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Educação em Revista

versão impressa ISSN 0102-4698

Educ. rev. vol.28 no.1 Belo Horizonte mar. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-46982012000100017 

ARTIGOS

 

Juventudes, conectividades múltiplas e novas temporalidades

 

Youth, multiple connectivities and new temporalities

 

 

Suzana Feldens SchwertnerI; Rosa Maria Bueno FischerII

IPsicóloga Clínica e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); realizou doutorado-sanduíche na Arizona State University. Pós-Doutora Júnior na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) com apoio do CNPq; Professora do Centro Universitário (UNIVATES). E-mail: suzifs3@hotmail.com
IIPesquisadora I do CNPq e Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGEDU) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). E-mail: rosabfischer@terra.com.br

Contato

 

 


RESUMO

O artigo trata das relações entre juventudes e novas temporalidades, num tempo marcado por diferentes modos de sociabilidade e de conexão digital. Discutimos efeitos das mudanças tecnológicas nos modos de relacionamento jovem, partindo de dados de uma pesquisa sobre o uso do tempo em relação ao consumo cultural de jovens de uma escola pública da região metropolitana de Porto Alegre (RS). Para pensar tais questões, utilizamos as bases teóricas de Carles Feixa, Carmen Leccardi, Maria Rita Kehl, Néstor García Canclini, Paulo Carrano e Juarez Dayrell, entre outros estudiosos. O foco está nos grupos jovens, em relação a indagações sobre tempo e protagonismo, tempo e desejo de conexão permanente, tempo e imediatismo das relações, tempo e nostalgia precoce.

Palavras-chave: Juventude; Conectividade Digital; Temporalidade.


ABSTRACT

This study deals with relations between youth and new temporalities, in a digital connectivity era. We discuss the effects of technological changes in youth relationship from research data about time use in relation to cultural consumption of young people in a public school in the metropolitan region of Porto Alegre (Rio Grande do Sul). To think on those issues, we consider the theoretical framework of Carles Feixa, Carmen Leccardi, Maria Rita Kehl, Néstor García Canclini, Paulo Carrano, Juarez Dayrell and others. We focus on youth groups, on questioning time and significant subjects for contemporary youth, as role, desire for permanent connection, immediacy of the relationship, and early nostalgia.

Keywords: Youth; Digital Connectivity; Temporality.


 

 

People just don´t know
that we are not all gangbangers or drugdealers
We are people too
We did not all cross the boarder
for some of us the boarder crossed us
We don´t always go looking for truble
trubles sometimes come to us
So you can´t say you know me
cause you don´t
You don´t know where I´m coming from
and you don´t know where I´m going
(Julio, 14 anos, citado em LECCARDI e RISPINI, 2006)1.

 

Juventude: um período de vida obscuro, incerto, repleto de insegurança e instabilidade? Juventude: lugar da irresponsabilidade, da ansiedade, da alienação, das experiências de risco e violência? Juventude, afinal: sempre um problema? O senso comum parece insistir numa discursividade que associa o jovem a alguém muitas vezes perdido em um corredor escuro, para o qual só resta a "luz" do mundo adulto – lugar do equilíbrio e da autonomia, muito distante daqueles tempos e lugares incertos e tortuosos por ele vividos. No depoimento do estudante italiano Julio, citado na epígrafe, escutamos um pedido que possivelmente seja o de muitos brasileiros de seus 15 ou 25 anos, de que tal discursividade seja rompida, já que vivemos outro momento, e nele certamente os velhos enunciados sobre "ser jovem" precisam ser revistos, ainda mais considerando as novas temporalidades experimentadas por todos nós e, de modo especial, o convívio diário com imagens, textos midiáticos e modos diversos de comunicação virtual.

Neste artigo2, tratamos do tema das juventudes contemporâneas e de suas formas de sociabilidade3, nesta era de conectividades digitais, com foco na discussão sobre o tempo e as temporalidades. Inicialmente, dedicamo-nos a situar relevantes achados de recentes pesquisas sobre de juventudes, na América Latina, com destaque para o que vem sendo estudado com relação a ciclos, fases, idades, velocidades; em seguida, debatemos alguns aspectos relativos à relação entre tempo e juventude; posteriormente, apresentamos e discutimos dados de uma pesquisa sobre usos do tempo e práticas de consumo cultural com jovens estudantes de uma escola pública do sul do Brasil.

 

Juventudes: breve síntese de alguns achados

Muito se tem pesquisado, nos últimos vinte anos, sobre jovens e juventudes, de modo especial na América Latina. O termo "juventude" começa a ser utilizado nos anos 50 do século XX4 e oscila entre vários registros: de uma simples fase da vida, muitas vezes associada às noções de vitalidade, otimismo e descoberta, a uma força social renovadora (em certas situações e épocas tornando-se sinônimo de rebeldia e até de delinquência – classicamente visível na figura do ator James Dean e de seus personagens no cinema): ou, para além de uma etapa cronológica, de um tempo de quase irresponsabilidade e dependência, ao momento de constituição de um modo de existência próprio. Discussões sobre qual seria a faixa etária a ser considerada para definir esta fase ou sobre como se poderia solucionar ou corrigir aquilo que se cristalizou como tornandose (gravidez na adolescência, consumo de drogas, violência, apatia, etc.), ou ainda sobre a dominância dos temas do conflito e da recusa a replicar os modelos dominantes de conduta, associados à figura do jovem – estas, entre tantas outras, são temáticas há muito enfatizadas.

Por outro lado, recentes estudos se apropriam de diferentes pontos de vista teóricos e convertem o olhar, de modo a pensar o jovem como protagonista, como criador e até mesmo como agente de transformação das formas de vida de que fazem parte, em diferentes ambientes sociais, econômicos e culturais. Pesquisas sobre juventudes realizadas no Brasil concentram-se em – mas não se reduzem a – áreas como Sociologia, Educação, Psicologia e Psicanálise. Com o objetivo de não nos tornarmos repetitivos em uma breve revisão de tais discussões, propomos uma síntese dos principais achados das pesquisas sobre juventude, selecionando aqueles que contribuem para as formulações deste nosso texto:

A) Tem-se discutido muito a respeito do alargamento da etapa da juventude, sem que isso implique necessariamente um maior destaque aos jovens: trata-se de considerar a juventude com uma extensão etária cada vez mais ampliada, marcando uma diminuição da etapa da infância e um adiamento no que se refere à entrada no mundo adulto (CARRANO, 2000; PAIS, 2003; BIRMAN, 2005; ABRAMO, 2005; SPOSITO, 2005; GUIMARÃES; GRINSPUN, 2008). Inclusive, muitos estudos apontam para uma recriação das próprias definições geracionais, incluindo novas categorias, como: pré-adolescente (crianças entre nove e onze anos), adultescentes ou "criadultos"5 e "melhor idade" (eufemismo utilizado comumente para as pessoas que se encontram na faixa dos 70 anos em diante). Observa-se uma crescente juvenilização da sociedade e a "figura jovem" torna-se um objeto de quase fetiche, como se fora um ponto de chegada para crianças e adultos (FISCHER, 2008); paralelamente, essa juvenilização não significa, necessariamente, a efetiva valorização dos jovens, em sua condição própria (de idade e das respectivas formas de vida social). De qualquer forma, vale ressaltar que o tema do tempo, das relações entre passado e futuro, independentemente das novas demarcações de faixas etárias para definir o que seja exatamente um jovem, tem sido sistematicamente um problema posto pelos pesquisadores (no Brasil, desde os anos 60, com Marialice Foracchi – como vimos anteriormente). Talvez até possamos afirmar que, inevitavelmente, falar em juventude remete sempre ao tema do tempo, pela própria condição desse objeto – uma fase da vida, uma etapa "x" da vida das pessoas.

B) Pode-se dizer que teria ocorrido uma "virada estética" nos estudos sobre juventude: os últimos dez anos têm se caracterizado, efetivamente, por uma mudança nas formas de pesquisar as relações entre juventude e cultura (HULL; ZACHER; HIBBERT, 2009). Observa-se, igualmente, a maior atenção dispensada aos aspectos da cultura popular, entre eles as relações de consumo e de produção, por parte dos jovens, na sua interação com as diversas mídias. De acordo com recente estudo (SETTON, 2009), apenas levando em conta as pesquisas dos programas brasileiros de pós-graduação na área das Ciências Sociais, encontraram-se 74 trabalhos relacionados à temática "juventude e mídia", entre 1999 e 2006. Trata-se de um número expressivo, se comparado aos treze trabalhos sobre a mesma temática entre 1980-1998. Incluem-se aqui, igualmente, os estudos provenientes da área de comunicação, que, hoje, buscam ir além das pesquisas de recepção às mídias pelas crianças e jovens e das investigações sobre o poder dos meios de comunicação sobre esses públicos – para focar a atenção na atuação das próprias mídias até mesmo nos processos de constituição das próprias categorias de adolescência e juventude, por exemplo (FREIRE FILHO, 2008). Tal virada estética está ligada também ao crescimento de pesquisas-participantes, comprometidas com a escuta dos jovens e interessadas em aprender como os jovens vivem e elaboram suas situações de vida (HOLM et al., 2006). Como exemplo, esses autores citam estudos sobre o que os jovens leem e veem durante os intervalos de aula e o que fazem no seu tempo livre. Longe de uma metodologia de escuta sem crítica (e demagógica), trata-se de compreender os fenômenos de maneira complexa, atentando para juventudes que tanto reproduzem práticas sociais quanto criam possibilidades de agenciamento.

C) Fala-se, cada vez mais, em protagonismo jovem. Confere-se, nos últimos anos, acentuado destaque à participação efetiva dos jovens nas instituições e nos movimentos sociais, na escola, na família, nas próprias mídias, no trabalho (MARGULIS; URRESTI, 2000; MELUCCI, 2001; FEIXA, 2003; KRAUSKOPF, 2005; MAIRA; SOEP, 2005; STEPHANOU, 2007). torna-se extremamente importante depositar um olhar sobre os jovens como atores e não como simples reprodutores daquilo que vivenciam e experimentam. Utilizado em uma série de campos de saber, como o Direito, a Sociologia, a Psicanálise e a Educação, o termo protagonismo juvenil, a partir da década de 1990, aparece em diversos documentos de órgãos governamentais e educacionais, bem como em textos de organismos não-governamentais, com diferentes interpretações, mas com uma ênfase: protagonismo passa a ser, para muitos, sinônimo de participação, autonomia, cidadania e responsabilidade social (ZIBAS; FERRETI; TARTUCE, 2006).

Uma das inúmeras problematizações desse tema diz respeito a um olhar voltado exclusivamente para o entendimento do jovem como um "pré-projeto" de futuro, como alguém que seria levado em consideração somente a partir de um "vir a ser"; ora, segundo Carrano e Dayrell (2002), trata-se, ao contrário, de potencializar o que os jovens já trazem de suas experiências de vida. Dayrell (2007) enfatiza a importância das dimensões simbólicas e expressivas de grupos culturais jovens – na sua condição de fruidores e, principalmente, na condição de produtores (de músicas, vídeos, coreografias e assim por diante). Tanto numa situação quanto na outra, ali figuram elementos que, de certa forma, "produzem" modos de ser jovem, de afirmação de si mesmo na sociedade.

Vale ressaltar, contudo, que há ainda grande polêmica em torno desse tema, na medida em que houve a apropriação do conceito por diferentes instituições, e com significados distintos. Assim, "protagonismo jovem" pode estar se tornando quase uma expressão mágica, de salvação, muitas vezes associada a populações mais pobres, foco de atenção de políticas públicas ou ONGs, por exemplo; ou, por outro lado, pode ficar ligada a certo tipo de ativismo ou de empreendedorismo jovem, sem levar em conta facetas importantes da vida desses grupos, como as referidas à arte, a ações comunitárias importantes, a diferentes formas de sociabilidade; ainda, o termo também vem associado a uma ideia de vanguarda e de liderança, esquecendo-se com isso uma proposta maior, de alguém que efetivamente pode vir a tornar-se sujeito principal de suas ações, como o próprio termo protagonismo o designa.

Regina Souza (2006), inclusive, chama atenção para uma equiparação do conceito de protagonismo juvenil ao de performance; o jovem aqui seria visto como um ator que se coloca na cena do espaço público, superando adversidades, resistindo às pressões e, sobretudo, adaptando-se às exigências da sociedade – numa perspectiva bastante distante daquela que reivindica maior autonomia para esse grupo. Talvez a crítica mais contundente a respeito do apanágio do protagonismo jovem seja a que fazem estudiosos como Paulo Carrano, quando este chama a atenção, baseado em várias pesquisas, para os empecilhos concretos a uma participação juvenil na vida do país, já que existiria forte relação entre as condições materiais de vida da maioria dos jovens e as reais possibilidades, para eles, de uma efetiva atuação política e social (CARRANO, 2006).

D) Passa-se a pensar os jovens numa época muito específica, do mundo interconectado: Fala-se em jovens no front da globalização. Assim, inúmeros estudos apontam para diferenciadas relações e envolvimentos dos jovens com as mudanças econômicas, sociais e tecnológicas próprias desta era (BESLEY, 2003; CANCLINI, 2004; KRAUSKOPF, 2005; FEIXA, 2006; KEHILY; NAYAK, 2008). Aqui, referimo-nos à busca de compreender como aspectos predominantemente problemáticos, oriundos destes tempos de globalização (tais como a ênfase no individualismo e no consumismo, as diferentes práticas de segregação e exclusão, a compressão dos tempos e dos espaços), estariam produzindo efeitos nos jovens. Mas vai-se além: pensa-se em como, a partir desses mesmos efeitos, os jovens estariam produzindo formas de enfrentamento e alternativas de como relacionar-se com os outros. Simultaneamente a uma avaliação de tais mudanças na vida contemporânea, argumenta-se que os jovens do século XXI têm o maior nível de educação até hoje visto e são tecnicamente mais sofisticados do que as juventudes anteriores (BEST; KELLNER, 2003). Importante levar em consideração que os jovens, "pioneiros" nessa nova forma de relação com o tempo e com as tecnologias, na mesma medida em que sofrem tais mudanças de forma até abrupta em certo sentido (pois vivenciam no próprio corpo e na vida social uma série de outras modificações), parecem mostrar-se de fato mais abertos para as novas formas de relação e, portanto, mais aptos para lidar com o que se transforma no mundo, numa velocidade por vezes estupenda. Vale lembrar que tais mudanças não acontecem apenas para os jovens (apesar de existirem com intensidade maior para eles), e que a vivência da temporalidade, hoje, se caracteriza por uma confusão entre os limites, outrora "bem definidos", de passado, presente e futuro.

 

Temporalidades juvenis

A pesquisadora Carmen Leccardi (2005; 2006), o sociólogo Carles Feixa (2003; 2006b), o pesquisador Néstor García Canclini (1995, 2004) e o psicanalista Joel Birman (2005) são alguns dos autores, entre tantos, preocupados em investigar as relações entre mudanças sociais e temporalidade para jovens do século XXI. Para eles, os jovens precisam ser estudados e entendidos a partir do mundo em que vivem, e não apenas comparados a grupos que viveram em outras décadas ou a certos modelos ou padrões de comportamento tornados hegemônicos.

Em suas investigações sobre a juventude contemporânea, o psicanalista Joel Birman (2005) assinala o quantum de desamparo vivenciado pelos jovens brasileiros de todas as classes sociais. Segundo o autor, haveria uma temporalidade própria do jovem do século XXI, que foi alterada em virtude da transformação da infância e da idade adulta na atualidade. Tal temporalidade leva em conta não apenas os registros biológicos e psíquicos, mas igualmente os registros históricos, sociológicos e institucionais. Com a ordem familiar revirada "de ponta-cabeça" (a monoparentalidade parece ao autor uma das fontes dessa reviravolta), os adultos dispensam novos e mais intensos cuidados com os filhos maiores (os jovens) do que com as crianças; segundo o autor, um correlato dessa atitude seria que as crianças, talvez deixadas de lado, se mostram agora precocemente preocupadas com o futuro, às vezes com pouca disponibilidade (de tempo e espaço) para jogos e brincadeiras infantis em que o contato com o outro, com o diferente, aquele que as interpela, questiona e que as faz pensar (KEHL, 2008).

Se quisermos entender a juventude contemporânea, conforme nos diz Carmen Leccardi, torna-se imprescindível, em primeiro lugar, reformular o conceito de "tempo presente". Regidos cotidianamente por incertezas e mudanças constantes, os jovens são submetidos a uma exigência de alta performance, de um amplo dinamismo; defrontam-se eles com uma ordem de imediatismo, diante de um futuro indeterminado e indeterminável. Para tanto, seria necessário, segundo a autora, possibilitar a inclusão de futuro e passado em um "presente estendido", um novo espaço:

[...] espaço temporal que bordeja o presente, adquirindo um valor crescente, paralelamente à aceleração temporal contemporânea, favorecida pela velocidade dos tempos tecnológicos e pela exigência de flexibilidade que é seu corolário (LECCARDI, 2005, p. 45).

Nesse sentido, o grande desafio, então, seria elaborar uma "estratégia de indeterminação", manter a trajetória ainda sem poder prever o destino final, transformando a imprevisibilidade em algo que tem a ver com vida, com criação de si mesmo, com protagonismo – mesmo que nessa condição precária de ausência de certezas (LECCARDI, 2005). Certamente, essa observação de Leccardi pode e deve ser problematizada, levando-se em conta que as incertezas do presente também têm relação com o fato de que, hoje, a vida adulta perdeu o poder de sedução que tinha anteriormente – não é mais, para muitos jovens, um lugar desejado de chegada; pelo contrário, como escrevem muitos autores, o que ocorre é o contrário: o lugar da juventude é o grande ponto de chegada, o próprio lugar que seduz e que interpela não só a criança (que anseia se tornar rapidamente adolescente) como o adulto (capaz de realizar todas as operações possíveis em seu corpo para se manter belo e juvenil).

Numa outra perspectiva, talvez a metáfora dos três relógios, elaborada por Carles Feixa (2003), possa nos auxiliar na compreensão das diferenças intergeracionais e o lugar dos jovens na sociedade contemporânea, além de ampliar a discussão da pesquisadora Leccardi. Utilizando a imagem do objeto relógio, tal como existiu em épocas distintas, Feixa nos leva a pensar sobre as idades da vida e as metáforas da mudança social, especialmente no que diz respeito à relação entre juventude e sociedade. Inicialmente, o autor propõe pensarmos sobre o relógio de areia, da era Pré-Industrial, usado por sociedades que se costuma classificar como primitivas e tribais. Por apresentar uma concepção "natural" ou cíclica do tempo, serve como metáfora da demarcação dos ritos de passagem (da juventude para a vida adulta) como "naturais", ou seja, como regidos pelos ciclos da natureza. A pouca precisão na marcação do tempo contrasta com a delimitada marcação das fases: somos adultos ou não, a partir da passagem pelo funil estreito que separa a areia acima do relógio para aquela parte que se encontra abaixo.

Ou seja, tal qual um relógio de areia, a transmissão entre adulto e não-adulto numa outra época parece ter sido bem-demarcada e claramente visualizada – o que se concretiza nos sofisticados rituais de passagem experimentados pelos jovens, como tão bem nos mostram os estudos já tornados clássicos da antropóloga Margaret Mead, que, já na primeira metade do século XX, questionava a universalidade dos conceitos de adolescência, por exemplo6. Em sociedades primitivas como as estudadas por Mead, o não-adulto já sabe qual será, supostamente, seu destino de adulto: em princípio, significa que deverá viver exatamente da mesma forma que seus antecedentes, replicando o comportamento da geração anterior, bem como os respectivos conteúdos culturais herdados. Mas, mesmo assim, as pesquisas antropológicas mostram, desde há muito tempo, que essa regularidade na transmissão geracional era e é bem complexa – certamente diferente daquela que experimentamos hoje.

Já o relógio mecânico ou analógico, típico da era Industrial, elaborado com intricadas engrenagens, oferece-nos a metáfora da concepção linear e progressiva do tempo. No que se refere às relações entre grupos geracionais, opera-se uma ruptura com o monolitismo cultural, configurado pelo mecanismo do relógio de areia (e nem por isso menos complexo, como lemos em Mead). Assim, pode-se falar em uma transição cultural, que corresponde ao estabelecimento de diferentes nomenclaturas para as gerações, tais como primeira infância, fase adolescente e vida adulta. A precisão do tempo torna-se então mais evidente. Aqui, as passagens do mundo jovem para o mundo adulto já não anunciam semelhanças a serem replicadas; iniciam-se processos de diferenciação, abrindo-se espaços para novas expectativas e também para a explicitação de novos conflitos entre as gerações. Os jovens aspiram a novos espaços e posições, distintos daqueles da geração anterior.

Na era Pós-Industrial, marcada pelo relógio digital e pela relatividade do tempo, nesta que tem sido chamada de "sociedade da informação" – ensina-nos Feixa –, aprendemos outra concepção de tempo. [É preciso que se diga: essas diferentes percepções das temporalidades não ocorrem linearmente, em etapas progressivas, como se uma viesse a substituir a outra; pelo contrário, há superposições de umas e outras, embora possamos falar da dominância de uma delas, em cada período]. Percebemos hoje um tempo virtual que comporta movimentos constantes e intercambiáveis para os papéis geracionais: assim, por exemplo, pais admitem aprender com os filhos, adultos por vezes parecem não ter qualquer problema em afirmar que as crianças e os jovens ensinam-lhes coisas novas; estes, por sua vez, têm à disposição, também, os meios de comunicação e as novas tecnologias da informação como lócus educacional. As diferenciações geracionais vão-se tornando múltiplas e complexas; definem-se as categorias de pré-adolescente, adolescente, jovem, jovem adulto – entre tantas outras, que surgem num espaço de tempo muito rápido. A contagem do tempo adquire também uma ultraprecisão: "(...) enquanto o relógio de areia calculava aproximadamente os minutos, e o relógio analógico os segundos e décimos, o relógio digital permite estabelecer com enorme precisão os centésimos, milésimos, etc." (FEIXA, 2003, p. 17, tradução nossa).

Parece que, quanto mais se modifica a contagem do tempo, quanto mais precisa ela fica, quanto mais milimetricamente conseguimos controlar e contar o tempo, mais frouxas e menos precisas se tornam a transmissão geracional e a demarcação de lugares entre jovens e adultos. Parece que, quanto mais "seguramos" o tempo, mais repleta de nuances se torna a relação intergeracional, mais complexos se fazem os conteúdos culturais, mais nebulosa é a experiência e a compreensão do tempo, tanto para as crianças e para os jovens, quanto para os adultos. O historiador Eric Hobsbawm (2008) é muito claro nesse sentido, em sua pesquisa sobre o século XX: em nossos tempos pós-industriais, com o advento de sofisticadas tecnologias de comunicação e informação, parece que inclusive se invertem os papéis relativos a "quem sabe", a "quem ensina a quem" – e multiplicam-se os exemplos, especialmente em comerciais, de crianças hiperinteligentes e hiperinformadas, ensinando adultos a comprar um carro ou a escolher o chocolate mais delicioso.

Para Canclini (1995), as mudanças socioculturais que se instituem a partir de uma economia e uma cultura globalizadas, na era Pós-Industrial, redefinem sentidos de pertencimento e identidade, bem como a própria noção de cidadão. As identidades modernas, caracterizadas como territoriais e monolinguísticas, parecem agora definir-se como transterritoriais e multilinguísticas. Mais especificamente, as identidades juvenis se organizam em torno de determinados circuitos culturais, como os meios de comunicação de massa e os sistemas de informação e comunicação. Conforme o autor, esta é a primeira geração de jovens que está crescendo em meio uma simultaneidade de mídias visuais e seus recursos: a televisão colorida e digital, o controle remoto e o zapping, o computador pessoal e a internet, o telefone celular, o e-book, o Twitter e assim por diante. Novas formas públicas de comunicação estariam em emergência. Canclini sugere inclusive que há uma interação curiosa entre as diferentes mídias; assim, por exemplo, ele nos diz que os canais de televisão, em seus programas, estariam pautando as perguntas para as quais, por sua vez, a internet proporia respostas. Ele acrescenta:

É fundamental reconhecer que o sentido cultural de uma sociedade se organiza cada vez menos nos romances e mais nas telenovelas, não tanto nas universidades como na publicidade. E os políticos, que em outro tempo diziam ter respostas sobre para que vale a pena estarmos juntos (como nação e como comunidade de consumidores), têm deixado que estas questões sejam respondidas pelos criativos publicitários e pelos investidores (CANCLINI, 2004, p. 172, tradução nossa).

Mais adiante, Canclini se pergunta como poderíamos atribuir novos sentidos às conexões facilitadas pela expansão da informatização e às representações socioculturais midiáticas, reunindo, de outros modos, nossos afetos, saberes e práticas em relação aos outros: "Como passar de sujeitos simulados pelo populismo midiático e político à construção de cenas cidadãs verossímeis em que muitas vozes confiem permanentemente que vale a pena falar e escutar os outros?" (CANCLINI, 2004, p. 213).

 

Jovens e Conexões: dados (e indagações) de uma pesquisa

O inquietante filme francês de 2008, Entre os Muros da Escola,7 trata basicamente das ambiguidades da relação de convivência entre alunos e professores. Mais especificamente, dos enfrentamentos entre jovens de uma turma de sétima série e um professor de francês, François, a quem os alunos questionam sobre sua prática pedagógica, seus valores, suas escolhas pessoais. Em uma das cenas, François está "dando" uma aula sobre conjugação de verbos e traz exemplos de frases, utilizando o nome Bill como sujeito da frase. Sob protestos dos alunos, o professor se vê questionado sobre a escolha, momento em que algumas estudantes sugerem nomes árabes ou africanos, como Aïssata ou Bintu. Todos parecem clamar ao professor: "Nós estamos aqui, fale de nós, nós também podemos ser exemplo" – afinal, a classe é composta por imigrantes de chineses, africanos e árabes.

Reivindicar (e explicitar publicamente) que "eu estou aqui", "eu não posso ser reduzido a uma massa informe", eu sou negro, sou lésbica, sou gordo, sou descendente de índio – parece ter-se tornado um forte enunciado de nossa época e certamente está relacionado às inúmeras conquistas dos movimentos sociais de todo tipo, no Brasil e, claro, em muitos outros lugares deste planeta. Pode-se afirmar, sem risco, que o discurso da afirmação da diferença associa-se ao tema das novas temporalidades e do acesso às diferentes tecnologias de comunicação: a circulação das imagens e das palavras, em escala global, faz circular modos de vida e lutas políticas (como a dos imigrantes, no caso do filme francês citado acima), num tempo simultâneo, de tal forma que assistir a essa narrativa fílmica, aqui no Brasil, não nos surpreende, pois tem a ver com o tempo presente deste lugar do mundo – a América Latina – e permite uma associação veloz com os nossos "diferentes", as nossas escolas e o grito de afirmação de si, de pedido de escuta, de tantos que são confundidos em práticas de indistinção – às vezes em nome de uma atitude democrática (afinal, todos somos iguais).

Um singelo questionário aplicado em uma escola pública do sul do Brasil (o Colégio de Aplicação da UFRGS) –, na busca de entender o uso do tempo por jovens estudantes de seus 13-14 anos, basicamente quanto às práticas ditas de "consumo cultural"8 (leitura, uso da internet, hábitos relativos a cinema, música e televisão) –, permitiu-nos reunir informações significativas que apontam ora para constatações quase óbvias, já vistas em muitas outras pesquisas, ora para outras inquietantes questões relativas a novos modos de sociabilização, hábitos culturais, uso do tempo no cotidiano, atividades de lazer.

Para melhor compreensão dos dados aqui analisados, torna-se relevante situar a escola em que realizamos a pesquisa. O Colégio de Aplicação atende a turmas do primeiro ano do ensino fundamental ao terceiro ano do ensino médio. Desde 2008, turmas de Educação de Jovens e Adultos (EJA) também fazem parte da rotina da escola, no período noturno. Fundado no ano de 1954, o Colégio de Aplicação teve como objetivo inicial atuar como laboratório para as práticas da Faculdade de Filosofia da UFRGS. Tradicionalmente, o colégio desenvolve parcerias com outras escolas do município, do sistema público e privado, além de ser campo de realização de estágios dos alunos da UFRGS. A grade curricular organizada para cada turma (sétimas e oitavas séries) chama a atenção por um diferencial: as áreas de Ciências Humanas são bastante valorizadas, com aulas de Teatro, Música e Artes ocupando amplo espaço do horário semanal.

A faixa etária dos sujeitos de pesquisa variou entre 11 e 15 anos, a maioria deles (41,8%) com 14 anos, seguida de perto por alunos com 13 anos (36,8%). Quanto ao nível socioeconômico dos alunos, este é definido pela própria forma de ingresso de novos alunos, feita por sorteio público, que é bastante concorrido. No ano de 2009, por exemplo, mais de 1.500 alunos foram inscritos para 70 vagas. As turmas, assim, reúnem sempre estudantes de diversas camadas sociais e moradores de diferentes regiões da cidade de Porto Alegre e da região metropolitana, a grande maioria dos quais (80%) utiliza o transporte público para se deslocar de casa à escola. Os gráficos apresentados a partir de agora sintetizam alguns dos muitos dados da pesquisa, no caso, referentes ao tempo dedicado por esses jovens ao uso da TV e da internet e aos lugares para o encontro de amigos.

Em relação aos hábitos semanais de consumo cultural, como assistir à TV, ler, acessar a internet e escutar música, a televisão e a internet são os meios citados com maior frequência de acesso. Mais de 50% dos alunos assistem à televisão, diariamente, de duas a quatro horas. Quase 30% deles investem até duas horas diárias para acompanhar telenovelas, filmes, desenhos animados, programas de humor, esporte e musicais. Uma jovem, ao mencionar suas atividades dos finais de semana, afirmou: "Eu não dispenso uma boa TV". Já um menino escreveu: "Nos finais de semana, eu abuso do computador, da TV e do videogame".

Um pouco menos de 50% desses mesmos alunos dizem investir de duas a seis horas por dia em frente ao computador, para acessar a internet. Comparando o uso da internet e a prática de assistir à TV, vê-se que um bom número (32%) despende mais de seis horas diante do computador e da rede virtual; e 14%, numa proporção bem menor, assinalaram assistir à TV também por mais de seis horas. Outra parcela de alunos (12,3%) apontou inclusive utilizar a internet por mais de oito horas diárias. Vale destacar que muitos alunos afirmaram realizar as duas atividades ao mesmo tempo: conectados na internet, aproveitam para dar uma "espiadinha" na televisão – em alguns momentos, escutando uma música ao fundo. Podemos aqui utilizar para essa prática múltipla a denominação de geração "multitarefa" (RIDEOUT, 2005), pois trata-se de um grupo que utiliza vários meios de comunicação e informação, simultaneamente, quase como necessidade de preencher todos os espaços e tempos, todos os vazios de sentidos da vida cotidiana9.

Talvez pudéssemos pensar, com a psicanalista Maria Rita Kehl, que tal forma de ocupação plena do tempo esteja relacionada (além de outras variáveis que poderiam ser aqui consideradas) a um movimento próprio propiciado pela onipresença das diferentes mídias e pela ampliação das possibilidades de comunicação, de modo especial considerando-se as práticas cotidianas dos mais jovens. Com base na teoria lacaniana, Kehl nos alerta que, quanto mais nos deixamos guiar pelo imaginário – isto é, pelas imagens que nos aparecem e se cristalizam como significações estáveis –, mais nos deixamos ficar no estado confortável "da certeza e das ilusões totalizantes" (KEHL, 2008, p. 127). Essa é uma análise que pode ser confrontada com a pesquisa norte-americana, citada acima, em que tal modo de ocupar o tempo pelos mais jovens estaria diretamente ligado a uma habilidade maior com as relações espaço-visuais, mas também a resultados negativos na escola – independentemente da origem étnica e racial dos estudantes.

Mesmo que as imagens postadas nos perfis do Orkut ou aquelas da TV, no caso de nossa pesquisa no sul do Brasil, não se caracterizem necessariamente como "totalizantes" (como sugere Kehl a respeito da avalanche de imagens consumidas por nós diariamente), o que se discute aqui, para além do desempenho escolar, é um processo que nos parece bastante significativo: trata-se da produção e do consumo de imaginários (na publicidade, por exemplo), pelos quais nossas inquietações e perguntas obtêm rapidamente consoladoras respostas; ainda, trata-se da ocupação do tempo (no caso, no tempo da vida dos jovens) com um excesso de imagens e de formas de incessante comunicação – como se fosse impossível nos deixarmos simplesmente "estar", ficar no mundo, em silêncio, e aceitando a não resposta imediata do outro àquilo que indagamos. Esses "buracos", esses tempos de não resposta, esses silêncios de sons e imagens talvez pudessem acionar outras formas criativas de nos inscrevermos no social.

Maria Rita Kehl (2008) fala no "gozo do sentido" e no "gozo da identificação" – ambos propiciados pelas imagens midiáticas de nossos tempos; tais gozos seriam, em princípio, necessários à nossa atividade psíquica (como o prazer de encontrar na fala de alguém aquilo sobre o que indagamos, como se esse outro nos tirasse momentaneamente da inquietação e da dúvida); mas, quando nos são oferecidos em excesso, poderiam agir de modo a homogeneizar psiquicamente a sociedade (KEHL, 2008, p. 130-131), além de barrarem (ou impossibilitarem, pelo menos por um tempo) a produção se sentidos alternativos, olhares de alteridade, inscrições de si mesmo no social, pela via da expressão artística e diferenciada.

Talvez pudéssemos levantar a hipótese de que espaços não ocupados no social, pelos mais jovens, seja por falta de programas de educação e lazer públicos, seja pela sensação de medo em relação ao mundo da rua10, estariam sendo substituídos, em boa parte do dia, pela experiência solitária, e ao mesmo tempo conectada, diante do computador e com acesso à internet, por parte de estudantes de seus 13-16 anos do meio urbano. Em nossa pesquisa, aqui discutida, vimos que, de maneira geral, o computador ocupa posição de destaque para a maioria de nossos entrevistados. Talvez se trate de uma posição que até bem pouco tempo era ocupada pela televisão. Alguns declararam que passam "a tarde inteira no computador"; uma jovem nos diz: "Passo a tarde inteira e parte da noite na frente do computador", referindo-se aos dias da semana – momentos em que, além da escola, também participa de outras atividades. Quase 70% dos alunos afirmaram que "acessar o computador" (uma das muitas expressões utilizadas por eles) era uma das tarefas realizadas todos os dias, como atividade corriqueira. Nos finais de semana, conforme eles confessaram, esse tempo se multiplica: "Eu mexo no computador o dia inteiro" e "Passo o dia inteiro na internet". Uma aluna de sétima série, ao detalhar as atividades do dia a dia, relatou que a primeira atividade, ao acordar pela manhã, é ligar o computador e acessar seu e-mail e sua página no Orkut. Outra menina, quando solicitada a escrever sobre quais as atividades preferidas nas horas de lazer, declarou: "Só uma: computador: eu amo!"

Diferentemente, e como era de se esperar, a leitura de livros é citada com menor frequência: 26% dos alunos (um terço das meninas, dois terços dos meninos) disseram não realizar tal atividade. Sessenta e dois alunos afirmaram dedicar, no máximo, duas horas por dia à leitura. Menos de 2% (dois estudantes apenas) garantiram ler por mais de seis horas, diariamente. Nas respostas espontâneas à quarta pergunta do questionário ("O que você gosta de fazer nas horas vagas?"), apenas 15 jovens (ou seja, pouco mais de 12%) indicaram a leitura como atividade realizada no seu tempo livre. Destes, 14 eram meninas e um era do sexo masculino. Obviamente esse é um dado que merece cuidado ao ser analisado. O que, efetivamente, significa "ler" hoje? A pergunta do questionário pode e deve ser problematizada: ela própria separa a leitura tradicional, de livros e revistas, daquela que se faz ao acessar a internet ou ao usar o computador.

Na investigação, comprovou-se que a quase totalidade de alunos (93, entre 119) usa a internet para fins de pesquisa. Ou seja: os meninos procuram materiais, leem, estudam, fazem isso tudo pela internet. Então, trata-se não de julgar a substituição da leitura stricto sensu pela TV e pela internet, mas sim de avançar no sentido de novas investigações sobre os modos de entretenimento, lazer e estudo dos jovens, em direta conexão com as múltiplas formas de comunicação e inclusive de leitura em nossos dias. Veja-se a propósito o estudo da socióloga Silvia Borelli, que, em artigo sobre juventude e a saga de Harry Potter, nos mostra o quanto as práticas de leitura contemporâneas não podem ignorar o que ela chama de "vazamento" das fronteiras, não só no que se refere aos públicos diante de uma série de livros, como a do menino bruxo de Rowling (seus romances são lidos tanto por crianças quanto por adolescentes, jovens e adultos), mas também quanto ao âmbito mais amplo do mercado mundializado dos bens simbólicos (BORELLI, 2008, p. 59).

Em relação ao acesso da internet, alto índice de alunos afirmou acessar a rede a partir de suas próprias casas: mais de 90% dos estudantes possui conexão digital em seus domicílios. O segundo lugar em que os alunos mais acessam a internet é a casa dos amigos. Lan house e escola também foram citadas (17% e 13%, respectivamente). Não podemos deixar de mencionar a popularização dos computadores pessoais, com auxílios e financiamentos facilitados para a aquisição de computadores por parte da classe média no Brasil. Segundo dados do IBGE11, em apenas um ano (de 2007 a 2008), o número de residências gaúchas que adicionaram a internet em seus computadores aumentou em 130 mil. No ano de 2005, uma média de 500 mil casas do Rio Grande do Sul estavam conectadas à rede mundial de computadores. Em 2008, o número aumentou para 904 mil residências: isso significa que uma em cada quatro casas abriga um computador com acesso à internet – o que pode nos indicar uma ampliação de acesso não apenas quanto ao uso de computadores pessoais, mas igualmente quanto ao acesso à internet.

Como já dissemos anteriormente, as estatísticas sobre o acesso ao mundo digital e às novas formas de comunicação carregam consigo avanços e problemas: ao mesmo tempo que caminhamos para a democratização do acesso, enfrentamos a exclusão de uma enorme faixa da população quanto ao uso e à posse desses bens. Mais do que isso, observamos também o quanto ambas as situações – a posse e a falta – implicam transformações significativas no que se refere às temporalidades jovens: enquanto uns entregam-se por horas a fio às práticas de comunicação digital pela internet, outros sonham, desejam, aspiram ao mesmo direito – o que também lhes rouba tempo, no caso, principalmente tempo psicológico. trata-se do desejo de poder usar dessa forma, e não de outra, seu dia, sua semana, suas horas de lazer.

Outro item do questionário interrogou sobre a finalidade do acesso à internet. A partir de respostas estimuladas, os jovens apontaram múltiplas opções. A principal finalidade no uso da internet para eles é a comunicação via MSN (92%), mais especificamente para falar com os amigos, o que ocorre com acentuado destaque para as meninas, que referiram preferencialmente tal objetivo. O MSN é seguido do acesso ao Orkut (86%), da atividade de baixar músicas (77%), do acesso ao YouTube (76%) – este, sim, mais citado pelos meninos – e da atividade de pesquisa em sites de busca (76%). Na categoria "Outro", os jovens citaram sites de música, de jogos e sites de lojas, para compras. Vale destacar mais uma vez o principal objetivo no acesso à internet: eles querem se comunicar, acessar as chamadas redes sociais com maior frequência, estabelecer contatos por meio das conexões virtuais.

Na pesquisa aqui comentada não chegamos aos detalhes (pois esse não era nosso objetivo principal) de todas as formas de comunicação e interação vividas pelos estudantes pesquisados. Mas vale lembrar que o debate sobre que tipo de sujeitos se constituem, nesse espaço de relações virtuais (e tão reais para a maioria deles), continua plenamente aberto, provocando inúmeras elaborações teóricas, seja no campo específico dos estudos sobre juventude, seja no campo da psicanálise, da própria educação e das teorias de comunicação contemporâneas. Lembramos um dos estudos a que tivemos acesso, sobre sociabilidades on-line, em que as autoras estudam as práticas do cosplay (resumidamente, jogos na internet em que os participantes teatralizam personagens escolhidos); segundo as estudiosas [que se referem a jovens de classe média, certamente], "O consumo, a competitividade nas escolas e uma sensibilidade maior ao estresse escolar e à pressão sofrida para entrar na universidade levam adolescentes a se fecharem em si mesmos e a entrarem nesse mundo de fantasia, mais cômodo" (AMARAL; DUARTE, 2008, p. 278).

Ora, como vemos, trata-se, no caso dessas autoras, de uma entre as tantas formas de ver o retraimento dos jovens, para dentro de casa e para a "fissura" de ficar tantas horas conectados na internet. Nossos estudantes, pelo que contam, não deixam de sair, de dançar, de buscar novos relacionamentos, "ao vivo". Importa aqui, então, não dicotomizar, não separar nem fazer juízo de valor quanto a tal fato, mas sim depositar um olhar que se deixa abrir às novas complexidades sociais e às novas maneiras de usar o tempo pelos mais jovens. Assim, quando, em nossa pesquisa, discutimos com eles sobre a amizade (esse era nosso objetivo principal – mas aqui não é o foco, como dissemos anteriormente), apareceram muitas observações caracterizadas pelo imediatismo (portanto, a ausência de certo tempo de maturação nas relações e nas ações) e pelas soluções rápidas, também para as relações de afeto e de convivência mútua. Um exemplo é a recorrência, nos debates efetuados, da afirmação de que o verdadeiro amigo é alguém da família – porque ali naquele espaço e com aquele grupo não se precisaria gastar muito tempo para se fazer compreendido; ou a afirmação de que amigo mesmo é o cão, já que este pode até ser chutado porque volta, submisso, e "nos lambe a mão" (SCHWERTNER, 2010). O importante é ressaltar que os simples dados levantados sobre usos do tempo pelos estudantes não se separam de uma série de enunciados sobre essa discursividade tão complexa das novas temporalidades, como vimos discutindo até aqui.

A internet é considerada por eles um lugar para "encontrar" (virtualmente) pessoas: mais de 70% dos jovens apontam a rede como um lugar de encontro com os amigos – lugar privilegiado, considerando-se que a casa foi a escolha de 54% dos jovens pesquisados; e a rua, de 52% deles. Para a americana Kelly Boudreau, a internet possibilita "(...) um espaço ao qual eles sintam que pertencem: como um time de futebol ou grupo social, capacitando-os a sentirem conectados uns aos outros, mesmo que estejam fisicamente separados" (BOUDREAU, 2007, p. 77, tradução nossa). Segundo a autora, o espaço virtual seria hoje um novo ponto de encontro, ocupado anteriormente, como na década de 1950, pela lanchonete local e, mais tarde, nos anos 90, pelos shoppings. O espaço social on-line (sites de relacionamento, jogos) oportunizaria, assim, uma espécie de pertencimento fundamental para as novas gerações. E é por essa razão que a chamada exclusão digital ganha força, na medida em que muitos jovens, no Brasil e em outros países, desejam intensamente participar desse grande espaço das mídias digitais e ainda dele se veem excluídos. A própria difusão das informações sobre o uso da internet, em meios como a TV (nas telenovelas, por exemplo), anuncia a todos que existe algo desejável, fascinante, mas que, dadas as condições sociais de determinados grupos, ainda não pertence a muitos deles.

 

Considerações finais: sugestões para um avanço no pensamento sobre tempo e juventudes

Várias e diferenciadas perguntas multiplicaram-se ao organizarmos e categorizarmos os dados da pesquisa. O tempo considerável usado pelos jovens para manter relação com os outros, pela internet, indicaria, como nos sugere Bauman (2003), uma opção pelo isolamento ou pelo distanciamento quanto às relações tête-à-tête? Esta seguramente não parece ser a melhor resposta ou o melhor caminho de análise. Os jovens de nossa pesquisa, ao contrário do que se afirma nesse enunciado, referem-se à "grande aventura" de conhecer alguém completamente diferente e "estranho", pelas ondas da internet. Ou, ainda, contam-nos sobre as possibilidades de manter viva uma amizade via MSN ou outros sites de relacionamento. Nessa condição, eles não se sentem solitários ou afastados das relações pessoais: mais da metade dos jovens considera que cultiva muitos amigos, enfim, que sua rede de relações é considerável. Claro que novas investigações poderiam indagar, mais profundamente, sobre de que modo tal rede de relações é vivida pelos grupos jovens hoje e quais as respectivas alterações, os ganhos e perdas, em todas essas práticas cotidianas.

Dizíamos que a internet é entendida por eles como uma efetiva e legítima rede de encontros. Aprende-se, com os estudantes, que a famosa "www" (world wide web ou rede de alcance mundial) é vista como um lugar quase que fisicamente demarcado: as expressões que utilizam, como "entrar no computador" ou "mexer no computador", dão conta de um espaço que é possível acessar concretamente, um lugar onde de fato se realizam ações. Entendemos, assim, que as ações "ver televisão/ usar o computador/ sair e conversar com amigos" não são, de forma alguma, excludentes entre si. São formas fundamentais de lazer e de socialização, que se complementam e que existem para os jovens como simultaneidade – sem que haja uma classificação de ordem valorativa, como fazem crer algumas interpretações, como a do próprio Bauman. Ao contrário, são formas absolutamente compatíveis com os tempos do relógio digital.

Deixamos para o final, além das questões levantadas no decorrer do texto, uma outra, que talvez sintetize muitas das inquietações dos pesquisadores de juventude, hoje, no Brasil e no mundo. Esta questão emerge do depoimento dos jovens, desta e de outra pesquisa12, sobre um fenômeno que aparece talvez como novo em nossos dias: o sentimento de nostalgia entre os mais jovens, sejam eles universitários, adolescentes ou até crianças – uma nostalgia referida a "tempos antigos" para eles, mesmo que tenham seus 11, 13 ou 14 anos. A idealização dos tempos de criança, a saudade de diferentes fases da vida, tão curta ainda, aparece fortemente nos depoimentos dos estudantes, como se eles já tivessem vivido muito, e como se as coisas experimentadas em outras fases pudessem desaparecer e deixá-los num vazio. Esse dado parece dizer-nos que o tempo da ampliação e sofisticação das tecnologias digitais, sincronizado e veloz, milimetricamente cronometrado, contrapõe-se a (ou choca-se com) um tempo individual (ou até coletivo – da turma da creche, dos anos de alfabetização, da "primeira" adolescência, etc.); de qualquer forma, trata-se do "meu tempo", da "minha história", que muitos desses estudantes procuram encontrar (buscando nos sites de relacionamento colegas "perdidos" no tempo) ou mesmo "remontar" (postando fotos íntimas da vida de bebê ou criança pequena, no seu profile da internet, por exemplo). Observa-se que o tempo passado, embora tão recente, adquire uma força nostálgica, semelhante à dos adultos mais velhos, em relação à sua juventude, quando dizem, quase melancolicamente: "no meu tempo..."; há, certamente, uma forte carga de afeto nesse sentimento em relação a si mesmo e ao tempo vivido. A brincadeira, a experimentação, o encontro fácil e despojado da criança parecem marcar o tempo da infância como "uma das melhores fases da vida" – assim dizem muitos. Vale lembrar que nessa memória nostálgica inclui-se quase sempre a figura de objetos midiáticos (bonecos, jogos, anúncios publicitários, músicas de sucesso, programas de TV, personagens diversos dos meios de comunicação – todos associados ao "meu tempo"). Tratar-se-ia de uma reificação do passado? Ou de uma volta ao que passou, associada a uma falha do presente, como reação criativa a este? Em que medida essa nostalgia estaria fazendo parte de uma nova cultura, nesta era que já vem sendo denominada de era do homo zappiens?13

Esse dado pode sugerir que os novos tempos do tempo jovem merecem outros estudos, impulsionados pelas observações que aqui fizemos, com o auxílio de pensadores como Feixa, Leccardi, Kehl, Birman, Canclini – entre outros. Referimo-nos à relação entre a ocupação dos dias e das horas, pelos jovens, basicamente com o computador e a internet (acentuada pelo que se poderia chamar de "amor à conectividade") e o instigante modo de ver a si mesmo como alguém que passa, que some no tempo, numa velocidade incontrolável, o que tem levado muitos de nossos jovens a agarrar-se, comoventemente, a seu passado tão próximo, como se ele pudesse escapar e abandoná-los irremediavelmente. Pensamos aqui nos estudos de Paulo Carrano, Marília Sposito e Juarez Dayrell, entre tantos outros no Brasil, com seus questionamentos sobre o complexo tema do protagonismo juvenil e das novas sociabilidades – ao modo das provocações de Maria Rita Kehl, que insiste na força do simbólico, da criação, das tantas formas de nos inscrevermos no social, pela palavra, para além do consumo do tempo com aquilo que nos paralisa, já que, imaginariamente, nos é oferecido como verdade cristalizada e consoladora.

 

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NOTAS

1 As pessoas não sabem
que nós não somos todos membros de gangues ou traficantes
Nós também somos pessoas.
Não cruzamos todos a fronteira
alguns foram cruzados por ela.
Nós não estamos sempre à procura de problemas
os problemas, algumas vezes, vêm até nós.
Então você não pode dizer que me conhece
porque você não conhece.
Você não sabe de onde eu venho
e você não sabe para onde estou indo
(Trad. nossa).

2 As pesquisas aqui referidas tiveram apoio do CNPq para bolsa de doutorado-sanduíche e bolsa de Produtividade em Pesquisa. Agradecemos ao CNPq por esse apoio, bem como pelo auxílio individual à pesquisa.

3 Com Juarez Dayrell (2005), entendemos sociabilidade no sentido conferido a esse conceito por Simmel: trata-se de uma referência a práticas em que os indivíduos estabelecem trocas, laços entre si, em relações marcadas por certo equilíbrio entre as partes. Ocorreria entre os pares uma arte do estar com o outro, de modo democrático – pode-se dizer. As relações estabelecidas entre si por grupos jovens, nesse sentido, passam a ser constitutivas da própria singularidade da condição juvenil – o que é visível em camadas populares, conforme pesquisado por Dayrell, na medida em que esses jovens encontram, nas suas relações de sociabi lidade, novas referências para estruturar-se individual e coletivamente.

4 No Brasil, uma estudiosa da juventude que não pode deixar de ser citada é a socióloga Marialice Foracchi, cujos textos, dos anos 60, 70 e 80, são discutidos no importante artigo de Maria Helena Oliva Augusto, "Retomada de um legado intelectual: Marialice Foracchi e a sociologia da juventude" (AUGUSTO, 2005).

5 Expressão originada do termo em inglês kidults e citada pelo sociólogo inglês Frank Furedi, em 2004. Refere-se às pessoas com mais de 30 anos, universitários em formação, que seguem morando com os pais e se veem envolvidos em um culto aos heróis da infância, colecionando bonecos como Hello Kitty e He-Man. Para o sociólogo há aí algo que impede uma apropriação das (e uma adesão às) próximas etapas da vida.

6 Veja-se o clássico estudo de Margaret Mead sobre adolescentes nas ilhas de Samoa, na Polinésia (MEAD, 1990).

7Título original: Entre les Murs, produzido por Laurent Cantet. O filme, que venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2008, é baseado no livro homônimo de François Bégaudeau.

8 O questionário, aplicado a alunos de quatro turmas de sétima e oitava séries, no ano de 2009, compunha-se de quinze perguntas. As respostas, em alguns casos, eram apresentadas sob a forma de múltipla escolha; em outros casos, o questionário solicitava respostas discursivas. Além de investigar o uso do tempo diário de consumo cultural, o questionário também perguntou sobre os relacionamentos de amizade dos estudantes em meio às conectividades digitais. De um total de 127 questionários, 122 foram analisados, 65 deles de meninas e 57 de meninos. É preciso que se diga que esse questionário foi um dos instrumentos da pesquisa, a qual teve como tema central as concepções e as imagens de amizade entre jovens. Ver o texto completo da tese em SCHWERTNER (2010).

9 Nos Estados Unidos, proliferam as pesquisas sobre os efeitos dessa experiência da multitarefa entre crianças e jovens, muitas delas oriundas de grupos de investigadores da área da psicologia e da neurociência. Em geral, são estudos que replicam certo tom desabonador com relação ao uso das tecnologias digitais e que estabelecem uma espécie de hierarquia entre as atividades clássicas dos processos de aprendizagem e aquelas supostamente dispersivas e causadoras de mau desempenho escolar. Em estudo recente, de 2010, citado pelo psiquiatra brasileiro Jairo Bouer (não por acaso em texto dirigido a jovens brasileiros, no caderno da Folha de S.Paulo – "Folhateen" – sob o título "Facebook é o vilão do boletim" – BOUER, 13 setembro de 2010, Folha de S.Paulo), os pesquisadores norte-americanos mostram, após investigação com quase 500 estudantes, em média com 12 anos de idade, brancos e afro-americanos, o uso que fazem do computador e da internet, em relação à performance acadêmica. Os resultados foram publicados na revista Computers in Human Behavior, exatamente sobre a geração multitarefa e os efeitos dessas novas práticas na mudança da vida escolar dos estudantes, de modo especial quanto à sua performance (leia-se: suas notas e conceitos). Vejam-se, a propósito, os artigos de KIRSCHNER; KARPINSKI (2010) e de JACKSON, EYE, WITT, ZHAO E FITZFERALD (2010), ambos na revista Computers in Human Behavior.

10 Em outra de nossas pesquisas com jovens estudantes de ensino médio (FISCHER, 2008), registramos a afirmação, por muitos deles, de que aprenderam, ao longo de seus 16 ou 17 anos, que o mundo da rua é violento e perigoso, melhor então ver TV ou ficar diante do computador.

11 Dados apresentados na edição n. 16089 de Zero Hora (19 de setembro de 2009), na reportagem "IBGE Revela um Brasil Conectado à Tecnologia".

12Referimo-nos, além da pesquisa aqui tomada como referência, a outra, por nós realizada, de 2003 a 2005, também com jovens estudantes de ensino médio (FISCHER, 2008).

13 Ver, a propósito, o artigo "Martírio juvenil, música e nostalgia no cinema contemporâneo", de Angela Prysthon, em que a autora discute o tema da juventude e da nostalgia no cinema, com indagações que se ligam diretamente ao debate que aqui fazemos (PRYSTHON, 2008).

 

 

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Recebido: 21/09/2010
Aprovado: 04/07/2011