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Educação em Revista

Print version ISSN 0102-4698

Educ. rev. vol.29 no.1 Belo Horizonte Mar. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-46982013000100010 

ARTIGOS ARTICLES

 

As crianças e as notícias da televisão

 

Children and television news

 

 

Maria Inês de Carvalho Delorme

Jornalista e pedagoga, doutora em Educação, no Brasil; Professora adjunta da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e da rede pública municipal; De set./2011 a fev./2012 em pos-doutorado financiado pela CAPES, na Universidade Nova de Lisboa, sob a orientação da prof. dra. Cristina Ponte. E-mail: mdelorme@uol.com.br

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Este artigo apresenta parte dos resultados de uma pesquisa de doutoramento1 concluída no Brasil, em 2008, sobre a relação que crianças de 6 a 8 anos estabeleceram com os telejornais e as notícias oriundas da televisão. No foco deste estudo, estiveram as crianças que se caracterizam como sujeitos ativos, participativos, que gostam de opinar e que se sentem aptas a questionar certos padrões da televisão e do mundo adulto, em situações interativas com seus pares. O objetivo nuclear da pesquisa que dá origem ao artigo foi conhecer e compreender as preferências das crianças, os recortes que fazem do que veem, seus sentimentos, modos de relação entre suas experiências e as notícias televisivas, numa análise que envolveu a produção, considerou dados de veiculação até alcançar a repercussão e as marcas dessas notícias em suas vidas. Nesse artigo, serão apresentadas e discutidas três categorias que emergiram do campo: as notícias mais ou menos, as notícias filmadas para trás e o perdido. Às crianças que falam nessa pesquisa foram assegurados e valorizados os seus discursos com o corpo todo e com suas histórias e estes estabeleceram um contraponto permanente com o que os discursos teóricos dizem sobre elas e, ainda, com o que o discurso legal assegura para elas. Nesse percurso, essa investigação, de cunho etnográfico, exigiu aproximações da Educação com saberes da Sociologia da Infância, da corrente sócio-histórica da Psicologia, da Comunicação Social e da Teoria da Literatura. Com uma conclusão, aqui estão apresentadas algumas respostas sobre a repulsa identificada nas crianças ao texto jornalístico e às notícias a que tinham acesso pela televisão, embora todas tenham mostrado ser impossível viver sem elas: a televisão e as notícias.

Palavras-chave: Criança; Notícias; Televisão; Participação Social.


ABSTRACT

This paper shows part of the results of a doctorate research concluded in 2008 in Brazil on the relationship that children between 6 and 8 years of age established with the news broadcast on television. This study focused on children characterized as active participative individuals, who like to express opinions and feel capable to question certain standards from television and the adult environment, in situations of interaction with their peers. The main purpose of the research that originated this article was to know and understand the preferences of the children involved, the observations they make from what they see, their feelings, and the types of connection between their experiences and the television news, in an analysis that involved the production, and considered the broadcasting data, reaching the repercussion and impact of the news in their lives. Three categories that emerged from the field are presented and discussed in this paper: the more or less news, the news filmed backwards, and the lost ones. The children involved in this research were assured and valued with regards to their discourses with their whole bodies and with their stories, and those established a permanent counterpoint with what the theoretical discourses say about them, as well as with what the legal discourse ensures them. Along this trajectory, this investigation of ethnographic aspect demanded close approximation between Education and the knowledge of Childhood Sociology, current socio-historical Psychology, Social Communication, and Literary Theory. In conclusion, some answers are presented on the rejection identified in the children to the journalistic text and to the news they have access on TV. Nevertheless, all of them stated being impossible to live without television and the news.

Keywords: Child; News; Television; Social Participation.


 

 

INTRODUÇÃO

Esse artigo apresenta parte dos resultados de uma pesquisa de doutoramento concluída no Brasil, em 2008, sobre a relação que um determinado grupo de crianças de 6 a 8 anos estabelecia com os telejornais e as notícias oriundas da televisão. Essa pesquisa intitulada Domingo é Dia de Felicidade2 teve origem em outra, concluída em 2005, desenvolvida pelo Grupem3, na qual se verificou que as crianças maciçamente repudiavam as notícias e os telejornais sem ter sido possível conhecer as causas disso. Havia nesses resultados de 2005 uma diversidade de opiniões infantis sobre os usos da televisão (os praticados, os possíveis, os proibidos, os desejados etc.) e duas recorrências significativas, quase antagônicas. Uma, já mais estudada, refletia o sonho de as crianças virem a trabalhar na televisão, como uma perspectiva para a vida adulta, que a representava como um espaço de produção e de veiculação de "beleza, visibilidade social, fama, riqueza e poder" (DUARTE, 2008). Outra, bem diferente da anterior, se referia ao repúdio às notícias e aos telejornais acompanhado de um medo intenso e comum entre essas crianças de virem a ser protagonistas eventuais de alguma notícia do bairro, da rua ou da escola.

No Brasil, já há mais de 20 anos, o telejornalismo vem se impondo sobre os outros meios pelo fascínio da notícia com cor, som e movimento. Isso se justifica tanto porque a maioria da população ainda não tem acesso à internet com banda larga quanto pela penetração hegemônica de uma emissora comercial, a TV Globo, em 65% dos lares brasileiros, segundo o Ibope Media Worlkstation PNT. Em 2007, segundo a mesma fonte, as crianças e os adolescentes viram quase cinco horas de TV aberta no Brasil, e o Jornal Nacional (TV Globo) ocupou o oitavo lugar no rol dos dez programas mais vistos pelas crianças de 4 a 11 anos (dados contabilizados até 13/7/2008).

Assim, não faltam razões para que o Jornal Nacional, exibido pela TV Globo, diariamente às 20h30, possa ser entendido como o porta-voz dos acontecimentos do Brasil e do mundo também para as crianças. E, nesse contexto, "ser notícia" ou "estar numa notícia na televisão" era algo que precisava ser mais bem conhecido, até mesmo para buscar saber o que as crianças brasileiras tomavam como "notícia", em função de suas relações com a televisão, a atualidade veiculada pelas diferentes emissoras e o mundo adulto, a cada dia mais ávido por informações e, também, por notícias.

 

OS PASSOS, OS PERCURSOS E OS CAMINHOS TEÓRICOS

A pesquisa aconteceu durante um ano letivo, em uma escola pública municipal localizada na zona oeste do Rio de Janeiro, em uma turma de 20 crianças de 7 anos, em média, metade de cada sexo, frequentando a escola pela primeira vez , e se caracterizou como uma pesquisa qualitativa de cunho etnográfico.

O enquadramento da Sociologia da Infância garantiu lugar às crianças como seres sociais, produtores e consumidores permanentes de cultura, configurando-se, assim, numa audiência crítica da vida e também dos telejornais. Crianças como sujeitos de direitos, ativos e participativos, que se caracterizam pelo que são, desde que nascem, e não pelo que lhes falta sob a óptica do senso comum e do mundo adulto (SARMENTO, 2006). Nesse viés sociológico, essa pesquisa exigiu aproximações da Educação com saberes da Psicologia, Comunicação Social e Teoria da Literatura. E a decisão de pesquisar em contato direto com as crianças, em seus contextos de vida, envolveu também estudiosos da corrente sócio-histórica da Psicologia (VYGOSTKY, 1987) e defensores das narrativas e da linguagem como elementos constitutivos do pensamento como o próprio Vygostky (1987), Benjamin (1987a) e Bakhtin (1992).

A decisão de pesquisar sobre as crianças em contato direto com elas durou um ano letivo e durante esse período foi feito um levantamento das categorias de análise que emergiram, suas recorrências e as tensões que elas estabeleceram aos quadros teóricos, na mão e na contramão, e que vieram exigir o uso de certos mecanismos para validar a análise dos dados, tendo como condição a inclusão das crianças nesse processo.

Uma exigência desse tipo de pesquisa é o fato de ela precisar acontecer num espaço onde exista encontro entre sujeitos, e, nestes casos, os instrumentos metodológicos de costume são a observação e a entrevista, individuais e coletivas, reconhecidos os seus limites e as suas possibilidades. Nesses casos, cabe ao pesquisador tomar a situação de pesquisa como um espaço de compreensão e de reflexão para todos os sujeitos envolvidos, também para ele, pesquisador, já que a profundidade do conhecimento deve valer mais do que sua precisão, e da qual não se deve esperar nenhum "efeito conclusivo", no sentido de alcançar verdades fechadas ou definitivas.

As crianças desta pesquisa foram os seus sujeitos, não o seu objeto, e seus discursos com o corpo todo e com suas histórias foram assegurados e valorizados num contraponto permanente com o que os discursos teóricos dizem sobre elas e, ainda, com o que o discurso legal assegura para elas. Embora as crianças tivessem idade entre 6 e 8 anos e morassem em comunidades próximas, elas se mostravam muito diferentes entre si quanto aos desejos, opiniões, medos, histórias de vida, arranjos familiares, desenvolvimento da linguagem oral, escrita, e também quanto aos níveis de desenvolvimento e de aprendizagem (VYGOTSKY, 1987). Essas diferenças, enriquecedoras para a pesquisa, foram valorizadas baseando-se nos conceitos de dialogia e de alteridade, cunhados por Bakhtin, e no pressuposto a eles relacionados, de que para haver compreensão (1992, p. 132) "precisaria haver pelo menos duas consciências em diálogo, opondo ao interlocutor sua contrapalavra" nesse processo dialético de construção de sentidos. Nesse viés, para acontecer essa interlocução viva sob a forma de linguagem, as crianças precisavam exercer sua narratividade, para que contassem suas histórias na primeira pessoa. E, nessa circunstância, coube ao pesquisador acolher e valorizar tanto as suas narrativas quanto suas escolhas, recusas, comportamentos e emoções. As contradições, ambiguidades, tensões e conflitos não estariam à margem de suas narrativas, mas nesse caso não interessava resolvê-los nem, tampouco, verificar seu teor descritivo em relação a fatos supostamente reais, ficcionais ou imaginários.

Para o desenvolvimento desse estudo, foi necessário associar aos conceitos já elencados, ainda, outros relativos à Comunicação Social e à Teoria da Literatura. A discussão e análise sobre as notícias e os telejornais exigiam conhecer os atributos dos acontecimentos que permitem vir a veiculá-los como notícias na televisão (TRAQUINA, 1993; WOLF, 1987). Embora não exista uma unanimidade entre os jornalistas, nem mesmo na área de Comunicação Social, sobre o que sejam "valores-notícia", trabalhou-se com o seu registro inquestionável em um determinado tempo (caráter de atualidade), sua veracidade e, ainda, com atributos dos acontecimentos, sistematizados por Silva (2005, p. 10-12): 1) referente à pessoa de destaque ou personagem público (proeminência); 2) incomum (raridade); 3) referente ao governo (interesse nacional); 4) que afeta o bolso (interesse pessoal/econômico); 5) que provoca indignação (injustiça); 6) grandes perdas de vida ou bens (catástrofe); 7) consequências universais (interesse universal); 8) que provoca emoção (drama); 9) de interesse de grande número de pessoas (número de pessoas afetadas); 10) grandes somas (grande quantia de dinheiro); 11) descoberta de qualquer setor (descobertas/invenções); 12) assassinato (crime/violência).

A cena que será relatada aqui foi uma entre tantas outras, igualmente significativa, que exigiu uma aproximação aguda na tentativa de desmembrar esse tecido formado por informações entremeadas com conhecimentos e com sentimentos, de maior e de menor pertencimento, além da dúvida evidenciada por essa dupla de meninas de 7 anos sobre a importância de certos fatos e de algumas pessoas que merecem destaque como uma notícia.

A certa altura, a menina WS reclamava por não entender a escolha da amiga, o recorte feito de um antigo jornal levado pela professora para a sala de aula, e sobre isso ela disse:

[...] esses homens aí [apontou com desdém para a imagem e para a amiga GO]... o que é isso? Nós nem conhecemos eles, nem sabemos o que eles estão fazendo no jornal, mas eu sei, sabia? Eu sei que eles estavam lá, com essa roupa importante. Um só, eu acho que eu já vi na televisão, eu sei que ele é importante, mas nem me lembro quem é. Mas são eles mesmos, as notícias têm a ver com eles, sim. Se saíram no jornal de papel e no da TV é porque eles são pessoas das notícias e alguma merda eles fizeram, só não sei qual (WS, 7 anos).

E a isso, sua amiga GO, respondeu, alimentando a discussão:

É olhar e ver, ve bem! É claro que é importante. É tudo homem com essas roupas de Brasília, de gente importante. Nós não sabemos nenhum nome deles, só que esses homens de terno e com malas, claro, são ladrões. Normal. Eles são ladrões, pessoas que roubam as outras, mas que têm roupa de bacanão, de rico. É mesmo! E dentro dessas malas têm dinheiro e armas. Tem dinheiro até dentro da cueca deles. Está cheio de dinheiro do povo nessa mala, tem dinheiro seu aí também", [apontando para a amiga WS, com que dialogava] (GO, 7 anos).

Dessa vez foi WS quem reagiu bravamente:

Dinheiro meu? Você está maluca? E eu nem tenho dinheiro nenhum! Você disse que é dinheiro roubado do povo! Sua burra, e eu sou povo? Eu não sou povo, não sou mesmo, só que eu vou te dizer uma coisa, se tem dinheiro meu lá... eu vou querer. Só se meu pai arrumou e nem me disse, porque ele ainda nem voltou do norte!? Só sei uma coisa, se tiver dinheiro meu lá eu vou querer e vou lá pegar4.

Para encaminhar um fechamento dessa parte do texto, resta anunciar o desafio imposto pelo campo para ser possível responder aos questionamentos infantis quanto à veracidade e à credibilidade de algumas notícias, tomados por elas como sendo incorreções e, muitas vezes, como mentiras. Essa circunstância trouxe ao debate o ideário de Wolfgang Iser (1996), o que possibilitou o acesso a uma concepção de real, de ficcional e de imaginário, o que tornou possível a compreensão e a análise tanto das formas de abordagem quanto das discussões propostas pelas crianças sobre "o real" e suas "representações", ao se referirem ao discurso ficcional televisivo.

Embora exista uma ideologia jornalística que estabelece uma fronteira nítida entre a realidade e o mundo ficcional (ISER, 1996), tornou-se necessário ultrapassar essa dicotomia para ser possível conhecer o que as crianças identificaram como diferente e contrastante entre fatos, eventos ou situações, referenciadas no mundo real e sua representação na televisão. Algo que ultrapassa a transposição simples da realidade para a televisão e que aproxima os conceitos de ficção e de realidade, sempre que algo que é real (ou a realidade) se configurava como uma representação constituída a partir da linguagem (no caso, a televisiva). O real, segundo Iser (1996), só existe no momento em que um sujeito dele se apreende para poder falar dos referenciais que o compõem e, assim, ele só pode ser algo que se revista de aspectos ficcionais. Portanto, o real como tal seria inapreensível por ser algo (fato, cena ou circunstância) que tem um registro num tempo, num espaço, mas que precisa ser transmutado em linguagem, para ser compartilhado e veiculado, por exemplo, como uma notícia.

 

AS CRIANÇAS – SUAS VOZES, OLHARES E HISTÓRIAS

Havia muita dúvida nesse grupo quanto à existência de um significado único e preciso sobre "notícia" em todos os seus contextos. Os depoimentos infantis que se seguem podem tanto comprovar os diferentes contextos de referência em que foram empregados o termo "notícia" quanto para demonstrar a tensão interna do grupo na busca de um significado negociado sobre o termo ou o conceito, polissêmico por natureza.

No Faustão só tem uma notícia para as famílias. Da Fininvest. Quem precisa de dinheiro vai lá pega, mas tem que pagar depois" (TW, menina, 7 anos).

Meu pai está lá no Norte, ele tinha prometido fazer festa para nós quatro (são 4 filhos), mas só fez para o menor – Marquinho –, que ele esperou nascer. Ele avisou essa notícia da festa pra todo mundo, que ia ter isso e aquilo, se exibiu para galera e depois...nada. Eu e meus irmãos todos acreditamos, mas não teve foi nada (RT, menino, 8 anos).

A esses depoimentos sobre o que é uma "notícia" se segue o diálogo entre outros dois meninos, em que merece destaque o fato de um deles já ter se apropriado da estrutura comum do texto jornalístico televisivo ao falar sobre uma notícia da televisão: "Eu jogo play station antes e depois do almoço, na televisão. Jogo com meu irmão de 11 anos. Ele é Flamengo, eu sou Vasco", diz o menino de 7 anos para seu amigo de mesma idade, que responde:

Meu irmão joga botão comigo e videogame também. Mas minha mãe tira os cabos da tevê para ver jornal e novela. Eu bem vi, ontem na televisão, a família toda do Romário lá, no jogo, esperando o golzão dele, mas ele não fez o mil. Notícia é isso (fez mão de microfone e deu um tom de reportagem): Rooooooomário fez o milésimo! Não. Errei. Desculpem, telespectadores, vou começar de novo. Gravando. O Romário fez hoje o milésimo gol e a torcida vascaína foi ao delírio (VB, menino, 7 anos).

Retomando a questão dos telejornais e a presença da televisão na vida das famílias dessas crianças, havia em suas casas 34 televisores coloridos, com controle remoto, o que alcança uma média de 1,7 aparelho por criança, embora fossem todos bastante pobres.

Diante do rico acervo de depoimentos e de opiniões infantis sobre as notícias da televisão, produzidas e veiculadas nos telejornais, precisou ser feito, para esse artigo, um recorte dos resultados para serem apresentados aqui três aspectos: o fato de as crianças não gostarem de telejornais e de notícias – o que eu menos gosto na tevê; suas crenças quanto à existência apenas de notícias ruins, ou seja notícias boas, nunca, e ainda um critério de diferenciações entre as notícias: notícias mais ou menos, notícias para trás e a notícia como perdido.

 

CRIANÇAS, NOTÍCIAS E PARTICIPAÇÃO SOCIAL – INFORMAÇÕES E/OU EXPERIÊNCIAS

Para ser possível trabalhar com essas categorias é necessário começar explicando a repulsa das crianças pelas notícias e pelos telejornais a partir de várias questões interrelacionadas. Uma delas se refere à expectativa de que a televisão divirta, entretenha, informe e alegre a vida delas, o que torna fácil perceber por que os telejornais e as notícias da televisão não lhes são agradáveis nem divertidos. Junto a isso, existe uma expectativa dos adultos com que vivem de que, no horário noturno, junto deles, elas já não tenham mais direito de escolha e que estejam supostamente saciadas de diversão. Assim, permanecer perto ou diante da televisão é a alternativa de encontro de que os adultos dispõem, ainda que pouco ou nada interativa, impondo a presença das crianças diante da televisão. Sobre isso, elas dizem:

Eu gosto muito de ficar com meu pai vendo TV Globinho, Scooby Doo e Paraíso Tropical. Ele deixa eu escolher o programa que eu gosto com o controle na minha mão. Eu vou virando, virando até achar o que eu quero. Só que na hora do jornal eu tenho que ver com ele o do SBT que eu nem gosto, mas eu vejo com ele. Adoro ver novelas e ele vê comigo e aí ele reclama que é ele que não gosta das novelas, mas ele fica junto e vê comigo (TG, menino de 7 anos).

A menina LS, de 6 anos, disse assim: "a gente ouve, ouve, ouve números demais, chatices, coisas tristes e não adianta nada", ao fazer referência ao horário do telejornal que a aborrece muito por entender o seu tempo de duração como sendo regido por um acordo tácito de passividade, de silêncio e de escuta, para mais tarde ser possível fazer algo mais prazeroso. Sua amiga concorda e diz:

Na minha casa não pode falar nada para não atrapalhar o jornal, só ouvir. Grita minha mãe, grita minha avó, beltrano e sicrano. As crianças têm que ficar mudas, só ali, paradas. Eu fico só vendo do meu quarto até acabar e, aí, eu posso começar a ver minha novela, que eu adoro (SC, menina, 7 anos).

Essa imposição se dá, também, por certos padrões de comportamentos e de expectativas dos adultos sobre elas, que se refere à busca de acesso e do poder oriundo das informações, que faz com que os pais estimulem e incentivem suas crianças para que sejam espertas, para estarem ligadas e, até mesmo, para saberem certas coisas que eles desconheciam quando eram da idade delas. Estar informado, assim, é uma segunda questão muito importante. Estar a par e em dia com as notícias do mundo e, ainda, ter algo pronto para dizer que sirva como uma resposta pronta, implica um modelo de pessoa bem informada nesse grupo, modelo esse que todos devem seguir, sob o risco de se sentirem excluídos da sociedade da informação e do consumo. Algumas crianças defendem a importância da informação e o valor da televisão nesse processo, como a menina DS, de 6 anos:

Eu acho que a TV ensina muitas coisas boas também. Programas de brincadeira, de desenho, de futebol e as novelas também nos passam muita informação, até de outros lugares. Quase todas as pessoas já têm televisão em casa, por isso se tornam mais cultas e informadas (DS, menina, 6 anos).

Uma terceira questão importante se refere à elevação da autoestima das crianças nos casos em que se sentem aptas a trocar informações com os adultos, sendo valorizadas por eles, como aconteceu em 2007, ano em que o Brasil sediou os Jogos Pan-Americanos. Essa troca de informações e as possibilidades de diálogo permitem as crianças reconhecerem-se como sujeitos ativos e participativos na vida social, como conta o menino KM, de 7 anos, ao relembrar os dias de férias em que houve o Pan, quando ele esteve sem aulas e pôde permanecer na casa dele com seu pai. O pai saía para trabalhar, deixava-o com a televisão sob seu comando e permitia sua ida ao "restaurante do tio comer um PF [prato-feito], na mesma calçada da casa, no Rio das Pedras", e assim que o pai chegava eles falavam "só de Pan, Pan sem parar". E seguiu:

Não tinha ninguém pra me encher o saco. O dia todo eu via campeonato de tudo e ia guardando na cabeça pra poder contar depois tudo pro meu pai, quando ele chegava. Quando o Brasil ganhava medalha eu saía gritando Brasil, Brasil. Eu torci pra tudo: remo, judô, salto triplo, ginástica olímpica, futebol de homem e de mulher, tênis de mesa e até badminton. Era muito legal. Todo mundo me perguntava as notícias do Pan.

Sobre esse complexo fenômeno que, de um lado, se sustenta no volume avassalador de informações circulantes a que somos todos submetidos e, de outro, toma como verdadeiro um esvaziamento gradativo da experiência, Benjamin (1987b) e Larrossa (2002) encaminharam uma reflexão que parece produtiva.

Benjamin reclamava no seu tempo nunca ter visto antes tantas coisas se passarem enquanto, ao mesmo tempo, a experiência estava sendo cada vez mais rara, menos qualificada. E, segundo ele, estaria no "periodismo, como um dispositivo moderno", grande parte da explicação para a "destruição generalizada da experiência". Para Larrosa (2002), estaria nessa aliança entre a produção da informação e produção da opinião a causa da morte gradativa da experiência. O resultado dessa aliança foi uma sacralização da informação e da opinião que tomaram todo o espaço do acontecer, todo o espaço da experiência, sem deixar lugar para o sujeito individual viver e existir, se deixar tocar. Nessa circunstância, ainda segundo Larrossa, passou a se esperar de cada pessoa que cumpra o papel de sujeito altamente informado e em condições de opinar sempre, sobre todos os assuntos, ainda que com argumentos e respostas próprias, porém sem condições de escapar à semiótica contemporânea que valoriza o sujeito informado e opinativo. E seriam esses mesmos mecanismos, possivelmente, os responsáveis por esse movimento gradativo de incapacitação das pessoas para vivenciar experiências, tal como ele as concebe. Assim, segundo o mesmo autor, a cada dia se torna mais difícil delimitar os contornos do que seja informação e experiência, separação imprescindível para a valorização de tudo o que cada uma dessas palavras abarca, já que elas não são sinônimas. Ao contrário, seria a busca incessante, cada vez mais veloz da informação como um valor de mercado, uma possível explicação para a não ausência de lugar/espaço e valorização da experiência. Segundo ele, toda a retórica que tem como fim "constituir-nos como sujeitos informantes e informados" acaba cancelando as nossas possibilidades de experiência, e diz:

o sujeito da informação sabe muitas coisas, passa seu tempo buscando informação, o que mais o preocupa é não ter bastante informação; cada vez deve saber mais, sempre melhor informado, tendo como consequência, porém, dessa obsessão pela informação e pelo saber (não no sentido de "sabedoria", mas no sentido de "estar informado") o fato de tornar impossível que algo lhe aconteça.

Nessa perspectiva, portanto, espera-se que o saber de experiência possa ser separado e desvinculado do saber das coisas, ou sobre as coisas, quando se está informado.

Não deve ser por acaso, também, que a cada dia com maior frequência sejam usadas as expressões "sociedade da informação", "sociedade do conhecimento" ou "sociedade da aprendizagem", como se fosse possível, e desejável pensar a sociedade como um mecanismo de processamento de informação. E, sobre isso, Larrosa (2002), reafirma sua tese em que julga serem "as sociedades constituídas sob o signo da informação nas quais a experiência se torna impossível". O rebatimento do valor excessivo da informação inflacionaria a valorização da opinião, o que, segundo o autor, torna a experiência exponencialmente mais rara. Não bastaria, assim, ser um sujeito informado, mas ter uma opinião sobre as informações de que dispõe, ainda que esta seja "supostamente pessoal, supostamente própria e, às vezes, supostamente crítica" sobre tudo o que se passa. Desse modo, informação e opinião, juntas, convertem-se num imperativo, num valor simbólico que exige de cada pessoa não só estar a par de tudo, como ter o que dizer de modo pronto e rápido sobre tudo. Diante dessa exigência, como um valor socialmente construído, onde é importante um teor alto de informação, acrescido pela velocidade exigida de réplica, pouco ou quase nada toca, sensibiliza, passa, implica etc. com a densidade necessária para deixar as marcas que caracterizam a experiência.

Enquanto a informação poderia ser tomada como sendo objetiva, jamais se poderia aceitar a opinião sobre a informação como algo fora do âmbito da subjetividade, do olhar, do lugar e da forma própria de cada pessoa ser tocada, ser impactada ou marcada, devolvendo ao que é coletivo o que, a partir dele, se constituiu em particular, em singular. Quando a opinião deixa de valer como uma contrarresposta subjetiva e passa a se constituir como um espaço determinado para uma pessoa ser a favor, ou contra, a resposta automática toma o lugar que caberia à opinião pessoal. Esse dispositivo periodístico que faz com que não se possam estabelecer relações entre as informações, porque cobra rapidez e voracidade, acaba reduzindo qualquer evento a um estímulo fugaz e instantâneo, que se substitui por outro, por outro etc. e que, assim, produz nada mais que uma excitação igualmente fugaz e efêmera. A falta de tempo é mais um elemento, segundo Larrosa (2002), que desqualifica a experiência ao impedir uma conexão significativa entre os acontecimentos, dentro do tempo e ritmo de cada um, além de roubar de todos a memória, no nível individual e coletivo.

Assim, para o autor, a experiência tem sempre uma dimensão de incerteza, uma abertura para o desconhecido, para o que não se pode "antecipar, nem pré-ver, nem pré-dizer".

Ao buscar aproximar o conceito de experiência do Larrosa (2002), ao que se deseja investigar, não se pode negar que as relações que as crianças estabelecem com a televisão, nos dias de hoje, são muito intensas em número de horas, em vibração e desejo etc. e que a consequência mais palpável disso seja o fato de a imagem/som e os movimentos televisivos, em diferentes gêneros, ritmos e periodicidades, passarem a ocupar a centralidade de suas experiências, ainda que elas não sejam reféns nem sujeitos apassivados sem crítica.

 

ENCAMINHANDO CONCLUSÕES, OU AS CRIANÇAS EM BUSCA DA VERDADE

Nesse grupo de crianças ficou evidenciado não haver um interesse regular por parte dos adultos com quem as crianças convivem para ouvir o que elas pensam, sentem e recortam como sendo notícias importantes, assustadoras, mais ou menos agradáveis etc., em função do que veem e ouvem nos telejornais. Diante do fato de elas terem que assistir, mesmo sem gostar, todas as noites aos telejornais, associa-se a percepção delas de que só são produzidas e veiculadas notícias tristes e ruins, com som e imagem em movimento. Assim, embora não houvesse um mesmo sentido, único, atribuído às notícias, havia acordo quanto ao fato de notícia ser crime. Sempre é. Dificilmente as crianças conversavam sobre fatos e acontecimentos sem reafirmar entre si: você já sabe, não é? Como sempre, crime, crime, crime.

Essas crianças participavam dos acontecimentos e das notícias, discutiam, se emocionavam e se envolviam fortemente com elas, em especial quando se referiam a crimes com balas perdidas, mortes por acidentes e/ou cenas que retratassem processos violentos ou resultados de situações de violência. Injustiças também não passavam despercebidas. Com iguais força e teor à noção de notícia com referência a crime, evidencia-se uma outra característica sua como sendo sempre verdadeira, ou seja, as notícias se referem em geral a crimes que de fato aconteceram, ou melhor, que tinham acabado de acontecer, provavelmente, de madrugada, que é quando a maioria dos crimes acontece. O grupo concordava com a importância da veracidade das notícias como um aspecto relevante no mundo do jornalismo, mas tinha dúvidas muitas vezes sobre a abordagem usada por uma ou outra emissora de televisão.

A polêmica da época pairava sobre o milésimo gol do jogador Romário se remetendo a alguma suspeita quanto à contagem dos gols e, associada a isso, uma frustração das expectativas infantis geradas pela demora maior do que o previsto, e muito noticiado, para o jogador Romário conseguir fazer seu milésimo gol. Muitas comemorações planejadas para o feito precisaram ser adiadas e isso gerou muita discussão entre as crianças, para além das rivalidades habituais devido aos seus times de coração. O fato em si e o vasto noticiário desestabilizaram muito aquelas crianças, mais os meninos, claro, que expressaram angústia e medo de imaginarem-se estar sendo enganados pelas notícias, vindo a questionar sua veracidade. O menino VT, de 6 anos, disse:

Você não está vendo que essa é uma notícia da televisão, olha aqui, você não está vendo a imagem? Romário fez o gol. Parou até o Faustão para mostrar o pênalti. Foi o Faustão que deu essa notícia em primeira mão.

Diante disso, lhe foi perguntado sobre o que era uma notícia em primeira mão, e ele respondeu:

É falar antes de todo mundo, ninguém sabia ainda, nem o Esporte Gol, nem o rádio, nada, nada, ninguém sabia. Só o Faustão estava ali, prestando atenção, aí alguém disse pra ele: para tudo agora que ele vai fazer! Ele parou o programa e o baixinho fez.

Ainda sobre o assunto, o menino YC, de 7 anos, deu seu depoimento, além de mostrar como acompanhou nas outras mídias o acontecimento:

Você sabe não é? Todo mundo sabe que o Romário fez o mil! Aí, eu fui ver Fantástico para ver todo o lance. Depois deu de novo no rádio. Minha mãe dorme ouvindo a Rádio Globo no ouvido e também deu na banca. Eu acordei e vi no jornal da banca, muita foto, muita notícia. Só dava Romário, parecia até que ele é um Fabio Assunção. Ele tava era igual a um artista famosão, desses da novela, só que ele é preto e já foi até pobre, mas hoje ele tem muito dinheiro. Por isso ele é famoso! (YC, menino, 7 anos).

Em muitos casos, ao questionarem a veracidade de determinada notícia, emergiu um outro aspecto, que será tratado aqui como expressão de religiosidade – porque notícia, eu sei, pode ser quase toda de verdade, pode ser, mas a palavra de Deus sempre é, mas não é uma notícia. E nesse contexto, como apenas as notícias relativas ao futebol e ao clima poderiam, às vezes, serem boas, além de a verdade ser um valor incontestável, elas sinalizaram que gostariam de ver e de ouvir na televisão mais notícias e histórias de verdade, que, segundo elas, só poderiam ser encontradas nas palavras da Bíblia, nos museus e nos livros escolares.

Assim, dentro de uma valoração que se aproximava mais ou menos da verdade, tal como eles a concebiam, nem sempre sem conflitos, foram estabelecidos certos enquadramentos como as notícias mais ou menos, as filmadas para trás e o perdido.

Esses enquadramentos, sem dúvida, em seus contextos e sempre sob a óptica das crianças, implicavam uma forma de subtrair o peso e a força apresentados por outros grupos de notícias da televisão, como os acidentes (atropelamentos, mortes etc.), as tragédias (avalanches e desabamentos), os resultados de jogos de futebol e as notícias de esportes, dentre outros. Nesse viés, aqui estão exemplificados três enquadramentos que emergiram do grupo, como categorias.

Como notícias mais ou menos enquadravam-se as de relevância duvidosa, por questionarem seu critério de importância e, sobretudo, por não serem violentas, ameaçadoras, nem serem sobre crimes:

[...] notícias de fofoca que também dão no rádio, nas revistas, nem sempre tudo assim, super de verdade. Isso é "notícia mais ou menos", da vida dos famosões, dos artistas da televisão. O Giannechini e a Preta Gil se beijando. É isso. Outra notícia mais ou menos que eu gostei? Foi do presidente Lula distribuindo o sol do Pan.

As notícias filmadas para trás, termo usado com frequência pelas crianças, remetiam ao caráter de atualidade e de veracidade das notícias. Essa categoria emergia sempre que uma determinada notícia era veiculada sem sua imagem de referência, produzida no ato do acontecimento, e a mesma expressão foi usada, também, nos casos em que as imagens foram produzidas por repórteres amadores, quando eram imagens produzidas no computador ou por ilustradores e, ainda, as geradas em câmeras de segurança. As crianças entendiam que nem sempre havia repórteres nos locais onde os fatos aconteciam, e que, eventualmente, caberia à população avisar aos repórteres os fatos para estes poderem ser veiculados no telejornal. E, sobre isso, diziam elas: "O Bonner e a Fátima [referindo-se a Willian Bonner e Fátima Bernardes, da emissora TV Globo] escolhem o que vai virar notícia na tevê. Eles é que mandam".

O perdido surgiu também como uma categoria para se referirem a certos aspectos pragmáticos do texto jornalístico que não atendiam às suas expectativas, dentro da abrangência da relação que estabeleciam com o mundo, por meio das notícia. As crianças usavam o perdido para significar:

O quê? Você não sabe? É quando anunciam na televisão, deixam todo o mundo pensando, pensando e nunca mais dão outra notícia pra resolver o perdido. O exemplo mais comum de perdido se referia ao Bin Laden, que à epoca ainda estava vivo – e o Bin Laden? Cadê ele para ser preso? Dizem que ele quebrou as torres com avião lá nos Estados Unidos, mas cadê ele para confessar? Para ser preso? Está aí, misturado nas outras pessoas. Sabe se ele já fugiu? Se já viajou?

Essas crianças mostravam alguma raiva e uma certa desconfiança de que muitos crimes já tivessem sido resolvidos, esclarecidos, sem que tivesse havido divulgação. Ao serem perguntados sobre esse sentimento pouco claro, também para a pesquisadora, se seria possível esconder e sobre quem poderia esconder essas informações, eles disseram:

Eu não sei, mas os repórteres sabem tudo, eles sabem de tudo. Eles ficam guardando as notícias pra todo mundo não saber. Notícia pode dar muito dinheiro. Tem gente que fica só atrás dos artistas, pra dar notícia e ganhar dinheiro. Sabe o Nelson Rubens, da Rede TV!, ele está rico, todo arrumadinho. Ele não é pastor, é de notícia mesmo que ele dá. É legal.

Insisti com o grupo para saber se achavam mesmo possível os repórteres saberem de certas informações, e não divulgarem à população, sob a forma de notícia. As crianças responderam sem hesitar que

repórter e polícia andam juntos. Onde tem merda eles estão todos juntos, na hora de dar a notícia ruim eles dão, mas depois não resolvem, não dizem como que resolveu: se matou, se morreu. Isso é perdido!

Como uma conclusão desse texto, um aspecto surpreendente merece ainda ser assinalado e este se refere à abrangência dos conhecimentos já constituídos em grande parte do grupo a respeito do texto jornalístico e do formato dos telejornais, principalmente quando se considera que a turma estava em fase de sistematização da leitura e da escrita. O caso da menina TS, de 7 anos, serve para exemplificar isso. Ela contou que, aos 4 anos de idade, levou um tombo na escola em que ela "sangrou muito". Segundo ela, ninguém quis olhá-la, porque ela estava transformada "num monstro de sangue", e, por isso, precisou ir com a diretora da escola para o hospital público municipal mais próximo. Sua preocupação agora, em 2007, ou seja, passados três anos do acontecido, referia-se à possibilidade de alguém tê-la filmado naquela época, na escola ou no hospital. E segue TS:

Eu nem sei se filmou, mas vai ver que filmaram tudo. Era uma notícia, porque eu estava em tempo de morrer, mas, se um repórter estivesse lá, queria ver o que ela ia fazer.

Sobre o quê, ela foi perguntada: "Ela quem?" E, de imediato, a menina TS respondeu: "A minha mãe, ora". Hoje em dia, a mãe de TS, com quem ela mora, converteu-se à religião evangélica e pediu que sua TS não "aparecesse na mídia, em especial na televisão, para não acabar em foto nua, com coisa de tiro e muito menos na internet", o que foi acatado pela pesquisadora e pela escola sem ressalvas. Mesmo assim, diante do conhecimento que a menina tinha de que nos dias de hoje existiam inúmeras possibilidades de as pessoas serem filmadas de modo quase imperceptível, instalou-se um sentimento de ameaça quanto à existência de uma possível gravação do que aconteceu com ela, mesmo passado tanto tempo. Busquei tranquilizá-la com o argumento usado pelo grupo e, desse modo, questionei se, àquela altura, essa já não seria uma "notícia velha"? Ela respondeu prontamente que "sim, essa notícia já está muito velha, velhíssima, mas eu quero dar!". Assim, ficou claro que, apesar de essa ser uma notícia vencida pelo tempo para o público em geral, para a menina TS essa era a notícia da vida dela. Então, lhe foi proposto que ela desse a notícia, ali, para a pesquisadora, já que não estava autorizada a participar com sua imagem da pesquisa. Ela fez de um estojo de plástico fininho um microfone e disse:

Aconteceu uma tragédia na Escola M. XY. Uma menina de 4 anos chamada TS caiu da altura da cintura da mãe dela no chão e quase morreu, mas Deus salvou ela! Virou-se para mim e disse: "olha, o repórter, quando acaba, diz eu sou fulano, beltrano. Eu vou falar. Eu sou TS. Pronto, acabou. Pode passar a letrinha. Tchau (TS, menina, 7 anos).

No caso da menina TS, pode-se anunciar aqui, ainda, um outro aspecto relevante que aborrece muito as crianças quando o assunto é a notícia, que se refere à invisibilidade delas na mídia, o que ainda será discutido em outro momento, em novos artigos. Há, ainda, muitos outros aspectos igualmente relevantes e interrelacionados que integram essa pesquisa sobre crianças e notícias que nesse texto não foram explorados e há, também, tantos outros que dela emergiram que estão por ser mais bem conhecidos, por essa e por outros pesquisadores da área.

No entanto, o aspecto citado por TS e sua autora foi destacado aqui por dois motivos diferentes. O primeiro se refere ao fato de ela anunciar que muitos fatos relevantes para as suas vidas não tiveram, ou não têm, representação nos telejornais como uma notícia, e isso alimenta um sentimento de exclusão, de não pertencimento social. O segundo, mais afetivo e menos acadêmico, se refere ao fato de ter sido dela a frase que deu o nome à pesquisa de doutorado5 que, em parte, está aqui relatada.

Segundo a mesma menina, ser obrigada a ficar sentada todos os dias junto com os adultos da sua casa ouvindo as notícias do telejornal sem poder falar nada é

a pior coisa do mundo, a coisa mais chata e horrorosa do mundo. Só tem um dia feliz na semana, pra mim, né? Um dia que tem culto na igreja e que não tem telejornal, por isso domingo é um dia de felicidade.

 

REFERÊNCIAS

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Contato:
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Recebido: 03/05/2012
Aprovado: 21/11/2012

 

 

NOTAS

1 Tese de doutoramento da autora, disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=125584>
2 Domingo é Dia de Felicidade é o nome da tese de doutoramento defendida na PUC-Rio, em dezembro de 2008, que deu origem ao um livro de mesmo nome lançado em 2012 pela Editora Multifoco, RJ.
3 Crianças e Televisão, pesquisa realizada entre 2004 e 2006 pelo Grupo de Pesquisa em Educação e Mídia (Grupem), da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), com apoio do CNPq e parceria institucional com a TVE/Rede Brasil.
4 A reprodução textual respeitou sempre o discurso das crianças. Possíveis alterações se devem à necessidade de se estabelecer pontuações na escrita para tentar manter o sentido e as ênfases da oralidade.
5 Domingo é Dia de Felicidade: as crianças e as notícias da televisão.

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