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Lua Nova: Revista de Cultura e Política

Print version ISSN 0102-6445

Lua Nova vol.2 no.3 São Paulo Dec. 1985

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-64451985000400010 

Deus é menina e menino

 

 

Maria José Rosado Nunes

Teóloga

 

 

A representação da figura de Deus por meio de um severo senhor de barba branca — imagem da força e da sabedoria masculinas — parece que já está ficando fora de moda.

Na boca do povo, a canção de Pepeu Gomes apregoa, de uma forma muito simpática, que "Deus é menina e menino".

Mudou Deus ou mudaram os homens e as mulheres? A teóloga Maria José Rosado Nunes analisa em LN esse fenômeno.

 

Os mitos da criação adotados por inúmeras expressões religiosas, sob as mais variadas formas, são ilustrativos, pois em quase todos eles o personagem central é uma figura masculina.

Na verdade, os mitos dizem respeito mais ao presente do que ao passado. Com tais mitos não se quer apenas, nem principalmente, explicar as origens, mas apresentar as coisas como são, ou como deveriam ser, estabelecer sua "natureza". Assim, a "ordem" apresentada na narrativa da criação submete a mulher ao homem, legitimando, ao nível ideológico, a submissão feminina.

Segundo a narrativa bíblica, apenas o homem é criado diretamente pela divindade. (Veja o box.) Eva existe graças a Adão, de cuja costela é feita. Aquilo que é prerrogativa exclusiva do sexo feminino — a procriação — lhe é roubado. Inverte-se a lei biológica e o homem se faz o gerador da mulher. A anterioridade de Adão se torna um elemento justificador de sua prepotência e dominação sobre a mulher. Daí o interesse pela figura de Lilith (box), que não é feita de Adão, mas é igual a ele, feita do pó.

Pelo menos três religiões — o judaísmo, o cristianismo e o islamismo — partilham essa narrativa mitológica das origens. Nela, existe apenas a figura de Eva que nasce de Adão e induz ao pecado.

Constrói-se assim uma imagem negativa do sexo feminino a partir da narração da culpa introduzida no mundo por uma mulher, que vincula o feminino ao mal. As mulheres tornam-se portadoras dos espíritos maléficos, seu instrumento, por meio do qual agem. O livro dos Provérbios, na Bíblia, está cheio de exortações quanto à periculosidade das mulheres. Assim também o Eclesiástico, que diz:

"O vinho e as mulheres fazem sucumbir até mesmo os sábios, e tornaram culpados os homens sensatos". (Ecl. 19, 3) E em outro lugar:

"É melhor viver com um leão e um dragão que morar com uma mulher maldosa". (Ecl. 25, 23)

Maomé adverte: "Depois que eu tiver partido, não haverá maior perigo ameaçando minha nação e nada mais capaz de criar anarquia e dificuldades do que as mulheres".

 

Foi pela mulher que começou o pecado...

Estabelece-se, então, uma cadeia: mulher/sexo/pecado. "Toda a malícia é leve comparada com a malícia de uma mulher (...). Foi pela mulher que começou o pecado e é por causa dela que todos morremos", diz o livro sagrado. (Ecl. 25, 26.33)

Eva é a pecadora desobediente. Seu poder de atração sobre o sexo masculino é muito forte, e é especialmente por sua sensualidade que o seduz. Aí está Satã, aí estão as forças do mal, os poderes diabólicos do sexo feminino. É preciso, então, transformá-lo no "sexo frágil" para que seu estranho e maléfico fascínio não se exerça sobre os homens mas permaneça sob seu controle. Daí as rígidas normas da moral sexual para as mulheres, em contraste com a liberdade deixada aos homens.

Lembremos o fim da parábola de Lilith, que sugere o temor de Adão e do próprio Deus diante da força das duas mulheres.

A História revela haver indícios de que as mais antigas divindades tenham sido do sexo feminino. O estudo das religiões antigas nos ensina que o panteão sagrado já foi habitado por inúmeras deusas.

Maait, deusa da verdade, e Nayet, deusa da guerra e das águas, no antigo Egito, El Lat e Izza, entre os árabes, são exemplos de deusas que reinaram lado a lado com os deuses, tendo o poder de controle sobre a vida humana.

Na Grécia, encontramo-las sob as mais variadas denominações: Artemis, Palas Atena, Hera, entre outras. Vários dos seus templos foram substituídos, na Itália, por igrejas católicas dedicadas à Virgem Maria.

 

Boff e a revelação da figura materna de Deus

O teólogo da libertação, frei Leonardo Boff, conta como, na tradição cristã, se revelou na consciência religiosa a figura materna de Deus. Cita vários padres da Igreja Católica, bem como santos e santas que se dirigem a Deus como Mãe.

Os estudos da psicologia religiosa informam que, nas diversas culturas, a representação das divindades se faz sob símbolos tanto maternos quanto paternos. Algumas religiões acentuam os simbolismos ligados à mãe: a terra, a vida, a geração, os mistérios da morte. Voltam-se para. imagens ligadas ao paraíso e à reconciliação.

As religiões muçulmanas, entre as quais se incluem o judaísmo e o cristianismo, orientam-se para o céu, para a superioridade do Criador, e desenvolvem imagens ligadas ao nascimento, ao parto. Acentuam a busca da salvação, voltando-se para o futuro, para o fim da História, quando o Reino se realizará efetivamente.

Apesar desta distinção, mesmo as religiões em que predomina a simbologia paterna guardam traços telúricos, isto é, ligados às imagens femininas maternais.

Além disso, os fundadores de certas religiões apresentaram comportamentos e discursos negadores da discriminação sofrida pela mulher, causando escândalo na sociedade em que viveram, e mesmo entre seus seguidores.

É este o caso de Jesus Cristo e Maomé, por exemplo. Jesus mantém relações de amizade com mulheres; conversa com elas em público e privadamente; trata bem prostitutas, defende-as, rompe as regras da sociedade judaica e permite que também mulheres figurem entre seus seguidores. Enfim, o mais importante é perceber no conjunto de sua prática e de seu discurso um princípio libertador fundamental: o da igualdade de todos os seres humanos, como filhas e filhos de Deus Pai.

O fundador do islamismo — Maomé — dirige seus primeiros ensinamentos contra o sistema de escravidão e na defesa dos direitos dos pobres.

Ambos, porém, sofreram os limites culturais de sua época, os condicionamentos postos pela infra-estrutura econômica e os interesses políticos em jogo.

A religião já sofreu uma condenação radical e definitiva expressa na conhecida frase: "A religião é o ópio do povo". Muita gente considerou, então, que a relação das pessoas com o sagrado, sendo alienadora, teria poucas chances de sobrevivência, ou nenhuma. Sua função, dentro do conflitivo processo social, continuaria definindo-se pela contribuição à manutenção das coisas exatamente como estão, até que ela se acabasse.

Atualmente, porém, estas concepções estão sendo revistas, à luz, principalmente, dos novos comportamentos sociais de inúmeros grupos de cristãos, em particular nos países mais pobres. E também a partir da produção teórica surgida nos últimos vinte anos na América Latina, em relação à compreensão atual da fé religiosa e uma retomada do discurso fundador do cristianismo. Tal produção tem seu ponto mais alto na chamada Teologia da Libertação.

 

Uma contribuição à luta das mulheres

Além disso, novos estudos nas áreas da Psicologia e, principalmente, da Antropologia revelaram dimensões positivas da religião para a integração pessoal ou social e valores culturais de crescente importância para mulheres e homens.

Os cultos africanos, por exemplo, antes considerados, até mesmo em meios ilustrados, como formas primitivas e selvagens de religiosidade, passam a ser vistos como expressões de autênticas religiões, como formas válidas de busca de relacionamento com a divindade, com a esfera do sagrado.

Dessa forma, podem tornar-se mais visíveis as potencialidade positivas contidas no discurso simbólico e mesmo na prática de certas religiões. Também em relação à sua contribuição à luta das mulheres para se libertarem. Com isto quero dizer que acredito que o elemento religioso não se apresenta somente como alienação, mas pode, em determinadas situações, aparecer como positividade para as mulheres.

Tomando apenas o caso do cristianismo no Brasil, pode-se observar que, nestes últimos vinte anos, setores da Igreja Católica e de algumas Igrejas Protestantes têm apresentado discurso e prática favoráveis à integração da mulher na sociedade, com atuação plena em todas as áreas.

Especialmente entre a população feminina pobre, da periferia das grandes cidades ou de áreas rurais, certos elementos religiosos têm atuado como estímulo à sua participação nos movimentos populares em geral. Em inúmeros desses movimentos, as mulheres, com total apoio dos setores mais progressistas das Igrejas, têm sido as condutoras do processo, manifestando forte capacidade de liderança.

Até mesmo as freiras, antes restritas ao espaço conventual, são agora notícia de jornal, "acusadas" de organizarem grupos de mulheres e outros, para reivindicarem seus direitos mínimos. Elas se fazem "companheiras" de outras mulheres e vão com elas quebrar asfalto para exigir uma passarela; gritar na frente da Prefeitura as reivindicações do bairro; assustar policiais que vêm "limpar" a área, e por aí. Em outros países, há mesmo notícias de religiosas que se integraram em movimentos armados do tipo guerrilha.

As novas posturas dessas mulheres têm, como um dos seus elementos legitimadores, razões "de fé". É na área do simbólico, invocando a "vontade de Deus", o desejo do estabelecimento do Reino, a condição igualitária de mulheres e homens — pois todos são filhas e filhos do mesmo "Pai do Céu" —, que elas vão buscar a justificativa de seu comportamento.

 

E elas conquistam espaço na Igreja

Além disso, no interior das próprias Igrejas, elas vão conquistando algum espaço. Tornam-se pastoras, dirigentes de Comunidades Eclesiais de Base; integram organismos intermediários, do tipo Conselho pastoral e até mesmo equipes de direção do trabalho diocesano, lado a lado com os homens da instituição. Apesar disso, ficam ainda muitas interrogações e desafios, no tocante à função que as religiões têm desempenhado, em face da questão da libertação feminina.

Por um lado, os elementos inibidores da mulher em seu processo libertador, contidos no capital simbólico-religioso, são explorados por aqueles grupos mais conservadores. Por outro, há a observar que, no caso específico da Igreja Católica, ao menos, as possibilidades positivas para as mulheres se estreitam bastante, quando se trata das questões especificamente femininas ou aquelas ligadas à moral sexual. É o caso da defesa incondicional do modelo burguês de família; da discussão em torno do aborto; dos problemas quanto à afirmação do direito da mulher ao prazer sexual etc. etc.

Além disso, esbarra-se com o fato de as Igrejas cristãs não terem ainda conseguido integrar suas adeptas nas estruturas de poder da instituição, em plena igualdade com os homens. Acresce também que a identificação de Deus com o masculino é um elemento ideológico forte, que ainda impregna o discurso religioso cristão.

Parece-me, enfim, que, embora ou porque uma profunda contradição atravesse as crenças religiosas no tocante à questão feminina, é possível a nós, mulheres crentes, recuperarmos favoravelmente à nossa luta os elementos positivos aí contidos.

Que Lilith e Eva nos inspirem.

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