomena bearing aspects of hybridism and cultural tension inherent in intercultural dialogue. I present a report of field research developed in a participative way in order to make clearer the form of application of this concept in the area of New Literacy Studies. I conclude that the concept of ethnicity is rich for the understanding of situations involving invisibility factors typical of conflict zones, propitiating also a better understanding of the bakhtinian concepts of dialogism, polyphony and conflict arena.

Key-words: ethnicity; hybridism; dialogue; multiculturalism.


 

 

"Os Estudos do Letramento defendem uma
concepção pluralista e multicultural das práticas
de uso da língua escrita (...) sem cair em
simplificações que neguem a evidente hierarquização
das práticas sociais (...)"

(Angela Kleiman)

"Por questões heurísticas e teóricas, este interesse
pelo fenômeno da etnicidade deverá se tornar,
por muitos anos, uma preocupação maior"

(Abner Cohen).

 

1. INTRODUÇÃO

Exploro, neste trabalho, as contribuições do conceito de etnicidade para os Estudos do Letramento com base na apresentação e discussão de relato parcial de pesquisa de campo de perfil etnográfico e interpretativista realizada em território considerado de periferia urbana. A pesquisa foi desenvolvida dentro dos pressupostos da pesquisa empoderadora (Cameron, 1992) e teve como objetivos: a) o levantamento da diversidade dos letramentos praticados na comunidade em questão; b) a verificação do contraste entre certos aspectos dos letramentos vernáculos e outros do letramento institucional; c) a verificação de aspectos sócio-culturais de comunidade de bairro de município localizado na região central do estado de São Paulo; d) a verificação, em termos sócio-econômico-culturais, das implicações da noção de periferia urbana para os Estudos do Letramento. Os resultados parciais apontam para a fertilidade da exploração do conceito antropológico de etnicidade particularmente para se pensar a zona de conflito característica dos bairros denominados periféricos; também para se reconsiderar a denominação de periferia urbana com a estigmatização que lhe é própria; e, ainda, para melhor elucidar os conceitos bakhtinianos, já bastante conhecidos e mencionados na área dos Estudos do Letramento, de polifonia, dialogismo e arena de conflito.

Para o desenvolvimento da pesquisa, assim como para a análise posterior dos dados, parti da pressuposição dos letramentos enquanto práticas sociais (Barton&Hamilton, 1998), das identidades no sentido construtivo e contrastante, em íntima relação com o conceito de pessoalidade (Hall, 2003; Street, 1993), e da etnicidade enquanto "essencialmente a forma de interação entre grupos culturais que operam dentro de contextos sociais comuns", configurando-se como uma variável, sujeita a diferentes graus, que se dá na interconexão com fatores sócio-político-culturais (cf.: Cohen, 2004: xi).

A discussão que apresento nos itens seguintes comporta, propositalmente, a articulação entre segmentos próprios do discurso argumentativo de teor científico e segmentos na forma de relatos em estilo narrativo. Com esta opção, viso deixar mais nítida a maneira como se deu, de forma contínua, o vaivém entre teoria e prática, na medida em que não tínhamos, de antemão, no início da pesquisa, total clareza com relação ao aparato teórico de que passamos a nos servir em face dos dados que foram sendo gerados. É interessante notar, nesse sentido, que mesmo os pressupostos metodológicos de que nos valemos, de viés participativo e empoderador, foram sendo repensados, à medida que a interlocução que travávamos com os sujeitos de pesquisa nos fazia rever a forma como em princípio entendiamos o multiculturalismo e a própria viabilidade do diálogo intercultural em toda a sua complexidade, ou seja, no que implica tanto fatores éticos, quanto étnicos, questões que se tornarão mais claras para o leitor à luz dos recortes dos dados de pesquisa que vou efetuar.

Destaco, de toda forma, que trato aqui da noção de etnicidade do ponto de vista das gradações que comporta, ou seja, no sentido de que há etnicidades e etnicidades (cf.: Cohen, 2004: xiv), consciente de que, à primeira vista e para um leitor que ainda não está habituado com a utilização desta noção – mesmo porque a trago do campo dos estudos em Antropologia urbana para pensar questões da área dos Estudos do Letramento –, pode parecer que os dados que ora exploro teriam pouco ou nada a ver com essa noção, ou mesmo que prescindem de sua aplicação.1

 

2. DO CONCEITO DE ETNICIDADE E DA METODOLOGIA2

Durante quatro anos coordenei pesquisa de campo nos bairros Gonzaga e Monte Carlo, em São Carlos, município de porte médio localizado no interior paulista, na região central do estado de São Paulo. A coleta de dados foi efetuada em ambientes institucionais, como foi o caso de uma escola da rede estadual de ensino, e também em ambientes não institucionais, como foi o caso da sede de uma cooperativa de limpeza que visitamos quinzenalmente, no decorrer de um ano. Também pude observar a forma de interlocução de jovens da faixa etária dos onze aos quinze anos no decorrer de uma série de visitas que estes efetuaram ao campus da Universidade Federal de São Carlos, como parte de projeto coordenado por mim.

Para melhor compreender e analisar os dados que levantamos nesse período, comecei, a partir de certo momento, a explorar o conceito antropológico de etnicidade, que me pareceu fértil para elucidar a forma de comunicação travada entre sujeitos pertencentes às comunidades em questão e sujeitos advindos de outras esferas sociais. Este conceito mostrou-se apropriado para descrever a forma com que se dá, por exemplo, a relação entre os jovens e seus professores, assim como entre eles e o corpo administrativo da escola, e mesmo entre elementos do corpo administrativo e do corpo docente.3Passei a entender, assim, que poderia contribuir para uma compreensão mais profunda da própria relação que buscávamos construir, sempre em meio a entraves que não nos eram, em princípio, nítidos, entre sujeitos pertencentes à esfera acadêmica (sejam alunos ou professores) e sujeitos pertencentes às comunidades dos bairros e à comunidade escolar.4

Foi nesse sentido que trouxe, para a área de reflexão dos Estudos do Letramento e para a análise de uma realidade urbana, a insatisfação que se coaduna com aquela de Cardoso de Oliveira (2006b: 172-173), quando este levanta questões quanto aos critérios de objetividade de que o antropólogo, na ida a campo, pode se servir, sabendo-se diante de culturas que guardam, entre si, relações profundamente assimétricas e, ainda, consciente do fato de que ele próprio participa, como cidadão, da cultura dominante. Passei, assim, a compreender que também nós, enquanto professores e graduandos pertencentes ao círculo da atividade acadêmica, nos encontrávamos nessa posição contraditória e paradoxal, de quem busca o diálogo horizontal e, simultaneamente, participa da cultura hegemônica.5

Passei a adotar, nesse percurso, a definição efetuada pelo mesmo antropólogo (Cardoso de Oliveira, 2006a: 135) a respeito da etnicidade como "fenômenos socioculturais emergentes de situações de confronto entre diferentes etnias situadas no interior de Estados nacionais". Segundo ele, a noção implica a presença de espaço social interno a determinado país onde as etnias existentes mantêm relações assimétricas, sendo que, particularmente no caso brasileiro, uma das etnias desfruta de posição hegemônica num Estado de cuja constituição participa de forma majoritária; diz, assim, respeito a um panorama no qual se confrontam grupos étnicos no interior de um mesmo espaço social e político dominado mais fortemente por um deles (cf.: Cardoso de Oliveira, 2006b: 178).

É interessante, de toda forma, enfatizar que a noção de grupo étnico não remete, necessariamente, a questões raciais (muito embora os grupos étnicos possam, historicamente, ter tido uma origem de base racial), mas, preferencialmente, a grupos de poder e de interesse. Lembro, ainda, que Candido (1964), em volume que já se tornou clássico nos estudos da sociedade brasileira, destacou, no caipira por ele estudado há cerca de cinqüenta anos na zona rural do município de Bofete (também no estado de São Paulo), a preeminência dos aspectos culturais, enquanto "um modo de ser, um tipo de vida, nunca um tipo racial", destacando, de toda maneira, que essa categoria envolve, do ponto de vista racial, a mestiçagem do branco, do caboclo – com sua parcela de sangue indígena -, do preto e do mulato.6

Nos itens que seguem explorarei em mais detalhe o conceito de etnicidade, na medida em que for, também, apresentando alguns relatos referentes à pesquisa que desenvolvemos. Por ora, interessa-me adiantar, na linha de Cohen (1974: 117), que

um grupo étnico é uma coletividade de pessoas que partilham alguns padrões de comportamento normativo, ou cultura, e que representam uma parcela de um grupo populacional mais amplo, interagindo no quadro de um sistema social comum (...). O termo etnicidade se refere especificamente ao grau de conformidade existente em relação a essas normas coletivas no processo de interação social.

Do ponto de vista metodológico, baseamo-nos, no decorrer da pesquisa de campo, em parte, em Freire (1978), que propõe um método de pesquisa intimamente relacionado com a educação, na medida em que se torna muito sutil o limite existente entre a pesquisa propriamente dita, no que esta envolve levantamento de dados, e o processo educacional que já começa a se desdobrar nesse momento. Pressupõe-se, na linha da proposta freireana, que o educador vá à comunidade em que pretende desenvolver o processo educativo com a finalidade de levantar os assim chamados "temas geradores" nos quais deverá basear seu trabalho pedagógico. No entanto, como se espera que o processo de pesquisa seja efetuado de forma dialógica, e como o pesquisador deve estar atento aos problemas e tensões presentes na comunidade, acaba não se dando, de forma objetiva ou distante, o levantamento de dados; o processo de problematização da realidade já principia no decorrer da coleta de dados, em função da necessidade que o pesquisador sente de discutir, junto com os sujeitos de pesquisa, as questões que começam a surgir mesmo antes do início do processo educacional propriamente dito.

É fato que a assunção, da nossa parte, da categoria de etnicidade a partir de certo momento da pesquisa, trouxe à tona, também, algum questionamento com relação à própria possibilidade da horizontalidade do diálogo prevista por Freire, assunto ao qual voltarei no decorrer deste capítulo.

Vale lembrar, ainda, que para Cameron (1992), que possui uma posição semelhante à do educador brasileiro, a pesquisa empoderadora é uma forma de pesquisa acadêmica que busca respeitar a agenda dos sujeitos de pesquisa, ou seja, a ênfase, nesse caso, não recai nas prioridades estabelecidas pelo pesquisador, mas, de preferência, nos problemas e tensões presentes em dada comunidade e no compromisso ético do pesquisador com relação às questões inerentes à marginalidade, às lutas hegemônicas e contra-hegemônicas, e ao empoderamento dos sujeitos envolvidos.

 

3. ETNICIDADE, PERIFERIA URBANA E FATORES DE INVISIBILIDADE

Iniciamos, no ano de 2006, nossas primeiras visitas aos bairros Gonzaga e Monte Carlo. O município de São Carlos é conhecido na região a que pertence pelo cognome de "capital da tecnologia", associado ao fato da presença de duas universidades públicas de porte, a USP e a UFSCar, com ênfase marcada para a pesquisa na área tecnológica.

Chamou-me a atenção, desde as primeiras incursões aos bairros em questão, o fato de que distam apenas cerca de cinco quilômetros dos campi universitários principais, trajeto que se faz, em dias de pouco trânsito, em torno de vinte minutos. À medida que vários alunos de graduação foram se envolvendo no projeto, como coordenadora sempre os alertava para esse fato intrigante: a forma com que em parcos vinte minutos saíamos de um universo cultural acadêmico, marcado pela cultura própria que aí circula (ou, para adotar termos bakhtinianos, do círculo da atividade acadêmica, impregnado de fatores ideológicos e hegemônicos que lhe são próprios), e entrávamos num outro universo (ou em outro círculo de atividade), que logo imprimia suas marcas em nossos sentidos e sensações, já pela aparência das casas, pelo aspecto sinuoso de certas ruas, pela qualidade do asfalto, pela presença de ribanceiras e, ainda, pela própria feição das pessoas que por ali circulavam.7

Trata-se de uma área fronteiriça do perímetro urbano da cidade de São Carlos detentora de um dos maiores índices de vulnerabilidade social da cidade (extrema pobreza, altos índices de violência, de desemprego, de drogas, de baixa escolaridade e de crianças e adolescentes em risco pessoal e social), e que teve seu início de ocupação há cerca de vinte anos. Considerado zona crítica de acordo com o perfil sócio-econômico - de tal modo que seus moradores sofrem por problemas também relacionados à estigmatização da pobreza - este bairro se caracteriza por ter uma ocupação irregular tanto no que se refere às dimensões e à ocupação dos lotes, como no que tange ao caráter de ilegalidade das suas novas construções, que se localizam cada vez mais próximas de uma grande área conhecida pelos moradores locais como "buracão" (local que possui três nascentes, mas no qual são despejados os esgotos das casas do Jardim Gonzaga, bem como de outros bairros vizinhos). Além disso, verifica-se a falta de serviços urbanos considerados essenciais, principalmente nas áreas de saúde, lazer e esportes.

Lembro, neste ponto, quanto à questão da carência de serviços considerados essenciais, que Candido (1964: 9) faz menção, nos termos que seguem, à quantidade e à qualidade das necessidades humanas a serem satisfeitas: "(...) as sociedades se caracterizam, antes de mais nada, pela natureza das necessidades de seus grupos, e os recursos de que dispõem para satisfazê-las". É digna de nota, aliás, a forma com que o autor trata a cultura caipira, em termos que, sendo próprios à sua época, buscavam dar conta de fenômenos a que hoje aludimos sob o enfoque da desterritorialização e da hibridização cultural. Para ele, a cultura rural rústica ou caipira implicaria uma "sociedade parcial dotada de cultura parcial" (Candido, 1964: 8), no sentido do caráter híbrido dessa cultura, decorrente da pertença compartilhada entre valores rurais tradicionais e um mesmo sistema de valores que os da gente da cidade, situação própria do processo de transformação em que essa sociedade se encontrava no momento em que se efetuou a pesquisa.

Nesta medida, a reflexão que Candido construiu a respeito da comunidade caipira da zona rural do interior paulista, com base nas necessidades que aí vinham se criando na época por ele estudada e na constatação da tensão decorrente da busca por sua satisfação, pareceu-me fundamental para a definição do que passamos a entender por periferia urbana ou por populações marginais, mesmo porque, nos momentos atuais, nem sempre as populações tidas como marginais ou periféricas habitam, sob um enfoque estritamente espacial, zonas periféricas em relação ao que poderiam ser consideradas as zonas mais centrais de dado município.

Também a categoria da etnicidade, no sentido definido por Cohen (2004: ix, tradução minha), remete à mesma questão própria dos fenômenos inerentes à hibridização e às tensões sociais:

A etnicidade é um fenômeno ubíquo, no presente e no passado, tanto nos países desenvolvidos como naqueles em desenvolvimento. No Terceiro Mundo, as tribos, vilarejos, bandos e comunidades isoladas, que até recentemente eram nosso assunto tradicional (o tema de pesquisa dos antropólogos), estão em todo lugar hoje, vindo a se tornar parte constituinte das novas estruturas de Estado e estão, assim, sendo transformados em grupos étnicos com graus variados de diferenciação cultural.

Nesse sentido, passamos a nos dar conta de que, independentemente do fato de os bairros visitados se localizarem em região fronteiriça do município em questão, o certo é que ali se encontram traços de uma cultura híbrida, resultantes, exatamente, das necessidades que ali se criam em função da proximidade da convivência com outros grupos do mesmo município, e da precariedade dos recursos de que os moradores dessa comunidade dispõem para satisfazê-las. Essas necessidades, assim como as deformações delas decorrentes, se refletem nos mais diversos setores: na habitação, nas vestimentas, no acesso à educação, aos bens culturais, aos serviços de saúde, aos meios de transporte.

Vale notar, ainda, que o fenômeno de desterritorialização e de hibridismo cultural, que vem sendo descrito como característico da pós-modernidade (cf.: Canclini, 2006) e que, conforme pudemos constatar, já vinha se desdobrando desde momentos anteriores, remete ao estabelecimento do fato de que muitos grupos, em função da informalidade com que se organizam, possuem certo caráter de invisibilidade, cabendo-nos, na pesquisa etnográfica, o papel de descrevê-los e de reconhecer a existência da situação de conflito em que se inserem: ou seja, o estudo da estrutura desses grupos assim informalmente organizados passa a ser a chave para a compreensão da forma de organização das sociedades complexas (cf.: Cohen, 1974).

Para o melhor entendimento desses fenômenos, lembro, ainda, que, se é fato, como já sabíamos e pudemos confirmar no decorrer dos quatro anos de pesquisa etnográfica, que bairros como os do Gonzaga e Monte Carlo envolvem zonas de conflito, de instabilidade e de crise, também entendo ser fato, como já nos alertava Candido (1964: 9-10), que "o equilíbrio social depende em grande parte da correlação entre as necessidades e sua satisfação" e que "as situações de crise aparecem como dificuldade ou impossibilidade de correlacioná-las." Nesse sentido, vale notar, para a melhor compreensão das questões inerentes à definição de periferia urbana e de marginalidade, que, quando certo grupo passa a ser incorporado à esfera de influência de outro, sua vida como um todo passa a ser avaliada em função de novos padrões. Como decorrência deste fato, pode vir a se estabelecer desequilíbrio no sentido de se deixar, a partir de dado momento, de atingir o que até então poderia ser considerado como um "mínimo cultural", nos termos adotados por Candido, e aos quais me reporto aqui para enfatizar o caráter de tensão e de conflito inerente ao hibridismo cultural. É assim que os meios de subsistência de um grupo não podem ser compreendidos separadamente do conjunto de suas "reações culturais" (Candido, 1965: 13), desenvolvidas sob o estímulo do que passaram a se constituir, no contato com os demais grupos residentes no mesmo município, as necessidades consideradas básicas.

 

4. RELATO PARCIAL DA COLETA DE DADOS

Nossas visitas às comunidades dos bairros em pauta, com o intuito de levantamento de dados etnográficos associado à intenção da mobilização empoderadora de seus moradores, deram-se no decurso dos anos de 2006 a 2009. De início, a ação esteve voltada para um grupo de cooperados associados à Cooperlimp, cooperativa de limpeza sediada no Jardim Cruzeiro do Sul e cujos sócios, em sua grande maioria, residiam no bairro do Gonzaga, sem muitas vezes quererem ser identificados por essa residência. Sempre que tinham que preencher o requisito de fornecer o endereço de moradia (ou o endereço de correspondência), davam preferência a apontar o endereço da sede da cooperativa, que ficava numa travessa da avenida principal do bairro Cruzeiro do Sul, e não na baixada característica do bairro do Gonzaga, ainda conhecido como a favela, apesar de já ter passado por processo de urbanização.

Conforme mencionei antes, o termo etnicidade, ao qual me reporto aqui para melhor compreender alguns aspectos inerentes a esses fenômenos sócio-culturais, implica certo grau de (in)conformidade a padrões de comportamento normativo adotados por determinado grupo no contexto das interações sociais que mantém com outros grupos no interior de um sistema social mais abrangente. Embora se manifestem no comportamento individual, não se trata de hábitos idiossincráticos adotados por pessoas isoladas, mas de representações amplamente coletivas.

Os recortes que efetuarei a seguir são portadores de aspectos que apontam, cada um à sua maneira, para a necessidade de se apelar para a noção de etnicidade de modo a abordar em mais detalhe certas questões que vimos tentando compreender na área dos Estudos do Letramento, tais como: o contínuo do oral para o escrito; as dificuldades diversas que envolvem a competência na leitura e na escrita; os problemas inerentes ao acesso à cultura letrada considerada de prestígio.

Vale notar que, em função do espaço, apresento aqui apenas alguns recortes de todas as ações coordenadas por mim no período em pauta. Nesses recortes, chamo a atenção para uma série de lacunas, defasagens, descompassos que se deram no decorrer da pesquisa que empreendemos. Neste momento é para esses espaços aparentemente vazios que me interessa apontar, assim como para a aparente invisibilidade de certas tensões, o que não significa, é certo, que alimento uma predisposição pessimista em relação a ações semelhantes às que desenvolvemos ou, mesmo, que essas mesmas ações não tenham sido, apesar de todas as lacunas, válidas e proveitosas, tanto para nós, da academia, quanto para a comunidade para cuja melhoria da qualidade de vida buscávamos contribuir. Significa, sim, que busco trazer à tona, com base nos dados de pesquisa gerados, questões que dizem respeito à organização informal de certos grupos, da qual de modo geral não nos damos conta, ou à qual não atribuímos a necessária ênfase, sendo, no entanto, fatores que estão concretamente presentes e que exercem pressões e modificações sobre a realidade em transformação, sendo característicos, por isso mesmo, do que vem se entendendo, no campo da Antropologia urbana, à luz da noção de etnicidade (cf.: Cohen, 2004: xviii).

4.1. As sessões culturais

Durante o período em questão, coordenei um grupo de alunos que se vinculavam ao Projeto da Incoop/UFSCar, e juntos realizamos encontros quinzenais, no decorrer do segundo semestre de 2007, denominados "Sessões Culturais" – que envolveram leitura de textos de complexidade variada, sessões de cinema, rodas de conversa, entre outras atividades. Tínhamos o intuito de contribuir para a ampliação do acesso ao letramento de prestígio por parte da população local com base nos princípios da pesquisa empoderadora e do diálogo freireano em seu sentido da comunicação horizontal entre educadores e educandos.

Durante esses encontros foram detectadas as seguintes problemáticas que passamos a entender melhor, à medida que as enfocamos do ponto de vista dos fatores de etnicidade:

1) Necessidade de encontrar uma forma mais adequada de envolvimento dos moradores do bairro para esse tipo de trabalho de viés cultural e educativo. O número de pessoas foi em média de três por encontro e foi possível perceber, com certa freqüência, que a vice-diretora da cooperativa popular em que se realizavam os encontros conseguia a participação dos moradores na base do princípio de colaboração com a equipe provinda da academia, e não por seu interesse genuíno nas situações de ensino e aprendizagem que seriam desenvolvidas.

Pudemos perceber, aliás, nesse tipo de comportamento aquilo que Schwarz (1992: 16) denomina mecanismo de favor e que, à sua maneira, remete à questão do acobertamento que explorarei mais adiante, assim como aos fenômenos de invisibilidade aos quais busco dar ênfase neste trabalho.

Entendo que a relação que temos observado entre moradores do bairro e sujeitos provenientes de outros grupos sociais – e particularmente a forma com que os sujeitos da comunidade tendem a se relacionar com os acadêmicos – guarda resquícios do comportamento colonial e da política do favor destacada pelo autor, o que caracterizaria, no caso brasileiro, e contrariamente às nossas expectativas iniciais, a assimetria na relação dialógica característica da presença de grupos portadores de interesses diferenciados em torno de questões de poder e de hegemonia. Caracteriza, além disso, a organização relativamente informal de um grupo, naquele sentido destacado por Cohen (2004: xviii), de que a organização dos grupos se dá em duas dimensões, apresentando, de modo geral, características mistas, na medida em que se encontra dentro de um mesmo contínuo: por um lado, a organização formal, governada pelo contrato, e, sob o enfoque da abordagem em que nos inserimos dos Estudos do Letramento, mais fortemente regulada por normatizações escritas; por outro lado, a organização informal, regulada por obrigações morais ou rituais.

Entende-se, nos estudos em Antropologia urbana, que os membros dos grupos de interesse que não conseguem ou ainda não conseguem se organizar formalmente fazem uso, mesmo que de modo não totalmente consciente, de quaisquer mecanismos culturais que tiverem a seu alcance com vistas a articular, à sua maneira, a organização de seu grupo. A noção de etnicidade, em sua conotação política, torna-se adequada particularmente para dar conta desta forma de organização relativamente invisível e informal, tal como aquela com que nos deparamos no decorrer de nossas Sessões Culturais. Passei a entender, com a apreensão dessa variedade de critérios implícitos na noção de etnicidade, que através dela se poderia descrever em mais detalhe e com mais precisão aquilo a que, por exemplo, Bonvini (2001) se refere nos termos da "civilização da oralidade" em contraste com a "civilização da escrita".

O conceito de etnicidade passou, dessa forma, a se mostrar fértil, mesmo porque implica um contínuo dentro de uma realidade em transformação e seu cruzamento com variáveis sócio-político-culturais. Além disso, por aludir à organização mais ou menos informal dos grupos sociais, alude conjuntamente a seu acesso mais pleno ou mais restrito à linguagem escrita e a suas normatizações. Assim, a assunção dessa noção para pensar o contínuo oralidade/escrita leva-nos a incluir nesse processo a reflexão sobre diferentes formas de organização dos diversos grupos sociais, contribuindo, de forma mais precisa e detalhada, para a compreensão das esferas de atividade social previstas na reflexão bakhtiniana (Bakhtin/Voloshinov, 1995) e, ainda, para uma compreensão mais adequada, do ponto de vista sócio-político-cultural, do que sejam as práticas de letramento que estudamos e da riqueza de conotações que implicam.

2) Dificuldade dos cooperados no acesso a textos que caracterizam o letramento de prestígio, sendo possível perceber a tendência ao "acobertamento" (Goffman, 1975) dessa condição, fato que dificulta ou mesmo inviabiliza a possibilidade de um acesso direto para o levantamento de dados de pesquisa.

Segundo Goffman (1975), o comportamento do acobertamento é típico de comunidades ou de indivíduos estigmatizados em seu grupo social. Indícios desse comportamento se manifestaram, por exemplo, quer na falta de prontidão e de envolvimento dos cooperados na leitura de textos, quer na justificativa do esquecimento ou da falta de tempo para realizar a escrita prevista de certos textos, quer mesmo na justificativa da falta de óculos para poder ler os textos de forma adequada.

Ressalto, mais uma vez, o fato de que, à luz da noção de etnicidade, todos passamos a compreender, com mais precisão, a afirmação de Bakhtin/ Voloshinov (1995) segundo a qual os atos de fala correspondem a determinados círculos de atividade social, dentro de uma abordagem menos pragmática e, preferencialmente, político-social. Ou seja: não se trataria da questão bastante simples e corriqueira, de se imaginar que de acordo com a vivência em determinado círculo de atividade pomos em funcionamento dado gênero do discurso compatível com a atividade em andamento.

A pesquisa de campo em bairros com as características que venho destacando revelou-se bastante fértil, pois trouxe à tona uma questão bem mais complexa, obrigando-nos a enveredar para conotações próprias aos hábitos, aos costumes, em uma palavra: à cultura de determinado grupo. Cultura atravessada de nuances político-ideológicos, de tal forma que pensar a transição de uma a outra modalidade da linguagem – dentro do contínuo do oral para o escrito – ou de um a outro gênero do discurso veio a comportar implicações muito mais profundas do que poderíamos imaginar de antemão.

4.2. A montagem da biblioteca

Foi também nesse final do ano de 2007 que se realizou uma campanha para a doação de livros para a Cooperlimp, com base na iniciativa de uma das graduandas em Letras envolvida no projeto e na sua sensação de que a instalação de uma biblioteca poderia vir a se configurar como um dos elementos propulsores do processo de ampliação do letramento dos moradores do bairro em questão. A montagem efetiva dessa biblioteca se deu no decorrer do primeiro semestre de 2008, com a colaboração de vários graduandos que freqüentavam a disciplina de caráter extensional "Letramentos Múltiplos". Apenas no final do semestre foi possível conseguir um pequeno envolvimento dos moradores do bairro na instalação da biblioteca: de início, porém, só de algumas crianças.

Entendíamos que a biblioteca montada, assim, de forma inédita dentro de uma cooperativa popular cumpria o papel dos artefatos culturais enquanto motivadores com relação ao processo de alfabetização ou de inserção em práticas letradas de prestígio vivenciado pelos moradores da comunidade, e visava contribuir para sua construção identitária e pessoal, na eventual busca de parecerem ou se sentirem letrados. Vale notar, aliás, a ponderação de Bartlett (2007), a respeito dos artefatos culturais, que podem, segundo a autora, ser materiais (livros, cadernos, material para estudo, mochilas etc.) ou imateriais (diferentes rotulações, como as denominações de "burro", "analfabeto" ou "favelado", por exemplo, que dariam entrada a determinados mundos figurados). Foi nessa medida que a criação de uma biblioteca - embora portadora de um número ainda pequeno de volumes sem muita diversificação e com uma presença marcante de livros didáticos – foi vista por nós como a configuração, no interior de uma cooperativa popular, de um artefato cultural impregnado de conotações da cultura letrada de prestígio em nossa sociedade e, por isso mesmo, passível de mobilizar processos de identificação com relação a essa cultura letrada.

No que diz respeito ao processo de formação da biblioteca dentro da cooperativa, é fato que este não se deu através de um questionamento junto aos moradores que trouxesse à tona essa reivindicação, mas, sim, através do convívio com eles nas "Sessões Culturais" que mencionei e da percepção da carência material em que vivem, o que levou uma das graduandas, que era bolsista-extensão na universidade, a mobilizar o processo de doação de livros pela comunidade acadêmica. Esta iniciativa se coadunava, de resto, com o viés de extensão da disciplina "Letramentos Múltiplos" que coordeno, dentro da tentativa de estabelecer uma aproximação entre a academia e a comunidade. Coadunava-se, também, com o relato de Freire (1978) de que nem sempre os temas geradores surgiam diretamente da comunidade em questão; muitas vezes eram resultado da percepção dos coordenadores com relação às necessidades ali presentes, sem que tivessem sido verbalizadas.

Quando o número de livros foi se acumulando no Departamento de Letras, entramos em contato com a diretoria da cooperativa, comunicamos o fato de que havia cerca de 300 volumes de livros diversos que lhes haviam sido doados e apontamos para a possibilidade de haver uma triagem, de modo a que não se levassem para o recinto da cooperativa volumes que pudessem não ser de seu interesse. Foi feito, no entanto, por parte da diretoria da cooperativa (e sem uma consulta prévia aos cooperados em assembléia, como costumava ser de praxe) o pedido para que todos os volumes fossem levados e que a triagem se fizesse de forma natural, ao longo do tempo, na medida do interesse ou não dos moradores do bairro. Iniciava-se, dessa forma, o envolvimento real dos moradores do bairro com relação à biblioteca que começava a ser montada.

4.3. A mostra de fotografias

Um segundo grupo também vinculado à disciplina "Letramentos Múltiplos" efetuou uma série de visitas ao bairro do Gonzaga. No decorrer dessas visitas, foram feitas gravações de conversas mais ou menos espontâneas com moradores do bairro e foi tirada uma série de fotos em três momentos diferentes, sendo que algumas delas foram tiradas pelos próprios moradores. Entendíamos que as fotos implicavam um dos letramentos em que poderíamos envolver a comunidade. Além disso, entendíamos, ainda, que, com as fotos, era possível mobilizar um processo envolvendo memória, identificação e recuperação da auto-estima.

O painel com fotos foi montado e foi digno de nota o processo de memória e de identificação que foi gerado entre os cooperados que se encontravam na sede da cooperativa nesse momento. Além do reconhecimento de pessoas e de locais, deu-se, neste caso por parte da diretora da cooperativa, o processo de desencadeamento daquele lado escuro da memória, que, segundo ela, preferia esquecer. De acordo com seu depoimento, as fotos revelam uma realidade do bairro muito melhor do que aquela de sua juventude: "isso aqui agora é um paraíso". Ela relatou sua forma de vida vinte ou trinta anos antes: a maneira como a família veio da zona rural procurar trabalho na cidade; a forma com que se sentiu valorizada ao trabalhar na indústria local; a forma com que não pôde manter esse emprego e foi levada a voltar ao corte de cana; a perda dos pais e a necessidade de cuidar dos irmãos mais novos; o momento extremo em que quase tiveram que doar a irmã mais nova; a ajuda de pessoas da comunidade; a forma de apoio da Incubadora de Cooperativas (Incoop/UFSCar).

Vivências como essa confirmaram minha percepção anterior do quanto podem ser produtivas as dinâmicas desenvolvidas dentro desse viés participativo por seu potencial de trazer à tona dados que de outra maneira dificilmente seriam gerados, particularmente quando estamos diante da tendência ao "acobertamento" (Goffman, 1975) que relatei acima, revelando-se, assim, como formas mais fidedignas de geração de dados quando lidamos com pesquisa de base qualitativa e, mais especificamente, em contextos portadores, em maior grau, de fricção interétnica.

4.4. A oficina de texto e o jornal escolar

A partir do primeiro semestre de 2008, passei a supervisionar, ainda, ação pedagógica em escola estadual do bairro Monte Carlo, unidade que atende a cerca de setecentos alunos e mantém o Ensino Fundamental no período diurno e o Ensino Médio no noturno. Um grupo de seis licenciandos em Letras desenvolveu, nessa escola, o trabalho denominado "Oficina de Texto", com vistas a tentar suprir as defasagens que alguns alunos demonstravam com relação ao grau escolar a que pertenciam.8 Foram montadas duas classes: uma com alunos de sexto e sétimo anos; outra com alunos de oitavo e nono anos. O trabalho pedagógico desenvolvido através dessas "Oficinas de Texto" culminou, nesse momento, com a redação de um jornal escolar de apenas uma folha, no qual, entre outros aspectos, era transcrita uma entrevista com os alunos do grupo pertencente ao oitavo e ao nono ano. Na entrevista, apareciam alguns questionamentos com relação à merenda escolar, assim como com relação a outros aspectos do cotidiano escolar, como uma reforma em andamento e o funcionamento da escola em período integral. O jornal não pôde, no entanto, ser publicado – havia a intenção de se distribuírem cerca de 200 cópias – por ser considerado inconveniente, pela direção, em função de eventuais atritos que poderiam ser gerados entre o corpo docente e o discente.

Em Martins (2008) relato outra experiência de trabalho coordenada por mim no mesmo período, na linha da pesquisa empoderadora, a qual envolveu a revitalização da biblioteca dessa unidade escolar e também careceu de um envolvimento maior do corpo docente e discente, se comparado com as expectativas que alimentávamos, nesse caso em parte por questões de política governamental (falta de concursos para bibliotecários em escolas estaduais nos últimos dez anos, contraditoriamente ao riquíssimo acervo que as escolas continuamente recebem para preencher suas prateleiras). Quanto ao jornal, tivemos que redirecioná-lo para que passasse a tratar, de preferência, de questões culturais. Sem dúvida, mesmo assim foi um instrumento útil na mobilização dos saberes dos educandos, na dinamização de seu domínio das práticas escritas; porém, é necessário destacar o quanto deixou de cumprir o papel cidadão que deveria caber a um genuíno jornal escolar se a escola pudesse, de fato, ser um local de comunicação humana mais simétrica.

Foi nessa mesma época que visitamos, também, a Estação Comunitária do Jardim Gonzaga – um complexo urbanístico que envolve um posto de saúde, quadras esportivas e salas para desenvolvimento de oficinas de formação – por ocasião de uma mostra dos trabalhos ali desenvolvidos durante o semestre. Chamou-me a atenção certo desenho que representava a escola estadual do bairro em que vínhamos desenvolvendo nossa ação. Aparecia cercada por muro no qual três jovens faziam uma pichação: "Escola é o caminho para o futuro". Junto aos jovens havia um skate.9 Essa representação em desenho vinha confirmar a sensação que vínhamos tendo com relação à forma conflituosa com que os jovens se relacionam com a escola: por um lado, estão do lado de fora e são portadores de certos elementos típicos da cultura não escolar que praticam cotidianamente (implícita em seus trajes, no skate, no próprio ato de pichar); por outro lado, alimentam expectativas de futuro que estão relacionadas com a passagem pelo ambiente escolar – do qual, seja como for, se encontram relativamente excluídos.

 

5. CONCLUSÕES PARCIAIS

Foi sempre certa sensação de incompletude, de inacabamento, de dificuldade para de fato realizar nossas ações em conformidade com nossos propósitos iniciais, que me conduziu à busca de uma explicação de caráter sociológico e antropológico. Eram vários esses vazios que procurávamos preencher de forma a responder algumas perguntas: por que sempre nos sobrava a impressão de certa artificialidade no diálogo que nós, da academia, tentávamos travar com os sujeitos da comunidade, mesmo quando munidos dos propósitos éticos da pesquisa empoderadora? De onde vinha todo o antagonismo que presenciávamos entre o corpo docente e discente da escola? De onde vinha certa desconfiança do corpo docente da escola para com o trabalho que buscávamos empreender?10

A adoção do conceito de etnicidade para explicitar as relações sociais presentes, não só em realidades como essas que venho descrevendo, mas também em outros ambientes (até mesmo para dar conta da complexa relação que se trava no próprio âmbito universitário) tem contribuído para uma compreensão mais aprofundada dos conceitos de ideologia e de hegemonia (Fairclough, 2001), como também dos conceitos bakhtinianos de polifonia, de dialogismo e de arena de conflito. Entende-se, nesse caso, a etnicidade como resultado de uma intensa interação entre diferentes grupos culturais que almejam posições estratégicas de poder, sendo alguns símbolos de sua cultura utilizados como mecanismos de articulação de alinhamentos políticos.

Nesse sentido, conforme passei a entender, fenômenos que muitas vezes consideramos como desvios ou aberrações, em função da falta de adaptação que apresentam na realidade em transformação11, podem ser vistos como traços de etnicidade e, assim, como positividades (cf.: Foucault, 1992), contribuindo, dessa maneira, para uma visada diferenciada de questões que, na área da Educação, e particularmente do ponto de vista das avaliações oficiais (Saresp, Saeb, Prova Brasil, Enem), são vistas, via de regra, como negatividades. Essas positividades, como traços de etnicidade, podem ser mais bem avaliadas, assim entendo, se as abordarmos enquanto traços de resistência e de conservação dentro de uma realidade em transformação. Conforme assevera Cohen (1974: 124),

Mesmo quando o grupo passa por um processo de transformação, ele se adapta à nova situação guardando seus costumes tradicionais, sem adotar costumes que poderiam ser compartilhados com elementos de outros grupos, ou dos grupos com que passam a estar em contato.

Para finalizar, lembro, ainda, as três questões dialéticas inerentes à etnicidade e para as quais o mesmo autor chama nossa atenção por merecerem aprofundamento de pesquisa: a relação entre símbolos e relações de poder; as relações entre símbolos e questões identitárias; a relação entre os símbolos e a transformação social. Vale notar que, segundo me parece, estas questões estão implícitas na formulação bakhtiniana, tantas vezes mencionada, de que todo signo lingüístico é ideológico, que, por isso mesmo, em meu entender, mereceria maior detalhamento com base em enfoque antropológico e sociológico, de forma a que possamos aplicá-la com maior precisão às práticas que analisamos.

Concluo, assim, lembrando o quanto considero os conceitos bakhtinianos, utilizados frequentemente na área dos Estudos do Letramento, de "arena de conflito", "polifonia" e "dialogismo", extremamente adequados para se refletir sobre toda essa realidade de conflito ideológico e cultural à qual me referi no decorrer deste trabalho servindo-me do conceito de etnicidade. Se dei, no entanto, preferência a este percurso que acabei de efetuar, isso se deveu ao fato de perceber a necessidade de se buscarem detalhamentos na área de estudos da Antropologia e da Sociologia de forma a proporcionar que esses próprios conceitos bakhtinianos possam ser revisitados ou redespertados naquela força conceitual profundamente humana, e por isso mesmo conflituosa, que contêm – e que muitas vezes, talvez em função do próprio objeto de pesquisa que abordamos, não se torna suficientemente explícita.

É digna de nota também a fertilidade da pesquisa de campo de cunho etnográfico, pela exigência que comporta em termos teóricos e práticos, conduzindo-nos a uma contínua revisão de nossos pressupostos, assim como à busca de novos paradigmas que nos ajudem a enxergar, problematizar e analisar a realidade que se apresenta à nossa frente.

Destaco, por fim, um fato que me parece evidente do ponto de vista dos próprios ideais da pesquisa que se quer genuinamente dialógica e empoderadora. Se queremos contribuir para o empoderamento desses sujeitos em sua luta, às vezes mais, às vezes menos visível, por um espaço mais confortável em meio à disputa territorial – e aqui aludo, também, à disputa por territórios ocupados por bens simbólicos e culturais –, isto não se dará pelo ocultamento ou eventual negligência desse embate microfísico do poder que se trava na frente dos olhos de todos nós: daqueles que queremos vê-lo.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido em: dezembro de 2009
Aprovado em: fevereiro de 2011

 

 

E-mail: msilviamart@yahoo.com.br
1. Lembro que é nesse sentido, de que há etnicidades e etnicidades, que o relato que apresentarei em parte diz respeito a uma experiência única que presenciamos nos bairros em questão; em parte, é representativo de situações recorrentes no panorama social brasileiro, porém portadoras de diferentes graus do mesmo fenômeno que exploro aqui.
2. Parte do que relato aqui é resultado de projeto de pesquisa "Práticas de letramento e de identificação em três comunidades em processo de urbanização" desenvolvido com auxílio CNPq (400419/07-6) no período 2007-2009.
3. Desenvolvemos mais amplamente a reflexão a respeito da responsabilidade das instâncias administrativas na forma com que se dá o trabalho escolar, assim como das tensões inerentes à relação que se trava entre secretarias da educação e unidades escolares, em Kleiman & Martins (2007).
4. Iniciei a reflexão em torno do conceito de etnicidade em Martins (2009). Já nesse trabalho apresentei relato inicial das ações que menciono aqui e chamei a atenção para a necessidade de problematizar a questão referente ao diálogo intercultural, trazendo à tona, para reflexão e análise, os aspectos de conflito e de disputa de poder inerentes a esse diálogo, na linha da constatação de Habermas (1987) da "compreensão distorcida" decorrente do processo de dominação em qualquer comunidade de comunicação.
5. Alinho-me com Cardoso de Oliveira (2006b: 180) quando este aponta para a assimetria presente na comunicação social em crítica à horizontalidade prevista por Gadamer e mesmo por Habermas, na medida em que "(...) mesmo que formada uma comunidade interétnica de comunicação e de argumentação, e que pressuponha relações dialógicas democráticas – pelo menos na intenção do pólo dominante – mesmo assim o diálogo estará comprometido pelas regras do discurso hegemônico".
6. Mereceram destaque algumas considerações de Candido (1964) para minha reflexão em função de seu enfoque numa sociedade em transformação, que, naquele momento, se localizava na zona rural e que, como consequência dos próprios problemas destacados pelo autor, no sentido de sua paulatina desintegração, veio a adensar as periferias urbanas. Pareceu-me digna de nota a forma com que o autor atribui ênfase aos aspectos de conservação de elementos tradicionais implícitos no processo geral de transformação.
7. Entendo que não podemos negligenciar o fato de que nas universidades públicas brasileiras ainda é precária a participação de grupos étnicos negros ou indígenas, o que também acontece na universidade à qual me refiro neste trabalho e onde as ações afirmativas encontram-se em fase inicial de implantação.
8. Lembro que o Movimento "Todos pela Educação" denuncia o fato da defasagem bastante generalizada dos estudantes da escola pública com relação ao grau escolar que freqüentam. Um dos dados aponta que menos de 5% das crianças que freqüentam a quarta série do Ensino Fundamental estão plenamente alfabetizadas. Informação disponível no sítio http://www.todospelaeducacao. com.br/ (Acesso em 05/10/2010).
9. Cohen (1974: 74) anota: "Os membros do grupo podem adotar alguns símbolos externos de distinção, como marcas faciais, estilos de penteado, roupas especiais, uniformes (...)". Lembro, a esse propósito, que chamou a atenção de uma das graduandas que atuou no projeto a presença freqüente da sigla "SMDM" no caderno dos alunos. Perguntando a um deles, obteve como resposta tratar-se da expressão "sem medo do medo" utilizada como símbolo do grupo dos alunos tidos como problemáticos dentro da unidade escolar.
10.O trabalho de Dorneles (2008), um dos licenciandos em Letras que participou desse projeto, traz alguns relatos e reflexões a respeito das ações empreendidas na escola estadual do bairro no ano de 2008. Disponível em http://www.letras.ufscar.br/linguasagem/edicao04/04_021.php
11.Incluo, aqui, as questões referentes aos desvios com relação aos padrões normativos de escrita e de ortografia. Entendo, assim, que a diversidade dos assim chamados problemas com a escrita, que remetem ao fato de muitos jovens serem caracterizados como analfabetos ou com problemas relativos à alfabetização, pode ser compreendida de forma mais lúcida sob o enfoque da problemática que diz respeito aos conflitos e tensões que se estabelecem em território de etnicidade. Em outro trabalho (Martins, 2010) exploro questões mais propriamente textuais envolvidas nessa problemática.