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Educação em Revista

versão impressa ISSN 0102-4698versão On-line ISSN 1982-6621

Educ. rev. vol.33  Belo Horizonte  2017  Epub 13-Nov-2017

http://dx.doi.org/10.1590/0102-4698162877 

Artigo

DOCÊNCIA, EXPERIÊNCIA INTELECTUAL, FORMAÇÃO: THEODOR W. ADORNO COMO PROFESSOR

TEACHING, INTELLECTUAL EXPERIENCE, EDUCATION: THEODOR W. ADORNO AS PROFESSOR

Franciele Bete Petry1  *

Alexandre Fernandez Vaz1  **

1Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Florianópolis - SC, Brasil

RESUMO:

A obra de Theodor W. Adorno pode ser lida como uma busca pela transformação social que, entre outros elementos, requer o pensamento crítico. Neste sentido, a educação compõe os esforços de superação da semiformação e dos limites que a indústria cultural impõe à experiência intelectual e estética, engajando-se na batalha política de não-repetição da barbárie, na luta contra o totalitarismo e a dominação social. Considerando que a educação em Adorno exige pensar seriamente sobre a tarefa dos professores, o presente artigo analisa a educação como prática política em alguns de seus seminários. Adorno executou sua filosofia não apenas em seus escritos e discursos, mas em sua prática docente. Em suas aulas, o exercício filosófico e a análise e aplicação dos conceitos mostram-se tão importantes quanto a discussão de ideias, quando forma e conteúdo se mostram inseparáveis.

Palavras-chave: Teoria Crítica da Sociedade. Formação. Adorno; Theodor W. Ensino de Filosofia.

ABSTRACT:

The work of Theodor W. Adorno can be read as a search for social transformation, which requires the critical thinking. In this sense, education may be an effort to overcome pseudo-culture and the limits of intellectual and aesthetic experience enthroned by culture industry. Education must be engaged in the political necessity of non-repetition of barbarism, in the struggle against totalitarianism and social domination. Considering that education in Adorno’s work requires thinking seriously about the task of the teachers, this paper analyzes the teaching practice as political praxis in some of Adorno’s seminars. It will be possible to observe how Adorno performed his philosophy not only in his writings and speeches, but also in his teaching practice. In his Lessons, the philosophical exercise and the analysis and application of the concepts have shown themselves as important as the discussion of ideas, when form and content became inseparable.

Keywords: Critical Theory of Society. Education. Adorno; Theodor W. Teaching of Philosophy.

Introdução

Ao longo de sua trajetória intelectual, Theodor W. Adorno levou a sério a tarefa de procurar o núcleo de verdade existente na tradição filosófica, desenvolvendo, juntamente com os demais intelectuais que formaram a primeira geração da Teoria Crítica da Sociedade, um pensamento que, inconformado com uma realidade permeada de injustiças, contradições e dominação, busca superar a si mesmo por meio de uma dialética que desafia a própria razão em sua pretensão de compreender e determinar osobjetos. Esse comprometimento com a filosofia se manifesta em suas atividades como intelectual, mas também como docente, as quais pretendem colocar sob tensão os limites do pensamento, da teoria e, quiçá, da razão.

O compromisso com a resistência do pensamento frente à dominaçãose expressa na concepção de filosofia defendida por Adorno, inseparável do momento de crítica que a interpretação filosófica deve conter. Adorno chega a dizer que a “interpretação como tal é como acrítica; se uma interpretação que não é crítica então não é interpretação - tampouco quando é afirmativa”(ADORNO, 2003a, p. 80, tradução nossa). Este é o caráter fundamentalmente crítico presente na interpretação que torna a filosofia uma força de resistência, assim como faz dela, mesmo em seu caráter teórico, uma forma de prática. Para isso, a filosofia exige uma espécie de “metodologia” diferente para se realizar, já que deve se contrapor à forma pela qual o pensamento tradicional procura compreender a realidade, baseado em uma lógica de identidade que o impede de expressar as contradições sociais e todo o sofrimento existente.

Em escritos de Adorno como O ensaio como forma ou mesmo a Dialética negativa, fica evidente a recusa em aceitar que a filosofia possa trabalhar com definiçõesou ser sistemática. Embora ela tenha uma lógica de exposição, não deve proceder nem por dedução, nem por indução. Ao assumir que seu objeto possa ser contraditório, sua linguagem deve ser capaz de incorporar tal contradição. Assim, a forma pela qual o pensamento se apresenta é fundamental, pois ao se tornar veículo de expressão do sofrimento e da violência existentes na realidade é que uma filosofia pode se mostrar como resistência. O momento de expressão da linguagem filosófica será, então, tão importante quanto o conteúdo a ser comunicado, uma vez que Adorno não reconhece que haja uma distinção entre esses dois momentos.

Ao correlacionar em um mesmo nível as dimensões da forma e do conteúdo, Adorno compromete-se com um estilo que se mantém ao longo de sua carreira como intelectual e professor. A forma fragmentária de sua obra responde a uma exigência teórica e não consiste em uma escolha arbitrária. É justamente por se manter fiel a um modo de pensar e de se expressar, intimamente relacionado com a crítica social, que a atitude de Adorno como filósofo é capaz de intervir na realidade, colocando em outro plano os limites entre a teoria e a prática. Afinal, “seu desempenho como ensaísta coloca em questão o aparato da academia, sua aliança tácita com a ordem política existente sob o pretexto da liberdade de pesquisa e objetividade científica” (HOHENDAHL, 1997, p. 225, tradução nossa).

O ensaio é a forma que mais bem exprimiria o pensamento crítico dialético, na medida em que permite uma exposição por meio de conceitos que se relacionam e que podem, entretanto, entrar em conflito, o que não é, de maneira alguma, incompatível com o rigor filosófico. Tal forma estará presente na obra de Adorno tanto no modo fragmentário e prismático de pensar os mais diferentes temas, sejam eles da própria filosofia, ou da sociologia, música ou literatura, entre tantos, quanto no modo de escrever e se comunicar: por meio de ensaios, aforismos, escritos, conferências ou debates. Rose comenta o trabalho de Adorno, dizendo que,

a maioria dos livros de Adorno consiste em artigos reimpressos que foram publicados primeiramente em revistas como ensaios, artigos, notas, monografias ou resenhas. Outros foram originalmente transmissões de rádio e algumas introduções ou sinopses de conferências acadêmicas. Ele deu a eles títulos que enfatizavam sua natureza fragmentária, tais como ‘notas’, ‘prismas’, ‘modelos’. Adorno escreveu em uma variedade de estilos, alguns mais, alguns menos obscuros (ROSE, 1978, p. 12, tradução nossa).

A obra de Adorno, assim, contempla as mais diferentes formas de expressão, todas condizentes com sua posição de que a filosofia, a fim de cumprir seu papel de crítica à reificação do pensamento e da sociedade, deve prestar atenção ao modo como trata seu objeto, orientando-se por ele mais do que o subjugando em seu modo de pensá-lo. Adorno irá propor, assim, um modelo de expressão filosófica, em que a palavra passa a ser considerada não um mero instrumento de argumentação e derivação de conceitos, mas o próprio corpo do pensamento:

a exposição é, por isso, mais importante para o ensaio do que para os procedimentos que, separando o método do objeto, são indiferentes à exposição de seus conteúdos objetivados. O “como” da expressão deve salvar a precisão sacrificada pela renúncia à delimitação do objeto, sem todavia abandonar a coisa ao arbítrio de significados conceituais decretados de maneira definitiva (ADORNO, 2003b, p. 29).

Nesse sentido, a filosofia teria um compromisso que não é meramente estetizante. Ela é responsável por oferecer materialidade aos pensamentos por meio da forma com que os impregna e, expressivamente, revela. Esta preocupação com o momento expressivo da linguagem filosófica se fará presente, para além da sua atuação teórica, na prática docentede Adorno. É precisamente esta dimensão que o presente trabalho procurará explorar, mas não no sentido de encontrar, a partir de sua obra, uma “metodologia” que fosse mais apropriada à filosofia ou mesmo uma “didática” pela qual a filosofia devesse ser ensinada. Antes, busca compreender a implicação interna que a concepção de filosofia defendida por Adorno tem em relação a seu ensino, tornando a docência uma forma de práxis política.

A fim de desenvolver a problemática acerca do modo pelo qual a filosofia ganha expressão na prática docente, o trabalho corporifica seus argumentos por meio do comentário e da análise dealgumas das aulas de Adorno na Johann Wolfgang Goethe Universität de Frankfurt am Main, reunidas em Vorlesung über Negative Dialektik: Fragmente zur Vorlesung1965/66 (Conferências sobre a dialética negativa: fragmentos para as conferências de 1965/66),1 as quais se referem à publicação de Adorno, Dialética negativa, trazendo temas fundamentais à filosofia e ao procedimento dialético por eleadotado; em Problemeder Moralphilosophie, referentes ao ano de 1963, as quais apresentam uma leitura minuciosa da teoria moral kantiana, inserindo-a no cerne dos problemas com os quais a filosofia moral, em geral, se depara; em Introdução à sociologia e que contém, além das contribuições de Adorno para a reflexão sociológica, comentários que ficam à margem das suas discussões relativas a conteúdos, referindo-se àprópria dinâmica docente na Universidade.

O momento expressivo das aulas de filosofia

Adorno mostrou-se comprometido não apenas com a forma expressiva da linguagem filosófica quando concebida em termos de escrita, como também em seu modo de apresentação oral, o qual ganha destaque na prática da docência. Em Problemeder Moralphilosophie pode-se encontrar já nas primeiras aulas, e especialmente no início de cada uma delas, várias considerações importantes sobre o desenvolvimento do próprio curso que seria oferecido no decorrer do semestre. O professorchega a comentar que a própria forma Vorlesung deve ser distinta tanto em natureza quanto em finalidade da expressão escrita. Em um trecho da aula de catorze de maio de 1963, diz:

(...) eu diria que a Vorlesung que surgiu em uma época em que a impressão havia muito já existia é, em certo sentido - Horkheimer uma vez o expressou de maneiramuito bonita - uma «forma arcaica», ou seja,ela foi, em certo sentido, superada, na medida em que se pode ler. Portanto, se é para se manter este formato, se é de fato o caso de seguir com o Vorlesung, isso só tem sentido se nele se diga coisas em tal forma que não pode ser encontrado na forma impressa, especialmente não nos assim chamados textos de respeitada filosofia. (ADORNO, 1996, p. 41, tradução nossa).

Adorno recomendava aos estudantes que não tomassem notas durante a aula, a fim de que realizassem o exercício de abstração, de reflexão, ainda que algo se perdesse nesse movimento, exatamente porque é esse tipo de exercício que constitui a própria filosofia. Tal atividade é, também, qualitativamente diferente daquela de acesso a um texto, cuja leitura impõe outro ritmo para a compreensão dos conceitos. Além disso, a orientação se devia ao fato de que o modo de exposição não era linear, tampoucopossuía o encadeamento lógico-analítico de quem procede em sua explicação por etapas. Como o professor não refletia dedutivamente, o estudante que tentasse traçar uma sequência argumentativa acabaria frustrado, já que, assim como os ensaios, também a fala de Adorno se movia segundo a ordem prioritária do objeto, a qual ganhava forma pelo pensamento, mas não determinada por ele. Desse modo, havia na aula uma renúncia ao pensamento sistemático, devendo ser a reflexão, e não a busca pela compreensão de conteúdos específicos e pontuais, o objetivo principal. Adorno chegou a fazer um comentário sobre essa questão:

Eu lhes dizia que seria vergonhosouma forma de apresentação do tipo “em primeiro lugar”, “em segundo lugar”, “em terceiro lugar”, que fingiria um tratamento sistemático que à coisa não corresponde. Eu procuro, em lugar disso,a pau e pedra, fazer com vocês as reflexões, os movimentos que, segundo penso, seriam o movimento específicodo espírito filosófico. (ADORNO, 1996, p. 41, tradução nossa).

Se fosse o caso de apenas receber determinados conteúdos, como se a filosofiatransmitisse informações, então, bastaria ter contato com os livros, os quais proporcionariam esse tipo de informação ao leitor, pois “se apenas do conhecimento sobre teoremas se tratasse, da transmissão histórica e filosófica de posições, então vocês poderiam, de forma geral, apropriar-se muito melhor dessas coisas pela leitura” (ADORNO, 1996, p. 42, tradução nossa). Contudo, as aulas têm outra finalidade que não se reduz à comunicação de conteúdos. Antes, elas incitam o estudante a pensar, a aprender a pensar sobre eles. Esse modo de refletir não sistemático tem, no entanto, uma lógica em sua exposição. É por Adorno conceber a filosofia como um exercício de reflexão livre, que rejeita a tendência tradicionalmente adotada por ela de subsumir o pensamento aregras lógicas e dedutivas. Em certomomento, Adorno faz uma afirmação fundamental para se compreender o que é a atividade filosófica:

Eu penso o seguinte. Primeiramente, que a filosofia consiste absolutamente na reflexão sobre o conhecimento e não na transmissão imediata de informação; e que quem se envolve com seriedade com a filosofia - e suponho que isso se aplica a todos vocês - deve-se levar pela reflexão, a reflexão livre e sem colher de chá,e não deve esperar da filosofia nesta forma qualquer tipo de objeto sólido, como costuma acontecer por aí (ADORNO, 1996, p. 40, tradução nossa).

Dessa forma, as aulas de Adorno, fossem elas sobre filosofia ou sociologia, não consistiriam em espaços para se “ensinar” conteúdos, senão em atividade reflexiva conduzida pelo próprio objeto. Os conteúdos se tornam a matéria do pensamento e emergem de acordo com o movimento realizado pela reflexão, seja como necessidade de se adentrar em um conceito ou para explorar as diferentes dimensões de um tema. Assim, o “ensino” ocorre sem que seja pretendido, pois é o exercício de pensar que surge em primeiro plano. A famosa assertivade Kant segundo a qual não se pode ensinar filosofia, mas como filosofar, é lembrada por Adorno no sentido de reafirmar que aquilo que deve ser apreendido em aula não é, necessariamente, o que se diz sobre um determinado filósofo ou um conceito, mas como o pensamento opera a partir dos elementos que tem à disposição. No curso sobre a filosofia moral, Adorno discorre sobre o tema ao longo de suas aulas partindo de categorias da teoria kantiana, as quais servem como base para se pensar, de forma crítica, a própria moralidade. Ele comenta esse procedimento no início de uma das primeiras aulas:

(...) O próprio Kant escolheu em seus cursos jamais ensinar diretamente sua própria filosofia, preferindo fazê-lo em conexão com a filosofia de Leibniz e Wolff,cuja crítica ele imprimiu sob o título de“Crítica da Razão Pura”. Uso Kant de modo semelhante,como um veículo, a fim de, por um lado, apresentar a vocês seus problemas e questões, e por outro, por meio de críticas e novas reflexõesque se conectam com os textos kantianos, fazê-los avançar sobre eles (ADORNO, 1996, p. 43, tradução nossa).

É possível pensar que a figura de Adorno se torna um exemplo de alguém que faz filosofia e, assim, mostra aos estudantes um modo de pensar filosófico. Entretanto, não é apenas a forma da aula que está em questão, pois ela é inseparável do conteúdo: “Pertence à filosofia que forma e conteúdo não se deixem entre si separar, como se supõe ser o caso em várias áreas de conhecimento (...)” (ADORNO, 1996, p. 41, tradução nossa). Não se trata, portanto, de mostrar o que seriaa filosofia pura e simplesmente, mas de refletir de certo modo que, para Adorno, deve ser essencialmente crítico. Assim, ele se torna um exemplo de uma filosofia crítica, que se apropria da tradição para, mesmo que nos seus marcos, ir além dela, incentivando os estudantes a fazer o mesmo.

O conteúdo filosófico e sua forma de apresentação

A preocupação de Adorno com os pressupostos metodológicos de suas aulas está de acordo com sua posição de que a relação entre o professor e o aluno deve ser transparente, no sentido de que é preciso esclarecer também aquilo que acontece de forma mais ou menos implícita nesta relação, mas que pode levar a uma falsa representação, seja sobre o professor, sobre a aula ou mesmo sobre o conteúdo. Adorno esteve constantemente atento para as questõespedagógicas, ainda que não se possa dizer que foram elas seu foco central de pesquisa e reflexão. Elas na verdade decorrem da preocupação com a relação entre o conteúdo e sua recepção, algo que, no caso específico das aulas por ele ministradas, pode se tornar problemático, já que insiste no rigor, na profundidade dos temas e, assim, faz-se necessário esclarecer os estudantes sobre os motivos que o levam a proceder desse modo, que claramente não é arbitrário, mas consequência da sua maneira de entender a filosofia. Há da parte de Adorno, portanto, uma profunda preocupação com o modo pelo qual aquilo que é dito por ele seja experienciado pelos alunos.

A posição teórica defendida por Adorno acerca da dialéticaentre conteúdo e forma se repete, no plano da prática, na relação entre método e conteúdo. Ainda que as aulas apresentemuma dinâmica particular no que se refere à apresentação de um tema, distinguindo-se da elaboração mais precisa e fechada dos textos, pode-se observar que Adorno segue um estilo de exposição que permite que o pensamento aborde os conceitos que lhe são necessários para apresentar e criticar determinado objeto, recorrendo eventualmente a ideias de outros filósofos, para desse movimento extrair suas próprias conclusões. A experiência intelectual que deve ocorrer por meio da filosofia constitui-se em uma atitude aberta do sujeito frente aos objetos, detendo seu olhar sobre eles sem pretender esgotá-los. Adorno chega a fazer um comentário autobiográfico dizendo que nunca entendeu porque, ao final das aulas, os professores diziam não ter “esgotado” o tema, o que lhe parecia algo impossível de acontecer, uma vez que para ele ” importante seria “a possibilidade de o espírito mergulhar intensamente [no tema], e não em algo que fosse da ordem da completude quantitativa” (ADORNO, 2003a, p. 113). Assim, não há como mensurar o objeto, determinando quanto dele teria sido completamente abordado, pois a própria experiência intelectual se opõe ao que é estático, sendo antes um movimento em que o espírito se deixa envolver pelo objeto, alimenta-se dele, impulsionado em sua direção sem, no entanto, lograr capturá-lo. A experiência intelectual se caracteriza mais pela transitoriedade e abertura da sua relação com o objeto do que com uma “apreensão” final:

o giro metacrítico contra uma filosofia primeira que eu estou tentando tornar-lhes apreensível a partir de diferentes ângulos, é o giro contra a finitude de uma filosofia que insiste retoricamente no infinito, mas que, ao mesmo tempo não observa, verdadeiramente como tal, o infinito que lhe escapa. A filosofia não possui, portanto, qualquer de seus objetos assegurado- e isso também pertence às especificidades da dialética, entre as quais, se ela é tomada energicamente, que pareça alcançar, segundo penso, uma forma negativa. A filosofia não deve criar o fantasma de umatotalidade,senão que a verdade deve nela cristalizar-se (ADORNO, 2003a, p. 124, tradução nossa).

A passagem mostra algo que ele já havia anunciado nos anos 1930: que a filosofia, na sua tarefa de interpretação, deve se colocar contra o idealismo e sua tentativa de capturar conceitualmente a totalidade, devendo, antes, dialeticamente, olhar para o particular que pode ser considerado expressão objetiva de uma totalidade, ainda que ele se apresentecomo uma mônada solitária. É nesse sentido que Adorno se refere a uma “micrologia” que olha para o particular indo além dele. Em uma comparação que não pretende equiparar filosofia e arte, Adorno mostra que as obras de arte seriam o protótipo do conhecimento da realidade, pois pensadas em si, como objetos, elas são fechadas, mas uma análise que vai além delas tenta capturar seu teor de verdade, seu sentido objetivo, ampliando o conhecimento e transformando-o em uma experiência intelectual. Assim, “apenas quando se tem disponível a possibilidade deste tipo de experiência, que eu tentava mostrar para vocês nas obras de arte, somente então poder-se-á constituir o que pontuava: o conceito de experiência intelectual (...)” (ADORNO, 2003a, p. 126, tradução nossa)”.

É por isso que a filosofia não pode se manter fechada, mas sim trazer para si o sentido da formação cultural como modo de se aprofundar no conhecimento dos seus objetos. As Humanidades podem contribuir fornecendo-lhe elementos da experiência para que ela possa interpretar criticamente a realidade. O trabalho de Adorno como intelectual e professor mostra essa necessidade de dialogar de diferentes formas, de olhar para os objetos por distintos ângulos, pois só assim seriapossível construir uma imagem da realidade mais próxima da verdade, ainda que nesse jogo o pensamento se depare com contradições. Como afirma Oskar Negt, “o filósofo e sociólogo Adorno não assume papéis diferentes em campos de conhecimento precisamente delimitados entre si; a divisão do trabalho entre um e outro não é mais do que uma diferença de ênfase nos aspectos sob os quais uma determinada situação é abordada” (2004, p. 92).

Em suas aulas, Adorno fazia filosofia do modo como a concebia: como reflexão crítica, que procura no interior das teorias filosóficas suas inverdades para, assim, também a partir delas, construir novos modelos de pensamento, deixando de lado conceitos que são expressões da reificação, pois a filosofia, sobretudo, deve se opor à formação de uma falsa consciência, renunciando ao desejo de se firmar em certezas, assumindo sua falibilidade que é, ao mesmo tempo, a possibilidade de se confrontar com a verdade.

Essa atitude pretensiosa e crítica em relação aos conceitos e às teorias é símbolo da convicção segundo a qual o pensamento livre seria aquele capaz de arrancar da linguagem, dos conceitos, verdades cristalizadas, mas também aquelas que só se mostram em seu contrário, nas falsidades. Assim é que Adorno examina minuciosamente a teoria moral kantiana e por meio de sua crítica descobre as contradições do pensamento moderno e da condição do sujeito nas categorias que o filósofo de Jena adotou. Sua crítica, que ao mesmo tempo é uma interpretação no sentido que Adorno mesmo confere a essa noção, revela um Kant intimamente vinculado à sociedade burguesa de seu tempo. Além disso, as ideias kantianas sobre a moralidade expressariam o próprio princípio de dominação da natureza, o qual, por sua vez, relaciona-se à redução da racionalidade à perseguição dos fins ligados à autopreservação. Assim, a filosofia de Adorno, já desenvolvida em textos como a Dialética do esclarecimento (HORKHEIMER; ADORNO, 1985), se mistura à interpretação que ele faz da teoria kantiana e que é apresentada aos estudantes, abordando de forma detalhada os argumentos e passagens da obra de Kant que tornam sua leitura não apenas possível, mas no sentido adorniano, atual. Ao mesmo tempo em que faz suas críticas, mostrando como as contradições emergem da teoria de Kant, Adorno faz ele próprio uma filosofia moral, no sentido em que ele considera ser ainda possível: não como uma teoria ou sistema, mas como “tentativa [...] de trazer à consciência crítica da filosofia moral, a crítica de suas possibilidades, tornando consciente a consciênciade suas antinomias” (ADORNO, 1996, p. 248, tradução nossa). É dessa forma, ao fazer filosofia a seu próprio estilo, que Adorno se torna um exemplo para seus alunos sem ter que “ensinar” algo a eles, mostrando, mais uma vez, que ser professor é ser, também, um intelectual.

A estrutura da exposição filosófica nas aulas

Embora Adorno não reconheça a cisão entre método e conteúdo, há uma dinâmica presente em seu modo de lecionar que varia de acordo com os temas a que os cursos se referem. Nas aulas sobre filosofia moral, o professor faz uma espécie de introdução ao tema, comentando como ele será desenvolvido no decorrer das aulas, mas também elabora muitas considerações, algumas delas apresentadas nesta seção, sobre o que entende por filosofia, a respeito do método de suas aulas, oferecendo aos estudantes informações importantes que permitissem compreender o processo que ali se desenvolveria, o qual não se reduz à transmissão de conhecimento ou simples reprodução da filosofia de Kant. As lições partem das categorias presentes na teoria moral de Kant para ir além delas por meio da crítica. Há também continuidade entre elas e, nos casos de interrupções ou cancelamento, Adorno faz uma revisão do que se discutira até o momento. As últimas aulas desse curso possuem um enfoque mais crítico, no qual Adorno expõe suas considerações sobre a moralidade, reforçando a ideia de que nas condições em que se encontravam naquele momento, a única força que restava era a de resistir às formas da “má vida” e à heteronomia, o que exigiria, nos termos de seu pensamento, uma forma de reflexão que assumisse uma postura política, na medida em que também é crítica da sociedade. Como afirma, “poderia-se dizer: a pergunta pela vida reta seria a pergunta sobre a política correta, sempre que tal política correta estivesse no campo de possibilidades contemporâneo.” (ADORNO, 1996, p.262, tradução nossa). A reflexão filosófica, comopossibilidade de se contrapor às formas de pensamento que correspondem à racionalidade instrumental presente na sociedade, torna-se uma necessidade no que diz respeito à formação de uma consciência verdadeira, implicando também na responsabilidade dos professores de malgrado as dificuldades e contradições a isso imanentes, insistir na tarefa de esclarecer seu público.

No curso sobre a Dialética Negativa, a edição traz as notas particulares de Adorno, o que permitem compreender como ele abordava os conteúdos. Nas notas da primeira aula, por exemplo, Adorno registra pontos a serem abordados, quase na forma de palavras-chave. Acrescenta, além disso, uma sequência que ele denomina de “plano”, o qual consiste, quando se lê a transcrição da aula, no fio condutor das suas reflexões, com algumas frases que resumem a ideia a ser apresentada. O professor indica, ainda, no caso dessa aula que tem como tema o conceito de contradição, elementos que o compõem e o duplo caráter que ele carrega. Por fim, as notas apresentam dois curtos parágrafos com as conclusões resultantes a partir daquelas considerações.

Embora Adorno elabore um “esquema” de aula, a dinâmica que ela assume de forma alguma é fixa e sistemática, pois ele não segue uma ordem dedutiva na exposição. Nota-se que, no caso da aula acima mencionada, Adorno apresenta o objetivo geral do curso, ou seja, discutir o conceito de dialética negativa e, após iniciar sua fala sobre o tema, aponta outros conceitos que estão intrinsecamente ligados àquele, como os de contradição e não-identidade, recorrendo também ao modo como Hegel pensou a dialética e, assim, “cerca” seu objeto, que não é esgotado nomomento. A recusa em proceder dedutivamente e a defesa da dialética como forma de se pensar filosoficamente faz com que as aulas de Adorno tenham um sentido particular, o qual está em concordância com uma posição defendida em Minima Moralia, ainda que nesta obraa referência seja ao texto para leitura:

(...) em um texto filosófico, todas as proposições deveriam situar-se a igual distância do centro. Mesmo que Hegel jamais tenha dito isso expressamente, todo seu procedimento dá testemunho dessa intenção. Assim como esta não reconheceria algo que fosse primeiro, tampouco poderia, a rigor, saber de alguma coisa que fosse segunda ou derivada, deslocando então o conceito de mediação precisamente das determinações formais intermediárias para as coisas mesmas e pretendendo assim superar a diferença entre estas e um pensamento que lhes fosse exterior e as mediasse. Os limites que se impõem ao sucesso de tal intenção na filosofia de Hegel são ao mesmo tempo os limites da verdade desta filosofia, a saber, os restos da prima philosophia, da suposição do sujeito, apesar de tudo, como um “primeiro”. Uma das tarefas da lógica dialética é eliminar os últimos vestígios do sistema dedutivo juntamente com os últimos gestos advocatórios do pensamento (ADORNO, 1993, p. 61).

Incorporada nas reflexões sobreas aulas de Adorno, a passagem acima explica a dinâmica presente nos cursos. Ao serem tomadas em conjunto, pode-se observar que cada uma das aulas é um fragmento do objeto que pretendem apresentar. Assim, à medida que o curso avança, novos conceitos são acrescentados à mesma temática, no sentido em que Adorno se referiu na citação, ou seja, assim como nos textos as proposições deveriam se situar a uma mesma distância do centro, nos cursos, cada aula também se localiza, constelarmente, a uma mesma distância do tema. Não há aulas “primárias” ou “secundárias”, pois todas apresentam elementos importantes que iluminam seu objeto. No curso sobre a Dialética negativa, por exemplo, Adorno discute a questão da negação determinada, a relação entre teoria e prática, o conceito de experiência intelectual, dentre outros temas que, juntos, formam o conceito de dialética negativa. Vistas conjuntamente, portanto, as aulas realizam a ideia de constelação tão defendida por Adorno (2009) na própria Dialética negativa.

Mesmo quando as aulas têm um caráter de introdução à filosofia ou a algum tema filosófico em especial, a linguagem empregada, a densidade com que os conceitos emergem, de modo algum oferecem facilidade. Nessa exigência de rigor reside a convicção de Adorno de queo próprio objeto reivindica o modo como deve ser apresentado, portanto, se o tema filosófico é complexo, também a forma de se chegar até ele será. Adorno parece tratar um problema filosófico como um novelo de lã que precisa ser desemaranhado até que o fio se encontre completamente estendido. Os nós que nesse movimento surgem são resolvidos pela reflexão dialética, que enfrenta a resistência dos conceitos e provoca sua tensão até revelarem seu caráter negativo, o qual não deixa de constituí-los. Adorno não escondia o fato de que não facilitaria a exposição aos alunos, algo que está registrado, por exemplo, na primeira aula do curso sobre problemas da filosofia moral:

Bem, se por assim dizer, atiro-lhes pedra sobre a cabeça, então é melhor logo advertir-lhes sobre isso do que deixar-lhes a expectativa de que receberiam pão; e, seo pão não se faz presente, então talvez terá acontecido de que as pedras, se atiradas, não os alcançaram ou, e isso eu gostaria que especialmente acontecesse,elas não eram assim tão assustadoras. (ADORNO, 1996, p. 10, tradução nossa).

Também aqui se manifesta o comprometimento de Adorno com a exposição, elemento essencial à filosofia, e que deve ser entendido pelos estudantes como necessário. Por isso o esforço em mostrar tal necessidade para que ficasse claro como o professor, ao lecionar filosofia, está inevitavelmente comprometido com uma concepção do que seja a atividade filosófica. Esta determina o modo como os temas serão tratados, como acontecerão as aulas, como os seus objetivos serão definidos. Na medida em que Adorno assume ser a filosofia uma reflexão crítica, a qual, além disso, pressupõe o caráter dialético e negativo, sua prática docente é uma forma de concretizar essa perspectiva. Daí decorre sua recusa em ministrar aulas de forma sistemática, de tornar o conteúdo “acessível” no sentido de não aprofundar as questões filosóficas, pois desse modo, que chega a parecer “antipedagógico”, é que se realiza uma mediação honesta entre professor e aluno.

Docência e pesquisa na Universidade

Outro aspecto que merece ser destacado nas aulas de Adorno diz respeito às considerações acerca do próprio trabalho na Universidade. Na primeira aula do curso sobre a Dialética Negativa, Adorno expressa seu descontentamento com a forma pela qual suas atividades, fosse com aulas ou com tarefas administrativas, exigiam um tempo que o impedia de realizar seu ofício de pesquisador, algo que ele considerava fundamental para o próprio ensino. Em um trecho da transcrição da referida aula, faz o seguinte comentário:

Senhoras e senhores, vocês sabem que a tradicional definição de Universidade exige a união de ensino e pesquisa. Sabem, igualmente, quão problemática é a realização dessa tão alardeada ideia. Meu próprio trabalho sofre muito com essa situação, a saber: a quantidade de aulas e tarefas administrativas que se acumulam sobre mim, torna quase impossível que eu realize durante o semestre minhas atividades de pesquisa- sempre que que se queira falar de pesquisa em relação à filosofia -, isso não apenas objetivamente, mas principalmente em correspondência com minhas inclinações e dedicação (ADORNO, 2003a, p. 13, tradução nossa).

Na velha tradição humboldtiana, Adorno mostra sua preocupação em relação à necessidade de o professor realizar suas pesquisas, uma vez que é a partir delas que novas ideias, conceitos ou interpretações podem surgir. Também para que o ensino não seja reduzido à reprodução de conhecimentos, seria preciso que as aulas consistissem em uma atividade reflexiva por parte do professor, assim como dos alunos que a acompanhassem, a qual, por sua vez, exige profundidade no tratamento das questões. E aqui tem sentido a ressalva de Adorno na passagem acima: “se realmente podemos falar de pesquisa em conexão com a filosofia”, pois se a filosofia é entendida como uma formação cultural mais abrangente, envolvendo uma relação com a cultura e, principalmente, com a experiência intelectual, a pesquisa, em seu sentido técnico, não parece ser o meio mais apropriado para estreitar o contato do espírito (Geist) com aquela.

Há uma passagem no texto Observações sobre o pensamento filosófico (ADORNO, 1995a) que pode esclarecer aquestão colocada na passagem citada mais acima. Adorno tenta mostrar como é essencial ao pensamento um momento de paciência, de passividade e concentração. Tais qualidades, contudo, estão em oposição ao modo como as instituições funcionam, as quais, sob a exigência de racionalização e tecnicização, reproduzem a alienação também no domínio da pesquisa. De acordo com Adorno,

é característico que se tenham instituído, reativamente, espaços acadêmicos que devem oferecer aos escolhidos a oportunidade para o meditar. Sem o momento contemplativo, a práxis degenera em um empreendimento carente de conceito; contudo, a meditação cultivada como esfera particular, em recinto fechado, separada de uma práxis possível, dificilmente conduz a algo melhor (ADORNO, 1995a, p. 20).

Adorno critica a“cientifização” da própria filosofia que torna os intelectuais “técnicos de pesquisa”. Na medida em que o pensamento se adapta às exigências externas, às imposições institucionais, do mercado e de interesses políticos, a capacidade mesma de pensar se atrofia, pois incorpora a dominação que impede o pensamento independente. Em uma das aulas de sociologia do ano de 1968, Adorno menciona a reforma universitária que acontecia na Alemanha e critica o modo como ela se realizava, segundo ele, seguindo a ideia de racionalidade instrumental “que almeja escolarizar a universidade, convertendo-a em fábrica de homens, produtora, do modo mais racional possível, da mercadoria força de trabalho, e que habilita os homens a vender por um bom preço a sua mercadoria força de trabalho” (ADORNO, 2008, p. 155).

A racionalidade que também se instituiu na academia acabaria por promover a ideia de um trabalho útil que se adéqua às exigências de produção, tornado os próprios intelectuais sujeitos a esse processo e transformando-os em vendedores de sua força de trabalho. Essa crítica já aparecera nas Minima Moralia, em que Adorno afirmara, por exemplo, que “uma das transferências nefastas do domínio do planejamento econômico para o da teoria (...) é a crença de que o trabalho intelectual pode ser administrado segundo os critérios que decidem se uma ocupação é necessária ou racional” (ADORNO, 1993, p. 108).

Além disso, para Adorno “a empresa da ciência possui sua contrapartida exata na espécie de mentalidade que ela aciona: eles não precisam mais infligir-se nenhuma violência para dar provas de que são os controladores voluntários e zelosos de si mesmos” (ADORNO, 1993, p. 108). Desse modo, o pensamento enreda-se em amarras que se tornam, justamente porque internalizadas, invisíveis ao indivíduo. O mecanismo de reprodução social é incorporado ao modo de pensar, a tal ponto que, diz Adorno, “mesmo quando se mostram, fora da empresa, como seres bastante humanos e racionais, ficam paralisados numa estupidez pática no instante mesmo em que se põe a pensar de modo profissional” (ADORNO, 1993, p. 108). A crítica se refere, sobretudo, à falta de um momento reservado à realização da experiência intelectual que está na base da reflexão filosófica e que, contudo, não se reduz à filosofia no sentido tradicional, pois se, como Adorno defende, ela não tem um objeto específico, então, é necessário, como dito antes, que se relacione com outras áreas de conhecimento, as quais, na medida em que podem entrar em contato com os dados da experiência, fornecem o material para a interpretação filosófica. Além disso, se nem todo o pensar ocorre no sentido emancipatório, pois ele também é instrumento de dominação, a estupidez adquire um caráter moral, pois o sujeito que não assume seu poder de pensar de forma independente, se entrega irresponsavelmente aos mecanismos de reificação. Contra essa tendência, objetivamente presente na sociedade e, também, no contexto da prática filosófica, Adorno diz:

a estupidez coletiva dos técnicos da pesquisa não é a simples ausência ou regressão das faculdades intelectuais, e sim uma proliferação dessas mesmas faculdades, que devora com sua própria força o pensamento. A maldade masoquista dos jovens intelectuais decorre da doença de que padecem (ADORNO, 1993, p. 108).

Adorno considera a inteligência, assim como a estupidez, categorias morais. É por isso que sua filosofia pode ser entendida como um impulso para a moralidade do pensamento, pois incentiva a busca pela autonomia e emancipação intelectual como condição de qualquer transformação maior em termos sociais. É preciso destacar, porém, que aqui se fala em filosofia no sentido que Adorno lhe atribui, pois ela também pode servir diretamente ao oposto de um pensamento independente, uma vez que “a Filosofia, entre tantas outras funções, também pode levar, sem dúvida, e com êxito, à estupidez” (ADORNO, 2003a, p. 35, tradução nossa). Assim, é preciso que a filosofia, na tentativa de se voltar contra a reificação, resista às formas de pensamento reducionistas presentes em sua tradição, insistindo, principalmente, na formação cultural e na crítica dialética como uma espécie de antídotocontraa semiformação, o cientificismo acadêmico, o positivismo que, ao imporem seus critérios ao pensamento, tornam-no “administrado”.

Além disso, há nessas críticas uma reafirmação da necessidade de que o professor, como anteriormente mencionado, seja não apenas um profissional, mas um intelectual que supere o conhecimento específico sobre a filosofia para poder pensar de modo independente. No curso sobre a Dialética negativa podemos ler que

Eu procuro lidar com esta situação, com a qual já me deparei nos dois últimos semestres, e agora novamente, de forma que minhas aulas se dediquem essencialmente a um livro volumoso e pesado ao qual tenho me dedicado há seis anos, cujo título, “Dialética Negativa”, é o mesmo com o qual nomeei este curso. (ADORNO, 2003a,p. 13, tradução nossa).

Nesta passagem, Adorno esclarece o motivo de ministrar suas aulas com base no livro Dialética negativa, algo que está também de acordo com a ideia de que a filosofia, sendo um movimento reflexivo, não necessitaria apresentar conclusões, portanto, que as próprias aulas podem ser uma espécie de exercício independente de um resultado. Relembrando Hegel, o professor defende que na filosofia os momentos de processo e resultado se confundem, de tal modo que não há um momento no qual ela possa se cristalizar. Sendo um exercício de pensamento, ela é essencialmente dinâmica, constituindo-se em um processo constante de reflexão, sem necessidade de chegar a um ponto final, já quecorresponde “ao pensamento filosófico um momento de tentativa, experimental, não enclausurado, distinguindo-se daquele da filosofia das ciências positivas” (ADORNO, 2003a, p. 14, tradução nossa). É nesse sentido que suas aulas renunciam à pretensão de desenvolverem-se como se pudessem esgotar o tema em questão ou encontrar respostas definitivas a ele.

Considerações finais

A análise das aulas de Adorno permite compreender a vinculação interna entre sua concepção de filosofia e o modo como ela se concretiza na prática docente. A responsabilidade atribuída por ele ao exercício filosófico, como possibilidade de resistência à reificação na medida em que permite ao sujeito uma experiência intelectual de confronto com a realidade, exige, no âmbito da docência, a reflexão constante sobre a expressão tão peculiar que cabe ao momento de uma aula. Mesmo que os cursos ministrados por Adorno apresentem, muitas vezes, a forma de monólogos, ele refere-se constantemente aos alunos, seja para indicar leituras, para chamar a atenção para algum elemento mais importante da aula, para questioná-los, inclusive, sobre detalhes técnicos que pudessem prejudicar a atenção e concentração durante a reflexão, perguntando, por exemplo, se eles conseguem ouvi-lo com clareza. Tais elementos tornam a aula um momento particular da atividade intelectual de Adorno, pois, mesmo que estejam em concordância com suas posições teóricas sobre a filosofia, inclusive no que se refere à defesa do ensaio, da forma fragmentária da exposição, elas possuem outro ritmo que é dado, sobretudo, em função da oralidade. Nesse sentido, pode-se observar que embora as aulas sobre a Dialética negativaretomem os temas presentes na obra de mesmo nome, no curso eles são tratados com mais abertura. É possível observar tal dinâmica diferenciada mesmo na leitura das transcrições, pois há elementos característicos da expressão oral, como as pausas na argumentação, indicadas, por exemplo, por advérbios como “agora”, “bem”, por locuções como “até o momento”, por afirmações do tipo “eu gostaria agora de falar...” ou “eu gostaria de chamar a atenção neste momento para...”, ou ainda pelo vocativo comumente utilizado no início das aulas, “Senhoras e Senhores”. Essas expressões mostram que a argumentação teve um momento de conclusão, ao qual se segue, então, uma nova reflexão. Além disso, Adorno utiliza exemplos e opera de forma que não é tão frequente em seus intrincados ensaios, como quando recomenda que a filosofia não perca sua proximidade com a experiência mais imediata:

Quero demonstrar isso a vocês agora de um modo muito simples - alguns de vocês talvez até me censurem -, de maneira quase infantil, para que vocês, com as reflexões que colocaremos, não percam o contato com fenômenos simples e elementares. Embora eu seja da opinião segundo a qual o pensamento eleva-se sobre o âmbito mais pueril, pertence a ele, por outro lado, que se mantenha em contato com a experiência imediata. (ADORNO, 2003a, p. 17, tradução nossa).

Além dos exemplos a que se refere, Adorno também faz menções autobiográficas para explicitar suas afirmações. Ainda que a presença desse tipo de comentário pareça banal, é interessante notar que a referência à experiência individual exerce um efeito de humanização do professor, algo que ele não apenas defendia em textos como Tabus acerca do magistério, como também praticava em sua própria experiência docente. Há vários exemplos do comportamento de Adorno que o aproximava dos ouvintes. Especialmente na edição Introdução à sociologia, há transcrições, geralmente localizadas no início da aula, que quebram a imagem de professor e intelectual sisudo. Ao contrário, muitos dos comentários, alguns referentes a problemas técnicos que causavam algum tipo de interrupção em sua aula, são carregados de humor. Nas transcrições, o editor manteve entre colchetes as reações do público, o que permite visualizar a ambivalência da figura de Adorno como professor: por um lado, alguém sério em relação aos conteúdos sobre os quais reflete e, por outro lado, uma pessoa sensível às coisas mais “práticas” do cotidiano, chegando a ser engraçado em suas afirmações. Em alguns trechos das aulas sobre sociologia, faz comentários que provocam risos e certa euforia nos alunos, desmistificando a antiga representação do filósofo que, a exemplo de Tales, presta apenas atenção no céu e se esquece de olhar para o chão em que caminha. Ummomento de leveza e descontraçãopode ser observado:

Senhoras e senhores, da mesma forma que é preciso imaginar um público de iniciantes à Sociologia, também devo agora ... [Assobios] Assim está melhor? - Agora melhorou? - Acho que alguém poderia - senhor Kulenkampff, o senhor faria a gentileza de assumir esse equipamento? - Obrigado - Agora melhorou? - O senhor Kulenkampff fará a gentileza de informar o apoio técnico - enquanto isso começarei gritando. [Risos] (ADORNO, 2008, p. 145).

Antes de iniciar eu até gostaria de dizer que hoje minha disposição para ministrar aula é igual à da maioria dos senhores para assisti-la. Contudo, trata-se da minha obrigação e nesse sentido peço a sua paciência e compreensão para o caso de eu não ter o êxito esperado como considero ser minha obrigação. Isto é muito difícil na situação atual em que somos cercados por muitas preocupações (ADORNO, 2008, p. 163).2

O caráter humano da figura do professor e as referências que fogem ao padrão abstrato e conceitual do exercício filosófico fazem das aulas um momento único: elas evidenciam que o sujeito que reflete não é uma substância pensante e solitária, mas alguém que está aí, situado em um determinado espaço e que é afetado pelas condições em que existe. A experiência do sujeito é respeitada e trazida para o momento da reflexão filosófica, sem que esta precise estar isolada da realidade para poder se realizar. O modo como Adorno trata a prática docente reflete, assim, suas convicções teóricas mais profundas, as quais se radicam na esperança de que uma experiência não danificada seja possível e possa levar os indivíduos a transformar a realidade no sentido da emancipação dos homens. A docência revela-se, por essa razão, práxis política, tal como a própria filosofia conduzida por Adorno ao longo de sua trajetória intelectual. A crítica constante às contradições da sociedade, as quais, por sua vez, impedem os homens de experienciar uma vida sem dominação, exige um comportamento teórico comprometido com a transformação dessa mesma sociedade, algo que se evidenciará na postura adotada por Adorno como professor, preocupado com o momento de liberdadeque o pensamento pode assumir para o sujeito. Eis a docência para Adorno: um momento de possibilidade de resistência à reificação mediante a realização de uma experiência intelectual genuína levada a cabo conjuntamente pelo professor e seus alunos.

REFERÊNCIAS

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1Vorlesungse refere a uma modalidade de aula praticada emuniversidades, na qual o professor faz uma série de palestras, que ocorrem regularmente durante um ou mais semestres. Numa Vorlesung, o professor fala sobre um tema que é desenvolvido ao longo das aulas e raramente é interrompido pelos alunos.

2 Esta aula ocorre no período do debate acerca das Leis de Emergência, daí Adorno se referir às “preocupações” daquele momento. Elas foram objeto de reflexão de Adorno (1971) que publicamente se colocou contra elas em um ensaio do mesmo ano de 1968.

Recebido: 22 de Abril de 2017; Aceito: 23 de Agosto de 2017

Contato:EED/CED/UFSC , Campus Universitário (Trindade), Florianópolis|SC|Brasil, CEP 88.040-900

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Doutora em Filosofia e em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina (2011). Professora do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina. E-mail:<franciele.b.petry@ufsc.br>.

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Doutor pela Leibniz Universität Hannover, Alemanha (2002). Professor do Departamento de Estudos Especializados em Educação da Universidade Federal de Santa Catarina. Pesqusiador CNPq. E-mail:<alexfvaz@uol.com.br>.

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