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DELTA: Documentação de Estudos em Lingüística Teórica e Aplicada

Print version ISSN 0102-4450

DELTA vol.28 no.2 São Paulo  2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-44502012000200008 

ARTIGOS

 

Os pretéritos mais-que-perfeito simples e imperfeito sob a ótica da iconicidade e da gramaticalização*

 

Pluperfect and imperfect tenses from the perspective of iconicity and grammaticalization

 

 

Angela Cristina Di Palma BackI; Márluce CoanII

IDoutora em Linguística pela Universidade Federal de Santa Catarina e, atualmente, professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Extremo Sul Catarinense e coordenadora do Grupo de Pesquisas LITTERA - Correlações entre cultura, processamento e ensino: a linguagem em foco. acb@unesc.net
IIDoutora em Linguística pela Universidade Federal de Santa Catarina e, atualmente, professora do Programa de Pós-Graduação em Linguística da Universidade Federal do Ceará e coordenadora do Grupo de Pesquisas Sociolinguísticas – SOCIOLIN-CE. coanmalu@ufc.br

 

 


RESUMO

Este artigo propõe-se a demonstrar que os pretéritos mais-que-perfeito simples e imperfeito do subjuntivo são formas que codificam várias funções em Língua Portuguesa. Parte-se da premissa de que não há relação categórica de um-para-um entre função e forma. Apresentamos, inicialmente, o princípio da iconicidade e os princípios de gramaticalização, com o propósito de, ao final deste artigo, mostrar que se aplicam aos dados sob análise. Na sequência, ilustramos a multifuncionalidade do pretérito mais-que-perfeito simples (em perspectiva diacrônica) e do pretérito imperfeito do subjuntivo (em perspectiva sincrônica), considerando-se como motivações para essa multifuncionalidade as categorias Tempo e Modalidade. Os resultados apontam a Modalidade, pela generalização do traço irrealis, como fator que desencadeia mudanças tanto de tempo como de ponto de referência. Os pretéritos sob análise migram de passado com ponto de referência passado ao futuro: o mais-que-perfeito simples passa a codificar projeção futura e o imperfeito do subjuntivo, a codificar situações menos referenciais e menos factuais.

Palavras-chave: iconicidade, gramaticalização, pretérito mais-que-perfeito, pretérito imperfeito.


ABSTRACT

This paper aims at demonstrating that preterit forms such as the pluperfect and the imperfect subjuntive tenses are forms that encode various functions in Portuguese. It is assumed that there is no categorical one-to-one relationship between form and function. Initially, iconicity and grammaticalization principles are presented in order to show how they function in relation to the data under analysis. Next, we illustrate the multifunctionality of the pluperfect (in diachronic perspective) and the imperfect subjuntive tense (in synchronic perspective) considering Time and Modality as the motivation for such multifunctionality. The results point to the generalization of the irrealis feature modality as a factor that triggers changes in both time and reference point. The tenses under review migrate from past with past reference point to the future: the pluperfect form encodes projection and the imperfect subjunctive encodes less referential and factual situations.

Key-words: Iconicity, grammaticalization, pluperfect, imperfect.


 

 

INTRODUÇÃO

Este artigo propõe-se a demonstrar que os pretéritos mais-que-perfeito simples (doravante PMQPS) e imperfeito do subjuntivo (doravante PIS) são formas que codificam várias funções em Língua Portuguesa. Parte-se da premissa givoniana de que não há relação categórica de um-para-um entre função e forma, uma vez que as línguas, por apresentarem situações de polissemia e homonímia, estão sujeitas a pressões que provocam tanto desgastes fonéticos nas formas, ocasionando neutralizações, como expansões de sentido, originando alterações de mensagem. Nossa proposta parte da oralidade, avançando pelos registros próximos dessa modalidade (oral) em diacronia, para tratar do mais-que-perfeito, já que a forma simples apareceu em apenas dois dos dados coletados em amostra sincrônica1 (indicando um tipo particular de função que denominamos de projeção futura), o que demonstra a especialização dessa forma com o passar do tempo2.

Na primeira seção, abordamos o princípio da iconicidade na proposta givoniana, para mostrar que a correlação de um-para-um entre forma e função não se sustenta em se tratando dos pretéritos sob análise. Em seguida, aludimos aos princípios de gramaticalização, propostos por Hopper (1991), com o propósito de, ao final deste artigo, mostrar que se aplicam aos dados sob análise, entendendo gramaticalização não apenas como o desenvolvimento de morfemas gramaticais a partir de lexicais, mas como mudanças de ordem semântico-pragmática. Essa perspectiva não implica, obviamente, que todas as mudanças semântico-pragmáticas constituem fenômenos de gramaticalização, implica tão somente que o conceito de gramaticalização considerado alinha-se ao proposto por Givón (1979), Heine et al. (1991) e Bybee, Perkins e Pagliuca (1994), que reconhecem a aplicação do termo gramaticalização em sentido mais alargado, ou seja, não veem gramaticalização simplesmente como reanálise de unidades lexicais em gramaticais, mas também reanálise de padrões discursivos em gramaticais e de funções discursivas em funções semânticas sentenciais.

Na terceira e na quarta seções, ilustramos a multifuncionalidade do PMQPS (em perspectiva diacrônica) e do PIS (em perspectiva sincrônica), considerando-se como motivações para essa multifuncionalidade as categorias Tempo e Modalidade. Partimos da premissa de que as mesmas motivações que ocorreram em diacronia podem explicar a multifuncionalidade que se dá em sincronia, portanto, nessa perspectiva, o viés é pancrônico. No que se refere à categoria Tempo, analisamos o tempo codificado pela forma do PMQPS e do PIS em relação ao ponto de referência3, mostrando que uma mesma forma pode codificar vários tempos. Nossas considerações envolvem, também, a ordenação dos constituintes no discurso, visto que a variabilidade temporal decorre da ordenação entre a situação codificada pelo PMQPS e PIS e o ponto de referência. A modalidade (expressão da atitude do falante em relação ao conteúdo proposicional) é vista de modo escalar; apresenta-se uma escala realis-irrealis para o PMQPS e uma escala irrealis para o PIS4. A correlação entre as categorias Tempo e Modalidade fornece um panorama multifuncional das formas sob análise, panorama comentado ao final do artigo, quanto articulamos os resultados empíricos aos princípios de iconicidade e gramaticalização.

Sob a ótica da iconicidade e da gramaticalização, poderiam ser agrupadas outras formas verbais, também multifuncionais e gramaticalizadas, optamos, entretanto, por tratar conjuntamente o PMQPS e o PIS pelas razões que seguem: (i) essas formas codificaram variavelmente, na história da Língua Portuguesa, condição, função, hoje, codificada, na oralidade, pelo PIS, mas não pelo PMQPS5; (ii) a exemplo da multifuncionalidade do PIS, tem/teve o PMQPS o mesmo caráter, mas isso só pode ser verificado diacronicamnete, pois os dados atuais evidenciam, no registro oral, somente uma das funções que teve ao longo da história; (iii) as duas formas tendem à codificação da modalidade irrealis (projeção futura no caso do PMQPS e expressão de menos referencialidade e factualidade no caso do PIS)6.

 

1. FORMA E FUNÇÃO EM LINGUÍSTICA

De acordo com Givón (1991:106), a gramática é construída a partir de um pequeno conjunto de princípios icônicos cognitivamente transparentes. Segundo o autor, o princípio da iconicidade, em sua versão idealizada, prevê uma relação de um-para-um entre função (significado) e forma (código), isto é, a conexão entre função e forma é não-arbitrária. O autor defende a idéia de que a gramática da linguagem humana é resultante da interação entre princípios mais icônicos e mais simbólicos de codificação linguística. Em outras palavras, é resultante de "motivações em competição" (Du Bois, 1985). Os princípios icônicos são três: a) princípio da quantidade - que prevê a correlação entre quantidade de informação e quantidade de codificação; b) princípio da proximidade - que correlaciona proximidade cognitiva de entidades com proximidade de unidades no plano da codificação e c) princípio da ordem sequencial - que orienta a ordenação linear semântica e pragmaticamente (Givón, 1984).

As estratégias linguísticas comunicativamente motivadas em sua origem podem tornar-se comunicativamente opacas, fossilizadas, devido ao efeito cumulativo de mudança histórica, ou ao empréstimo de outras estratégias usadas em domínios funcionalmente relacionados (Givón, op.cit.). Em princípio, "a condição natural da língua é preservar uma forma para um significado, e um significado para uma forma" (Givón, 1991:106). Contudo, em função das pressões sociocomunicativas, essa condição não se sustenta, daí ser preciso insistir no estudo conjunto da função e da estrutura que a codifica. Isso abre caminho para a investigação de como e por que tais estruturas desempenham tais funções.

As funções semântico-proposicionais e pragmático-discursivas são muito mais universais do que as estruturas gramaticais variantes que as codificam (Givón, 1991). O autor chama a atenção, porém, para a necessidade de uma abordagem não reducionista, no sentido de se considerar a universalidade da função como uma questão de grau, e apresenta os seguintes argumentos: (i) primeiro, porque diferentes línguas podem combinar de diferentes modos os mesmos traços universais, como acontece, por exemplo, com tempo-aspecto-modalidade; (ii) segundo, porque alguns traços semânticos, funções pragmáticas ou combinação de ambos só podem ser atestados em algumas línguas, ou mesmo em uma apenas e (iii) terceiro, o autor acredita que as funções codificadas pela gramática (semântica proposicional e pragmática discursiva) exibem maior universalidade do que a semântica lexical, que representa diversidade especificamente cultural.7 Porém, somente uma abordagem empírica poderá fornecer evidências para a diversidade estrutural e funcional (op.cit.).

Em outras palavras, o balanço na gramática entre iconicidade e arbitrariedade é um compromisso adaptativo entre pressões funcionais conflitantes, daí as estruturas, que em sua origem são icônicas, tenderem a tornar-se opacas com o passar do tempo. Esse aumento de arbitrariedade tem uma relação direta com o processo de gramaticalização.

 

2. GRAMATICALIZAÇÃO

A gramática, para o Funcionalismo, é concebida como dinâmica (heterogênea) e emergente (mutável), como um "sistema adaptativo" que nunca se estabiliza, parcialmente autônomo e parcialmente motivado por pressões externas (Du Bois, 1985). Considerando que a gramaticalização é um dos processos responsáveis pela mudança linguística, podemos identificar, via gramaticalização, trajetórias características de algumas mudanças, e, além disso, tomá-la como uma espécie de paradigma para descrever o funcionamento da língua (ou de um fenômeno particular). Conforme Bybee, Perkins e Pagliuca (1994), a natureza sistemática do desenvolvimento da gramática é atribuída à natureza sistemática do desenvolvimento de processos mentais e comunicativos que governam o uso da língua; assim, a gramaticalização apresenta-se como uma das ferramentas mais válidas para investigar a interação falante/ouvinte no uso da língua, por um viés cognitivo-discursivo-estrutural.

Embora o comentário anterior pareça dar relevo à perspectiva diacrônica, deve-se pressupor, conforme mostram Hopper e Traugott (1993), que fatos sincrônicos não são distintos dos diacrônicos e dos processos pragmático-discursivos (de ordem comunicativa) que os apreendem. É o que se verifica nos princípios de gramaticalização propostos por Hopper (1991:22-31):

Estratificação: dentro de um domínio funcional amplo (por exemplo, tempo / aspecto / modalidade), novas camadas emergem continuamente. As camadas velhas não são necessariamente descartadas, mas podem permanecer, coexistindo e interagindo com as camadas mais novas.

Divergência: quando uma forma lexical é gramaticalizada como um clítico ou afixo, a forma lexical original pode permanecer como um elemento autônomo e submeter-se novamente a outras mudanças.

Especialização: dentro de um domínio funcional, em um determinado estágio, uma variedade de formas com diferentes nuanças semânticas pode ser possível; à medida que a gramaticalização ocorre, essa variedade de escolhas formais estreita-se e as formas selecionadas assumem significados gramaticais mais gerais.

Persistência: quando uma forma com função lexical se gramaticaliza, passando a ter uma função gramatical, desde que seja viável, alguns traços do significado lexical original podem aderir ao item gramatical, e detalhes de sua história lexical podem ser refletidos em restrições sobre a distribuição gramatical desse item.

Decategorização: formas gramaticalizadas tendem a perder ou neutralizar marcas morfológicas e privilégios sintáticos característicos das categorias lexicais nome e verbo, e assumir atributos característicos de categorias secundárias tais como advérbio, particípio, preposição, entre outros.

Geralmente, considera-se gramaticalização como o desenvolvimento de morfemas gramaticais a partir de lexicais, mas Givón (1979) reconhece a aplicação do termo gramaticalização em sentido mais alargado. No processo de gramaticalização, um modo mais pragmático de comunicação dá lugar a um modo mais sintático, assim, não vê a gramaticalização simplesmente como reanálise de unidades lexicais em gramaticais, mas também reanálise de padrões discursivos em gramaticais e de funções discursivas em funções semânticas sentenciais.

Considerando-se, então, que gramaticalização não se restringe à transição entre itens lexicais e gramaticais, outros mecanismos podem estar em pauta. Bybee, Perkins e Pagliuca (1994) citam: a) extensão metafórica (extensão entre domínios – mudança abrupta); b) inferência (o falante implica mais do que ele diz, e o ouvinte infere mais do que foi dito); c) generalização (perda de traços específicos do significado - redução semântica – com consequente expansão); d) harmonia (usos similares, por exemplo, usos modais na oração principal e na subordinada) e e) absorção (retenção de um traço gramatical).

Ainda Heine et al. (1991) referem-se à gramaticalização como mudanças de ordem semântico-pragmática. As tendências8 apontadas são as seguintes: a) de significados baseados na situação externa (espacial) para significados baseados na situação interna (perceptual/cognitiva); b) de significados baseados em situação externa ou interna para significados baseados em função textual (coesão textual) e c) tendência a significados tornarem-se progressivamente situados nas crenças do falante. Nos estágios iniciais da gramaticalização, ocorre fortalecimento pragmático: envolvimento do falante mediante atitudes, crenças (conforme Heine et al., op. cit.). Isso mostra que a gramaticalização pode servir como ferramenta para investigar a interação falante/ouvinte no uso da linguagem (Bybee et al., 1994), já que tendências de subjetivização9 (cf. Traugott & Dasher, 2002) parecem estar presentes em fenômenos de gramaticalização.

 

3. A MULTIFUNCIONALIDADE DO PRETÉRITO MAIS-QUE-PERFEITO SIMPLES

No início do artigo, aludimos às razões que nos levaram a considerar, nesta pesquisa, apenas a forma simples do pretérito mais-que-perfeito em análise conjunta com o imperfeito do subjuntivo. Convém esclarecer que a opção pela forma simples decorre dos objetivos propostos, por isso não tratamos, neste momento, da forma composta do mais-que-perfeito. Do século XIV para o XV (conforme Mattos e Silva, 2001:40), "criou-se um sistema de tempos compostos, constituído de verbo derivado de habere mais particípio passado, correspondente aos tempos simples, que têm como marca semântica geral, mas não exclusiva, o traço aspectual concluso ou perfectivo". Como observa Pereira (1923:463), a partir do século XVI, e mais raramente no século XVII, em alguns contextos, ter e haver foram se esvaziando de sentido (sentido de posse) e foram entrando na categoria dos auxiliares, mas, quando não se achavam em conjunção com o particípio passado e com o infinitivo, conservavam seu valor original: "com a obliteração de seu valor significativo imobilizou-se o particípio passado, que antes desse fenômeno concordava em gênero e número com o objeto no caso de verbos transitivos. Assim, a frase – tenho escritas as cartas, havia comprados os livros, evolveu em – tenho escrito as cartas, havia comprado os livros." (pág. 464).

Conforme Pereira (1923:502), "o mais-que-perfeito simples tende a desaparecer do uso vivo da língua, suplantado pela forma composta, e a restringir-se ao dialeto literário". O abandono à forma simples decorre da possibilidade de uso da forma analítica para a mesma função. Isso, conforme Fiorin (1996:159), deve-se ao fato de que a oposição latina infectum versus perfectum foi refeita nas línguas românicas com formas compostas paralelas às do infectum; a forma analítica tem a possibilidade de expressar a relação de anterioridade e o aspecto perfectivo (concluso), enquanto a forma sintética representa apenas a relação de anterioridade.

Em relação ao PMQPS, podemos dizer que essa era a forma de codificação padrão para apresentar um passado anterior a outro, mas tal correlação (PMQPS – passado anterior) parece estar em vias de extinção, constatação pautada nas pesquisas de Gonçalves (1993): não há nenhuma ocorrência da forma simples do PMQP para indicar um tempo passado nas entrevistas orais do NURC e do Projeto Censo de Variação Lingüística - RJ; Peres (1993): no português de Portugal, o PMQPS tem adquirido um uso marginal sendo pouco frequente na fala informal; Mateus et al. (1983): o PMQPS (com valor de anterioridade) só ocorre no discurso planejado, em registros muito formais; Coan (1997): em dados extraídos de entrevistas orais com informantes florianopolitanos-SC, não há ocorrências de PMQPS preenchendo a função de passado anterior a outro passado; Campos et al. (1993:40): no corpus do PGPF (Projeto Gramática do Português Falado) "são nulas as condições de produção da forma sufixal do PMQP, o que não significa que o sufixo –ra não seja utilizado e sim que é usado com outro valor.

Em análise de trinta e seis entrevistas do Projeto VARSUL10, encontramos apenas dois dados de pretérito mais-que-perfeito simples com valor de projeção futura (por exemplo: TOMARA que eu esteja enganado! - FLP 21, L666). Procedemos, então, à analise diacrônica da forma, considerando-se o que se pode chamar de função prototípica (mais frequente) por século, bem como as alterações de um século a outro. Foram considerados, para análise, textos dos séculos XVI a XX11. No total, encontramos 308 dados: 162 nos textos do século XVI, 75 nos textos do século XVII, 38 nos textos do século XVIII, 17 nos textos do século XIX e 16 nos textos do século XX. Apresentamos, nesta subseção, os resultados obtidos na análise das categorias que compõem as funções (relação de significado/sentido12) do PMQPS.

Os dados mostram que o PMQPS expressa passado, presente e futuro. Interessa, contudo, saber qual é a função prototípica (mais usual) e se se mantém do século XVI ao século XX. A tabela 01 indica que o PMQPS expressa passado, mas há um decréscimo nesse uso (de 95% no século XVI a 24% no século XX), se observarmos sua utilização de um século a outro, o que justifica a entrada da forma composta do pretérito mais-que-perfeito (PMQPC) e da forma do pretérito perfeito simples (PPS) para a codificação de um passado anterior a outro passado. Quanto mais modal fica a forma simples do pretérito mais-que-perfeito, outra precisa assumir a temporalidade, ou seja, parece que o PMQPS é mais modal enquanto o composto é mais temporal, garantindo equilíbrio funcional no sistema. Isso demonstra que o sistema está sempre em tensão: correlação de um-para-um entre forma e função > multifuncionalidade > correlação de um-para-um entre forma e função e, assim, sucessivamente.

 

 

Ao pretérito mais-que-perfeito é associado, na maioria das situações, um passado como ponto de referência, o que lhe garante a interpretação de passado do passado. No entanto, nem sempre essa forma se associa a outro passado no discurso, é o que demonstra a tabela 02.

 

 

A tabela 02 apresenta os percentuais associados ao tempo do ponto de referência por século, evidenciando-se: a) o decréscimo no uso da referência passada (de 95% a 17%); b) a aparente exclusão de referência futura (de 100% a 00); c) o decréscimo na utilização da referência presente, porém essa é a que mais ocorre, se observada a proporção total de dados/aplicação (de 100% a 82%). A manutenção da referência presente justifica-se pela tendência à codificação de uma projeção passada ou futura pela forma do mais-que-perfeito simples nos dados atuais (como em: Quisera eu...), o que requer, na maioria dos casos, o uso de tal referência, pois situações futuras, por exemplo, tendem a ter ponto de referência presente.

Outro parâmetro investigado diz respeito à ordenação sintática (sequencial, contrassequencial e cotemporal, conforme ilustram os exemplos de 01 a 14, apresentados abaixo) entre a situação codificada pelo PMQPS e seu ponto de referência, o que nos permite evocar o princípio da iconicidade (apresentado na seção 1), especificamente, o subprincípio da ordem sequencial - que orienta a ordenação linear semântica e pragmaticamente (Givón, 1984). Na tabela 03, nota-se o decréscimo em todas as ordenações como consequência da baixa utilização da forma de PMQPS atualmente, embora se possa dizer que o contexto contrassequencial é o que mais perdeu campo de aplicação (de 89% a 18%), considerando-se o número de dados e a aplicação. A codificação não é totalmente icônica, nem totalmente arbitrária: um e outro uso devem estar relacionados ao tipo de relação semântico-sintática entre situação no PMQPS e referência.

 

 

Investigou-se, também, a categoria Modalidade, que diz respeito à atitude do falante (de certeza/incerteza, possibilidade, probabilidade) para com o que é dito (conteúdo proposicional), conforme Givón (1993; 1995; 2001). Essa atitude, nas diferentes línguas, pode, além de ser gramaticalmente marcada (Lyons, 1977:324), também envolver crenças, conhecimento de mundo, expressando ora o irrealis ora o realis que evocam graus de (in)certeza, marcada, por vezes, no nível estrutural da língua, outras no nível discursivo-pragmático.

A modalidade foi analisada de modo escalar16, conforme especificações a seguir: REALIS 1 (indicativo de certeza)17; REALIS 2 (pressuposição)18; REALIS 3 (ocorre em dados com verbo dicendi nos quais a verdade ou falsidade é atribuída ao outro)19; REALIS 4 (metáfora do distanciamento – distanciamento temporal usado metaforicamente para expressar distanciamento da situação, ou seja, via pretérito mais-que-perfeito, o falante se distancia da situação)20; IRREALIS 1 (modalidade dos casos de condição e projeção, em que uma situação é apresentada como hipotética no passado)21; IRREALIS 2 (representa uma projeção futura; uma situação mais irrealis está em vias de ou já sofreu mudança categorial22, como ocorre com tomara). Vejamos, agora, essa escala de modalidade aplicada ao PMQPS por século23.

 

 

O PMQPS expressa, no século XVI, com mais frequência (considerando-se o número de dados e a aplicação), tanto realis 1 (82%) quanto irrealis 1 (100%), o que evidencia usos associados aos traços de mais certeza (mais realis) e menos certeza (menos realis - irrealis), respectivamente. Nos séculos XIX e XX, há menos uso do mais realis (13% para realis 1, 00 para realis 2 e 30% para realis 3), o que justifica a mudança categorial que sofreu a forma simples: passou à projeção futura, cristalizando-se em determinadas expressões. À medida que os séculos passam, o PMQPS vai mantendo-se em contextos irrealis 1 e 2 e perdendo terreno em contextos realis. A utilização do pretérito mais-que-perfeito como indicativo de menos certeza permite que a forma se generalize para marcar outras funções, como é o caso das projeções futuras. Deve-se, contudo, atentar para o fato de que os percentuais para irrealis 1 e 2 mantêm-se, embora tenha ocorrido, para irrealis 1, decréscimo acentuado no número de dados de século a século.

Considerando-se o tempo que o PMQPS codifica, o tempo da referência, a ordenação entre situação e ponto de referencia no discurso e a Modalidade, é possível que se estabeleçam quatorze combinações funcionais para o PMQPS (conforme quadro 01). As combinações são estabelecidas com base na noção de tempo expressa pela forma verbal no PMQPS (passado/presente/futuro), na noção de tempo expressa pelo ponto de referência (passado/presente/futuro) e na relação temporal entre situação e ponto de referência (sequencial/cotemporal/ contrassequencial). Considera-se, também, a atitude do falante, por meio da escala realis-irrealis, visto entendermos as categorias gramaticais como estratégias que servem a propósitos comunicativos.

 

 

As funções depreendidas acima seguem diagramadas com respectivos exemplos:

a) PISE: passado irrealis sequencial a um ponto de referência presente (neste caso, a projeção parte do passado).

(1) Eu QUISERA possuir milhões e bilhões para arroja-los a teus pés e satisfazer assim a todos os caprichos da tua fantasia! (Arthur Azevedo, 44)

b) RITE: presente irrealis cotemporal à referência presente (a projeção é feita no presente; há expectativa presente).

(2) TOMARA agora, senhor Belomodo, que me explicásseis isto, que tenho visto, porque o não posso entender! (Nunes Pereira, 118).

c) PRCA: situação passada realis contrassequencial a um ponto de referência passado.

(3) ...e frecharam outroz como FORA o ano passado... (Autos, 23)

d) PICE: passado irrealis contrassequencial a um ponto de referência presente (não se constitui como projeção do MF; o PMQPS é usado, metaforicamente, para expressar distância do falante em relação à situação 'ensinar').

(4) É teima? Quem te ENSINARA! (Martins Pena,10)

e) PITA: passado irrealis cotemporal a um ponto de referência passado.

(5) Diz que ajudou a enterrar a alguns, mas não nomeya Companheyros, que o ajudasem. PODERA ser, que tenha a mesma caridade de Tobias... (Autos, 103).

f) FISE: futuro irrealis sequencial ao ponto de referência presente27.

(6) TOMARA eu ver isso! (Gastão Tojeiro,33)

g) PITE: situação passada irrealis que se estende ao presente tendo-o como ponto referência.

(7) Quando finalmente julgava realizar a minha felicidade, sou repelido como se FORA o maior criminoso! (Gastão Tojeiro,72)

h) PRCE: passado realis contrassequencial a um ponto de referência presente (a verdade ou falsidade da situação passada em relação ao ponto de referência é atribuída a outrem).

(8) ... a primeira Testemunha deste Summario he parte interessada, pois diz, que os Indios da Nasçáo Mura lhe matarão tres Negros, e ninguem pode ser testemunha em Cauza propria. Dis mais, que Sabe como o anno passado a mesma Nasçáo MATÁRA hum branco Cabo da Canoa dos Tapajós... (Autos, 99).

i) PISA: passado irrealis sequencial a um ponto de referência passado (condição passada em relação ao ponto de referência).

(9) Lamento, por amor de ti apenas, as venturas sem par que perdeste. Que mau sestro te levou a não as querer gozar? Ai, se as PROVARAS, verias que eram mais gostosas que a satisfação de me haveres seduzido, e reconhecerias que se é mais feliz e que é bem mais agradável amar com ardor do que ser amado. (Mariana Alcoforado, 3ª carta, 30).

j) PICA: passado irrealis contrassequencial a um ponto de referência passado (há projeção do ponto de referência passado para o passado).

(10) Diabo: Como tardastes vós tanto? / Onzeneiro: Mais QUISERA eu lá tardar... / Na safra do apanhar / me deu Saturno quebranto. (Gil Vicente, 63).

k) PICU: passado irrealis contrassequencial a um ponto de referência futuro (há uma projeção do futuro para o passado).

(11) Por que não me será dado estar sempre ao pé de ti, como êles? QUISERA ter ido na tua companhia e podes crer que te serviria da melhor vontade. (Mariana Alcoforado, 4ª carta, 34).

l) PRCU: passado realis contrassequencial a um ponto de referência futuro.

(12) Ela tomará as precauções necessárias para que eu fique na certeza de que recebeu o retrato e as pulseiras com que me PRESENTEARA. (Mariana Alcoforado, 5ª carta, 35).

m) FITU: futuro irrealis cotemporal a um ponto de referência futuro (há uma projeção no futuro).

(13) Mil contos de contos de ano / teu tormento há de durar. / Quando PUDERAS pensar / que se acabam já teus danos, / de novo hão de começar. (Anchieta, 336).

n) RISA: presente irrealis sequencial a um ponto de referência passado.

(14) Marta: Eu não vejo aqui cantar, / nem gaita, nem tamboril, / e outros folgares mil, / que nas feiras soem d'estar: / e mais feira de Natal, / e mais de Nossa Senhora, / e estar todo Portugal! / Branca: S'eu soubera que era tal, / não ESTIVERA eu cá agora. (Gil Vicente, 223).

Essas quatorze funções do PMQPS foram delineadas com base nos seguintes fatores (conforme definimos no início da subseção): tempo da situação, tempo do ponto de referência, ordenação entre situação e referência e modalidade. Após essa análise, procedemos à amalgamação de funções, considerando-se, também, os critérios/fatores acima delineados.

A função PRCE pode ser amalgamada com a função PICE, porque ambas indicam passado contrassequencial ao ponto de referência presente, diferindo em termos de modalidade: a função PRCE indica realis 3 e a função PICE, realis 4. Como o PMQPS está caminhando para o irrealis, o PMQPC entra para cobrir PRCE. Assim, a metáfora do distanciamento28 fica para o PMQPS (passado irrealis contrassequencial a um ponto de referência presente), enquanto o composto entra para os casos com verbo dicendi (passado realis contrassequencial a um ponto de referência presente ou passado)29. O PMQPS está se ausentando desta função, especializando-se na projeção (irrealis 2). PRCA e PRCU30 podem, também, ser amalgamadas às funções anteriores, pois os traços que predominam são similares (passado realis contrassequencial). A diferença está na localização do ponto de referência no passado ou no futuro. PITE e PISA indicam condição31, ou no passado ou no presente. Como o PMQPS está se deslocando do passado para o futuro, a cotemporalidade com o momento presente e a sequencialidade ao passado podem constituir-se em etapa intermediária na mudança para contextos sequenciais futuros. As funções PISE, RITE, PITA, FISE, PICA, PICU, FITU e RISA32 indicam projeção futura, presente ou passada. Essas amalgamações conduzem-nos a três funções: a) passado realis contrassequencial a um ponto de referência passado, presente ou futuro; b) condição em relação ao ponto de referência; c) projeção passada, presente ou futura, a partir do momento de fala. Vejamos, agora, essas três funções do PMQPS por século.

 

 

Do século XVI a XX, há decréscimo no número de dados do PMQPS. Cremos que isso decorra do fato de a forma ganhar em especialização, codificando os casos de projeção (conforme exemplos 01, 02, 05, 06, 10, 11, 13, 14), já que outras formas cobrem os contextos dos quais o PMQPS foi, supostamente, excluído, a saber, o imperfeito do subjuntivo que codifica condição (conforme exemplos 07 e 09) e o perfeito do indicativo que codifica a função contrassequencial a um ponto de referência, seja passado (conforme exemplo 03), presente (conforme exemplos 04 e 08) ou futuro (conforme exemplo 12).

As seguintes observações decorrem do exposto nesta seção:

- Apesar da possibilidade de amalgamação, quatorze funções foram depreendidas diacronicamente, revelando a multifuncionalidade da forma do PMQPS.

- Isso nos conduz à generalização de que o sistema temporal é organizado mediante combinações de significados, o que o permite mudar gradativamente, de modo escalar.

- A correlação de um-para-um entre forma e função pode ser vista considerando-se a utilização do PMQPS na função de projeção, deixando o PMQPC para a função de contrassequencialidade e o imperfeito para codificar a condição.

- Há mudança categorial em jogo, especificamente no caso das funções que evocam projeção futura. Note-se, nesses casos, que o uso tende a ser interjetivo, o que pode ser associado à tendência de subjetivização (TRAUGOTT & DASHER, 2002), mas, para alguns casos, ainda há marcação pronominal (puderas, quisera eu isso...), então, deve-se dizer que estão em vias de mudar. Entretanto, no caso de tomara, já ocorreu a gramaticalização no sentido de especialização por especificação. Conforme Tavares (2003:74), "as formas adversárias adquirem significados mais específicos e/ou passam a ser empregadas em contextos semântico-pragmáticos e/ou morfossintáticos específicos, eliminando-se assim a competição. Nesse caso, nenhuma forma seria excluída ou generalizada para cobrir todas as funções pertinentes a um domínio particular, mas cada uma seria empregada em certas funções e/ou contextos particulares pertinentes ao domínio".34

- Percebemos novas camadas emergindo continuadamente, tanto camadas funcionais (o PMQPS ampliando o leque funcional), como camadas formais (outras formas entrando em cena para competir com o PMQPS). A modalidade irrealis, um dos traços do PMQPS, é a chave da mudança categorial, ou seja, há persistência de um traço do significado lexical original no item gramaticalizado. Nesse caso, há perda ou neutralização de privilégios sintáticos característicos da categoria lexical verbo e atributos característicos de categorias secundárias como interjeição.

- Na perspectiva de Bybee, Perkins e Pagliuca (1994), que não restringem o conceito de gramaticalização ao desenvolvimento de morfemas gramaticais a partir de lexicais, podemos verificar, no estudo do PMQPS, extensão metafórica (por exemplo, o PMQPS com ponto de referência presente, o que indica distanciamento, ou seja, uma forma mais distante no tempo é usada em lugar de uma mais próxima); inferência (o falante implica mais do que ele diz quando o PMQPS está acoplado à referência codificada com verbo dicendi) e generalização (perda de traços específicos do significado - redução semântica – com consequente expansão, ou seja, perda do traço realis e generalização do traço irrealis). Ainda, conforme Heine et al. (1991), que se referem à gramaticalização como mudanças de ordem semântico-pragmática, percebemos a tendência a significados tornarem-se progressivamente situados nas crenças do falante, pela generalização do traço irrealis, especificamente nas funções projeção e condição, além dos casos com verbo dicendi como ponto de referência.

- Embora o PMQPS possa configurar-se exemplo de mudança categorial, de verbo pleno à interjeição, seu percurso em direção a essa mudança envolve consideráveis alterações de natureza semântico-pragmática, evidenciadas nas funções acima ilustradas: significados modais mais realis > significados mais irrealis. Essa configuração histórica ilustra as premissas sobre gramaticalização que mencionamos no início do artigo: gramaticalização não envolve somente reanálise de unidades lexicais em gramaticais; gramaticalização envolve mecanismos diversos, tais como metáfora, inferência, generalização, ou mesmo, como atestam Traugott & Dasher (2002), subjetivização.

 

4. A MULTIFUNCIONALIDADE DO PRETÉRITO IMPERFEITO DO SUBJUNTIVO

O PIS materializa-se como uma unidade linguística verbal cujos traços evidenciam seu caráter modal (subjuntivo) e não o temporal: associa-se à condicionalidade para codificar hipótese, possibilidade, manipulação fraca (sentido deôntico) e baixa certeza (sentido epistêmico), sentidos vinculados à modalidade irrealis (BACK, 2008). A partir disso já se tem a dimensão da multifuncionalidade do PIS cujos sentidos são muito mais modais do que temporais, embora se possa considerar seu percurso em direção à temporalidade: mais certeza/mais manipulação = menos irrealis > mais temporalidade, do contrário, menos certeza/menos manipulação = mais irrealis > menos temporalidade (Eles encostavam a escada para que a gente subisse > Se eu morresse amanhã...). As funções temporais do PIS podem ser constatadas na tabela a seguir que resulta da análise de 350 ocorrências,35 que se distribuíram do pretérito (210 dados), passando pelo presente (40 dados) até o futuro (100 dados).

O PIS apresenta ampla extensão funcional que recobre, como já dissemos, os três eixos temporais (passado, presente e futuro), evocando as noções de anterioridade, posterioridade e cotemporalidade em relação a um tempo de referência, a exemplo do PMQPS. Contudo, a função prototípica (mais usual), conforme tabela 06 é o copretérito com 41%.

 

 

Vale destacar que, à medida que o PIS migra, funcionalmente, do pretérito ao futuro, a temporalidade dá lugar à modalidade, muito embora os dados codificados pelo PIS de algum modo já evidenciam acentuada carga modal irrealis, mais do que temporal, mesmo quando o PIS está a serviço de expressar o passado. Nesse ponto, está em situação diversa à do PMQPS, que, conforme vimos, é mais temporal, e, ao expressar modalidade irrealis, entra em cena a forma composta para expressar, primordialmente, tempo (passado – realis).

Para se investigar a multifuncionalidade do PIS, consideramos: temporalidade e factualidade (referencialidade36, particularização37), esta por estar diretamente associada à modalidade; e, por fim, a correlação entre temporalidade e factualidade que se revelaram simétricas: quanto mais tempo, mais factualidade e vice-versa, conforme esboça o esquema a seguir.

 

Segundo a abordagem givoniana, pode-se apreender a categoria Modalidade sob o domínio da factualidade, no qual estão inseridas submodalidades como fato e não-fato. Givón (2001) propõe o seguinte teste de identificação da Modalidade, que toma o comportamento referencial dos sintagmas nominais (SNs) sob escopos modais: fato – engloba a pressuposição e asserção realis; não-fato – compreende a asserção irrealis e asserção negada. Segundo o autor, sob o escopo de não-fato, os SNs podem ser interpretados como referenciais ou como não-referenciais, já sob o escopo de fato, os SNs podem ser interpretados somente como referenciais. Em decorrência de que o controle da factualidade também requer o controle da referencialidade, propusemos um conjunto de traços a partir de uma visão escalar, considerando fatores ligados à factualidade da situação, a saber: [+ particularização, + referencialidade], [+ particularização, - referencialidade], [- particularização, + referencialidade] e [- particularização, - referencialidade]. Vejamos essa distribuição nos dados sob análise:

 

 

É inequívoca, se considerada a tabela acima, a preponderância do fator [- particularização, - referencialidade] em termos de factualidade da situação, com 49% das ocorrências, em relação aos outros dois fatores que mantêm um percentual de 17% e 34%. Ao tematizarem, os falantes o fazem por meio de asserções que tendem a não se referir semanticamente a um evento particular, nem ocorrido num tempo específico, portanto não acessando referentes disponíveis. À medida que cresce o grau de factualidade, 34%, de algum modo, ou os referentes são acessados ou as situações particularizadas.

Vejamos, agora, os resultados da factualidade correlacionados aos da temporalidade:

Os números apresentados na tabela 08 mostram certa polarização entre o pretérito (copretério e pós-pretérito, principalmente) e o futuro. No eixo do pretérito, os fatores [+/- particularização, +/- referencialidade] e [+ particularização, + referencialidade] estão fortemente correlacionados ao uso do PIS nos tempos funcionais de copretérito (47% e 19%, respectivamente) e pós-pretérito (31% e 51%, respectivamente), ligando o PIS a situações mais factuais. O decréscimo da frequência de uso do pós-pretérito (de 31, passando por 51, até 18%) está atrelado a um incremento desses fatores junto aos outros tempos dos eixos presente e futuro, sobretudo no tempo funcional presente que passa a figurar com 63%. Contudo, ao focalizarmos as ocorrências ligadas a situações menos factuais, deparamo-nos com a incidência do PIS no futuro com 84%.

 

 

Em se tratando do eixo do futuro, a factualidade se apresenta como [- particularização, - referencialidade], de modo que sua direção vai se configurando no sentido: [+tempo, +factualidade] > [-tempo, -factualidade], conforme expusemos na figura 1. Essa exposição mostra que, ao perscrutarmos os domínios da temporalidade, revela-se a simetria esperada entre temporalidade e factualidade e confirma-se a hipótese do continuum de [+tempo, +factualidade] para [-tempo, -factualidade]. Diante disso, teríamos uma prototipicidade de [+factualidade] para o pretérito e de [-factualidade] para o futuro.

 

 

Vale destacar que a ocorrência de situações factuais para o PIS já era esperada, haja vista que, em práticas de linguagem mais formais, sua ocorrência é atestada, como constata Prestes (2003) em seu estudo sobre o português escrito, sobretudo em contextos oracionais de concessivas e substantivas quando associadas ao passado38.

Em suma, esses resultados ratificam o olhar do analista em termos de continuum, de [+factualidade, + temporalidade] para [- factualidade, - temporalidade]. Considerando-se que o PIS assume significados gramaticais mais gerais, ou seja, é utilizado para codificar passado, presente e futuro, podemos aludir à especialização por generalização (proposta por Hopper, 1991). Corrobora isso o fato de o PIS codificar condição, função essa, historicamente atrelada, também, ao PMQPS, conforme vimos na seção 3.

Também apontamos o fato de que a não existência de uma situação particularizada ou a ambiguidade no sentido de essa situação ser iterativa, portanto contemplando n referentes em momentos diversos, poderia ocasionar uma interpretação 'menos-referencial' ou mesmo 'não-referencial', ambas portando o traço de [-factual]. De modo que, diante de uma situação que não se refere, semanticamente, a um evento particular, ocorrido em um momento específico (ou um estado que persistiu), em função do caráter [-factual], acentua-se o componente modal em jogo: irrealis (conforme Givón, 1995:116).

Toda a exposição feita até aqui, tanto do ponto de vista da temporalidade quanto da modalidade, mostrou tipos identitários que, em princípio, não nos permitiriam agrupá-los em uma macrofunção. Contudo, do mesmo modo como proposto para o PMQPS o fizemos. A associação entre temporalidade e factualidade conduz-nos às seguintes funções:

 

As funções depreendidas acima seguem diagramadas com respectivos exemplos:

a) APRF: antepretérito [irrealis +factual]: referentes envolvidos definidos para o falante e situação particularizada (irmão levado ao hospital).

(15) F* Então se não LEVASSE, de certo era mais um que morreria, né? (SCCRI07, p. 004 e 005)

b) APIR: antepretérito [irrealis -factual]: referente definido (empregada) e situação não particularizada (exemplifica n possibilidades).

(16) *MaØs a minha empregada [...] parou aqui na Forquilhinha em casa de JaponêØs, ela sempre queria: "ah, compra um peixe cru que eu quero fazer pra mim comer." *Ela, por exemplo, se FOSSE comia, porque é bem preparado, limpinho, não sei o que que eles botam lá. *Eu não! [...] nem cozido, quem dirá cru! (SCCRI05, p. 013)

c) APNF: antepretérito [irrealis não factual]: referente indefinido ('TU' genérico) e situação não particularizada (esboça n momentos possíveis).

(17) F- Qué dize, tinha o primero ano, era assim ó, entrava na escola, não tinha pré, não tinha nada, naquele tempo, né? Já entrava na escola pra aprende, aí se não APRENDESSE a escrevê, fazê continha, tudo aí eles ficavam dois anos no primero ano. (SCCRI12, p. 016)

d) CPRF: copretérito [irrealis +factual]: referente definido (professora) e situação particularizada (situação em sala de aula).

(18) [...] então ela não entendia a letra e [...] falava a besteira que QUISESSE. (sccri03, p. 11)

e) CPIR: copretérito [irrealis -factual]: referente definido (Bush) e situação não particularizada (crença/crítica).

(19) F* Isso aí, o Bush pediu pra acontecer [...] declarou que ele ia suspender o estudo antiaéreo, o estudo espacial, com a guerra nas estrelas, [...] eu vou fazer e acabou, como se FOSSE o rei do mundo. (SCCRI04, p 12)

f) CPRNF: copretérito [irrealis não factual]: referente indefinido (outra) e situação não particularizada (n possibilidades).

(20) *E naquele tempo era assim: se vocês duas tivessem, eu comprava a minha entrada, a tua entrada e mais a entrada do peru também, se fosses minha namorada, maØs estava junto, se TIVESSE outra também, o homem tinha que pagar tudo, mulher não pagava nada. (SCCRI05, p. 6)

g) PPRF: pospretérito [irrealis +factual]: referente definido (a gente) e situação particularizada (jogo do Grêmio).

(21) *Então aquele jogo foi emocionante, foi sofrido, porque a gente esperava que a qualquer hora os atacantes do Grêmio FIZESSE um gol e ACABASSE aquele sonho ali, né? *Foi o jogo mais emocionante, foi o Criciúma e Grêmio pela Copa Brasil. (est) (SCCRI03, p.53)

h) PPIR: pospretérito [irrealis -factual]: referente definido (nós) e situação não particularizada (crença).

(22) E o que que eu faço? Tá? Deus deu o único filho dele pra morre na cruz do calvário pelos nossos pecados, pra que nós não FÔSSEMOS pro inferno[...]. (SCCRI11, p. 11)

i) PPNF: pospretérito [irrealis não factual]: referente indefinido e situação não particularizada (possibilidade).

(23) Que eles diziuØØ que era um livro que tinha na secretaria, que Deus me livre se alguém ASSINASSE [...]. (SCCRI21, p. 4)

j) DPRF: presente [irrealis +factual]: referente definido (a inflação) e situação particularizada (hoje não tem inflação).

(24) F *A inflação. *Então para quem viveu naquela época que participou daquilo ali, hoje é a mesma coisa [que não tivesse]- que não TIVESSE a inflação.? (SCCRI03, p. 59)

k) TPIR: presente [irrealis -factual]: referente definido (amigos) e situação não particularizada (hipótese).

(25) F-Amigo? É aqueles amigos que eu te falei, né?Que [no]-na verdade não são, né? Que se FOSSE, não oferecia. (SCCRI14, p. 016)

l) TPNF: presente [irrealis não factual]: referente indefinido e situação não particularizada (condição).

(26) É, de teatro é interessante. *Teatro acho que se TIVESSE mais assim (hes) eu assistiria, eu perdi um teatro agora, [negro] – negros no desterro, né? (SCCRI29, p. 7)

m) FPIR: futuro [irrealis -factual]: referente definido (a gente) e situação não particularizada (hipótese).

(27) *A gente era um pouco, era experiente também. (est) *Hoje já se FOSSE CRIAR já seria diferente, né? *A gente com o passar dos anos adquire nova experiência, né? (SCCRI10, p. 01)

n) FPNF: futuro [irrealis não factual]: referente indefinido (n praias, n verões – genérico) e situação não particularizada (n possibilidades).

(28) E *Se tu ganhasse um premio na mega sena? (risos F) [...]

F *A, ia pegaØ uma turma de amigos, ia escolheØ os meus amigoØ, ia fazeØ uma volta ao mundo, ia viveØ só de verão, praia e praia, onde TIVESSE verão e praia, cerveja e mulheØ, só festa, resumindo ia viveØ de festa, de repente eu morreria cedo, de tanta festa, mas ia (inint). (SCCRI18, p. 015)

o) NINF: antefuturo [irrealis não factual]: referente indefinido (cada um) e situação não particularizada (orientação).

(29) E *É não é fácil né? *Em questão assim o que que tu achas que deveria ser feito pra acabar com essa violência?

F *Ah cada um que APRONTASSE tinha que matar mesmo (risos) [não]-não é, roubar morre, matou, morre, não tem... (SCCRI25, p. 020)

As seguintes observações desdobram-se das discussões tratadas nesta seção:

– A estratificação (conforme Hopper, 1991) está produtivamente presente, pois se constata, dentro do domínio funcional Tempo-Aspecto-Modalidade (conforme Givón, 1984, 1993), que camadas funcionais coexistem e interagem, em função de o PIS expressar ora o passado mais factual, ora o futuro menos factual, revelando sua multifuncionalidade expressa pelas 15 funções depreendidas sincronicamente.

– Essa multifuncionalidade do PIS alude à especialização por generalização (conforme Hopper, 1991).

– As expressões codificadas pelo PIS estão a serviço do irrealis; nosso trabalho foi o de investigar o quanto esse irrealis se aproximava do fato ou do não-fato.

– Daí apreender a situação de modo particularizado e referencial, reanalisando padrões discursivos e funções discursivas em contextos semânticos sentenciais como um modo mais pragmático do que sintático de vislumbrar um processo de gramaticalização (Givón, 1979).

– Por fim, considerando o processo de gramaticalização como de natureza mais pragmática, podemos dizer que o PIS se enquadra em uma das tendências propostas por Heine et al. (1991): no processo de gramaticalização, significados tornam-se progressivamente situados nas crenças do falante, o que pode ser correlacionado à tendência de subjetivização explicitada por Traugott (1995a) e Traugott & Dasher (2002).

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Embora "a condição natural da língua seja preservar uma forma para um significado, e um significado para uma forma" (Givón, 1991:106), no percurso da mudança, há multifuncionalide, o que pode ser verificado quando mostramos 14 funções codificadas pelo PMQPS e 15 funções codificadas pelo PIS. Quando há estabilidade, ou seja, a forma se especializa para codificar uma função, outros processos multifuncionais entram em cena. Por exemplo, o PMQPS se especializou para codificar a projeção, deixando a contrassequencialidade a cargo do pretérito mais-que-perfeito composto e do pretérito perfeito simples, formas que codificam, atualmente, também outras funções. O mais-que-perfeito composto é usado tanto com ponto de referência passado (Quando ele chegou, eu já tinha saído.) quanto com ponto de referência presente (Eu tinha pensado em ir ao cinema...). O perfeito simples codifica um tempo anterior ao momento de fala (Ele saiu.) ou anterior a outro ponto de referência, seja passado (Ele disse que saiu.) ou futuro (Quando você chegar, eu já saí.). Diferentemente do PMQPS, o PIS codifica, atualmente, uma ampla gama de significados, desde situações menos factuais e menos referenciais a mais factuais e mais referenciais, do que se depreende, também, a especialização, no entanto, por generalização.

Conforme expusemos no referencial teórico, o balanço entre iconicidade e arbitrariedade é um compromisso adaptativo entre pressões funcionais conflitantes, daí as estruturas, que em sua origem são icônicas, tenderem a tornar-se opacas com o tempo. Esse aumento de arbitrariedade tem uma relação direta com o processo de gramaticalização. Os princípios Estratificação (as camadas mais velhas coexistem e interagem com as camadas mais novas) e Especialização (as formas, em processo de gramaticalização, assumem significados gramaticais mais gerais), propostos por Hopper (1991), explicam isso. No caso do PMQPS e do PIS, podemos considerar persistência (do traço irrealis), estratificação (camadas funcionais) e especialização (respectivamente, por especificação e por generalização). Especificamente no caso do PMQPS, vemos decategorização (migração de verbo para interjeição).

Dos fatores sob análise, nos dois estudos (do mais-que-perfeito e do imperfeito do subjuntivo), a modalidade parece ser a chave para a mudança, pela generalização do traço irrealis, o que leva à mudança de tempo e de ponto de referência, ou seja, o PMQPS migra do passado com ponto de referência passado (função contrassequencial) ao futuro com ponto de referência presente (projeção). Já o PIS migra do passado com referência passada para situações cuja referência é presente, deslocando-se com traços característicos de menos referencialidade e factualidade ao futuro.

 

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Recebido em janeiro de 2012
Aprovado em outubro de 2012

 

 

* Este artigo tem por base as pesquisas desenvolvidas por COAN (1997 e 2003) e BACK (2008).
1. Foram utilizadas, a priori, trinta e seis entrevistas do corpus do Projeto VARSUL (Variação Lingüística Urbana na Região Sul), cada uma com cerca de uma hora de duração. Encontramos, nas trinta e seis transcrições, quinhentos e setenta e seis (576) dados em que a forma composta do pretérito mais-que-perfeito varia com o pretérito perfeito simples na codificação do passado anterior a outro passado, conforme exemplos a seguir: a) Qual a minha surpresa, que nesse ínterim, começou a aparecer várias dívidas que o Osni TINHA CONTRAÍDO... (FLP 23, L205); b) Mal voltando um pouquinho no tempo do empório, que eu tinha um armazém, eu CONTRAÍ uma dívida, entende, bancária pra poder assumir aquele empório... ( FLP 23, L239). No entanto, essas duas formas, para indicar o passado do passado, nesse corpus oral, não co-ocorrem com a forma simples do pretérito mais-que-perfeito.
2. TOMARA que eu esteja enganado! (VARSUL – Florianópolis, entrevista 21, linha 666)
3. De acordo com Giv ón (1993), o ponto de referência mais comum nas línguas é o tempo de fala, ancorado ao tempo da performance do ato de fala e admitido como um tempo não marcado. Além de focalizar o momento de fala, Givón (1984) vê outras possibilidades de ligação entre os eventos, no sentido de referência estar acoplada à relevância, assim, se algum evento é mencionado dentro do discurso, fora de sequência, é porque ele é de algum modo relevante para aquele último ponto do discurso. Situações no passado, no presente e no futuro, vinculadas ao tempo de fala, tomam esse tempo como ponto de referência. Mas é possível que uma situação que tenha como ponto de referência o tempo de fala possa constituir-se ela mesma em ponto de referência para outra situação que lhe é anterior ou posterior (tempo relativo-absoluto, nos termos de Comrie, 1990).
4. Givón (1984) faz referência aos seguintes tipos de Modalidade: pressuposição (verdade por acordo prévio); asserção realis (algo é verdadeiro ou falso) e asserção irrealis (verdade possível).
5. A variação entre essas formas é objeto do projeto interinstitucional: Pretérito mais-que-perfeito simples e pretérito imperfeito do subjuntivo em variação e mudança do século XVI ao século XX (Coan e Back, 2012).
6. Nas seções de análise, essas observações serão explicadas e ilustradas.
7. As funções, por serem de natureza discursiva, são universais; os lexemas são unidades culturalmente determinadas (nomes de cores, de tipos de areia, de tipos de neve, por exemplo).
8. Essas tendências seriam classificadas como metafóricas por Lakoff (1993).
9. Subjetivização, na perspectiva de Traugott (1995a: 31), refere-se ao "[...] processo semântico-pragmático pelo qual significados se tornam altamente baseados no estado de crença/atitude subjetiva do falante em relação à proposição."
10. Banco de Dados: Variação Lingüística Urbana na Região Sul do Brasil – Projeto interinstitucional que agrega as seguintes universidades: UFPR, UFSC, UFRGS e PUC-RS.
11. Século XVI: Teatro de Gil Vicente (Auto da fé; Auto da alma; História de Deus; Auto da Feira; Auto da Índia; Auto de Inês Pereira; Auto dos Físicos; Auto da Lusitânia; Comédia da Rubena); Teatro de Anchieta (Pregação Universal; Na festa de São Lourenço; Diálogo de Pero Dias Mártir; Recebimento dos Índios ao Pe. Beliarte; Recebimento do Adm. Apostólico; Quando no Espírito Santo...; Na vila de Vitória; Na visitação de Santa Isabel); Cartas de Camões (Carta de Lisboa; Outra Carta de Lisboa; Carta da Índia); Carta de Antônio Ferreira (A Diogo Bernardes); Novela de Francisco de Morais (Palmeirim de Inglaterra); Novela de Bernardim Ribeiro (Menina e Moça) e Contos de Gonçalo F. Trancoso (Conto II, Conto V e Conto IX).
Século XVII: Cartas de Mariana Alcoforado; Diálogos das Grandezas do Brasil e Sermões do Pe. Antônio Vieira (de Santo Antônio; ...Pelo Bom Sucesso...; da Terceira Dominga; do Nascimento do Menino Deus; Doméstico).
Século XVIII: Depoimentos dos Autos da Devassa contra os Índios Mura e Nações do Rio Tocantins e Compêndio Narrativo do Peregrino da América de Nuno M. Pereira.
Século XIX: Teatro de Martins Pena (O namorador; O juiz de paz; Os irmãos das almas; O diletante; Os três médicos; O noviço; O caixeiro da taverna; Quem casa quer casa; O Judas em sábado de aleluia) e Teatro de França Júnior (As doutoras; Caiu o ministério; Como se fazia um deputado; Maldita parentela).
Século XX: Teatro de Arthur Azevedo (O dite; A casa de Orates); Teatro de Gastão Tojeiro (Onde canta o sabiá; O tenente era o porteiro); Teatro de Silveira Sampaio (A garçonnière de meu marido) e Teatro de Humberto Cunha (A vida tem três andares).
12. Referimo-nos ao significado das formas verbais como o conceito de tempo (passado/presente/futuro), aspecto (perfectivo/imperfectivo), modalidade (realis/irrealis) e referência (ponto de referência no passado/presente/futuro); e a sentido como traços/matizes dessas categorias, por exemplo: tipos de realis para a modalidade; ponto de referência temporal, discursivo, pressuposto, compartilhado.
13. Os seguintes exemplos ilustram os fatores sob an álise: a) Passado: É certo que amando-te experimentei venturas que nunca IMAGINARA, mas pago-as hoje... (Mariana Alcoforado, 2ª carta, 21); b) Presente: Deus de suma compaixão, / em quem a bondade mora, / sabe o tempo do perdão. / Segundo isso, eu agora / não QUISERA voltar lá; / mas quero ficar-me cá, / contando que vá pra fora, / esta velha que aqui está. (Anchieta, 326); c) Futuro: Mil contos de contos de ano / teu tormento há de durar. / Quando PUDERAS pensar / que se acabam já teus danos, / de novo hão de começar. (Anchieta, 336).
14. Em todas as tabelas desta seção, os resultados associados ao PMQPS decorrem de uma análise percentual conjunta com a forma do pretérito mais-que-perfeito composto.
15. Os seguintes exemplos ilustram os fatores sob an álise: a) Passado:...e os outros príncipes se acharam descontentes, porque o Imperador lhe DERA aquela honra sobre todos eles; e dissimulavam por lhe fazer a vontade; que é um bem, de que só os mui confiados e nobres podem participar. (Francisco de Morais, 155); b) Presente: Existe um meu companheiro / que aos tupis pecar FIZERA. / (Anchieta, 212); c) Futuro: Por que não me será dado estar sempre ao pé de ti, como êles? QUISERA ter ido na tua companhia e podes crer que te serviria da melhor vontade. (Mariana Alcoforado, 4ª carta, 34).
16. A escala utilizada pauta-se na proposta de Coan (2003). A opção por uma proposta escalar decorre da natureza dos dados, que apresentam distinções semânticas as quais são mais bem captadas em perspectiva escalar do que em análise dicotômica entre realis-irrealis.
17. É certo que amando-te experimentei venturas que nunca IMAGINARA, mas pago-as hoje... (2ª carta, 21).
18. Não há dados de PMQPS para esse fator.
19. Disseram-me na Casa de Sa úde que o Doutor Fortes VIERA para cá. (Arthur Azevedo, 1882:70)
20. É teima? Quem te ENSINARA! (Martins Pena, 10)
21. Se PUDERAS fazer isso, eu ficava com a senhora. (Martins Pena, 07)
22. A forma simples do PMQP – tomara - passou a se comportar como item de outra classe; não se comporta mais como verbo, não tem mais a marca de pessoa, nem possibilidade de alteração modo-temporal.
23. TOMARA eu que j á se organize o ministério. (França Júnior, 61)
24. Função refere-se à combinação dos fatores do quadro 01.
25. Nesta coluna, utilizamos os termos realis e irrealis em vez das especificações realis 1, 2, 3, 4 e irrealis 1 e 2, pois, na composição das funções, interessam-nos os traços de significado, mais gerais, e não os traços de sentido, mais específicos. Função refere-se à combinação das categorias Tempo, Modalidade e Referência somadas à ordenação entre a situação codificada pelo PMQPS e o ponto de referência. Conforme explicado na nota 14, significado engloba o conceito de Tempo (passado/presente/futuro), o tipo de Modalidade (realis/irrealis), o tempo do ponto de referência (passado/presente/futuro) e o tipo de ordenação; sentido refere-se a traços/matizes dessas categorias, por exemplo: tipos de realis (1 a 4) e de irrealis (1-2) para a Modalidade.
26. Na proposta de Reichenbach (1947), ME refere-se ao momento do evento, MR refere-se ao momento de referência e MF ao momento de fala.
27. Está em foco a função da forma, mas não se trata mais de tempo verbal; houve uma mudança categorial (para interjeição).
28. Função apresentada em (d) e exemplificada em (04).
29. Função apresentada em (h) e exemplificada em (08).
30. Funções exemplificadas em (03) e (12).
31. Essas funções foram apresentadas, respectivamente, em (g) e (i), exemplos (07) e (09).
32. Essas funções estão descritas e exemplificadas em (a), (b), (e), (f), (j), (k), (m) e (n), respectivamente, nos exemplos (01), (02), (05), (06), (10), (11), (13) e (14).
33. Por causa do número reduzido de dados, em algumas funções, resolvemos não colocar os percentuais. A relação Aplicação – Total de dados, nesse caso, é mais significativa para comentários sobre a função por século. O total de dados refere-se à soma das formas de PMQPS e de PMQPC.
34. As observações aqui apresentadas não têm caráter generalizante, já que feitas na base de oito ocorrências, número, em princípio, limitado, mas, dada a especificidade dos dados, esperado. Lembremos que, em 36 entrevistas do Projeto VARSUL, cada uma com uma hora de duração, somente dois dados foram verificados.
35. As ocorrências analisadas nesta seção integram o corpus do banco de dados Entrevistas Sociolingüísticas da UNESC (Universidade do Extremo Sul Catarinense), idealizado nos mesmos moldes do VARSUL, que tem como objetivo subsidiar a investigação e descrição de fenômenos de variação e mudança nas comunidades do Extremo Sul Catarinense. O corpus compõe-se de sessenta entrevistas sociolinguísticas realizadas no município de Criciúma/SC, em 2001 (ano da coleta), com informantes da área urbana. Trata-se, portanto, de uma amostra sincrônica.
36. Referencialidade diz respeito à definitude ou à indefinitude do sintagma nominal.
37. Particularização refere-se a um evento específico em um tempo também específico ou a um estado que persistiu. Situações iterativas, por exemplo, não são particularizadas já que ocorrem em vários momentos no tempo.
38. Back (2008) registra ocorrências factuais de condicionais: Então se não LEVASSE, de certo era mais um que morreria... (SCCRI07, p. 05) / Se eu não TIVESSE ido para o quartel, eu teria me formado (SCCRI15, p. 010); e de substantivas, embora de modo menos produtivo: Queria que ela TIVESSE ainda com a gente. (SCCRI19, p. 12-13).
39. A exemplo da seção que tratou do PMQPS, fizemos uso de códigos que representam as funções, por exemplo: APRF que significa situação codificada como antepassado com relação ao momento de referência, realis.

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