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DELTA: Documentação de Estudos em Lingüística Teórica e Aplicada

Print version ISSN 0102-4450

DELTA vol.29 no.spe São Paulo  2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-44502013000300002 

ARTIGOS

 

Brasil-paraíso: estereótipo e circulação

 

Brazil-paradise: stereotype and circulation

 

 

Ana Carolina Vilela-ArdenghiI; Ana Raquel MottaII

IUFMS / FEsTA
IIPUC-SP / UT-Austin / Fapesp / FEsTA / Atelier

 

 


RESUMO

Neste artigo, analisamos um corpus composto por um encarte do Ministério do Turismo do Brasil (Roteiros do Brasil: 87 belos motivos para viajar pelo Brasil, 2009) que apresenta sugestões de roteiros de viagem no país. O objetivo central foi verificar o modo de circulação de um estereótipo acerca do espaço nacional, sem assumir, contudo, os estereótipos como algo "engessante" ou redutor, mas como uma regularização, efeito de retomadas, paráfrases e repetições que levam ao "esquecimento" da origem enunciativa. São um elemento do interdiscurso cuja entrada no fio do discurso deixa suas marcas, no caso, estruturas inclusivas, que marcam um deslocamento no estereótipo edênico do Brasil, sem abrir mão dele. As análises permitem concluir que os discursos que circulam no campo do turismo - por mais que se apoiem num estereótipo do espaço nacional - mostram, pelo efeito de sustentação do pré-construído, o deslocamento dessa imagem para um aspecto plural do país.

Palavras-chave: circulação dos discursos; estereótipos; pré-construídos; Ministério do Turismo do Brasil.


ABSTRACT

In this essay, we analyze a corpus composed of a brochure of the Ministry of Tourism of Brazil (Roteiros do Brasil: 87 belos motivos para viajar pelo Brasil, 2009), which presents suggested itineraries of trips in the country. The main objective was to determine the mode of circulation of a stereotype about the national space, without assuming, however, stereotypes as something stagnant or reducent, but rather as a regularization, an effect of resumptions, paraphrases and repetitions that lead to "forgetting" of the enunciative source. They are an element of interdiscourse whose entry into the thread of the discourse leaves its marks, in this instance, inclusive structures that mark a shift in the Edenic stereotype of Brazil, without giving it away. The analyses lead to the conclusion that the discourses that circulate in the field of tourism - as much as they support a stereotype of national space - show, by the supportive effect of the preconstruction, the shift of this image to a plural aspect of the country.

Key-words: circulation of discourses; stereotypes; preconstruction; Ministry of Tourism of Brazil


 

 

A América não estava aqui à espera de Colombo, assim como o Brasil não estava aqui à espera de Cabral. Não são "descobertas" ou, como se dizia no século XVI, "achamentos". São invenções históricas e construções culturais. [...] O Brasil foi instituído como colônia de Portugal e inventado como "terra abençoada por Deus" [...]. (Chauí 2006:57)

 

Primeiras palavras

No caso do Brasil, aquilo a que chamaremos aqui de espaço nacional - isto é, o que é tomado como sendo a melhor representação do espaço físico de um país ou ainda uma "paisagem nacional típica" (Löfgren 2000) - parece ser aspecto bastante relevante de um ponto de vista histórico. Com isso não se pretende dizer que esse traço não seja importante para outras (todas?) as nações; trata-se, bem entendido, de reconhecer a sua importância no panorama brasileiro.

Analisando documentos históricos que datam da época do descobrimento e posterior colonização da América do Sul, Holanda ([1959]2010) aponta, nesse sentido, que a "senha" para o entendimento de diversos aspectos da civilização latina no Novo Mundo é o "motivo edênico"; desde o começo das viagens de Colombo, "a crença na proximidade do Paraíso Terreal não é apenas uma sugestão metafórica ou uma passageira fantasia, mas uma espécie de ideia fixa", de modo que a "tópica das 'visões do paraíso' impregna todas as suas [de Colombo] descrições daqueles sítios de magia e beleza" (Holanda [1959]2010:50-53).

Tal é a relevância da paisagem nacional típica na "construção" ou "invenção" do Brasil que, como aponta Chauí (2006:62), a bandeira brasileira - em franca dissonância com as bandeiras nacionais pós-Revolução Francesa, "insígnias das lutas políticas por liberdade, igualdade e fraternidade" - é quadricolor e não guarda qualquer relação política, por um lado, nem narra, por outro lado, a história do país: é um símbolo da natureza, "é o Brasil-jardim, o Brasil-paraíso".

Ainda que a relação direta1 com o paraíso bíblico vá com o tempo se diluindo, ainda hoje a ideia de que no Brasil, por exemplo, se tem um cenário paradisíaco é retomada por diversos discursos. Procuraremos, então, mostrar, por meio das análises que ora se apresentam, de que maneira essa imagem cristalizada do país ecoa nos discursos acerca do espaço nacional, mais especificamente no campo do turismo. Trata-se, em outras palavras, de analisar o modo de circulação de um pré-construído nos discursos desse campo.

 

No princípio era... o paraíso

Os recortes apresentados e analisados por Holanda indicam que a colonização do Novo Mundo é marcada - nos relatos dos que aqui estiveram nos primeiros anos - por tentativas de aproximação com elementos que pudessem de alguma forma remetê-los ao Éden bíblico - os textos do Gênesis funcionam neste caso como uma espécie de "mapa do tesouro" dos navegadores2. Três são os topoi recorrentes apontados pelo autor, a saber: i) a perene primavera e temperança dos ares; ii) a longevidade dos seus nativos; iii) a ausência de pestilências e enfermidades. Esses topoi encontram-se altamente imbricados, já que a falta de doenças e a consequente vida longeva dos índios eram, em boa medida, atribuídas ao caráter ameno do clima das novas terras.

Falando especificamente sobre o Brasil, por exemplo, podem-se citar passagens em que a amenidade do clima é destacada, como a seguinte, de Gandavo (apud Holanda [1959]2010:26): "nesta província de Santa Cruz de tal maneira se comediu a natureza na temperança dos ares, 'que nunca se sente frio ou quentura excessiva'"; ou a de Anchieta, para quem "não faltavam no tempo do inverno os calores do sol para contrabalançar os rigores do frio, nem no estio para tornar mais agradáveis os sentimentos, as brandas aragens e os úmidos chuveiros" (apud Holanda [1959]2010:26).

Este era, portanto, o cenário encontrado pelos navegadores ao chegarem ao Novo Mundo; e ele era absolutamente diverso daquele de onde vinham; nas terras recém-descobertas encontravam uma paisagem de cores "exuberantes", proporcionada pelo clima temperado, responsável por garantir aos seus habitantes uma vida longa, já que longe de enfermidades. Ou nas belas palavras de Holanda:

não admira se, em contraste com o antigo cenário familiar de paisagens decrépitas e homens afanosos, sempre a debater-se contra uma áspera pobreza, a primavera incessante das terras recém-descobertas devesse surgir aos seus primeiros visitantes como uma cópia do Éden. Enquanto no Velho Mundo a natureza avaramente regateava suas dádivas, repartindo-as por estações e beneficiando os previdentes, os diligentes, os pacientes, no paraíso americano ela se entregava de imediato em sua plenitude, sem a dura necessidade - sinal de imperfeição - de ter de apelar para o trabalho dos homens. (Holanda [1959]2010:13).

Como dito mais acima, a relação direta com o paraíso bíblico desaparece ao longo dos séculos; o seu impacto na história brasileira, entretanto, não. O "paraíso" dos dias de hoje é invariavelmente relacionado à natureza, às belezas naturais - quase sempre às praias -, como bem se pode observar nos excertos que seguem:

(1) Praias paradisíacas, enfeitadas por montanhas, dunas e por vestígios da colonização do Brasil. Assim é o Espírito Santo [...]. (Revista Bancorbrás, ano XVI, n. 58, jan./fev./mar. 2009:6)

(2) Ano novo: momento de renovação, férias e aventuras sob o generoso sol do verão brasileiro! [...] Os diversos vôos diários ao Rio de Janeiro, por exemplo, tornam mais acessível um dos paraísos turísticos brasileiros: Angra dos Reis [...], que oferece 365 ilhas, uma para cada dia do ano, oito baías e mais de duas mil praias compondo um cenário deslumbrante para o turista em busca de belezas naturais. (Avianca em Revista, ano III, n. 19, 2010:10)

(3) [Uma das baías de Angra] abriga inúmeras ilhas, praias paradisíacas e um mar de águas transparentes [...]. (Avianca em Revista, ano III, n. 19, 2010:52)

(4) Little by little, however, we start to discover paradisiacal places filled with attractions such as waterfalls, caves and lagoons, all endowed with complete infra-structure for visitors of all ages who look for adventure, radical sports and all the thrill the Brazilian Central Plateau has to offer. (Brasil Central, encarte EMBRATUR e Ministério do Turismo do Brasil, s/d)

(5) Mato Grosso presents an enormous diversity of natural landscapes: the cerrado, the Amazon rainforest and the Pantanal. A paradise for rare bird species. (Brasil Central, encarte EMBRATUR e Ministério do Turismo do Brasil, s/d)

(6) In Caldas Novas, Rio Quente, Lagoa Santa, Jataí and Cachoeira Dourada, you will feel the pleasure of a unique experience: relaxing in hot water right in the middle of paradise. (Brasil Central, encarte EMBRATUR e Ministério do Turismo do Brasil, s/d)

(7) Porto de Galinhas é um verdadeiro paraíso tropical! São quilômetros de areias finas, banhadas por águas de uma gama de tons de verde impressionante. Neste local mágico, onde o sol brilha muito, há maravilhosos arrecifes que formam deliciosas piscinas naturais. (Revista de Turismo, disponível em: <http://www.revistaturismo.com.br/passeios/p-galinhas.htm>)

(8) [Cabo de Santo Agostinho] Pertence à zona metropolitana de Recife e basta percorrer 37 quilômetros rumo ao sul para alcançar esse pedaço do paraíso. (Revista da Bancorbrás, ano XVI, n. 65, out./nov./dez. 2010:13)

Embora as referências ao "paraíso" sejam pródigas nos textos que tratam, de alguma forma, do turismo no Brasil, recortamos como corpus para este trabalho um encarte produzido pelo Ministério do Turismo do Brasil - e que integra o seu Programa de Regionalização do Turismo. Nele encontram-se, no total de 87 roteiros turísticos, dezesseis referências ao paraíso que é o Brasil, das quais destacamos algumas a seguir:

(9) A Ilha de Marajó guarda verdadeiros tesouros turísticos. Danças típicas, assim como a cerâmica e a culinária marajoaras, ajudam a enriquecer o cenário paradisíaco. (p. 23)

(10) A densa vegetação, os paredões ao redor e o vapor d'água dão a impressão de paraíso. (p. 28)

(11) Os baianos têm tudo para se orgulhar da Costa do Dendê. O Arquipélago de Tinharé, por exemplo, reúne 36 ilhas paradisíacas. (p. 36)

(12) A partir de Jeri, pode-se visitar várias outras praias nas redondezas. O que não falta são lugares paradisíacos para o turista desfrutar. (p. 41)

(13) As cidades de João Pessoa, capital da Paraíba, Conde e Cabedelo são bem próximas e oferecem opções que vão das belas e paradisíacas praias até igrejas, casarios e monumentos históricos típicos do início da colonização brasileira. (p. 46)

(14) As cidades de Miranda, Corumbá e Bonito são os portais de dois dos mais espetaculares paraísos ecológicos: o Pantanal Sul-Matogrossense e as águas cristalinas de Bonito. (p. 71)

(15) Três Estados [da região Sudeste] têm litoral e, portanto, ostentam ilhas e praias paradisíacas.

(16) A Costa Verde, no sul, ostenta dezenas de ilhas paradisíacas, praias, enseadas sinuosas e montanhas. [...] Situada no Médio Vale do Rio Paraíba, a Região das Agulhas Negras alia vegetação exuberante, cachoeiras e recantos paradisíacos a um imponente conjunto de formações rochosas. (p. 85)

(17) Verdadeiro paraíso ecológico, berço da civilização brasileira, a Costa do Descobrimento, na Bahia, ostenta praias maravilhosas, entrecortadas de rios, coqueirais, Mata Atlântica, manguezais e falésias. (p. 115)

Se o Brasil é, como aponta a epígrafe de Chauí mais acima, uma invenção histórica, uma construção cultural, é preciso perguntar-se de que maneira esse processo se dá/deu. Assumiremos aqui que esse motivo edênico tem, ainda hoje, ecos na construção de um espaço nacional "genuíno". Dito de outro modo, os temas edênicos que motivaram em parte os relatos da época do descobrimento contribuíram para que se cristalizasse - para usar o mesmo termo de Holanda ([1959]2010) - uma certa imagem do Brasil. E é o modo de circulação de tal cristalização que será objeto das análises mais adiante.

 

As bases teóricas: pré-construído, discurso transverso e estereótipo

Se considerarmos que os estereótipos são "representações cristalizadas, esquemas culturais preexistentes através dos quais cada um filtra a realidade a seu redor" (Lippmann apud Amossy & Pierrot 2005:31-32), então é um estereótipo do espaço nacional que vemos desenhar-se. Será preciso perguntar-se, a partir do quadro teórico da Análise de Discurso francesa, como este estereótipo é retomado, negado, posto a circular nos discursos de que faz parte.

Historicamente, a noção de estereótipo sempre gozou de um estatuto ambíguo: ora tomada como uma construção redutora e nociva, ora como um ponto de ancoragem para a relação do sujeito com o real. Frequentemente, os estudos ligados a tal noção são feitos tendo como objeto grupos e indivíduos (os brasileiros, os negros, os pobres, os latinos, os nordestinos, as mulheres etc.); não será essa a abordagem aqui. Trata-se, como já dito, de analisar os usos, a circulação de um estereótipo do espaço nacional brasileiro, mais especificamente, o "Brasil-paraíso" (Chauí 2006).

Uma concepção pioneira de estereótipos nas ciências sociais data da década de 1920, segundo Amossy & Pierrot (2005:31). A obra Opinião pública, de Lippmann apresenta os estereótipos como imagens indispensáveis para a vida em sociedade, pois permitiriam aos sujeitos categorizarem o real, atuando sobre ele: "¿Cómo examinar cada ser, cada objeto en su especificidad propia y en detalle sin vincularlo a un tipo o a una generalidad?" (Lippmann apud Amossy & Pierrot 2005:32). Seriam, assim, uma espécie de imagem fictícia, mas não por serem mentirosas: tais imagens expressariam um imaginário social (Lippmann apud Amossy & Pierrot 2005:32). Assim, ainda que sejam por vezes excessivamente redutoras, tais imagens são apreendidas a partir daquilo que as torna produtivas: seu caráter de previsibilidade.

Aqueles que compartilham dessa posição veem nos estereótipos uma importância cognitiva, otimizando o processamento de novos dados, de novas informações (Newman 1975). As questões referentes ao processamento cognitivo são certamente pouco relevantes para a Análise do Discurso francesa - o que talvez tenha feito com que durante muito tempo os analistas se interessassem pouco pelo estudo dos estereótipos (Amossy & Pierrot 2005:112). O que não significa, porém, que sejam os estereótipos desinteressantes ou mesmo incompatíveis com os pressupostos da AD.

Ao contrário, respeitada a variedade de correntes no interior da escola francesa de Análise do Discurso, é possível apontar um conjunto de pressupostos teórico-metodológicos comuns que tornam o estudo dos estereótipos um terreno profícuo (Amossy & Pierrot 2005). Para Amossy & Pierrot (2005), especialmente se se levarem em conta as noções de sujeito e de sentido para a disciplina, os estereótipos podem representar um interessante campo de estudos para os analistas, já que, para a AD,

el sentido de las palabras no es independiente de los contextos en las que están insertas (contextos sinctáticos, enunciativos, genéricos, géneros como la noticia policial, la conferencia, la editorial, etc.) ni del lugar de los locutores en el campo sociohistórico e institucional. (Amossy & Pierrot 2005:112).

De nossa parte, assumiremos, na esteira de Lippmann, os estereótipos como sendo, em boa medida, necessários, sem, no entanto, considerar a questão da categorização do mundo que envolve o sujeito. Nesse sentido, Amossy & Pierrot apontam que, no quadro da AD francesa, os estereótipos poderiam ser estudados por meio da noção de pré-construído incorporada por Pêcheux ([1975]1997) a partir dos estudos de Henry: "la noción de preconstruido [...] constituye un aporte teórico importante, que tal vez haya sido insuficientemente utilizado en el estudio de los estereotipos" (Amossy & Pierrot 2005:112). As análises que apresentaremos são, em boa medida, uma maneira de testar a produtividade desse conceito no estudo dos estereótipos.

A noção de pré-construído, proposta por Henry para "designar o que remete a uma construção anterior, exterior, mas sempre independente, em oposição ao que é 'construído' pelo enunciado" (apud Pêcheux [1975]1997:99), é, grosso modo, uma reformulação da pressuposição - gestada no seio de teorias semânticas por autores como Frege ou Ducrot - consideradas aí as questões referentes ao sentido e ao sujeito a partir de um fenômeno ligado ao encaixe sintático (Pêcheux [1975]1997:99).

A noção permite, assim, postular "que há separação, distância ou discrepância na frase entre o que é pensado antes, em outro lugar ou independentemente, e o que está contido na afirmação global da frase" (Pêcheux [1975]1997, p. 99; grifos no original). No caso em tela, assumiremos a imagem do "Brasil-paraíso" como um pré-construído: trata-se de uma construção histórica que data, como visto, do período do descobrimento.

Encontra-se, assim, o pré-construído, intimamente relacionado ao interdiscurso, na medida em que permite relativizar a "oposição entre o exterior e o interior de uma formação discursiva, em benefício da noção de imbricação entre discursos e de relações com outras formações discursivas exteriores e anteriores - que entram no discurso de um sujeito" (Charaudeau & Maingueneau 2004: 401):

a interpelação do indivíduo em sujeito de seu discurso se efetua pela identificação (do sujeito) com a formação discursiva que o domina (isto é, na qual ele é constituído como sujeito): essa identificação, fundadora da unidade (imaginária) do sujeito, apoia-se no fato de que os elementos do interdiscurso (sob sua dupla forma, descrita [...] enquanto "pré-construído" e "processo de sustentação") que constituem, no discurso do sujeito, os traços daquilo que o determina, são re-inscritos no discurso do próprio sujeito. (Pêcheux [1975]1997:163; grifamos).

Mais adiante, o autor irá afirmar que o interdiscurso enquanto pré-construído "fornece, por assim dizer, a matéria-prima na qual o sujeito se constitui como 'sujeito falante', com a formação discursiva que o assujeita" (Pêcheux [1975]1997:167). Tais elementos são, ainda segundo o autor, "atravessados" e postos em "conexão" entre si por meio do discurso-transverso, que se encontra profundamente ligado ao que Pêcheux chama "articulação" ou "efeito de sustentação":

Diremos, então, que o "pré-construído" corresponde ao "sempre-já-aí" da interpelação ideológica que fornece-impõe a "realidade" e seu "sentido" sob a forma da universalidade (o "mundo das coisas"), ao passo que a "articulação" constitui o sujeito em sua relação com o sentido, de modo que ela representa, no interdiscurso, aquilo que determina a dominação da forma-sujeito. (Pêcheux [1975]1997:164; grifos no original).

No fio do discurso do sujeito (intradiscurso) é que o discurso-transverso é linearizado ou sintagmatizado por meio da articulação (ou processo de sustentação); é, pois, nesse sentido que se pode dizer, juntamente com Pêcheux ([1975]1997:167), que "o intradiscurso, enquanto 'fio do discurso' do sujeito, é, a rigor, um efeito do interdiscurso sobre si mesmo, uma 'interioridade' inteiramente determinada como tal do 'exterior'".

Com base no quadro acima exposto, Amossy & Pierrot (2005:113) consideram que a noção de estereótipo encontra-se duplamente relacionada ao pré-construído: em primeiro lugar, no sentido de que designa um tipo de construção sintática que põe em cena algo afirmado antes, independentemente; e, em segundo lugar, no sentido mais amplo de que o pré-construído seria uma espécie de "rastro" no enunciado individual, de discursos e juízos prévios cuja origem enunciativa foi esquecida.

É, pois, a partir dessa proposição que serão analisados os dados do corpus recortado.

 

"Muito mais que sol e praia": estereótipo e deslocamento

Em 2009, o Ministério do Turismo lançou um material intitulado Roteiros do Brasil: 87 belos motivos para viajar pelo Brasil - que faz parte do Programa de Regionalização do Turismo, lançado em 2004 - e o distribuiu gratuitamente para agências e operadores de turismo e também em alguns eventos (não necessariamente associados a turismo). Os objetivos do programa são "estruturar, diversificar e qualificar a oferta turística brasileira, efetivar a inserção competitiva do produto turístico no mercado internacional e aumentar seu consumo" (BRASIL 2009:4). Ou seja, o material de onde extraíram-se os textos analisados integra uma proposta que vai além do mercado nacional.

As 87 sugestões de roteiros turísticos pelo Brasil são separadas por região (Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul) e, em sua maioria, por Estados - há alguns poucos roteiros "integrados", isto é, que abrangem mais de um Estado. Cada roteiro corresponde a uma página do material, que apresenta, dentre outros elementos, um mapa com o itinerário, suas principais informações, ícones no topo da página dos principais atrativos (a saber: artesanato, bares, culinária, casario, compras, praias, fauna, flora, folclore, igrejas, passeios e pesca) e uma seção denominada "imperdível", que destaca um ou outro ponto de cada roteiro. Além disso, todos os roteiros têm (pelo menos) uma foto de algum de seus pontos.

Há dois aspectos que, num primeiro contato com o encarte, se destacaram: i) quase todos (98,8%) os roteiros têm mais de três dos "ícones de atrativos" no topo da página (o que sugere uma certa "diversidade"); ii) quase a metade dos roteiros (44,8%) não tem entre os ícones os de fauna e flora3 - profundamente ligados ao estereótipo do espaço nacional cristalizado na imagem de "Brasil-paraíso". Uma leitura mais atenta mostraria, posteriormente, que aquilo que era representado iconicamente materializava-se também em determinadas construções linguísticas.

Tomemos para análise o texto que segue, extraído de roteiro no Espírito Santo (Rota do mar e das montanhas):

(18) Que tal aproveitar o clima quente das praias e, a apenas 40 minutos dali, desfrutar o clima frio das montanhas? É a principal característica desse roteiro singular. A viagem pode começar pelas belas praias de Vitória e Vila Velha ou com um passeio de escuna pela Baía de Vitória, tendo, no alto, o Convento da Penha. É a oportunidade, também, de saborear a tradicional moqueca capixaba, feita na panela de barro.

No município de Serra, suas praias bucólicas convidam a um simples banho de mar ou à prática do surf, além de oferecer diversas manifestações folclóricas e culturais, como a Festa de São Benedito. Seguindo viagem, em direção às montanhas, a primeira atração é Domingos Martins. A influência dos colonizadores alemães e italianos deu o tom no local, particularmente na culinária e na arquitetura. O Parque Estadual Pedra Azul é referência da região, com trilhas e piscinas naturais. Ainda na cidade, vários eventos merecem atenção, como o Encontro Internacional dos Amigos do Vinho e o Festival Internacional de Inverno.

O agroturismo capixaba também é referência nacional. Em Venda Nova do Imigrante, é impossível resistir aos pratos típicos e deixar de degustar o socol, salame feito de lombo de porco. Vale a pena passear pelas propriedades rurais, que oferecem grande variedade de produtos e permitem conhecer o processo de produção dos alimentos e o dia-a-dia da vida no campo. (BRASIL, 2009:79; grifamos)

O primeiro parágrafo do texto que apresenta o roteiro em questão parte - como ocorre na grande maioria dos roteiros - de uma referência aos elementos "naturais" dos locais (as praias, as montanhas, o clima). Ao final desse mesmo parágrafo já se observa a inclusão de outro atrativo: a gastronomia. Na sequência do texto, novamente as praias são o ponto de partida, mas logo depois ganham destaque atrativos culturais: festas populares, a arquitetura de influência europeia e, mais uma vez, a gastronomia. No parágrafo final do texto, a menção ao agroturismo do local: embora a modalidade seja descrita como "referência nacional", o Espírito Santo não tem sua imagem fortemente vinculada a esse tipo de turismo (como é o caso de outros lugares, como o Mato Grosso ou Mato Grosso do Sul, por exemplo).

Mas o que cumpre destacar aqui é que o entorno dos "acréscimos" feitos aos destaques comumente associados ao "Brasil-paraíso" revela a presença de determinadas estruturas linguísticas que grifamos no excerto: também e além de. Ou seja, esse tipo de estrutura parece incluir os traços que não estão associados à imagem cristalizada do local que, em geral, retoma metonimicamente a cristalização do espaço "típico" brasileiro: a natureza, o paraíso.

Isso também pode ser observado quando se tomam roteiros no Brasil que são (re)conhecidos como exceção a esse estereótipo. O roteiro no Centro-Oeste que combina Brasília, Bonito e o Pantanal, permite observar o funcionamento desse tipo de construção quando a imagem cristalizada do local não é a de "paraíso natural", como é o caso de Brasília:

(19) Brasília tem como principal atração seu traçado urbanístico e sua inconfundível arquitetura modernista, povoada de obras de artistas renomados. Mas os encantos da cidade não param por aí. Brasília é também privilegiada por sua natureza exuberante, que proporciona aos moradores e visitantes o prazer de desfrutar atrativos do Bioma Cerrado, considerado, em biodiversidade, a savana tropical mais rica do mundo. (BRASIL 2009:65; grifamos)

Note-se que à imagem consolidada de destino urbano é agregado o lado "natural", da riqueza do cerrado; lado esse que não é prontamente associado a Brasília enquanto destino turístico. A adversativa introduzida pelo "mas" admite a seguinte paráfrase: para além dos conhecidos atrativos de Brasília, há ainda outros. E novamente encontra-se o advérbio também no entorno do atrativo "inesperado", isto é, não comumente vinculado ao local apresentado.

O uso de estruturas como as destacadas acima para agregar/incluir novos traços a um estereótipo do Brasil no que se refere ao seu espaço é recorrente ao longo de todo o encarte. Seguem abaixo alguns excertos:

(20) O Brasil é um país de superlativos. Estima-se que seu litoral ostente mais de 1.500 praias. Só isso bastaria para fazer dele um destino turístico inevitável. Acontece que o território brasileiro tem também o rio mais caudaloso da Terra, o Amazonas, e a maior floresta tropical do planeta, a Amazônia. Realiza o maior carnaval do mundo. São Paulo é simplesmente a terceira maior cidade do globo. Ainda que não reunisse tantos superlativos, o Brasil encantaria qualquer visitante, graças, principalmente, à sua diversidade - em todos os aspectos: clima, fauna, flora, relevo, história, arte, gastronomia. Sem contar, claro, o povo brasileiro. [...] O Brasil fascina por sua beleza natural. Da mesma forma que as marcas históricas deleitam o turista [...]. (BRASIL 2009:6; grifamos).

(21) A selva, por si só, já vale a visita. Mas o folclore indígena também seduz. (BRASIL 2009:15; grifamos).

(22) Oferece passeios, com condutores locais em canoas, lagos e trilhas para observação da fauna amazônica [...], além da oportunidade de conhecer o trabalho de um projeto de conservação pioneiro no Brasil. (BRASIL, 2009:19; grifamos)

(23) A Ilha de Marajó guarda verdadeiros tesouros turísticos. Danças típicas, assim como a cerâmica e a culinária marajoaras, ajudam a enriquecer o cenário paradisíaco. (BRASIL 2009:23; grifamos)

(24) Rico tanto em paisagens naturais quanto em construções humanas, o roteiro Serras do Lago [Tocantins] encanta o turista. A arquitetura de Palmas, cidade planejada, dá o tom moderno e arrojado. Ao mesmo tempo, a capital tocantinense é rodeada de natureza exuberante. (BRASIL 2009:28; grifamos)

(25) Alagoas é muito mais que sol e praia. São rios, mangues, lagoas e o majestoso Rio São Francisco. [...] a história se confunde com a aventura. (BRASIL 2009:32; grifamos)

(26) Mas se engana quem pensa que o roteiro [Circuito das águas paulista] se resume a "sombra e água fresca". Em todo o itinerário é possível praticar 22 modalidades de esportes de aventura; aprender mais história do Brasil nas fazendas que abrigaram sinhás e escravos; ordenhar vacas; acompanhar a produção artesanal de queijos, vinhos e cachaças; e, claro, beber muita água mineral direto da fonte. (BRASIL 2009:87; grifamos)

Os dados acima são exemplos das estruturas sintáticas diversas encontradas ao longo de todo o encarte. Como se pode verificar, há adjuntos adverbiais, orações reduzidas, conjunções etc. - consideradas aí as categorias da gramática tradicional. É possível identificar, contudo, na variedade dos recortes acima, uma certa "convergência", uma vez que é possível parafraseá-los, em geral, por meio de estruturas inclusivas - i.e., estruturas cuja carga semântica é considerada, em geral, como sendo de soma.

Além dessas estruturas propriamente ditas presentes no corpus analisado aqui, é mais geralmente a diversidade de expressões de tal inclusão que legitimam os traços do espaço nacional. Os verbos "completar", "reunir" "combinar", "somar", "complementar", "encontrar-se (com)", "incluir" e "conjugar" participam dessa expressão, como podemos observar nos exemplos abaixo:

(27) O Tocantins reúne no mesmo espaço as maiores expressões da beleza natural da fauna e da flora brasileiras. (BRASIL 2009:27; grifamos)

(28) A Região Sul reúne a exuberância da geografia brasileira com a influência da imigração europeia. (BRASIL 2009:93; grifamos)

(29) Rios, cachoeiras, matas virgens, restingas e manguezais completam o estonteante cenário natural, que convida à prática de rapel, rafting, passeios de canoa, caminhadas, trilhas ecológicas e surf. (BRASIL 2009:36; grifamos)

(30) [...] o percurso de buggy por praias e vilarejos de pescadores até Mangue Seco, no município de Jandaíra, com direito a descida de sand board nas dunas, completam o roteiro com história e natureza na dose certa. (BRASIL 2009:38; grifamos)

(31) A capital cearense combina qualidades de cidade colonizada pelos europeus e forte influência indígena. (BRASIL 2009:42; grifamos)

(32) A região do Seridó oferece passeios que combinam história e aventura em meio à natureza. (BRASIL 2009:57; grifamos)

(33) A esse patrimônio natural somam-se monumentos históricos, a culinária à base de frutos do mar, artesanato, trabalhos dos artistas plásticos residentes no arquipélago, histórias e crenças dos nativos, além de eventos religiosos e esportivos. (BRASIL 2009:49; grifamos)

(34) Esse espetáculo da arquitetura [centro histórico de Olinda] soma-se à beleza da natureza tropical. (BRASIL 2009:50; grifamos)

(35) Enfim, pré-história e história se encontram nesse passeio encantador. (BRASIL 2009:81; grifamos)

(36) A Serra Verde Imperial, que compreende as cidades de Petrópolis, Itaipava, Nova Friburgo e Teresópolis, conjuga a beleza de sua vegetação e de suas escarpas com o charme de sua gastronomia requintada, seus atrativos histórico-culturais e as oportunidades de compras. (BRASIL 2009:84; grifamos)

(37) Na ilha [de Florianópolis], de colonização açoriana, vive-se tanto sua história quanto a beleza de suas praias e da Lagoa da Conceição. O roteiro inclui os encantos da Serra Catarinense, repleta de montanhas, cânions e quedas d'água. (BRASIL 2009:102; grifamos)

(38) O projeto Economia da Experiência - Costa do Descobrimento é uma proposta inovadora no turismo nacional. Proporciona momentos de grande envolvimento para os turistas, graças a uma abordagem histórico-cultural que inclui ainda sol e praia. (BRASIL 2009:115; grifamos)

(39) Conhecer este patrimônio ecológico [o Pantanal sul-matogrossense] é uma experiência imperdível que, complementada pela visita ao paraíso das águas cristalinas - Bonito - faz desse passeio um momento inesquecível. (BRASIL 2009:72; grifamos)

No caso em tela, dissemos mais acima que o que fazia os enunciados recortados do encarte do Ministério do Turismo convergirem era uma paráfrase por meio do uso de "estruturas inclusivas". O que chamamos aqui, genericamente e sem maiores explicações até o momento, de estruturas inclusivas são determinadas estruturas que, assumidas as categorias da gramática normativa, são classificadas como conjunções aditivas. Assim, aqueles recortes podem ser retomados agora, reformulando-os como segue. O Brasil, representado pelos roteiros, é:

(20') não só praias mas também rios, florestas, história, arte, gastronomia, hospitalidade.

(21') não só florestas mas também folclore.

(22') não só contemplação da natureza mas também ciência.

(23') não só dança mas também arte e gastronomia.

(24') não só belezas naturais mas também construções de arquitetura moderna.

(25') não só praia e calor mas também história, aventura e outras belezas naturais.

(26') não só sombra e água fresca mas também esportes, história, vida no campo.

(28') não só exuberância da geografia mas também rica influência europeia.

(33') não só patrimônio natural mas também monumentos históricos.

A opção pela paráfrase com a estrutura "não só... mas também" decorre, em primeiro lugar, do fato de que as construções presentes no material analisado permitem observar uma espécie de "movimento" entre o que é cristalizado (o estereótipo, portanto) e algo "novo". É, contudo, necessário dizer que não parecia adequada uma relação de equivalência entre construções como (25) "Alagoas é muito mais que sol e praia" e "Alagoas é sol, praia, rios, mangues e história". Apesar de haver no corpus construções com a conjunção "e", há algumas razões para que não se realizasse a paráfrase geral a partir dela. Em primeiro lugar, como bem observa Guimarães (1987:123), a conjunção "e" é, no português brasileiro, "muito frequente, independente do registro e do tipo de discurso". Além disso, mesmo quando tal conjunção aparece nos recortes, sua interpretação envolve determinadas relações interdiscursivas que, conforme se buscará mostrar mais adiante "exigem"/"impõem" uma leitura que ultrapassa os limites de uma mera adição.

A respeito da estrutura das paráfrases (20' a 26', 28', 33'), "não só... mas também", Negrão et al. (2002) observam que se trata de uma estrutura de inclusão que poderia ser parafraseada por meio da utilização de conjunções coordenativas aditivas (como no par: Fomos não só à praia mas também ao museu/ Fomos na praia e no museu). Negrão et al. (2002) não estão sozinhos nessa classificação, como aponta Guimarães (1987:123; grifos no original): "esta conjunção, quando referida nas gramáticas do Português, vem classificada como coordenativa aditiva, junto da conjunção e". No entanto, tomados os operadores argumentativos (propostos por Ducrot), que abrangem diversas categorias da gramática tradicional, uma vez que são encarados do ponto de vista da conclusão para a qual os enunciados apontam, poder-se-ia dizer que se trata de operadores cuja função é somar argumentos em favor de uma mesma conclusão, conforme classificação proposta por Koch (1998). Guimarães (1987), porém, opta por um caminho distinto: para ele, "não só... mas também" tem características bastante peculiares que não lhe permitem integrar o grupo dos operadores que somam argumentos em direção a uma mesma conclusão - ao menos não sem algumas ressalvas:

Sabemos [...] que não só... mas (também) é um operador cuja frequência não é muito grande e cujo uso parece se dar em textos de registro mais formal, ou com forte caracterização argumentativa. Nisto também ela [verificar concordância no original] diferiria da conjunção e, muito frequente, independente do registro e do tipo de discurso. (Guimarães 1987:123).

A hipótese de Vogt (1977) - a partir da qual se constrói a proposta de Guimarães (1987) - é que "não só ... mas também" e "e" não pertencem ao mesmo enquadre argumentativo. Para ele,

quando um locutor diz "não só p mas q" ele procede como se pressupusesse no seu interlocutor a intenção de acrescentar, como é próprio deste operador, um caráter de exclusividade; não só é a marca desta ausência. A recusa do locutor encontra, enfim, a sua razão argumentativa no fato de q ser apresentado como um argumento de igual força que p, isto é, como um argumento que, por ser igual, opõe-se de certa forma a p: mas também q". (Vogt apud Guimarães, 1987:125).

Em outras palavras, Vogt defende que, ao utilizar o operador "não só... mas também", o locutor reconhece a intenção argumentativa de seu interlocutor - aquela de apresentar um argumento como sendo "definitivo" ou mais forte - e, em certa medida, recusa-se a entrar nesse mesmo "jogo", para usar a metáfora de Ducrot, acrescentando a este argumento um outro que ele julga tão relevante/forte quanto aquele de seu interlocutor. É com base na hipótese de Vogt que Guimarães (1987:125) explica a intenção argumentativa na enunciação de uma sentença como "Não só Pedro veio mas também João veio"; é como se o locutor dissesse:

Você pretende que Pedro veio é o argumento mais forte para [a conclusão] r. Não é isso, pois não só Pedro mas também João veio. Ou seja, João veio é argumento de igual força que Pedro veio para r. (grifos no original).

Na esteira das análises de Vogt, Guimarães afirma que há uma diferença fundamental em termos de funcionamento de uma e outra:

o funcionamento do e exige condições diversas das que exige o funcionamento de não só...mas (também). [...] o não só...mas (também) tem nas suas regularidades um lugar próprio para a perspectiva do outro. Já as enunciações com e precisam de outros elementos para relacionar-se com esta outra perspectiva, já que as enunciações com e não representam, necessariamente, um lugar para esta duplicidade de perspectivas. (Guimarães 1987:129).

Em outras palavras, "a significação dos recortes enunciativos com não só...mas (também) é polifônica, ao contrário das enunciações com e" (Guimarães 1987:129) e "isto quer dizer que usar não só X mas (também) Y é lançar mão de uma construção linguística que tem a polifonia como constitutiva da significação de sua enunciação" (Guimarães 1987:137).

As observações de Guimarães acerca desse tipo de operador suscitam uma outra questão. O desdobramento do enunciado proposto pelo autor aponta que o locutor "lê" o enunciado do seu interlocutor como contendo o "só" que, por meio da estrutura em pauta, é negado. Assim, é como se para o locutor E1 tivesse dito algo como "isso é tudo o que há para dizer sobre isso" ou "essa é a única razão para a conclusão r", ao que E2 "acrescenta" outro argumento. É o que se pode observar na estrutura adversativa presente em (19): "Mas os encantos da cidade não param por aí"; ou seja, o locutor "antecipa" um possível enunciado de seu interlocutor (do tipo, "em Brasília só há turismo urbano") e o nega.

A vantagem da distinção proposta por Guimarães (1987) em relação a outras classificações está, a nosso ver, em reconhecer as particularidades de uma estrutura frequentemente apresentada ao lado do "e". Há que se dizer, contudo, que, ainda que defenda "que o sentido não é o resultado do alcance de uma forma linguística, mas é o resultado histórico das enunciações em que esteve envolvida" (Guimarães 1987:141), o autor não deixa de ver nos empregos do operador "não só... mas também" um funcionamento aditivo, posto que, da mesma forma que o "e", ele acrescentaria "algo ao que se disse antes, estabelecendo uma equivalência entre os elementos articulados" (Guimarães 1987:147). Como bem observa Krieg-Planque (2010), estudos como esse (sejam eles de natureza retórica, lógica, argumentativa etc.) tendem a centrar a atenção sobre os marcadores - mesmo que se considere, como é o caso de Guimarães (1987), algum "exterior".

No quadro da Análise do Discurso francesa, Mussalim (2003) argumenta - analisando a semântica discursiva do movimento modernista brasileiro - que, no interdiscurso, as relações dialógicas que se estabelecem podem nos levar a ler os enunciados acima num "enquadre" distinto daquele da inclusão. Ou seja, não bastaria, de fato, descrever tais estruturas da língua, mas assumi-las como materializações das relações mantidas no interdiscurso. Nesse sentido, o corpus analisado por Mussalim contém estruturas "inclusivas"4 do tipo "não só... mas também" que não têm, muitas vezes, um efeito de sentido de inclusão, mas de concessão. Exemplificando esse tipo de funcionamento, a autora destaca um enunciado de Mário de Andrade, em que o poeta diz: "Isso é muito importante: sentir e viver o Brasil não só na sua realidade física mas na sua emotividade histórica também". Contrastando duas paráfrases "possíveis", uma num nível estritamente estrutural e outra numa perspectiva discursiva,

 

 

Mussalim aponta para a impossibilidade de uma leitura inclusiva dado que

representar o Brasil na sua realidade física não é um dos objetivos que simplesmente se soma ao objetivo central da proposta modernista, que, inserida em um espaço discursivo de ruptura, busca a construção da nacionalidade por meio de um processo de contra-aculturação realizado através da subjetividade do artista. (MUSSALIM, 2003:143).

Em outras palavras, a leitura não é de aliança entre as duas posições implicadas no enunciado - o academicismo naturalista e o modernismo - a respeito do modo de conceber a construção da realidade nacional, mas de "superação" do discurso modernista frente à arte acadêmica cujo efeito de sentido

é de concessão: o discurso modernista faz concessões à posição do discurso acadêmico, assumindo que, em certa medida, os modernistas também realizam uma "cópia fiel" da realidade nacional, mesmo que esta seja uma prática fortemente combatida pelo movimento (na verdade, é justamente por este motivo que se trata de uma concessão!). (Mussalim 2003:144).

As análises de Mussalim (2003) colocam em evidência um dos pressupostos mais caros da escola francesa de Análise de Discurso, a saber: aquele de que há uma relação entre os discursos e as estruturas linguísticas que os materializam (Pêcheux [1975]1997), ainda que essa relação não seja, como aponta Possenti (2002), biunívoca - i.e, uma mesma estrutura não materializa sempre um determinado discurso e vice-versa. Além disso, mostram também que as paráfrases - cuja importância é largamente conhecida para a AD (cf.: Pêcheux & Fuchs, [1975]1997) - são fruto das relações que historicamente constituem os discursos e que, como aponta Guimarães (1987), esse tipo de estrutura abre espaço para o dizer de um "outro" - ainda que a autora não faça menção aos estudos de Guimarães. E é precisamente este o ponto que permitirá avançar a respeito do funcionamento dos discursos que põem a circular o estereótipo do espaço "tipicamente" brasileiro, aquele do "Brasil-paraíso".

Assumindo, então, que as estruturas linguísticas dão suporte às relações existentes entre os discursos no interdiscurso, será preciso retomar algumas das questões envolvidas no processo de construção/legitimação de um espaço brasileiro "por excelência".

Como visto, Holanda ([1959]2010) aponta que uma certa imagem do Brasil se cristalizou desde o período do descobrimento, a saber: a do paraíso terreal. Tal cristalização tem seus ecos até os dias de hoje, como fica evidente nas remissões às paisagens paradisíacas do Brasil nos recortes de roteiros turísticos (excertos de 9 a 17). Considerando tal cristalização como pré-construído, passaremos a descrever o seu modo de circulação nos discursos do campo do turismo, apoiando-nos, para tanto, na forma de linearização desse pré-construído (discurso transverso).

Pêcheux ([1983]2007:52) sugere que a questão dos estereótipos poderia estar relacionada à repetição sobre a qual se daria "a formação de um efeito de série pelo qual uma 'regularização' [...] se iniciaria, e seria nessa própria regularização que residiriam os implícitos, sob a forma de remissões, de retomadas e de efeitos de paráfrase". E neste ponto, para ou autor, reside a importância da noção de memória discursiva que - diferentemente de uma concepção psicológica -, seria aquilo que,

face a um texto que surge como acontecimento a ler, vem restabelecer os "implícitos" (quer dizer, mais tecnicamente, os pré-construídos, elementos citados e relatados, discursos transversos etc.) de que sua leitura necessita: a condição do legível em relação ao próprio legível. (Pêcheux [1983]2007:52)

Este é, portanto, o estatuto do pré-construído e dos discursos transversos: trata-se do que se chama, de maneira geral, de implícitos. Por serem, assim, uma espécie de "presença ausente", Pêcheux ([1983]2007:52) destaca que, para a Análise de Discurso, uma questão crucial seria saber "onde residem esses famosos implícitos, que estão 'ausentes por sua presença' na leitura da sequência".

Nas análises aqui realizadas, a paráfrase por meio da estrutura "não só... mas também" parece indicar o local da cristalização ou, nos termos de Achard, da "regularização". A estrutura "não só... mas também" permite pela polifonia que lhe seria característica (Guimarães 1987), marcar linguisticamente o lugar de "inscrição" de tal cristalização ou estereótipo do Brasil no tocante ao seu espaço. Mais que isso, tal estrutura permite também o deslocamento que, pela força do acontecimento discursivo, vem fazer ruir a regularização e "perturbar a memória" (Pêcheux [1983]2007:52). Nesse sentido:

haveria [...] sempre um jogo de força na memória, sob o choque do acontecimento:

- um jogo de força que visa manter uma regularização pré-existente com os implícitos que ela veicula, confortá-la como "boa forma", estabilização parafrástica negociando a integração do acontecimento, até absorvê-lo e eventualmente dissolvê-lo;

- mas também, ao contrário, o jogo de força de uma "desregulação" que vem perturbar a rede dos "implícitos". (Pêcheux [1983]2007:53).

Esse quadro permite, portanto, assumir os estereótipos não como algo "engessante" ou redutor, mas como uma regularização, efeito de retomadas, paráfrases e repetições que levam ao "esquecimento" da origem enunciativa, fazendo dos estereótipos um elemento do interdiscurso cuja entrada no fio do discurso deixa suas marcas, ou seja, os efeitos da articulação dessas cristalizações e do seu deslocamento são detectáveis linguisticamente.

Se assumirmos, então, os estereótipos como pré-construídos, como querem Amossy & Pierrot (2005) e, de certa forma, Pêcheux ([1983]2007), podemos verificar a forma como eles são "linearizados" no fio do discurso enquanto discurso transverso. No caso dos recortes apresentados, a leitura de tal estrutura não pode ser feita como mera adição, caso em que novos "traços" de um espaço nacional são incluídos aos já conhecidos. Trata-se, na verdade, de um movimento discursivo que desloca a imagem cristalizada do espaço nacional para um outro "elemento". O tema recorrente de "diversidade", da "pluralidade", do caráter "superlativo" do país - retomado em outros espaços (economia, antropologia e cultura, para ficar em poucos exemplos) - surge também no que diz respeito à construção/legitimação do espaço brasileiro "por excelência". Nesse sentido, a paráfrase das estruturas acima é algo como: "embora o Brasil seja pródigo em belezas naturais, não é apenas isso que o país oferece (ao turista, no caso)" ou ainda "mesmo que tenha diversas belezas naturais, há outros elementos a serem valorizados no país".

 

Considerações finais

Operando a partir do quadro de uma Análise do Discurso que se interessa pelas estruturas linguísticas, procuramos mostrar aqui o modo de circulação de um estereótipo - tomado como pré-construído - e seu deslocamento; esse processo deixa suas marcas no fio do discurso por meio de determinadas estruturas linguísticas que, não obstante sejam comumente apresentadas como estruturas aditivas, não podem ser assim interpretadas nos discursos analisados. As análises insistem, portanto, na questão crucial para a AD de que há uma dependência entre língua e história.

É preciso dizer ainda que, num momento em que o Brasil ganha destaque no cenário internacional, dentre outros motivos, por ser a sede dos dois maiores eventos esportivos do mundo (a Copa do Mundo e as Olimpíadas), os discursos que circulam no campo do turismo - por mais que se apoiem no estereótipo do espaço nacional - mostram, pelo efeito de sustentação do pré-construído, o deslocamento dessa imagem para um aspecto plural do país.

 

Referências bibliográficas

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Recebido em: maio de 2013
Aprovado em: setembro de 2013

 

 

E-mails: vilela-ardenghi@ibest.com.br; anaraquelms@gmail.com
1. Segundo relata Holanda ([1959]2010:28), em texto de Pinelo, impresso pela primeira vez em 1663, "nos sete últimos parágrafos vinha explanada a teoria de que estava na America o Paraíso, e mais precisamente no Brasil. Já se achavam prontos dez exemplares da obra quando veio ordem superior para se riscarem aqueles parágrafos". A ordem superior, bem entendido, vinha da Igreja Católica. Vê-se, assim, que já havia na época uma necessidade de localizar efetivamente na Terra o Paraíso. Além disso, Holanda ([1959]2010) aponta também que as indicações para que se pudesse encontrar geograficamente o paraíso eram extraídas da Bíblia.
2. As passagens do Gênesis dão conta de elementos como o clima, a localização (por meio de elementos como rios), os "residentes". Uma delas que é inclusive recortada para comparações de Holanda está em Gênesis, 2: 10: "E saía um rio do Éden para regar o jardim; e dali se dividia e se tornava em quatro braços". Holanda ([1959]2010:118-119), acerca dessa questão, observa: "Não é bem um eco desse pensamento, agora convertido em visão premonitória e futurista, o que ressoa já no século XIX nas palavras de Hipólito da Costa, quando coloca a capital imaginada do Brasil naquelas mágicas paragens, onde encontra ainda um sítio singularmente privilegiado a que não faltam sequer as velhas sugestões edênicas? Lá aparecem os homens a encaminhar-se para um 'país do interior central e imediato à cabeceira dos grandes rios'".
3. Mais precisamente: 34 roteiros (39%) não têm nenhum dos ícones (fauna e flora); 4 roteiros (4,6%) não têm somente o ícone correspondente à fauna; 1 roteiro apenas (1,1%) não tem somente o ícone correspondente à flora.
4. Aqui colocamos o termo entre aspas porque, como mostram as análises, não é sempre nesse enquadre que tais estruturas devem ser lidas.

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