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Lua Nova: Revista de Cultura e Política

Print version ISSN 0102-6445

Lua Nova vol.2 no.1 São Paulo June 1985

https://doi.org/10.1590/S0102-64451985000200007 

Freud explica-se

 

 

Antonio Carlos A. Garcia

Analista junguiano e membro da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica

 

 

Junho de 1938, Freud é mais um judeu fugindo da Áustria ocupada pelos nazistas. Nessa hora, ele evoca nostalgicamente Elizabeth R., sua antiga paciente histérica, que o procurara com dores nas pernas. No momento preciso desse encontro distante, ele mesmo, o próprio médico, estava padecendo de uma terrível dor de cabeça. Então havia retirado do bolso e contemplado uma estatueta que acabara de comprar, pequena imagem de Janus, deus mitológico de duas faces, que ao mesmo tempo representa o Caos primordial e a luz radiante do Sol.

Assim começa a obra teatral de Henry Denker — Freud no distante país da alma —, peça que ilumina, sem cabotinisrno, a controvertida figura do grande mestre da psicanálise, um homem identificado com o próprio desejo de pertencer à história através da realização de uma tarefa grandiosa e sublime.

Em seus diálogos com Breuer, famoso neurologista e antigo colaborador, temos um Freud preocupado em desvendar os mistérios da psique — como Édipo decifrando os enigmas da Esfinge ou Teseu desenrolando o fio que lhe permite libertar-se do labirinto. Seu método é o da intuição lógica, a marcha racional da inteligência, apoiada no maior número possível de associações selecionadas pelo gênio do investigador e sua capacidade de observação. Este modo de atuar é comparável às intuições do detetive Sherlock Holmes, personagem freqüentemente associado a Freud, pelas semelhanças no proceder. Sua hipótese: a ferida histérica não existe no corpo, mas na alma.

Mas Breuer, seu colega, preocupa-se com o sucesso profissional ordinário, ameaçado pela coragem audaciosa das teses do amigo. Teme que o exotismo das suas idéias leve ambos a incorrerem no julgamento retrógrado do pensamento tradicional, representado na época pela Academia de Ciências Médicas de Viena.

A ação ilustra o momento fatal, em que o elo que une os dois amigos se rompe, pelo receio de um e pela entrega heróica do outro à evidência fantástica da descoberta do inconsciente.

Breuer age como o lado sombrio da dupla relação, como a idéia nova que hesita perante a ciência tradicional, verdade única e incontestável no universo do pensamento ortodoxo. Freud, ao contrário, encarna a desobediência e a culpa. Desobediência edipiana ao Pai, desafio para uma luta de morte pelo filho herói; e a culpa decorrente deste ato é vivida criativamente, pois, só através dela, é possível responsabilizar-se efetivamente pelos desafios do próprio destino.

 

A cura pelo amor

Breuer, ao contrário, desejava antes de tudo "respeito, segurança e conforto". Tivera uma paciente — vítima de uma tosse inexplicada — que curara ao descobrir, através da hipnose, o trauma que dera origem àquele sintoma. Porém, ao perceber que a paciente se apaixonara por ele, dizendo-se inclusive grávida (uma pseudogravidez histérica), abandonou-a, temendo que sua reputação profissional fosse abalada.

Breuer não percebeu que a incômoda reação de sua paciente simbolizava um instante fecundo da relação médico-paciente. A fantasia da gravidez era o símbolo de uma grande descoberta que estava por se fazer, o fenômeno psicanalítico denominado "transferência". O amor da cliente pelo médico, em determinada fase do tratamento, assegura a possibilidade de cura, a cura pelo amor. Se não se trata, evidentemente, de estabelecer relacionamentos amorosos entre analistas e pacientes, trata-se de reconhecer o papel regenerador e mágico que o afeto desempenha na vida humana em geral e, em particular, na cura psicanalítica.

Irônica e simbolicamente, Breuer foi o primeiro analista na história a colocar-se como defensor da chamada atitude da "tela em branco". Segundo este modo de proceder, o analista deve abster-se de reagir com idéias e emoções verbalizadas às solicitações do cliente, permitindo que os sentimentos deste possam ser mais bem discriminados e evidenciados, pois estarão como projetados numa tela em branco, num meio neutro. Este procedimento tem sido um recurso valioso, um instrumento de trabalho apropriado na prática analítica, mas, generalizado como regra de conduta, mostrou ser uma idealização fantasiosa das relações humanas, difundida pelos seguidores ortodoxos de Freud.

O Freud de Henry Denker, ao contrário, lança-se impetuosamente na relação com a paciente, responde afetivamente com amor, carinho e raiva, fazendo de seus próprios sentimentos a base sobre a qual se estabelece a firmeza do relacionamento. Age apaixonadamente, com a totalidade de suas possibilidades humanas, mostra a sua face sombria e consegue enxergar atrás da mera aparência.

Por isso, a presença da estatueta de Janus, que parece ter sido em Roma uma divindade solar e também da escuridão, posicionada no lugar onde o dia e a noite se cruzam de passagem, representada com duas faces, uma voltada para o exterior e outra para o interior. Diríamos, uma face voltada para a consciência (luz) e outra para o inconsciente (sombra). Os romanos acreditavam-no uma força dinâmica e criativa, o elemento revelador que dá passagem à luz da consciência cósmica.

Essa imagem do deus de dupla face marca a tonalidade concertante da peça como um mote ao qual os personagens recorrem continuamente. Ela está presente nos momentos mais criativos. Janus nos mostra, assim, que todo movimento criativo maior só pode acontecer quando estamos misteriosamente presentes em nossa totalidade, com nossa dupla polaridade (consciente/ inconsciente), integrados nesta oposição que nos conforma.

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