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Lua Nova: Revista de Cultura e Política

Print version ISSN 0102-6445

Lua Nova vol.3 no.1 São Paulo June 1986

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-64451986000200007 

PENSANDO O BRASIL

 

Alternativos: pé no chão e dinheiro no bolso

 

 

O sonho continua, mas o romantismo acabou. As organizações alternativas hoje, em vez da contestação pura e simples do simples do dinheiro como um instrumento de organização e criação de infra-estrutura, voltam-se para criar novas formas de se fortalecerem economicamente.

Morre a ilusão de que a partir da individualidade é possível combater o capitalismo monopolista. Pelo contrário. Esta via, como se pôde observar, acabou por enfraquecer os movimentos alternativos.

O Partido Verde e as iniciativas autonomistas aprenderam a lição. Superaram sua fase infantil e criaram diversas formas para suprir as dificuldades e deficiências econômicas. Ajuda mútua, investimentos sociais e financeiros em busca de retorno político ou econômico. É disto que nos fala Thomas Thimme, nesta entrevista exclusiva ao jornalista Ciro Marcondes Filho, sobre a experiência do Partido Verde alemão.

 

CIRO: Como se estrutura a economia das organizações alternativas e como elas se mantém em pé?

THIMME: Há que diferenciar duas instituições da política alemã: o Partido Verde e o "Movimento" (de mulheres, contra energia atômica, pela paz do Terceiro Mundo). Este último possui organizações-teto em escala nacional. Seus integrantes não se confundem com a "base de simpatizantes" do partido, pois possuem uma organização completamente independente. Seu dinheiro vem de doações, contribuições, etc.

CIRO: Mas no Brasil, até agora, não há um partido como o Verde, que organiza a discussão nacionalmente...

THIMME: De fato, a situação não pode ser transferida para o caso brasileiro. Os partidos alemães obtêm seu fundo dos impostos. Os partidos convencionais sempre se "autoabastecem" da política, fazendo as leis segundo seus interesses. Quando se tratava de aumentar salários não havia conflitos e suas verbas sempre foram excessivamente altas. Na Alemanha Federal, cada partido representado no Parlamentar — se possuir mais de 5%do eleitorado — obtém 5 marcos (15,00 cruzados) por voto, o que é um bom dinheiro, se observamos que há 30 milhões de eleitores no pais. Ao Partido Verde chegam as contribuições de 3 a 4 milhões de votantes que, multiplicados por 5 marcos, equivalem a 15 a 20 milhões de marcos (60 mil cruzados). Isso em apenas uma eleição; se se considera que a todo momento há eleição (municipal, estadual, federal, etc.) pode-se perceber que a "grana" é grande.

CIRO: E como esse dinheiro é usado?

THIMME: Somos da filosofia de que nossos políticos devem permanecer ligados à base. Cada político não ganha, como nos outros partidos, 20.000 marcos por mês, mas apenas 2 a 3 mil. Essa distribuição é feita de acordo com o tamanho da família, adicionando-se aí o dinheiro para os filhos. Do que sobra — cerca de 70% do salário — criamos o Oeko-Fond (fundo para ecologia), administrado regionalmente pelo "Movimento".

CIRO: E como se distribui a verba?

THIMME: Nunca se faz, como na velha política, a divisão centralizada. Discute-se nos próprios locais avaliando-se os diferentes projetos carentes. Existe tanto a auto-administração como o autocontrole financeiro. O partido, de qualquer forma, supervisiona a nível superior, para evitar "desvios".

CIRO: Para nós, o exemplo dos Verdes, embora valioso, não ajuda tanto no organização da infra-estrutura econômica alternativa, porque não possuímos verbas próprias, muito menos automáticas...

THIMME: Correto. Em relação a isso temos mais duas formas de financiamento: as Netzwerke (redes) e o sistema de crédito. As Netzwerke foram fundadas em 1979 e vieram para fundir todos os grupos alternativos. Elas sobreviveram muito bem porque são financiadas por simpatizantes do "Movimento", que não têm interesse em trabalhar ou se engajar na prática mais diretamente política; são pessoas que ganham bons salários e contribuem periodicamente com dinheiro. A Netzwerke arrecada dinheiro de forma centralizada e organiza sua distribuição. Os doadores, por seu lado, têm bastante confiança na organização, que é bem semelhante à dos Verdes. Para a distribuição do dinheiro há um conselho supervisor, composto de pessoas experientes, conhecidas e respeitadas, em geral com mais de 40 anos de idade e há mais de 20 na "luta".

CIRO: Não há conflito na distribuição do dinheiro?

THIMME: Raramente. Certas iniciativas recebem, atualmente, menos apoio. Estas, às vezes, obtêm dinheiro que após um ano já está todo gasto sem nenhum retorno social.

CIRO: Como é então a política de financiamentos?

THIMME: Baseamo-nos na experiência anterior. Se se abrem barzinhos numa cidade em que há muitos deles, então o investimento não retorna. Mais importante, por exemplo, é a abertura de serviços de socorro a mulheres violentadas. Neste caso, o critério de avaliação é de importância política.

CIRO: E o sistema bancário, como funciona?

THIMME: Esse sistema trabalha de forma mais ou menos semelhante às dos demais. É uma instituição que opera apenas com crédito e investimentos. Achávamos que havia muita gente de oposição que deixava seu dinheiro rendendo em bancos que utilizavam esse capital e seus lucros em fins que nada tinham de social. Nós mesmos tínhamos que nos submeter à política dos banqueiros. Foi então que criamos nosso próprio sistema bancário, que investe o capital em projetos alternativos. Neste negócio, é bom lembrar, funciona uma organização completamente profissional, pois o dinheiro precisa ser devolvido e ficar devidamente assegurado. Por exemplo, a livraria berlinense Kommedia, da qual faço parte, com seus diversos projetos alternativos de teatro, jornal, banda de jazz, iniciativas contra TV por cabo, etc., obteve 30.000 marcos de financiamento de uma dessas organizações. Em todas as grandes cidades alemãs encontramos os três modelos.