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Lua Nova: Revista de Cultura e Política

Print version ISSN 0102-6445

Lua Nova vol.1 no.1 São Paulo June 1984

https://doi.org/10.1590/S0102-64451984000100016 

Uma questão nacional

 

 

Herbert de Souza

Cientista político e secretário-executivo do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE)

 

 

O Nordeste é uma questão nacional em muitos sentidos e de diferentes formas. Primeiro, foi produzido ao longo de nossas história econômica e política: não foi o clima que produziu o Nordeste como problema, mas os senhores donos da terra, homens concretos, de carne e osso, no chão e não nas nuvens. Nenhuma fatalidade obrigou o Nordeste a trabalhar a cana-de-açúcar sob regime escravo, a plantar o algodão explorando o trabalho das mulheres e das crianças nas grandes propriedades, a criar gado em lugar de gente nos imensos latifúndios. Foram os senhores donos da terra que para cá vieram e aqui ficaram.

O fato de não chover não produz miséria, assim como o fato de chover não produz riqueza automaticamente. Quem produz riqueza e miséria são os homens concretos e, principalmente, as relações que os homens estabelecem entre si.

O Nordeste é uma região onde se concentrou muita riqueza e de tal forma que acabou produzindo muita pobreza e muita miséria.

Para concentrar essas riquezas a terra foi monopolizada por algumas famílias, enquanto milhões ficaram sem onde trabalhar; assim se produziu a migração. Antes que o sol queimasse as costas dos retirantes, eles foram queimados pelo fogo da concentração da terra. Da concentração da terra resultou a concentração do poder.

Quando a industrialização (capitalista) virou moda, chegou ao Nordeste sob a forma de estímulos, subsídios e projetos importados do Norte do mundo e do Sul do Brasil. Chegou prometendo desenvolver o Nordeste e criar empregos para os nordestinos. Acabou desenvolvendo as empresas que operam no Nordeste e criou o mínimo de empregos que as empresas modernas são capazes de criar, deixando no subemprego os milhões que nunca terão carteira assinada por indústrias.

A industrialização do Nordeste virou uma espécie de latifúndio tecnológico moderno, concentrado em mãos de uma minoria. Nem gerou os empregos que prometia, nem difundiu o desenvolvimento na região, nem tocou na estrutura agrária. Produziu migrantes que buscam emprego a qualquer preço e em qualquer lugar. À concentração fundiária somou-se a concentração financeira e industrial. O autoritarismo da região modernizou-se mas continuou o mesmo: antes os coronéis, agora o PDS. Mudam os atores, a peça continua a mesma.

Quando a temperatura social e política aumenta, quando os milhões de migrantes e flagelados começam a mover-se em direção às cidades e aos supermercados... a classe dominante local grita aos sócios do Sul: o Nordeste também é Brasil, o Nordeste é uma questão nacional, não podemos ser irmãos separados, nem pode haver Brasil desenvolvido com Nordeste miserável... No Sul, os donos do poder também entoam o mesmo canto e criam frentes de emergência (uma espécie de trabalho ou sopa dos pobres), distribuem verbas entre os senhores das terras para construírem barragens ou ampliar açudes em benefício de si mesmos, aumentam os subsídios das empresas, imaginam a industrialização das nuvens e a domesticação dos rios.

Passada a febre, contida a miséria, dispersados os flagelos, migrados os desempregados e os deserdados, o silêncio de novo se impõe e os donos das terras e das empresa voltam a suas casas. O Nordeste continua brasileiro, apesar de sacrificar milhões de brasileiros. Até a próxima ameaça de explosão social.

Quando a discussão sobre o Nordeste, a seca, a miséria se estabelece, as teses voltam ao cenário dos debates, seminários e encontros. E voltamos a dizer que a seca não é só problema da natureza. Que é um problema da estrutura fundiária. Que falta terra e que sobram latifúndios. Que não existem soluções puramente técnicas. Que só uma reforma agrária resolveria o problema e que o Brasil pode acordar um dia diante de uma grande convulsão social.

As verdades, no caso, parece que são poucas e boas: o Nordeste está hoje no Brasil inteiro, é o Brasil que sobrou aos brasileiros. É uma criação da classe dominante brasileira em cumplicidade com os donos das terras do mundo inteiro e só terá solução através de profundas transformações na estrutura econômica, social e, principalmente, política do país.

Séculos de exclusão, monopolização e autoritarismo produziram o Nordeste como questão nacional. Só através da organização e mobilização dos deserdados, dos nordestinos do Norte e do Sul, poderemos desproduzir o Nordeste como problema. A democracia produzirá um outro Brasil e um novo Nordeste. Nesse sentido, resolver a questão do Nordeste é produzir um novo Brasil. Um Brasil democrático.

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