SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.28 issue1"Manual de Linguística": homonymous or polysemy in the history?Linguística Aplicada e sociedade: ensino e aprendizagem de línguas no contexto brasileiro author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Article

Indicators

Related links

  • Have no similar articlesSimilars in SciELO

Share


DELTA: Documentação de Estudos em Lingüística Teórica e Aplicada

Print version ISSN 0102-4450

DELTA vol.28 no.1 São Paulo  2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-44502012000100008 

RESENHA REVIEW

 

Construções do Português do Brasil: da gramática ao discurso

 

 

Heloísa Pedroso de Moraes FeltesI; Aline Aver VaninI

I(Universidade de Caxias do Sul, RS). helocogn@terra.com.br
II(PUCRS). aline.vanin@ymail.com

 

 

Miranda, Neusa Salim; Salomão, Maria Margarida Martins. (Orgs.). Construções do Português do Brasil: da gramática ao discurso. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2009. 389 p.

A resenha desta obra tem dois objetivos: (1) Apoiar sua divulgação entre estudiosos interessados em ampliar suas perspectivas de pesquisas ou ratificar suas escolhas a partir de resultados obtidos em linhas de pesquisa de programas de pós-graduação que possuem potencial para desenvolver investigações com excelência, como é o caso do "projeto investigativo liderado, na última década, pelo GP Gramática e Cognição [...], o Programa de Pós-Graduação em Linguística da Universidade Federal de Juiz de Fora (MG)", conforme Miranda (p. 9); e (2) Estimular estudantes de graduação e de pós-graduação a investir em pesquisas que seguem as tendências atuais das comunidades científicas internacionais. Em ambos os casos, oportuniza-se a ampliação de um corpo de pesquisas que avancem epistemológica, teórica e metodologicamente no âmbito da Linguística. A apreciação da obra Construções do Português do Brasil - da gramática ao discurso (CPB) tem a pretensão de investir na consecução desses objetivos. Procuram-se identificar as linhas gerais da abordagem epistemológica que orienta tais estudos, os métodos privilegiados e avaliar as perspectivas futuras de pesquisa que ensejam.

Além disso, esta resenha parte de duas importantes considerações. A primeira é de Rohrer (2006), que afirma: "Only when Cognitive Linguistics takes its hypotheses to the other cognitive sciences and develop collaborative, cross-methodological studies will cognitive linguistics become not just a listening but a speaking member of the family of cognitive science" (p. 139). Estendemos essa colocação para outro contexto: apenas quando os resultados de pesquisas de estudiosos brasileiros, sobre o Português Brasileiro, começarem (i) a ser referência para o desenvolvimento de teorias que importamos de outros centros de investigação no exterior, e, por esse caminho, (ii) serem citadas em, revisadas e aplicadas a estudos desenvolvidos em outros países, é que deixaremos de ser apenas ouvintes para sermos falantes nessas comunidades científicas. A segunda diz respeito ao Social Turn em Linguística Cognitiva e nas Ciências Cognitivas: esse implica que resultados de investigações baseadas em dados provenientes de diferentes línguas, cujos contextos históricos e socioculturais podem prover evidências convergentes para hipóteses teóricas sobre a problemática da universalidade e da variação, deveriam, por questões metodológicas, ser acolhidos pela comunidade científica internacional. A obra CPB reúne estudos que têm o potencial para alcançarmos o que essas considerações tematizam.

A cuidadosa Apresentação (p. 9-17), de Neusa Salim Miranda, fornece a arquitetura geral da obra, organizada em quatro Partes, respectivamente: (I) O Estado de Arte, com dois capítulos (p. 20-74); (II) Construções Sintáticas, com quatro capítulos (p. 76- 176); (III) Construções Lexicais, com três capítulos (p. 178-257); e (IV) Construções Discursivas, com cinco capítulos (p. 260-370). As Referências Bibliográficas reúnem as obras referidas em todos os capítulos, fornecendo-nos, de forma econômica, o quadro de autores cujas propostas são revisadas, aplicadas, criticadas ou que constituem o contexto de debates no qual tais propostas se situam.

A organização do livro direciona opções de leitura entre diferentes temas de pesquisa na Linguística Cognitiva, em domínios ainda em fase de exploração, delineando possibilidades de interfaces intra e interdisciplinares. Miranda destaca que há uma grande diversidade temática sob o escopo da Gramática das Construções (GC), mas que essa integra a investigação e a exploração de elementos que repetidamente vinham sendo analisados a partir de uma visão estanque de língua, desconsiderando, em diferentes graus, o uso e a influência do contexto.

A primeira parte apresenta um panorama geral sobre o estado da arte da GC. Maria Margarida Martins Salomão, no primeiro capítulo, intitulado Teorias da linguagem - a perspectiva sociocognitiva, caracteriza o programa investigativo do projeto sociocognitivista. A natureza cognitiva da linguagem natural é uma noção central nesse paradigma, que defende o caráter processual do significado e concebe a gramática como uma rede de construções, no contínuo entre sintaxe e léxico, estabelecido no uso e pelos processos que evidenciam o caráter inferencial da significação. Conforme Salomão, pela Hipótese Sociocognitiva da Linguagem: "Além de organizar lexical e gramaticalmente os domínios conceptuais em termos da perspectiva que se possa adotar sobre eles, as categorias linguísticas também se aproximam das demais categorias cognitivas e sociais em termos de sua organização interna" (p. 24). Através das noções de prototipia, de radialidade e de figura/fundo da semântica dos enquadres, a autora resume como se pode operar com a hipótese teórica de um continuum entre linguagem humana e as demais capacidades cognitivas.

O capítulo 2, Tudo certo como dois e dois são cinco: todas as construções de uma língua, também de Salomão, é uma síntese da GC, a partir da qual os 12 capítulos seguintes se baseiam. Para Salomão, há três consensos teóricos a partir dos quais a GC se fundamenta: (1) construções são as unidades básicas do conhecimento linguístico; (2) construções são pareamentos de forma e sentido; e (3) a gramática é uma rede de construções. Com isso, o projeto construcionista de gramática a trata como gerativa, simbólica e baseada no uso, e ambiciona delinear padrões para a descrição de todas as línguas por meio do tratamento de léxico e sintaxe como contínuos.

Como afirma Goldberg (2006), o termo "constructionista" tem mais de uma associação pretendida: "The primary motivation for the term is that constructionist approaches emphasize the role of grammatical constructions: conventionalized pairings of form and function. In addition, constructionist approaches generally emphasize that languages are learned - that they are constructed on the basis of the input together with general cognitive, pragmatic, and processing constraints" (p. 3). Salomão torna essa abordagem ainda mais clara fornecendo exemplos e destacando diferenças entre modelos de GC. Deixa claro que "não existe [...] uma gramática universal das Construções" (p. 45). Entre as contribuições deste capítulo destaca-se seu papel em orientar leituras sobre GC e em delinear a perspectiva que atravessa os estudos nos demais capítulos, em consonância com o que Mirjam Fried, no site oficial das GC, afirma: "At the heart of what shapes Construction Grammar is the following question: what do speakers of a given language have to know and what can they 'figure out' on the basis of that knowledge, in order for them to use their language successfully?". Segundo Fried, a GC (entendida por nós como uma categoria de gramáticas) tem um caráter holístico, situada num quadro teórico-metodológico baseado no uso, com o compromisso de tratar todos os tipos de expressões linguísticas como igualmente centrais para capturar "grammatical patterning [...] and in viewing all dimensions of language (syntax, semantics, pragmatics, discourse, morphology, phonology, prosody) as equal contributors to shaping linguistic expressions.". Para a autora, a GC já pode ser considerada madura em suas bases teóricas e em suas representações descritivo-explicativas formais. Como é repetidamente afirmado ao longo da CGB, a base sociocognitiva e funcional da GC é gerativa (à medida que certos mecanismos e operações podem ser aplicados a diferentes construções, do nível da estrutura morfológica até o discurso), não derivacional, monoestratal, com o compromisso de incorporar as bases cognitivas e funcionais da linguagem em uso. E reforçando o que já se explora na obra CPB, a Frame Semantics, segundo Fried, ofereceria um meio de estruturar e representar o significado à medida que leva em consideração as relações entre, por exemplo, significado e padrões gramaticais. O significado deve ser aqui entendido em seu sentido amplo, cobrindo a semântica lexical, a pragmática e a estrutura do discurso, pois a gramática, nessa visão, "consists of intricate networks of overlapping and complementary patterns that serve as 'blueprints' for encoding and decoding linguistic expressions of all types.". Ou seja, a gramática é uma "rede construções" articulável produtivamente em diferentes níveis da análise linguística. Entretanto, Salomão, mesmo admitindo, como Fried o faz, a maturidade das bases teóricas da GC, após comentar os diferentes empreendimentos construcionistas, conclui, criticamente, que: "À parte as preferências notacionais dos pesquisadores mencionados [entre outros: Fillmore e Kay, Adele Goldberg e colaboradores, Jackendoff, Croft, Tomasello] há questões empíricas a decidir, destacadamente o caráter das relações de herança e a natureza das conexões entre expressões formais e estruturas conceptuais. Ambos os problemas requerem refinamento teórico e testagem empírica" (p. 72). Essa colocação sinaliza, ao mesmo tempo, para três pontos a serem considerados nas leituras dos capítulos da obra: (i) para os resultados de um estudo cuidadoso da literatura, especificamente para as bases teóricas da CG; (ii) para a diversidade de formalizações que são utilizadas em cada proposta; e (iii) para seu caráter ainda aberto no que se refere a questões empíricas ainda em discussão.

No terceiro capítulo, O enquadre gramatical da interdição ou "Para bom entendedor meia palavra basta", de Lucilene Hotz Bronzato, é examinada a destransitivização de verbos que são prototipicamente transitivos. Construções como "Se a menina não quer dar ø, por que vou forçar?" ou "Eu não fumo ø, nem cheiro ø" são estratégias de interdição em sentenças que carregam tabus sociais, identificadas pelas instruções pragmáticas dadas por imposições sociais. A autora sugere que os falantes seguem regras de adequação de linguagem, como evitar tais tabus, dissimulá-los ou, ainda, usar de eufemismos para encobri-los. A omissão do complemento verbal é tratada como um rompimento de regra de conduta (construção gramatical de interdição). O sentido de interdição é resultado de avaliação pragmática de que certas expressões relacionadas a tabus sociais não devem ser mencionadas abertamente.

O capítulo 4, A construção de ação rotineira no português do Brasil - buscar menino no colégio, pular carnaval na Bahia e jogar lenha na fogueira, de Maristela Ferreira, analisa, por meio de sentenças aparentemente simples, as redes de elementos culturais, sociais, cognitivos e gramaticais envolvidas nessas composições. A autora confronta uma análise embasada no programa gerativo chomskyano com outra na perspectiva da Gramática das Construções e da Hipótese Sociocognitiva, numa tentativa de estabelecer um diálogo entre as abordagens. Tal interface visa explicar o fenômeno da Construção de Ação Rotineira ("buscar menino" vs. "buscar menino no colégio") nos planos morfossintático, semântico/pragmático e teórico, e defende que quaisquer análises linguísticas devem partir do significante e de suas características formais e conceituais.

No capítulo 5, A construção de dativo com infinitivo - O homem vai botar uma casa para mim morar... eu nunca pensei nisso, de Tiago Timponi Torrent, é discutido o Dativo com Infinitivo, ou, esquematicamente, para X infinitivo ("para mim fazer"). O autor inicia tratando do tema a partir de uma abordagem cognitivista, baseada na Teoria da Mesclagem e, desse modo, com forte sustentação no significado e no uso. A partir dela, faz uma contraposição com Gramáticas Normativas tradicionais, que insistem em considerar a construção em foco como um erro - sem explicar a causa dessa formulação -, e com a Gramática Gerativa, que traz uma configuração sintática diferente para enunciados do tipo "A Maria fez palhaçadas para eu rir." e "A Maria fez palhaçadas para mim rir.". Contudo, como a análise baseada na compressão de espaços de input demonstra, os aspectos semânticos não levam a construções diferentes, pois o sentido de ambos os enunciados é o mesmo. Segundo o autor, o Dativo com Infinitivo é uma construção que possui elementos semânticos próprios, resultantes, sobretudo, do contexto pragmático e da finalidade relacionada com seu significado.

No capítulo 6, em Um estudo sobre construções condicionais no Português do Brasil, Walkyria Scio Bezerra e Fernanda Aparecida Raposo Meireles tratam da formação de condicionais no Português Brasileiro. A primeira autora analisa as construções temporais-condicionais, em que adota a perspectiva de um MCI de ordem cronológica ("O passado é causa do futuro"), fazendo uma ponte com a noção de implicatura convencionalizada, tendo em vista que as relações causais assumem uma característica de ordem temporal (e.g., "Os índios avançaram pela planície e os soldados fugiram em disparada" traz implícita a ideia de sistematicidade, em que quando x ocorre, ocorre y - nesse caso, a fuga dos soldados é consequência do avanço dos índios) que, por sua vez, são reinterpretadas como condicionais. Já a segunda autora avalia as construções condicionais contrafactuais, constituídas por um tipo de raciocínio que, "através de uma analogia, busca ressaltar diferenças" (p. 166). Nesse caso, é demonstrado que o raciocínio tem caráter dinâmico, no qual os processos de projeção são a base a partir da qual as construções dessas desanalogias ocorrem. Ambos os estudos focalizam as construções condicionais sob a perspectiva de processos cognitivos dinâmicos como a mescla, a correspondência, MCIs, frames, esquemas e espaços mentais (temporários), a fim de demonstrar como ocorre a emergência da compreensão desse tipo de construção.

Os capítulos 7, 8 e 9 dedicam-se à análise de construções lexicais. De um modo geral, tratam, respectivamente, de construções agentivas com sufixos como x-eiro (Uma abordagem sociocognitiva das construções agentivas x-eiro, de Laura Silveira Botelho); como x-ista (A Configuração da rede de construções agentivas denominais x-ista, de Crysna Bonjardim da Silva Carmo) e como x-nte (A rede de construções agentivas deverbais x-ente, de Ana Maria Tavares dos Santos). Tais construções morfológicas derivam de processos de compressão, levando em conta a hipótese de uma composicionalidade fraca, em que se o significado de vocábulos como padeiro, ginecologista e cintilante, por exemplo, se dá por meio de uma visão processual, multidirecional e construcional. Além disso, nesses três estudos, destaca-se a continuidade essencial entre léxico e sintaxe, postulada por Goldberg (1995), em que a organização conceitual se baseia em termos de redes de construções, e a dependência em fatores pragmáticos para a compreensão e desambiguação dos termos construídos. No detalhe, o capítulo 7 visa explicar por que itens como laranjeira, marqueteiro, pulseira são fruto de processos polissêmicos altamente motivados por relações metafóricas e metonímicas. Demonstrando como as construções morfológicas que derivam da estrutura emergente (ou mescla) são resultados de um processo de compressão em uma rede de integração conceitual (mesclagem), a autora explica que a compreensão desses itens se dá porque toda a "historinha" que carregam (e.g. padeiro é aquele que faz pão) está comprimida em um único item, ou seja, no agente. A autora defende que a gama de significações revelada pela rede construcional X-iero é essencialmente polissêmica. Desse modo, nega que as redes de integração conceitual que emergem e se entrelaçam sejam homonímicas, como defendido em trabalhos de abordagens formalistas. As análises no capítulo 8 revelam uma rede polissêmica do X-ista, sendo nela centrais processos metafóricos e metonímicos. A autora nega que as redes de integração conceitual que emergem e se entrelaçam sejam homonímicas, como defendido em trabalhos de abordagens formalistas. Sua abordagem abraça a Hipótese Sociocognitiva da Linguagem, aplicando os parâmetros: (i) da afirmação da continuidade essencial entre léxico e gramática, semântica e pragmática, e dicionário e enciclopédia; (ii) da sustentação da concomitância de processos de composicionalidade e multidirecionalidade na integração de esquemas conceptuais (MCIs) e formais que geram construções lexicais; (iii) da postulação de categorias de herança e motivação entre construções lexicais que se configuram em redes de construções, que se estabelecem por projeções variadas a partir de uma construção central; e (iv) do mesmo trato a ser conferido para produções previsíveis regulares e para produções periféricas. A esses parâmetros agrega os da Hipótese da Arquitetura paralela de Jackendoff (2002): (v) da concepção do léxico como um componente de interface da arquitetura paralela; e (vi) da postulação de itens lexicais maiores ou menores que as palavras, entendidas como construções plenas (partes de forma/sentido). O capítulo 9 analisa construções agentivas deverbais x-nte, como estudante, governante, hidratante, absorvente. A autora demonstra que o conceito de construção pode ser aplicado aos domínios das redes de integração conceitual lexical e morfológica. Há uma ênfase na interface semântico-pragmática na descrição de construções mórficas agentivas, em que a concepção de léxico se mostra mais flexível do que a de abordagens mais formais, estando ligada, em contínuo, à gramática.

O capítulo 10, As construções condicionais universais proverbiais no Português do Brasil - quem desdenha quer comprar, Quem semeia vento colhe tempestade, de Izabel Teodolina de Jesus, investiga formações do tipo [Quem P, Q], base de muitos ditos populares no Português Brasileiro, os quais possuem alta produtividade. Segundo a autora, a construção de significados de provérbios é analisada como nós de uma rede que se origina devido à multidirecionalidade dos processos de significação e pela existência de uma rede de integração conceitual. Dessa forma, a noção de composicionalidade assume novos contornos, já que o significado não mais se constrói pela soma das partes, mas devido a esses processos de projeção por meio de blendings conceituais.

O capítulo 11, Uma abordagem construcional dos gêneros textuais, de Glauce Soares Fernandes, visa demonstrar que os gêneros textuais podem ser concebidos como construções, no pareamento de forma e modos de significação, reconhecendo-se, ao mesmo tempo, (i) sua natureza convencionalizada, esquemática; e (ii) seu caráter de estabilidade e flexibilidade. A autora propõe o PANG (Padrão Abstrato Narrativo Generalizado), entendido como um "item lexical complexo armazenado no léxico, constituído prototipicamente por uma sequência narrativa [triádica], que cumpre sua função básica de demarcar os fatos de forma cronológica, estabelecendo as relações de causa e efeito entre os fatos" (p. 287). Em seguida, configura o PD-Piada (Padrão Discursivo do Gênero Piada), seguindo as características que integram o padrão discursivo desse gênero, como os clusters de compressão formal e conceptual que o constituem. Várias análises tomam como base a noção de construção e os processos essenciais descritos pela Linguística Cognitiva, como as Teorias dos Espaços Mentais, da Metáfora e da Mesclagem.

O capítulo 12, A cognição e o disse-me-disse jornalístico, de Luiz Fernando Matos Rocha, analisa a função do discurso direto em textos jornalísticos escritos, propondo um olhar a partir da Teoria dos Espaços Mentais, de Fauconnier (1994, 1997), e da Teoria da Mesclagem, de Fauconnier e Turner (1996). Rocha argumenta que o sujeito discursivo que reporta diretamente - ou indiretamente - é capaz de lidar com o texto com total liberdade, tentando manter-se fiel ao discurso proferido originalmente. Contudo, o texto comprova que a escrita jornalística não pode ser imparcial, já que esse sujeito que escreve exprime sua opinião através do modo como narra determinado fato, reveladas pelos verbos discendi e sentiendi, por exemplo.

O capítulo 13, Os dêiticos espaciais como instrumento de orientação da atenção, de Carmen Rita Guimarães Marques de Lima, analisa o papel dos dêiticos aqui e como instrumentos de organização hierárquica da atenção para objetos e eventos. A capacidade de compartilhar a atenção e de usar ferramentas para trazer o foco intencionalmente para determinado ponto são, segundo a autora, atividades de negociação de atenção que tomam parte da atividade comunicativa sem que o ato seja conscientemente analisado. A investigação sobre a dêixis conclui que essa só pode ser analisada através do contexto dinâmico, e que a maioria dos estudos sobre o tema falha em demonstrar o verdadeiro papel sinalizador assumido pelos dêiticos, tendo em vista que, em geral, se assume uma visão estática de contexto. Demonstrando o processamento da interpretação por meio de operações de projeção metafórica, o estudo contribui para sinalizar um novo caminho para a compreensão dessas ferramentas de direcionamento de atenção.

No capítulo 14, que encerra o livro, O processo de referenciação em contexto de aprendizagem de Língua Estrangeira, Regina Célia Martins Salomão Brodbeck examina algumas formas pelas quais crianças entre sete e nove anos expressam a referenciação em ações descritivas e narrativas na aprendizagem da Língua Inglesa. De acordo com as hipóteses lançadas e as análises realizadas, o processo de referenciação liga-se fortemente ao contexto dinâmico da comunicação e depende das características do enquadre/moldura da ação (enquadre clássico escolar e enquadre alternativo) na qual os participantes se engajam. As escolhas sintáticas e lexicais durante a interação conduzem à análise sobre como se organiza a referenciação de entidades em um contexto com moldura previamente construída. Desse modo, a autora destaca o papel relevante da representação mental de determinado evento ou objeto também no uso polissêmico de uma mesma expressão linguística, especificada no momento da interação.

Apesar de não contemplarmos, nesta revisão, a riqueza de detalhes do referencial teórico, dos processos analíticos e dos resultados de cada estudo nos diferentes capítulos, dada a especificidade do aparato analítico, terminologia especializada e dos mecanismos formais de sua demonstração, fica o convite para que se explore essa obra cuja organização reflete a solidez de um projeto investigativo de uma década, conforme Miranda (p. 9). Cada capítulo colabora para que se amplie a compreensão da perspectiva Sociocognitiva em seu aparato conceitual, metodológico (analítico e explanatório), gradativamente familiarizando o leitor com os autores de referência; com as diferentes abordagens que se complementam, sobrepõem ou que em algum ponto apresentam divergências; com a terminologia especializada; e com o amplo potencial de aplicação a uma variedade de fenômenos linguísticos (-cognitivo/socioculturais).

Conforme Croft (2007): "Construction Grammar is a flourishing area of grammatical theorizing [...]." É nesse espírito que o convite à leitura e ao estudo desta obra se dá: investir em um campo de investigação potencialmente ilimitado em função dos projetos possíveis para o exame das construções do Português Brasileiro, com base no que já se iniciou com o grupo de estudiosos que se dedicaram a explorá-la, e cujos resultados são animadores.

 

REFERÊNCIAS

CROFT, William. Construction grammar. 2007. In: Geeraerts, D.; Cuyckens, H. (Eds.) The Oxford handbook of cognitive linguistics. New York: Oxford University Press, p. 463-508.         [ Links ]

FRIED, Mirjam. Construction Grammar. Disponível em http://www.constructiongrammar.org/. Acesso em: 15 abr. 2011.         [ Links ]

GOLDBERG, Adele. 2006. Constructions at work: the nature of generalization in language. Oxford: Oxford University Press.         [ Links ]

ROHRER, Tim. 2007. Three dogmas of embodiment: cognitive linguistics as a cognitive science. In: Cuyckens, H. (Eds.). Cognitive linguistics: current applications and future perspectives. New York: Oxford University Press, p. 119-146.         [ Links ]

 

 

Recebido em novembro de 2011
Aprovado em fevereiro de 2012