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Lua Nova: Revista de Cultura e Política

versão impressa ISSN 0102-6445

Lua Nova vol.2 no.3 São Paulo dez. 1985

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-64451985000400011 

A volta de Lilith

 

 

Desde crianças, a maioria de nós ouviu, entre encantamentos e susto, a história de um casal que vivia feliz, num maravilhoso paraíso. Só que o final da história era triste: expulsos desse jardim das delícias por se terem mostrado orgulhosos e curiosos, eles vão passar o resto da vida sofrendo.

Esta narrativa, que encontramos no Antigo Testamento assim como no Corão, é reescrita sob a forma de uma parábola, por uma teóloga norte-americana — Judith Plashou Goldenberg.

É uma história sugestiva para auxiliar na compreensão das relações entre as religiões e a condição dos homens e mulheres na sociedade.

 

"No começo o senhor Deus formou Adão e Lilith do pó da terra e soprou em suas narinas o sopro da vida. Criados da mesma fonte (ambos tinham sido formados da terra), eram iguais, sob todos os aspectos. Adão, homem que era, não gostava dessa situação e buscava um meio de mudá-la.

Um dia, ele disse: "Vou buscar figos, Lilith", ordenando-lhe que o esperasse e tentando deixar para ela as tarefas cotidianas da vida no jardim.

Mas Lilith não era mulher de aceitar esse despropósito. Bebeu um gole de bebida estimulante, pronunciou o santo nome de Deus e desapareceu.

Adão queixou-se ao Senhor: "Bem, agora, aquela mulher arrogante que você me enviou se foi e me abandonou".

O Senhor, inclinado a ser solidário, enviou, Ele próprio, mensageiros atrás de Lilith, dizendo-lhe que tomasse jeito e voltasse para Adão, ou enfrentaria horrível punição.

Lilith, entretanto, preferindo qualquer coisa a viver com Adão, decidiu ficar onde estava.

E assim, Deus, após consideração mais cuidadosa desta vez, fez Adão cair em um sono profundo, e de uma de suas costelas criou uma segunda companheira para ele: Eva.

Por um tempo, Adão e Eva viveram contentes. Adão estava feliz agora, e Eva, embora ocasionalmente sentisse que certas capacidades suas permaneciam sem se desenvolver, estava satisfeita com o papel de esposa e colaboradora de Adão.

A única coisa que realmente a perturbava era a relação exclusiva e íntima entre Adão e Deus. Os dois pareciam ter mais coisas em comum, por serem homens, e Adão identificava-se cada vez mais com Deus. Com o tempo, isto acabou por desagradar também ao Senhor. Ele começou a pensar se não teria cometido um erro, ao deixar Adão convencê-lo a expulsar Lilith e criar Eva, devido ao poder que isso conferira a Adão.

Entrementes, Lilith, muito só, procurava, de tempos em tempos, reconstruir a comunidade humana do jardim. Depois de sua primeira tentativa infrutífera de destruir os muros do jardim, Adão trabalhou muito para construí-los mais fortes, pedindo mesmo a ajuda de Eva.

Adão contou-lhe histórias medonhas do demônio Lilith, que ameaçava as mulheres no parto e roubava crianças de seus berços, no meio da noite.

A segunda vez que Lilith veio, ela atacou o portão principal do jardim e houve uma grande luta entre ela e Adão, na qual foi, finalmente, vencida.

Desta vez, porém, antes que Lilith fugisse, Eva lançou sobre ela um rápido olhar e percebeu que Lilith era uma mulher tal qual ela mesma.

Depois deste encontro, sementes de curiosidade e dúvida começaram a crescer na mente de Eva. Seria Lilith, realmente, apenas uma outra mulher? Adão tinha dito que era um demônio. Uma outra mulher! A idéia atraía Eva. Ela nunca tinha visto, antes, uma outra criatura como ela. E como Lilith parecia linda! Quão bravamente ela havia lutado com Adão! Pouco a pouco, Eva começou a pensar nos limites de sua própria vida no paraíso.

Certo dia, depois de meses de pensamentos estranhos e perturbadores, Eva, passeando em torno do jardim, observou uma pequena macieira que ela e Adão haviam plantado e reparou que um de seus galhos estendia-se sobre o muro. Espontaneamente, tentou escalá-lo e, alcançando o topo, lançou-se do outro lado.

Não havia andado muito, quando encontrou a quem viera procurar, pois Lilith a esperava. Num primeiro momento, Eva lembrou-se das histórias de Adão e ficou apavorada, mas Lilith compreendeu e cumprimentou-a afavelmente.

"Quem é você?", perguntaram uma à outra. "Qual é a sua história?" Sentaram-se e conversaram sobre o passado e o futuro. Falaram, não uma vez, mas muitas vezes e por muitas horas. Conversaram sobre muitas coisas, contaram histórias, riram e choraram juntas, repetidamente, até que os laços de irmandade se estreitaram entre elas.

No entanto, dentro do jardim, Adão estava intrigado com as idas e vindas de Eva e com o que percebia ser uma nova atitude dela em relação a ele. Falou a Deus sobre isso e Ele, tendo seus próprios problemas com Adão, e uma perspectiva mais tolerante, estava pronto para ajudá-lo um pouco — mas Ele também estava confuso. Algo havia falhado em seu plano, como nos dias de Abraão, ele precisava de conselho de seus filhos. "Eu sou aquele que sou", pensou Deus, "porém preciso tornar-me o que serei".

E Deus e Adão ficaram aguardando e temendo o dia em que Eva e Lilith retornassem ao jardim, cheias de possibilidades, prontas para reconstruí-lo juntas".