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Educação em Revista

Print version ISSN 0102-4698

Educ. rev.  no.46 Belo Horizonte Dec. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-46982007000200013 

DOSSIÊ FILE
GÊNERO, SEXUALIDADE E EDUCAÇÃO GENDER, SEXUALITY AND EDUCATION

 

"Fica comigo": juventude e pedagogias amorosas/sexuais na MTV

 

"Fica comigo": youth and love/sexual pedagogies on MTV

 

 

Rosângela Soares

Doutora em Educação. Professora adjunta da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Rio Grande do Sul. Membro do Grupo de Estudos de Educação e Relações de Gênero (GEERGE). rosangel@portoweb.com.br

Contato

 

 


RESUMO

Este trabalho analisa as pedagogias amorosas/sexuais produzidas pela cultura de mídia; especificamente, um programa de namoro na TV, denominado Fica comigo, da MTV. Esse programa, como toda a programação da MTV, é direcionado a jovens, público-alvo da emissora. Destina-se a jovens que buscam, através da emissora, um/a namorado/a. O querido ou a querida, como são denominados/as os/as que vão "descolar" um/a namorado/a, procuram pelo/a parceiro/a no programa televisivo. Já os/as que disputam o querido ou a querida são denominados de interessados/as. O presente trabalho tem como objetivo o exame crítico do Fica comigo a partir das seguintes questões: Como se constitui uma pedagogia amorosa/sexual para jovens nesse programa? Que rituais, linguagens, comportamentos e práticas são postos em ação nos encontros entre jovens no Fica comigo? O que esse programa pode nos sugerir sobre as práticas amorosas/sexuais da juventude na contemporaneidade?

Palavras-chave: Juventude; Sexualidade; Mídia.


ABSTRACT

This paper analyzes love/sexual pedagogies produced by the media culture, specifically in a dating show called Fica comigo aired by MTV. The target public of this show, like all the programs on MTV, is young people. It is directed to youths that search for a boyfriend or girlfriend. Those who attempt to meet a partner in the show are called sweethearts. Those who compete for a sweetheart are called interested candidates. The present work aims at examining Fica comigo critically, from the following questions: How is a love/sexual pedagogy constituted in this show? Which rituals, languages, behaviors, and practices are working in the meetings of young people in Fica comigo? What could the show suggest about love/sexual practices of youths in contemporaneity?

Keywords: Youth; Sexuality; Media.


 

 

INTRODUÇÃO

Juventude e pedagogias amorosas/sexuais constituem a temática central deste trabalho. Para analisar o tema citado, utilizo um programa da MTV chamado Fica comigo. Como toda programação da MTV, o programa é direcionado a jovens, público-alvo da emissora. No caso, o Fica comigo é feito para jovens e por jovens, aspecto que torna o programa interessante enquanto "via de acesso" a um tipo de juventude.

Mediante o exame crítico do programa Fica comigo, acredito ser possível analisar uma forma de relacionamento amoroso/sexual da juventude contemporânea, "produzida" pela cultura de mídia; nesse caso, pela MTV. Assim, são essas as temáticas que nortearão este trabalho: juventude, amor, sexualidade e mídia; mais especificamente, um programa de namoro na TV.

A juventude tem um enorme apelo na cultura contemporânea. É quase uma identidade central, e, por isso, a problemática juvenil pode indicar aspectos do momento histórico, representando uma espécie de lente de aumento sobre a crise cultural que caracteriza o mundo contemporâneo. O que é atribuído ao jovem – instabilidade, incerteza, mobilidade e transitoriedade – parece assumir conotações (de amplo significado) da cultura (Giroux, 1996; Green e Bigun, 1995; Abramo, 1997). O que Green e Bigun (1995, p. 209) registram "é a convergência dos discursos contemporâneos sobre a juventude, sobre a cultura de mídia e sobre o pós-modernismo". Tais convergências fazem sentido para mim. Parece-me potencialmente interessante visualizar o Fica comigo como um espaço de encontros e desencontros amorosos e afetivos entre jovens e o que isso implica para pensar juventude e sexualidade num contexto contemporâneo.

O Fica comigo, programa mais romântico da MTV, foi apresentado pela VJ Fernanda Lima, às 22h de segunda-feira, com diversas reprises durante a semana, desde sua estréia no dia 2 de outubro de 2000 até sua extinção em 2004. Destinou-se a jovens que buscavam, através da emissora, um/a namorado/a. O querido1 ou a querida, como eram denominados/as os que iam "descolar" um/a namorado/a, procuravam pelo/a parceiro/a "ao vivo e a cores" no programa televisivo. Já os/as que iam disputar o querido ou a querida eram denominados/as de interessados/as. Além desses/as participantes, faziam parte do programa a apresentadora e a platéia.

Em agosto de 2001, a MTV pôs no ar a versão gay do Fica comigo, com grande audiência e posteriores críticas. Alguns/Algumas consideraram essa iniciativa como de vanguarda; outros/as, como mais um passo na banalização das relações amorosas, que já vinha ocorrendo com o Fica comigo heterossexual. Segundo o diretor Rick Ostrower (apud Folha online, 2001), a motivação para tal versão correspondeu à expressiva audiência gay da emissora, aliada ao seu estilo – polêmico e ousado. A criação de uma versão voltada para o público homossexual já estava prevista desde o início do programa; para concretizá-la, a MTV associou-se a dois sites GLS2 a fim de procurar candidatos com o perfil desejado. Isso me permite perguntar: Com tal iniciativa, estaria a MTV desafiando as concepções mais estabelecidas de sexualidade?

De qualquer modo, o programa Fica comigo parece estar ajudando a instituir um tipo de jovem cuja sexualidade é central; assim, é possível afirmar que há uma pedagogia amorosa/sexual exercida sobre a juventude por esse programa. Mas como tal pedagogia se dirige aos jovens? Que rituais, linguagens, comportamentos e práticas são postos em ação nos encontros entre jovens no Fica comigo? Como tais processos podem ajudar a "produzir" um jeito de ser jovem e uma determinada forma de viver os relacionamentos amorosos num espaço midiático? O que esse programa pode nos sugerir sobre as práticas amorosas/sexuais da juventude na contemporaneidade?

O Fica comigo estrutura-se em duas etapas: uma que ocorre no site da MTV e outra no programa televisivo propriamente dito, "ao vivo e a cores". A participação no programa começa no site da MTV, onde os/as candidatos/as se inscrevem para se tornarem queridos ou queridas. A partir das inscrições, é feita uma seleção, e os queridos e as queridas do mês têm sua foto publicada no site com um pequeno texto. É no site que os/as interessados/as também se inscrevem para disputar um querido ou uma querida no programa.

Em continuação à etapa de participação virtual, a seqüência da procura pelo/a parceiro/a ocorre no programa televisivo. Selecionei, para esta análise, os programas entre os meses de abril e dezembro de 2001. O processo seletivo resultou em 24 programas. Desse conjunto, 11 programas tiveram como protagonistas mulheres, as queridas e seus interessados totalizaram 44, e nos outros 13 programas com queridos, houve 48 interessadas e quatro interessados (estes últimos referem-se ao programa gay). É a partir deles e delas que analiso o percurso do Fica comigo.

Quanto a sua estrutura básica, o Fica comigo acontece em cinco blocos, intercalados por comerciais e precedidos de uma abertura. O primeiro bloco compreende a chamada inicial do programa feita pela apresentadora Fernanda Lima, a apresentação de uma querida ou de um querido e seus/suas respectivos/as interessados/as e a entrega dos presentes que esses/as levam para o/a querido/a, a entrada de Fernanda Lima e as informações sobre o programa. Suas palavras iniciais apresentam o programa e explicam como participar dele. É no primeiro bloco que se apresentam os/as participantes: um/a querido/a e quatro interessados/as. Nesse primeiro bloco, o querido e a querida são encaminhados para o cantinho, lugar onde ficam durante o programa. Os/As interessados/as não podem ser vistos pelo/a querido/a até a última etapa, sendo que o/a protagonista é visto/a, todo o tempo, através de um telão.

O segundo, o terceiro e o quarto blocos correspondem às ações propostas à conquista amorosa e são denominados: o jogo, o momento sensorial e a cantada. O jogo consiste em perguntas e respostas elaboradas a partir do perfil do/a querido/a. A partir desse bloco, inicia-se a eliminação dos/as interessados/as: no jogo, quem fizer menos pontos ou menos corações (a forma como são marcados os acertos e os erros às perguntas) é eliminado da disputa. A outra eliminação se dá no momento sensorial, que está dividido em duas partes: na primeira, por meio de figuras humanas feitas na divisória do cenário, denominadas tapadeiras, o/a querido/a escolhe uma parte do corpo dos/as interessados/as para observar e apalpar. Essa parte é seguida pela etapa do toque, na qual o/a querido/a, vendado/a, por meio do toque, pode sentir os/as interessados/as. Eliminado/a mais um/a concorrente, os/as dois/duas que restaram têm que fazer uma declaração (dar uma cantada) para o/a querido/a. É o momento de conversa entre os/as participantes; os/as interessados/as também podem declamar poesias, cantar e ler textos. Ao final dessa etapa, o/a querido/a diz com quem fica.

Por fim, depois de passar pelo processo de eliminação, há a definição do/a único/a interessado/a que vai para o bloco final, o momento cara a cara. Nele, o/a querido/a pode ver seu/sua escolhido/a, e, agora, é o/a interessado/a que é vendado/a, aguardando a decisão do/a querido/a por meio de um beijo: na boca significa que "rola"; na bochecha, que é amizade.

 

MODOS DE APRESENTAR

Do conjunto de programas analisados, é possível observar o estabelecimento de alguns padrões nas formas de apresentar os/as jovens: num primeiro momento, são evidenciados os dados de identificação do/a participante, como nome, idade, signo, formação referente aos estudos, aspirações e/ou profissão; depois, são informados os gostos relacionados aos esportes ou atividades que têm a ver com o cuidado do corpo, lazer, aptidões e/ou características pessoais que poderíamos considerar genericamente como qualificações do/a candidato/a; e, por último, são feitas referências ao relacionamento amoroso/sexual.

As apresentações sugerem que os/as participantes, em geral, fazem parte de uma categoria juvenil que tem direito a uma "moratória social" (Margulis e Urresti, 1998, p. 4), ou seja, são jovens que têm oportunidade de estudar, aspirar a cursos universitários com direito a investimentos na sua formação e postergar sua entrada no mundo do trabalho. São jovens que estão se preparando para um futuro profissional, estão investindo para a obtenção de maior sucesso no mundo do trabalho, o que tem se tornado uma exigência cada vez maior num mundo competitivo e de crise social. Elaine Brandão (2004) acentua que, ao mesmo tempo em que os/as jovens, na atualidade, parecem conquistar cedo a autonomia pessoal, eles e elas mantêm-se por longos períodos dependentes dos pais em função das dificuldades de inserção no mundo do trabalho. Segundo a autora, há um descompasso entre "a autonomia, compreendida como autodeterminação pessoal, e a independência, concebida como auto-suficiência econômica" (Bandão, 2004, p. 63).

Após as informações pessoais e sobre formação educacional e profissional, são enfatizadas as características, aptidões, gostos e lazer dos/as candidatos/as, acompanhadas da situação amorosa atual e do que queridos/as e interessadas/os buscam no programa. Os/as jovens no Fica comigo são apresentados/as de forma similar. Com pequenas variações, é possível definir um perfil dos/as candidatos/as: adoram viajar, amam a praia e curtem a natureza. Praticam diversos tipos de esporte. Adoram conhecer pessoas diferentes, lugares diferentes e fazer coisas diferentes. Gostam de ir às baladas com os amigos, ouvir música, ir a shows e bares e dançar. São extrovertidos/as, agitados/as, dinâmicos/as, otimistas e bem-humorados/as. Além disso, são românticos/as, sinceros/as, carinhosos/as, divertidos/as, simpáticos/as e fiéis. Os/as participantes não são jovens apenas na idade, eles/as têm o look juvenil, uma estética marcada e vinculada ao corpo, com suas roupas e sua linguagem, eles/as são um paradigma de tudo o que é desejável.

Mas eles/as não são simplesmente divertidos/as, bem-humorados/as, românticos/as, sinceros/as. Eles/as são intensamente tudo isso. Suas características, gostos, lazer e esportes são assim descritas: é super agitada, super extrovertida, adora dançar, está sempre com um sorriso estampado no rosto, adora viajar, é muito otimista, super romântico, fascinado pela natureza, curte a vida ao máximo. Há uma integração do prazer a todos os aspectos da vida. Parece que o/a jovem não deve buscar apenas a felicidade, o imperativo é transcender e empreender uma busca incessante de prazeres, de movimento e de alegria, numa espécie de "euforia perpétua" (Bruckner, 2002).

Um/a jovem deve viver em permanente atividade, suas características devem remeter a associações com energia, euforia, alegria, movimento e, evidentemente, um belo corpo. Costa (apud Cezimbra, 2003, p. 3) identifica a atualidade com a "cultura das sensações", na qual a idéia de sofrimento está fora de cogitação, e, ao contrário disso, há sempre uma busca incessante de prazer: "Ele já nasce recebendo indicações de que não deve sofrer, mas sim buscar o prazer do sensível".

Se a felicidade é "a nova ordem moral", como afirma Pascal Bruckner (2002), em relação à juventude isso ganha contornos mais nítidos. A juventude é posicionada como o momento de viver plenamente as emoções e os prazeres. Talvez possamos afirmar que, "mais do que ter uma idade, pertencemos a uma idade" (Lloret, 1998, p. 14), ou seja, o que podemos fazer, o que devemos fazer e o que podemos ser ou não ser está relacionado ao pertencimento a uma determinada geração. Ser jovem dá prestígio. Em relação aos/às jovens, apesar de diferenças de classe, de raça e gênero ou mesmo da falta de perspectivas futuras, não são incomuns frases do tipo "o mundo é de vocês", "é uma idade de ouro", entre outras, colocando a juventude como uma época de realizações, de descobertas, de experimentações e de definições, sejam elas profissionais ou mesmo sexuais.

Juventude é uma palavra carregada de significados que podem parecer auto-evidentes. O juvenil é um modelo, e referências de saúde, êxito e equilíbrio relacionam-se ao jovem. A juventude é supervalorizada, manter-se jovem e bonito/a é um ideal da nossa sociedade. Ser jovem não é uma fase com faixa etária determinada, mas um ideal a ser alcançado. Por isso, deseja-se chegar à juventude cedo e nela permanecer por muito tempo. O culto à juventude – a vergonha de ser velho e o orgulho de ser ou parecer jovem – é o espírito atual, ou melhor, o corpo atual. Em nosso tempo, juventude está ligada a corpo e imagem e, como um produto a ser consumido, produz e comercializa mercadorias que prometem o prolongamento do tempo articulado a uma imagem juvenil (Sant'Anna, 2002).

Os/as jovens são apresentados/as e apresentam-se como light, sem estresse, dizendo adorar a vida que levam. São pessoas "de bem" com a vida, nada lhes falta, a não ser "alguém para compartilhar a felicidade para tudo ficar perfeito". As únicas expressões que indicam falta na apresentação referem-se ao relacionamento amoroso. Os/as jovens que participam do programa estão, então, insatisfeitos/as com sua vida amorosa. Um relacionamento amoroso/sexual é o que falta para completar a síntese da felicidade. De acordo com Pascal Bruckner (2002, p. 14), tal síntese reúne, entre outras coisas, sucesso profissional, amoroso e, "acima de todos eles, tal como uma recompensa, a satisfação perfeita". Em relação a esses aspectos, é possível observar um desacordo: os/as jovens do programa são apresentados/as como indivíduos felizes, intensamente de bem com a vida e, ao mesmo tempo, infelizes no amor. Isso é demonstrativo de dois movimentos concomitantes e paradoxais: de um lado, uma juventude feliz que vive a vida e seus prazeres, e, de outro, jovens infelizes que reclamam da falta de uma relação estável e duradoura. Essa falta está, pois, em contradição com a intensidade que as suas vidas parecem ter.

 

MODOS DE CONQUISTAR
AMOR E SEXO

Provas de amor e fantasias sexuais são alguns dos desafios propostos na conquista amorosa. As queridas pedem aos interessados provas de romantismo, do que eles seriam capazes de fazer para provar que são românticos, e os queridos pedem às meninas provas relacionadas ao erotismo.

As perguntas sobre provas de amor, assim como outras perguntas do jogo das queridas, não poupam as exaltações amorosas e as manifestações do amor romântico. Se o amor tem atravessado o tempo com mais continuidades do que descontinuidades, em relação aos gêneros, ele tem se colocado de forma diferente para ambos, ou seja, a relação de homens e mulheres com o amor tem tido historicamente diferentes significados e importância. A conduta adequada de gênero está intimamente relacionada a práticas sexuais e amorosas apropriadas. Os discursos em torno da identidade sexual e amorosa têm se constituído muito fortemente articulados ao gênero.

No contexto do programa, o amor está associado com relações estáveis, e uma relação romântica parece ter a ver com o namoro. "Provas de amor" – sejam elas românticas ou eróticas – são compreendidas como estratégias (ou formas) de "tirar" essa relação da rotina. Elas falam de um dilema relativo a relacionamentos duradouros; nas palavras de Jurandir Freire Costa (1998, p. 11), "o amor quando é bom não dura e quando dura já não entusiasma". O que quebra a rotina de um relacionamento, para a querida, é um ato grandioso de romantismo. Já o que quebra a rotina de um relacionamento para um querido são as ações eróticas.

Na temática amor e sexo, não tenho a pretensão de solucionar a questão ou mesmo afirmar que "amor é isso, e sexo é aquilo". O que me interessa explorar é como esses dois elementos constitutivos da sexualidade se articulam e se distinguem culturalmente. A mulher permanece do lado do amor, e os homens, do lado do sexo, o que parece que, "longe de operar uma ruptura absoluta com o passado histórico" (Lipovetsky, 2000, p. 15), há um reciclamento contínuo. Reafirma-se a representação de que os homens são sexualizados e devem ofertar romantismo se quiserem agradar às mulheres; já, ao contrário, as mulheres, que são "naturalmente" românticas, devem expressar erotismo para encantá-los.

As garotas são (ou devem ser) portadoras de um corpo sedutor, carregado de sexualidade. Elas são convocadas ao prazer por meio do desejo e da fantasia dos garotos. Reafirma-se a conceptualização do masculino como o ativo na sexualidade, é como se os homens despertassem a sexualidade que reside no corpo feminino. A sexualidade feminina é complementar à sexualidade masculina. Embora as garotas sejam representantes do amor e do romantismo, são-lhes solicitadas práticas eróticas com o fim de agradar a seu parceiro.

A oposição entre amor e sexo não é uma divisão neutra. Os trabalhos feministas têm demonstrado que a separação entre amor e sexo é generificada. Mulheres são identificadas com o amor, e homens, com o sexo. Para muitas mulheres, amor e desejo sexual são mais próximos e associados do que entre os homens. Ou melhor, as conexões entre amor e sexualidade são mais atribuídas às mulheres; já para os homens, sexo e amor são dissociados e, eventualmente, podem acontecer juntos.

Examinando a iniciação sexual entre as mulheres, Michel Bonzon (2003) observa que, independentemente da idade em que ocorre a iniciação, as garotas declaram que essa iniciação aconteceu com um parceiro pelo qual tinham amor. As diferenças quanto ao conteúdo e à abordagem entre as perguntas das queridas e as dos queridos do programa aqui estudado e selecionadas nesta seção estão conectadas à oposição binária entre o amor e o sexual e podem ser emblemáticas das diferenças das relações de gênero e sexualidade: de um lado, provas de amor, provas de romantismo e definições de amor propostas no jogo das queridas; de outro lado, fantasias, fetiches e propostas de cenas eróticas e insinuantes no jogo dos queridos.

A associação entre mulheres e histórias sentimentais e amorosas tem se construído de forma naturalizada e universal. Na perspectiva de Anthony Giddens (1993), o romance, tal como se constituiu no século XIX, tanto expressou as mudanças nos relacionamentos quanto contribuiu para as suas modificações. As novelas, as histórias de amor, muitas escritas por mulheres, disseminaram-se por entre a população, fazendo com que as influências do amor romântico, que, num primeiro momento, estavam restritas à burguesia, fossem de alguma forma difundidas para a ordem social como um todo.

Desde os folhetins impressos em jornais da França no século XIX, que, ainda no mesmo século, se expandiram para países do mundo ocidental, as histórias românticas, de acordo com Heloísa Buarque de Almeida (2002), direcionavam-se para o público feminino. Ou seja, as narrativas melodramáticas eram, desde essa época, associadas às mulheres, mesmo que em sua maioria fossem escritas por homens ou mesmo que tivessem um público masculino entre seus leitores. Isso não invalidava a feminilização da narrativa e seu direcionamento às mulheres

Se as produções culturais com histórias amorosas têm a ver com o feminino, no Fica comigo, garotos e garotas ocupam lugares semelhantes na conquista amorosa: o papel de querido/a e de interessada/o é ocupado a cada semana por eles e elas de forma alternada. Se, anteriormente, as mulheres ocupavam quase invariavelmente o lugar de quem era cortejada, no contexto do programa, elas são ativas na conquista (algumas vezes, mais ousadas nas suas investidas do que os meninos). Pode-se afirmar que ocorre, então, uma maior fluidez nas relações de gênero com essa dinâmica?

O lugar de quem corteja, tradicionalmente considerado um lugar masculino, no programa é deslocado. Não sem algumas resistências: um querido levou uma rosa para cada uma de suas interessadas. Pediu que Fernanda Lima entregasse as rosas e, antes disso, beijou cada uma das flores, que foram, então, dadas às interessadas. Outro querido preparou uma poesia para as interessadas: "As melhores e mais lindas coisas do mundo às vezes não se pode ver, elas devem ser sentidas assim com o coração. Uma delas será aquela que eu escolher, pois usarei meu coração para poder lhe conhecer". Ambos fizeram a corte às garotas parecendo "marcar território". É interessante mostrar como – apesar de estar no lugar de quem recebe a corte – esses rapazes recuperaram ou reafirmaram o papel de homem como conquistador, como agente, iniciador da corte amorosa. Apesar disso, tal como os outros queridos, não pareciam desconfortáveis pelo fato de também serem cortejados. Isso sugere que, em circunstâncias ou contextos diferentes, os sujeitos podem ocupar diferentes lugares. Ou talvez possamos pensar que, nos relacionamentos atuais, há uma maior flexibilidade nas posições de gênero e nas suas relações no que concerne à conquista amorosa/sexual.

Além de grandes provas românticas, as meninas também questionam o comportamento dos interessados em situações que dizem respeito à primeira vez. As queridas investigam se seus pretendentes são gentis e cavalheiros, propondo que respondam questões relativas ao primeiro encontro e ao primeiro beijo, por exemplo.

Há uma preocupação entre as queridas de que não aconteça um primeiro encontro com relações sexuais. Um primeiro encontro, um primeiro beijo, para ser considerado romântico, deve ter respostas "sem malícia", que não sugiram intimidade física. A aproximação deve ser tímida, jamais explícita. Um encontro romântico, tal como concebido aqui, parece manter ideais e aspirações que o colocam além de uma relação carnal. Para ser diferenciado da atração sexual, o romântico deve ser desinteressado e exaltar os sentimentos.

Em relação à primeira vez, os queridos abordam o momento certo de transar, ou seja, eles questionam as interessadas quanto ao momento ideal de ter relações sexuais e quanto ao ter ou não iniciativa. A virgindade não parece ser um valor para os/as participantes, o tabu não está propriamente no ser virgem e na preservação desse estado; mas, sim, na iniciativa masculina. A elas, cabe esperar, e, aos meninos, cabe a obrigação de tomar a iniciativa. Essas questões no jogo que remetem à primeira transa no relacionamento podem ser indicativas dos lugares fixos que ocupam meninas e meninos nos relacionamentos amorosos.

No entanto, se a perspectiva romântica parece percorrer o jogo das meninas de forma linear e uniforme, o mesmo não acontece com o erotismo no jogo dos meninos. As questões sobre fantasias sexuais, por exemplo, têm especificidades que são importantes de enfatizar. Um programa, entre outros, que abordou fantasias/fetiches foi o programa do querido gay.

No programa gay, o clima esquenta, seja pelas respostas de alguns interessados ou mesmo pela introdução de Fernanda Lima de assuntos que jamais abordou em qualquer outro programa, como os sex shops e o uso de chicote, por exemplo. O jogo do querido gay, além de aludir a fantasias, caracterizou-se por um tom elevado de erotismo.

A linguagem erótica do sexo parece ser masculina e, predominantemente, homossexual. O homossexual é um sujeito marcado pela sexualidade – dele se espera que toda a existência seja regida pela sexualidade. Talvez por essa representação de identidade, as fantasias e os fetiches "renderam" mais ou foram mais explorados nos programas do jovem gay. Uma série de comentários, de algum modo, deram um tom de hipersexualidade nesse programa.

A sexualidade é um tema de controvérsias que articula em torno de si vários discursos e saberes. Ao longo da história ocidental, tem sido uma forma de poder, de controle e de incitamento. Conforme Guacira Louro (2000, p. 64),

a sexualidade vem sendo descrita, compreendida, explicada, regulada, saneada, educada, normatizada, a partir de várias perspectivas e campos disciplinares, constituindo-se em meio a propósitos e interesses igualmente variados. Não basta, contudo, descrevê-la ou demarcá-la como uma área multidisciplinar, é preciso reconhecer que essa foi – e é – uma área em disputa.

A construção discursiva da sexualidade tem produzido verdades particulares, sendo uma delas a que define a relação heterossexual como natural e inevitável e a posiciona como hierarquicamente superior. A naturalização da heterossexualidade significa que ela é raramente reconhecida como uma forma específica de sexualidade, como uma categoria sexual e de identificação. A heterossexualidade representa a "invisibilidade da norma". No dispositivo da sexualidade, o casal legítimo, nos diz Michel Foucault (1985), era relegado ao "esquecimento", não que não houvesse normas e regras rígidas – elas eram mais silenciosas.

A divisão heterossexual/homossexual constrói identidades sexuais fixas: há uma sexualidade "normal" a partir da qual se olham outras sexualidades, consideradas desviantes. Existe uma lógica heterossexual que se relaciona aos valores, aos comportamentos e às normas sociais. Essa lógica é tão atuante em nossa cultura, que não são incomuns afirmações que identificam a lésbica, por exemplo, como um homem num corpo de mulher. Outro exemplo apoiado na lógica heterossexual é o das tentativas de identificar, entre casais de gays e lésbicas, quem faz o papel feminino e o masculino e, no caso de haver filhos, quem cumpre o papel de mãe e o de pai. A heterossexualidade está apoiada em uma lógica que supõe um alinhamento entre sexo, gênero e sexualidade. A partir daí, há uma idéia comum de que todas as pessoas devem ser heterossexuais em oposição aos considerados desviantes, denominação dada aos que, de alguma forma, rompem com essa seqüência (Louro, 2005).

As perspectivas teóricas apoiadas na teoria cultural sobre a sexualidade são instigantes para examinar a construção da normalização e, com isso, a criação de determinados limites rígidos nos sentimentos, nos desejos e nos atos: "A heterossexualidade é concebida como ‘natural' e também como universal e normal. Aparentemente, supõe-se que todos os sujeitos tenham uma inclinação inata para eleger, como objeto de seu desejo, como parceiro de seus afetos e de seus jogos sexuais, alguém do sexo oposto" (Louro, 1999, p. 17). Apesar de a heterossexualidade ser apresentada como natural, fixa e estável, há no seu interior uma diversidade de arranjos e sentidos, e não um sujeito ou uma comunidade heterossexual unificada (Richardson, 1996). Um desses arranjos é possível observar entre os/as jovens no Fica comigo.

Duas polaridades são indicadas no jogo: entre homens e mulheres e entre a sexualidade normal e anormal. Apesar de serem apresentados como opostos, amor e sexo estão dentro da lógica heterossexual que determina as relações tradicionais. Não é possível pensar a heterossexualidade desvinculada dos gêneros; ou melhor, é importante observar que os sentidos dependem das divisões de gênero. Além do gênero, a atração e o desejo são definidos como atração e desejo pela diferença (sexual). Então, o desejo, o relacionamento, a intimidade, como locais específicos de prática de amor e de sexo, são definidos pelas normas de gênero e da heterossexualidade (Richardson, 1996). A heterossexualidade não é apenas uma forma de conceptualizar o sexual, mas também a forma (legitimada) de viver os prazeres, a intimidade, o amor e a família. Nesse sentido, há uma aproximação entre o programa gay e os programas heterossexuais.

A avaliação dos agrados românticos, dos agrados eróticos e dos comportamentos na primeira vez são temperados com problemáticas características de uma relação amorosa, tais como ciúme e traição. Num programa em que fidelidade versus traição, sinceridade versus mentira são exaustivamente colocadas e em que os primeiros elementos desses pares binários são fundamentais para um bom relacionamento, as questões ou os dilemas que envolvem esses temas tornam-se polêmicos.

O grande amor, o romantismo e sua idéia de completude banem do campo toda e qualquer flexibilidade quanto à fidelidade. A fidelidade não se refere só às leis, mas aos sentimentos, e, nesse caso, o vínculo estável exige exclusividade. Eu diria que, às vezes, é possível perceber na fala dos/as jovens um recrudescimento das leis da monogamia. No Fica comigo, os/as jovens exaltam os sentimentos e os sonhos apaixonados. Algumas vezes, eles e elas parecem achar que um determinado modelo de relação está sendo perdido, que em algum lugar do passado havia mais felicidade entre homens e mulheres nas suas relações afetivas.

Como a traição é julgada num relacionamento entre esses/as jovens? E eu não vejo termo melhor do que julgamento, pois implica confessar, perdoar ou não, negar até o fim. A traição é considerada grave e imperdoável num relacionamento, não importando as circunstâncias que a tenham gerado. A própria palavra utilizada pelos/as jovens, "trair", carrega o peso de um ato imperdoável. Como contrapartida, a fidelidade é algo precioso. Daí que fidelidade talvez seja um dos maiores diferenciais entre um relacionamento estável e duradouro e um relacionamento transitório.

A traição está relacionada a queixas dos/as jovens na dificuldade de terem um namorado/a. Admitir a traição ou perdoá-la, nesse contexto, parece estar mais ligado a um tipo de relação que eles/elas supostamente não querem mais, ou seja, a relação descomprometida, sem exclusividade do/a parceiro/a. As questões sobre traição, ou melhor, a rigidez em relação a ela, pode ser pensada, talvez, no mundo contemporâneo, como um efeito em relação à AIDS e seus riscos maiores em caso de se terem mais parceiros/as. Mas também pode estar relacionada com a exigência maior face ao/à parceiro/a, na medida em que interromper uma relação insatisfatória coloca-se no horizonte dos casais, tal como comprova o aumento das taxas de divórcio e de separações (Bonzon, 2003).

Embora não possamos afirmar o fim das esperanças românticas, essas taxas também podem significar que as pessoas não permanecem mais em relações que, de alguma maneira, não lhes trazem satisfação, o que é demonstrativo de um maior ceticismo ou descrença quanto à durabilidade dos relacionamentos. Os casamentos acontecem em uma ou mais tentativas, e isso pode indicar o quanto as pessoas estão decididas a não viver sem amor: "A maioria das pessoas ainda se casa e essa característica-chave da heterossexualidade institucionalizada não parece estar ameaçada. Mas, em uma considerável medida, a idéia de que o casamento é para toda a vida parece ter sido abalada" (Weeks, 1999, p. 77-78). Ou seja, as taxas de separação são demonstrativas da contingência e transitoriedade dos laços formais e legais e dos relacionamentos amorosos não institucionais. Embora o casamento não seja abordado no programa, os/as jovens parecem desejar instalar-se em uma relação fixa e fiel. Elas/eles buscam encontrar um par mais de acordo com suas expectativas e viver com ele ou ela uma relação prolongada a dois calcada na qualidade dos sentimentos.

O Fica comigo, como um programa de namoro, valoriza as relações estáveis. Da mesma forma, alguns/as jovens lamentam a inconstância dos relacionamentos atuais ao se apresentarem como "cansados/as de ficar", parecendo buscar relacionamentos duradouros. Isso é demonstrado nas divergências de comportamento, através das queixas de um/a e de outro/a a respeito do que cada um/a quer de um relacionamento. Embora essas queixas apareçam mais com as meninas, elas não são exclusivas delas. De forma paradoxal, as queixas dos meninos dizem respeito ao fato de as garotas preferirem homens sem-vergonha e de eles, os mais românticos, serem dispensados e trocados pelos mais "atirados" e cafajestes. É possível entender, pois, que o conflito amoroso pode ser atribuído a ambos os sexos. A insatisfação amorosa é relativa à falta de perspectiva de um relacionamento que tenha compromisso e que permita trilhar juntos uma vida amorosa.

Um levantamento com jovens brasileiros/as conclui que "o comportamento sexual ganhou liberdade, mas as ansiedades, a emoção e, por que não?, o amor, ainda estão aí" (Sant'Anna, 2003, p. 69) . No Fica comigo, o romance mistura-se com blocos mais ousados que demonstram o que foi conquistado com a "liberação sexual": a ousadia, a flexibilidade e a explicitação do corpo. Além disso, os garotos alternam os lugares com as garotas. Se as mulheres ocupavam o lugar de quem era cortejada, no contexto do programa, elas são ativas na conquista. O que não significa que não haja mais distinção entre garotas recatadas e difíceis e garotas fáceis, ou mesmo que os garotos não sejam mais avaliados pela sua capacidade de conquistas sexuais. No levantamento antes referido, um aspecto que parece ter coro entre os jovens brasileiros é o fato de julgarem mal as meninas que encaram uma relação sexual na primeira vez, salvo em casos de paixão fulminante. E um dos receios das meninas é com o dia seguinte, se, depois de uma "transa", o menino vai ligar ou não. Apesar dessas marcações de "posições" de gênero mais tradicionais, são inegáveis as mudanças ocorridas no campo da sexualidade. As relações sexuais estão hoje incluídas na vida das jovens, e os meninos parecem bastante envolvidos com as questões amorosas.

 

O CORPO E O CORAÇÃO

A centralidade do corpo pode ser observada no Fica comigo. No programa, a conquista amorosa inclui o corpo como um elemento de eliminação ou vitória do/a candidato/a. No momento sensorial, numa primeira etapa, uma parte do corpo dos/as interessados/as é examinada nas figuras humanas que dividem o cenário.

A parte escolhida é supostamente um objeto de desejo do/da querido/a, e é para essa parte que ele/ela dirige o olhar ao conhecer alguém. Quando o corpo é descortinado, seus adornos aparecem: os piercings, os anéis, as tatuagens, os enfeites. Aparecem também os músculos sarados, trabalhados em academia, e aqueles corpos que estão fora da norma. São marcas que fazem sentido nesse contexto contemporâneo como definidoras de uma cultura juvenil. O corpo, como afirma Louro, se constitui de "uma multiplicidade de sinais, códigos e atitudes, produz referências que fazem sentido no interior da cultura e que definem (pelo menos, momentaneamente) quem é o sujeito" (Louro, 2003, p. 5).

Temos certeza de estar assistindo a uma cena do mundo contemporâneo, a supervalorização do corpo e a corporeidade como o lugar de regras e modelos. De um corpo que era estabelecido como oposição à alma, ao espírito, à razão e à mente e, dentre esses pares binários, era considerado "como o elemento menos nobre" (Louro, 2003, p. 1), passou a um corpo que ascendeu a "valorizações que o transformam numa entidade tão radiosa quanto outrora fora a alma" (Sant'Anna, 2000, p. 237).

A centralidade do corpo na nossa sociedade e nesse programa de TV em particular mostra-nos que a conquista amorosa está conectada ao modo como os indivíduos vivem e valorizam seus corpos. No momento sensorial, em especial, há fortemente um apelo ao corpo e à sensualidade. Nesse momento, o corpo é visto, apalpado e determina a eliminação ou a vitória na disputa. Um corpo fora de forma é um corpo sob suspeita, principalmente, se levarmos em conta que vivemos sob a crença de que os cuidados estão ao alcance de todos, basta querer. Portanto, o indivíduo é considerado o único responsável pela boa aparência e o bom desempenho de seu corpo e por mantê-lo em forma.

Queridos e queridas, no momento sensorial, examinam os corpos dos/das interessados/as e, na próxima etapa, a da cantada, fazem elogios e exaltações amorosas por meio de serenatas, de poesias, de versos, de declarações de amor e de promessas. Por um lado, há um apelo ao corpo, à sensualidade e ao erotismo; por outro, o apelo dirige-se à voz do coração, à essência do amor.

Ao dar uma cantada, os/as interessados/as utilizam elementos semelhantes ao da "corte". Os/As jovens fazem declarações de amor, louvam a pessoa a ser conquistada e fazem a promessa de que serão sérios/as e afirmam querer viver um relacionamento duradouro (ao invés de prometer casamento) (Lipovetsky, 2000). O tom romântico sobe, e os jovens, independentemente de serem garotos ou garotas, louvam o amor e os seus rituais. Ao mesmo tempo, tudo isso acontece num ambiente jovial, alegre, animado e com muita leveza. Apesar do uso de exaltações poéticas, de um superinvestimento na linguagem do coração, as regras e os protocolos de sedução nem de longe conferem ao amor uma existência sagrada. O que parece haver é mais uma teatralidade referente à corte. Esta, que costumava levar um tempo longo, no programa tem de ser resolvida em poucos minutos.

Com a análise do Fica comigo é possível afirmar que uma moralidade sexual e do corpo menos restritiva não é, por si mesma, indicativa de que o amor romântico está perdendo a importância na vida emocional, mas faz algumas diferenças. Junto a citações de práticas românticas tradicionais, é possível observar deslocamentos, mudanças nas formas de os/as jovens se relacionarem com a sexualidade e, conseqüentemente, com o amor.

Na medida em que nosso mundo contemporâneo é marcado pela contingência, pela instabilidade, mobilidade e transitoriedade, é provável que vejamos mudanças nos modos como nos relacionamos com os nossos corpos e com a nossa sexualidade. Nesse sentido, é bem provável que as relações amorosas, na contemporaneidade, estejam diferentes – mais temporárias, provisórias, contingentes. Isso possibilita pensar que encontros amorosos e afetivos entre os/as jovens estão em processo de mudança, que podem indicar as incertezas que caracterizam o mundo contemporâneo, e não, simplesmente, a reafirmação de um determinado passado.

Em alguma medida, as mudanças produzidas pelas transformações do corpo, do prazer e da sexualidade não têm deixado de fora as relações tradicionais. Elas acoplam-se ao "novo", embora, ao mesmo tempo, seja possível afirmar que tais mudanças são perturbadoras das tradicionais formas de viver e se relacionar. O programa mostra um movimento nessa direção quando põe no ar uma sexualidade ampla e voltada à busca do prazer e da alegria, ao mesmo tempo que também põe em campo uma recomposição das relações tradicionais, demonstrando, com isso, o caráter contraditório e paradoxal das relações.

A MTV recria, por meio de jogos e disputas, as relações de amor e sexualidade disponíveis na cultura em tempos diversos. O passado é mais reconhecível, e o amor romântico, seus rituais e clichês são familiares, são históricos. No programa, unem-se a outros processos distintos que já acontecem, são processos em andamento que estão se constituindo. A sexualidade feminina, afirma Elizabeth Grosz (2003), e podemos também incluir a sexualidade e os relacionamentos de forma mais geral, é uma referência ao passado, mas é também o porvir, o que se constitui a cada momento, a cada nova experiência: "A sexualidade é um sistema aberto: seu futuro não está necessariamente compreendido ou constrito em seu passado" (Grosz, 2003, p. 8-9). A referência ao passado é uma descrição do que foi e do que ainda acontece, e o outro movimento inventa, antecipa o que pode vir a ser.

As práticas amorosas/sexuais da juventude contemporânea, espiadas através do Fica comigo, carregam os rastros do amor romântico, seus clichês e fórmulas e, ao mesmo tempo, instituem novas formas e linguagens para os encontros e trocas entre os sujeitos.

 

REFERÊNCIAS

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Recebimento: 01/06/2007
Aprovação: 15/09/2007

 

 

1 Os termos produzidos no programa serão grafados em itálico.
2 GLS é uma sigla que corresponde a gays, lésbicas e simpatizantes.