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DELTA: Documentação de Estudos em Lingüística Teórica e Aplicada

versión impresa ISSN 0102-4450

DELTA vol.27 no.1 São Paulo  2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-44502011000100010 

RESENHA REVIEW

 

 

Shirley Eliany Rocha Mattos; Caroline Rodrigues Cardoso

Universidade de Brasília

 

 

TAGLIAMONTE, Sali A. 2006. Analysing sociolinguistic variation. New York: Cambridge University Press. 284p.

A sociolinguística laboviana ou sociolinguística quantitativa desenvolve pesquisas de base empírica sobre uma língua e sua vinculação com a estrutura social que a apoia. Como princípio básico de análise admite a heterogeneidade linguística intrínseca e desenvolve suas observações baseada em instrumental de caráter estatístico produzido por programa computacional largamente utilizado na área, o Goldvarb, ou sua versão mais recente para Windows, o GoldvarbX. Essa ferramenta permite, além da apresentação das frequências absolutas e relativas dos dados previamente preparados pelo pesquisador, correlacionar informações de caráter linguístico a informações de caráter social da amostra linguística em estudo.

A metodologia da pesquisa sociolinguística, configurada por Labov nos anos 60, geralmente tem sido considerada complexa mesmo no meio universitário e por isso o livro da lingüista Sali Tagliamonte, professora associada na Universidade de Toronto, Canadá, apresenta-se útil. A publicação é oferecida, no prefácio, como um manual ("simply one's tried-and-true manual of best practice") e destina-se a orientar cada etapa de uma pesquisa laboviana, desde o planejamento inicial até a interpretação dos resultados numéricos. Como recurso didático, propõe-se ainda a estimular desenvolvimentos metodológicos e avanços no ensino e transmissão de conhecimentos de análise variacionista (p.1).

Os 12 capítulos da obra abordam aspectos de teoria e de prática. Tratam da coleta de dados, das peculiaridades da entrevista sociolinguística, da seleção dos dados e das variáveis a serem consideradas na fase de codificação deles, da formulação coerente de hipóteses, da operacionalização do programa, dos tipos de análise possíveis e da interpretação dos indicadores finais calculados. Todo esse esforço é ancorado em uma diagramação amigável, com divisões internas e subtítulos abundantes em cada capítulo além de uma fartura de tabelas e de notas complementares. Ao final de cada capítulo, há ainda uma seção de resumo e uma proposta de exercícios. Além disso, apêndices veiculados pela internet adicionam-se ao conteúdo do livro: um deles traz uma carta explicativa e um modelo de formulário de consentimento de participação em pesquisa; outro expõe um conjunto de questões-guia para entrevistas sociolinguisticamente orientadas; um terceiro apresenta um protocolo de transcrição dos dados de fala coletados. Há ainda um quadro com um gabarito para codificação sonora, uma seção com exemplos ilustrativos dos cálculos estatísticos realizados pelo Goldvarb e finalmente um tipo de gráfico (scattergram) com um exemplo de distribuição de variáveis correlacionadas. Ao final, a autora traz também um glossário dos termos técnicos mais usados ao longo do livro, forma amigável de manter um diálogo entre o leitor e a metodologia de pesquisa variacionista.

O livro é, portanto, de leitura obrigatória para os que se iniciam nos estudos sociolinguísticos, embora haja aspectos obscuros na exposição de alguns pontos, como indicaremos ao longo dessa resenha. Tagliamonte apresenta técnicas, como as de pesquisa de campo, por exemplo, treinamentos e conhecimentos com sistematicidade e riqueza de exemplos, retirados, na maioria, de suas próprias experiências de pesquisa, muitas delas sob a orientação de Shana Poplack, aluna de Labov na Universidade da Pensilvânia nos anos 70, por quem manifesta imensa gratidão no início da obra.

No capítulo introdutório do livro, em verdadeiro guia, estão dispostos esclarecimentos a respeito das singularidades da sociolinguística variacionista no panorama da Linguística como ciência. Além disso, temos os pressupostos teóricos fundamentais que orientam o empreendimento sociolinguístico, como assumir que as línguas são inerentemente variáveis (heterogeneidade ordenada) e dinamicamente incorporam variações de diversas ordens correlacionadas a significados e valorações socialmente construídos. Em seguida, são considerados os conceitos-chave de vernáculo e de comunidade de fala. Entende-se por vernáculo a primeira variedade adquirida por um falante, aquela experiência linguística básica, sem monitoração de qualquer ordem. Tem-se como prioritária uma operação de acesso a ele porque as relações linguísticas que nele se manifestam torna possível avaliar um curso de evolução da língua. A fim de captar o vernáculo, o pesquisador deve imergir como observador e como participante no ambiente sociolinguístico da comunidade de fala.

Feitas essas explanações, Tagliamonte finaliza a introdução apresentando as especificidades da metodologia laboviana como a seleção de variáveis linguísticas, as vantagens da multidimensionalidade e da capacidade prospectiva do método quantitativo e ainda da validade dos testes de hipóteses. É importante salientar que, ao longo do livro, os teóricos modelares vão sendo citados e apresentados.

O capítulo 2 trata das técnicas de coleta de dados, das decisões que devem orientar uma boa coleta na formação da amostra, do planejamento das variáveis linguísticas e sociais a serem consideradas, do número adequado de falantes, da ética no trabalho de campo. Tem o cuidado de alertar que a pesquisa de campo é desgastante emocional e fisicamente e, por fim, indica o website da editora, em que se encontram modelos de documentos, como o termo de consentimento de uso das informações coletadas, por exemplo, a serem utilizados visando o resguardo dos direitos inalienáveis de qualquer pessoa humana sob investigação.

Estratégias na condução das entrevistas para a coleta da fala mais aproximada do vernáculo são assuntos do capítulo 3. Tagliamonte remete mais uma vez aos apêndices disponíveis na internet, desta vez às matrizes com questões que utiliza em suas coletas de dados baseadas em Labov e submetidas a modificações e atualizações na medida da necessidade. Trata, ainda, de questões apropriadas para gerar dados mais naturais, da organização das perguntas, em uma necessária manifestação de interesse (empatia) pelas respostas apresentadas, enfim, no protocolo refinado por sua própria experiência de pesquisa.

Uma vez que nos três primeiros capítulos foram enfocados métodos capazes de originar dados satisfatórios para a análise sociolinguística, iniciam-se, a partir do capítulo 4, as explicitações acerca dos procedimentos e técnicas necessários a organização, conservação e transcrição fonográfica dos dados de fala natural. Em primeiro lugar, é fundamental identificar e arquivar adequadamente as informações de caráter social dos falantes, tais como gênero, idade e escolaridade. Em seguida, decidir o tipo de transcrição a ser realizada, levando-se em conta os objetivos de pesquisa. E, mesmo considerando que a representação da fala sempre impõe limites, optar sempre por manter fidelidade às características apresentadas e assegurar uma transcrição sem maiores complexidades e, por isso, de fácil leitura. O protocolo para transcrições correntemente utilizado pela autora é indicado no Apêndice C.

O próximo capítulo, de número 5, um dos mais longos do livro, avança no entendimento da unidade de análise da área, isto é, do construto fundamental no paradigma da sociolinguística quantitativa, a variável linguística. Trata de sua concepção, identificação e delimitação. Os procedimentos metodológicos variacionistas são muito claros na justificativa de que a primeira etapa de pesquisa seria a constatação de duas ou mais formas equivalentes estarem diferentemente distribuídas no discurso da comunidade. A variável linguística é uma evidência formal que pode se manifestar em qualquer nível da gramática de uma língua e necessariamente correlaciona estrutura linguística a estrutura social. Cabe ao analista provar a existência da variável linguística e sua correlação com o sistema social.

Depois dessas considerações, o capítulo 6 irá tratar dos procedimentos para identificação e codificação dos dados e também da testagem de hipóteses, incorporadas estas já na etapa de decisão sobre os fatores a serem considerados na codificação. Outro ponto destacado é a revisão da literatura acerca do fenômeno em análise com o objetivo de conhecer o que já se tem estabelecido e planejar aspectos de avanço da análise.

A partir daqui, o livro apresenta sempre capítulos muito extensos talvez porque repletos de gráficos e de quadros explicativos da prática de pesquisa variacionista. O capítulo 7 está dividido em 2 partes: uma teórica, que descreve as regras variáveis, o programa que opera com esse tipo de regra e a breve história dessas regras nos estudos variacionistas; e uma parte prática destinada à operacionalização com o Goldvarb, programa que se encontra disponível gratuitamente na internet. A validade do programa, segundo Tagliamonte, deve-se ao fato de ele compor uma sofisticada forma de análise estatística e também porque auxilia o pesquisador a ter controle matemático eficiente e organizado dos próprios dados. Tagliamonte, na parte teórica, descreve os pré-requisitos estabelecidos em Sankoff (1988) para a análise de regra variável e apresenta os vários modelos matemáticos estabelecidos pela teoria variacionista. Na parte prática, a autora trata das performances computacionais, das porcentagens, dos tipos e níveis de análise estatística realizadas pelo programa, ensinando a ler e a interpretar cada resultado. São apresentados também alguns problemas específicos como knockouts, resultados sem convergência e loglikelihood negativo. Uma seção final com perguntas freqüentes torna o capítulo mais inteligível aos iniciantes.

No capítulo 8, Tagliamonte descreve em detalhes as etapas práticas desde a montagem do arquivo de dados até as soluções para o problema da interação entre grupos de fatores, demonstrando cada atributo dos diferentes pacotes que formam o Goldvarb. No entanto, não são resolvidas dúvidas acerca: a) da desconfiguração do arquivo de dados digitado em Word quando de sua abertura em arquivo do Goldvarb; b) do comando recode setup cuja lógica deveria servir à recomposição de um novo arquivo de condições para o programa; e c) da ferramenta Tsort, útil na procura de dados linguísticos que alimentam a pesquisa, mas inexistente na versão Goldvarb.

O capítulo 9 continua expondo didaticamente os resultados de uma análise distribucional e apresenta uma forma equivocada e uma correta de realizar uma análise distribucional, o que é e como fazer tabulações cruzadas, a importância da média global de cada fator e como ler resultados e apresentá-los na análise. A autora também ensina a construir tabelas com os resultados obtidos no programa. Ilustra competente e eficazmente todos os procedimentos por meio de quadros, figuras e exemplos no próprio texto.

Aspectos importantes sobre o trabalho com análise multivariada estão expostas no capítulo10, como, por exemplo, decidir qual é a melhor organização dos dados, como identificar interação entre fatores e como resolvê-la, algo bem complexo de se enxergar e de se resolver, principalmente para pesquisadores iniciantes.

No capítulo seguinte, encontram-se propostas para apresentação dos resultados de pesquisa e a construção da argumentação sobre variação linguística: Que fatores são estatisticamente significantes? A ordem dos fatores reflete a hipótese inicial? O ponto alto do capítulo 11 é a seção em que Tagliamonte mostra a importância de saber interpretar semelhanças e diferenças entre conjuntos de resultados. Finaliza o capítulo instruindo como montar tabelas com os resultados e como interpretar os fatores não selecionados.

No capítulo final do livro, a autora trata do entendimento e da explicação acerca da natureza da variabilidade num conjunto de dados, alertando que há certas questões que o pesquisador deve tentar responder, tais como se a variável é estável ou se implica mudança linguística; ou se a variação implica falar em sistemas diferentes (gramáticas diferentes); e dos pontos que considera imprescindíveis numa comunicação oral: resumo dos resultados encontrados, apresentação de hipóteses, explanação detalhada dos dados e dos resultados, apresentação de evidências dos resultados, esclarecimentos a respeito da metodologia, contextualização dos resultados, projeções para pesquisas futuras.

Embora utilize uma linguagem acessível, amigável por conta dos quadros explicativos que sempre acompanham o texto, e exemplos da própria experiência da autora, o livro de Tagliamonte não dispensa a leitura de Sankoff (1988) e um contato prático com o Goldvarb. O livro apresenta partes repetitivas que poderiam ter sido reduzidas ou retomadas com detalhes adicionais. Entretanto, isso não diminui o mérito da obra, o livro vale como um manual a cujo retorno somos sempre convidados. Além dele, há no Brasil dois outros manuais de metodologia sociolinguística, também muito importantes e imprescindíveis para pesquisadores da área, um organizado por Mollica & Braga (2003) e outro, mais recente, organizado por Guy & Zilles (2007).

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

GUY, Gregory; ZILLES, Ana. Sociolinguística quantitativa: instrumental da análise. São Paulo: Parábola, 2007.         [ Links ]

LABOV, William. Contraction, deletion, and inherent variability of the English copula. Language: LSA, Baltimore, v. 45, n. 4, p. 715-762, 1969.         [ Links ]

MOLLICA, Maria Cecília; BRAGA, Maria Luiza (Orgs.). Introdução à Sociolinguística: o tratamento da variação. São Paulo: Contexto, 2003.         [ Links ]

SANKOFF, David. Sociolinguistics and syntactic variation. In: Linguistics: the Cambridge survey. Frederick J. Newmeyer (ed.). Cambridge: Cambridge University Press, 1988.         [ Links ]

 

 

Recebido em: junho de 2009
Aprovado em: dezembro de 2010

 

 

E-mails: carolrc@unb.br shirley.mattos@uol.com.br