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DELTA: Documentação de Estudos em Lingüística Teórica e Aplicada

Print version ISSN 0102-4450On-line version ISSN 1678-460X

DELTA vol.31 no.2 São Paulo July/Dec. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/0102-445084549183239327 

ARTIGOS

Teletandem e episódios relacionados a cultura

Teletandem and culture-related episodes

João Antonio TELLES1 

Maisa de Alcântara ZAKIR1 

Ludmila Belotti Andreu FUNO1 

1UNESP. E-mails: maisazakir@gmail.com, lbandreu@hotmail.com, tellesjoao@uol.com.br

RESUMO

Teletandem é um contexto telecolaborativo de aprendizagem que envolve dois falantes nativos (ou competentes) de diferentes línguas. Utilizando o Skype, cada participante faz papel de aluno por meia hora, falando e praticando a língua do seu parceiro. Este artigo enfoca a interação em teletandem entre dois estudantes universitários - uma brasileira e um estadunidense. Na primeira parte, sustentamos nossa pressuposição de que os participantes do teletandem compartilham informações acerca das respectivas culturas. Na segunda, apresentamos cinco dimensões do conceito de cultura, definimos aprendizagem cultural e propomos uma unidade de análise para interpretação dos dados - o episódio relacionado a cultura. Por fim, sugerimos diretrizes para futuras pesquisas relacionadas à aprendizagem de línguas e culturas em contextos colaborativos on-line.

Palavras-Chave: teletandem; aprendizagem de língua; aprendizagem cultural; episódios relacionados a cultura

ABSTRACT

Teletandem is a telecollaborative learning context that involves pairs of native (or competent) speakers of different languages. Using Skype, each participant plays the role of learner for half an hour by speaking and practicing the language of his partner. This paper focuses on a teletandem interaction between two university students - one Brazilian and one American. In the first part, we sustain our proposition that the teletandem participants share information regarding the respective cultures. In the second part, we present five dimensions of the concept of culture, define cultural learning and propose a unit of analysis for interpreting the data - the culture-related episode. Finally, we suggest guidelines for further research related to the learning of languages and cultures in online collaborative contexts.

Key words: teletandem; language learning; cultural learning; culture-related episode

1. Introdução: panorama de estudos em teletandem

Os estudos em teletandem nos levam a reconhecer esse contexto de aprendizagem virtual, multimodal e colaborativo como deflagrador de (a) manifestações sobre culturas, identidades culturais e nacionais, bem como de (b) condições que possam vir a contribuir para "a educação do aprendiz para se relacionar com outros povos" (TELLES, 2011). Essas características emergem ao longo das pesquisas em teletandem, como explicaremos a seguir, em um recorte feito a partir das seis primeiras teses de doutorado defendidas no escopo dos projetos de pesquisa sobre teletandem no Brasil.

O primeiro estudo a ser focalizado é o de (KANEOYA, 2008), desenvolvido ao longo do que consideramos hoje uma fase inicial dos projetos de pesquisa e aprendizagem em teletandem. Trata-se de um estudo que buscou evidenciar como "crenças, discursos e reflexões sobre aprendizagem de línguas e sobre comunicação mediada por sistemas tecnológicos emergem e se (re) constroem" ao longo de interações de parceiras de teletandem e de sessões de mediação da aprendizagem.

No capítulo destinado às considerações finais de sua tese, (KANEOYA, 2008) pontua que as interações em teletandem proporcionaram não apenas a aprendizagem das línguas-alvo (no caso, português e espanhol), como também experiências significativas de aprendizagem cultural:

Percebemos que, por meio do enfoque cultural, houve de fato um processo de ensino/aprendizagem não apenas das línguas, mas dos valores, ideologias, costumes e diferenças conceituais, políticas, geográficas e pessoais que dão identidade aos povos enfocados, no caso, por perspectivas bastante interessantes. Tivemos, assim, a visão cultural de uma brasileira que nunca saiu de seu país e de uma mexicana que vive na Espanha e tem como referencial, ainda, os costumes do povo português, uma das razões pelas quais decidiu estudar PLE. Por esse prisma, visualizamos uma ampla perspectiva de aprendizagem e de exercício da ética e da cidadania por meio do teletandem, que ultrapassa barreiras territoriais e agrega diferentes nacionalidades, línguas e culturas, promovendo, assim, a verdadeira educação pela linguagem. (KANEOYA, 2008:235-236, grifo nosso).

O excerto em questão reconhece que a aprendizagem em teletandem tem potencial para contribuir para o desenvolvimento de uma aprendizagem cultural significativa e para a promoção da educação para interação cultural.

Em outro estudo (CAVALARI, 2009), a autora investigou (a) as características da interação via chat em teletandem, e (b) as possíveis implicações dessas características para a definição de metas de aprendizagem para a autoavaliação das interações de seus pares interagentes.

A autora cita o interesse prévio de Steve (um de seus participantes) na aprendizagem de cultura brasileira em teletandem: "Steve tinha intenção de se tornar professor universitário, praticava capoeira e tinha um grande interesse pelas questões culturais do Brasil" (CAVALARI, 2009:43, grifo nosso). A autora também aponta para a percepção de Carol (outra participante) acerca do uso da tecnologia que subsidia a interação em teletandem como sendo facilitadora de experiências que podem promover a aprendizagem cultural, por "aproximar o aluno da realidade do uso da língua alvo e da cultura dos países falantes dessa língua" (CAVALARI, 2009:194).

Em seu estudo, as considerações finais da autora ressaltam aspectos ricos da complexidade das interações em teletandem. Segunda ela, existe a necessidade de se incorporar, talvez ao longo das sessões de mediação da aprendizagem realizadas após as sessões de teletandem, pelo instrutor da língua estrangeira, instrumentos facilitadores da auto­avaliação para os interagentes. Tais instrumentos são recursos que auxiliam esses parceiros na seleção de critérios a serem relevados no processo autoavaliativo, face às metas de aprendizagem estipulada por cada um.

A tese de (VASSALLO, 2010), definida como estudo qualitativo de natureza exploratória, traz reflexões acerca das relações de poder, considerando-o como propriedade dinâmica inter-relacional, ou seja, diferente de concepções essencialistas de poder. A autora levanta três aspectos das relações de poder nas interações em teletandem, sendo eles: (a) pontos de trânsito do poder; (b) bases do poder; (c) dinâmicas de poder. Já na introdução de seu trabalho, a autora define teletandem e aponta para essa prática colaborativa e autônoma de aprendizagem de línguas como motivada por objetivos "linguísticos e culturais":

Sinteticamente, teletandem é um nome desenvolvido no contexto do projeto TTB para indicar uma forma de tandem a distância, síncrono, por microfone e webcam, com objetivos linguísticos e culturais, parcerias fixas, de breve duração, com estrutura semidirigida e atividades livres, enfocado na conversação, com possibilidade de apoio pedagógico e geralmente promovido por uma instituição. (VASSALLO, 2010:21-22, grifo nosso).

Ao longo da análise dos dados, em vários momentos a autora faz referência às percepções de seus participantes de pesquisa sobre aprendizagem em teletandem como contexto profícuo à aprendizagem de língua e de cultura, citando até mesmo a expressão "língua e cultura-alvo" (VASSALLO, 2010:222).

(GARCIA, 2010) desenvolveu uma pesquisa de natureza hermenêutico-qualitativa sobre os temas e as características de acordos e negociações que ocorrem entre parceiros de teletandem. Em linhas gerais, a análise do material documentário de (GARCIA, 2010) aponta para as seguintes observações: (a) os temas que emergem das negociações entre pares são variados, tais como disponibilidade de dias, horários e frequência para as interações, tempo e rotatividade da divisão das línguas (materna/ estrangeira) ao longo das sessões de teletandem, a escolha do aplicativo que mediará a interação virtual (skype, oovoo), confirmação ou reagendamento das sessões e formas de correção; (b) os conteúdos que caracterizam os processos de negociação em teletandem são, segundo a autora, "de ordem linguística, interacional, social, cultural e tecnológica" (GARCIA, 2010: 261). Com relação a este estudo, cabe ressaltar que autora partiu da hipótese (posteriormente confirmada) de que existiriam relações entre o (in) sucesso nos processos de negociação (antes e ao longo das sessões) entre pares interagentes de teletandem e o (in) sucesso das parcerias. Ressaltamos ainda que, no estudo de (GARCIA, 2010), há indícios de que questões culturais possam ter interferido no (in) sucesso dos acordos sobre as interações, a própria autora reconhece que (o que chama de) "ajustes culturais" são importantes para o êxito das negociações em teletandem e afirma que "é preciso ter cautela com as atitudes e palavras para que não prejudiquem a parceria, tendo-se em mente as diferenças culturais" (GARCIA 2010:161) 1 .

(FURTOSO, 2011) traz em sua tese um estudo sobre o potencial otimizador da aprendizagem que a avaliação das interações em teletandem pode ter para a aprendizagem da língua estrangeira. A autora afirma que o contexto interacional do teletandem é capaz de proporcionar a seus interagentes uma experiência de "aprendizagem dupla" (FURTOSO, 2011:218): aprende-se a língua-alvo e, concomitantemente, aprende-se sobre ensinar sua língua materna como língua estrangeira ao outro (no caso focalizado pela pesquisa em questão, PFOL). Nos encaminhamentos de seu estudo, dentre as várias reflexões que faz, (FURTOSO, 2011:223-224) cita o depoimento de uma de suas participantes de pesquisa, propondo que a prática de teletandem seja entendida como uma prática capaz de proporcionar "uma dimensão maior para a aprendizagem de LE", dentre os elementos dessa "dimensão", a participante (PB2) cita a "cultura", conforme apresentamos a seguir:

(...) em sala de aula o aluno aprende toda a estrutura da língua, mas dificilmente põe em prática, o que torna o aprendizado quase nulo. Vejo o teletandem como um complemento dessa atividade em sala de aula, e o contexto virtual não prejudica de nenhuma maneira o ensino-aprendizagem. Ao contrário, o uso da tecnologia dá uma dimensão maior sobre a cultura do país, o que reflete diretamente no aprendizado da língua estrangeira. (FURTOSO, 2011:224).

O estudo de (LUVIZARI-MURAD, 2011) trata de um trabalho de especial importância para a retrospectiva dos estudos sobre teletandem que aqui apresentamos. (LUVIZARI-MURAD, 2011) desenvolveu uma pesquisa que considera a teoria histórico-cultural da atividade 2 como o horizonte interpretativo que orienta as reflexões de seu estudo etnográfico (sobre a parceria de teletandem da própria autora, cujas línguas envolvidas eram português e alemão).

Os objetivos investigativos da autora estão voltados para (a) a compreensão das características da interação em teletandem, ou seja, os elementos constitutivos dessa interação, as diretrizes que orientam seu processo e as questões culturais que o permeiam; e (b) para a compreensão de como o teletandem pode se configurar como um contexto de transformação e de desenvolvimento para seus interagentes. Logo, temos a primeira tese de doutoramento do grupo de pesquisadores em teletandem que traz, explicitamente, a questão cultural como uma de suas metas investigativas. A cultura 3 , segundo (LUVIZARI-MURAD, 2011), configura-se como tema de grande importância tanto para os estudos em teletandem quanto para os estudos em teoria histórico-cultural da atividade. Ambas as áreas de reflexão científica consideram a aprendizagem como fenômeno que se dá nas relações sociais e que "atribuem às questões culturais o aspecto de meio e recursos essenciais para o desenvolvimento humano" (LUVIZARI-MURAD, 2011: 29).

O estudo de (LUVIZARI-MURAD, 2011) dialoga com o novo projeto temático que atualmente delineia as pesquisas em teletandem, intitulado Teletandem: A transculturalidade das interações on-line em língua estrangeira por webcam(TELLES, 2011). Os eixos temáticos deste projeto, elaborados a partir da consideração das reflexões dos pesquisadores envolvidos, são: 1. modos de se compreender o estudo, a aprendizagem e a prática das línguas estrangeiras; 2. modos de compreender a cultura do parceiro e seus impactos sobre a aprendizagem e sobre a relação; 3. a contribuição do Teletandem para a educação do aprendiz para se relacionar com outros povos; e, 4. as diferentes visões de implementação institucional do Teletandem (TELLES, 2011).

Os resultados da pesquisa em questão acerca da compreensão das características da interação em teletandem trouxeram, por exemplo, observações sobre

a) as ferramentas utilizadas ao longo das interações para a otimização da aprendizagem: vídeos e jornais brasileiros, curso online e ferramentas de tradução, uso de idiomas de apoio (inglês e espanhol) e de provimento de insumo e correções (LUVIZARI-MURAD, 2011:172-143);

b) as diretrizes da interação: a autora cita que, embora os interagentes tivessem opiniões diferentes sobre a eficácia das regras propostas por cada um deles, houve acordo quanto ao norteamento proposto pelo "aprendiz da vez", que deveriam ser seguidos pelo "ajudante da vez" (LUVIZARI-MURAD, 2011:125);

c) as questões culturais: segundo (LUVIZARI-MURAD, 2011) o teletandem "se mostrou também como um 'lugar suficientemente grande' para incorporar as culturas dos dois participantes" (LUVIZARI-MURAD, 2011:172), sendo que a cultura tenha se manifestado nesse estudo por meio de narrativas pessoais e indícios de identidades nacionais imaginadas (LUVIZARI-MURAD, 2011:144-145).

A respeito de como o teletandem pode se configurar como um contexto de transformação e de desenvolvimento para seus interagentes, além das transformações engendradas pelo contato com as tecnologias emergentes, a pesquisadora afirma que "foi possível demonstrar nesta tese que os participantes realizam transformações adaptativas em virtude das contradições 4 às quais precisavam transpor" (LUVIZARI-MURAD, 2011:178).

Outras teses referentes aos estudos do grupo de pesquisa em teletandem já foram defendidas e estão disponíveis no site do projeto 5 (tais como: AUGUSTIN, 2011; LUZ, 2012; BRINCKWIRTH, 2012; e SALOMÃO, 2012), além de um recente livro publicado por (GARCIA, 2013). Contudo, optamos pelo recorte cronológico apresentado, que considera as teses de (KANEOYA, 2008) até (LUVIZARI-MURAD, 2011), por ser um recorte suficientemente válido para demonstrar a pertinência de se tomar como pressuposto deste artigo que o teletandem seja um contexto multimodal de aprendizagem de línguas (regido por regras de autonomia, colaboração e uso separado de línguas) e de trocas interativas relacionadas a cultura.

O quadro a seguir apresenta a transformação das pesquisas em teses sobre teletandem, no que tange às considerações acerca do potencial de aprendizagem cultural nesse contexto. Trata-se de um quadro inacabado, uma vez que os estudos posteriores ao de (LUVIZARI-MURAD, 2011) não foram contemplados nesta reflexão:

Quadro 1 Relação de teses de doutoramento em teletandem com ênfase em indícios sobre a questão da cultura nas interações estudadas. 

Como podemos notar, as pesquisas abordadas nesta introdução trazem reflexões embasadas em indícios presentes nos dados de seus corpora que corroboram para nosso reconhecimento de que o teletandem seja um contexto deflagrador de manifestações culturais e de condições que possam promover aprendizagem cultural. Face à complexidade dos estudos apresentados, consideramos oportuno propor uma unidade de análise que julgamos, por sua flexibilidade (conforme apresentaremos a seguir), ser plausível para subsidiar as reflexões sobre cultura nos estudos em teletandem: os episódios relacionados a cultura (ou culture-related episodes 6 ).

2. Cultura: definições e dimensões

Diante das evidências de que as discussões sobre cultura emergem nas interações de teletandem, faz-se necessário demonstrar o que entendemos por cultura e aprendizagem cultural nesse contexto.

Por ser inegavelmente complexo, o conceito de cultura pode ter diferentes perspectivas. Neste artigo, tomamos como ponto de partida a clássica definição de (KRAMSCH, 1998), para quem "[...] a cultura pode ser definida como a participação em uma comunidade discursiva que compartilha um espaço social comum e história, e um imaginário comum." Essa definição é citada por (LEVY, 2007), que, citando (SKELTON e ALLEN, 1999:4), acrescenta que "a experiência cultural de qualquer um dos indivíduos será afetada pelos múltiplos aspectos de sua identidade - raça, gênero, sexo, idade, sexualidade, classe, posição de casta, religião, geografia, e assim por diante - e é provável que isso se altere em várias circunstâncias." (LEVY, 2007:105) conclui que "Assim, a cultura é tanto uma manifestação de um grupo ou de uma comunidade, quanto a da experiência de um indivíduo dentro desse grupo, ou separado dele."

(LEVY, 2007) pondera que o conceito de cultura tem numerosas definições e interpretações de diferentes áreas do conhecimento. Em seu trabalho, o autor apresenta projetos nos quais o uso de tecnologia foi associado à intenção de ensino e aprendizagem de cultura. Tendo em vista que nosso interesse recai na área de ensino de línguas estrangeiras mediado pela tecnologia, na qual o contexto teletandem pode ser incluído, neste artigo consideramos cinco dimensões do conceito de cultura, conforme estudo proposto por (LEVY, 2007): (a) cultura como elemento; (b) cultura como relativa; (c) cultura como filiação a um grupo; (d) cultura como contestada e (e) cultura como individual (variável e múltipla).

Tendo em vista que o contexto teletandem constitui-se, na maioria das vezes, por dois falantes de línguas diferentes, que (frequentemente) podem representar, portanto, diferentes comunidades discursivas e têm também características individuais que emergem em seus diálogos, essas definições de cultura podem ser consideradas pertinentes ao objeto de análise deste artigo. Isso porque são abrangentes o suficiente para não limitarem a uma só dimensão as questões relacionadas à cultura presentes na interação que será posteriormente analisada neste artigo.

Todas essas dimensões da cultura descritas por (LEVY, 2007) estão, de algum modo, presentes nas interações de teletandem. Desse modo, cada uma das dimensões será apresentada sucintamente, com o objetivo de demonstrar os modos pelos quais poderemos verificá-las em nosso objeto de estudo, a saber, uma interação de teletandem entre uma aluna brasileira e um aluno estadunidense.

2.1. Cultura como elemento

Quando se considera essa dimensão, entende-se que a orientação cultural do indivíduo começa no nascimento, no sentido de que ele se desenvolve dentro de sistemas de valores e crenças, mesmo sem que se dê conta disso. Em suma, cultura é pré-definida, ou herdada. Desde que nascemos, portanto, com o contato que estabelecemos com as pessoas e com o mundo, formamos nossas identidades, atitudes, emoções, valores, crenças. Assim, essa dimensão de cultura como elemento considera o aprendiz de uma língua estrangeira não como um "quadro em branco" ou tabula rasa com relação à(s) cultura(s) relacionadas a essa língua, mas como alguém que já traz conceitos, estereótipos e expectativas formados por sua própria experiência como falante de uma determinada língua materna.

Segundo (LEVY, 2007:106), "A noção de projetar valores e um quadro de referência foi reconhecida no ensino de língua estrangeira, e talvez mais especificamente no ensino de inglês como língua estrangeira." Assim, nas interações de teletandem, em cuja maioria 7 os alunos ajudam o parceiro a aprender sua língua materna (ou de proficiência), observamos que a concepção de cultura como elemento está presente e tem um impacto sobre os modos pelos quais os aprendizes compreendem e interpretam a língua estrangeira a partir de suas próprias orientações e experiências culturais.

2.2. Cultura como relativa

Essa dimensão compreende a cultura como um conceito relativo e não absoluto. Em outras palavras, uma cultura diferente é compreendida em contraste com a própria cultura. Ao analisar um estudo de (LO BIANCO and CROZET, 2003), Levy afirma que "Fazer generalizações é fundamental nessa abordagem: em outras palavras a crença de que o que nós fazemos e o que eles fazem é comum para todos, entre duas respectivas culturas que estão sendo comparadas." (2007:107, grifos nossos).

Este tipo de prática é frequente nas interações de teletandem, nas quais os interagentes parecem compreender melhor determinados aspectos da cultura do outro ao compará-la com sua própria cultura. Conforme a interação que analisaremos neste artigo evidencia, quando se compreende a cultura nessa dimensão, ou seja, de maneira contrastiva, de fato parece existir uma tendência à supersimplificação e à criação de estereótipos. Essas características que observamos nas interações de teletandem parecem corroborar os problemas associados à abordagem contrastiva no ensino e aprendizagem de uma segunda cultura identificados por (GUEST, 2002 apud LEVY, 2007:107-108).

A proposta de (GUEST, 2002 apud LEVY, 2007) para se minimizar essas generalizações seria "focar nas propriedades dos indivíduos ou nos tipos de caráter em vez das culturas em geral." Essa proposta pode ser feita também no contexto de teletandem, de modo que tanto os interagente quanto os mediadores das sessões fiquem atentos para esse tipo de contraste que frequentemente é feito e leva à generalização. Seriam, pois, consideradas tanto as características individuais dos interagentes que emergem nas interações quanto aquelas mais gerais, que dizem respeito a comportamentos que os interagentes atribuem a um grupo grande de pessoas, geralmente às pessoas de seu país de origem.

2.3. Cultura como filiação a um grupo

Nessa dimensão, a cultura é compreendida como forma de pertencimento a determinada comunidade discursiva e está relacionada a uma questão de identificação com algum grupo. Essa identificação pode se dar de diferentes maneiras, tais como localização geográfica, visão política, religião, vestuário, comida e assim por diante. Para (LEVY, 2007:108), as culturas podem ser delimitadas, ainda, pela idade, profissão, esporte, língua e outras situações e atividades que as pessoas compartilham. Nesse sentido, o teletandem é um contexto no qual os participantes podem deixar latentes ou evidentes as culturas com as quais se identificam.

Ao abordar a dimensão da cultura como filiação a um grupo no ensino de línguas, (LEVY, 2007) apresenta a seguinte questão formulada por (GUEST, 2002): "Os membros de uma cultura realmente querem que os estrangeiros dominem e desenvolvam as nuances internas daquela cultura?" Citando um estudo de (HINKEL, 1996), (LEVY, 2007) acrescenta que "embora os alunos reconheçam normas pragmalinguísticas da cultura alvo, nem sempre eles estão dispostos a segui-las."

Muito embora o teletandem não seja exatamente o contexto de ensino e aprendizagem de línguas ao qual os autores se referem, tais questões podem ser encontradas nas interações. Podemos observar também que, por vezes, os participantes procuram encontrar algo em comum com os respectivos parceiros. Isso pode ser entendido como uma necessidade ou vontade de se identificar com o outro, para, possivelmente, se criar uma proximidade que deixe a interação mais agradável.

Uma possível razão pela qual essas identificações ocorrem pode ser encontrada no fato de que

Culturas como grupos adotam práticas e normas de comportamento particulares, às vezes envolvendo regras explícitas ou implícitas e códigos de conduta. Uma pessoa torna-se membro da cultura não apenas por supostamente concordar com suas práticas, ou simplesmente por participar delas, mas por ser aceito pela filiação. (LEVY, 2007:109).

Reconhecer essas tentativas de aproximação entre as culturas no teletandem não quer dizer, no entanto, que não haja contraposições e marcação de diferenças culturais entre os parceiros. Em muitos casos, a procura de algo em comum entre as respectivas culturas é o ponto de partida ou de chegada para os contrastes, como veremos na análise, mais adiante.

2.4. Cultura como contestada

Essa dimensão da cultura é normalmente associada ao termo choque cultural, que pode ocorrer tanto em um nível individual quanto em uma escala maior. No primeiro caso, o choque cultural está relacionado a uma experiência do próprio indivíduo, quando este tem contato com outra cultura por meio de uma viagem ou da aprendizagem de uma língua estrangeira. São contrapostos valores e sistemas de crenças do indivíduo com relação aos da cultura com a qual ele está em contato. Esta é a razão pela qual (LEVY, 2007) considera que aprender uma língua seja uma experiência profunda e vantajosa para o aprendiz, porque ele pode ter seus valores desafiados, reorientados e reestabelecidos. No segundo caso, em uma escala mais abrangente, o choque cultural pode estar relacionado não a experiências individuais, mas àquilo que é veiculado pela mídia, por exemplo.

Se pensarmos nas interações de teletandem, desde a primeira sessão, na qual os participantes têm contato um com o outro, há expectativas e representações sobre a cultura do parceiro que podem ser percebidas nos diálogos. Talvez nossos dados não nos deem elementos suficientes para afirmarmos se existe choque cultural na interação que será analisada neste artigo, mas é possível afirmar que há, se não um confronto, pelo menos certo estranhamento que postule uma explicação mais elaborada de certas práticas relacionadas a cultura(s) que são relatadas nas interações de teletandem.

Assim, ainda que os interagentes procurem um tom conciliador e focalizem as diferenças entre suas respectivas culturas na maioria das vezes como uma aprendizagem, é importante considerar essa dimensão de cultura como contestada no sentido de que

A cultura está intimamente relacionada a dinâmicas de poder e produz assimetrias na habilidade dos indivíduos e grupos de definirem e alcançarem seus objetivos. Além disso, a cultura é também uma arena de luta e contradição, e não há nenhuma cultura no sentido homogêneo. Ao contrario, há culturas dominantes e subordinadas que expressam interesses diferentes e operam de terrenos de poder diferentes e desiguais. (GIROUX, 1988 apud LEVY, 2007:110).

A cultura como contestada é muito interessante de ser observada em interações de teletandem, uma vez que é a partir dessa dimensão que se observam as assimetrias e mal-entendidos entre os interagentes de teletandem. Estes, muitas vezes, revelam em seus discursos o domínio e/ou a subordinação das culturas que representam. Desta perspectiva, é importante a constatação crítica de (PILLER, 2012:9) que aponta para o fato de que "alguns mal-entendidos considerados 'culturais' estão, na verdade, baseados em desigualdades e quando justificados pela 'comunicação cultural' servem para ofuscar relações de desigualdades e injustiças sociais."

2.5. Cultura como individual (variável e múltipla)

Essa dimensão da cultura postula que a interpretação de cada indivíduo sobre a cultura é variável e subjetiva. Quando consideramos, portanto, o contexto teletandem, os interagentes terão interpretações individuais do entendimento de sua própria cultura ou da cultura do parceiro. De acordo com (LEVY, 2007:111), essa interpretação é modificada por fatores como conhecimento de mundo, experiência em morar no exterior, consciência política etc.

Embora (LEVY, 2007) não se refira especificamente ao contexto de teletandem, essa dimensão parece-nos fundamental, uma vez que as culturas são apresentadas aos respectivos parceiros sob a ótica de apenas uma pessoa e, portanto, a partir do compartilhamento de experiências individuais.

Assim, quando um indivíduo está numa posição de representar sua própria cultura, tanto como um professor quanto como um aprendiz de uma língua estrangeira, sua interpretação será subjetiva e pessoal. Além disso, novos entendimentos culturais que emergem do contato e da troca cultural serão igualmente sujeitos à interpretação individual. (LEVY, 2007:111)

Cabe, no entanto, ressaltar que algumas formas de minimizar essa subjetividade intrínseca à dimensão individual da cultura são o acesso a outras fontes informativas e a própria vivência no exterior. Afinal, nossas interpretações não são estáticas e certamente modificam-se à medida que desenvolvemos mais experiências transculturais no contato com pessoas de outros países. Em suma, as interpretações de um aprendiz de uma língua e/ou cultura ao observar ou participar de uma troca interativa, seja ela de que natureza for, certamente serão diferentes em relação a outro aprendiz. Cada interação em teletandem, portanto, produzirá interpretações diferentes acerca da(s) cultura(s) em questão.

3. Episódios relacionados a cultura e aprendizagem cultural

Tendo em vista que o contexto de teletandem se distancia do ensino de línguas estrangeiras desenvolvido em salas de aula convencionais, a dimensão cultural não é algo que deverá ser ensinado (ou, para usar um termo comum, porém equivocado, quando se pensa a questão do ensino, transmitido) como um tópico na sessão, mas experimentado e apre(e)ndido, a partir da própria natureza da situação de interação entre pessoas de nacionalidades e experiências prévias diferentes, situação esta na qual a cultura de cada um se evidencia.

Como constata (LEVY, 2007:121), "De maneira geral, a aprendizagem da cultura deriva de trocas interativas que promovem ação e reflexão que incentivam um 'diálogo' na mente do aprendiz entre a generalização mais ampla e a instância individual." 8 As sessões de teletandem, por promoverem tais trocas interativas entre os alunos, são um contexto profícuo para se responder à seguinte pergunta de pesquisa: que dimensões da cultura podem ser identificadas nos episódios relacionados a cultura presentes na interação que é objeto deste estudo?

No contexto teletandem, consideramos a definição de aprendizagem cultural como um "processo dinâmico que tanto utiliza exemplos de uso da língua quanto serve como um local para a construção do conhecimento cultural e compreensão através do uso da linguagem". (ZHU, 2012: 8). Neste local virtual (teletandem) a cultura, neste caso, se constrói por meio do uso da língua estrangeira em interação com o Outro diferente - uma performance(MILLER, 2012). É importante ressaltar a natureza interativa, colaborativa e recíproca do teletandem como um contexto que, como já mencionamos, difere da sala de aula tradicional, na qual, muitas vezes, o professor tenciona ensinar cultura aos alunos através de exemplos retirados de textos didáticos ou mesmo de experiências pessoais. Nosso intuito, neste artigo, não é, portanto, o de afirmar se há ou não "aprendizagem cultural", tal como é frequentemente compreendida no ensino de línguas, mas apenas demonstrar que o teletandem é um contexto no qual ocorrem trocas interativas sobre, dentre outros assuntos, cultura.

Para isso, utilizaremos como unidade de análise os episódios relacionados a cultura 9 , os quais entendemos como qualquer parte de um diálogo na qual o foco recai sobre alguma explicação, questionamento ou curiosidade sobre aspectos da própria cultura ou da cultura do parceiro.

4. Metodologia

O presente artigo apresenta a análise de três excertos temáticos retirados da transcrição de uma sessão de interação de teletandem 10 realizada por (a) Gabi 11 , uma interagente brasileira - falante de português como língua materna e aprendiz de inglês como língua estrangeira; e por (b) Will, um interagente estadunidense - falante de inglês estadunidense como língua materna e aprendiz de português como língua estrangeira.

Ambos os interagentes eram alunos graduandos em universidades parceiras do projeto Teletandem Brasil: línguas estrangeiras para todos, sendo Will aluno do curso de Relações Internacionais e Gabi, aluna do curso de Letras. A interação foi realizada no primeiro semestre de 2011 e Gabi estava fazendo uma substituição do parceiro de Will, que não pôde estar presente na ocasião. No total, Will realizou 5 interações e a que fez com Gabi foi a terceira. Cabe ressaltar que o participante estadunidense era, também, aprendiz de espanhol como língua estrangeira e que já tinha experiências de intercâmbio em um país hispano-falante da América do Sul. Assim, interferências da variante espanhola com a qual esse interagente teve contato aparecem ao longo da transcrição da sessão de teletandem que analisamos.

A transcrição seguiu critérios simples de sistematização, elaborados a partir dos construtos de Marcuschi (1986), conforme apresentamos no quadro a seguir:

Quadro 2 Critérios para transcrição. Fonte: Adaptada de MARCUSCHI, L. A. Análise da conversação. São Paulo: Ática, 1986. 

OCORRÊNCIA CÓDIGO APRESENTADO NAS TRANSCRIÇÕES
Falantes: Nomes fictícios foram atribuidos para os colaboradores deste estudo.
Pausas: Marcadas apenas com ... (reticências e sem discriminação de sua duração)
Dúvidas: ((incompreensível))
Truncamentos bruscos: /
Sinais não linguísticos e gestos (colocados entre parênteses)
Ênfase: letra MAIÚSCULA e !
Sinais de entoação: ?
Numeração as linhas foram enumeradas, bem como as páginas do documento no qual o arquivo foi salvo.
Turno os turnos de cada participante foram marcados com cores diferentes: azul para Will e preto para Gabi

A transcrição foi feita a partir de gravação audiovisual (arquivo áudio/vídeo do Windows Media Player), de duração de cinquenta e dois minutos e três segundos, revisada em parceria pelos autores deste artigo. Uma vez finalizada a etapa da sistematização do material documentário, os autores deste estudo se reuniram presencial e virtualmente para discutirem sobre os excertos temáticos a partir dos quais os episódios relacionados a cultura poderiam ser depreendidos. Os episódios que foram identificados, mas que geraram dúvidas ou discordância entre os autores não foram incluídos neste artigo. Devido às limitações de espaço, características de um artigo acadêmico, foram também excluídos os chamados episódios relacionados a língua e cultura, nos quais o foco dos interagentes de teletandem está em ambos e não apenas na cultura.

Desse modo, foram considerados excertos temáticos com fragmentos de extensão variada, extraídos da materialidade do texto transcrito, a partir dos quais foi possível depreender indícios plausíveis de que os interagentes estavam engajados em momentos de discussão acerca de cultura. Em outras palavras, foram selecionados elementos textuais que originam uma variação no curso da sessão, a qual (sendo acerca de construtos ou artefatos culturais) engendra um tema na interação, que pode ser depreendido sob a delimitação de um excerto temático.

Trata-se de uma definição preliminar, mas propositadamente ampla, para que possa servir como construto capaz de abarcar aquilo que venha a se mostrar como indício válido, para que possamos explorar sob quais aspectos os episódios relacionados a cultura são engendrados em interações de teletandem.

Tomamos como horizonte interpretativo deste estudo as reflexões já apresentadas neste artigo de (LEVY, 2007) sobre cultura. Isso significa que tomamos esses construtos teóricos como ponto de partida, mas não como destino a ser alcançado. Nossa intenção é permitir que novas reflexões acerca de cultura, aprendizagem cultural ou episódios relacionados a cultura possam emergir do estudo feito a partir desses dados.

5. Análise

Identificamos sete temas relacionados à cultura que emergiram ao longo da interação estudada: a. futebol, b. sotaques, c. música, d. clima, e. modos de vida em diferentes contextos, f. dança, g. vida acadêmica e h. política e economia. Por limitações de espaço, enfocamos somente três episódios" - futebol, música e modos de vida, por serem eles representativos das várias dimensões por meio das quais a cultura pode ser interpretada no contexto de teletandem

5.1. "Do you like football?"

Quadro 3 excerto 1, em que os interagentes conversam sobre futebol. 

79 Will: I will! World Cup, I will come back! 80 81 Gabi: Yes, World Cup? 82 83 Will: Copa do Mundo, yeah! 84 85 Gabi: Oh, yes. Ok. So, it's very good. Do you like football? 86 87 Will: Yeah, I do. I defi nitely like to watch it. I really... I mean, I like watching it in South America, because it's so much... 88 more intense... everybody is... huh... more into it! They're excited about it. Yeah... 89 90 Gabi: I love football! 91 92 Will: That's great! 93 94 Gabi: Yes, but... but I don't understand anything. 95 96 Will: (Laughs) 97 98 Gabi: but I love...

O primeiro excerto temático a ser apresentado diz respeito a um episódio relacionado a cultura. Nele, os interagentes se envolvem em uma discussão sobre futebol. Esse tema surge depois da fala do interagente estadunidense, Will, sobre seu desejo de voltar ao Brasil na Copa do Mundo. Continuando a interação, a parceira brasileira lhe pergunta se ele gosta do esporte 12 , e ele responde que gosta de assistir futebol na América do Sul porque "é muito mais intenso." (l. 87-88).

A resposta do interagente estadunidense evidencia, de imediato, pelo menos duas das dimensões culturais apresentadas por (LEVY, 2007): a primeira delas é a da cultura como elemento. Trata-se de cultura como elemento, no sentido de que Will, ao afirmar que gosta de assistir partidas de futebol na América do Sul, projeta, na interação e na sua parceira, valores sócio-historicamente construídos acerca da cultura desta última, entendendo que o futebol, para Gabi, seria um artefato pré-existente e/ou pré-designado (ver PENNYCOOK, 2004), constituinte de sua vivência cultural e valoroso para ela como jovem nascida no Brasil. Futebol é um artefato tão pré-existente, tão pré-designado aos brasileiros por Will que, ao fazer a pergunta "Do you like football?", Gabi é imediatamente compreendida pelo seu parceiro. Não há nem confusão na compreensão, nem mesmo negociação de significado. Além disso, Will nem mesmo lhe dá o insumo linguístico de que ela devesse dizer "soccer" ao invés de "football". Curiosamente, ambos se entendem quanto à referencia a futebol ("soccer") e não futebol americano ("football").

Notamos que a expressão usada por Will "everybody is more into it [soccer]" (l. 88) pode também ser interpretada como uma generalização advinda de um imaginário reproduzido por diferentes instâncias (mídia, relações interpessoais dentre outras vivências assimiladas pelo interagente) com o qual ele compactua, provavelmente devido a suas experiências na Argentina e no Brasil. Portanto essa citação evoca uma outra dimensão de cultura, a cultura como relativa.

Will estabelece a relação "assistir futebol na América do Norte versus assistir futebol na América do Sul" ao citar que, nos países sul americanos, assistir a uma partida de futebol é uma experiência muito mais intensa. Ao afirmar isso, subentende-se uma comparação (é mais intensa do que) entre o que ele generaliza como América do Sul (Brasil e Argentina) e o que ele vivenciou como jovem estadunidense.

Dissemos, acima, que foi possível notar pelo menos duas dimensões culturais no excerto supracitado. No entanto, consideramos que as demais dimensões descritas por (LEVY, 2007) também podem ser constatadas ao longo de uma análise mais minuciosa desse material documentário. No próprio excerto 1 há, ainda, a possibilidade de se identificar evocações à cultura como individual (pois a fala de Will deflagra sua interpretação acerca da importância do futebol no cenário sul americano), cultura como filiação a um grupo (porque a fala de Will pressupõe uma leitura acerca do futebol como construto cultural de um grupo ao qual Gabi demonstra pertencer, o de pessoas que amam futebol ─ "I love footbal", l. 90 ).

Essa identificação das diferentes dimensões da cultura demonstra que é difícil separá-las em um episódio relacionado a cultura, como o que analisamos acima. A separação didática proposta por (LEVY, 2007) é, porém, importante porque permite uma compreensão desses processos que são, na realidade, dinâmicos, concomitantes e mesmo diferentes, fato que corrobora a natureza complexa do conceito de cultura que adotamos para nortear nossos estudos acerca do contexto teletandem.

5.2. "They say that you like [música] sertaneja, too, right?"

Quadro 4 excerto 2, em que os interagentes conversam sobre música sertaneja. 

143 Gabi: No, I don't like sertaneja (laughs embarrasedly). I study Literature and Letters. 144 145 Will: Oh, ok. 146 147 Gabi: So, sertaneja is not good. 148 149 Will: (laughs) 150 151 Gabi: It's not poetry. (laughs)_ 152 153 Will: That's right. It's a little different. 154 156 157 Will: We have something like sertaneja here. Huh... it's called "country music". 158 159 Gabi: Country Music, yes.... 160 161 Will: And, it's kind of like that. Yeah, it's not yeah, it's not poetry by any means. But, it's huh... it's very popular in like... 162 some areas of the country. 163 164 Gabi: Yes, I know. I think it's very similar. 165 166 Will: Yeah. 167 168 Gabi: I've heard some things of country music and... yes... it's very similar. 169 170 Will: (laughs) That's so funny. (laughs) 171 172 Gabi: And, do you like country music? 173 174 Will: I like it more now than I used to. Huh... I think that hum... it...you know... it grows on you. When you... when you 175 listen to it a lot... it's because I have some friends who like it, you start to like it a little more. So... yeah, I guess 176. 177. Gabi: Yes, it's the same here. I listen a lot of sertanejo. So... sometimes, I can hear, but I don't like (laughs)

Neste segundo excerto, os interagentes estão conversando sobre música sertaneja. O diálogo foi motivado pela palavra "caipira", dita anteriormente por Gabi, ao ser indagada por Will sobre o lugar de onde ela era. Gabi, que é do interior de São Paulo, utiliza a palavra "caipira" para se referir ao sotaque típico com o "r" retroflexo, o qual ela, inclusive, reproduz ao pronunciar a palavra "porta". O parceiro estadunidense demonstra saber o que a palavra significa ao associar a palavra "caipira" com música sertaneja: "They say that you like [música] sertaneja, too, right?" (l. 129). Gabi responde que, sim, que o estilo musical é comumente associado à região de onde ela é, mas que ela não gosta de música sertaneja. Ao justificar por que não gosta do estilo musical em questão, Gabi deixa subentendido que é porque estuda Letras e que as músicas sertanejas não são poesia. Will pondera que, de fato, música sertaneja é um "pouco diferente" (l. 153) de poesia e, parecendo tentar diminuir o constrangimento de uma possível diferença de opinião entre ambos sobre o gênero musical, ele compara a música sertaneja com a música country, muito popular nos Estados Unidos.

Ao ser questionado por Gabi sobre seu gosto por música country, Will parece um tanto quanto constrangido em admitir que gosta do estilo musical. Ele relativiza a resposta, dizendo à parceira que hoje gosta mais de música country do que antigamente, porque os amigos ouvem muito esse tipo de música e que, portanto, ele começou a apreciá-lo também. Em resposta, Gabi afirma que também ouve muito música sertaneja, mas que não gosta.

É interessante observar que a conversa desse excerto parece evocar a dimensão da cultura como contestada. Nesta dimensão, são contrapostos valores e sistemas de crenças do interagente estadunidense em relação aos da cultura da parceira brasileira, com a qual ele está em contato. Há certa tensão que pode ser interpretada como uma relação tácita de poder que Gabi estabelece sobre Will no sentido de que ele parece um pouco desconfortável em afirmar o gosto pela música country diante dela, que é aluna de Letras e não aprecia o referido estilo musical.

A relação de poder estaria no fato de que a interagente brasileira, por estudar questões relacionadas à linguagem e distanciar a música sertaneja do que considera boa música (que seja poesia), expressa um juízo de valor ao desaprovar o estilo musical que Will supôs que lhe agradasse, por ela ser do interior de São Paulo (algo pré-existente ou pré-designado, por Will, à sua parceira). Quando ele faz a generalização de que caipiras gostam de música sertaneja, podemos estabelecer também uma relação desse trecho do diálogo com a cultura como relativa. Conforme mencionamos anteriormente, tal relação é frequente em interações entre pessoas de diferentes culturas. Justamente devido a essa tendência à supersimplificação e à generalização (por meio de conceitos pré-existentes ou sedimentados da cultura do outro), os interagentes e os mediadores 13 devem interpretar as informações trocadas nas sessões de teletandem como algo que passa pela subjetividade dos interlocutores, podendo, portanto, ser variável e múltipla (cultura como individual).

Assim como no primeiro excerto, neste também observamos várias dimensões da cultura sendo evocadas simultaneamente. A aproximação que Will faz da música sertaneja com a música country pode ser relacionada à cultura como filiação a um grupo. Will parece buscar semelhanças não somente entre os dois estilos musicais, mas, também, entre os seus amigos - que ouvem música country e o influenciaram a gostar desse estilo - e as pessoas conhecidas de Gabi - que também ouvem música sertaneja, e fazem com que ela também ouça o estilo, ainda que não goste.

Obviamente a generalização feita por Will sobre o fato de "pessoas do interior - caipiras, nas palavras de Gabi - gostarem de música sertaneja" está relacionada ao imaginário sobre essa determinada cultura que foi sedimentado e apropriado (MILLER, 2012:88) por Will, corroborando a afirmação de que o aprendiz de uma língua não é como um quadro branco, mas carrega sistemas de valores e crenças desde seu nascimento (cultura como elemento).

Como podemos notar, o segundo excerto temático, tal qual o primeiro analisado, exemplifica as diferentes dimensões que podem ser reconhecidas neste episódio relacionado a cultura no qual os interagentes focam aspectos culturais no diálogo.

5.3. "É, os portugueses são mais distantes, mais... entende... mais frios"

Quadro 5 excerto 3, em que os interagentes conversam sobre brasileiros e estadunidenses. 

416 Gabi: É, os portugueses são mais distantes, mais... entende... mais frios, não são... tão carinhosos como os 417 brasileiros. Sim. 418 419 Will: Não, legal. Quando huh... quando foi ao Brasil e... estava sorprendido com todos os brasileiros, todos son tan 420 carinhosos e... huh... muito huh... cada pessoa... huh... quere... quer falar comigo e eu não fala português muito 421 bom, então, mas... cada pessoa quer falar comigo sobre cada coisa do America e... não, foi muito divertido para... falar 422 huh... lá com usted... uh, com vocês. 423 424 Gabi: Hum hum... eu sei, os brasileiros eles adoram estrangeiros. 425 426 Will: Oh, sim? 427 428 Gabi: Sim. E a gente fi ca curioso, a gente adora falar... 429 430 Will: (ri) 431 432 Gabi: Sempre que vem alguém de outro país eu fi co falando muito com a pessoa. Eu fi co o tempo inteiro em cima 433 dela. (ri) 434 435 Will: Sim, sim. 436 437 Gabi: Sim. (ri) 438 439 Will: Não... e quando... hum... aqui nos Estados Unidos quando eu hum... eu vi uma brasileiro, quando eu escuto o 440 português, imediamente eu vou a... a pessoa e.. chat... huh... não sei... falo um pouquinho sobre... com... com ele 441 ou ela e huh... não, porque... eles... vocês... são tan... tão carinhosos, então eu quando... vocês... estão aqui, nos 442 Estados Unidos, eu quero... huh... ser carinhoso também. E então é... é uma... uma maneira... para huh... compartir 443 isso... huh... relación... relationship... Nossa! 444 445 Gabi: Relação!!! (escreve no chat) 446 447 Will: Relação, si. 448 449 Gabi: Isso. (escrevendo no chat) Entendi! Uma relação compatível! Você quer te...? 450 451 Will: Si, si. 452 453 Gabi: Você quer.. então, você é uma boa pessoa para a gente visitar? 454 455 Will: Sim. Quando você huh... quer visitar, aqui, nos Estados Unidos... quando... (laughs)... não sei, nossa (hola???) 456 pode ajudar. 457 458 Gabi: (ri) Entendi. Entendi. E todos os seus amigos são assim? Eles fi cam curiosos também, ou não? Só você. 459 460 Will: Huh... os meus amigos? huh... não tão ca... huh...curiosos huh... carinhosos também. Por... eles são carinhosos, 461 mas não quer... hum... aprender sobre os outros países, não huh...não têm interés nos outros países. 462 463 Gabi: Ah... entendi. Entendi. E... eu perguntei "curiosos", mas acho que dá na mesma. 464 465 Will: Curiosos. 466 467 Gabi: "Curious". 468 469 Will: Sim. No. Não... Heh... eles não são curiosos porque.... é muy fácil para hum... pensar....sobre... sob... sobre os 470 assuntos do seu país. Huh... então, sobre os esportes ou futebol americano, e coisas assim. Mas heh... eu... sempre 471 estava hum... interessado huh com outros países e os assuntos são a política dos outros países. Huh... Então, huh... 472 huh... queria estudar huh na Argentina para ir a Brasil. 473 474 Gabi: Ah, entendi. Você sempre gostou. Então, você é diferente. 475 476 Will: É, um pouquinho. Mas, não... em total.. acho que casa pessoa quer.. aprender um pouco mais... mas, no... não... 477 trabalha para aprender, para entender outra pessoa. Eh.. então, não sei. Eu toma huh... cursos o aulas como isso, Iza, 478 para aprender um pouco mais.

No maior e último excerto que será analisado neste artigo, a primeira dimensão de cultura que podemos reconhecer é a cultura como relativa, a partir da comparação de brasileiros com portugueses (l. 416-417) e de brasileiros com estadunidenses (l. 460-461; l. 469-478). O assunto surge quando Gabi conta a Will que já havia morado em Portugal. Ele, então, quer saber mais sobre essa experiência da parceira e pede que ela compare brasileiros e portugueses. Comparar é identificar diferenças, o que Gabi faz muito facilmente. Sua interpretação de que os portugueses são mais distantes, mais frios e não tão carinhosos como os brasileiros (l. 416-417) remete a duas dimensões da cultura: cultura como elemento, devido ao estereótipo social e historicamente construído de que os brasileiros são mais próximos e carinhosos mesmo com pessoas desconhecidas; e cultura como individual, tendo em vista que este é o modo pelo qual Gabi interpreta sua experiência no país europeu e a reproduz para o parceiro estadunidense.

A conversa continua com as comparações, por vezes implícitas, entre o tratamento que os brasileiros dão aos estrangeiros que visitam o país em comparação com os estadunidenses. Diante do contraste estabelecido por Gabi entre portugueses -desinteressados e brasileiros-interessados em estrangeiros, Will se coloca como um estadunidense interessado (linhas 439-443) e deixa implícito que seus amigos (e os estadunidenses, em geral) sejam desinteressados (linhas 469-70). Também neste trecho do diálogo é possível reconhecer as duas dimensões de cultura já citadas, além da cultura como contestada. Conforme já mencionamos, de acordo com (LEVY, 2007), essa dimensão é associada ao choque cultural.

É importante ressaltar que, nos limites dessa interação, não podemos afirmar, com certeza, se os interagentes experimentaram o choque cultural, mas, por outro lado, está evidente que suas experiências de imersão em outras culturas (em Portugal, no caso de Gabi, e na Argentina e no Brasil, no caso de Will) deram a eles mais condições de contrastar (ou expressar diferenças entre) seus valores aos das pessoas que conheceram nos países estrangeiros.

O que é mais interessante neste episódio relacionado a cultura é a aproximação entre o modo como os interagentes se referem aos brasileiros - carinhosos - e o modo como Will afirma ser quando está diante de um falante de português nos Estado Unidos (l. 439-443). Reafirmando essa maneira de tratar os estrangeiros, Will se apresenta a Gabi de modo individualizador, contrastando sua postura àquela dos seus amigos estadunidenses (l. 460-461; l. 469-476). Passa, assim, a se posicionar em um outro grupo (o dos "brasileiros carinhosos"), cujo modo de ser difere do grupo ao qual pertencia antes (o dos "amigos americanos desinteressados em estrangeiros"). Temos, portanto, um processo dinâmico que, obviamente, não implica que Will não seja mais estadunidense, por agir como os brasileiros em determinada circunstância. Quando pensamos nesse excerto da interação entre Will e Gabi, fica evidente que a cultura como filiação a um gruponão significa, necessariamente, que o indivíduo não pertença a outro grupo. Pelo contrário, como já mencionamos acima, segundo (LEVY, 2007:9), o tornar-se membro de uma cultura (ou parecer tornar-se membro de uma cultura) nem sempre significa estar de acordo com determinadas práticas ou mesmo executá-las. Isso pode acontecer simplesmente pelo fato de que existe, da parte do interagente, um desejo de ser aceito pela parceira de outra cultura.

6. Considerações finais e encaminhamentos

Consideramos que a compreensão de cultura com algo menos fixo e estável (WELSCH, 1999) e, portanto, com diferentes dimensões, conforme apontam os estudos de (LEVY, 2007), seja uma maneira mais apropriada para abarcar a complexidade do contexto teletandem. Afinal, a aprendizagem de línguas colaborativa e as trocas culturais em ambientes mediados pela tecnologia tendem a fazer parte da realidade de cada vez mais pessoas que têm a oportunidade de praticar a língua alvo de maneira autêntica e síncrona, como no caso do teletandem.

Enfim, todas as características dessas trocas interativas entre pes­soas de diferentes partes do mundo certamente têm um impacto decisivo na forma como pensamos as relações de ensino e aprendizagem até então vigentes. Por ora podemos apontar que algumas implicações que identificamos a partir dos excertos analisados neste artigo estão relacionadas às múltiplas dimensões e possibilidades de interpretação do que é considerado cultura para os interagentes de teletandem.

Na interação que foi objeto de nossa análise, observamos que os episódios relacionados a cultura são recorrentes e se embasam nas experiências pessoais dos participantes. Diferentemente do ensino de línguas tradicional, no qual, eventualmente, se pretende "ensinar cultura" aos alunos, na interação de teletandem analisada observamos que há interpretações que cada parceiro traz das experiências que teve ou tem da/na própria cultura ou sobre a cultura do parceiro.

Will, com sua experiência de aluno de português como língua estrangeira, que já morou na Argentina e visitou rapidamente o Brasil, e Gabi, com sua experiência como aluna de inglês, que nunca viajou aos Estados Unidos, mas que já fez teletandem com alunos de duas universidades diferentes da de Will, já trazem expectativas e interpretações sobre a cultura do parceiro. Desse modo, podemos afirmar que, no teletandem, como as informações são trocadas a partir das experiências pessoais e da interpretação dos interagentes sobre fatos, valores, crenças etc. é na própria relação entre os parceiros que a aprendizagem e/ou a compreensão sobre determinados temas culturais vai ocorrer, ou, de acordo com (TELLES, 2015), as múltiplas identidades culturais de cada parceiro são realizadas de modos performáticos - cada um realiza "uma apresentação" de si para o outro, sendo processos de apropriação e sedimentação pré-assinalados.

No que tange à dimensão pedagógica da utilização das interações em teletandem no ensino/aprendizagem de línguas estrangeiras na atualidade, pudemos notar, acima, que as trocas interativas entre pessoas de nacionalidades, culturas e experiências diferentes, proporcionadas pela comunicação online e intercultural em teletandem, engendram muitas possibilidades de se compreender a cultura em suas várias dimensões. Esse processo dinâmico e complexo requer que os envolvidos no contexto de teletandem - interagentes, professores-mediadores e pesquisadores - estejam atentos a tais fenômenos que podem alunos a desenvolverem suas possibilidades de aprender línguas culturas de modo colaborativo. Por outro lado, caso essa atenção não exista ou não seja suficiente, o discurso intercultural em teletandem pode operar como contexto de apropriação e sedimentação de discursos preconceituosos e pré-designados, como ilustra (TELLES, 2015).

Para concluir, ressaltamos que, dadas às limitações de nosso objeto de estudo, que se constitui de apenas uma sessão em teletandem com parceiros que estavam interagindo pela primeira vez, entendemos que novas pesquisas que enfoquem a dimensão cultural das interações em teletandem poderão trazer outras contribuições para serem discutidas no âmbito da nova fase do projeto e do ensino e aprendizagem de línguas mediado pela tecnologia.

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1Muitas vezes, o que se alega como diferenças culturais, são questões relativas à desigualdades nas relações entre as culturas (se considerarmos "culturas" deste modo (bolhas ou territórios com fronteiras claramente definidas). PILLER, Ingrid (2012) Intercultural communication: An overview. In BRATT PAULSTON, Christina; KIESLING, Scott F.; RANGEL, Elizabeth S. The Handbook of Intercultural Discourse and Communication. Wiley Publishing. Edição do Kindle.

2Para uma breve revisão de teoria da atividade, sugerimos: RUSSEL, D. Rethinking genre in school and society: an activity theory analysis. 1997. Fonte:http://www.public.iastate.edu/~drrussel/at%26genre/at%26genre.html. Acesso: 07/01/2013.

3A revisão teórica sobre cultura adotada pela autora considera, dentre vários autores, os pensamentos de (KRAMSCH, 1993; 1998; e, 2010) e (LEVY, 2007), cujos construtos também serão considerados neste artigo.

4As contradições citadas pela autora são de suma importância para o estudo por ela realizado, para uma compreensão do conceito "contradição" em teoria sócio histórica da atividade, sugerimos a leitura completa da tese.

5http://www.teletandembrasil.org/page.asp?Page=25.

6Adaptamos este termo de episódios relacionados a língua, ou language-related episodes, que são definidos como "qualquer parte de um diálogo em que os alunos conversam sobre a língua que eles estão produzindo, questionam o uso da língua, ou corrigem a si mesmos ou a outros" (SWAIN & LAPKIN, 1998:326)

7Em alguns casos, o interagente de teletandem ajuda o parceiro a aprender uma língua que não necessariamente é sua língua materna, mas uma língua na qual ele é bastante proficiente. Este caso, no entanto, não será o foco deste trabalho, tendo em vista que a sessão de teletandem que constitui nosso objeto de estudo tem como participantes uma aluna brasileira e um aluno americano, que ajudam o parceiro a aprender sua língua materna, a saber, português e inglês, respectivamente.

8"Overall, culture learning will derive from interactive exchanges that allow for action and reflection that encourage a 'dialogue' in the learner's mind between the broader generalisation and individual instance."

9(ZHU, 2012:7), por sua vez, define esses episódios como "momentos em que o discurso falado em sala de aula tem como foco a construção colaborativa de entendimento cultural e conhecimento cultural entre os participantes."

10Ressaltamos que a escolha da sessão de interação analisada foi aleatória, em meio a grande quantidade de materiais documentários que compõe o corpus do grupo de pesquisa em Teletandem.

11Os nomes dos interagentes são fictícios. Foram escolhidos os apelidos dos nomes Gabriela e William, Gabi e Will porque os interagentes se tratavam pelos apelidos de seus nomes verdadeiros.

12Ao fazer a pergunta, Gabi se refere a futebol (em inglês, "soccer"), mesmo utilizando, de modo equivocado, a palavra "football". Curiosamente, ambos se entendem quanto à referencia a futebol ("soccer") e não futebol americano ("football").

13O mediador é responsável por conduzir uma conversa reflexiva com os interagentes após a sessão de teletandem. Os participantes são convidados a exporem suas dúvidas, relatarem a interação e compartilharem experiências de modo que o contexto de teletandem amplie seu potencial para desenvolver nos interagentes a aprendizagem de língua e cultura. Os mediadores têm vasta experiência como interagentes e pesquisadores em teletandem e apresentam estratégias de aprendizagem, leituras e reflexões acerca das trocas interativas que promovem a aprendizagem.

Received: March 2014; Accepted: December 2014

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