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Lua Nova: Revista de Cultura e Política

Print version ISSN 0102-6445

Lua Nova vol.1 no.3 São Paulo Dec. 1984

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-64451984000300006 

O operário da utopia

 

 

Affonso Romano de Sant'Anna

 

 

Apanhado em meio à noite,
jogado ao chão da cela,
o corpo nu conhece
a primeira humilhação.
Outras virão: o soco,
o choque, a ameaça,
o urro na escuridão.
 
— Quantos volts
suporta um corpo

— em coação,

até que dele escorra o fel
da delação?
 
— O que procura o tortura/dor
nas pedras do rim alheio
como vil minera/dor?
— O que ama esse ama/dor
da morte?

esse morcego suga/dor

sob os porões da corte?

esse joga/dor

do jogo bruto

e cria/dor

do luto?

 
O tortura/dor se sente, e acaso o é,
um trabalha/dor diferente:
seu trabalho é destruir
o sonha/dor insistente,
como o médico que resolvesse
matar de dor

— o cliente.

 
Mas sob a tortura
o que há de melhor no homem
jamais se manifesta. Quando muito
podeis catar no chão
o pouco que dele resta.
Mas soltai-o em festa, ao sol,
e vereis que a verdade
de seus gestos se irradia.
Livre

vestindo a pele do dia

o torturado caminha
com seu corpo tatuado
de violência e poesia.
 
Mas ele não marcha só.
Apenas segue na frente
na direção da utopia.