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Educação em Revista

Print version ISSN 0102-4698

Educ. rev. vol.27 no.1 Belo Horizonte Apr. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-46982011000100014 

DOSSIÊ
(AUTO)BIOGRAFIA E EDUCAÇÃO: PESQUISA E PRÁTICAS DE FORMAÇÃO

 

Apresentação

 

 

Elizeu Clementino de SouzaI; Maria da Conceição PasseggiII

IDoutor em Educação pela Universidade Federal da Bahia (UFBA); Professor Titular da Universidade do Estado da Bahia (UNEB); Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Educação e Contemporaneidade (PPGEduC/UNEB); Pesquisador CNPq. E-mail: esclementino@uol.com.br. Ação em Educação e Contemporaneidade da Universidade do Estado da Bahia (UFBA). E-mail: esclementino@uol.com.br
IIDoutora em Linguística pela Université Paul Valéry Montpellier 3 e Professora Titular do Centro de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). E-mail: mariapasseggi@gmail.com

 

 

Creio que todas as palavras que vamos pronunciando,
todos os movimentos e gestos, concluídos ou somente
esboçados [...] podem ser entendidos como peças soltas de uma
autobiografia não intencional [...] Esta convicção de que tudo
quanto dizemos e fazemos ao longo do tempo, mesmo
parecendo desprovido de significado e importância, é,
e não pode impedir-se de o ser, expressão biográfica,
levou-me a sugerir um dia, com mais seriedade do que
à primeira vista possa parecer, que todos os seres humanos
deveriam deixar relatadas por escrito as suas vidas.

José Saramago1

 

As ideias de Saramago contidas na epígrafe nos ajudam a introduzir questões específicas e contemporâneas sobre as relações entre (auto)biografia e educação. Se concordarmos com Saramago (2008) que estamos sempre a nos autobiografar e que "todos os seres humanos deveriam deixar relatas por escrito as suas vidas" é, sem dúvida, tempo de levar a sério movimentos e gestos, intencionais ou não, de expressão biográfica e o lugar que ocupam as escritas de si na modernidade avançada. As histórias de vida, narrativas literárias, relatos históricos, contados ou escritos, cantados ou videogravados, que constituem a desmesurada biblioteca da experiência humana, nos instigam a refletir, sem nenhuma pretensão de legislar, sobre a intencionalidade humana de deixar gravadas marcas do existir, desde breves epitáfios a diários íntimos de inúmeras páginas.

A passagem de autobiografias não intencionais para o ato deliberado de fazer das escritas de si um dispositivo de formação, em educação, e de narrativas de vida um método de pesquisa nas Ciências Humanas e Sociais, foi alvo, ao longo do século XX, de defesas e críticas contundentes, rejeições e militâncias, recuos e avanços no campo científico. Duas noções podem ser colocadas no centro dessas discussões: a de experiência existencial, por dizer respeito à subjetividade de quem narra, e a de interpretação, por subentender opiniões, crenças e valores na compreensão dos acontecimentos relatados, tanto por parte do sujeito que narra sua história quanto por parte do pesquisador que dá sentido a essas vidas para fazer história. O desafio posto por essas noções para a pesquisa científica é o da construção da realidade pelo viés do texto narrativo escrito na primeira pessoa, o que põe em risco a busca de verdades universais, propostas pelas ciências naturais e os métodos positivistas.

A pesquisa (auto)biográfica em educação aposta na interpretação dos que constroem/vivem a história. Nesse sentido, ela tem um interesse particular por (auto)biografias de educadores e pelos processos de biografização de professores em formação, mas também de crianças, jovens e adultos. Admite que nessas narrativas se evidenciam as relações entre as ações educativas e as políticas educacionais, entre histórias individuais e história social. Seus princípios epistemológicos se inscrevem, portanto, em abordagens qualitativas, que reconhecem as margens de resistência do sujeito e admitem que no ato de narrar sua história as instabilidades e incertezas se tornam experiências refletidas. E são, justamente, essas experiências e margens de manobra que permitem propor um educar e formar diferenciados.

A organização deste dossiê nasce de parcerias entre pesquisadores brasileiros, latino-americanos e europeus que vêm colaborando em distintas atividades de pesquisa e de ensino, com ênfase nas narrativas (auto)biográficas. As discussões sobre os fundamentos epistemológicos da pesquisa (auto)biográfica e os olhares lançados sobre as relações entre (auto)biografia e educação partem de realidades próprias da história e das inquietudes educativas dos pesquisadores de cada país. O seu objetivo é, portanto, apresentar em terrenos diversificados conceitos e questões epistemológicas e de método da pesquisa com fontes (auto)biográficas e, mais especificamente, no que diz respeito às aproximações entre práticas de formação e trabalho docente.

No contexto brasileiro, as pesquisas desenvolvidas na pós-graduação em Educação, centradas em fontes (auto)biográficas, decorrem da criação e do empenho de grupos de pesquisas que se voltam para as narrativas autorreferenciais e investigam os aportes teórico-metodológicos do trabalho com as escritas de si como prática de pesquisa-ação-formação e como método de investigação em diversas áreas do conhecimento em educação. O investimento desses grupos permitiu a criação de linhas de pesquisa na pós-graduação e o desenvolvimento de projetos variados com financiamento de agências de fomento internacionais, nacionais e locais. Esse movimento vem, inegavelmente, contribuindo para a ampliação da pesquisa educacional, no Brasil, notadamente no terreno da História da Educação e das práticas de formação que constituem as duas vertentes com maior produção nessa área. É ainda importante sublinhar a diversidade das temáticas investigadas por esses grupos de pesquisa, que vêm permitindo diálogos frutíferos com pesquisadores europeus e das Américas, atuando em diferentes disciplinas.

A visibilidade do trabalho docente, da memória, do cotidiano escolar e das práticas de formação decorre da divulgação de resultados de pesquisa em fóruns diversos e das interfaces entre grupos e laboratórios de pesquisas, nacionais e internacionais, que vêm contribuindo para reafirmar o movimento da pesquisa (auto)biográfica e se consolidar na pós-graduação em educação, em todas as regiões do Brasil.

Os seis textos que integram o dossiê "(Auto)biografia e Educação: pesquisa e práticas de formação" partem de reflexões sobre pesquisas desenvolvidas na França, no México, na Argentina e no Brasil e resultam de atividades de cooperação científica entre os autores, seus grupos e laboratórios de pesquisa.

As discussões sobre "Fundamentos epistemológicos da pesquisa (auto)biográfica em educação" são apresentadas por Christine Delory-Momberger, professora da Universidade de Paris 13. A autora busca examinar e especificar a pertinência epistemológica da pesquisa biográfica em educação, estabelecer as bases "científicas" ou, pelo menos, reflexivas, discutindo categorias tais como trabalho biográfico, biografização, aprendizagem biográfica e seus rendimentos para a compreensão dos processos de formação e de aprendizagem. Essa busca dos fundamentos passa, em primeiro lugar, pelas origens sócio-históricas dos modelos de construção biográfica e exige, em seguida, que sejam definidas as dimensões do biográfico sobre as quais se fundamentam as relações entre biografia e educação.

As questões problematizadas por Michel Fabre, professor da Universidade de Nantes, em seu artigo "Fazer de sua vida uma obra", potencializam-se na concepção da narrativa de vida entre práxis e poiese. Situando-se numa perspectiva filosófica, o autor procura sublinhar os paradoxos e as aporias às quais nos expõem a ideia de fazer da vida uma obra e, notadamente, uma obra de arte. A produção|fabrição de "uma escultura de si" remete a tensões e dilemas e implicam relações entre estética, ética e moral. Remontando ao pensamento aristotélico, Fabre procura retraçar a gênese da expressão, ao longo da história, e apoia-se nas contribuições de Paul Ricoeur para pensar as escritas de si no campo da educação e da formação.

O artigo de Maria da Conceição Passeggi, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Elizeu Clementino de Souza, da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), e de Paula Perin Vicentini, da Universidade de São Paulo (FEUSP|USP), intitulado "Entre a vida e a formação: pesquisa (auto)biográfica, docência e profissionalização", partilha questões teórico-metodológicas que orientam o projeto em andamento, "Pesquisa (auto)biográfica: docência, formação e profissionalização", financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior, no âmbito do Programa de Cooperação acadêmica (CAPES-PROCAD/NF-2008), envolvendo os grupos de pesquisa que coordenam. O texto apresenta um panorama da pesquisa (auto)biográfica, sintetiza marcos do processo histórico da profissionalização docente no Brasil e tece considerações sobre as potencialidades da pesquisa com fontes (auto)biográficas para a pesquisa educacional.

Daniel Suarez, da Universidade de Buenos Aires (UBA), no artigo "Relatos de experiencias, saber pedagógico y reconstrucción de la memória escolar", apresenta as dimensões políticas e pedagógicas da "documentação narrativa de experiências pedagógicas". Constituída por relatos de professores, a documentação narrativa se realiza num trabalho colaborativo sobre a memória docente e processos educativos. Para o autor, trata-se de outra mirada sobre o mundo escolar, seus tempos e seus ritmos, culturas e poderes e pretende ser uma alternativa à documentação dominante e uma modalidade de produção do saber pedagógico, a ser divulgada e preservada. O pioneirismo do trabalho, empreendido pelo coletivo docente e o "Grupo Memória e Documentação Narrativa" da Faculdade de Filosofia e Letras da UBA, destaca-se por sua vertente político-formativa, que transforma a memória em documentação pedagógica e promove mudanças no campo educativo.

A discussão sobre narrativas biográficas e memória docente é retomada por Rosa Maria Torrez Hernandez, da Universidade Pedagógica Nacional do México, no texto intitulado "O sentido das instituições escolares na profissão docente desde a perspectiva biográfica". A partir de autobiografias elaboradas por professores universitários, doutorandos e professores da educação básica, em um seminário sobre a pesquisa educativa, por ela ministrado, busca analisar significados e sentidos atribuídos pelos narradores às instituições escolares, especialmente no que se refere aos discursos, às trajetórias pessoais e profissionais, bem como às contradições e aos conflitos experienciados na profissão e no trabalho docentes.

O texto "Tão longe, tão perto: escrita de si em relatórios de viagens", de Ana ChrystinaVenancio Mignot, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), e da doutoranda Alexandra Lima da Silva (UERJ), situa-se na perspectiva da História da Educação e explora relatórios de viagens de três professores que integraram, no início da República, a primeira missão oficial de educadores brasileiros ao continente europeu, com vistas a estudar o sistema educacional de vários países. A originalidade da proposta das autoras é a de considerar os relatórios como escrita autobiográfica e fontes históricas. E mais do centrar-se em conclusões e proposições sobre a organização escolar e condições de trabalho docente nos países visitados, as autoras focalizam, nos relatórios, rastros peculiares e intimistas dos modos de ver dos viajantes, modos esses que emergem de uma escrita obrigatória, fadada à impessoalidade.

As implicações e os limites de "movimentos e gestos" autobiográficos abrem possibilidades diversas de enraizamento do trabalho biográfico na vida. Esses movimentos e gestos, tomados como fundamentos constitutivos de intencionalidades pessoais, políticas, pedagógicas, estéticas e morais, desafiam a investigação científica em educação. Desejamos que o presente dossiê contribua para a ampliação dos horizontes da pesquisa educacional sobre as relações entre (auto)biografia e educação e favoreça o fortalecimento do movimento biográfico socioeducativo que se consolida no Brasil, num diálogo entre grupos de pesquisa brasileiros, latino-americanos e europeus que se vinculam a redes de investigação científica que tomam o biográfico como método de pesquisa e prática de formação.

 

Salvador, Natal, verão de 2011.

 

 

 

NOTA

1 SARAMAGO, José. Biografias. Em O caderno de Saramago, 22 de setembro de 2008, http://caderno.josesaramago.org, acessado em 12 de outubro de 2008.         [ Links ]

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