SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.27 número2Linguagem, gênero, sexualidade: clássicos traduzidosA Frequency Dictionary of Contemporary American English: Word sketches, collocates, and thematic lists índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

DELTA: Documentação de Estudos em Lingüística Teórica e Aplicada

versão impressa ISSN 0102-4450

DELTA vol.27 no.2 São Paulo  2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-44502011000200011 

RESENHA REVIEW

 

 

Resenhado por/by: Paula Tatianne Carrera Szundy

Universidade Federal do Rio de Janeiro, E-mail: ptszundy@uol.com.br

 

 

Romero, Tania Regina de Souza. Autobiografias na (re)construção de identidades de professores de línguas: o olhar crítico-reflexivo. Campinas, SP: Pontes, 2010. 348p. (Coleção Novas Perspectivas em Linguística Aplicada).

Em uma perspectiva vygotskiana (Vygotksy, 1930, 1934), a aprendizagem impulsiona o desenvolvimento, transformando profundamente, através da interação colaborativa com outrem nas diversas instituições sociais, a natureza dos processos mentais. Ao se tomar, portanto, a aprendizagem como propulsora de zonas potenciais de desenvolvimento, aprendizagem-e-desenvolvimento (Newman; Holzman, 1993), não é possível, em uma perspectiva sócio-histórica-cultural, conceber aprendizagens que não desencadeiem revoluções. E como transformar pressupõe transformar-se, aprendizagem-e-desenvolvimento requerem autoconhecimento, desconstruções e reconstruções.

Dado o fato de que a mediação semiótica constitui uma característica definidora da concepção de ZPD delineada por Vygotsky, são as atividades mediadas socialmente por meio da linguagem, marcadas por conflitos e relações de poder, que funcionam como arenas para os processos de desenvolvimento-e-aprendizagem, que se iniciam a partir do momento em que a criança nasce e perduram por toda sua vida. Em nossas interações nas diversas esferas sociais como família, escola, igreja, Internet e muitas outras, é que nos apropriamos, revozeamos e transformamos os discursos de outrem, tornando-os parte constitutiva do nosso pensamento e consciência e, portanto, de nossas identidades. Estes discursos nos são transmitidos através dos tipos relativamente estáveis de enunciados – os gêneros discursivos (Bakhtin, 1953) – que organizam e transformam as atividades em que nos engajamos no mundo social, ao mesmo tempo em que são por elas organizados e transformados.  Neste sentido, os gêneros constituem formas da ação social (Bazerman, 2005) e instrumentos desencadeadores de aprendizagem-e-desenvolvimento.

No livro Autobiografias na (re)construção de identidades de professores de línguas: o olhar crítico-reflexivo, organizado por Romero, fica evidenciado o papel do gênero como instrumento semiótico complexo capaz de desestruturar a atividade para então reestruturá-la e transformá-la. Tendo como corpus de análise um conjunto de dezoito autobiografias com foco profissional escritas por professores de línguas – estrangeiras e maternas, a obra elucida como a escrita sobre si pode constituir um instrumento de aprendizagem-e-desenvolvimento para professores e pesquisadores, todos professores-pesquisadores na medida em que (re)constroem identidades a partir do olhar teoricamente informado e da reflexão crítica sobre a própria história ou sobre as histórias de outrem.

As implicações das autobiografias no processo de (re)construção de identidades são desveladas ao longo de nove capítulos, marcados pelo imbricamento de vozes que constituem as histórias (re)contadas. Com exceção do primeiro, os outros doze capítulos que integram o volume são introduzidos pelas autobiografias dos professores que em seguida são analisadas por um pesquisador a luz de uma perspectiva teórico-metodológica específica no âmbito da Linguística Aplicada. Partindo do poder constitutivo e constituinte das autobiografias, a obra se propõe a ir além de contar as histórias para também tentar entendê-las sob outros ângulos, à luz de visões informadas com enquadres diversos (p. 13), enquadres estes delineados pelos pesquisadores, que definiram os aportes teóricos a serem utilizados na análise das autobiografias a partir de seus campos de atuação como linguistas aplicados.

Além das zonas potenciais para a compreensão e (re)construção do conhecimento sobre a prática pedagógica reveladas no processo de contar e analisar histórias de trajetórias profissionais, outro aspecto que me surpreendeu no volume organizado por Romero foi a forma como os capítulos estão estruturados. Ao invés de trazerem somente os excertos das autobiografias utilizadas pelos diversos autores como corpus para análise dos dados, como normalmente acontece em coletâneas acadêmicas, são as próprias autobiografias dos professores que introduzem cada um dos capítulos, com exceção do primeiro. Assim, os professores não são simplesmente participantes, mas autores e atores principais no processo de (re)contar e (re)construir suas histórias. Já os oito linguistas aplicados que analisam as autobiografias tornam-se, por sua vez, coadjuvantes das histórias de vida ao reconfigurá-las a partir de um viés teórico-metodológico específico.

Com o objetivo de discutir a importância da narrativa no processo de formação de professores orientado por uma perspectiva reflexivo-crítica, o primeiro capítulo, escrito por Maria Cecília Camargo Magalhães, situa a formação de professores no quadro epistemológico da Teoria Sócio-Histórica-Cultural e da Linguística Aplicada compreendida como área transgressiva e performativa. A partir do pressuposto da centralidade da linguagem na concepção de ZPD proposta por Vygotsky e na teoria da enunciação do círculo de Bakhtin, a autora enfatiza o papel central da linguagem na compreensão crítica de nós e de outros nos discursos (p. 24). Como esta compreensão crítica e transformação pressupõem uma relação profunda entre linguagem e ação, a autora defende a criação de espaços colaborativos e criativos, orientados por uma noção performativa da linguagem em que teoria e prática estão imbricadas na atividade performativa, no processo de formação de professores. Com base nesta concepção de base fundamentalmente vygotskiana, Magalhães sublinha que na atividade performativa, ação e linguagem devem ser compreendidas no contexto de sua historicidade levando-se em consideração os conflitos e contradições que permeiam o processo reflexivo. Se tomadas, portanto, como atividade performativa, as narrativas podem criar, segundo a autora, "espaços para consciência política de nós mesmos" (p. 29) e um contexto de empoderamento em que ações e identidades podem ser pensadas, compreendidas e reorganizadas (p. 31).

No segundo capítulo, o leitor é enredado nas histórias de aprendizagem e profissionais de Claudete Oliveira e Maria Goreti de Souza para em seguida compartilhar das atitudes responsivas de Carla Lynn Reichmann, que, ancorada em concepções relacionadas à identidade, língua, vozes e projeções, ressignifica as experiências narradas pelas professoras. Buscando aportes teóricos em construtos como o de identidade social, de polifonia e de projeção, a interpretação de Reichmann das autobiografias de Claudete e Gorete indica que as trajetórias profissionais narradas pelas duas professoras são marcadas pela pluralidade de vozes.  Tal revelação é alicerçada pela análise criteriosa das escolhas lexicais e dos processos de nominalização, análise que leva o leitor a compartilhar a interpretação da pesquisadora de que as trajetórias profissionais narradas pelas professoras seguem caminhos antagônicos. Enquanto as escolhas lingüísticas no texto de C sinalizam uma consonância entre as vozes de autor e personagens (p. 55) revelando saberes e certezas, as vozes encontradas na narrativa de G são assimétricas e dissonantes retratando uma sucessão de conflitos identitários (p. 57) e, portanto, apenas sonhos e incertezas.

As memórias de Elizabeth Pow e Tufi Neder Neto iniciam o terceiro capítulo para serem em seguida analisadas por Kleber Aparecido da Silva a luz de uma visão sócio-histórica da linguagem e dos processos de ensino e aprendizagem. Ancorando-se em uma concepção de competência relacionada à cidadania e a pensamento crítico, Silva aponta que três tipos de competências são desvelados nas narrativas dos dois professores: a implícita, a teórica, a profissional e a tecnológica/multimodal. Após delinear os aspectos que definem estes três tipos de competência, a análise realizada por Silva é centrada na sinalização de como estas competências se revelam nas narrativas destes professores quando fazem apreciações valorativas sobre o ensino de línguas tradicional e em escolas públicas/privadas (competência implícita); avaliam suas experiências a luz de pressupostos teóricos específicos (competência teórica); apontam caminhos que buscam a transformação da própria prática (competência profissional) e tecem considerações acerca do uso de tecnologias e ensino de línguas (competência tecnológica/multimodal). 

Após compartilhar com o leitor os caminhos trilhados por Patrícia Vasconcelos Almeida e Luzimar Goulart Gouvêa que levaram a primeira do instituto de línguas a docência universitária (p. 117) e o segundo do aluno da roça (p. 127) ao doutorando e professor universitário de Literatura (p. 127), o quarto capítulo traz uma discussão de Adail Sebastião Rodrigues-Júnior sobre o gênero autobiografia acadêmico-profissional centrada na análise sistêmico-funcional da materialidade linguística das narrativas de Patrícia e Luzimar.  A partir da análise de elementos como escolhas lexicais, conectores discursivos e registro na Introdução e Conclusão das duas autobiografias, Rodrigues-Júnior mostra como a narrativa da primeira se vincula ao discurso técnico-acadêmico e a do segundo ao discurso literário, sinalizando que enquanto na Autobiografia de Patrícia, a relatora fez escolhas lexicais mais técnicas, típicas do discurso acadêmico, na Autobiografia de Luzimar as escolhas lexicais de seu relator são menos técnicas e, portanto, de uso social corrente (p. 146). Seguindo o pressuposto da crítica literária de que as autobiografias são caracterizadas por uma variedade de formas, a análise de Rodrigues-Júnior contribui para delinear um esboço metodológico inicial do gênero definido como autobiografias acadêmico-profissionais em função do seu propósito comunicativo.

O quinto capítulo é constituído pelas autobiografias profissionais de Ariane dos Santos Rodrigues e Nilma de S. Nogueira Machado, posteriormente analisadas por Dilma Maria de Mello sob o viés da pesquisa narrativa. Seguindo os princípios teórico-metodológicos propostos pelos autores canadenses Connelly e Clandinin, Mello inicia o capítulo com um breve relato acerca da sua trajetória com esta perspectiva de pesquisa para a seguir delinear alguns princípios que a orientam e traçar reflexões sobre as narrativas de Ariane e Nilma. Embora as reflexões acerca das autobiografias não constitua, conforme enfatiza a autora, pesquisa narrativa na medida em que fazer pesquisa narrativa pressupõe que o pesquisador narrativo seja ao mesmo tempo autor e investigador da história cujo fenômeno estuda (p. 173), o capítulo contribui para compreensão do potencial da pesquisa narrativa no processo de construção do conhecimento e de reflexão crítica. Tal compreensão se deve especialmente ao fato da análise realizada por Mello revelar que no processo de revisitação de suas experiências através da narrativa, Ariane e Nilma (re)constroem estas experiências em termos sociais, pessoais e profissionais e se (re)constituem como professoras-pesquisadoras.

No sexto capítulo, Deise Pina Dutra combina análises qualitativa e quantitativa na interpretação das autobiografias de Maria Cassilda F. Mártyres e Anderson Cristiano da Silva, que introduzem o capítulo. Com o objetivo de realizar uma análise que parte do macro para o micro, ou seja, do todo para as partes, Dutra utiliza instrumentos da Linguística de Corpus, mais especificamente o programa Wordsmith Tools, para ampliar as interpretações realizadas na análise holística, focando em especificidades de cada autobiografia desveladas na materialidade das escolhas lexicais realizadas. No que diz respeito a escolha lexical, Dutra delineia reflexões reveladoras sobre a utilização do advérbio não nas duas autobiografias. A partir da constatação de que o advérbio é bastante utilizado em ambas as narrativas, mas com quase o dobro da freqüência no texto de Anderson, a autora reitera os resultados apresentados na análise holística de que enquanto a trajetória de Cassilda é permeada de experiências positivas, a de Anderson constitui-se por experiências frustrantes.

São os princípios do Interacionismo Sociodiscursivo (ISD) que fundamentam as atitudes responsivas (Voloshinov, 1929) delineadas por Betânia Passos Medrado no sétimo capítulo em relação às trajetórias de aprendizagem e profissionais de Jair Alcindo Lobo de Melo e Ayvania Alves Pinto. Fundamentada mais especificamente nas relações entre linguagem e trabalho postuladas pelo ISD, Medrado discute as dimensões do agir presentes nas narrativas de Jair e Ayvania, ressaltando como os dois autores conceberam a tarefa da escrita de si de formas distintas (p. 249), o que é perceptível na forma como estruturaram suas autobiografias. Tais diferenças já são, como retrata a autora, evidenciadas na introdução de ambos os textos na medida em que se observa a preocupação de Ayvania em legitimar sua reflexão com as vozes do discurso acadêmico e a de Jair de situar cronologicamente sua narrativa. Medrado retrata, portanto, como, partindo destas perspectivas narrativas distintas, Jair pauta a prescrição para o agir docente na sua interpretação do agir como aluno enquanto Ayvania avalia seu agir sob a perspectiva teórica da reflexão crítica, ressaltando-se na sua autobiografia a constituição da professora-pesquisadora.

As narrativas de Ana Valéria S. Reis e Maria del Pilar Troncoso Unwin sobre como se tornaram professoras de língua espanhola introduzem o oitavo capítulo. O que me chamou atenção nas autobiografias destas duas professoras é que as reflexões de ambas enfatizam os aspectos fortuitos que as transformaram em professoras de espanhol e a imbricação entre suas trajetórias como aprendizes e professoras.  Como a escolha de tornar-se professora de espanhol não constituiu uma decisão planejada para nenhuma das professoras, Ana teve que aprender a língua-alvo e Maria, falante nativa mas não professora, aprender a ensinar, nos dois casos após iniciarem suas trajetórias como docentes. Levando em conta o papel de fatores inesperados nas trajetórias destas duas professoras e partindo de uma visão processual e instável de motivação, a análise de Walkyria Magno e Silva, que encerra o capítulo, discute como a motivação se revela de formas distintas nas duas trajetórias, apesar de constituir em ambas a força propulsora e catalisadora do processo de tornar-se professor (p. 298).

É a narrativa dos caminhos trilhados pela organizadora do volume, Tânia Regina de Souza Romero, na sua trajetória como professora-pesquisadora que introduz o nono capítulo e se torna material de reflexão no texto escrito por Sandro Luís da Silva, responsável por encerrar as análises das autobiografias. Citando Charles Dickens em Great Expectations, Tânia inicia sua narrativa avisando que contará a história da forma como se lembra e não da forma como ocorreu. Baseada, portanto, nas suas lembranças e percepções sobre o entrecruzamento de suas trajetórias familiar e profissional, a autora passa a (re)construção das paisagens que compõem suas memórias, narradas em três seções, metaforicamente divididas em Germinando..., Florescendo..., Sementes e Frutos. Ao analisar a autobiografia "Paisagens em (re)construção"sob a ótica da Análise do Discurso de linha francesa e do processo de constituição de identidades do professor universitário, Silva faz emergir a sua interpretação teoricamente informada sobre a constituição do ethos de Romero, mostrando que este é marcado pela emoção, importância de partilhar experiências, compromisso, motivação e busca pelos ideais.

O enunciado completo que compõe esta obra finaliza-se com o posfácio de Uyeno, que traz uma reflexão instigante sobre a autobiografia como gênero marcado fundamentalmente pela autoconstituição, característica que a inscreve na noção de Otobiografia postulada por Derrida na medida em que a escrita de si permite aos autores escutar a escrita da vida (p. 340). Finaliza-se o enunciado, mas não as possibilidades de diálogos, infinitas na escuta e apreciação das memórias e interpretações que desenham as paisagens em cada capítulo e nas possibilidades de outras paisagens a serem (re)desenhadas em futuras pesquisas e interpretações.

A pluralidade de olhares teóricos que compõem a obra revela o estudo de narrativas de professores como um campo extremamente fértil na Linguística Aplicada, marcado pelo hibridismo e por ressignificações de construtos teóricos de áreas com as quais a LA mantém diálogos transdisciplinares como a filosofia da linguagem, psicologia, linguística sistêmico-funcional, estudos identitários, pesquisa narrativa, análise do discurso, entre outras. O caráter transdiciplinar dos diálogos estabelecidos e o foco na auto-compreensão e reflexão crítica visando a transformação vinculam, definitivamente, esta obra com uma concepção implicada e indisciplinar de LA (Moita Lopes et al, 2005), tornando-a uma referência importante para todos os linguistas aplicados e pesquisadores de áreas afins interessados em formação de professores.

 

Referências bibliográficas

Bakhtin, M. M. (1953). The problem of speech genres. In: Bakhtin, M. M. Speech genres and other late essays. Translated by Vern W. McGee. University of Texas Press, 1986, p. 60-98.         [ Links ]

Bazerman, C. Gêneros textuais, tipificação e interação. Organização de Dionisio, A. P.; Hoffnagel, J. C. e tradução e adaptação de Judith Chambilis Hoffnagel. São Paulo: Cortez Editora, 2005.         [ Links ]

Moita Lopes, L. P (Org.). Por uma lingüística aplicada indisciplinar. Parábola, 2006.         [ Links ]

Newman, F.; Holzman, L. Lev Vygotsky: cientista revolucionário. São Paulo: Edições Loyola, 2002.         [ Links ]

Voloshinov, V. N. (1929). marxismo e filosofia da linguagem. Tradução de Michel Lahud e Yara Frateschi Vieira. São Paulo: Editora Hucitec, 1999.         [ Links ]

Vygotsky, L. S. (1930). A Formação Social da Mente. Tradução de José Cipolla Neto, Luís    Silveira Menna Barreto e Solange Castro Apeche. São Paulo: Martins Fontes, 1998.         [ Links ]

Vygotsky, L. S. 1934. Pensamento e Linguagem. Tradução de Jefferson Luiz Camargo: São Paulo: Martins Fontes.         [ Links ]

 

 

Recebido em junho de 2011
Aprovado em setembro de 2011