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Educação em Revista

versão impressa ISSN 0102-4698versão On-line ISSN 1982-6621

Educ. rev. vol.34  Belo Horizonte  2018  Epub 12-Abr-2018

http://dx.doi.org/10.1590/0102-4698183866 

Artigo

BENZER, ORAR E EDUCAR: PERCURSOS DE UMA CURADORA DA AMAZÔNIA

BLESS, PRAY AND EDUCATE: PATHWAYS OF an AMAZON CURATOR

MARCIO BARRADAS SOUSA1  *
http://orcid.org/0000-0003-1481-4980

MARIA BETÂNIA BARBOSA ALBUQUERQUE1  **

1Universidade do Estado do Pará, Belém, PA, Brasil

Resumo:

O artigo analisa a benzedura como prática educativa a partir da experiência de uma curadora evangélica, cuja prática se assenta no enfrentamento de doenças físicas e espirituais, no ensino de terapêuticas e da doutrina evangélica. O quilombo de Abacatal no Pará é o lócus de seu atendimento, espaço de circulação de saberes. A experiência de Dona Dionéia revela a benzedura como premissas para pensarmos o processo educativo sobre o qual assenta sua prática. Teoricamente, o artigo situa-se na interface entre educação e antropologia. Caracteriza-se como um estudo de natureza qualitativa do tipo etnográfico sob a metodologia da História oral. A prática educativa de Dona Dionéia mobiliza saberes ambientais, medicinais, espirituais e corporais. Assim, homens e mulheres aprendem a partir da observação que fazem do rito de cura, na escuta das orações e terapêuticas, na imitação da técnica de produção e (re)criação do remédio, configurando uma pedagogia do cotidiano.

Palavras-chave: Educação; Benzedura; Saberes

Abstract:

The article analyzes the blessing as an educational practice based on the experience of an evangelical curator, whose practice is based on the confrontation of spiritual illnesses and the teaching of therapies. The Quilombo of Abacatal in Pará is the locus of its service, space of circulation of knowledge. Dona Dionéia’s experience reveals the blessing as a premise to think about the educational process on which her practice is based. Theoretically, the article is situated at the interface between education and anthropology. It is characterized as a qualitative study of the ethnographic type under the methodology of oral history. The educational practice of Dona Dionéia mobilizes environmental, medicinal, spiritual and corporal knowledge. Thus, men and women learn from their observation of the ritual of healing, listening to prayers and therapies, imitating the technique of production and (re) creation of the remedy, forming a pedagogy of daily life.

Keywords: Education; Blessing; Knowledge

1. Introdução

Este artigo analisa a benzedura como prática educativa a partir da experiência sociocultural de Odinéia dos Santos Barbosa, Dona Dionéia, curadora evangélica, cuja prática se assenta no enfrentamento de doenças físicas e espirituais, no ensino de terapêuticas e também da doutrina evangélica. A Comunidade Quilombola de Abacatal, localizada há 08km do centro de Ananindeua, região metropolitana de Belém-PA, é o lócus central de sua prática e atendimento, espaço de mobilização e circulação de saberes.

A experiência sociocultural de Dona Dionéia revela a benzedura, ao lado da sabedoria popular, como premissas para pensarmos o processo educativo sobre o qual assenta a sua prática. A educação está sendo entendida em seu sentido amplo, isto é, como cultura (BRANDÃO, 2002) extrapolando, com isso, a visão clássica marcada pela racionalidade moderna, que tende a restringi-la aos domínios institucionais e escolares. Para além da dimensão escolar, a perspectiva antropológica de uma educação como cultura permite visualizar as práticas religiosas como eminentemente educativas, na medida em que são “territórios de trocas de bens, serviços e de significados” (BRANDÃO, 2002, p. 152), configurando-as como práticas educativas.

Por prática educativa, entendemos “toda relação em que há transmissão de conhecimento de qualquer espécie, seja de caráter moral, religioso, técnico ou até mesmo escolar” (CUNHA; FONSECA, 2007, p. 2). Conhecimentos esses que podem se expressar em diversos espaços sócio-culturais e formas de ser, tal como nas práticas de cura e benzeção de Dona Dionéia.

Por meio das reminiscências dessa curadora narradas em entrevistas, bem como das observações e registros de campo, reconstituímos sua trajetória de vida e seus saberes. O caráter etnográfico da pesquisa, ao coadunar-se com a História Oral, objetivou compreender as interações socioculturais tecidas por Dona Dionéia com sua família, com as pessoas que passou a atender e com a comunidade de Abacatal de modo a revelar a pedagogia do cotidiano mobilizada no enfrentamento das doenças.

Os caminhos percorridos por Dona Dionéia revelam uma experiência intercultural considerando sua inserção em diversas experiências religiosas: no meio católico, a partir de sua participação no grupo de mulheres, da realização de novenas nos lares de Abacatal, do culto aos santos. Na proximidade com entidades do panteão afro-religioso, a exemplo das caboclas Mariana e Jarina, caboclos Rompe-mato e José Tupinambá e outros seres encantados que faziam parte do seu convívio familiar. Mais tarde, após inserir-se na comunidade evangélica da igreja Assembleia de Deus, traduziu os saberes herdados de seus antepassados e os reinventou em seu atendimento espiritual, desta vez sob a égide pentecostal protestante.

A compreensão das mesclas religiosas realizadas para por em prática uma pedagogia do cotidiano, pautada na oração e na cura, foi possível graças às contribuições teóricas oriundas dos campos da educação em sua interface com a antropologia, permitindo-nos, assim, apreender o enfrentamento da doença como um processo educativo.

2. Aprender com a doença

Ao longo do tempo, ao defrontar-se com sua fragilidade física o homem buscou meios para proteger sua saúde. Estamos entendendo saúde como “um investimento ativo no corpo, no self e na relação de ambos com o meio”, considerando uma diversidade de práticas: “sistema de alimentação, consumo de fármacos, e outras substâncias, espiritualidades, estilos de vida, variavelmente combinados em composições pessoais criativas” (CUNHA e DURAND, 2011, p. 13). Assim, ao ser acometido por determinada enfermidade, o ser humano criou formas de compreensão e enfrentamento das desordens físicas e espirituais que lhe afligiam. De acordo com Gurgel (2010), todos os povos padeceram de enfermidades e, ao buscarem meios necessários para enfrentá-las, criaram suas próprias práticas curativas, as chamadas medicinas.

Segundo Quintana (1999), a doença poder ser compreendida como uma irrupção do cotidiano por se tratar de algo não esperado pelos indivíduos, configurando-se como um fenômeno biológico e sociocultural. Nos corpos doentes se inscrevem as contradições sociais, na medida em que as doenças impactam a sociedade ensejando medidas político-administrativas para seu enfrentamento. Desse modo, há uma interligação entre doença, corpo e sociedade. No corpo, as doenças ganham representações diferentes e funcionam também como indicadores sociais, o que as tornam ainda mais importantes na análise sobre os diferentes ambientes onde o indivíduo habita e tece suas relações socioculturais.

De acordo com Souza (1993), a sociedade tradicional europeia compreendia a doença como algo sobrenatural. As explicações para os sintomas eram pouco elucidativas, sendo necessário buscá-las nos domínios sobrenaturais, por meio de curandeiros. A autora comenta que “na França do século XVI, ainda se pensava dessa forma, pois acreditava-se que o dom de curar era hereditário” (SOUZA, 1993, p. 167). A interpretação dada aos sintomas das doenças foi por muito tempo subsidiada por explicações místicas e forças espirituais, atreladas aos fenômenos da natureza, ou mesmo à vontade divina. Homens e mulheres, dotados de capacidade para se relacionar com o sagrado e manipular as forças espirituais, dominaram o espaço da cura em diferentes tempos, lugares e culturas, traduzindo os sintomas aos doentes e ensinando-lhes a curar seus males.

A terapêutica ensinada pautava-se na habilidade com que os curadores manipulavam ervas curativas, práticas de sangrias, dietas, amuletos e feitiçarias, entre outros métodos quase sempre perpassados pela dimensão mágico-religiosa (MAUSS, 2000). Essa terapêutica “meramente empírica, era apenas uma consequência dessa aptidão em tentar e observar resultados que, mesmo duvidosos ou parcialmente vitoriosos, perpetuaram-se por gerações” (GURGEL, 2010, p. 10).

Com a chamada modernidade, tais formas de enfrentamento das doenças aos poucos foram se institucionalizando contribuindo para a formação de um campo científico articulado, diferenciado das formas mágico-religiosas de exercer o ofício de curar. A partir daí, eles foram também sendo subalternizados pelo saber erudito, porém não erradicados na sua totalidade. Ao contrário, passaram a coexistir tempos mais tarde, constituindo suas lógicas e intercessões, reconhecidas por Laplatini e Rabeyron (1989) como medicinas paralelas, entre as quais destacamos a medicina popular.

Pode-se dizer que a medicina popular é também medicina paralela, pois mobiliza uma infinidade de saberes que se movimentam em meio às práticas terapêuticas produzidas pelos cientistas populares. Muitos são conhecidos pelo serviço biomédico como ervateiros, parteiras, magnetizadores, médicos, puxadores, pajés, padres, benzedeiras, pastores, médiuns, ligados ou não ao serviço institucionalizado de saúde, ou mesmo a uma agência religiosa. Ainda que relegada, em alguns momentos, a um status marginal perante o saber científico, a medicina popular no tempo presente permanece operando no interior da sabedoria popular e erudita. Isso evidencia o caráter de legitimidade que a medicina popular possui entre os sujeitos históricos que dela desfrutam nas sociedades. Trata-se, portanto, de um saber constituído com proporções lógicas, ordenadas e eficazes, elaborado à margem do saber científico, embora venha tecendo com este campo relações cada vez mais estreitas.

Esse saber elaborado que compõe a sabedoria popular é tema presente nos estudos do antropólogo chileno Sergio Martinic (1994). O saber popular, segundo ele, ancora-se em práticas capazes de produzir conhecimentos necessários à vida cotidiana, assim como na execução de tarefas menos complexas do dia a dia. É também ancorado nas atividades onde é imprescindível o domínio de um saber elaborado, revestido de representatividade, técnica e psicologicamente aceito entre os membros de um determinado grupo social.

A medicina popular configura-se como um meio concreto de saber cuja finalidade é reconhecida e aceita pela sociedade. Para Martinic (1994, p. 79) “não se trata somente de um conjunto de fórmulas empíricas que circulam oralmente, e sim de princípios que geram um tipo de prática reconhecida socialmente como eficaz”. Uma vez reconhecida como “verdade” pelos grupos sociais, a sabedoria popular assume, assim, uma forma orgânica capaz de forjar identidades. Por meio desse processo, os sujeitos formam um corpo social coerente responsável pela composição e manutenção de seu acervo de conhecimentos, usando-os como instrumentos de interação e interpretação da realidade em que vivem.

A medicina popular é, desta forma, um meio possível de análise das práticas de enfrentamento das doenças, através da experiência de seus cientistas populares. Trata-se de uma “prática de cura concreta que, ao realizar-se, mostra aos médicos, biólogos e enfermeiros (os profissionais da medicina erudita) que, no campo da saúde não há um único modo de se fazer ciência” (OLIVEIRA, 1985b, p. 9). Da relação entre a doença e o seu enfrentamento, emerge da sabedoria popular a benzedura. Mas, o que é benzer? Segundo a autora:

Benzer é abençoar, solidarizando-se, ao mesmo tempo, com os deuses e com os sujeitos socializados. É suplicar aos santos para que eles produzam benefícios concretos aos homens. Pode ser também um cumprimento; às vezes uma despedida; em outras, pode haver um desejo implicitamente contido neste ato. Pode ser ainda um elemento de aglutinação cultural e de fortalecimento de relações sociais (OLIVEIRA, 1983, p. 3).

Formada na escola do cotidiano, entre benzeduras, novenas e trânsitos religiosos, Dona Dionéia mostra-se um sujeito histórico que transita entre distintos universos religiosos, sincretizando os elementos dessas culturas, para apresentá-los na forma de saberes usados para curar e educar em Abacatal. Resta saber como Dona Dionéia formou-se, ao longo de sua trajetória de vida, em uma benzedeira ou, segundo suas palavras, em uma “oradeira”.

3. “Benzer, eu não benzo mais... eu oro em nome de Jesus”: Percursos de D. Dionéia

Criada na religião católica, Dona Dionéia é reconhecida como benzedeira muito respeitada pela comunidade de Abacatal. Na adolescência aprendeu a benzer erisipela1 como sua avó, Dona Minervina, benzedeira experiente. Na igreja católica, participou do grupo de louvor composto por mulheres que cantavam nas missas da Paróquia Sagrado Coração de Jesus, padroeiro local, conforme sua narrativa:

Eu era novinha, é, acho que eu tinha uns 14 anos... Faz muito tempo... Foi minha madrinha que me ensinou a benzer, também porque o meu irmão tava ruim, e ele tava doente e não podia sair de casa. Eu foi lá chamar ela, pra ela orar por ele que tava com muita febre, Aí ela disse: Eu também tô com febre, minha filha, eu não posso, mas eu vou te ensinar. Tu sabe o ‘crendeuspai’, o Pai Nosso? Eu disse: sei. Pois então, eu vou te ensinar só como cortar as rosas e aí tu faz, aí tu corta e depois tu faz a oração, ora em cima que ai ele vai ficar bom. Ela mandou eu escrever, eu escrevi, aí eu decorei de cabeça. Aí eu já sabia o pai nosso e o ‘crendeuspai’ (Entrevista, 21 dez, 2013).

Nessa narrativa observa-se um processo educativo cotidiano envolvendo Dona Minervina como educadora e Dona Dionéia como aprendiz da técnica da benzedura. Pedagogicamente, essa técnica mobilizou o saber mágico-religioso expresso por meio das orações cristãs católicas (Pai Nosso e Creio em Deus Pai); o uso da jaculatória (a reza específica para afastar a doença na benzeção, implícita nessa narrativa); a alfabetização (saber ler e escrever); a memorização (decorar de cabeça todas as etapas da benzedura); a observação (seguir passo a passo as etapas do processo de intercessão em prol da cura do enfermo); e a fé, como expressão cosmológica que envolve todo o processo de enfrentamento da doença.

Observa-se, nesse processo, o forte papel da memória como caminho para recompor o passado no tempo presente. A forma como cada detalhe do vivido foi sendo recomposto no aqui e agora por Dona Dionéia, nos aproximam de Ecléa Bosi (2003), ao afirmar que a memória atende ao chamado do presente. E nessa relação, tempo e espaço são continuamente transpostos, pois o “passado precisa ser sentido tanto como parte do presente quanto separado dele” (LOWENTHAL, 1998, p. 65). A memória, como guardiã das experiências vividas, permite afirmar que os saberes cotidianos com os quais Dona Dionéia passou a trabalhar, a partir de seus 14 anos, são saberes nela ancorados. Isto porque os saberes e as práticas de cura são elementos da cultura do seu grupo familiar. Logo, a memória individual de Dona Dionéia está ligada à memória do núcleo familiar ao qual pertence.

Segundo Halbwachs (2003, p. 39), a memória individual depende da memória coletiva e com ela deve estabelecer íntima dependência, ou seja, é preciso que ela “não tenha deixado de concordar com as memórias deles [do grupo] e que existam muitos pontos de contato entre uma e outras para que a lembrança que nos fazem recordar venha a ser reconstruída sobre uma base comum”. O caráter coletivo que essa memória assume, neste caso, refere-se aos saberes e práticas curativas desenvolvidas pelos membros da família de Dona Dionéia, presentes em suas memórias e transmitidos a ela no cotidiano de suas experiências.

A prática de Dona Dionéia como benzedeira se manteve durante toda a sua permanência na Igreja Católica. Orações como Pai Nosso, Ave Maria, Creio em Deus Pai, Salve Rainha estavam presentes nos atendimentos que ela realizava para afastar a “batida de bicho” - doença espiritual causada por seres encantados nas matas - ou para cortar a erisipela, mas também orientavam as muitas novenas por ela realizadas no seio de sua parentela. Em suas palavras:

Eu sempre participei de comunidade. Eu era da frente, louvava junto com as mulheres, aí do Sagrado Coração de Jesus. Eu morava bem ali, onde tem aquele sítio, lá, minha casa, do lado dali aí, agente fazia novena de noite, dia do círio, negócio de natal, tudo do círio daqui, do Sagrado Coração de Jesus. Cada noite era numa casa, cada casa tinha que fazer o seu, sua novena. Aí, eu já fazia com a minha filha e vinha um bocado [de gente], traziam a santa (Entrevista, 21 dez, 2013).

Durante as programações festivas, (como os círios), no mês de junho, bem como as festividades de Nossa Senhora de Nazaré, no mês de outubro, são realizadas novenas nos lares católicos de Abacatal com a participação do grupo de mulheres do qual Dona Dionéia fez parte. Nelas estavam presentes as rezas, como Ave Maria, Pai Nosso, Creio em Deus Pai, Salve Rainha, leituras do Evangelho e pedidos de intercessões dirigidos aos santos. Estes elementos compõem os saberes circulados nesses eventos religiosos, aliados ao uso de objetos, como o terço ou rosário, a bíblia, hinários ou livro de cânticos, imagens dos santos e velas.

Dona Dionéia estava engajada, portanto, nas atividades religiosas do meio católico de Abacatal. Sua relação com os demais fiéis sugere que ela era uma figura popular entre os membros da igreja. No fragmento de sua narrativa, abaixo, observa-se que certo número de pessoas visitava sua residência por ocasião da novena, fato que a colocava numa relação de alteridade perante seus parentes e amigos: “Cada noite era numa casa, cada casa tinha que fazer o seu, sua novena. Aí, eu já fazia com a minha filha e vinha um bocado [de gente] traziam a santa” (Entrevista, 21 dez, 2013).

Ao realizar a novena em sua casa, Dona Dionéia não apenas exercia sua devoção aos santos, mas partilhava com seus familiares e amigos os ensinamentos oriundos da evangelização católica da comunidade. Assim, a reunião de devotos mediada pela fé nos santos, o uso de objetos sagrados, as rezas e os pedidos de intercessões revelaram não apenas o caráter religioso e educativo da novena, mas também a sua influência sobre a formação católica de Dona Dionéia. Todavia, sua narrativa deixou à amostra outras práticas religiosas sintonizadas com entidades do panteão afro-religioso presentes nos atendimentos que sua mãe, Dona Benedita, realizava:

Minha mãe, ela era formada! Uma vez uma menina tava com uma criança em pé dentro da barriga, aí ela mandou que levantasse ela e aí seguraram e ela orou na barriga dela. Aquela criança nasceu direitinho. Mina mãe sabia orar. Minha mãe era benzedeira, parteira, ela sabia muita coisa, ela era médium. Ela trabalhava com guia, mas eu não lembro direito porque eu era criança. Ela não queria seguir isso, mas eles desciam de vez em quando (Entrevista, 5 abr, 2014).

Verifica-se na expressão “minha mãe era formada”, a importância de determinada formação para o enfrentamento de doenças e outros males espirituais. Essa formação se dá na experiência pedagógica presente nas relações socioculturais, tecidas entre os sujeitos e os seres espirituais revelando o cotidiano como peça chave nesse processo educativo. Por cotidiano, compreendemos o palco da vida onde as relações sociais dos sujeitos se movimentam.

Para Certeau (2009), longe de ser uma repetição diária, o cotidiano constitui uma dimensão social que abriga as muitas formas da vida em sociedade. A vida cotidiana é também marcada pela experiência de vida imbuída de sentidos e significados. O termo experiência, remete ao que Bondía (2002) interpreta como sendo tudo aquilo que nos acontece e nos toca de forma reflexiva sobre o vivido.

Segundo Dona Dionéia, alguns de seus familiares exerciam o ofício de cuidar da saúde física e espiritual em Abacatal. Entre eles, estavam: Dona Suzana, parteira, benzedeira, tia do senhor Manoel, esposo de Dona Dionéia; Carlos Alberto, cunhado de Dona Dionéia, um pajé que trabalhou durante algum tempo com entidades como a cabocla Mariana, a cabocla Jarina e Rompe-mato; Manoel dos Santos Barbosa, benzedor; e finalmente Dona Minervina, com quem Dona Dionéia aprendeu a benzer erisipela.

Até certo momento de sua vida, Dona Dionéia pertenceu ao rol de devotos do Sagrado Coração de Jesus em Abacatal. Foi membro do grupo de mulheres que louvavam nas programações da igreja; participou ativamente das peregrinações dos santos; atuou na realização de novenas; e ainda permaneceu benzendo, unindo os saberes católicos à sua arte de curar. Todavia, uma série de acontecimentos envolvendo sonhos, premonições, problemas de saúde, eventos que identificamos como presságios de iniciação, mudaram profundamente sua vida e a maneira como passou a se relacionar com a Igreja Católica. Esses acontecimentos culminaram na sua mudança religiosa de católica à evangélica alterando a forma como Dona Dionéia passou a se relacionar com seu núcleo familiar e com as práticas religiosas, às quais antes se identificava.

3.1 presságios de iniciação

O ano demarcado por Dona Dionéia em suas reminiscências para registrar sua inserção na seara evangélica, e a introdução do ministério denominado Igreja Pentecostal Assembleia de Deus, na Comunidade de Abacatal, foi 2007. Seu encontro com a nova fé teve início após uma sequência de episódios, entre os quais destacamos dois sonhos com sua falecida mãe; sua internação no hospital para a realização de uma intervenção cirúrgica a fim de não ter mais filhos; e a perda prematura de um filho/neto ocorrida no hospital municipal de Curuçá-PA, vítima da negligência médica, conforme afirmação de Dona Dionéia em entrevista.

À sombra de uma mangueira ou no interior da igreja Assembleia de Deus, reconstituímos a cada entrevista o passado que se dava a ver nos lampejos de sua memória. O lugar da entrevista, exerceu um peso significativo à produção da narrativa por conta da privacidade ali obtida. Segundo Thompson (1992), o melhor lugar para se entrevistar é aquele em que o narrador se sinta à vontade. Neste caso, adotamos a rua (onde fica a mangueira) ou a igreja, não a casa, como assim postula o autor. Ao abordar os aspectos ligados à sua inserção na nova igreja, ela assim relatou:

Eu sonhei com a mamãe duas vezes. Eu teve esses sonhos antes de eu aceitar a Jesus. Eu sonho com a mamãe que ela não tá bem. Eu sonhei a primeira vez com a mamãe que ela tava costurando numa porta, sentada na porta, costurando. Aí, eu olhei pra dentro, tava muito escuro. Eu disse assim, mamãe o que a senhora tá fazendo no escuro? Aí, ela dizia assim pra mim, não vem pra cá, vai-te embora pra casa do teu pai... não vem pra cá. Aí, eu não entrava porque ela não deixava. Era uma casa simples, comprida... Passou muito tempo, eu sonhei que ela tava assim, num roçado, ela tava apagando fogo, tinha muita fumaça, muito fogo. Aí, disque eu dizia assim, mãe, o que a senhora tá fazendo aí no fogo? Ela dizia, minha missão! Eu dizia, o que a senhora tá fazendo nesse fogo? Tem muita fumaça! Ela dizia, não vem pra cá! Aí eu dizia então eu vou embora. Aí, eu ficava triste e aí eu ia entrando num caminho limpo, eu ia numa estrada limpa. Aí ela dizia pra mim, não vai por aí! Por aí tem abismo! Eu dizia, como assim? Ela dizia, é, tem abismo. Eu obedecia. Ela disse vai por aí nesse caminho. Caminho serrado, serrado, todo molhado, [eu dizia] mas esse caminho tá muito molhado, só juquiri! Mas ela disse, vai por ele, tu tem que andar nele. Aí, eu entrava nele. Quando eu entrava vinha uma força assim, tipo um vento, e me tirava, assim... Aquilo me levava assim, eu ia subindo, né, eu ia por cima do mato, parece assim que eu ia pisando numa coisa, mas não tinha nada. Eu era levada pelo vento. Aí, eu olhava pra estrada que [antes] eu ia seguir, era um tormento, um abismo muito grande. Eu via muita gente gritando e chorando e gemendo e aquela gente caindo, gente morta, tinha assim uma coisa ruim, sabe... aí eu passava e ia embora. Eu ficava com pena daquelas pessoas, eles sofriam (Entrevista, 5 abr, 2014).

Dona Dionéia recria em seus sonhos traços do cristianismo católico e protestante. Os lugares descritos em sua narrativa sugerem o purgatório católico cristão, um entre-lugares onde as almas esperam o juízo de Deus. Os espaços descritos por Dona Dionéia, onde sua falecida mãe aparece - uma casa escura; em meio ao fogo - são sugestivos a um ambiente de solidão e sofrimento, característicos do purgatório. Ao ser indagada sobre esses sonhos, com o semblante sério, olhar distante e voz firme, Dona Dionéia assim explicou: “No meu sentimento foi o que veio, ela quer que eu sirva a Jesus. Porque está na Bíblia, Jesus é o caminho, a verdade e a vida, ninguém vai ao pai se não for por ele (João 14.6). Eu fico pensando assim, que era isso que ela queria” (Entrevista, 5 abr, 2014).

No vai e vem entre narrativa, passado e presente, Dona Dionéia teceu sua análise sobre a condição póstuma de sua mãe sob as lentes do protestantismo, mas é possível perceber traços acentuados de tradições católicas como o próprio purgatório, mescladas a um conhecimento divinatório ligado às mensagens trazidas nesses sonhos. Mesmo de um lugar de sofrimento, solidão e tristeza sua mãe está realizando sua missão, qual seja, orientá-la quanto à escolha do caminho da salvação, representado pelo caminho serrado, molhado, “só juquiri!” que a levaria de volta a casa do seu pai, representação da igreja. Essa narrativa ratifica a força com que a doutrina evangélica influencia os modos de ser e estar dos sujeitos no mundo.

Sob o uso de lentes evangélicas, Dona Dionéia interpreta a realidade à sua volta ao diferenciar sua prática religiosa atual exorcizando a anterior. À luz das escrituras bíblicas, busca explicar os males e as beatitudes da vida terrena, considerando mesclas entre elementos do catolicismo popular, como a oração do Credo, Pai Nosso, a própria benzedura e o uso das terapêuticas medicinais como um meio seguro de garantir a continuidade de sua prática de cura, desta vez, no interior da igreja evangélica Assembleia de Deus. Esses traços demonstram que a doutrina evangélica é também porosa e nos permitem afirmar que o sagrado não se dá a conhecer senão pelas relações que homens e mulheres estabelecem com ele, como se verifica no modo peculiar com que Dona Dionéia interpreta os sonhos com sua mãe.

Embora os sonhos de Dona Dionéia prenunciassem sua mudança religiosa, ela não sabia o que o futuro lhe reservava. Assim, pode-se dizer que esta experiência sobrenatural é, no mínimo, reveladora. Sua incursão no ambiente evangélico contou, portanto, com a ajuda de sua mãe que, de outro plano espiritual, lhe influenciava a caminhada. Decorre também das adversidades da vida terrena com as quais precisou duelar. A primeira delas foi o enfrentamento de um quadro infeccioso após ser submetida a uma cirurgia. Sem perspectiva de alta, Dona Dionéia encontrou nas orações de um grupo evangélico, que visitava o hospital naquele momento, a cura para a sua enfermidade. Em suas palavras:

Olhe, eu aceitei Jesus, porque eu teve que aceitar. Olhe... Eu me operei pra não ter mais filho. Me operei lá em São Brás, numa clínica, a Santa Bárbara. Teve nove dias que não podia urinar. Quando eles tiravam a sonda de mim eu não aguentava de dor, ai eu caia.... Então ela [a enfermeira] disse que enquanto eu não ficasse boa não poderia sair[...] Quando foi um dia, os crentes estavam orando, cantando lá perto, [da enfermaria] eu tava lá em cima com umas meninas. Ai eu começava a me tremer... Ai, eu [pensei] quer saber de uma coisa, eu vou é orar com esses crentes, que eu vou ficar boa. Aí eu me ajoelhei lá né, no pé da cama. Eu não sabia orar que nem eles, né. Eu repetia o que eles tavam falando... Quando eu terminei de orar, eu pedi pra Jesus. Que Jesus me curasse. que eu saísse e viesse mimbora pra casa. Quando foi de manhã, eu me esqueci... Quando foi tomar banho, ai eu abri o chuveiro lá eu urinei... Olha, sem mentira nenhuma, eu vim mimbora pra casa... (Entrevista, 28 set, 2013).

O contato inicial com a fé evangélica se deu, portanto, em seu leito no hospital. Entretanto, sua entrada efetiva na igreja, ou seja, sua “conversão”, aconteceu tempos depois, após procurar por uma igreja com a qual pudesse se identificar. Conta Dona Dionéia que visitou a Igreja Pentecostal Deus é Amor, mas lá ela não se sentiu bem. Procurou outras, mas também não teve uma boa impressão. A forma como os cultos eram conduzidos, segundo ela, muitas vezes dirigidos na forma de exorcismos contra Satanás, lhe causaram certo mal-estar. Ao receber um convite de um pastor que conhecera em Curuçá, amigo de seus familiares, sua decisão finalmente se concretizou. E assim ela relata:

Aí eu foi. Aí eu achei bonito, sabe. Quando teve um culto de novo eu foi. Eu chorei. Eu me senti assim diferente, né. Coisa que eu nunca tinha sentido, sabe... Porque o Espírito Santo, quando ele entra na gente é uma coisa diferente que a gente sente (Entrevista, 28 set, 2013).

Observa-se em sua narrativa que seu encontro com o sagrado na Igreja Evangélica foi marcado por muita comoção. Ela foi tocada pelo Espírito Santo a ponto de afirmar que em seu corpo sentiu algo diferente. Maravilhada com o que havia sentido, entendeu que a Igreja Evangélica Assembleia de Deus era o lugar que estava procurando para professar a sua fé. Dias depois dessa experiência espiritual, tomou a decisão final de aceitar a Jesus. Em suas palavras:

Quando foi na outra semana, o culto lá era na quarta-feira, ai, esse pastor que a gente conheceu, sabe, disse pra mim assim: A senhora não quer aceitar a Jesus? Aí eu disse: eu quero. Tem muita gente que aceita [a Jesus] como meu marido aceitou, pela dor. Eu aceitei Jesus pelo amor. (Entrevista, 28 set. 2013).

Chama atenção a forma como Dona Dionéia se expressa sobre a conversão de seu esposo, “pela dor”, o que remonta a uma experiência traumática vivida por ela e sua família nesses primeiros tempos de nova fé. Esse episódio foi, em grande medida, responsável pelo seu retorno a Abacatal e pelo início de um trabalho missionário de evangelização em prol da conversão da comunidade através da igreja Assembleia de Deus. Ao falar sobre essa experiência, ela comenta:

[Eu] Tinha um filho, João Carlos, que não era meu, era da Cacilda, ela me deu. Ela me disse, mãe, fique com esse menino pra senhora. Eu já estava cuidando dele. Meu marido mandou registrar. Pra mim, foi os médicos que mataram ele pra lá [no hospital]. Só aplicaram uma injeção nele. Ele chegou lá andando, gordo. Ele era bonito, o meu filho... Foi só ele chegar lá, aplicaram uma Dipirona nele com Plasil, pra vômito. Ele tava com vômito. Eu não morava aqui [Abacatal] lá onde eu morava não tinha como eu fazer um remédio pra ele, sabe como é? Eu morava em Curuçá, passando uns tempos lá na casa da minha irmã. Aí eu levei ele pro médico, deu dor de cabeça, vômito nele. E aí passaram os remédios. Quando eles deram deu tudo nele. Queria urinar, não podia, queria fazer cocô, não podia, aí depois, onze e meia da noite, mandaram eu levar ele pra castanhal - ele não falou mais, fazia assim com as mãos, parece que queria falar alguma coisa, os olhos vidrados, sem piscar. Aplicaram uma injeção nele, aí ele parou de fazer isso, mas apareceram umas manchas, ele era moreno como eu, umas manchas de sangue. Não foi só ele que morreu lá, parece que foi cinco crianças e um adulto nesse dia (Entrevista, 14 mar, 2015).

Segundo Dona Dionéia, a perda de seu filho abalou muito sua família. Distante de sua farmacopeia natural, ela se queixa de não ter tido a oportunidade de cuidar da saúde dele, por estar distante de Abacatal. Este fato impulsionou inclusive seu esposo a unir-se à nova fé.

Aí, aceitou por causa disso, porque o menino pedia muito pra ele parar de beber... Aí, ele se lembrou, né... Esse menino morreu. Aí nós viemos pra cá. Ele Aceitou Jesus por causa disso. Depois que o menino morreu, que ele foi se tocar, né, que o menino chamava ele. Pai, bora pra igreja e ele não queria saber (Entrevista, 14 mar. 2015).

Dona Dionéia havia deixado Abacatal para passar uns tempos com uma de suas irmãs em Curuçá-PA. Após o falecimento de seu neto, o retorno à comunidade foi inevitável. Sobre a instabilidade vivenciada nesse período por eles em Curuçá, assim ela comenta: “Meu marido disse que lá ele não ficava mais, por causa das lembranças dele, né. Aí, não ficou mais lá e nós viemos pra cá” (Entrevista, 14 mar. 2015).

Quando Dona Dionéia introduziu a Igreja Assembleia de Deus em Abacatal, ela tinha 47 anos de idade. Entretanto, para que o prédio da igreja permanecesse instalado na comunidade, teve que enfrentar a intolerância da comunidade católica, a qual, por várias vezes, tentou derrubá-la durante a fase de construção.

É possível entender, com isso, que o discurso coletivo sobre a religiosidade católica de Abacatal foi substancialmente impactado pela chegada e instalação da Igreja Evangélica Assembleia de Deus por Dona Dionéia. Assim, tendo a chance de trilhar um novo caminho espiritual para si e para os seus pares, Dona Dionéia passou a reconstruir sua prática de cura e identidade religiosa de um modo muito peculiar. A partir de então, sob as lentes evangélicas começou a interpretar a realidade à sua volta exorcizando sua prática religiosa anterior, como se pode verificar na narrativa a seguir:

Eu andava aí, estava aí eu andava na missa, ia pros cultos, ia pro Círio do Sagrado Coração de Jesus. Eu ia. Então, nós adorava aquela imagem e você sabe, não pode adorar imagem. Então, eu adorava, eu seguia aquele cortejo. Quando eu ia nas novenas de Nazaré, Perpétuo Socorro, que vinham pra cá as santas, a gente pegava e levava pras casas, a palavra também, mas tá na bíblia que nós devemos dar culto só a Deus. Porque não dá pra adorar imagens de esculturas. Devemos amar primeiramente a Ele e amar o nosso próximo como a nós mesmos (Entrevista, 14 mar, 2015).

Esse passado religioso que Dona Dionéia tenta silenciar também se projeta sobre a sua atuação como benzedeira na comunidade. Ao ser indagada sobre o seu atendimento, ela expõe o seguinte:

Agora eu não tô mais cortando erisipela porque, assim... Eu aceitei a Jesus e ele, o pastor ele disse que o que a gente faz no passado, no futuro, agente não pode mais fazer. Então, isso já ficou pra trás. Ele fala assim que era pra eu terminar com isso (Entrevista, 28 set. 2013).

Dona Dionéia foi consagrada pelo pastor da igreja para o trabalho de evangelização. Para tanto, teve suas mãos lavadas com óleo ungido, como ato simbólico de autoridade, para poder impor suas mãos sobre as pessoas de quem fosse expulsar o mal. Segundo ela, “ele orou em mim [...] Me ungiu com óleo. Então, ele ungiu minha mão. Aí ele disse que eu tava preparada pra orar nas pessoas com o óleo” (Entrevista, 14 mar. 2015).

Por meio da televisão, Dona Dionéia entrou em contato com programas evangélicos, como o show da fé, dirigido pelo pastor presidente da Igreja Neopentecostal Internacional da Graça, com quem disse aprender várias lições. Sobre esta experiência, assim relata:

Eu assisto RR Soares [...] Na hora da oração, ele ora, ele apresenta a todos e pede a saúde pra todos [...] A cura. Ele ensina que agente tem que amar o nosso próximo. Amar primeiro a Deus, nosso Pai do céu, e levar a mensagem de Cristo, o evangelho a toda a criatura - que ele fala isso - ele fala (Entrevista, 14 mar, 2015).

O conteúdo apreendido por Dona Dionéia ao assistir o programa evangélico confunde-se com aqueles que ela recebeu na Igreja Assembleia de Deus, por meio das orientações do pastor e pela leitura da bíblia. Esses aspectos nos reportaram às conjecturas de Chartier (1991) acerca dos modos diferenciados como os indivíduos realizam suas leituras de textos, eruditos ou não, e os interpretam, criando sentidos para si e partilhando com os outros segundo sua cultura, tempo e espaço. Para Chartier (1991, p. 178), “a leitura não é somente uma operação abstrata de intelecção: é por em jogo o corpo, é inscrição num espaço, relação consigo e com o outro”. A leitura, portanto, independe do grau de intelectualidade para existir e sua multiplicidade de formas e possibilidades de interpretação de um mesmo texto pode, em certa medida, revelar as práticas culturais dos sujeitos históricos.

A narrativa de Dona Dionéia é perpassada por temas e mensagens bíblicas de cunho apocalíptico, bem como por passagens que denotam arrependimento e amor ao próximo. Percebe-se que ela construía, a partir de uma leitura particular da bíblia, da interpretação dos ensinamentos do pastor e da mídia televisiva, sua própria cosmogonia. Assim, ao apropriar-se do discurso evangélico, Dona Dionéia passou a exorcizar sua identidade de benzedeira católica e reinventou suas práticas de cura no seio da Igreja Assembleia de Deus, passando a orar e a ensinar aos moradores da comunidade as leituras bíblicas praticadas em seu trabalho de evangelização.

Ao descrever o ensino das mensagens da bíblia durante seu trabalho de evangelização na residência de uma moradora da comunidade, Dona Dionéia narrou o seguinte fato:

Eu disse pra ela, Deus é o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai se não for por Ele. Aí, eu disse: vá pegar a sua bíblia e umbora ler junto. Aí, ela foi, pegou a bíblia dela; aí nós lemos, ficamos conversando já um tempão [...] Eu ia falando na bíblia, ela ia acompanhando comigo [...] Uma bela experiência (Entrevista, 21 dez, 2013).

O trabalho evangelístico realizado por Dona Dionéia representa, portanto, a reafirmação de sua identidade perante a comunidade de Abacatal. A evangelização possibilitou a ela mostrar o lugar de onde passou a interpretar a vida, o que implicou no seu afastamento das antigas práticas de benzedura. Antes, contudo, ensinou a benzedura para algumas mulheres mais próximas de seu núcleo familiar.

Já ensinei à Anatéia. Ela mandava me chamar pra rezar na minha madrinha, a mãe dela que tava doente, a Vanuza. Ensinei pra ela. Ensinei pra minha filha, porque assim como a minha madrinha me ensinou, eu também posso passar pra outras pessoas. Pras pessoas também aprender e [...] Elas não são evangélicas, elas são católicas, mas pode (Entrevista, 28 set, 2013).

A nova identidade evangélica impôs, contudo, limites às práticas de cura de Dona Dionéia herdadas de seus antepassados. Na tentativa de compreendermos as mudanças operadas em sua prática de benzer, obtivemos a seguinte explicação: “eu me considerava [benzedeira] e hoje eu me considero uma oradora. Eu tô orando nas pessoas que precisam de oração” (Entrevista, 14 mar, 2015). Desse modo, o poder social e normativo da Igreja Evangélica influenciou consideravelmente o modo compôs suas reminiscências. Daí pensarmos o caráter ambíguo da identidade religiosa de Dona Dionéia à luz de Hall (2014, p. 24) ao sugerir que: “ao invés de falarmos em identidade como uma coisa acabada, deveríamos falar de identificação, e vê-la como um processo em andamento”.

Para lidar com esse possível dilema estabelecido entre negar a benzedura e abandonar o atendimento de pessoas necessitadas de seus cuidados, constatamos que Dona Dionéia procurou reinventar sua prática de cura, o que se deu por meio de um trânsito religioso entre as searas católica e protestante. Ressalta-se, contudo, a perceptível presença de elementos da pajelança amazônica e da umbanda quando realizava a benzedura na seara católica. Assim, formada na escola do cotidiano, entre benzeduras, novenas e trânsitos religiosos, Dona Dionéia mostra-se um sujeito histórico que transita entre universos religiosos, sincretizando os elementos dessas culturas, forjando saberes usados para curar e educar em Abacatal. Uma vez que Dona Dionéia mistura as rezas católicas, a benzedura, o exorcismo e o pentecostalismo, revelando assim a complexidade que marca o espaço da cura, ao reunir esses elementos em seu atendimento, criou uma dimensão educativa munida de sentidos e significados que a tornam um sujeito singular na educação cotidiana, como veremos a seguir.

4. O atendimento pedagógico de Dona Dionéia e seus múltiplos saberes

O atendimento marca o momento pedagógico mais expressivo do trabalho de cura de Dona Dionéia, pois é nele que saberes são postos em circulação e ensinados ao seu público. Ele está dividido em diálogo, orações e terapêuticas. Essa tríade foi inspirada na divisão do ritual das benzedeiras, feita por Quintana (1999) e apropriada ao estudo dos saberes de Dona Dionéia. Durante o diálogo tecido com os enfermos, ela assegura um meio possível de compartilharem suas dores, temores e sintomas, mas também de se aproximarem de uma possível compreensão acerca do “mal” que lhes acometeu, assim como dos meios necessários para enfrentá-los. Nisso reside a sua habilidade de gerar prognósticos e diagnósticos sobre as doenças físicas e espirituais.

Durante a oração, Dona Dionéia e seu público adentram a dimensão espiritual, pois nesse momento se dá o encontro com o sagrado. Nessa relação, o enfermo e o intercessor são envolvidos pela fé em suas devoções. De um lado está Dona Dionéia e sua fé evangélica; de outro, os enfermos, muitos deles católicos, com devoção em seus santos, mas também em Dona Dionéia. Para além dos particularismos, ambos misturam fé e devoção em prol da saúde do corpo doente. Suas orações, no entanto, não seguem padrões específicos, como os observados nos trabalhos de Quintana (1999), Oliveira (1985a) e Araújo (2011) sobre as benzeduras, em que há grande incidência de jaculatórias.2 Nos trabalhos desses autores é possível observar que o uso de jaculatórias é muito comum e quase sempre acionam a figura de um santo católico. Por exemplo, a jaculatória usada para benzer erisipela:

São Pedro quando andou pelo mundo encontrou fulano [...] com erisipela, isipela - esipelão, que ele tem no tutano, no tutano, deu no osso, do osso deu na carne, da carne deu no sangue, do sangue deu na pele, da pele caiu no chão, isipela, isipelinha, esipelão (OLIVEIRA,1985a, p. 58).

Entre as jaculatórias descritas por Quintana (1999) tem-se aquela utilizada na benzedura do cobreiro.3 A exemplo da benzedura descrita anteriormente, ela tem em comum a invocação aos santos católicos:

Corta cobreiro bravo. Corta cabeça e corta o rabo. Nome de Deus, Virgem Maria. Nem para diante nem para trás este cobreiro há de andar, mas antes há de secar. São Paulo, São Bento. Benza este filho deste cobreiro peçonhento, em nome de Deus (QUINTANA, 1999, p. 77).

Entre as jaculatórias descritas por Oliveira (1985a, p. 57) está aquela destinada ao enfrentamento do mau-jeito-nas-juntas: “Eu costuro carne quebrada, nervo torto e osso rendido (3x). Carne quebrada, nervo torto e osso rendido (3x). Carne quebrada, nervo torto e osso rendido em louvor de São Frutuoso, isso mesmo eu coso”.

Ao estabelecer uma relação com os exemplos anteriores, inferimos que Dona Dionéia não faz uso de jaculatórias em suas orações. Estas, direcionadas à Santíssima Trindade, mesclam-se a outras pertencentes ao repertório católico, como o Pai Nosso e o Creio em Deus Pai. Este, porém, reinventado por ela num processo criativo. Ao ser indagada sobre a existência de diferenças entre o benzer e o orar, após certa reflexão ela proferiu a seguinte explicação: “Sim. Por que o benzer - quando eu benzia, eu rezava o Creio em Deus Pai, Pai Nosso, Ave Maria, Santa Maria, Salve Rainha e agora é diferente, agora eu não rezo. Agora eu oro. Você sabe, nós oramos e pedimos pra Jesus, ele cura” (Entrevista, 14 mar, 2015).

Embora Dona Dionéia estabeleça dualidades entre o benzer e o orar, como formas distintas de invocar o sagrado, a busca por benção é o que move seu público. Assim, a oração é também um ato de abençoar. É a benzeção reinventada. Ao refletir sobre suas orações em favor da cura de pessoas doentes, ela assim ressaltou: “Eu interpreto uma coisa [...] que a pessoa está precisando ser curado. Eu estou fazendo uma missão que Deus [Jesus] deixou. Ele curava, ele orava nas pessoas, ele ressuscitava os mortos [...] e não cobrava nada” (Entrevista, 14 mar, 2015).

Nesse sentido, é possível dizer que a oração de Dona Dionéia se configura como um ato simbolicamente eficaz de abençoar vidas por meio de sua fé. Essa benção assenta-se na orientação mágico-religiosa que inspira sua intercessão, de modo a amenizar o sofrimento do enfermo, restituindo-lhe a saúde e aproximando-o da crença em Jesus. Não cobrar pelos serviços que dispensa às pessoas é o reflexo de sua interpretação das escrituras sagradas, sobretudo, o amor e a caridade presentes na missão de Jesus descrita na Bíblia.

O enfrentamento do sofrimento realizado por Dona Dionéia implica a adoção de medidas eficazes e socialmente aceitas por seu público. No caso das doenças físicas, há a produção e o ensino de chás, xaropes, infusões, compressas, banhos, garrafadas, fármacos alopáticos. Quanto aos sofrimentos espirituais, ela utiliza o exorcismo e o ensino dos banhos espirituais para a purificação do lar, e orações bíblicas, como os Salmos 23 e 91. Esses elementos compõem a sua farmacopeia, usada como terapêutica para promover a cura.

O domínio de Dona Dionéia sobre a cura de diversas doenças enuncia a amplitude de seus saberes. Após realizar os prognósticos e diagnósticos das doenças por meio do diálogo e da oração, chega o momento de ensinar ao enfermo um meio necessário para enfrentar seu sofrimento, ou seja, a terapêutica.

As terapêuticas são ensinadas conforme o tipo de enfermidade apresentada pelo doente. Isso quer dizer que certos elementos constantes em um determinado tratamento podem surgir associados a outro totalmente distinto, mas sem comprometer a sua eficácia. Este fato revela a criatividade com que Dona Dionéia reinventa o seu modo particular de curar e educar, durante seus atendimentos.

Dentre os quadros mais comuns de enfermidades presentes nas narrativas de Dona Dionéia estão: gripes, resfriados, febre, dores no corpo, vômitos, tosse, problemas hepáticos, diarreias, hemorroidas, inflamações, vento caído, erisipela, além das doenças espirituais, como batida de bicho, mau-olhado, perturbações espirituais no lar, quebranto, entre outras. As doenças, entretanto, não podem ser analisadas fora do seu contexto social. Como observou Quintana (1999), o remédio só tem sentido dentro do ritual. Logo, as terapêuticas de Dona Dionéia só podem ser interpretadas a partir da dimensão religiosa, mágica e educativa de seu atendimento, no contexto social em que vive.

Ao falar sobre os tratamentos que ensina às pessoas de Abacatal, Dona Dionéia descreveu algumas terapêuticas: xarope; chá para tratar diarreia e problemas no fígado, compressas, banhos para tratar gripe e banhos espirituais, além de medicamentos alopáticos para infecções e hipertermia, descritas no quadro a seguir:

Fonte: Narrativas de D. Dionéia (Entrevistas, 2014/2015)

Quadro 1 Terapêuticas ensinadas por Dona Dionéia 

A descrição de Dona Dionéia revela o modo criativo com que mescla os conhecimentos adquiridos em sua trajetória de vida. Como uma cientista popular, realiza experimentos com ervas medicinais; mistura fármacos alopáticos àqueles por ela produzidos, incorporando esses elementos em seu atendimento e ensinando-os às pessoas que a procuram. Em todo seu atendimento foi possível constatar um amplo conjunto de saberes que emergem no modo como ela lida com as ervas em simbiose com sua religiosidade e prática de cura. Destacam-se os saberes ambientas, medicinais, religiosos e corporais.

4.1 Saberes Ambientais

Os saberes ambientais referem-se aos conhecimentos e habilidades para se movimentar no interior da mata, localizar e extrair as matérias-primas necessárias à fabricação do fármaco e realizar a cura. Tais saberes lhe possibilitam criar uma farmacopeia munida de sentidos e significados. As ervas, plantas e frutos compõem a base dos tratamentos ensinados ao seu público, mediante a realização de seus prognósticos e diagnósticos, presentes em seus saberes medicinais.

4.2 Saberes Medicinais

Os saberes medicinais de Dona Dionéia conformam um conjunto de habilidades que lhe permite ler os sintomas e identificar as doenças através das manifestações corporais dos doentes que ela atende e inferir prognósticos e diagnósticos que podem ser de caráter físico e/ou espiritual.

A doença, como irrupção do cotidiano, é traduzida e enfrentada por Dona Dionéia sob o uso de terapêuticas feitas a partir de plantas medicinais e fármacos alopáticos. Esse aspecto de seu saber reporta a uma forma de medicina popular descrita por Laplatini e Rabeyron (1989, p. 50) como medicina familiar cotidiana. Segundo os autores, a medicina familiar cotidiana é composta por “receitas cuja base é essencialmente vegetal (e também animal, mineral), de conhecimentos e habilidades que se inscrevem no âmbito do empirismo médico”. Porém, o aspecto que diferencia a farmacopeia de Dona Dionéia dessa medicina familiar é a presença de medicamentos alopáticos, como antibióticos, antitérmicos e anti-inflamatórios na composição de suas terapêuticas.

Para Oliveira (1983, p. 78), “todas as pessoas que lidam com doenças e curas da população, ao prestarem seus serviços de saúde, reproduzem o seu modo de viver”. Nesse sentido, o espaço da cura é recriado por Dona Dionéia a partir da sua experiência sociocultural dentro e fora de Abacatal. Como um meio alternativo, ante as dificuldades financeiras e insucessos biomédicos enfrentados por pessoas que buscam em seu atendimento a cura para as suas doenças, Dona Dionéia aproxima os saberes medicinais e ambientais aos saberes religiosos, para garantir que a cura se manifeste além do corpo físico.

4.3 Saberes Religiosos

Os saberes religiosos de Dona Dionéia constituem um conjunto de cosmovisões forjadas a partir das suas práticas religiosas, os quais lhe possibilitaram a leitura da realidade e a formação de sua cosmogonia ensinada dentro e fora do espaço da cura em Abacatal. Em sua trajetória de vida, observa-se sua inserção nas atividades do catolicismo popular e da benzedura, onde aprendeu as orações católicas e a jaculatória para cortar a esipra. Seu núcleo familiar, marcado por crenças e práticas do catolicismo, umbanda, pajelança e a crença em seres encantados, possibilitou-lhe o contato com saberes e práticas envolvendo a benzedura, as novenas, a manipulação das ervas medicinais, além de imaginários e crenças nos seres espirituais.

Os traços religiosos que marcaram a trajetória de Dona Dionéia foram reinventados por ela partir da sua entrada no pentecostalismo. Ao identificar-se como evangélica, suas antigas crenças somaram-se à fé protestante, possibilitando a ampliação do seu conhecimento espiritual, sobretudo a habilidade de discernir entre as doenças físicas e espirituais. Para tanto, ela se apropriou, ao mesmo tempo de práticas curativas, como o exorcismo e o banho espiritual, comuns entre as agências religiosas neopentecostais, como a Igreja Universal do Reino de Deus e a Igreja Internacional da Graça de Deus. É esse arcabouço religioso que lhe direciona a prática, no espaço da cura, por meio dos saberes ambientais, medicinais e corporais, como veremos a seguir.

4.4 Saberes corporais

Os saberes corporais conformam um conjunto de técnicas corporais usadas por D. Dionéia dentro e fora do seu atendimento. Assim como os demais saberes, os saberes corporais estão ligados à sua identidade religiosa e propiciam a tradução e o enfrentamento das doenças manifestadas física e/ou espiritualmente nos corpos das pessoas enfermas. Mauss (1974, p. 211) entende que as técnicas corporais são “maneiras como homens, sociedade por sociedade e de maneira tradicional, sabem servir-se de seus corpos”. Para ele, são muitas as formas utilizadas pelo homem para expor o seu corpo dentro de um sistema sociocultural, variando de uma cultura para outra e não estando desvinculadas de sentido.

Ao descrever a técnica corporal para a realização de orações dirigidas aos doentes Dona Dionéia explica: “Eu coloco a mão na cabeça da pessoa. Eu oro, e peço pra Deus, peço pra Jesus. Então eu peço pra Deus, que não seja a minha mão [...] E sim, a mão de Deus sobre a minha mão” (Entrevista, 21 dez. 2013). Percebe-se a aplicação de pelo menos duas técnicas corporais, a imposição de mão e a oração. Na primeira, o corpo do enfermo é tocado de modo a prepará-lo para receber a mediação espiritual, produzida a partir da segunda técnica, a oração à Santíssima Trindade.

As técnicas observadas em seus atendimentos misturam saberes e religiosidade. A oração, imposição da mão, expulsão do demônio, receita de remédios, os arrepios e manifestações provocadas pela presença de espíritos, constitui um sistema articulado de técnicas corporais para tratar seus pacientes. As construções simbólicas que se projetam sobre a técnica corporal só podem ser compreendidas, portanto, dentro do próprio ritual pois, como afirma Mauss (1974, p. 213): “toda técnica propriamente dita tem a sua forma”.

Reconhecida em sua arte de curar e mediar saberes, Dona Dionéia inaugura um meio singular de curar e educar no cotidiano de Abacatal. Seus alunos são membros de seu sistema particular de parentesco consanguíneo e simbólico que é acrescido pelos seus amigos e pessoas trazidas por eles para também serem curadas e educadas. Nessa relação, eminentemente pedagógica, ancoram-se os saberes de Dona Dionéia, cuja lógica se assenta na oralidade com que aprendeu e ensina; nos modos de conhecer e enfrentar as doenças; na memória individual e coletiva, onde a transmissão de seus códigos culturais, cosmogonias e experiências de vida são ancorados e reinventados no tempo presente; no cotidiano, palco de toda a experiência sociocultural dos sujeitos históricos; na religiosidade forjada no trânsito religioso entre o catolicismo e o pentecostalismo; e, por fim, na corporeidade que se expressa em todo o processo mágico-religioso que permeia sua arte de curar e educar.

5. Considerações Finais

Este artigo analisou a benzedura como prática educativa a partir da experiência sociocultural de Odinéia dos Santos Barbosa, Dona Dionéia, curadora evangélica, cuja prática se assenta no enfrentamento de doenças físicas e espiritais, no ensino de terapêuticas e também da doutrina evangélica.

Verificou-se que os saberes presentes em sua prática educativa foram constituídos durante sua trajetória de vida. Ao longo de sua mocidade, ela congregou conhecimentos herdados de seus antepassados e familiares sobre o enfrentamento de doenças físicas e espirituais. Anos mais tarde, reinventou seus saberes por força de um marcante trânsito religioso vivenciado entre a seara católica e a evangélica.

O atendimento de Dona Dionéia constitui-se de três etapas imbricadas: diálogo, oração e terapêutica. Nelas, um conjunto de saberes são postos em movimento em favor da cura física e espiritual das pessoas enfermas. Ao realizar o atendimento, ela ensina o seu público sobre a doença, suas causas, os meios necessários para enfrentá-la, mas também a moral, religiosidade, técnicas corporais, conhecimentos para a vida. Esses temas constituem o conteúdo presente em sua prática sócio-educativa. As três etapas: diálogo, oração e terapêutica movimentam uma ampla gama de saberes religiosos, corporais, medicinais, ambientais. Por meio deles, Dona Dionéia passa a conhecer, interceder e a tratar o sofrimento de pessoas enfermas.

Ao ensinar a terapêutica aos doentes, ela faz uso da memória para recordar as associações entre fármacos alopáticos e insumos naturais na composição de chás, banhos, garrafadas, apreendidos em sua vivência cotidiana. Faz uso da oralidade com a qual realiza a oração e pregação, assim como do ensino de terapêuticas. Faz também uso do próprio corpo, seja orando, tocando o corpo doente ou ainda na catalisação das forças benignas ou malfeitoras que influenciam a saúde e a doença.

A mediação de saberes realizada por Dona Dionéia promove o encontro de pessoas com os conhecimentos empíricos e científicos presentes na forma como enfrenta as doenças. Deste modo, homens e mulheres aprendem com a observação que fazem do próprio rito de cura, com a escuta das orações e terapêuticas, com a imitação da produção e (re)criação de remédios, configurando todo esse processo como uma pedagogia do cotidiano. A perspectiva microscópica deste estudo sobre a trajetória de vida de Dona Dionéia possui, portanto, a intenção de contribuir com a escrita de uma história cultural da educação na Amazônia, sobretudo, no enlace entre os saberes que curam e as práticas educativas cotidianas, mobilizando, para tanto, um conceito amplo de educação, vista como cultura.

Portanto, nada escapa à educação. O cotidiano da vida em sociedade respira educação. Em nossas agremiações, relações interpessoais, familiares, tribais, nas agências religiosas, no ambulatório médico, na rua, na feira, na benzedura, ou na leitura do Evangelho, lá estamos, aprendendo uns com os outros, com os seres sobrenaturais, com o sagrado e com a vida.

Este fato nos permite afirmar que Dona Dionéia, ao realizar a mediação de saberes dentro do seu atendimento, ensina a seu público e também a seus familiares, ampliando, dessa maneira, o alcance de sua atuação pedagógica nos possibilitando redimensionar o conceito de educação, para muito além do espaço escolar.

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1Também conhecida como esipra, é uma forma de celulite superficial causada pela bactéria estreptococos beta-hemolíticos do grupo A de Lancefield, geralmente Streptococcus pyogenes. (Cf. <www.drauziovarella.com.br>).

2Orações curtas e fervorosas, frequentemente usadas em orações a santos católicos.

3Conhecido cientificamente como Herpes-Zoster é uma infecção viral provocada pelo mesmo vírus da catapora (varicela-zóster). Seus sintomas são pintas avermelhadas e pequenas bolhas de água na pele, causando ardência.

Recebido: 21 de Agosto de 2017; Aceito: 05 de Janeiro de 2018

Contato:Marcio Barradas Sousa, Conj. Jardim Jader Barbalho, Qd. 5 nº 56, bairro do Aurá, Ananindeua|PA|Brasil CEP 67.033-855.

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Mestre em Educação pela Universidade do Estado do Pará (UEPA), com Especialização em Ensino de História do Brasil e em Educação na Saúde para Preceptores do SUS. Membro do Grupo de Pesquisa em História da Educação na Amazônia (GHEDA/UEPA). Assessor Técnico na Secretaria Municipal de Saúde de Ananindeua-PA. Email:<mmbarradas@hotmail.com>.

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Drª em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), com pós-doutoramento pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (CES-UC-Pt); Profª. do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Estado do Pará (UEPA); Líder do Grupo de Pesquisa História da Educação na Amazônia (GHEDA/UEPA). Email:<mbetaniaalbuquerque@uol.com.br>

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